sábado, agosto 25, 2007

Mulher, Mulher


Apesar do estrondoso sucesso -- 2 milhões de espectadores em 1979 -- podemos dizer que "Mulher, Mulher" é de longe o título mais fraco de Jean Garrett, na fase virtuosa que sua carreira viveu até 1982. Mas, em se tratando de Garrett, quase tudo deve ser atentamente observado e reavaliado. Mesmo porque, em qualquer retrospectiva de sua obra, "Mulher, Mulher" surgirá como paradigma -- melhor dizendo, estigma -- e alvo fácil das leituras ignorantes que regem a crítica ao cinema popular brasileiro.

Marco zero de várias idiossincrasias da Boca, esta tour de force de Helena Ramos foi pilhada ao limite até praticamente ressurgir em nova encarnação: "Mulher Objeto" (1981), dirigido por Silvio de Abreu -- e ainda com Helena Ramos no papel de protagonista frígida e psicótica. Cortejadas por muitos, assoberbadas de si mesmas, as duas personagens refugiam-se no delírio e na loucura como forma de sublimarem um frenesi sexual de fazer inveja àquela que lhes servia de musa inspiradora: Séverine Serizy, a belle de jour, de Luís Buñuel.

No caso do roteiro picaretíssimo de Ody Fraga, Alice -- a "Mulher, Mulher" -- não demora a compreender estes sentimentos despudorados, e parte para a ação sem grandes elocubrações burguesas. Viúva de um psiquiatra famoso, é querida pelo advogado da família, Luiz Carlos (Dênis Derkian), a quem esnoba -- preferindo o flerte do caseiro Zé Preto (Aldo Bueno) e do cavalo Jumbo; ambos habitués de suas alucinações e divagações esquizóides.

Helena Ramos e Jumbo logo terminam protagonizando a cena que renderia dezenas e dezenas de imitações grotescas -- e até um subgênero -- dentro do futuro cinema pornográfico da Boca. Completamente alucinada e extasiada, perambulando pelo estábulo, Alice tira a blusa e o cavalo -- que é cavalo, mas não burro -- faz festinha discretamente nos seios da moça, inaugurando desnecessário trem da alegria eqüino nas imediações do Soberano.

Além dos esportes eqüestres, Alice se defronta com uma professora hippie, acampada nos fundos da sua chácara, pródiga em recitar Camões (seria uma homenagem às origens lusitanas de Garrett?), e relativizar os problemas da amiga com sociologia de botequim. Os diálogos são tão esdrúxulos que a visitante escande as sílabas e despeja o curriculum vitae completo: "Oi, eu sou Marta. Me formei em Literatura e vim para cá preparar a minha tese de pós-graduação..."

Marta e Alice fazem sexo na praia, com Alice pedindo mil desculpas por ter agredido a outra, em um dos inúmeros surtos que pontuam seu comportamento. Nova crise vitima o cavalo e o caseiro, que literalmente botam o pé na estrada e somem do mapa. No auge da insanidade -- e da cara de pau -- Alice aparece colocando fogo no corpo de Luiz Carlos, o advogado apaixonado -- quem cuidaria do espólio do marido? -- mas imediatamente descobrimos que foi mais um delírio, já que surge na cena seguinte marcando encontro pelo telefone com o recém-carbonizado.

Flanando neste universo trash, Garrett capricha e consegue até um resultado agradável de ser visto. É ajudado pela fotografia de Carlos Reichenbach e a performance desprendida de Helena Ramos; quase sempre dublada, mas ainda assim uma das grandes atrizes brasileiras de todo o sempre. Versátil no drama e na comédia, se sua voz equiparasse à presença cênica, Benedita Helena Ramos teria feito uma transição fácil do cinema para a tv e de volta para o cinema. Outras, com muito menos talento, foram assíduas da Boca e estão aí até hoje.

