domingo, janeiro 20, 2019

Biografia Entrevista - Maria Gladys

Gladys e Dina Sfat em 1971, soltinhas, dirigidas por Antonio Calmon


Onze horas da manhã de um bucólico domingo. Bairro Peixoto, Copacabana, Rio de Janeiro, Brasil, ao sul do Equador. A tranquilidade dos carrinhos de bebês que passam na porta do hotel não revela o vulcão que se enconde por ali. Direto de Santa Rita de Jacutinga, Maria Gladys está quase pronta para o nosso encontro. “Demorei um pouco porque estrela de Hollywood não chega na hora”, diz com o deboche de quem sabe ser brasileiríssima e o exato oposto da frase. É a primeira de uma sucessão de risos, no espírito franco que explodirá em breve.

Instalada entre plantas, flores e providenciais recargas de cerveja, Maria Gladys abre-se de um modo raro, coisa de quem não se reconhece no geist careta, mas sim na tribo imemorial de que sempre fez parte. A poucos metros de onde estamos existiu o apartamento de Domingos de Oliveira, em que batiam ponto Leila Diniz e a própria Gladys – estrelas, dentre outros, de “Todos As Mulheres do Mundo”. Do Bairro Peixoto rodamos pelo suburbano Cachambi, por Ipanema, comunidades hippies, Londres, Ouro Preto, Elvis Presley, Cinema Novo, Belair, Helena Ignez, Carlos Imperial, Paulo César Saraceni, Neville de Almeida, Júlio Bressane, Rogério Sganzerla, empregadas domésticas, presente, passado, futuro.

Sem rigor cronológico, no fluxo de consciência de uma odalisca que insiste em não envelhecer – porque nunca conseguirá –, Maria Gladys fala sobre a vida e a trajetória profissional. Elas se misturam de tal forma que, no final das contas, confirma-se a impressão de que a atriz serviu de cavalo para algo maior. Gladys é a filha rebelde, a garota que nasceu contra todas as circunstâncias da natureza e assim vai aprumando o seu vôo no tempo. 

ANDREA ORMOND: Gladys, em primeiro lugar, é um prazer conversar com você. Falamos aqui, uma com a outra, mas também com a posteridade e com todos que estão na CineOP de 2018. Então, que fique registrado o quanto é especial para mim conversar com você.

MARIA GLADYS: Ah, querida… Querida, obrigada.

AO: Além disso, sinto muito, mas não quero te dar uma vida fácil nesta entrevista. Você vai ter que suar um pouquinho [risos]…

MG: [risos] Você sabe que é bom falar, começar a falar da gente? Ainda mais agora, porque vivo lá sozinha. Quando venho no Rio, cara, falo muito.

AO: Sua casa é em…?

MG: Em Minas Gerais, Santa Rita de Jacutinga, divisa de Rio de Janeiro com Minas. E estou indo este ano para Ouro Preto. Ouro Preto é uma coisa espetacular, não é?

AO: Sim, sim, e o tema da Mostra deste ano é Vanguarda Tropical.

MG: Exato. Tropicalista. 

AO: Então você vai me permitir uma experiência aqui, de montagem. Ao invés de começarmos falando sobre a sua origem, vou para o final e depois retorno para o início. Final: hoje, o que estamos vivendo. O que você acha da arte de hoje, em comparação com a época em que você estourou, em que você surgiu, nos anos sessenta?

MG: Bom, quando comecei a estudar para ser atriz, eram muito poucas as pessoas que queriam ser atrizes. Já é uma diferença. Também não era uma profissão que as pessoas vissem como boa: ser atriz, trabalhar em teatro… “Será que isso dá algum futuro na vida?” Quando comecei, queria ser atriz de teatro. O Oficina é, para mim, um marco na minha geração, na minha vida de artista, de atriz. Pegava um ônibus aqui no Rio e ia a São Paulo, para ver o espetáculo do Zé Celso. “Andorra”, por exemplo, que nunca vou esquecer. “O Rei da Vela”, quando estreou no [Teatro] João Caetano, no Rio. Aquela loucura, aquele texto do Oswald, aquelas mil pessoas no palco. Tudo isso mudou muito minha cabeça. Hoje em dia é diferente. Fazem teatro sozinhos, são muitas piadas, todo mundo quer rir, quer rir. O último espetáculo que fiz, com a direção da Camila Amado, foi [Eugène] Ionesco. Divertidíssimo, um gênio. No elenco, Nelson Xavier, meu primeiro galã nos cinemas, em “Os Fuzis”, que já foi para o andar de cima… Thelma Reston, minha amiga muito querida, que partiu. Um espetáculo belíssimo. Ao lado, encenavam uma comédia. Era para rir. Lotava. E o nosso era mais para pensar. Não lotava. Eu sou de um teatro que mudava tudo. Era Brecht. Brecht!… 

AO: Você trabalhou em vários campos: dança, teatro, televisão, cinema. Como na Mostra focamos  especificamente no cinema, faremos esse recorte. O que você ama no cinema, Gladys?

MG: No cinema, tudo isso que está completando cinquenta anos: de 1968, o ano que não acabou. Uma porção de coisas. A Tropicália, cinquenta anos… Eu me apaixonei imediatamente pela Nouvelle Vague. “Acossado”, do Godard. “Pierrot Le Fou”. Um cineasta que mudou a minha vida. Lembro que lia as entrevistas de Godard e, em uma delas, ele disse: “esse negócio de ficar guardando livro é uma bobagem”. Eu cheia de livros, estudante de teatro. Para fazer teatro, tem que ler, é a primeira coisa que aprendi. Tem que ler. Se não ler, não vai dar pé. O Godard dizia que “quando gosto de um livro, pego a folha que gostei de ler, rasgo e jogo o livro fora”. Então comecei a dispensar uma porção de livros. Mas começou também o Cinema Novo. Eu vi os filmes do Paulo César Saraceni, com quem trabalhei depois. Aí a minha vida no cinema é fabulosa. 

AO: Então este é o seu amor pelo cinema. 

MG: É.

AO: Existe alguma coisa no cinema que você odeie? 

MG: Eu gosto de filme cabeça. Não gosto de filme “tá, tá, tá”, de explosões. Eu sou cinema cabeça, cinema de invenção, como diz Júlio Bressane, “Maria Gladys é atriz do cinema de invenção”. O cinema de Rogério Sganzerla, os filmes que fiz com o Neville [de Almeida]. Filmei com o Domingos Oliveira, com o Saraceni, com o Ruy Guerra. O filme com a direção do meu querido Daniel Filho, com a querida Glória Pires e Tony Ramos, “Se Eu Fosse Você”. Não posso esquecer esse, porque é muito bom. O Daniel é um grande diretor também. E ele tem uma particularidade: só faz um take. Dá medo. “Eu não vou repetir. Se errar, ficou”. Meu Deus do céu… [risos] 

AO: [risos] Deixa eu aproveitar o gancho. Assim como você, uma outra colega sua ficou com um pé no Cinema Novo e no cinema da Belair…

MG: … Helena Ignez. 

