segunda-feira, setembro 04, 2017

Leila Diniz


“Brigam Espanha e Holanda/ Pelos direitos do mar/ O mar é das gaivotas/ Que nele sabem voar/ O mar é das gaivotas/ E de quem sabe navegar.”

Em controversa (e hoje esquecida) entrevista que deu à Revista Status, outubro de 1979, Gilberto Gil soltou a pérola: “Ativismo não é bom, ação é ótimo”. Uma ideia que se molda perfeitamente à figura de Leila Diniz, atriz brasileira que morreu em junho de 1972, aos 27 anos, para entrar na história. Hoje, 45 anos passados, a ironia é que Leila pareça cada vez mais subversiva, revolucionária. 

Em 1987 a memória de Leila já parecia de outro planeta. Vivia-se a época da geração saúde, da musculação, dos yuppies e das matinês. Não era a psicose politicamente correta do século XXI – brasileiros fumavam e lotavam atmosféricos motéis – porém, uma criatura que dizia ser “versátil” o apelido da sua xoxota, soava démodé

Na onda da “nostalgia” – termo usado nos anos 80 para designar qualquer coisa dos 50 e 60 – um de seus melhores amigos, o cineasta Luiz Carlos Lacerda, resolveu homenageá-la com um filme biográfico que precisa ser revisto. 

Leila Diniz consolidara a imagem de eterno mito bastante associada à dolce vita de Ipanema. Mas, convenhamos, o provincianismo do bairro carioca sempre pareceu um limitador da personalidade amada de norte a sul do país. Sua sepultura, no cemitério São João Batista, atrai como ímã uma romaria de visitantes. A única pessoa que nunca engoliu Leila Diniz foi Dercy Gonçalves, que certa vez declarou: “Leila nunca foi nada, só teve a coragem de sair de barriga de fora”. 

Para viver Leila, Lacerda pensou inicialmente em Tássia Camargo, que estava grávida. Logo escolheu Louise Cardoso, no auge da gostosura, aos 32 anos. Louise vinha de “Baixo Gávea” (1986) e era musa cobiçada por homens e mulheres, mesmo assim entrou em uma dieta rigorosa. Diretor e atriz procuraram a mãe de Leila, Isaura, e o ex-marido Ruy Guerra, que cederam diários e anotações, além de abençoarem o projeto.

Bem ao gosto da época, a produção teve orçamento turbinado pela venda de cotas para investidores. Um anúncio foi publicado nos jornais, oferecendo 25 cotas de CZ$ 50.000 (20 mil reais em valores de hoje) a quem se interessasse. Iniciaram as filmagens em 24 de dezembro de 86, com a cena em que Leila desfila de biquíni pela avenida Rio Branco, aproveitando a tradicional chuva de papel picado da véspera de Natal. Os trabalhos se estenderam até abril de 87, incluindo o carnaval, quando filmaram Louise desfilando no Salgueiro.

Leila Diniz começava a ser recantada em prosa e verso. Martinho da Vila dedicou-lhe um samba no disco “Coração de Malandro” e a diretora Ana Maria Magalhães exibia o documentário em vídeo “Já Que Ninguém Me Tira Pra Dançar” (1982), nas salas do Rio. O revival, claro, convergia para a expectativa do filme de Lacerda, finalmente lançado em pré-estreia no desaparecido Art-Copacabana (que virou uma sapataria nos anos 90), meia-noite de 3 de outubro de 87. Fez boa bilheteria, mais de 50 mil espectadores só na primeira semana.

Luiz Carlos Lacerda tem um talento raro entre os diretores brasileiros: ainda que contem histórias datadas, seus filmes envelhecem muito bem. “Leila Diniz” não foge à regra. Continua delicioso desde a primeira cena quando, em uma celebração do Partido Comunista, Leila Diniz escapa de se chamar Natasha Filipova. Estávamos em 1946, dez anos antes do XX Congresso do PC Soviético, ocasião em que Nikita Kruschev jogou um balde de água fria no comunismo internacional ao denunciar os crimes de Josef Stalin.

