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quarta-feira, novembro 28, 2012

As Safadas


Ontem à noite, em alguma esquina, ouviram-se gritos de todas as cores e formatos. Diziam que Carlos Reichenbach era chapa do “cinema marginal”, ligado a Rogério Sganzerla. Acontece que em “As Safadas” (1982), o gaúcho paulistano fez exatamente o contrário. Dirigiu um dos três episódios do filme, sem qualquer vassourada de ideologismo. Sexo quase ginecológico não estava na cartilha de Sganzerla – nem do rival, Glauber Rocha.

O cult curta-metragem (“A Rainha do Fliper”) aproveita o lado potranca da deliciosa Zilda Mayo e revela uma batelada de obsessões do diretor. Reginéia (Zilda Mayo) é a liberdade, o lúmpen – vejam os ecos de Valério Zurlini e dos subúrbios, que aparecem a toda hora na obra de Reichenbach. A garota é a oposição ao tédio de Tenório, o mocinho engravatado, broxa e que prefere considerar que a moça é uma perdida. Tenório gostaria de regenerá-la. Mas regenerá-la de quê? O melhor é deixá-la livre, nos braços do cafifa (Giba). Um grandão brega e, porém, ouvinte do reverendo Al Green. A distância dos dois universos acaba sendo cantada pela própria voz de Carlos, que recita “O Guardador de Rebanhos”. Aqui Fernando Pessoa pulula no território sensorial da literatura. Em outros filmes, estará a cargo de Mário Faustino, Murilo Mendes, Aristóteles, Kierkegaard, surgindo no breu, como fantasmas.

Reginéia, Tenório e Giba passeiam de carro, comentam sobre os cinemas em ruínas, divertem a platéia ao citarem nomes clássicos (Fritz Lang, Mizoguchi). É o passado de Reichenbach, que se une ao ficcional. Os três também retomam a questão da (a)moralidade (esmiuçada em “O Império do Desejo”, 1981) e das firulas sociais. A mãe rejeita Reginéia. Não há redenção, a velha não a quer de volta. Acontece que o amor materno também pode ser desamor. E a mãe (ou o substituto dela) pode estar no ambiente fétido dos flipers – que, aliás, eram mania internacional: vide Carlos Hugo Cristensen em “A Morte Transparente” (1978) e a esfuziante Brigitte Lahaie, sempre disposta ao bom entretenimento.

“Uma Aula de Sanfona”, episódio seguinte, traz o crítico Inácio Araújo na versão diretor. Acostumado às mesas de montagem desde os anos 70, Inácio repete a solidão do lúmpen, tão característica de “A Rainha do Fliper” – na qual colaborou como argumentista. “Uma Aula de Sanfona” conta o amor entre a mocinha volúvel (mas que estuda para concurso) e o homem gordo, inesperado, tocador de sanfona. Claro que existe uma cizânia nos papéis: a relação estapafúrdia entre os dois. Acontece que a mulher delira, esconde o desejo pelo gordo, tenta manipulá-lo e fazê-lo refém da sua beleza. O olhar voyeur acaba revelando uma inversão bastante hábil para o desfecho final.

Atualmente em cartaz, “Gonzaga – De Pai Pra Filho” também fala sobre sanfoneiros cheios de graça, mas cairia do cavalo com a doença do namoro de Nancy (Sandra Graffi) e Durval (Cláudio Mamberti). Tudo gira em torno de Nancy, até mesmo a relação entre os coadjuvantes (sua amiga e seu ex-enrosco), atrás da porta, alheios ao que ocorre na cama do obtuso casal. Reza a lenda que Sandra Graffi quase foi limada do episódio por Antonio Galante, o venerando produtor de “As Safadas”. Galante queria gente pelada e dinheiro a rodo, mas a perspectiva de ver a namorada do filho nuinha em pêlo não o deixou nem um pouco maravilhado.

“As Safadas” mostra closes nas partes baixas das atrizes, típicos de 1982, ano cada vez mais próximo da guinada pornográfica na Boca do Lixo. Neste sentido, o terceiro e último conto (“Belinha a Virgem”) proporciona os maiores delírios à platéia masculina. Àquela hora, já aguardavam finalizar os trabalhos e sair da sala escura com o espírito renovado.

Dirigido por Antonio Meliande, “Belinha a Virgem” tem um quê do Marcelo chefão, abatedor de estagiárias em “Eros, O Deus do Amor” (1981). Fotógrafo e parceiro de Walter Hugo Khouri, Meliande aprendeu algo com o mestre e diluiu de propósito na superfície. A intenção era ser o alívio no underground de Reichenbach e Araújo. Meliande usa a fixação de mais outro diretor, José Mojica Marins: o título de “Comendador” para homens ricos. Comendador Passaralho tenta de todas as maneiras pegar Belinha, a garota que faz de tudo, menos entregar aos homens o precioso hímen. A piada-base do roteiro lembra as brincadeiras de José Miziara em “Pecado Horizontal” (1982).

“As Safadas” é aquele caso que confunde os espectadores que escolhem o filme pelo título. Prontinho para as taras psico-epidérmicas do público, é na verdade um sururu de tendências. Todas elas reunidas pela mão louca de Antonio Polo Galante, mestre em dar vida a projetos inusitados. Na fúria autodidata, Galante conseguiu fazer da trilogia um acerto. O comboio de “As Safadas” alcança a posteridade com adjetivos todos próprios: erudito, trash e debochado.

quinta-feira, novembro 08, 2012

Bacalhau


O que dizer de uma besta-fera que se alimentava de pedaços de discos de Amália Rodrigues? Um bicho amarelo, cheio de cílios, a pior criatura de todos os tempos. Com apenas uma bocada, transformava as vítimas em esqueletos retorcidos (talvez made in Pindamonhangaba, já que o próprio animal era made in Ribeirão Preto).