AO: Helena Ignez. Recentemente, ela deu uma declaração que acho fantástica: “a misoginia perdeu o charme”. Participar do cinema, e não só na tela, mas no fundo, nas estruturas, em um clima meio contrário à presença feminina. Hoje em dia, a inserção da mulher é cada vez maior. Queria que você falasse um pouco sobre isso. Como era ser mulher em um clube do Bolinha.

MG: Difícil, difícil. Muito difícil.

AO: Em que sentido?

MG: Era um negócio fechado. E eu, uma garota querendo tudo, querendo de qualquer maneira trabalhar, fazer cinema com eles. O destino vai levando você, de uma maneira incrível. A minha vida foi me levando assim, uma delícia, porque acabei caindo nos braços do Neville, do Júlio Bressane, do Rogério Sganzerla e com eles fiz a minha arte do cinema. De uma maneira espetacular. Isso me levou a Londres, me levou a tudo. Tenho um livro do Tárik de Souza, crítico de música, sobre Tom Jobim, algo assim. Ele escreveu: “Maria Gladys, ícone do Cinema Novo”. É engraçado, eu adoro ser do Cinema Novo, mas não posso dizer que sou…

AO: … digamos que você encontrou a sua “tchurma” no cinema experimental.

MG: Encontrei a minha “tchurma”. Foi ali que gostaram de mim. 

AO: Experimental entre aspas, porque há sempre algum experimento no cinema.

MG: Exato.

AO: Por que você acha que essa turma deu uma luz, tocou você?

MG: Ou eu toquei eles.

AO: Sim, como foi essa troca?

MG: Acho que é porque eu tinha a ver com o que eles estavam querendo falar…

AO: … que era…

MG: Que era um cinema de rebeldia. Você tinha pena de estar terminando. “Olha, amanhã é o último dia de filmagem”. “Ah…” Eu me lembro até hoje… “Que pena, já vai acabar essa delícia”. Com os outros, lembro que era um negócio de espera, outro tipo de cinema. Espera a luz, espera isso… Lá ninguém esperava nada, faziam com a luz que tivesse. Você levava o seu próprio vestido. “Faz uma odalisca”, foi o que o Júlio Bressane falou para mim. “Meu Deus, mas como é que eu vou aparecer de odalisca?” O que eu fiz? Peguei uma porção de fitas. Gosto muito de fita, porque minha mãe sempre me botou laço de fita, sou filha única. Peguei também um negócio branco, do tamanho da minha cintura, e costurei aquelas fitas. Não sei o que eu botei para tapar os seios, e apareço dançando de odalisca. Na frente do quê? De uma tenda de nada mais, nada menos do que o nosso querido, que está lá em cima, Hélio Oiticica. Esse é o meu cinema, não é? Isso é tudo que eu quis na vida. Eu fui levada a ele, por eu ser quem sou.

AO: E é nesse ponto que a gente vai voltar para o início. 

MG: O início de tudo.

AO: Gladys, você falou uma palavra que me parece resumir você: rebeldia. Quando você comentou sobre o cinema do Bressane, do Neville, seus olhos brilharam. Essa rebeldia, eu quero crer, me passa toda a impressão que não nasceu no momento em que vocês se encontraram.

MG: Acho que não.

AO: Acho que está lá atrás, na sua origem.

MG: Deve estar.

AO: Como é que foi a sua origem, como é que foi a sua infância, de onde surgiu Maria Gladys?

MG: Agora emocionei. Emocionei… [Pausa.] Eu sou uma menina suburbana, nascida no Cachambi, um lugar pacato. Meu Deus, ali as pessoas são tão pobres. Filha única, de um pai extraordinariamente bom, à frente do tempo dele, comunista. A família da minha mãe, as irmãs, todos não gostavam do meu pai porque era comunista. Ele tinha retrato de Luís Carlos Prestes. Sou essa menina, criada por aquele homem e pela minha mãe, uma mulher triste. Minha mãe enxergava pouco, tinha problema de visão. Isso marcou muito a vida dela, e a minha também. Sou a terceira filha dessa mulher, que teve dois filhos antes, que morriam logo após nascerem porque ela tinha estreitamento de bacia. Jamais vou esquecer. Os filhos demoravam a nascer e, quando nasciam, estavam com pouca respiração e morriam. Fui a terceira. Ela tentou, mas diziam “Raquel, você vai ter outro filho?” A vida toda me contou isso. Que vivia sentada com cinta, para eu não crescer muito e poder passar. Já tive crise de pânico, agora melhorei, mas tive fortes crises. Será que é porque eu vivi sentada, apertada, ali dentro da minha mãe? Sou essa filha que nasceu dessa mulher desesperançada. E, quando fiz três anos, tive paralisia infantil. Fiquei um ano sem andar.

AO: Essa relação complicada, da sua mãe com a maternidade, piorou mais ainda quando três anos depois você passou por isso…

MG: Ela me botou em pé, também sempre contou a vida inteira, que me botou em pé no dia seguinte do meu aniversário e eu caía. Levava para eu tomar massagem. Fiquei boa, mas nunca totalmente boa. A minha perna esquerda tem uma deficiência, por causa da paralisia. Eu queria ser bailarina. “Mas você tem paralisia, sua perna não é boa…” Usei botinha, fui aquelas garotas de botinha, e gostava muito de dançar, eu gosto de dançar. Ia para os bailes aos quatorze anos com meu tio, irmão da minha mãe. No subúrbio tinha muitos bailes, nos clubes.

AO: Que tipo de música?

MG: Ah, era bolero, era bolero, muito bolero. Tinha swing também. Foi daí que começou o swing, com orquestra de Severino Araújo [cantarola]… Samba, tango, eu dançava tudo. Não podia entrar, tinha quatorze anos. Uma criança, você imagina… Os amigos do meu tio davam cobertura. Eu fui uma menina solta, voltava de madrugada, sozinha, no subúrbio. “Ih, essa menina… Aquilo ali é garota solta, que fica namorando, é galinha…” Eu era mal afamada. Aqueles machõezinhos… Aí o que aconteceu? O médico disse “ela precisa ir à praia, bater perna no mar”. Meu pai me trazia na praia de Copacabana. Comecei a olhar. “Não quero ficar lá, não. Pai, quero morar aqui”. E consegui isso com dezesseis para dezessete anos. Meu pai alugou um apartamento em Copacabana, saí de uma boa casa, a gente tinha mudado para o Grajaú, mas eu queria praia, só queria saber de praia. Saí de um bom apartamento no Grajaú para morar em um conjugado em Copacabana. Foi chato, eu acho que para minha mãe, principalmente. Mas para mim uma delícia, porque passava o dia inteiro na praia.

