segunda-feira, maio 07, 2018

Biografia Entrevista - Eva Christian



Doce na superfície. Por dentro, um mundo caudaloso. Eva Christian guarda essas características em 2018, quase 50 anos após a estreia no cinema, em “Anjos e Demônios”, de Carlos Hugo Christensen. 

Escolhida pelo diretor, Eva dividia-se entre o Conservatório Nacional de Teatro e as aulas na PUC quando interpretou Virgínia. Uma vampiresca criatura, que leva à ruína quem passa pela frente: o tio, os amigos, o advogado da família. Christensen fez uma ode perversa da juventude dourada. Apesar de novos, os personagens de “Anjos e Demônios” estavam longe de ser ingênuos.

Com passagens pela televisão e por outros filmes queridos – entre eles, “Quando As Mulheres Paqueram” (1971), de Victor di Mello –, Eva decidiu viajar em um cruzeiro. Era 1974. Foi ao porto, entrou no navio. Demorou para voltar.

Assistiu à Revolução dos Cravos, emendou com França, Inglaterra e, lá pelas tantas, Áustria, onde nasceu. Casou-se, fixou nova residência, manteve os olhos no Brasil. “Minha língua emocional é até hoje a língua portuguesa”.

Quando menina, pegava onda na praia de Copacabana. Após a adolescência, entrou para o movimento estudantil, foi convidada a se retirar da universidade. Escolheu a dramaturgia. Mais tarde, a pintura. Eva Christian conversa de modo cálido, traz as lembranças para um contato direto com o presente. Assim descreve, de coração aberto, a própria trajetória. Convido os leitores do Estranho Encontro a lerem o seu belo depoimento.


ESTRANHO ENCONTRO – Eva, tenho grande curiosidade pela sua trajetória como atriz, ainda mais pelo fato de você ter trabalhado com o Carlos Hugo Christensen.

EVA CHRISTIAN – Obrigada, Andrea. Tentarei responder às perguntas o mais corretamente possível, com a maior sinceridade possível. Cinquenta anos se passaram e acredito que o tempo e a distância apagaram certas mágoas. Muitas boas lembranças sobreviveram. O período em que trabalhei como atriz foi curto mas intenso, de 1967 a 1973. Adorava meu trabalho e não rejeito nenhum deles. Foram poucos e, portanto, muito significativos para mim. Hoje resido na Áustria, em Viena, e acabo de chegar de uma pequena viagem comemorando o início da primavera, até que enfim! Tenho que organizar as datas, pois delas não me lembro mesmo. É uma vantagem da idade [risos]

EE – Verdade [risos]… Aliás, “Eva Christian” é seu nome artístico? 

EC – “Eva Christian” foi um nome inventado por meu pai e pelo Christensen, quando ainda eram amigos. Aceitei. Uma boa sacada, não? Hoje acredito que foi uma tentativa do meu pai de despertar em Christensen algum sentimento de simpatia por mim. Na época não gostei muito da idéia, mas aceitei sem discutir, para não ofender. Naquele momento não dei grande importância. Quando percebi que esse passo seria definitivo para minha vida profissional, já era tarde para recuar. Passei a ser Eva Christian e me acostumei. 

EE – Vamos às suas origens: onde e quando você nasceu? É hora de conversarmos sobre a infância…

EC – Nasci em Viena, em dezembro de 1948, filha de pai húngaro e mãe austríaca. Imigraram para o Brasil em 1952, época da Guerra Fria. Fui criada no Rio de Janeiro, Copacabana, Rua 5 de Julho. Primário e ginasial no Instituto Copacabana, praia em frente à [Rua] Constante Ramos, onde aprendi a pegar jacaré. Ali havia um vendedor de mate que me deixava tomar o mate a crédito: meu pai pagava depois. Praticava natação no Clube Guanabara, jogava frescobol. Meu pai, aliás, foi grande jogador. Eu assistia aos filmes no Cinema Rian, quando eram permitidos para menores. Era feliz… Infância bem despreocupada, curtindo muito o mar. Nas férias, a Ilha de Paquetá. Com minha primeira bicicleta descobri também a liberdade.

EE – Como?

