quinta-feira, março 09, 2017

O Casal



Daniel Filho dirigiu sete filmes com mais de 1 milhão de espectadores. Não é para qualquer um. Seu primeiro trabalho como diretor foi o divertido “Pobre Príncipe Encantado” (1969), veículo para o cantor Wanderley “Bom Rapaz” Cardoso. Na mesma época, comandou os episódios “Eu, Ela e o Outro” em “O Impossível Acontece” (1969) e “Segunda Cama”, de “A Cama ao Alcance de Todos” (1969). Depois mergulhou de cabeça na TV Globo que, na primeira metade da década de 1970, consolidava-se como a maior emissora do país. 

Dirigiu na Globo, bem verdade, algumas coisas que poderiam ser classificadas como “filmes para TV”: o Caso Especial “Meu Primeiro Baile”, exibido em 31 de março de 1972, foi a primeira transmissão inteiramente em cores da TV brasileira. Baseado na peça autobiográfica de Vianinha, em 1974 dirigiu “Enquanto a Cegonha Não Vem”, que deu origem no ano seguinte ao longa-metragem “O Casal” (1975). Do “casal” televisivo, José Wilker foi mantido como protagonista. A mocinha grávida, que na TV foi Renata Sorrah, no filme passou para Sônia Braga. Estreando no Rio em 11 de Setembro de 1975, “O Casal” pegou La Braga na crista da onda, por conta da novela “Gabriela”, que estreara em abril daquele distante ano.

O leitor pode se perguntar (como já deve ter se perguntado tantas vezes lendo este blog) por que, em tempos de televisões SUHD e smartphones 4G, assistir a um filme tão antigo, a respeito de um assunto tão trivial? Ora, o bebê que o casal Alfredo e Maria Lúcia Giacometti aguarda durante 1h e 41 minutos do filme, hoje está com 41, 42 anos de idade. Poderia ser qualquer um de nós. Alfredo, jovem professor de História, e Maria Lúcia, estudante de Museologia e funcionária do INPS, bem poderiam ser nossos pais. É sobre a vida cotidiana de um típico casal dos anos 1970 que o filme trata. É sobre nós mesmos, em outra vida que não devemos esquecer.

Associado à R.F.F dos irmãos Farias e a Tarcísio Meira, Daniel Filho devolveu a história ao cinema, pois o texto e os diálogos de Vianna Filho haviam sido rascunhados para uma versão cinematográfica, recebendo na TV um novo tratamento de Bráulio Pedroso. Casado com Betty Faria, aos 37 anos Daniel havia sido pai de João, poucos meses antes de estrear o filme. Betty Faria tem papel em “O Casal”, fazendo uma grã-fina prafrentex, que mora em um apartamento na praia de Ipanema e devora metade do elenco masculino.

Mas quem importa mesmo são Alfredo (José Wilker) e Maria Lúcia Giacometti (Sônia Braga). Tudo começa no laboratório de análises clínicas, onde a mocinha faz um teste de gravidez. O resultado positivo é comemorado. Então sabemos que a história acompanhará a dupla, do exame ao parto. 

Os créditos, a trilha sonora, induzem o espectador a uma insondável tristeza. Ficamos mais tristes ainda quando notamos a esperança que aquelas pessoas colocavam nos futuros adultos do século XXI. Quando nascia um bebê, era praxe contar a idade e dizer que ele teria “X anos no ano 2000”. O casal Giacometti não chega a brincar de futurismo, mas eu não consigo parar de pensar neles setentões, com netos, e o ex-bebê quarentão, divorciado, morando em uma quitinete alugada em Botafogo e discutindo política no Facebook…

Maria Lúcia tem duas colegas de faculdade, as três mostram os seios e conversam sobre amamentação. A cena tem um quê de erótica. Reparem que uma delas é Patrícia Leal, a outra Susana Vieira. Um dos amigos de Alfredo é transferido para Brasília. Terror de todos os funcionários públicos cariocas, a transferência para a Novacap vinha acompanhada de um aumento de salário (a chamada “dobradinha”) que nem de longe compensava a rotina longe da Velhacap e suas delícias mundanas. Dentre os outros amigos, Quieto (o jovem Pedro Camargo) confessa que tem “pau pequeno”, enquanto Antonio Pedro, em seu eterno papel de “baixinho legal”, é o primeiro a traçar a madame cobiçada (Betty Faria), adepta de sexo grupal e discos do Pink Floyd.