AO: E o seu primeiro trabalho profissional?

MG: Dançarina de rock. Apareceu o Elvis Presley e eu pirei. Já vinha do swing…

AO: Como é que o Carlos Imperial conheceu você?

MG: Sabe que eu não sei? Cara, é tanta loucura…

AO: Foi para o iê-iê-iê…

MG: Cara, tanta loucura, exatamente… Como é que eu conheci o Carlos Imperial? Não sei, porque a gente vinha dançar em Copacabana. Os suburbanos, os suburbanos. A gente vinha dançar aqui e o pessoal de Copacabana dançava mal à beça. Quando a gente chegava, os suburbanos, ah, tomávamos conta do lugar! Não tinha mais para eles, os branquelos, você entendeu? Chegava aquela turma da pesada, do rock suburbano, puta que pariu, cara. Vira para cá e tal, tal. Uma loucura. Acho que foi assim que chegamos ao Imperial, um copacabanense. “Preciso de uns casais que dancem rock para a abertura do show do Bill Haley no Maracanãnzinho”. Fui uma dessas pessoas. No ensaio conheci o Roberto Carlos, meu namorado. Antes eu não contava que tinha sido namorada do Roberto Carlos, porque o pessoal ia dizer “ah, ela quer aparecer”. Não vou falar nada, porque Roberto Carlos também não fala nada de mim. Mas começaram a descobrir. Já amei muito mais Roberto Carlos do que ele a mim. Teve a turma do Roberto, a mesma do Tim Maia, do Erasmo, do Edson Trindade. O Edson compôs a música “e eu, gostava tanto de você, gostava…” Todo mundo acha que é do Tim Maia.

AO: Essa foi uma das turmas que você teve ao longo da sua vida. Tempos depois, você morou no Solar da Fossa, lugar bem importante, em termos históricos. Gente especial passou por lá: os baianos, Betty Faria, Darlene Glória… 

MG: Tem o livro do Toninho Vaz, “Solar da Fossa”. Na capa, uma porção de pessoas, sou uma delas. Fomos os primeiros, mas o primeiro, para mim, para o meu pessoal, porque era um lugar muito grande, foi o Otávio Bezerra, cineasta. O Cleber Santos, que fazia teatro comigo, conheceu ele.

AO: Em que ano, Gladys?

MG: 60 e poucos. Antes da ditadura, perto da época em que eu fazia “Os Fuzis”, na Bahia. O golpe foi em 64. Esse pedaço é tão obscuro, porque teve o golpe de 64 e o Ato 5 em 68. São dois momentos diferentes e muito sérios, e tudo ficou mais sério com o Ato 5. De 64 eu tenho uma história com a Helena Ignez, no dia do golpe, quando o Jango Goulart caiu. A gente foi para a Cinelândia, eu frequentava o CPC. Na minha vida,  vou procurando sempre o oposto. Que bom, não é? Eu não era convidada, mas gostava de ficar perto. Frequentava o CPC, conhecia eles todos. Ferreira Goulart, Vianinha, Antônio Carlos Fontoura, Rogério Duarte. Estamos falando de Tropicalismo: Rogério Duarte, querido Rogério. Joel Barcelos, Carlos Vereza… No CPC eu comecei a ver política, fazer política, distribuía panfleto. Trabalhava, claro, de graça. “Precisamos de uma moça que vá na Embaixada dos Estados Unidos, levar esse convite para dizer que a gente vai matar… o embaixador”. No dia 31 de março para primeiro de abril, estava uma loucura. Um sobe e desce  naquelas escadas, muita gente, todos os artistas. Eu lembro que o Chico Anísio estava lá, era um momento… Grande Otelo… Era um momento feroz no Brasil. Nessa ida para lá e para cá, a polícia passou e “pá, pá, pá”, atirou no prédio. Feriu um amigo nosso, Haroldo de Oliveira. O negócio estava sério, eu completamente sem saber da gravidade. No dia seguinte, fui com a Helena Ignez para a Cinelândia, quando chegamos, aquele pedaço todo do [Bar] Amarelinho estava tomado por pessoas. Uma corda isolando e o pessoal gritando “Jango! Jango! Jango!” Os soldados com a arma virada para o pessoal, todos gritando “Jango! Jango!” E eu: “meu Deus, Helena, minha Nossa Senhora, aquilo está um perigo”. A Helena, bem mais corajosa: “Ih, não tem nada demais, são uns soldadinhos…” “Que soldadinho, Helena?” Daqui a pouco, Andrea, eu escuto “Pau! Pau! Pau!” “Helena! Você tá escutando? Isso é tiro!” “Que tiro o quê? Você está louca? Você acha que esses soldadinhos estão atirando?” Chegou o Flávio Migliaccio, também do CPC, vindo do Teatro de Arena, de São Paulo. O Flávio falou para a gente: “Olha, vocês saem daqui, porque o tiroteio começou e o Jango caiu. Corram!” Lembro até hoje da minha corrida. Eu corria num pavor, mal por causa da perna. Mas voando. Eu estava voando. Passou um carro, um fusca. Quem estava dirigindo? Ruy Guerra. Parece mentira. Nara Leão do lado, e eu penso que o Sérgio Sanz atrás. Tenho quase certeza que era o Sérgio Sanz. “Entra, entra!” Entramos. Ai, meu Deus, desespero. Imagina o desespero. A UNE estava pegando fogo, quase todas as janelas no [bairro] do Flamengo estavam com um lençol branco. Porra, cara, inesquecível. Alguém disse: “Vianinha está lá dentro do CPC, e está pegando fogo”. Meu Deus… 

AO: Como ele escapou ileso? Como conseguiu escapar?

MG: Não sei, escapou. Meu herói. E daí nós fomos parar em Ipanema, na casa do Glauber, que morava na [rua] Visconde de Pirajá. Casa de Dona Lúcia. Estavam Glauber, Nelson Pereira, Tarso de Castro… Fui para lá acompanhando Helena. Ela que falou “vamos para a casa de Glauber”. Uma paranoia no lugar… Uma loucura.

AO: Bom, essa é uma das visões mais interessantes que eu já ouvi sobre o dia…

MG: Do golpe.

AO: De 1964. E eu queria ouvir também de você, se possível, sobre outro diretor importante na história do nosso cinema: o Luiz de Barros, em “Por um Céu de Liberdade”.