É preciso muito amor, muita compreensão com ele, o Bacalhau da Guiné. Chega a dar um nó na espinha, uma pontada na base do fígado. Só pode ser fruto da imaginação de um louco, de um homem que batucava os dentes ao engolir ovos coloridos, no bar qualquer. Tinha nome e sobrenome: Adriano Stuart. Falecido em 15 de abril de 2012, poucas horas depois de Paulo César Saraceni.

Muito se fala do humor britânico, do stiff upper lip. Misturado nas guerras lisérgicas de travesseiros e nos troca-trocas dos internatos, o stiff upper lip desaguou em grupos como o “Monty Python”. Mas aqui mesmo, no Brasil, a cara de pau de gente como Adriano Stuart merece um gigantesco troféu na sala psicodélica mais próxima.

No fim dos anos 50, ninguém daria crédito ao Adrianinho. Começou no circo do pai, o comediante Walter Stuart, e parou na Tv Tupi. Anos depois, o pequeno Stuart criaria os sucessos de outras gerações de moleques: escreveu episódios de “Shazan, Xerife e Cia.”, dirigiu filmes de “Os Trapalhões”, além do clássico “Fofão e A Nave Sem Rumo”.

Contratado pela Ômega Filmes, Adriano Stuart também foi o papai do “Bacs”, vulgo “Bacalhau” (1976), uma das mais hilárias refilmagens dos anos 70. Escrachou com a peixosa cara de “Tubarão” (“Jaws”, 1975), àquela altura o summer movie do momento. Dali para as matinês nos sofás de couro, ao lado de samambaias, foi um pulo: ninguém sabe ao certo quantas vezes “Jaws” 1, 2 e 3 foram reprisados nas “sessões da tarde” da década seguinte.

Entre o calor apoteótico de “Inferno na Torre” e o calor vesuviano de “Emmanuelle”, a franquia de “Tubarão” clamava aos céus. “Bacs”, por sua vez, clamou ao divino dorso de Helena Ramos. Linda de doer, encarna a amante do prefeito (Petrônio, Dionísio Azevedo). Como todos sabem, o prefeito de “Tubarão” briga com o delegado (Breda, Hélio Souto) e, no fim das tantas, topa a presença de um pescador mal encarado (Quico, Maurício do Valle). O pescador é a outra besta-fera, a única capaz de amansar o espírito de porco dos mares.

Os três não contavam com a chegada do oceanógrafo. Um jovenzinho boa-praça, idealista, e que no “Bacs” é interpretado pelo próprio Stuart: Matos, um doutor made in Portugal. Temos aqui, portanto, um oceanógrafo português. Acreditem: a certa altura ele dará bordoadas de tacos de baseball na cabeça chata do monstro da Guiné.

Sinceramente, a quantidade de piadas, de gags e de falta de vergonha emocionam de tal modo que “Bacs” precisa ser um filme de cabeceira de qualquer amante do cinema brasileiro. Estão lá as piadas sobre traídos, gays, boazudas e frases que ficam inaudíveis porque vetadas pela censura. Entre as ouvidas, peguemos duas: “Quem quebra galho é macaco gordo, boneco.” “Tive um sonho horrível. Sonhei que sua mãe tinha vindo morar com a gente”, enquanto a mulher acorda assustada, tremida pelo pavor.

A presença do ator Canarinho faz o lado Hiroito Joanides da história: a contravenção, em polvorosa com a tragédia marítima que assola a cidade. No outro canto da sala, Maurício do Valle e Adriano Stuart repetem a parceria recente de “Kung Fu Contra As Bonecas” (1975). Também havia Helena Ramos no “Kung Fu”. De macacão jeans e sentando a pua, em larga escala de catiripapos.

Quando pensarem que não mais restam esperanças, dia após dia, no mundo cão das nossas tragédias, lembrem-se: em “Bacs”, a autópsia de um falso bacalhau revelava que ele havia ingerido carnês do Baú da Felicidade. Nada mais a dizer. Por tudo o que a brisa canta, evoé Adriano Stuart. Estás acordado por aí, em algum canto de nuvem. 
 

terça-feira, dezembro 27, 2011

Fofão - A Nave Sem Rumo


Os olhinhos amendoados e as bochechas imensas colocaram Fofão como um dos mártires da Nova República. Mesmo sem ter chorado nas “Diretas Já” ou comparecido ao enterro de Tancredo Neves, a presença do alienígena cristalizou uma era.

Fofão não acabou com a ciranda financeira, nem interrompeu o “overnight”. Não sacudiu os fiscais do presidente José Sarney, que lacravam supermercados, julgando-se o máximo da cidadania. Tampouco acusou o fato de os açougues esconderem carne para venderem no câmbio negro. Mas nesta surrealidade, nesta euforia histérica, havia uma única verdade: lá estava ele, o nosso ogro. O ogro bom.

De macacão, camisa listrada. Fofão balançava os cabelos em desalinho, que culminavam em um risco no topo da cabeça e dividia a carapinha ao meio. Anjo decaído da Fofolândia, ele havia abandonado o planeta de origem durante um almoço que a mãe lhe preparava. Percebam: Fofão é uma criança. Mais alta e de aspecto esquisito. Porém, criança.