A trama dá um salto no tempo e Leila reaparece no final da década de 50, em uma festa, já demonstrando aquilo que machos moralistas de outrora apelidavam de “furor uterino”. Fato é que a menina torcia o rabo da porca, namorava meia Guanabara, até conhecer Domingos de Oliveira (Carlos Alberto Riccelli), uma possibilidade de relacionamento estável. 

Magrinha, seios grandes, a nudez de Louise enfeita a tela. Sabe-se lá por que a escolha do galã Riccelli para viver o feioso Domingos, bondade do diretor. Melhor é o falecido Rômulo Arantes como Toquinho, namorado seguinte. No livro “Verdade Tropical”, Caetano Veloso dizia surgir em sua consciência uma “alegre e vaga promessa homoerótica” ao ver Toquinho, “braços e pernas de matéria compacta e pele morena homogênea”. Arantes – misto de ex-nadador olímpico, ator, síndico de prédio no bairro da Lagoa e dono de academia com filiais em Copacabana e na Tijuca – correspondeu perfeitamente, fazendo boa figura de violão em punho.

Mas o filme não se limita à beleza plástica dos atores. Sutilmente coloca em evidência a amizade entre Leila e o próprio Luiz Carlos (Diogo Vilella) em duas vidas que se cruzam. Lacerda encaminha-se para o cinema; Leila começa a trabalhar na TV. Parte de sua fama e visibilidade, ressalte-se, não foi por “Todas As Mulheres do Mundo” (1966) ou “A Madona de Cedro” (1968). Através das novelas, principalmente “O Sheik de Agadir” (1966), da rocambolesca Glória Magadan, Leila transformou-se em presença constante nos lares brasileiros. Daí para a exposição de seu temperamento único, foi uma bela passagem.

E tome namorados. Além de namorados, merchandising. Até um pinguim gigante do Ponto Frio Bonzão corre atrás da moça. Em pleno novembro de 1969, ela concede a polêmica entrevista ao Pasquim. Lacerda recria o caso de maneira inteligente, incluindo alguns dos entrevistadores reais (Sérgio Cabral, Tarso de Castro) e um terceiro fictício, Pedro Bial, que talvez resuma as participações de Luiz Carlos Maciel, Paulo Garcez e Jaguar, os outros presentes na ocasião. Graças à entrevista, que no fundo era somente uma grande sessão de psicanálise, o governo militar baixou o Decreto 1077, que instituía a censura prévia, apelidado “Decreto Leila Diniz”.

Estamos no auge da moda hippie no Brasil e a produção não se furta à mise-en-scéne carregada, algo humorística, de cabeludos nus e viagens de ácido. Casada com Ruy Guerra, Leila vira mãe de Janaína, desfila o famigerado barrigão na praia. Veio a morrer em um acidente aéreo em junho de 1972. Seu desaparecimento é retratado belamente. Louise Cardoso parece entrar em um túnel, despede-se. Manchetes de jornal anunciam o fim. As crianças de 87, que conseguiam burlar a Censura 14 anos e assistir ao filme – eu, por exemplo – morreram de medo com aquilo. Sorte que, no ano seguinte, Louise Cardoso apagaria a impressão fantasmagórica reencarnando como Clotilde, mulher de Barbosa (Ney Latorraca) em TV Pirata.

“Leila Diniz”, muito mais do que um tributo, sedimentou nova imagem de Leila Diniz no inconsciente coletivo brasileiro. Há quem não consiga lembrar de Leila sem o rosto de Louise Cardoso, que se jogou inteira na recriação, emoldurada, entre muitos méritos, pela trilha sonora de David Tygel. 

De certa forma, o diretor Luiz Carlos Lacerda também virou sinônimo da amiga de infância. Embora “Princípio do Prazer” (1979) seja o seu melhor filme, “Leila Diniz” é um cartão de visitas admirável. Aos 72 anos, lançou recentemente “Introdução à Música do Sangue”, em que voltou às origens, resgatando um argumento do escritor Lúcio Cardoso, o mesmo que adaptara em “Mãos Vazias” (1971), seu trabalho de estreia. “Mãos Vazias” com ninguém menos que nossa onipresente: Leila Diniz. 

quinta-feira, março 09, 2017

O Casal



Daniel Filho dirigiu sete filmes com mais de 1 milhão de espectadores. Não é para qualquer um. Seu primeiro trabalho como diretor foi o divertido “Pobre Príncipe Encantado” (1969), veículo para o cantor Wanderley “Bom Rapaz” Cardoso. Na mesma época, comandou os episódios “Eu, Ela e o Outro” em “O Impossível Acontece” (1969) e “Segunda Cama”, de “A Cama ao Alcance de Todos” (1969). Depois mergulhou de cabeça na TV Globo que, na primeira metade da década de 1970, consolidava-se como a maior emissora do país. 