MG: Eu era bem garota, tinha uns 17 anos. Um amigo, Edson Silva, ator, falou “olha, se você quiser ganhar um dinheiro, pode ir na filmagem do Lulu de Barros”. Era um subúrbio longe. “A gente pega o trem na Central e vai até lá. Você faz uma figuração lá no meio do povo, quando o cara gritar ‘povo’!” Não tive contato com o Lulu, fiquei com os figurantes, milhões de pessoas. Achei insuportável ir até lá, no trem com o Edson Silva. Ai, que coisa horrível. Ficar lá o dia inteiro, o sol…

AO: E como foi então a sua estreia no cinema, o seu primeiro filme?

MG: Meu primeiro filme foi com o Miguel Borges, “Canalha em Crise”. Preto e branco. Pediram para eu mostrar uma fotografia de biquíni, porque a moça tinha que aparecer de seio de fora. Ninguém queria aparecer de seio de fora, mas eu “sim, por que não?” Adorei. Paravam a filmagem, eu nem botava a blusa, ficava ali com o seio de fora, andando no meio da equipe. O diretor, Miguel Borges, muito moralista, dizia “põe a toalha em cima, não vai ficar andando com os seios de fora aqui, no meio da equipe”. O fotógrafo era um alemão casado com a Anecy, irmã de Glauber, Hans [Bantel]. Eu ganhava uma mixaria, mas ganhava. 

AO: O que você lembra das filmagens de “Os Fuzis”? Se a gente estivesse agora no set, o que você lembraria?

MG: Só coisas boas. Muito tempo em Milagres, esperando o dia de filmar, porque o Ruy não queria tal luz e, se a gente não tivesse aquela luz, não filmava. Muito tempo sem fazer nada. Éramos eu, a maquiadora, Maria Adélia, uma baiana, com mais de não sei quantos homens loucos por mulheres, naquela Milagres. Foi foda. A cena da igreja eu adorei fazer. Venho andando, pobrezinha, com um vestidinho, sem maquiagem nenhuma, pelo contrário. O Ruy falava: “Enche o rosto dela, para ficar como se estivesse suada”. Eu sofria com isso, meu Deus do céu! Queria parecer bonita. E estava linda, mas não adianta. Se o jovem soubesse que ser jovem é uma delícia, é uma beleza…

AO: E aí você vai trabalhar, um pouco depois, com Domingos de Oliveira, que é justamente uma fotografia da juventude…

MG: “Todas as Mulheres do Mundo”. Faço uma coisinha lá. Amiga da Leila [Diniz]. Aqui, no Bairro Peixoto. Domingos morava na [rua] Anita Garibaldi, em uma cobertura. Poxa, aquilo foi uma época espetacular da minha vida. Todos muito jovens, com muita vontade, todos bebendo… Era só querer namorar… Depois, outro filme lindo, “Edu, Coração de Ouro”, que eu adoro. Tenho uma cena linda com meu querido Paulo José, ele se desculpando com a noiva, fotografia do Dib [Lutfi]. Eu falava “Dib, quero ficar parecida com a Anna Karina. Quero aqueles olhos…” Eu só queria a mulher de Godard, não queria menos que isso. Eu, a maior moreninha, querendo parecer com uma dinamarquesa, bicho. “Eu quero ficar igual a ela, eu estou bonita?” Eu estava linda, é claro, mas não era igual. Ah, juventude… O Domingos foi um divisor de águas na minha vida de suburbana chegando em Copacabana, porque, de repente, não sei como, fui cair no apartamento dele. Na [rua] Barata Ribeiro. Ele fez um filme sobre esse apartamento, da avó dele. Todo mundo na cozinha, a casa cheia, comendo… Ah, não tinha maconha. Todo mundo careta, não tinha maconha, drogas. Mas Domingos já bebia. Eu era menina, não bebia. Sabe quando você se diverte sem precisar de nada? 

AO: E a sua convivência com a Leila, nesse período?

MG: Eu e Leila… Muito intenso. Conheci a Leila professorinha. Ela apareceu na festa do Domingos, ficou namorando o Domingos. Eu ia lá, fiquei mais perto dela. Saíamos para dançar, para beber… Negócio de dançar. Domingos gostava muito de dançar.

AO: Esse clima foi aproveitado no “É Simonal”, do qual você também participa, em 1970.

MG: Exatamente, você está puxando cinema! No “Simonal” eu fiz um papel com o Vianinha. Era um filme regado a uísque, porque o produtor, Cesar Thedim, marido da Tônia, bebia muito e o Domingos também. Um filme comercial, que eu estranhava, apesar de já ter conhecido o Simonal. Ele cantava na época em que a gente dançava rock. 

AO: Voltando alguns meses, surge o Bressane para você, com “O Anjo Nasceu”. Uma das suas primeiras empregadas, não é, Gladys? Você teve várias outras, inclusive na TV…

MG: Várias.

AO: Aliás, tenho que trazer para esta entrevista a Lucimar, da novela “Vale Tudo”. Para a minha geração, é um clássico eterno. Gilberto Braga, Aguinaldo Silva. Um imaginário gay, que permeia a novela e não é muito falado, mas está lá. E aqueles arroubos da Lucimar, inclusive no final, quando vai para Mar Del Plata, poderosérrima…

MG: Ah, maravilhosa… Olha, você sabe que todo o meu papel foi escrito pelo Aguinaldo Silva? Quem disse isto para mim foi o Gilberto Braga. Eu adoro o Aguinaldo. E outra coisa: tem o preconceito de fazer a empregada, não é? A minha filha, Maria Thereza, estudava em um bom colégio na Gávea, mas uns garotos chatos implicavam muito com ela. “A sua mãe trabalha em novela, mas só faz empregada”. As pessoas falavam meio sem graça comigo, na rua. “É, apesar de ser empregada, seu papel é muito bom”. Coisa horrível. Eu adorava. Inclusive, vou voltar a fazer uma empregada, com jovens produtores e atores, que gostam do meu trabalho e me convidaram. O piloto da série foi aprovado, vamos gravar em junho, na mesma época da CineOP. Faço uma empregada e estou adorando, porque é a volta da empregada. Elas são sempre rebeldes… 

AO: O Bressane tem essa quebra de estereótipos… “Faz aí uma odalisca”, e você tem que se virar. Com ele, “O Anjo Nasceu”, “Cuidado Madame”, “Família do Barulho”, “Gigante da América”, “Agonia”…

MG: “O Anjo Nasceu”, primeiro filme com o Bressane. Aquilo foi feito em um dia. Eu, Norma Bengell, o [Hugo] Carvana e Milton Gonçalves. Pensa que elenco. Era uma casa do Zanine, construção do Zanine. Tudo o oposto de produções que eu fazia. Não tinha “a Kombi vai passar para pegar”, não. Passava um fusca, entrava todo mundo, vamos para lá pra cima. Na filmagem: “Você vai dançar”. Imagina que presente, eu dançar em um filme? Dançar justo ali? Puxa… Aí começou esse presente, eu adorei, adorei, adorei. Eu atuava dançando. Dançando com o Milton, e Norma com o Carvana. Filmar com o Milton e o Carvana já era um presente dos deuses. O Júlio falou “agora é o seguinte, essa morte sua, eu quero que você morra igual a uma galinha”. Para mim, estudante de teatro, que fiz milhões de improvisações! Como é que uma galinha morre? Pô, eu também via a minha mãe matar galinha. Negócio aflitivo. Sou do tempo que minha mãe matava a galinha. “Não fala, que ela não morre. Se você falar, prejudica a morte dela”. É verdade. 

