sábado, março 25, 2006

Em Família


Assisti a “Em Família" (1970) pela primeira vez na Cinemateca Brasileira, em junho de 2003. Nunca mais o esqueci. Baseado no clássico sobre a velhice “A Cruz dos Anos” de Leo McCarey, a produção rica e cuidadosa – que marcou a estréia do então cinqüentão ator e dono da Ventania Filmes, Paulo Porto, na direção – talvez seja um dos filmes brasileiros mais bem feitos para comover o espectador. O que, sob o peso dos anos e do desaparecimento de quase todos os nomes que dele participaram, tende a lograr cada vez mais êxito.

Dona Lu (Iracema Alencar) e Seu Souza (Rodolfo Arena), são dois velhinhos que se encontram em uma encruzilhada na vida: prestes a serem despejados da casa onde moram no distrito de Pati dos Alferes, estado do Rio, convocam os filhos e pedem ajuda. Uma das filhas mora em Brasília e não vem. Os outros quatro são Jorge (Paulo Porto), Neli (Odete Lara), Corinha (Anecy Rocha) e Roberto (Antero de Oliveira).

Armado o circo familiar, quando a câmera enquadra o grupo, lembramos que em 2006 só Odete Lara ainda vive. Em 1970, cheios de vida, discutem o que fazer, tecem conjunturas. Resolvem que os pais se dividirão: o pai vai para a casa de Corinha, em São Paulo. Já a mãe segue com o “bem de vida” Jorge, para o Rio.

Assim, depois de décadas, o casal se separa. Nas casas de classe-média os velhos sobram, são estorvos. A mulher de Jorge é Anita (Fernanda Montenegro), que trata a sogra com carinho, mas esbarra nos problemas cotidianos e a relação se desgasta. Por outro lado, em São Paulo, Seu Souza bate de frente com a filha Corinha, mas encontra um pouco de conforto na amizade de Afonsinho (Procópio Ferreira), um bombeiro aposentado, presidente da associação de moradores local.

O diálogo dos míticos Rodolfo Arena e Procópio Ferreira – nos papéis de párias sociais, perdidos em um lugar pobre e esquecido da capital paulista – praticamente rouba a cena no filme. Afonsinho convida Souza para participar da Avebac (Associação dos Bombeiros Amigos do Canindé) e Souza, com lógica implacável, alega: “Não posso entrar. Não sou bombeiro, muito menos amigo do Canindé”. Viram cúmplices – e enquanto a convivência azeda entre pai e filha, é com Afonsinho que Souza vai chorar suas mágoas.

No Rio, Dona Lu tenta se distrair, passear em Copacabana, mas bate a saudade do marido, o apartamento é apertado demais e a neta Suzana (a também falecida Elisa Fernandes) é uma criadora de caso, com seu ódio quase doce pela avó, que lhe ocupou metade do quarto.

Se Jorge é um filho exemplar que tenta subir na vida e Corinha uma histérica que gostaria de ver o pai bem longe do Canindé, restam o problemático Roberto e a mal-amada Neli, que, casada com um homem rico, não aceita receber os pais de jeito nenhum no palacete onde mora.

O filme gira em torno desse drama: o que fazer com os velhos? A solução, no final, é separá-los definitivamente e enquanto o pai vai para Brasília ficar com a quinta filha, a mãe consegue uma vaga no Lar São Luís Para a Velhice. E o espectador chora lágrimas de esguicho, com o misto de desamparo e dignidade do casal apaixonado que se dissolve no ocaso de suas vidas.

Respeitada a questão do melodrama, o filme tem a justa dimensão do que era a classe-média brasileira no início dos anos 70. Alguns diálogos são grego para alguém hoje em dia: “Você tem até título do Motel Clube”, diz um irmão para outro, acusando-o de estar bem de vida. Explicação: o Motel Clube era uma febre entre os emergentes cariocas dos anos 70 e 80, que pagavam prestações do tal título e, no final do ano, resgatavam em bônus uma viagem com a família, de preferência para alguma estância hidromineral de Minas Gerais.