EC – Simplesmente a liberdade de andar de bicicleta, indo para onde queria, fora do perímetro de controle de minha mãe. Não havia carros em Paquetá, acho que continua assim… Eram férias: só voltava para casa na hora do almoço e jantar, com a família. O paraíso! 

EE – E a adolescência, Eva?

EC – A adolescência já foi mais complicada, como para todas nós. Não era mais boa aluna. Muito tímida, os dias sonhando acordada, ouvindo rádio. Enfim, deixava minha mãe sem saber o que fazer comigo e eu não sabia o que fazer com ela. Um dia meu pai me levou ao teatro Opinião, para ver a peça “Se Correr O Bicho Pega, Se Ficar O Bicho Come”. Eu me apaixonei: sabia então onde queria chegar. Após o término dos estudos no Colégio Mallet Soares, prestei vestibular para o Conservatório Nacional de Teatro, que ficava no prédio da UNE. Para grande surpresa da família, que não contava com isso, e grande alegria para mim, fui admitida. Achava que as portas do mundo estavam abertas. 

EE – Uma experiência fora da bolha a que você estava acostumada…

EC – Sem dúvida… Mas a bolha me acompanhava, tive que sair dela. Aprendi muito no Conservatório. Não apenas sobre a parte técnica de interpretação, improvisação, expressão corporal, dicção. Havia também cursos de história da arte, esgrima, danças históricas etc. Estudava à noite e passava os dias na praia. Esse ritmo de vida não era satisfatório para meu pai que, de certa forma, me “empurrou”. Exigiu que eu realizasse um curso universitário, preferivelmente o de economia. Teria sido um pesadelo, pois eu odiava matemática. Claro que não me inscrevi no vestibular para economia, preferi história e geografia na PUC. Eram os tempos do movimento estudantil, no qual eu também estava envolvida. Troquei os turnos: na parte da manhã estudava história e geografia na PUC e, à noite, o curso de teatro. Lia muito, “respirava” teatro, cinema, música, artes plásticas, política estudantil, namorados. Período muito frutífero, em todos os sentidos. Já não era mais adolescente. Em 1969, terceiro e último ano do Conservatório, participei da montagem da peça “A Cantora Careca”, de Eugène Ionesco. Christensen assistiu e gostou. Yan Michalski escreveu uma crítica simpática e o Christensen, que conhecia meu pai da praia, me convidou para o papel principal do seu próximo filme: “Anjos e Demônios”. 

EE – Convite para sair do teatro e estrear no cinema… 

EC – Aceitei, vaidosa e orgulhosa, achando que era boa atriz. Até o começo da filmagem a vida continuou normal. Todos os dias indo à faculdade e ao Conservatório. No início dos preparativos, era muito tranquilo. Christensen e meu pai ficaram amigos, ele passou a frequentar nossa casa em Petrópolis, apesar de mal falar comigo. As coisas mudaram quando começamos a rodar o filme. A primeira cena envolveu o meu personagem, Virgínia, seduzindo Henrique, personagem do Geraldo del Rey. Estava extremamente tensa, não sabia como me mover diante de uma câmera, porque eu vinha do teatro. Não conhecia o Geraldo, me senti intimidada. Christensen demonstrou claramente o desgosto, estava “puto da vida” comigo. Para piorar, o make-up era horrivelmente exagerado. Enfim, uma situação angustiante. Acredito que o Christensen, com os seus botões, já estava calculando o preço dos metros de filme que esbanjava comigo. Geraldo del Rey, experiente e de um jeito carinhoso, conseguiu acalmar a mim, ao diretor e conquistou minha confiança, minha admiração. Relax. Conseguimos filmar a cena, sem tropeções. Christensen não se preocupou mais comigo, tratou de resolver outros problemas. Lembro de a equipe ser muito bem organizada. O Marco Braga na produção, sempre gentil. A Nena, Josefina de Oliveira, carinhosa na maquiagem. Luiz Fernando Ianelli, ótimo colega!

EE – Como era sua convivência com o Ianelli e os outros jovens da equipe? É bom lembrar que vocês estavam no calor do “poder ultrajovem”, em plenos anos 60, e o filme não adocicava para o lado de ninguém...