AO: Você chegou a participar também do “Copacabana Me Engana”, do Antonio Carlos Fontoura. É uma cena bastante problemática, digamos…

MG: É, adorei. Adorei porque era a juventude transviada. Na minha geração, dançarino de rock era juventude transviada. Andavam com aqueles blusões, igual ao do Elvis Presley. Roberto Carlos tinha um blusão, vermelho. A gente dançava rock com aquilo. Todo mundo usava aquele blusão. James Dean… Quem não era diferente estava por fora, eram muito feias. A gente era o melhor, entendeu? No “Copacabana Me Engana” foi a cena da juventude transviada, que vai te estuprar… Adorei, levei a sério aquilo. A mocinha, os transviados todos lindos. Vão estuprar. Ai, meu Deus do céu! 

AO: Qual a diferença entre o Bressane e o Sganzerla, com quem você trabalhou no “Sem Essa, Aranha” e que, inclusive, vai ser exibido na Mostra deste ano?

MG: O “Sem Essa, Aranha” virou o meu clássico, não é? Um “Vale Tudo” do cinema da Belair. Todo mundo gosta. “Maria Gladys, até hoje me arrepio vendo você no ‘Sem Essa, Aranha’, aquela cena em que você desce o morro gritando ‘tô com fome’”… Então, o Rogério era mais feroz, sabe? O Rogério era mais doido, mais glauberiano, apesar de eu nunca ter filmado com o Glauber. Todo mundo acha que trabalhei com o Glauber, mas eu dublei a Sônia dos Humildes, no “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. De certa maneira participei de um filme do Glauber Rocha. Glauber morreu cedo, mas se não tivesse morrido, tenho certeza que teríamos trabalhado juntos. Igual eu ia trabalhar com o Joaquim Pedro no “Casa Grande e Senzala”. Tenho o roteiro, que nunca joguei fora, até hoje. Faria uma índia, em Porto Seguro. Poxa, já tinha começado a experimentar a roupa, quando o Joaquim ficou doente. Porque nessa época o Joaquim estava mais próximo. O Cinema Novo estava chegando mais próximo. Não estava tão…

AO: Próximo em que sentido?

MG: Mais articulado com todo mundo. Porque tinha uma pose. Eu acho que tudo era assim, a Bossa Nova também não era? Fui várias vezes na casa da Nara, que namorava o Ruy Guerra. A gente no bar em Ipanema, o Jangadeiros, e diziam “vambora, vamos pra casa da Nara”. Eu ia junto, ficava a noite toda, o pessoal tocando… Tudo ingênuo. Uma ingenuidade só, garota, vou te contar…

AO: Em outro ramo do Cinema Novo, temos o David Neves e o “Lúcia McCartney, Uma Garota de Programa”, que é um filme lindo. Ele era tipo o embaixador do movimento…

MG: Olha, não se faz mais um homem assim, não se tem mais um David Neves. Uma pessoa linda. Uma pessoa linda. O “Lúcia McCartney” eu fui filmar sem saber por quê. Estava na praia: “Gladys, tem um negócio para você fazer, ‘Lúcia McCartney’. É uma amiga, não sei que lá…” “Quando?” “Amanhã” “Amanhã? Ganha o quê?” “Aparece três horas da tarde, lá na Urca. A gente filma nessa rua, você vai ver quando o carro chegar. Pega o carro, táxi, ônibus, chega lá às três horas”. Eu era queimada dos pés à cabeça, não saía da praia de Ipanema. Só queria praia. Hoje em dia, quando vejo uma pessoa muito queimada de sol, acho horrível. O “Lúcia McCartney” foi naquele momento. Vi uma vez, nem gosto de ver mais, porque estou muito queimada, aquilo não existe. Apareço com um vestido da época, lindo, negócio meio tomara que caia, aquela marca de maiô e a cara… Não podia nem passar maquiagem, porque não adiantava, estava muito queimada. Um inferno. Me acabei naquela praia ali, queimando sem protetor, sem porra nenhuma. “Será que vai dar praia amanhã?” Era uma pergunta, puta que pariu. E tudo acontecia na praia, os convites para fazer um filme, depois ia todo mundo beber no Jangadeiros.

AO: Foi assim que você chegou ao “Capitão Bandeira contra o Doutor Moura Brasil”, do Antonio Calmon? 

MG: Aí eu já tinha virado hippie. Morava em uma comunidade com o Luiz Carlos Maciel, jornalista, que faleceu.

AO: Como foi essa transição, no início dos anos 70? Essa outra linha da contracultura…

MG: Não sei, virei hippie, comecei a fumar maconha. Na verdade, tomei LSD em Londres e aqui tomei um que não adiantou nada, não bateu. Aqui comecei a fumar maconha, e a maconha mudou a minha vida. Assim como Domingos de Oliveira, Júlio Bressane e Neville de Almeida mudaram a minha vida, a maconha mudou a minha vida. Comecei a achar tudo careta. Não queria mais ter aquele cabelo liso, que eu alisava. Parei de raspar debaixo do braço, não raspava mais perna, não raspava mais pentelho… Como dizia a Leila, “pentelhos ao léu”. Leila ia de biquíni branco na praia. Quando saía da água, a gente dizia “Leila, porra, está esquisito pra caralho esse teu biquíni. Ficam todos os pentelhos aparecendo”. Ela: “Ah, o que que tem? Pentelhos ao léu”. Todo mundo adorou isso. Então eu já estava ali, pentelhos ao léu. 

AO: [risos] E a sua ida a Londres?