Como o tempo dos fofos é diferente dos tempos dos humanos, passou muitas luas conosco, seus amigos da Terra. Acordávamos cedo, corríamos ao televisor e sapecávamos o botão de “liga/desliga”, rodando o seletor à procura do canal. Absoluta inexistência de controle remoto.

A vinheta do programa estalava no centro da tela. O plano se abria. “A Turma do Balão Mágico” pulava no palco. Simony, Tob, Jairzinho (o filho de Jair, do “Fino da Bossa”), Mike Biggs (o filho de Ronald, amigo íntimo de Her Royal Majesty). Entre desenhos e canetas de hidrocor, Fofão conversava com todos.

Revendo de longe as “apatralhadas” – como ele próprio gostava de dizer –, as brincadeiras aconteciam em pé de igualdade. Reside aí umas das respostas para o caráter nobre de Fofão. Era doce, meigo. Não impunha um clima de superioridade, fosse pela beleza ou por uma idéia qualquer de potência.

Acabou descambando para a venda de produtos, estrelou programa na Tv Bandeirantes, mas manteve o estilo ingênuo, criado por Orival Pessini. A máscara de látex não deixava aparecer o rosto de Pessini, que serviu de cavalo para o bicho ruivo. Além de Fofão, interpretou o macaco Sócrates de “Planeta do Homens” e o Patropi da “Escolinha do Professor Raimundo”.

No outono das críticas e das acusações de satanismo, Orival Pessini/Fofão dava entrevistas. Vejam que (obviamente) sempre há um demônio rondando a infância alheia, diria Anna Freud. Crueldade de alguns invejosos: diziam que os bonecos do Fofão escondiam navalhas e que matariam as crianças à noite. Além disso, se pareceria com Chucky, o boneco assassino, e talvez com algum outro recalque lembrado de madrugadas macabras, em que se exibia “Alice, Sweet Alice” (1976) ou o clássico absoluto do terrorismo notívago, “Gargoyles” (1972).

Por sua vez, as entrevistas chorosas de Pessini/Fofão eram um assombro behaviorista. Enquanto usava a dicção de ET – que parecia quase sempre estar babando –, o ator/personagem também aproveitava para cometer declarações sérias. Estranhíssimo.

Noves fora, Orival Pessini acabou tendo um espetacular encontro com Adriano Stuart. Sim, o fígado de maior pH reativo da Boca do Lixo. Fez-se a luz. Nasceu “Fofão - A Nave Sem Rumo” (1989), patrocínio dos antigos chocolates Dizioli. A logomarca aparece nos primeiros segundos, qual o leão da Metro. Pena não terem sido as cigarrilhas de chocolate Pan, cuja imagem de um molecote fumando é um deleite politicamente incorreto.

Como diretor, Adriano Stuart tenta imprimir a mesma correria dos filmes dos Trapalhões, que já havia dirigido. Especialmente “Os Trapalhões na Guerra dos Planetas” (1978). Este e “Fofão - A Nave Sem Rumo” devem muito aos sabres e aos vapores futuristas de “Star Wars”. E isto apesar de a trilogia de George Lucas não representar novidades em 1989.

É certo que o insuportável C3PO bateria os pés, recitaria algum adjetivo de quatro sílabas para a tal “Nave sem Rumo”. Independente do ataque, Fofão cumpriu o seu chanchadesco objetivo. Usou efeitos especiais saídos dos consoles de Atari e o ruminar silencioso da aura que conquistou na TV.

O imaginário de Adriano Stuart apela para “Poltergeist” (1982). A velha máxima da babá eletrônica surtada, mas aqui pegando leve, de relance. Idem “Super Homem” (1978), o primeiro da série. Ao invés de Marlon Brando umbandista, vestindo camisa branca, temos a honra de conhecer o pai e a mãe de Fofão. Ele, recém-nascido em uma manjedoura. Ou seja: a aurora da dinastia.

Espectadores mais atentos verão ecos de “Kung Fu contra as Bonecas” (1975), o cult com o próprio Stuart, Helena Ramos e o inacreditável Maurício do Valle. No entanto, não esperem cartilha cor de rosa, ou Fofão se engraçando em uma vaga homoerótica. Caminham por vales, andam a dar com o pau. Depois um garotinho manipula nunchakus, rodando ao léu.

Sinceramente, não posso imaginar outro sonho de consumo para o menino. Emendar um Bruce Lee, catar de sopapo os vilões que no fim do expediente engoliam rabos-de-galo poderosos no bar Soberano. Adriano Stuart soube tratar da autoestima da criançada, torná-las protagonistas junto com Fofão no mesmo grau de imaturidade, na mesma vontade de ajudar.

Entram de repente os grugrugrus de Fofolo, grande parceiro da Fofolândia, um ser de poucos centímetros e coberto de pelos. Sabe-se lá quem deu vida ao querido animal. Talvez um anão, talvez uma criança. Eles dançam com a trilha sonora de Terry Winter e Neil Bernard, a dupla de brasileiros, autores de “Summer Holiday”, hit wonder de 1972. Como a realidade aparece unicamente para distorcer os sentidos, ainda se pode esperar que Fofão pule umas cambalhotas até o fim do LP, demore para retornar ao almoço cozinhado pela mãe e proteja com as patas vermelhas o que resta de nossa melancólica idade adulta.