A vida de Corinha em São Paulo também é emblemática: morando na beira do Tietê, levando uma vida mesquinha, todos reclamam do cheiro do rio e da umidade que a incômoda localização provoca. Os finais de semana são passados dentro de casa, lendo o Estadão em tédio absoluto. Quando em uma tentativa desesperada Seu Souza resolve procurar emprego como técnico em eletrônica, descobre que sua habilidade para consertar rádios não serve de mais nada – as oficinas estão repletas de televisores, que ele tenta consertar sempre com conseqüências engraçadas e desastrosas.

Com elenco magistral, créditos luxuosos (roteiro de Ferreira Goulart e Vianinha, trilha-sonora de Egberto Gismonti), produção e direção de Paulo Porto, “Em Família” não poderia ser um filme comum. Mesmo que pareça simples e esquemático, nem o mais insensível dos espectadores consegue tirar os olhos um segundo da tela. Lá está uma constelação de talentos no esforço – por si só comovente – de se fazer bom cinema brasileiro.

13 comentários:

Cassiano Scherner disse...

Andréa!!!
Uma grande crítica para um grande filme!!! Eu o assisti pela primeira vez no Canal Brasil em 2002 e concordo com vc... Não é um filme comum embora pareça simples e esquemático.... Lembrei de um outro filme que vem depois deste "Em Família", que é "Tati, A Garota", estréia de Bruno Barreto na direção.

Eduardo Aguilar disse...

Andréa, fiquei com água na bôca, acredite, eu não conheço o filme, será q. existe em vhs??

Sobre a tal amiga q. iria ao Rio, acabou não rolando, mas desencana, a coisa foi muito de 'última hora' e aí fica difícil.

Beijos, Edú

sergio andrade disse...

O filme do McCarey é belíssimo! A versão nacional consegue ser tão boa quanto o original.
Também vi no Canal Brasil em 2002. Sinto informar ao Edú que não foi lançado em vídeo.
Bjs!

Andréa Ormond disse...

Cassiano, um realmente lembra o outro, tanto que fiz as duas resenhas juntas e publiquei a de "Tati" agora em seguida :)

Edú, como o Sergio adiantou, não saiu em Vhs, apesar de muita gente contar que fez relativo sucesso na época. Em relação as suas amigas, na próxima dá pra gente ver com mais calma, no que vc precisar, fala comigo :) Beijos.

Sergio, vi aí em Sp na Cinemateca e uns dois anos atrás gravei do Canal Brasil, mas é raro reprisarem. Beijos!

Matheus Trunk disse...

Com certeza, o melhor filme do Paulo Porto. Depois eles fez umas bobagens. Também chorei com esse filme. Rodolfo Arena é outro gênio/ator importante que merece um resgate. O Stephan Nercessian fez um curta sobre ele, o homenageando nos anos 70. Chegou a ganhar prêmio em Gramado, eu daria tudo pra ver cê conhece Andréia ???
Outra coisa: o filme é bem esquemático, mas como funciona bem um esquema bem feito neh ?
Sem falar que Anecy Rocha é lindíssima.
Aí já é covardia !Abraços,
Matheus.
PS: E o Moza ??? Pelo que soube de amigos, o Alfredinho com certeza sabe o paradeiro dele. Me avise algo consiga, estou torcendo por você !

Andréa Ormond disse...

Matheus, o filme é bem esquemático, dá pra prever certas coisas, mas emociona demais, nossa.... Eu conheço o curta do Stephan sim, mas nunca vi, aliás, como ver? Difícil à beça, se vc souber quando programarem, me dá um toque? :) E sobre o Moza vou enviar um email contando melhor as informações :) Um abraço!

Anônimo disse...