MG: Aí pirei o cabeção totalmente. Saí daqui do Bairro Peixoto passando uma barra muito pesada, sem dinheiro, sem trabalho… Jimi Hendrix, quando cheguei, tinha acabado de morrer. A gente ficava na porta do hospital, para ver a porta do hospital em que o Jimi Hendrix morreu. Notting Hill Gate, para onde fui, para a casa do Júlio. Depois alugamos um apartamento, virou uma comunidade mineira. Os mineiros moravam ali, na Lancaster Road, um prédio fabuloso. As mulheres que eram donas do primeiro, do segundo e do terceiro andar, duas inglesas, passavam lá para cobrar toda semana. No primeiro andar, eu; segundo andar, Geraldo Veloso; terceiro andar, o Renê Lopes, fotógrafo, com Rolando Monteiro. Eram só de mineiros. Você acredita? Que loucura. Fui para Londres, sem um tostão aqui, precisando que as pessoas comprassem comida, porque o que meu pai ganhava muito pouco. Vivi muito mal, muita dificuldade. Porque eu já tinha um filho, sou mãe adolescente. Telefonei para minha prima, perguntei se meu filho podia ficar com ela, que foi criada junto comigo. É tipo meia-irmã, sobrinha da minha mãe. Ela disse que sim, deixei meu filho lá, meu pai foi para casa da irmã dele, de volta ao Cachambi. Vendemos os móveis da casa, meu pai deu o cano nesse mês de aluguel. Fez ele muito bem, não deu problema nenhum. Se fosse agora iria todo mundo atrás, e a proprietária nem ligou. Saímos, fui pra Londres. Tinham levado os filmes da Belair para serem revelados lá. Eu só fui ver esses filmes quando cheguei.

AO: E o “Capitão Bandeira”?

MG: Fiz antes. Eu morava na comunidade com o Maciel, no Humaitá. Esse filme era o auge do hippismo. Todo mundo era hippie, menos Dina Sfat, um amor de pessoa, minha amiga, mas eu estava completamente hippie. Fumava maconha o dia inteiro no “Capitão Bandeira”. Foi a fome com a vontade de comer. Você sabe que eu me lembro pouco desse filme até…

AO: Acho que, pelas circunstâncias que você está narrando, as lembranças ficam meio confusas… [risos] 

MG: Mas tem lembranças que eu não esqueço, mas que não vou contar… [risos]

AO: [risos] O Neville surge em 71, com “Piranhas do Asfalto”. Começa mais um amor na sua vida.

MG: Ah, isso foi o máximo, foi um sonho. Isso foi um sonho. Isso era sonhar. Dura, Neville duro. Não tínhamos nada, mas filmávamos o “Piranhas no Asfalto”. É… No “Piranhas” eu estava completamente apaixonada pelo Neville. Achava o Neville o máximo, adorava estar ao lado dele. Neville rebelde… Entrei  naquela onda, cara, daquela turma, rodeada de mineiros, os mineiros todos muito loucos, porque a juventude mineira dessa época era enlouquecida. Botavam ácido na sopa dos pais…  Foi uma loucura, muita maconha. Grandes amigas eu fiz, quase não vejo mais elas. Alguns foram embora, moram em Nova Iorque, mas eu mantenho minhas amizades mineiras. Fizeram filhos, os filhos são todos meus amigos. Uma infinidade de filhos dessas pessoas, que vi crescerem junto com os meus filhos, então são meus filhos. Eu os amo, eu tenho essa parceria.

AO: Com o Paulo César Saraceni você fez “Anchieta, José do Brasil”…

MG: Nossa… O Saraceni é uma pessoa que também apareceu na minha vida como um anjo. Todo mundo é apaixonado por ele. O Saraceni era um santo, garota. O Saraceni… Não tem nada igual ao Saraceni.

AO: Por que você diz isso? 

MG: O amor dele pelo cinema, pelo trabalho de fazer cinema, pela luta para fazer o cinema em que ele acreditava. Pouco dinheiro. Saraceni foi um homem que nunca teve dinheiro. Não tinha, nunca teve. E isso pouco importava. O “Anchieta” foi em Porto Seguro, só gente fantástica. Saraceni levou todo mundo para fazer o filme, todos os amigos dele. Ele arranjou emprego para todo mundo, para gente que nunca fez o que estava fazendo. Ele arranjou porque era amigo. Saraceni trabalhava só com os amigos. Dinheiro? Que dinheiro? Alguém está pensando em dinheiro? Ganhávamos pouco. Que beleza fazer o “Anchieta”, que beleza fazer uma índia. Teve uma cena em Porto Seguro, eu com a Vera Barreto Leite, minha amiga. Eu era uma tamoio; a Vera, dona de terra. Uma mulher feroz comigo. Aí eu falei: “Saraceni, o negócio é o seguinte. Tem um formigueiro aqui, cara. Como é que eu vou fazer a cena com esse formigueiro?” “Faz assim como você está”. Pulando no formigueiro. Olha que maravilha. Cinema de invenção não é isso? Fiz a cena falando e pulando, porque a formiga estava subindo. Quando acabou a cena, o Saraceni estava chorando. Veio me abraçar. “Maria, você me comoveu”, e me fez chorar, cara. Nunca vou esquecer isso. Também fui apaixonada por Saraceni. Quem não se apaixonou por Saraceni? Uma vez ele me largou, eu menina, em um bar que a gente ia, no Posto 6. Bar de artistas de teatro. Eu sem dinheiro para voltar para casa e aparece o Rogério Duarte, o Rogério Caos. Louco. “O Saraceni me deixou aqui, disse que ia voltar, agora eu estou aqui sozinha…” “Eu sei onde ele está, vamos até lá”. Olha que loucura. O Rogério me levou e, quando chegou, o Saraceni estava sentado, bebendo cerveja. Pegou a garrafa de cerveja, derramou todinha na cabeça do Saraceni. Você acha que Saraceni fez alguma coisa? Essa para mim é uma cena inesquecível do meu amor com o Saraceni. 

AO: Gladys, passando para os anos 80: Ivan Cardoso e “Os Bons Tempos Voltaram: Vamos Gozar Outra Vez”. Uma proposta bem diferente.

MG: O Ivan Cardoso é um gênio.

AO: Apesar de o Ivan ter uma trajetória na contracultura, no “Os Bons Tempos Voltaram” ele faz um cinema bem típico dos anos 80, que é de retomar o passado. Os anos 50, 60…

MG: O Ivan faz parte da minha vida porque filmou isso tudo que eu já falei, do cinema da Belair. Estava sempre ao lado do Rogério, era deslumbrado por ele. Tirava fotos fabulosas. Rogério adorava, Júlio gostava, respeitava. E era muito menino, garoto prodígio. Não sei quantos anos ele devia ter, mas era bem garoto. Amigo do Hélio Oiticica. Era um garoto muito adiantado, um QI muito alto.

AO: Chegou a trabalhar com o Torquato Neto…

MG: É um cara que faz a diferença até hoje. Eu já sabia mais ou menos como era o esquema, porque seguia mais ou menos a linha onde foi feita a cabeça dele. O cinema que ele acompanhava. Então filmar com o Ivan não teve muito problema, apesar de esse filme, “Vamos Gozar Outra Vez” ter produção do [Aníbal] Massaini. Não era um filme da Belair, tinha produção do Massaini, pagava pouco. Chato isso. Dali eu conheci a Andréa Beltrão, essa grande atriz que é a Andréa Beltrão. Tenho uma cena com ela. 