Dirigiu na Globo, bem verdade, algumas coisas que poderiam ser classificadas como “filmes para TV”: o Caso Especial “Meu Primeiro Baile”, exibido em 31 de março de 1972, foi a primeira transmissão inteiramente em cores da TV brasileira. Baseado na peça autobiográfica de Vianinha, em 1974 dirigiu “Enquanto a Cegonha Não Vem”, que deu origem no ano seguinte ao longa-metragem “O Casal” (1975). Do “casal” televisivo, José Wilker foi mantido como protagonista. A mocinha grávida, que na TV foi Renata Sorrah, no filme passou para Sônia Braga. Estreando no Rio em 11 de Setembro de 1975, “O Casal” pegou La Braga na crista da onda, por conta da novela “Gabriela”, que estreara em abril daquele distante ano.

O leitor pode se perguntar (como já deve ter se perguntado tantas vezes lendo este blog) por que, em tempos de televisões SUHD e smartphones 4G, assistir a um filme tão antigo, a respeito de um assunto tão trivial? Ora, o bebê que o casal Alfredo e Maria Lúcia Giacometti aguarda durante 1h e 41 minutos do filme, hoje está com 41, 42 anos de idade. Poderia ser qualquer um de nós. Alfredo, jovem professor de História, e Maria Lúcia, estudante de Museologia e funcionária do INPS, bem poderiam ser nossos pais. É sobre a vida cotidiana de um típico casal dos anos 1970 que o filme trata. É sobre nós mesmos, em outra vida que não devemos esquecer.

Associado à R.F.F dos irmãos Farias e a Tarcísio Meira, Daniel Filho devolveu a história ao cinema, pois o texto e os diálogos de Vianna Filho haviam sido rascunhados para uma versão cinematográfica, recebendo na TV um novo tratamento de Bráulio Pedroso. Casado com Betty Faria, aos 37 anos Daniel havia sido pai de João, poucos meses antes de estrear o filme. Betty Faria tem papel em “O Casal”, fazendo uma grã-fina prafrentex, que mora em um apartamento na praia de Ipanema e devora metade do elenco masculino.

Mas quem importa mesmo são Alfredo (José Wilker) e Maria Lúcia Giacometti (Sônia Braga). Tudo começa no laboratório de análises clínicas, onde a mocinha faz um teste de gravidez. O resultado positivo é comemorado. Então sabemos que a história acompanhará a dupla, do exame ao parto. 

Os créditos, a trilha sonora, induzem o espectador a uma insondável tristeza. Ficamos mais tristes ainda quando notamos a esperança que aquelas pessoas colocavam nos futuros adultos do século XXI. Quando nascia um bebê, era praxe contar a idade e dizer que ele teria “X anos no ano 2000”. O casal Giacometti não chega a brincar de futurismo, mas eu não consigo parar de pensar neles setentões, com netos, e o ex-bebê quarentão, divorciado, morando em uma quitinete alugada em Botafogo e discutindo política no Facebook…

Maria Lúcia tem duas colegas de faculdade, as três mostram os seios e conversam sobre amamentação. A cena tem um quê de erótica. Reparem que uma delas é Patrícia Leal, a outra Susana Vieira. Um dos amigos de Alfredo é transferido para Brasília. Terror de todos os funcionários públicos cariocas, a transferência para a Novacap vinha acompanhada de um aumento de salário (a chamada “dobradinha”) que nem de longe compensava a rotina longe da Velhacap e suas delícias mundanas. Dentre os outros amigos, Quieto (o jovem Pedro Camargo) confessa que tem “pau pequeno”, enquanto Antonio Pedro, em seu eterno papel de “baixinho legal”, é o primeiro a traçar a madame cobiçada (Betty Faria), adepta de sexo grupal e discos do Pink Floyd.