PS - Esse post encerra nossa série sobre o cinema infantil e também o ano de 2011. Um feliz 2012 a todos os leitores! O blog volta em meados de janeiro.

quarta-feira, novembro 09, 2011

O Gato de Botas Extraterrestre


Até hoje não é possível entendermos por que raios “O Gato de Botas Extraterrestre” (1990) é de fato extraterrestre e nem o motivo de levar nas costas um teclado colorido, provavelmente roubado do Genius – aquela rodela com botões, parente próxima do Pac Man, o Beato Salu da infância 80.

Entupido de maquiagem, tremendo chiquê de Hollywood, o bichano não nega as origens e apesar da máscara preparada pelos Burman Studios, acaba sendo tão dadaísta quanto a Boca do Lixo.

Heitor Gaiotti (o gato, que não revela o rosto) havia estrelado os mimosos “Corrupção de Menores” (1984) e “Bobeou... Entrou” (1984). Como não existia ficha limpa para as adaptações de contos infanto-juvenis, o diretor Wilson Rodrigues engrossou o coro de maledicências e realizou “Masculino... Até Certo Ponto” (1986), logo depois de “No Mundo da Carochinha Volume I: Chapeuzinho Vermelho” (1984).

Na realidade, “O Gato de Botas Extraterrestre” se limita a um veículo para a criançada, cheio de bons modos e intenções calmíssimas. É nítido que a integridade psicofísica do gato foi respeitada durante toda a filmagem, privando-o de orgias interraciais ou mesmo da companhia de Jack, o cãozinho bom de bola em “24 Horas de Sexo Explícito” (1985).

O gato corre, pula, trota de um lado para o outro, atravessa as pradarias da cidade de Gramado. Acaba apresentando um arremedo de Brasil, Europa medieval e efeitos visuais cenozóicos que, acreditem, atordoam pela incrível vagareza.

Se já é difícil ter a exata dimensão de tanta engenhosidade, os leitores podem se preparar para um pequeno surto e lamber os beiços: a adaptação do conto de Charles Perrault é assinada por Rubens Francisco Lucchetti. O próprio. Co-autor de algumas das insânias de José Mojica Marins, incluindo “Finis Hominis” (1971) e “Exorcismo Negro” (1974).

Psicose total, além de Lucchetti o próprio Mojica em pessoa aparece em “O Gato de Botas Extraterrestre” com as capas e as cores de Josefel Zanatas (vulgo Zé do Caixão), sua criatura mais famosa. Apesar disso, o personagem recebe o nome de “Príncipe Renini”. E, sem a agressividade e o ímpeto de “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967), o Príncipe é apenas mais uma das criaturas enfeitiçadas pelo Mago Mau (Jofre Soares).

Renini tem um comportamento absolutamente contrário à identidade pagã de Josefel. Chega ao cúmulo de se dizer produto de uma crença religiosa, um “Moon Ha”, forma decadente, criada pelo podre mago. Aqui já se pode ver o Zé do Caixão fashion, o biscuit centro da moda, paródia de si mesmo. Os pimpolhos rebolavam de medo e, bem provável, papais e mamães não tenham votado no Tio Zé para deputado federal, em 1982.

Como a inspiração não baixou no terreiro extraterrestre, a chance de Príncipe Renini/Zé do Caixão salvar o filme acaba sendo jogada fora. Renini dilui-se antes de transformar “O Gato de Botas Extraterrestre” em um veículo para o caboclo alucinado, que debochasse da pompa e da circunstância.

E isto porque nem as sebosas unhas de Zé nem mesmo a tarimba de Lucchetti controlam Wilson Rodrigues. Morno e arrastado, o diretor apela para a dupla de starlets (Maurício Mattar e Flávia Monteiro), em um clima de Walt Disney levado a sério. Tonia Carrero (avó da garotinha para quem conta a história) tem uma participação inesperada no ouriço.

“O Gato de Botas Extraterrestre” lembra um preparatório para as filmagens em vhs que se multiplicaram durante a década. Algo como o aniversário da tia ou da prima, em que se jogavam os letreiros e se admirava a tecnologia, com os olhos arregalados diante do computador TK 3000.

O próprio Lucchetti parece cansado. Além da escolha canhestra de um lado Roswell – que permanece mal explicado e poderia ter sido uma tacada interessante –, o ex-quadrinista pouco altera o enredo original. Curiosamente, Lucchetti ganhou prestígio nos anos 60 com “O Gato”, em HQs desenhados por Eugenio Colonnese. Já a versão de botas incorpora somente um tipo malandreco, que se contorce e, no alto da histeria, delira feito pastor do Cinema Novo: “Cada cidadão de meu amo é um guarda de si mesmo!”.

No final das contas, o gatinho é minguado. Os verdadeiros acertos ocorrem sem querer. Principalmente nos closes em castelos de brinquedo e nos figurantes que parecem refugiados do holocausto de “As Histórias que Nossas Babás Não Contavam” (1979). Créditos como “Thankfulnes [sic] in Brazil", olhados daqui do futuro, parecem tirados de canções do Supla.