AO: Ainda nos anos 80 você volta ao Júlio Bressane. “Brás Cubas”, em 85. Você já falou, um pouco, de uma estrutura de produção diferente, Gladys. Você a encontrou nesse filme?

MG: Sim, era diferente. Alguma produção, mas pouca, sempre pouca. Não no modo do Júlio filmar, mesma coisa. Eu ali na cama, em uma pequena participação, deitada. Ele fala: “Você vai morrer e vai ficar fazendo ‘ah, ah, ah’, como se fosse até gozando. Você morre assim ‘ah, ah, ah…’” Tem a ver com a galinha, não é? Maravilha, aí fiz. Quando passou no festival do Hotel Nacional, o que aconteceu? Essa cena foi aplaudida. Todo mundo. [Bate palmas.] O meu companheiro, meu amor, meu amado Oscar [Maron], que já não está mais aqui, pai da minha filha Maria Thereza, estava do meu lado e disse: “Puxa, atriz aplaudida em cena. Só uma cena. E, mesmo assim, aplaudida”. Deu o maior orgulho, foi muito bom. Com Júlio Bressane. Só lembranças boas.

AO: Para você ver o quanto de nomes e de momentos que nós vamos resgatando aqui, na nossa conversa. Eis que surge mais um, o Hugo Carvana, no “Bar Esperança”, que é tão identificado com a alma carioca.

MG: Um dia ele deu uma entrevista e perguntaram o nome de uma mulher carioca. Ele falou “Maria Gladys”. Adorei. Adorei, porque é muito difícil, “me dê o nome de uma mulher carioca: Betty Faria”. Minha chapa, a Betty Faria é criada aqui em Copacabana. Mas adorei Carvana falar, porque sou a carioca que eu trago dentro de mim. O ranço, a ideia do carioca suburbano, carioca da gema…

AO: …Que é muito tocante, nesse sentido do filme. Do Rio de Janeiro, do bar, da cultura do bar. Tudo acontece no bar…

MG: Tudo acontece no bar. Hoje em dia não tenho mais turma. Não sei, não ando com os jovens. Eu moro no mato, moro no vale. Mas acho melhor até eu parar de falar. Prefiro não comentar, como diria a Arlete Sales, querida, prefiro não comentar. Mas eu sinto isso, não tenho mais turma. 

AO: Após aquela ressaca do fim da Embrafilme, em meados dos anos 90, você faz “O Monge e a Filha do Carrasco”. Em Ouro Preto e com Walter Lima Junior, um nome do Cinema Novo.

MG: Waltinho, essa alma boa, esse homem bom. Adoro o Waltinho, conheci com o Glauber. Ele foi casado com a Anecy e eu participei um pouco desse casamento. Ia ter uma comida na casa da Dona Lúcia, não era para falar nada pra ninguém, e eu sempre falando muito. Falei para o Waltinho ir lá, ele apareceu e voltou a namorar a Anecy. Acabaram se casando e viveram até o final, até a morte dela, querida Anecy. Conheci Waltinho sempre, no Cinema Novo. Mais jovem que os outros. Quando filmei com ele, foi um presente. Agradeço, adorei. E em Ouro Preto, que eu adoro. Era em um lugar que vai subindo, vai subindo. Como tenho um pouco de crise de pânico, no meio do caminho, eu já estava [ofegante]: “Ai, meu Deus, quando é que vai parar esse carro, cara?” Poxa, fiquei nervosa. Fiquei no sufoco.

AO: E ele como diretor, Gladys?

MG: Ah, ótimo. Primeiro filme do nosso querido ator, grande ator, Murilo Benício. Tinham duas bruxas, eu e a Shulamith [Yaari], que veio do teatro. A gente tinha que falar inglês. Eu sou tipo João Gilberto, não falo inglês, acho horrível. Vivi três anos em Londres, cheguei a frequentar escola, tal, tal, tal, mas na hora de conversar com os caras, “fulano, fala aí pra mim o que que é”. Eu namorava inglês sem falar inglês, entendeu? Tenho uma filha que é de um cara que fala inglês, mas eu não. Aí fui treinar a cena. Falei para o Joffre Rodrigues, filho do Nelson Rodrigues e meu amigo falecido, que era o produtor. “Jofre, não falo inglês. Nada”. “Mas vamos fazer um teste aqui com meu filho, para ver se dá pé”. Cara, deu pé não. Treinei a tarde toda. Encontrei com o Sasha, filho do Jofre, que tentou de tudo quanto é jeito, cara. “Olha, não interessa, de qualquer maneira você vai fazer o filme. Chegando lá, a gente vê”. A Shulamith era casada com um estrangeiro, falava bem inglês e pegou o papel maior. Aí a Sulamite fala, eu “uau, uau…” O Waltinho: “Ih, não sei se vai dar, não”. Mas o Murilo: “Eu acho perfeito, acho que tem que ser assim. A Gladys vai falar tudo errado, querendo falar igual à Sulamite”. Então ficou aquela cena em que eu falo “uau, uau…” A equipe toda estava brigada com o Joffre, eu ficava chateada, porque era meu amigo, eu gostava dele.  Conforme o tempo foi passando, e eu vendo meus defeitos, coisas que posso melhorar como pessoa humana, fui vendo que a gratidão é uma coisa muito presente dentro de mim, no meu coração. Sou muito grata. Não podia deixar o Joffre abandonado, que foi meu amigo a vida toda. Mas não vou dizer que o Waltinho não devia ter suas razões, porque o Waltinho é um cara do bem. E o Joffre era um rodrigueano, era filho do homem. O Jofre era exacerbado, já tinha feito operações no coração. Então tenho essa gratidão pelas pessoas, até hoje sou grata às pessoas que me deram o prazer de me dar trabalho. Primeiro porque me dão o dinheiro. Sou uma atriz que vivo da minha profissão, nunca guardei dinheiro. Não ganhei nunca bastante dinheiro para guardar. Não gosto de economizar em cima de quem não tem nada. Já nasci sem dinheiro, sendo filha de pobre, ainda vou economizar? Não, eu não economizo. Sempre que pude, eu quis o melhor. A vida é uma vez só, não tive o direito de nascer com dinheiro. 