EC – Luiz Fernando Ianelli era um rapaz simpático, bem educado, bom ator. Demos algumas boas risadas juntos. Tivemos pouca ocasião de conversar, pena, gostaria de tê-lo conhecido melhor. O Christensen procurava me manter à distância dos jovens do elenco. Eu conversava mais com Geraldo del Rey, que admirava muito e com quem dividia a maioria das cenas. Ah! Lembro de uma história engraçada: uma noite, após a filmagem, o Luís Fernando me levou de carro para casa. Christensen nunca havia me telefonado, mas mal cheguei em casa o telefone tocou. Era ele me desejando boa noite. Controle?

EE – Tem toda cara de ser! E o lançamento do filme?

EC – No período entre o encerramento das filmagens e a estréia do filme, procurei voltar à normalidade. Retornei às aulas, terminei o curso de atriz, finalizei o segundo ano da PUC. No Conservatório, Amir Haddad lecionava interpretação para nós, havia dirigido uma peça chamada “A Construção”, no MAM. Trabalho excelente, que me impressionou demais. Teatro do jeito que eu amava. Quando surgiu a necessidade de uma substituição no elenco, o Amir me convidou e consegui a vaga. Eu amava o teatro, admirava, confiava e respeitava Amir. Grande personalidade! E aí o lançamento de “Anjos e Demônios” resultou em um escândalo para o qual eu não estava preparada. Utilizaram fotos de cenas desconectadas do conteúdo. Publicadas em revistas tipo Playboy, não lembro o nome. Continham informações sobre minha vida privada: “aluna da PUC” e outras coisas. Só faltavam o endereço e o número do telefone. Fui convidada pelo reitor a me retirar da universidade, isto em uma época de ditadura militar e AI-5. Estava bastante envolvida no movimento estudantil e o “convite” produziu efeito. Não voltei mais. Desse processo todo, lembro da cena final do Christensen correndo em volta de uma mesa e meu pai atrás dele, furioso. 

EE – Que coisa absurda, Eva… Sinto muito em saber disso, um abuso total! Ser mulher nunca foi fácil, ainda mais aqui no Brasil e naqueles tempos… 

EC – Acho que ele não sabia o que estava desencadeando com essas fotos, só pensava na promoção do filme. Após “Anjos e Demônios”, tendo que trabalhar para me manter, mudei de apartamento. A repressão estava no auge. Muitos amigos presos, outros fora do país. O medo era companheiro constante.

EE – Algum evento que você lembre e que tenha marcado você? Esse dia a dia sob um regime de exceção deixa uma sensação asfixiante… 

EC – Sim, o encontro na rua com um amigo que, quando me viu, baixou os olhos. Não estava sozinho…   

EE – Entendo, todo um subtexto… Como atriz, o que aconteceu em seguida?

EC – Peças de teatro, intercaladas com participações em filmes e novela. O primeiro trabalho profissional em teatro e o primeiro salário vieram com a peça “Os Desquitados”, de Aurimar Rocha, no Teatro de Bolso. Em seguida, “Quando as Mulheres Paqueram”, 1971, filme dirigido por Victor di Mello em uma empreitada com sua mulher, sogros e demais membros da família. Divertido, clima de trabalho amigável, comédia com a Sandra Barsotti. Assisti ao filme no Youtube há pouco tempo,  ótimo remédio contra a depressão de um inverno europeu. Também não havia assistido na época. Depois, a peça “Um Edifício Chamado 200”, de Paulo Pontes, ao lado de Ângela Valério e Milton Moraes. Experiência tranquila, com ótimos colegas e conversas. Participei da novela “O Cafona”, na Tv Globo, sem comentários. “O Enterro da Cafetina”, filme de Jece Valadão, vi outro dia, Youtube again, e novamente me diverti muito. De 1972 a 1973, a novela “Jerônimo, O Herói do Sertão”, na Tv Tupi. Quando era criança, adorava escutar a novela do Jerônimo no rádio. O meu grande herói, não perdia um capítulo! Até porque nossa empregada não deixava perder [risos]… Fiquei muito surpresa ao receber a proposta para o papel de Aninha e aceitei sem pestanejar, também por ter um salário fixo. O ambiente de trabalho era bastante familiar. Francisco di Franco, excelente colega e amigo. Com o fim da novela, em 1973, o mercado de trabalho estava péssimo. Não havia ofertas para mim e as que houve eu não queria aceitar. 