Enquanto Tony Tornado (guarda do Rei) dá um passo de Jackson Five na “BR-3” e a "spatial scene" de um bólido cruza os ares, a maçaroca musical escolhe a trilha sonora de “Blade Runner”. Bem faria o peludo felino se tivesse calçado tênis, aderido às modas do Dr. Cooper e num bestial conjunto de calça e top da Adidas – com listras brancas – corresse pelo mato afora. Quem sabe retirando o walkman das orelhas, para melhor ouvir o querido amo.

segunda-feira, junho 06, 2011

Perversão


A imprensa popular sempre gostou de fazer um cafuné no rostinho das lendas urbanas. Ketchups contaminados, velhas do saco, loiras do banheiro, epidemias inventadas, musos e musas enlouquecidos. Atire a primeira edição do NP quem teve a azia de nunca se importar com tantos rocamboles sórdidos e primaveris.

O injustiçado bebê capeta, por exemplo, rendeu quilos e quilos de textos. Mães de família se ajoelhavam, levantavam os braços aos céus, clamando pelo Juízo Final. Adolescentes – estas criaturas cínicas – repetiam a saga do infante, contornando os bedéis e as aulas de química.

Ao invés do bas fond, aterrissemos no society paulistano. Elza Leonetti do Amaral era outra figura carismática, que alcançou alguma celebridade nos idos da década de 70. A “viúva negra”. Misteriosa, rica, pantera. O currículo semelhante a um giallo: cheio de maridos mortos (por ela) em circunstâncias invariavelmente mal explicadas.

Imagine a combustão de colocá-la em um filme. Agora imagine-a contracenando com o “Zé do Caixão”. Mesmo que o Josefel Zanatas estivesse à paisana e quem estrelasse fosse o tal de José Mojica Marins – até porque, no imaginário popular, criador e criatura se misturam.

Em “Perversão” (1979), de Mojica, Elza aparece e arrasa no pancake. Na roupitcha, no patchouli. Faz uma ponta como a advogada que acusa o Comendador Vitório Palestrina (Mojica) de ter praticado uma terrível atrocidade. Estuprar e arrancar, com os dentes, o mamilo de Sílvia (Nádia Destro).

Muito da atmosfera de “Perversão” deve-se justamente a essa curiosa aliança entre Mojica e Elza. Empolgado com os relatórios da amiga, o diretor tentou criar um universo de grã-finagem. Colocou um comendador (!) de origem italiana, sobrenome “Palestrina” (!); restaurante no centrão de São Paulo (!); caminhadas românticas na praia (!).

Mas se acalmem, o filme não é tão hilário assim o tempo todo. Precisamos encarar, e aí está a charada, os outros elementos de Mojica: o ceticismo, o ódio encalacrado, a violência – que “Perversão” utiliza sob vinheta de “vingança feminina”, livremente inspirada em Elza. Na “história de Elza”, desta vez longe de leoazinhas e pradarias.

E sem a obsessão do “filho perfeito” de “À Meia-Noite Levarei sua Alma” (1964) ou “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1966), a premissa nietzschiana continua por outros caminhos no filme de Mojica. Geralmente surge na linha dos fortes versus os fracos, na debilidade social, na ridicularização dos puxa-sacos do Comendador. Cada qual mais lamentável que o outro, batendo palma, esperando ouvir o que barrigudo tem a dizer.

Chama atenção, ainda, o olhar de desprezo de Vitório para uma das cocotas: “Vai para o inferno! Prostituta de circuito fechado da sociedade!” Falta de paciência do Comendador. Achou a garota fácil demais, frágil demais, aboletada de bruços na cama.

Apesar do raciocínio intrincado, deve-se dizer que existe uma escorregada religiosa nos créditos iniciais: “O poder monetário pode fabricar um deus – mas jamais comprará a DEUS.” Vindo de um ateu cinematográfico, a frase causa espanto.

No aspecto populacional, “Perversão” entope a tela de gente. Homens, casais, um gay, mulheres apalpadas por velhos repugnantes. O sexo, aliás, ganha um tom inacreditável nos momentos em que Mojica alisa a própria (e caída) pança. As caras de cio do ator-diretor lembram as fotos que ele distribuía aos alunos do curso de artes dramáticas.

O espectador, por sua vez, não sabe se ri ou se chora ao ver as unhas imensas agarrando copos de uísque ou dezipando a braguilha ou se encaixando bonitas entre as polpas femininas. Quando o cinema era forte, debochava e incomodava a si mesmo, lá estava Mojica. Porque o Comendador vive o galã. Acreditem. Dublado, com vozeirão canalha. Seminu, de cueca e indefectíveis meias.

Quebra total de expectativas, ainda mais quando o riff que antecede as entradas em cena do personagem é retirado de “A Ponte do Rio Kwai”. Alec Guiness – que em 1979 já havia encarado o Ben Obi-Wan Kenobi em “Guerra nas Estrelas” – poderia chamar o Yoda e ter longas conversas sobre o uso latino-americano da trilha sonora. Afinal, diria o enrugado mestre, “protagonista do clássico filme ele era”.

Crounel Marins, filho do diretor, escreve os diálogos. Crounel havia participado do projeto anterior de Mojica Senior: “Mundo, Mercado do Lixo” – que viraria “Mundo, Mercado do Sexo” –, rodado com pupilos do famoso curso paterno.

Durante “Perversão”, trabalharam com o título de “Estupro!”, posteriormente alterado para suavizar o drama. Diriam os psicanalistas que até faz sentido, mas as platéias não se sensibilizaram. Obra fatal, o escândalo do título talvez a ajudasse.

Entretanto, o fracasso marcou o fim dos estúdios de Mojica na Mooca, desenrolar de uma sina agourenta e massacrante, que se arrastou até a redenção nos anos 90. Havia pouco dinheiro na mesa. Inclusive para se sustentar, pagar as contas, terminar o dia.