Daniel Filho explicou o filme, na estreia, como sendo “uma história sobre a emoção de se colocar uma nova vida no mundo” e “Sobre o que se perde para poder ganhar”. Alfredo chega a pedir a mulher que aborte. Quando decidem prosseguir a gravidez, a impressão que permanece é que não estavam prontos: toda hora, Alfredo foge ou é expulso do quarto e sala onde mal respiram. “O Casal” não se furta a abusar de certos modismos do período, como imagens congeladas e uma trip de maconha (ou ácido?) vivida pelo futuro papai. Para a moral dos tempos atuais, Giacometti é um insano: grita com a esposa grávida, a deixa fazer sozinha uma mudança de móveis e quebra copos, enquanto a mulher recolhe os cacos.

“Traga dois lenços. Um para o riso, outro para as lágrimas de emoção”, com esse slogan o filme foi promovido nos cartazes. Temos aqui um problema: tirando Maria Lúcia, nenhum dos personagens causa verdadeira empatia. Em uma cena ou outra (o desespero ao saber que a mulher estava passando mal), Alfredo se esforça. Porém logo reaparecem os amigos chatos, os ataques histéricos e achamos que a separação, ali, chegaria antes de 1976. 

O suprassumo da babaquice é a troca da valente Sônia Braga pela riponga Betty Faria. “Ser mãe é padecer no paraíso”, já ensinavam as tias no colégio. O estoicismo de Maria Lúcia, pegando ônibus, carregando mesas, atendendo pensionistas no INPS, ainda por cima aturando as inseguranças do marido, fazem da contemporânea Hemínia de “Minha Mãe É Uma Peça” uma nobre de “Downtown Abbey”. 

Até Nelson Cavaquinho dá uns pitacos e canta “Nome Sagrado” que fala sobre a cobra não morder a mulher, pois respeita “seu estado interessante”. Nelson continuaria a brilhar nos bares cariocas de filmes: lembrem dele em “Muito Prazer” (1979), de David Neves. Aliás, o bar de “O Casal” é outro aspecto mal resolvido: todos parecem agir em um tom forçado, desconexo da realidade. Guardam, bem verdade, aquele sentimento autorreferencial que fascina e antipatiza os cariocas de Zona Sul diante dos outros brasileiros. Porém excedem nas piadas, nas comemorações, nos porres. Soam automáticos, sem profundidade, gerando um contínuo distanciamento do espectador. 

Vianinha morreu em julho de 74, um ano e dois meses antes da estreia. Chamava o argumento de “minha historinha”. Não chegou a saber que a “historinha” chegou aos cinemas. Apoiado por boa divulgação, “O Casal” fez mais de 1 milhão e 300 mil pagantes. Daniel Filho só voltaria à tela grande em 1983, com “O Cangaceiro Trapalhão”. No século XXI emendaria um sucesso atrás do outro e “O Casal” é página quase esquecida em sua brilhante carreira. João Carlos Rodrigues escreveu, em pleno 75, que era “um filme classe média, sobre a classe média e para a classe média”. Em 2017 redescobri-lo é redescobrir essa classe média, de quarenta anos atrás.

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Gente Fina É Outra Coisa


Em 1977 Antonio Calmon tinha 31 anos. Já era um desgarrado do Cinema Novo e mergulhava de cabeça na sua própria visão de cinema. Sorte nossa que Calmon, apesar da amizade sincera que nutriu pelas turmas por onde circulava, sempre desconfiou das ideias absolutistas e dos delírios conceituais que regiam parte dessas turmas. Nunca serviu a um Deus e soube fazer, de todas as histórias, a sua história. 

No dia 25 de setembro de 77, por exemplo, disparava em entrevista ao Jornal do Brasil que “Gente Fina É Outra Coisa”, seu filme prestes a estrear, era, na verdade, “a vingança da pornochanchada”. E prosseguia: “Esse filme mostra que valores tão pregados e cultivados como o casamento, a família servem apenas para a classe média. As elites não têm valores e elas sempre se permitiram tudo (…). É um filme sobre a impunidade das elites”. 