AO: Gladys, você trabalha com nomes novos, novas safras. Bruno Safadi, Felipe Bragança, Cláudio Assis…

MG: Olha, você tem razão, sabe? Bruno Safadi, por exemplo. Eu ganhei o Bruno por causa de Júlio e por causa de Rogério. O Bruno já é de outra geração. Ele foi atrás de mim, atrás de Helena, apaixonado pela Belair. Tanto que ele fez o documentário “Belair”. Felipe Bragança também é um jovem super talentoso, adorei estar com a equipe dele, foi tudo muito bom, mas o que acontece? Quando o filme do Bragança passou, eu estava com algum problema. Não sei se não estava bem de saúde, tinha acontecido alguma coisa que não lembro, então não pude ver o filme. Não tenho estado mais com o Felipe, nunca mais o vi, porque agora moro naquele vale de princesa. Ele andou estudando fora, é um desses garotos gênios da geração de Bruno Safadi. E Cláudio Assis já é diferente, porque os outros dois são cariocas. O Felipe é suburbano como eu. Filmei em Queimados com ele. E o Safadi é Zona Sul. Cláudio Assis é um gênio total de Pernambuco, casado com a Júlia, minha menina, que também faz parte desses filhos todos que eu tenho. Filha da Simone Cavalcanti e de Pedrinho de Moraes, fotógrafo maravilhoso, filho do meu poeta Vinícius de Moraes. Júlia eu vi crescer. Aí os pernambucanos chegaram no Rio. Na época, falei: “Isso aqui está parecendo quando chegaram os baianos”. Caetano chegou, trouxe muita gente para cá. Conheci o Lírio [Ferreira], fiquei amiga do Cláudio, me apaixonei pelos filmes do Cláudio e pedi a eles. “Quero trabalhar com vocês”. Sou louca pelo trabalho do Cláudio Assis, filmei em Olinda, lugar maravilhoso, com a fotografia do Walter Carvalho. Aquela cena, eu nua fazendo sexo, a essa altura! Quando acabou a cena, falei para o Irandhir [Santos]. “Olha, eu bobeei, sabia? Devia ter aproveitado mais de você. Devia ter beijado mais na boca… Não fiz nada, não aproveitei nada. Quem é que vai me dar essa chance de novo?” Até hoje não tive outra chance. E ele ficava rindo sem graça. Mas a coisa é o seguinte: a câmera do Walter estava em cima, eram três horas da manhã. Entrei naquele negócio às três horas da manhã e chovia. Três horas da manhã, frio, chovendo, Olinda… Aí valeu. Eu gosto disso. Por isso estou aqui contando, nesta maravilha. 

AO: E o seu filme mais recente?

MG: Com o Eryk Rocha, o filho do homem. Filmei com Eryk Rocha! Outro presente nesse final de ano que acabou. Uma cena, um dia. Foi um orgasmo múltiplo. Roteiro espetacular, com dois atores, um deles baiano. O Eryk pediu para eu cantar uma música, só para som. “Meu Deus, que que eu vou cantar, Eryk?” “Canta aí uma coisa que você lembre”. Aí me lembrei de João Gilberto, lembrei de uma música que minha mãe adorava e que o João Gilberto gravou. “Louco, pela rua ele andava, o coitado chorava, transformou-se até num vagabundo. Louco, para ele a liberdade não valia nada, para ele a mulher amada era seu mundo…” Cantei [faz um falsete]. “Agora você vai ficar olhando para a câmera e não vai falar nada. Gravando. Vai, Gladys. Corta!” 

AO: Por quanto tempo?

MG: Tempo. Tempo pra caralho. E na hora do “corta”, a gente fica “ai, meu Deus, dá o corta, pelo amor de Deus!” Não cortou. Quando acabei essa cena, a outra atriz estava aos prantos. Me abracei com ela, ela chorava tanto, Andrea… Já pensou um dia de filmagem assim? Foi uma coisa, foi uma loucura essa filmagem. Acabou a cena, um dia só, infelizmente. Um dia só.

AO: Gladys, a gente poderia ficar ainda mais horas e horas e horas… Quero encerrar aqui a nossa entrevista, agradecendo a você por esse tempo todo dispensado, por tudo que você fez e pelo que você, tenho certeza absoluta, ainda vai fazer. Para finalizar, gostaria que você falasse um pouco sobre a experiência de ser homenageada pela CineOP deste ano.

MG: Bom, primeiro, Andrea, obrigada. Eu tinha vindo ao Rio no início do outro mês, para a projeção do documentário sobre o Carvana, meu amigo, e Marta Alencar mandou uma passagem. Vim para o filme do Carvana e um rapaz falou: “Gladys, uma moça de Ouro Preto, produtora, quer de qualquer maneira seu contato. Ela quer seu contato, não sei o que ela quer, talvez seja um trabalho…” Meu Deus do céu, que beleza, que surpresa. E ainda em Ouro Preto, que é a cidade de Minas que eu conheço. Conheço pouco, Minas é muito grande, moro em uma cidade mineira, mas Ouro Preto é tudo, não é? Tenho até meu restaurante predileto lá, que eu frequento. Em Ouro Preto fiz aquela mulher, a Sinhá Olímpia, aquela que se fantasiava toda, em um curta-metragem sobre a estada do Living Theatre [“Liberdade Ainda Que À Tardinha…”]. Quando acabou a filmagem, também tudo rápido, dois dias, três dias, me disseram: “Gladys, você vai embora amanhã”. “Não, não quero ir embora. Deixa eu ficar mais um dia?” “Não, não dá, cara. Não tenho dinheiro para pagar mais uma hospedagem…” Eu falei: “Mas então uma coisa eu vou fazer. Vou comer no restaurante que conheço aqui e adoro, que o Joffre Soares me apresentou. Motorista, me espere uma hora aí, que eu vou lá no Ouvidor”. Pedi galinha com quiabo, bastante pimenta. “Traz um chope, uma cachaça!”

AO: Uma oportunidade para você entender o império gastronômico!

MG: Tenho certeza. Primeira coisa que eu vou fazer. Vivo rodeada de mineiros. Passei a minha vida ligada aos mineiros. Fora toda a cultura que eu gosto de Minas, dos poetas, dos escritores, de Otto Lara [Resende]… De todos eles, entendeu? Sempre adorei, cercada de mineiros, e sou homenageada nessa cidade, que eu adoro. É um lugar muito inspirado, tem muita energia. É um presente de 2018 estar sendo homenageada, nunca tive isso, primeira vez. Pelo contrário, já perdi prêmio em festival de cinema, que eu devia ter ganho. Mas era um prêmio gaúcho. Mineiro não vai me deixar com tristeza, com saudades de nada. Estão me dando de volta, porque eu também adoro todos vocês. E espero retribuir, que vocês gostem dos meus filmes que vão passar, da minha chegada. Que fique tudo bem, porque eu só tenho a agradecer. Obrigada. Valeu, Ouro Preto, até aí! Cachaça! [risos] Ai, meu Deus! Quantas homenagens. Andrea, eu não estou aguentando mais Maria Gladys.


*Publicado originalmente no catálogo da 13ª Mostra de Cinema de Ouro Preto - CineOP

2 comentários:

JB disse...

Parabéns, Andrea! Que entrevista!!!

fabio fernandes disse...

que bom ter vc de volta por aqui, andrea, e logo com um entrevistão destes com a super maria, parabéns!!!