No meio de tudo, o pavê de “Perversão” esconde um requinte gore, esporádico. Os machucados nas partes do Comendador, o bico do seio mostrado num pote. E os convidados em chamas, à la Buñuel, parecem ter saído de uma janela surreal. Alguns fingem ojeriza, alguns fingem apoio, alguns debocham de Vitório pelas costas. A crítica à riqueza do Comendador é, portanto, dúbia e não tão óbvia. É vilão, doentio, atleta de alcova, imbecilizado.

Para melhorar, quando menos se espera ouve-se a cara de pau de um “Love, soft as an easy chair”, “Teach me tiger”, “Live and let die”, “Je t'aime... moi non plus”. Enchendo a munheca de densidade e barbeiragem, planos fechados, cortes e repetições propositais, acaba-se concluindo que “Perversão” foi um sonho negro, atormentando os sentidos.

segunda-feira, maio 16, 2011

A Fêmea do Mar


O bom filho à casa torna: Ody Fraga deu um tchauzinho para a estação da Luz em São Paulo, apanhou as malas e embicou para o litoral de Santa Catarina. Volta ao estado de origem com “A Fêmea do Mar” (1981).

Roteirista, consultor, pornógrafo, ateu, ex-seminarista. O homem que recomendava Nietzsche às atrizes e mantinha uma biblioteca de mais de 3 mil títulos era capaz de descer do pedestal quando interessava. Nessas horas distribuía caretas, palavrões, castigando nos cigarros Minister.

Antes de gravar o subkhouriano “Mulher Tentação” (1982), Ody tentou em “A Fêmea do Mar” algo próximo de John Ford. Planos abertos, ventos, trilha sonora grandiosa, Grieg, Beethoven. Acompanhamos uma família presa, no tempo e no espaço. Jeruza (Neide Ribeiro) mora na beira da praia, leva artesanatos para uma lojinha distante, no centro da cidade.

Os rebentos, Cassandra (Aldine Müller) e Ulisses (Calu Caldine), têm um lance esquisitíssimo rolando solto. Uma espécie de versão moderna de “Totem e Tabu”, deixando claro o quanto é prejudicial a falta de socialização com outros amiguinhos.

O pai/esposo sumiu. Pegou um barco, evaporou-se. O desaparecimento de Santiago é a origem da neurose. Tudo o que ele tocou parece estar destruído. Ulisses não sabe ser homem. Cassandra não tem com quem desabrochar. Jeruza esqueceu de ser mulher. Anda de preto, coberta de panos.

Eis que um forasteiro aparece e traz a boa nova: Santiago morreu. Não adianta esperarem, não volta mais. E assim os mitológicos Ulisses e Cassandra começam uma odisséia, à qual se junta Jeruza. Querem acabar com o bode brabo que deprimia o casebre.

Começam a se animar através do sexo. Bastante sexo. Cheio de apetite, lambendo os beiços, Roque (Jean Garrett) passa o rodo, um anjo exterminador à base do Kama Sutra.

Os leitores não se enganaram com o nome do ator que interpreta Roque: sim, é ele, Jean Garrett. O mesmo que dirigiu algumas das obras-primas mais trágicas e negligenciadas do cinema brasileiro. Vira e mexe, a entidade de Garrett baixa aqui, nas páginas do Estranho Encontro.

Apesar de os dotes físicos de Garrett não encantarem o público tanto quanto a inteligência de diretor, Garrett cumpre bem o papel. O restante dos atores não consegue grandes vôos, fato piorado pelos dubladores. Além disso, problemas na montagem acabam com tomadas que deveriam ter uma importância brutal. Roque diz “seu pai está morto, meu rapaz”. Uma vinheta surge em seguida, Cassandra olha para baixo (deve estar triste) e pouco depois Roque agarra alguém.

Roque é, de fato, o eixo da trama. Guarda um segredo tremendo, uma grande sacada sobre a inveja masculina. Ody – também roteirista do filme – elabora o personagem com habilidade extrema. O marinheiro vira um pária, que se finge de bom moço mas cobiça a família do homem que matou. O tema da inveja entre marmanjos assusta. Bem mais comum falar de mulheres em fúria, lutando no gel, puxando cabelo ou fazendo caras e bocas umas para as outras.

Por outro lado, Ody peca terrivelmente ao colocar na boca de Roque alguns dos jargões da liberdade sexual. O sexo que pratica destrói, ao invés de construir, o que que pode soar retrógrado. Roque incentiva o incesto de Ulisses e Cassandra, transa com Jeruza, cata Cassandra, desestabiliza Ulisses. Ao perceber o ódio de Roque, Jeruza pára tudo. Triste, fechada, interditada. Fiel ao marido – que agora sabe estar morto –, e impossibilitada de gozar com qualquer outro. O moralismo vira norma de conduta, reação.

“A Fêmea do Mar” recebeu inicialmente o título de “Jeruza do Mar”, a intrépide matriarca do filme. Pressões de Antonio Polo Galante rebatizaram o projeto. Atitude comum, Ody Fraga já havia se acostumado. Até porque a relação com Galante sempre foi bastante pitoresca, cheia de benefícios mútuos. Em 1967, Galante descobre os latões de “Vidas Nuas”, junta pedaços da película, enxerta outros e quatro anos depois de começada por Ody, lança a fita com estardalhaço. Começam uma nova fase na Boca do Lixo, em que Ody Fraga lentamente se consagra como um dos mártires, fiel defensor.

domingo, abril 17, 2011

Coisas Eróticas


"São Paulo, 10 de maio de 1981. Queridos amigos: lemos o seu anúncio na revista Fiesta e depois de analisarmos vários outros anúncios, resolvemos optar pelo vosso. E, como não temos nenhuma experiência na prática do swing, gostaríamos de conhecê-los. Segue a nossa foto para aprovação."