Se o leitor achar a declaração sobre a impunidade das elites e o aparvalhamento da classe média transgressora e atual, temos sinal evidente do óbvio: os filmes e o pensamento do diretor não envelheceram. Permanecem incômodos e insurretos. O cronista Carlinhos de Oliveira, certa vez, quis fazer um estranho elogio e chamou Calmon de “cineasta de mão firme”. É bom epíteto não só para seus filmes, mas também para sua personalidade. 

O jovem diretor vinha de “Paranoia” (1976) um policial bem-visto em São Paulo e por parte arejada da crítica carioca, chamando a atenção do produtor Pedro Rovai, que o convidou inicialmente para dirigir o primeiro episódio de “Gente Fina”, que seria parte de “O Ibraim do Subúrbio”. Acabou com o filme inteiro nas mãos e fez o que quis. “É nosso Luis Buñel”, disse Nelson Pereira dos Santos, em um arroubo de entusiasmo, talvez pela presença do filho, Ney Sant´Anna, como ator principal.

A frase “Gente Fina é Outra Coisa” vivia na boca do povo nos anos 1970. Era música de Rita Lee, um bordão do colunista Zózimo, e se encaixava perfeitamente aos propósitos da história de Tadeu (Ney Sant´Anna), recém-chegado no Rio, egresso de Palmeira dos Índios (a terra de Tenório Cavalcanti). Bonitinho, Tadeu lembra um Jim Morrison bugre, ou outro galãzinho do período, o cantor Donny Osmond. Dá com os costados na casa de uma madame de Ipanema, Magali (Maria Lucia Dahl) e, trabalhando de mordomo, se apaixona por ela. Quem não se apaixonaria? Entre os anos 70 e 80, Dahl era uma delícia ambulante. 

A maior mentira carioca do mundo é que cariocas não são arrogantes. A classe alta de Ipanema e Leblon, até hoje, faz seus congêneres de Higienópolis e dos Jardins parecerem uma turma saída de Woodstock. A diferença entre a elite carioca e a paulista é a hipocrisia, que escorre pelas escadas do Restaurante Degrau. “Gente Fina…” capta bem essa atmosfera rançosa, em contraponto à pobreza colorida de empregadas bailando ao som dos sucessos populares. O brega setentista era uma potência e, ao sequestrar uma calcinha usada da patroa, Tadeu vive êxtase ao som de “Moça”, o clássico de Wando.

O filme divide-se em três episódios, “A Guerra da Lagosta”, “Chocolate ou Morango” e “O Prêmio”, que no fundo são uma coisa só: as aventuras de Tadeu. A “Guerra da Lagosta” acontece pois o herói resolve envenenar o cachorrinho da madame, chamado Petit, com uma lagosta embebida em formicida. Dahl havia servido a mesma lagosta aos convidados (estava há quatro dias no congelador) e, ao ver o totó estrebuchando, acha que a culpa do envenenamento é sua. Grita, com sotaque de gata ipanemense: “Eu matei todos vocês…”. E escuta de volta: “Que delícia, Magali!”. Quem parece moribundo na história é o marido de Magali (Paulo Villaça), duro no papel, que caberia melhor ao denso e peludo Carlos Kroeber, um dos convivas do jantar amaldiçoado.

Os diálogos são brilhantes: “Empregado não tem sexo”, diz Magali, nua na frente do inquieto Tadeu. Nos jogos de sedução, Calmon exercita um elaborado e perverso grafismo, deixando a marca de sua genialidade. A presença da mulher rica e inatingível, da calcinha usada, das humilhações verbais ao empregado, são impensáveis no presente. Notem que o último terreno para esse tipo de ideias, para essa linha tênue entre o fetiche e o cinema, que diretores como Calmon operavam com naturalidade, será a pornografia. Por isso é que eu digo sem medo que o futuro de certa experiência cinematográfica está no filme pornô – e em sua distribuição subversiva, fora dos canais dominados pelo patrulhamento ideológico. 

A luta de classes existe, Marx tinha razão, só que é muito mais complexa do que supõe os pseudomarxistas. Eis que Tadeu consegue o que queria e traça a patroa. Termina confuso, despedido, saindo no braço com Paulo Villaça, o marido traído. Depois de aplicar uma surra no patrão, está com uma mão na frente e outra atrás, catando coquinho no Jardim de Alah, quando conhece Doutor Guimarães, que lhe oferece um emprego de motorista. 