Três décadas depois, "Mulher, Mulher" ainda se mantém entre as 100 maiores bilheterias da história, mas fere a expectativa de quem conheça o Garrett de "A Mulher que Inventou o Amor" e "Tchau, Amor" -- artesão, obsessivo e intuitivo. Olhado no todo que o diretor realizou, parece um desperdício: sem obter a alta-voltagem erótica -- e sofisticada -- do xerox "Mulher Objeto", alimenta o tosco vaticínio de que "o cinema paulista só era auto-sustentável por vender nudez e machismo".

Driblando essas simplificações, os filmes de Garrett trazem sempre as mulheres como vitoriosas. E grande parte deles sobreviveria sem corpos em fúria; imposição dos produtores e deleite das variadas platéias do Centro e dos subúrbios. Resta-nos não repetir estereótipos, lendas urbanas, mas entender o que de fato ocultava-se e diluía-se naquele infinito imaginário de cultura e entretenimento popular.

11 comentários:

Adilson disse...

Andrea, Tudo bem?
Adoro a Helena Ramos e fico contente que você a destaque como uma das nossas mais importantes atrizes.
Fiz uma entrevista com a Adélia Sampaio e foi muito legal conhecer ela mais de peto. Falei, inclusive, da sua crítica aqui sobre o "Amor Maldito".
Enviei uma email contando para você sobre essa entrevista, mas fiquei sem saber se você recebeu.
Um abraço,
Adilson Marcelino
www.mulheresdocinemabrasileiro.com

Andréa Ormond disse...

Oi, Adilson! A Helena Ramos é subestimada bobamente, aqueles preconceitos de sempre. Li agora seu email, acabei de respondê-lo :)

Matheus Trunk disse...

Gosto muito desse filme do Jean, em que talvez seja a melhor interpretação de Helena Ramos no cinema. Tem muitos defeitos, esse negócio do delírio, confesso que a primeira vez que vi não entendi o final rsrs, porque chega ser realmente rídículo o final. Seguinte o Luiz Gonzaga dos Santos, assistente do Jean nesse longa eles passaram balas menta nos seios da Helena pra fazer a cena. Sobre o Jean, ele é um excelente diretor e a fotografia do Carlão nesse filme é idem. O Aldo Bueno é um grande ator, inclusive nos filmes do Ugo Georgetti, não sei porque infelizmente esquecido. Mas eu discordo quando você diz na crítica passada que os filmes explíxitos do Jean são "constrangedores". Muito pelo contrário. Pelo talento intuitivo e genial dele, o Jean conseguia fazer filmes explícitos de metalinguagem e realmente se expressar por eles. Não defendo o cinema explícito, mas sei que esse tipo de filme foi o único tipo para pessoas como Jean, Alfredinho Sternheim, Cláudio Cunha, Juan Bajon, Fauzi Mansur e tantos outros continuarem suas carreiras. E de pessoas que trabalharam em com o Jean que conheci, todos são unanimes em dizer que ele não era grande fã de explícitos, mas os fez sem qualquer tipo de arrependimento. Jean foi um dos caras da Embrapi que defendeu (juntamente com Mário Vaz Filho, Antônio Meliande, Cláudio Portioli) que defendeu que a produtora deveria continuar produzindo filmes explícitos. Outros cairam fora. Tem muitos filmes da Boca feitos no períodos explícito como "Rubeceteio" do Cláudio Cunha ou diversos do Alfredinho, do Mojica também que tem muitas qualidades. Portanto, eu pessoalmente não vejo esses filmes como "constragedores" e sim infelizmente o que esses diretores, técnicos tinham de opão pra continuarem fazendo o que amavam: cinema. Pode não ter sido o melhor jeito de continuar, mas foi o que fizeram e muitos de forma talentosa e até mesmo libertária.

André Setaro disse...

Andréia Ormond, sobre ter uma escrita fluente e dotada de estilo, resgata, com suas críticas, o cinema popular brasileiro, que foi tão acachapado pela 'inteligentzia' quando os filmes eram lançados. Ignorar o cinema popular brasileiro é o mesmo que ignorar uma parte importante da cultura brasileira. Há, esta a verdade, uma crítica intolerante e sectária, que vive sob o guarda-chuva ideológico e não tem um livre pensar. Infelizmente esta crítica, que se estabeleceu num determinado momento quase como pensamento único (vide a famosa frase de Paulo Emílio) contribuiu sobremaneira para descartar o cinema popular brasileiro daqueles que começaram a se interessar e estudar a cinematografia nacional. Nesse sentido se estabeleceu como contraproducente, preconceituosa. Mas os filmes falam por si e ficam como testemunho de seu tempo à espera de pessoas que saibam vê-los na sua essência, como faz Andréia Ormont neste extraordinário 'Estranho Encontro'.