EE – Sob o aspecto profissional, qual foi a sua maior experiência como atriz e por quê, Eva?

EC – Bem, em vista da minha longa lista de trabalhos, foram todos as maiores experiências. Ou melhor: as únicas no seu gênero. Ironia [risos]… Você sabe que eu nunca havia assistido aos filmes? Somente agora, 50 anos depois, vi “Anjos e Demônios” e fiquei impressionada. Gostei muito mesmo. Tiro o chapéu para o trabalho de Christensen que, apesar de nossos problemas na época, considero um excelente diretor. Como atriz, considero a maior experiência que tive e, talvez, mesmo se tivesse continuado com a carreira, este filme continuaria a ser a maior delas.

EE – E a segunda metade dos anos 70?

EC – Antes disso, em 1974, embarquei em um navio espanhol, saindo da Praça XV para a Europa, pensando voltar em breve. Atravessei o Atlântico, desembarquei a tempo de testemunhar a Revolução dos Cravos, em Lisboa. Foi emocionante, ainda sinto arrepios ao me recordar. A explosão de sentimentos das pessoas, as ruas cheias de cravos. Lembro da multidão indo em direção à prisão de Caxias, para receber os presos políticos libertados. Você conhece a música “Tanto Mar”, de Chico Buarque de Hollanda? Diz tudo!

EE – Sim, uma polaróide dessa atmosfera!…  

EC – Saindo de Lisboa, segui de trem para Paris, Londres, Montreaux e por aí vai. Curtindo muito a cultura, cidades, comidas, novas amizades. Depois de alguns meses de andanças, cheguei em Viena, cidade onde nasci. O dinheiro estava chegando ao fim, me sentia muito só e planejava voltar o mais rápido possível para o Brasil. Porém, as notícias que recebia da família eram pessimistas, sem perspectivas. Meu pai chegou logo em seguida e viajou comigo pela Hungria e Itália. Foi me convencendo aos poucos, com persistência, que eu não deveria regressar tão breve, nem tentar retomar meu trabalho de atriz no Brasil, pois não encontraria nada. Apesar de meu péssimo alemão, consegui emprego como tradutora em uma empresa de engenharia que tinha projetos no Brasil. Nunca mais trabalhei como atriz, havia perdido as palavras e a coragem. A pintura entrou, então, na minha vida: quando as palavras faltaram. Casei, formei minha própria família. Tenho dois filhos que amo muito, nora e duas netinhas lindas e espertas. Final feliz! Saudades do Brasil tenho todos os dias. Viajo sempre que posso, para rever amigos reencontrados depois de muitos anos.

EE – Você tocou em algo forte, Eva, e que me parece dizer muito sobre você. A pintura surgiu “quando as palavras faltaram”. Como isso aconteceu?

EC – Pergunta difícil de responder. As palavras faltaram quando saí do Brasil. Sem meu instrumento de trabalho, a palavra, não poderia mais trabalhar como atriz. Minha língua emocional é até hoje a língua portuguesa. Nos primeiros anos fora, tive que aprender outras línguas para trabalhar, uma coisa somente satisfatória pelo valor intelectual. Estava gostando da minha vida na Áustria, mas sentia que faltava alguma coisa. Caí naquilo que, nos anos 60, se chamava “fossa”. Foi então que as recordações se negaram, o passado distante parecia não ter existido. Quando o mutismo apertou, eu comecei a fazer pequenos desenhos, tipo história em quadrinhos, bem simples, mas muito benéficos. Depois vieram as cores e um monte de desenhos e tentativas. Entrei para a Escola de Arte e as recordações e a saudade ganharam nome.