Daniel Filho explicou o filme, na estreia, como sendo “uma história sobre a emoção de se colocar uma nova vida no mundo” e “Sobre o que se perde para poder ganhar”. Alfredo chega a pedir a mulher que aborte. Quando decidem prosseguir a gravidez, a impressão que permanece é que não estavam prontos: toda hora, Alfredo foge ou é expulso do quarto e sala onde mal respiram. “O Casal” não se furta a abusar de certos modismos do período, como imagens congeladas e uma trip de maconha (ou ácido?) vivida pelo futuro papai. Para a moral dos tempos atuais, Giacometti é um insano: grita com a esposa grávida, a deixa fazer sozinha uma mudança de móveis e quebra copos, enquanto a mulher recolhe os cacos.

“Traga dois lenços. Um para o riso, outro para as lágrimas de emoção”, com esse slogan o filme foi promovido nos cartazes. Temos aqui um problema: tirando Maria Lúcia, nenhum dos personagens causa verdadeira empatia. Em uma cena ou outra (o desespero ao saber que a mulher estava passando mal), Alfredo se esforça. Porém logo reaparecem os amigos chatos, os ataques histéricos e achamos que a separação, ali, chegaria antes de 1976. 

O suprassumo da babaquice é a troca da valente Sônia Braga pela riponga Betty Faria. “Ser mãe é padecer no paraíso”, já ensinavam as tias no colégio. O estoicismo de Maria Lúcia, pegando ônibus, carregando mesas, atendendo pensionistas no INPS, ainda por cima aturando as inseguranças do marido, fazem da contemporânea Hemínia de “Minha Mãe É Uma Peça” uma nobre de “Downtown Abbey”. 

Até Nelson Cavaquinho dá uns pitacos e canta “Nome Sagrado” que fala sobre a cobra não morder a mulher, pois respeita “seu estado interessante”. Nelson continuaria a brilhar nos bares cariocas de filmes: lembrem dele em “Muito Prazer” (1979), de David Neves. Aliás, o bar de “O Casal” é outro aspecto mal resolvido: todos parecem agir em um tom forçado, desconexo da realidade. Guardam, bem verdade, aquele sentimento autorreferencial que fascina e antipatiza os cariocas de Zona Sul diante dos outros brasileiros. Porém excedem nas piadas, nas comemorações, nos porres. Soam automáticos, sem profundidade, gerando um contínuo distanciamento do espectador. 

Vianinha morreu em julho de 74, um ano e dois meses antes da estreia. Chamava o argumento de “minha historinha”. Não chegou a saber que a “historinha” chegou aos cinemas. Apoiado por boa divulgação, “O Casal” fez mais de 1 milhão e 300 mil pagantes. Daniel Filho só voltaria à tela grande em 1983, com “O Cangaceiro Trapalhão”. No século XXI emendaria um sucesso atrás do outro e “O Casal” é página quase esquecida em sua brilhante carreira. João Carlos Rodrigues escreveu, em pleno 75, que era “um filme classe média, sobre a classe média e para a classe média”. Em 2017 redescobri-lo é redescobrir essa classe média, de quarenta anos atrás.

3 comentários:

mmartinsc disse...

Como sempre uma análise fina. Tive a experiência de ver o filme duas vezes. A primeira, por volta de 1980, quando todo aquele esporrismo infantil soava como uma rebeldia qualquer; e o machismo ainda era muito aderido nas nossas alminhas. Há pouco o revi, e permaneceu uma irritação afetiva, se me permitem essa incoerência... Bacana mesmo é ver como era um mestrado na época (será que era aquela doidice decoreba mesmo?). Gosto muito do Vianninha; talvez o roteiro na mão dele se refinaria um pouco. Parabéns pela análise e pelo blog; nossos aplausos sempre serão poucos. Abraços. Maurício do Carmo.

Carlos Dias disse...

Andrea, parabéns pelo trabalho. Seu blog é referência de cinema brasileiro. Abraço, Carlos Dias - Rio de Janeiro-RJ

ADEMAR AMANCIO disse...

Não sabia que o filme tivesse feito sucesso de bilheteria (o filme é quase esquecido),talvez seja porque o mesmo casal no ano seguinte, estrelasse a maior bilheteria de quase todos os tempos.