Andréa Ormond disse...

Matheus, se não fosse contrangedor para um diretor com as qualidades do Garret dirigir sexo explícito, ele -- e tantos outros -- não teriam assinado com pseudônimo. Salvo exceções como o Alfredo, que sempre ressaltou o preço que pagou por não se esconder atrás de um disfarce. Essa foi a única opção para prosseguirem no cinema, e ainda que alguns desses filmes sejam "orgânicos" e tenham qualidades -- caso de "Oh! Rebuceteio", por exemplo -- a maioria dos diretores acreditava que a fase espúria passaria e que poderiam voltar a fazer filmes como antes, o que infelizmente não aconteceu. No caso específico de Garret estou analisando o legado de um cineasta que dirigiu obras-primas como "A Mulher que Inventou o Amor" e "Tchau, amor". Diante desses, até o psicologismo ralo de "Mulher, Mulher" constrange no todo.

Oi André, obrigada mais uma vez
:) Tento fazer minha parte na crítica, pois me impressiona a quantidade de filmes importantes que essa cinematografia popular guarda, vários muito melhores do que aquilo que se fez no cinema "oficial" e laureado na mesma época. Trazer Garret, Ody e outros para o centro de uma contextualização do cinema brasileiro enquanto fenômeno cultural é necessário, para não dizer imprescindível, na minha modesta opinião. Um grande abraço!

Débora disse...

Olá,

parabéns pelo seu blog.
Disponibilizei um link em meu blog.
Beijos

Andréa Ormond disse...

Olá Débora, vc só não deixou um link para o seu blog :) Bjs

Daniel P disse...

Andréa, vc poderia comentar o filme EXCITAÇÃO, do Garret. Vi no Canal Brasil há poucos meses e adorei. Tem Kate Hansen e Flavio Galvão, recém saído de Vila Sésamo, em lances meio de Mojica, com metalinguagem freudiana, claro. Ah, tem Betty Saddy tb

Anônimo disse...

Olá, assisti ao filme ontem à noite no Canal Brasil e gostaria muito de saber alguma referência da trilha sonora. Há uma música que talvez chame-se I wanna go to Guarujá, quando Helena Ramos e Dênis Derkian dançam juntos numa discoteca. Adoraria saber qual música seria essa. Obrigado.

Augusto Branco disse...

SER MULHER

Ah, ser mulher!

Ser mulher é ver o mundo com doçura,
É admirar a beleza da vida com romantismo.
É desejar o indesejável.
É buscar o impossível.

O poder de uma mulher está em seu instinto
Porque a mulher tem o dom de ter um filho,
E cuidar de vários outros filhos que não são seus.

Ah, as mulheres!
Ainda que sensíveis
Mulheres conseguem ser extremamente fortes
Mesmo quando todos pensam que não há mais forças.

Mulheres cuidam de feridas e feridos
E sabem que um beijo e um abraço
Podem salvar uma vida,
Ou curar um coração partido.

Mulheres são vaidosas,
Mas não deixam que suas vaidades
Suplantem seus ideais.

Muitas mulheres mudaram o rumo
E a história da humanidade
Transformando o mundo
Em um lugar melhor.

A mulher tem a graça de tornar a vida alegre e colorida,
E ela pode fazer tudo isto quantas vezes quiser
Ser mulher é gostar de ser mulher
E ser indiscutivelmente feliz
E orgulhosa por isso.

- Brunna Paese -

edu vieira disse...

é, este filme eu gosto de algumas coisas...as gravações....adoro os segredos de liquidificador dos pacientes do marido..e a cena maravilhosamente non sense da tese de literatura da tipa praiana... amei...eu gargalhava sozinho em casa!!!