EE – E o interessante é que você começou a sentir o Brasil estando de fora. Geralmente o concebemos estando aqui dentro. A arte, a cultura, o cotidiano… 

EC – O Brasil passou a ser um objeto de amor à distância. Sentia falta da língua, da música, da arte em geral. Acima de tudo, sentia falta da alegria espontânea dos brasileiros. Na Europa central o povo é mais fechado, há sempre um certo distanciamento. Uma vez superadas as barreiras linguísticas, pude compreender melhor e curtir esse mundo intelectualmente, sem fronteiras visíveis, sem censura dos meios de comunicação. Por outro lado, era ainda a época da “Cortina de Ferro”, isolando os países vizinhos. Os anos passaram e, assim que tive oportunidade, procurei descobrir o Brasil na sua diversidade, fora do eixo Rio-São Paulo, fora da bolha. Viajando, comecei com o centro geográfico e, sempre que posso, procuro conhecer uma nova região, conversando, fazendo amizade com pessoas que nunca teria encontrado antes. Pessoas que nem de longe imaginam que um dia eu fui atriz. Gente que me recebeu com carinho, gente aberta e de grande coração.

EE – Em vista de tudo o que conversamos, o que você diria à Eva Christian se a visse nos pilotis da PUC ou na saída do Conservatório?

EC – Eu diria: coragem. Lute pelos sonhos, mas fique consciente. Confie na sua intuição, mas estude. Ame o amor. Depois daria um abraço nela e disfarçaria uma lágrima atrás de um sorriso.

EE – Obrigada, Eva. Pela sinceridade e pelo calor do seu depoimento.

segunda-feira, setembro 04, 2017

Leila Diniz


“Brigam Espanha e Holanda/ Pelos direitos do mar/ O mar é das gaivotas/ Que nele sabem voar/ O mar é das gaivotas/ E de quem sabe navegar.”

Em controversa (e hoje esquecida) entrevista que deu à Revista Status, outubro de 1979, Gilberto Gil soltou a pérola: “Ativismo não é bom, ação é ótimo”. Uma ideia que se molda perfeitamente à figura de Leila Diniz, atriz brasileira que morreu em junho de 1972, aos 27 anos, para entrar na história. Hoje, 45 anos passados, a ironia é que Leila pareça cada vez mais subversiva, revolucionária. 

Em 1987 a memória de Leila já parecia de outro planeta. Vivia-se a época da geração saúde, da musculação, dos yuppies e das matinês. Não era a psicose politicamente correta do século XXI – brasileiros fumavam e lotavam atmosféricos motéis – porém, uma criatura que dizia ser “versátil” o apelido da sua xoxota, soava démodé

Na onda da “nostalgia” – termo usado nos anos 80 para designar qualquer coisa dos 50 e 60 – um de seus melhores amigos, o cineasta Luiz Carlos Lacerda, resolveu homenageá-la com um filme biográfico que precisa ser revisto. 

Leila Diniz consolidara a imagem de eterno mito bastante associada à dolce vita de Ipanema. Mas, convenhamos, o provincianismo do bairro carioca sempre pareceu um limitador da personalidade amada de norte a sul do país. Sua sepultura, no cemitério São João Batista, atrai como ímã uma romaria de visitantes. A única pessoa que nunca engoliu Leila Diniz foi Dercy Gonçalves, que certa vez declarou: “Leila nunca foi nada, só teve a coragem de sair de barriga de fora”. 

Para viver Leila, Lacerda pensou inicialmente em Tássia Camargo, que estava grávida. Logo escolheu Louise Cardoso, no auge da gostosura, aos 32 anos. Louise vinha de “Baixo Gávea” (1986) e era musa cobiçada por homens e mulheres, mesmo assim entrou em uma dieta rigorosa. Diretor e atriz procuraram a mãe de Leila, Isaura, e o ex-marido Ruy Guerra, que cederam diários e anotações, além de abençoarem o projeto.

Bem ao gosto da época, a produção teve orçamento turbinado pela venda de cotas para investidores. Um anúncio foi publicado nos jornais, oferecendo 25 cotas de CZ$ 50.000 (20 mil reais em valores de hoje) a quem se interessasse. Iniciaram as filmagens em 24 de dezembro de 86, com a cena em que Leila desfila de biquíni pela avenida Rio Branco, aproveitando a tradicional chuva de papel picado da véspera de Natal. Os trabalhos se estenderam até abril de 87, incluindo o carnaval, quando filmaram Louise desfilando no Salgueiro.