O delicado correio amoroso faz parte do segundo episódio de "Coisas Eróticas" (1981), primeiro longa-metragem brasileiro de sexo explícito a ser lançado comercialmente nos cinemas. O trecho da carinhosa cartinha reúne pelo menos quatro características básicas para se compreender o filme. Temos o lugar (São Paulo) e o ano (1981) em que a trama ocorre. Em seguida, o alô esperto para a indústria pornográfica (representada na suculenta revista Fiesta). De quebra, o swing. A prática selvagem dos bacanais wife swap que faziam sucesso entre os 70 e 80, e que acabaria domesticada nos clubes privês, a partir dos 90.

José Miziara que o diga. No ainda ingênuo "Embalos Alucinantes" (1978) colocou a figura do malandro que ganha dinheiro deitando e rolando com casais. Em um extremo oposto, aparece "Coisas Eróticas". Ágil no gatilho, o diretor-produtor Raffaele Rossi abandonou o sexo da pornochanchada. A figura do galã metido a paquerador, as moças pudicas fora de casa. O sexo que antes era insinuado, fanfarrão e palatável, engata uma quinta marcha. Vira ginecológico.

Sem os penduricalhos estilísticos de um Tinto Brass, de um Radley Metzger, "Coisas Eróticas" está repleto de pêlos, panças, estrias, encontros toscos. Um naturalismo impensado, que decorre da obtusidade. Rossi já havia colocado trechos explícitos em "Boneca Cobiçada" (1980). Italiano de origem, cometeu alguns outros filmes -- no terror, "O Homem Lobo" (1971) e "Seduzidas pelo Demônio" (1975/77). Mas conquista um nicho através de "Coisas Eróticas".

Realizado em 10 dias, orçamento de 2 milhões de cruzeiros, com apenas uma semana em um cinema de São Paulo "Coisas Eróticas" arrematava 300 milhões. Trouxe o resultado irreversível: a Boca do Lixo se acostumaria a outra categoria de filmes. Embrulhados de presente para o respeitável público, que assiste a Rossi, Juan Bajon -- e, em breve, a autores como Jean Garrett e José Mojica Marins --, em toda sua explicitude.

Pobre coitado do presidente João Batista Figueiredo, que aguentava a recente liberação de "Império dos Sentidos" e as idéias subversivas de abertura política. Passaria, agora, a engolir a máquina dos mandados de segurança. Censores vetavam, advogados entravam na jogada. Corriam para as Olivettis, esmurravam as teclas, escreviam. O writ -- um dos remédios democráticos mais antigos no mundo civilizado -- se impôs. Verdadeiro amuleto da sorte.

E o Judiciário comprou uma briga às avessas com o Executivo -- que, por sua vez, era o responsável pela nefasta "Divisão de Censura de Diversões Públicas", prevista no Decreto nº 20.493, de 1946. Eis, então, que a meritíssima juíza da 2a. Vara Federal do Distrito Federal concedeu uma auspiciosa liminar para a Empresa Cinematográfica Rossi Ltda. Colocou a pá de cal em uma batalha incrível, determinando a liberação do filme que a Polícia Federal vira e mexe apreendia, em todas as bibocas do país.

Desde o pedido feito em novembro de 1981 até a hora de receber o Certificado nº 227, de 16/09/82, "Coisas Eróticas" passa por uma interminável ciranda. Do tipo que nem as personagens mais devassas imaginariam ser possível. Muitas mãos, muitas canetadas, muitos pareceres contrários.

Sempre atuante, o ex-censor Deusdeth de Souza Burlamaqui foi chamado por Rossi para agir na qualidade de procurador. Encaminha pedido de reconsideração e, lá pelas tantas, o Conselho Superior é incisivo: cortes no "lesbianismo" do primeiro episódio e corte integral do episódio "Sexomania" -- o do swing --, depois intitulado de "Coisas Eróticas".

Era este, por sinal, o nome do primeiro episódio, que acaba ficando sem título. Mas, independente das firulas, os três sobreviveram na esteira da decisão judicial. Além de Rossi, diretor do primeiro e do terceiro, Laente Calicchio entra no sanduíche e leva a direção do segundo.

Jussara Calmon -- que comandaria o belairiano "A Longa Noite do Prazer" (1983), de Afrânio Vital -- estréia aqui. Um rapaz gordinho (Oásis Minitti) faz literalmente a toillete no vaso sanitário, depois se encaminha ao chuveiro e se junta à legião de Onã. No resquício de argumento possível, enquanto Minitti passeia de carro pela Luz, encontra a modelo de uma revista erótica. A mesma revista que havia lido com tamanha atenção. E daí até visitar a casa de campo da mulher, é um pulo.

Minitti conhece a filha e a amiga da garota. "Quem é, mamãe?", pergunta nuinha em pelo. Antes de atacá-lo, há o sketch do sexo lésbico. Praticamente se resume a ficarem tremelicando, como se espalhassem Vicky Vaporub uma nas partes da outra.