Lendo sua crítica, lembro-me de ter visto 'Em família' no seu lançamento, em 1970 ou 71, lançado, aqui em Salvador, numa 'avant-première' com a presença de Paulo Porto, que conhecia como ator de 'Um ramo para Luísa', de J. B. Tanko, bom filme brasileiro esquecido no tempo. 'A cruz dos anos' ('Make way for tomorrow', 1936), vi-o há alguns anos, quando existia o Telecine Classic. Uma obra-prima de Leo McCarey. Gostei muito de 'Em família', mas a crítica não lhe foi tão favorável, pois a época era 'marginal', 'underground', desconstrutivista.

Anônimo disse...

Assisti no canal Brasil, é um filmaço! Emocionante rever artistas já falecidos, o Procopio, parece que foi umas ultimas aparições dele, a Anecy que morreu prematuramente, o Arena, que dá um show de como atuar, a Iracema, grande atriz dramatica,o Paulo Porto que etava no auge, bonitão, foi antes de Toda a Nudez, a lindissima Odete Lara, que nessa epoca vivia com o Vianinha, que escreveu o roteiroEnfim, é um filme reliquia! Malu

Adraino dentista disse...

Detalhe Fernanda Montenegro ainda vive...é talvez o melhor filme nacional que já vi.O italiano Parente é Serpente foi muito contaminado por Vianinha

Andrea Ormond disse...

Adraino, viva está, mas não aparece na cena citada, do circo familiar enquadrado pela câmera.

Anônimo disse...

Estive hoje na casa onde foi filmado situada em Paty do Alferes e atualmente pertencente á um amigo.

Virgílio Moreira disse...

Meu conterrâneo, o grande ator Paulo Porto, mineiro de Muriaé, em uma rara experiência como diretor, realizou aquele que talvez seja o melhor filme brasileiro sobre a terceira idade. Belo e comovente drama, que aborda de forma realista e honesta a delicada relação entre os filhos e seus pais idosos, que, infelizmente, não raras vezes, são colocados em segundo plano por aqueles por quem tanto se sacrificaram, e não apenas em razão do desprezo e da indiferença, mas também devido ao turbilhão de cobranças e compromissos "inadiáveis" da vida moderna, que nos fazem muitas vezes atribuir importância secundária às relações humanas mais básicas e essenciais, justamente aquelas pelas quais mais deveríamos zelar, pois são a razão mesmo de nossa desgastante labuta diária.

Ótimas atuações de todo o elenco, com destaque para Iracema de Alencar, numa performance digna de um prêmio internacional, Rodolfo Arena e uma deliciosa participação especial de Procópio Ferreira, em sua última aparição no cinema. A cena da rodoviária é uma das mais marcantes da história do cinema brasileiro. Destaque também para a bela trilha sonora de Egberto Gismonti.

Virgílio Moreira disse...

Meu conterrâneo, o grande ator Paulo Porto, mineiro de Muriaé, em uma rara experiência como diretor, realizou aquele que talvez seja o melhor filme brasileiro sobre a terceira idade. Belo e comovente drama, que aborda de forma realista e honesta a delicada relação entre os filhos e seus pais idosos, que, infelizmente, não raras vezes, são colocados em segundo plano por aqueles por quem tanto se sacrificaram, e não apenas em razão do desprezo e da indiferença, mas também devido ao turbilhão de cobranças e compromissos "inadiáveis" da vida moderna, que nos fazem muitas vezes atribuir importância secundária às relações humanas mais básicas e essenciais, justamente aquelas pelas quais mais deveríamos zelar, pois são a razão mesmo de nossa desgastante labuta diária.

Ótimas atuações de todo o elenco, com destaque para Iracema de Alencar, numa performance digna de um prêmio internacional, Rodolfo Arena e uma deliciosa participação especial de Procópio Ferreira, em sua última aparição no cinema. A cena da rodoviária é uma das mais marcantes da história do cinema brasileiro. Destaque também para a bela trilha sonora de Egberto Gismonti.