Leila Diniz começava a ser recantada em prosa e verso. Martinho da Vila dedicou-lhe um samba no disco “Coração de Malandro” e a diretora Ana Maria Magalhães exibia o documentário em vídeo “Já Que Ninguém Me Tira Pra Dançar” (1982), nas salas do Rio. O revival, claro, convergia para a expectativa do filme de Lacerda, finalmente lançado em pré-estreia no desaparecido Art-Copacabana (que virou uma sapataria nos anos 90), meia-noite de 3 de outubro de 87. Fez boa bilheteria, mais de 50 mil espectadores só na primeira semana.

Luiz Carlos Lacerda tem um talento raro entre os diretores brasileiros: ainda que contem histórias datadas, seus filmes envelhecem muito bem. “Leila Diniz” não foge à regra. Continua delicioso desde a primeira cena quando, em uma celebração do Partido Comunista, Leila Diniz escapa de se chamar Natasha Filipova. Estávamos em 1946, dez anos antes do XX Congresso do PC Soviético, ocasião em que Nikita Kruschev jogou um balde de água fria no comunismo internacional ao denunciar os crimes de Josef Stalin.

A trama dá um salto no tempo e Leila reaparece no final da década de 50, em uma festa, já demonstrando aquilo que machos moralistas de outrora apelidavam de “furor uterino”. Fato é que a menina torcia o rabo da porca, namorava meia Guanabara, até conhecer Domingos de Oliveira (Carlos Alberto Riccelli), uma possibilidade de relacionamento estável. 

Magrinha, seios grandes, a nudez de Louise enfeita a tela. Sabe-se lá por que a escolha do galã Riccelli para viver o feioso Domingos, bondade do diretor. Melhor é o falecido Rômulo Arantes como Toquinho, namorado seguinte. No livro “Verdade Tropical”, Caetano Veloso dizia surgir em sua consciência uma “alegre e vaga promessa homoerótica” ao ver Toquinho, “braços e pernas de matéria compacta e pele morena homogênea”. Arantes – misto de ex-nadador olímpico, ator, síndico de prédio no bairro da Lagoa e dono de academia com filiais em Copacabana e na Tijuca – correspondeu perfeitamente, fazendo boa figura de violão em punho.

Mas o filme não se limita à beleza plástica dos atores. Sutilmente coloca em evidência a amizade entre Leila e o próprio Luiz Carlos (Diogo Vilella) em duas vidas que se cruzam. Lacerda encaminha-se para o cinema; Leila começa a trabalhar na TV. Parte de sua fama e visibilidade, ressalte-se, não foi por “Todas As Mulheres do Mundo” (1966) ou “A Madona de Cedro” (1968). Através das novelas, principalmente “O Sheik de Agadir” (1966), da rocambolesca Glória Magadan, Leila transformou-se em presença constante nos lares brasileiros. Daí para a exposição de seu temperamento único, foi uma bela passagem.

E tome namorados. Além de namorados, merchandising. Até um pinguim gigante do Ponto Frio Bonzão corre atrás da moça. Em pleno novembro de 1969, ela concede a polêmica entrevista ao Pasquim. Lacerda recria o caso de maneira inteligente, incluindo alguns dos entrevistadores reais (Sérgio Cabral, Tarso de Castro) e um terceiro fictício, Pedro Bial, que talvez resuma as participações de Luiz Carlos Maciel, Paulo Garcez e Jaguar, os outros presentes na ocasião. Graças à entrevista, que no fundo era somente uma grande sessão de psicanálise, o governo militar baixou o Decreto 1077, que instituía a censura prévia, apelidado “Decreto Leila Diniz”.

Estamos no auge da moda hippie no Brasil e a produção não se furta à mise-en-scéne carregada, algo humorística, de cabeludos nus e viagens de ácido. Casada com Ruy Guerra, Leila vira mãe de Janaína, desfila o famigerado barrigão na praia. Veio a morrer em um acidente aéreo em junho de 1972. Seu desaparecimento é retratado belamente. Louise Cardoso parece entrar em um túnel, despede-se. Manchetes de jornal anunciam o fim. As crianças de 87, que conseguiam burlar a Censura 14 anos e assistir ao filme – eu, por exemplo – morreram de medo com aquilo. Sorte que, no ano seguinte, Louise Cardoso apagaria a impressão fantasmagórica reencarnando como Clotilde, mulher de Barbosa (Ney Latorraca) em TV Pirata.