Guimarães é pai de Cecília (Louise Cardoso, outra delícia setentista). Ela namora um cafajeste, Alfredinho (Nuno Leal Maia) e o pai quer acabar com o namoro. Oferece a Alfredinho 200 mil cruzeiros (cerca de 266 mil reais, em valores de hoje) para largar a moça. Ao som de “Cecilia”, de Simon and Garfunkel, ele topa a parada e Cecília é obrigada a casar com um noivo-bolha, Olavo. O que o pai não sabia era que a filha também estava caindo nos encantos de Tadeu. A moral da história é que através da hipocrisia – Cecília casa-se já desvirginada pelo falo santo do motorista – se formavam as madames da elite brasileira. 

Depois do segundo “episódio” o filme cai bastante e ganha ares, voilá!, de uma real pornochanchada. Tadeu, já em versão micheteiro assumido, de óculos escuros e blusão aberto, é recrutado por Íris (Selma Egrei, terceira delícia) para “atender” uma amiga (Márcia Rodrigues, irmã de Cláudia Lessin) corneada pelo marido. Curiosamente a mise-en-scéne remete à pornochanchada paulista, de José Miziara ou Ody Fraga, não aos congêneres cariocas. 

Esquemas se repetem (o humilhado vence a humilhação pelo sexo) e, assim como gostamos, cansamos. Mas tudo já estava dito e apresentado na primeira hora. Havia o desejo expresso de fazer um “Gente Fina É Outra Coisa 2”, envolvendo uma milionária americana. Porém não saiu do papel, talvez porque Calmon e Rovai tenham notado que a fórmula esgotara. Ao invés disso, realizaram “O Bom Marido” (1978) e “Nos Embalos de Ipanema” (1978), sempre com roteiro de Leopoldo Serran e Armando Costa.

No dia 23 de julho de 1977, Cláudia Lessin Rodrigues foi assassinada no Rio de Janeiro. O filme chegou às salas em setembro, convivendo com a boataria de que Michel Frank, um dos assassinos, havia sido apresentado a Cláudia na pré-estreia da produção no Hotel Meridien, vinte dias antes do homicídio. Até Valério Meinel, em seu espetacular “Porque Cláudia Lessin Vai Morrer” alimenta a ilação. Georges Khour, o outro acusado, era cabeleireiro em um salão no Meridien e, segundo Meinel, teria sido o apresentado da noite. O que isso diz sobre “Gente Fina É Outra Coisa”? Absolutamente nada. E tudo ao mesmo tempo. 

Michel Frank era filho do industrial Egon Frank, dono da fábrica de relógios Mondaine. Com a ajuda do pai, fugiu para a Suíça enquanto aguardava decisão judicial. Egon teria sido também um dos financiadores do filme. Rubens Ewald Filho, na Tribuna de Santos (25/10/77), citando o jornalista Sergio Augusto, questiona: “(…) não deixa de ser sintomático que escroques como Egon Frank e Fernand Legros tenham sido os grandes financiadores da pornochanchada brasileira”. 

A verdade é que Egon havia sido parceiro da Sincrocine de Rovai em outras produções, mas não participara do financiamento de “Gente Fina É Outra Coisa” (embora seu nome apareça rapidamente em cena, quando é mostrado um cartaz de “O Roubo das Calcinhas”, 1976). 

A coisa tomou tal proporção que Calmon foi obrigado a se pronunciar. Na Folha de São Paulo de 04/10/77, afirmou: “Não sei por que estão tentando relacionar meu filme com o terrível ‘caso Cláudia’ (…) só posso deduzir que estão tentando me prejudicar com esses terríveis comentários injuriosos”. Estava certo. A imprensa usou e abusou do sensacionalismo para envolver gente inocente no caso. E ninguém percebeu até hoje que a única relação possível entre o “Caso Cláudia” e “Gente Fina É Outra Coisa” bailava diante dos olhos.

“As elites não tem valores e elas sempre se permitiram tudo”, voltemos à frase de Calmon.