“Leila Diniz”, muito mais do que um tributo, sedimentou nova imagem de Leila Diniz no inconsciente coletivo brasileiro. Há quem não consiga lembrar de Leila sem o rosto de Louise Cardoso, que se jogou inteira na recriação, emoldurada, entre muitos méritos, pela trilha sonora de David Tygel. 

De certa forma, o diretor Luiz Carlos Lacerda também virou sinônimo da amiga de infância. Embora “Princípio do Prazer” (1979) seja o seu melhor filme, “Leila Diniz” é um cartão de visitas admirável. Aos 72 anos, lançou recentemente “Introdução à Música do Sangue”, em que voltou às origens, resgatando um argumento do escritor Lúcio Cardoso, o mesmo que adaptara em “Mãos Vazias” (1971), seu trabalho de estreia. “Mãos Vazias” com ninguém menos que nossa onipresente: Leila Diniz. 

quinta-feira, março 09, 2017

O Casal



Daniel Filho dirigiu sete filmes com mais de 1 milhão de espectadores. Não é para qualquer um. Seu primeiro trabalho como diretor foi o divertido “Pobre Príncipe Encantado” (1969), veículo para o cantor Wanderley “Bom Rapaz” Cardoso. Na mesma época, comandou os episódios “Eu, Ela e o Outro” em “O Impossível Acontece” (1969) e “Segunda Cama”, de “A Cama ao Alcance de Todos” (1969). Depois mergulhou de cabeça na TV Globo que, na primeira metade da década de 1970, consolidava-se como a maior emissora do país. 

Dirigiu na Globo, bem verdade, algumas coisas que poderiam ser classificadas como “filmes para TV”: o Caso Especial “Meu Primeiro Baile”, exibido em 31 de março de 1972, foi a primeira transmissão inteiramente em cores da TV brasileira. Baseado na peça autobiográfica de Vianinha, em 1974 dirigiu “Enquanto a Cegonha Não Vem”, que deu origem no ano seguinte ao longa-metragem “O Casal” (1975). Do “casal” televisivo, José Wilker foi mantido como protagonista. A mocinha grávida, que na TV foi Renata Sorrah, no filme passou para Sônia Braga. Estreando no Rio em 11 de Setembro de 1975, “O Casal” pegou La Braga na crista da onda, por conta da novela “Gabriela”, que estreara em abril daquele distante ano.

O leitor pode se perguntar (como já deve ter se perguntado tantas vezes lendo este blog) por que, em tempos de televisões SUHD e smartphones 4G, assistir a um filme tão antigo, a respeito de um assunto tão trivial? Ora, o bebê que o casal Alfredo e Maria Lúcia Giacometti aguarda durante 1h e 41 minutos do filme, hoje está com 41, 42 anos de idade. Poderia ser qualquer um de nós. Alfredo, jovem professor de História, e Maria Lúcia, estudante de Museologia e funcionária do INPS, bem poderiam ser nossos pais. É sobre a vida cotidiana de um típico casal dos anos 1970 que o filme trata. É sobre nós mesmos, em outra vida que não devemos esquecer.

Associado à R.F.F dos irmãos Farias e a Tarcísio Meira, Daniel Filho devolveu a história ao cinema, pois o texto e os diálogos de Vianna Filho haviam sido rascunhados para uma versão cinematográfica, recebendo na TV um novo tratamento de Bráulio Pedroso. Casado com Betty Faria, aos 37 anos Daniel havia sido pai de João, poucos meses antes de estrear o filme. Betty Faria tem papel em “O Casal”, fazendo uma grã-fina prafrentex, que mora em um apartamento na praia de Ipanema e devora metade do elenco masculino.

Mas quem importa mesmo são Alfredo (José Wilker) e Maria Lúcia Giacometti (Sônia Braga). Tudo começa no laboratório de análises clínicas, onde a mocinha faz um teste de gravidez. O resultado positivo é comemorado. Então sabemos que a história acompanhará a dupla, do exame ao parto. 

Os créditos, a trilha sonora, induzem o espectador a uma insondável tristeza. Ficamos mais tristes ainda quando notamos a esperança que aquelas pessoas colocavam nos futuros adultos do século XXI. Quando nascia um bebê, era praxe contar a idade e dizer que ele teria “X anos no ano 2000”. O casal Giacometti não chega a brincar de futurismo, mas eu não consigo parar de pensar neles setentões, com netos, e o ex-bebê quarentão, divorciado, morando em uma quitinete alugada em Botafogo e discutindo política no Facebook…

Maria Lúcia tem duas colegas de faculdade, as três mostram os seios e conversam sobre amamentação. A cena tem um quê de erótica. Reparem que uma delas é Patrícia Leal, a outra Susana Vieira. Um dos amigos de Alfredo é transferido para Brasília. Terror de todos os funcionários públicos cariocas, a transferência para a Novacap vinha acompanhada de um aumento de salário (a chamada “dobradinha”) que nem de longe compensava a rotina longe da Velhacap e suas delícias mundanas. Dentre os outros amigos, Quieto (o jovem Pedro Camargo) confessa que tem “pau pequeno”, enquanto Antonio Pedro, em seu eterno papel de “baixinho legal”, é o primeiro a traçar a madame cobiçada (Betty Faria), adepta de sexo grupal e discos do Pink Floyd.

Daniel Filho explicou o filme, na estreia, como sendo “uma história sobre a emoção de se colocar uma nova vida no mundo” e “Sobre o que se perde para poder ganhar”. Alfredo chega a pedir a mulher que aborte. Quando decidem prosseguir a gravidez, a impressão que permanece é que não estavam prontos: toda hora, Alfredo foge ou é expulso do quarto e sala onde mal respiram. “O Casal” não se furta a abusar de certos modismos do período, como imagens congeladas e uma trip de maconha (ou ácido?) vivida pelo futuro papai. Para a moral dos tempos atuais, Giacometti é um insano: grita com a esposa grávida, a deixa fazer sozinha uma mudança de móveis e quebra copos, enquanto a mulher recolhe os cacos.

“Traga dois lenços. Um para o riso, outro para as lágrimas de emoção”, com esse slogan o filme foi promovido nos cartazes. Temos aqui um problema: tirando Maria Lúcia, nenhum dos personagens causa verdadeira empatia. Em uma cena ou outra (o desespero ao saber que a mulher estava passando mal), Alfredo se esforça. Porém logo reaparecem os amigos chatos, os ataques histéricos e achamos que a separação, ali, chegaria antes de 1976. 

O suprassumo da babaquice é a troca da valente Sônia Braga pela riponga Betty Faria. “Ser mãe é padecer no paraíso”, já ensinavam as tias no colégio. O estoicismo de Maria Lúcia, pegando ônibus, carregando mesas, atendendo pensionistas no INPS, ainda por cima aturando as inseguranças do marido, fazem da contemporânea Hemínia de “Minha Mãe É Uma Peça” uma nobre de “Downtown Abbey”. 

Até Nelson Cavaquinho dá uns pitacos e canta “Nome Sagrado” que fala sobre a cobra não morder a mulher, pois respeita “seu estado interessante”. Nelson continuaria a brilhar nos bares cariocas de filmes: lembrem dele em “Muito Prazer” (1979), de David Neves. Aliás, o bar de “O Casal” é outro aspecto mal resolvido: todos parecem agir em um tom forçado, desconexo da realidade. Guardam, bem verdade, aquele sentimento autorreferencial que fascina e antipatiza os cariocas de Zona Sul diante dos outros brasileiros. Porém excedem nas piadas, nas comemorações, nos porres. Soam automáticos, sem profundidade, gerando um contínuo distanciamento do espectador. 

Vianinha morreu em julho de 74, um ano e dois meses antes da estreia. Chamava o argumento de “minha historinha”. Não chegou a saber que a “historinha” chegou aos cinemas. Apoiado por boa divulgação, “O Casal” fez mais de 1 milhão e 300 mil pagantes. Daniel Filho só voltaria à tela grande em 1983, com “O Cangaceiro Trapalhão”. No século XXI emendaria um sucesso atrás do outro e “O Casal” é página quase esquecida em sua brilhante carreira. João Carlos Rodrigues escreveu, em pleno 75, que era “um filme classe média, sobre a classe média e para a classe média”. Em 2017 redescobri-lo é redescobrir essa classe média, de quarenta anos atrás.