Chevette azul indo, Chevette azul voltando, o episódio termina e surge o do swing. Com Vânia Bonier. O alvo do cãozinho Jack, mimoso animal das "24 Horas de Sexo Ardente" (1985), direção de Mojica.

Em "Coisas Eróticas", Vânia tasca a chibata no marido masô, se acasala com a colega -- novamente o momento Vaporub. Encanta-se pela foto do casal remetente, que mais parece ter sido roubada de algum jazigo de cemitério. Olheiras, poses de 3X4.

Interessante que no meio tempo há espaço para apertadas de um homem no outro. Tabu que aterrorizou os censores tanto quanto as carícias loucas das meninas. Pela variedade hardcore, o episódio se destaca no cômputo geral.

Ao longo do filme, a elevator music domina com fúria. Arranjos à la Walt Disney, "The Shadow of Your Smile", "Manhã de Carnaval" e "Last Tango in Paris" em uma versão que Gato Barbieri jamais imaginaria. Apesar da referência implícita ao Bertolucci "sensual" -- era moda vê-lo assim --, não há qualquer vestígio de potes de manteiga. As obsessões de Rossi são diferentes. Envolvem idas ao banheiro, sexo com mulheres que já tiveram filhas.

Essas imagens voltam no último episódio ("Férias de Amor"), em que Rossi enxerta uma aliviada moralista para tentar acalmar os ânimos. Depois de um moço abocanhar a irmã da pretendente, se irrita com o fogo cruzado da futura esposa. "Até a minha namorada? Pensei que fosse pra casamento!"

Em outras palavras: existe mulher para casar e existe mulher para namorar. Linha de raciocínio que deixa claro o quanto "Coisas Eróticas" usa uma carapaça, escorrega nos pudores e nas culpas em torno do belo esporte. Não tem nada de libertário. E isto muito embora o filme trate do tema com espontaneidade. Homens feios, suados, papos de microssegundos sobre o amor. Amor se contrapondo ao sexo. Algo que o esquematismo do tempo esqueceu. Os roteiros pornôs partiram direto para os finalmentes, sem muitas conjecturas.

O contemporâneo "Viagem ao Céu da Boca" (1981, liberado em 1983), maldito de Roberto Mauro, foi pelo caminho da escatologia. Pedofilia, tortura. O bichão grilo Zé Rodrix fez a música e parou nessa parafernália, até hoje renegada pelo suposto roteirista. José Louzeiro afirma ter chamado o diretor para briga, exigindo que lhe tirasse dos créditos.

Considerando a loucura de Roberto Mauro, não se pode dizer que "Viagem ao Céu da Boca" seja paralelo a "Coisas Eróticas". É aberração do momento histórico no qual o longa de Raffaele Rossi, bem mais pragmático, aproveitou para cavar uma franquia poderosíssima.

Em 1984, produz "Coisas Eróticas II", explora o bonde que ainda passava e que iria rarear drasticamente. Afinal, o mercado do home video prometia o nirvana e para lá viajaram tantos outros, com as sacolas prontas. As sessões do meio dia na Ipiranga e na Cinelândia carioca estavam perto do fim.

segunda-feira, abril 04, 2011

Kung Fu Contra as Bonecas


Adriano Stuart, um dos fígados mais resistentes de toda a indústria cinematográfica, dirigiu em 1975 o indescritível “Kung Fu Contra as Bonecas”. Um pandemônio cheio da mentalidade insana e deliciosa dos 70, que – Hossana nas alturas – se ajeita com muita cara de pau.

Em 1975, a temática homossexual no cinema brasileiro se restringia a um gueto ainda menor do que é visto hoje em dia. “Cio” (1971), de Fauzi Mansur, toca nesse dilema. Um bonitão corteja um garotinho, que depois se vê mulher. “Rainha Diaba” (1974) usa o aspecto lisérgico e de ultraviolência, em que Diaba é casualmente gay. Poderia não ser, mas se não o fosse, perderia bastante da aura. “Os Imorais”, de Gerado Vietri, faria em 1979 um acerto de contas entre amor, preconceito e sinceridade, como poucas vezes se viu.

O gay power de Adriano Stuart em “Kung Fu Contra as Bonecas” é absolutamente fora do eixo. Cínico, hilário, joga uma purpurina na testosterona do protagonista – Chang, que ele mesmo faz questão de esculhambar. Um metrossexual pioneiríssimo. Faz biquinho, ajeita as madeixas em forma de cuia, nega fogo a Helena Ramos (!) como o capeta foge da água benta.

Mistura cangaço, faroeste italiano, “El Topo”, Bruce Lee e adjacências. Inclui o girl power de Mariinha (Helena Ramos) distribuindo catiripapo a rodo, seca de vontade de vingar o falecido pai. Mais ainda: os espectadores ingênuos, que seguram por aí as cartilhas oficiais do cinema nacional, vão se assustar com Maurício do Valle. O intérprete de Antônio da Mortes, capanga dialético de Glauber Rocha, protótipo do matador que não agüenta o povão profundo e vai parar em teses mil na academia.

O que dizer de Maurício do Valle em “Kung Fu Contra as Bonecas”? Sinceramente. (Pausa para reflexão). Barbado, de bobs no cabelo, fazendo o toucador e pintando as unhas. Se os histéricos já se irritavam com o lenço lilás de Antônio das Mortes em “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, aqui no “Kung Fu” poderão estapeá-lo à vontade, no papel de Capitão Severino Azulão.

Um cangaceiro mequetrefe, amante de um tal de Travessa, jagunço que usa prótese dentária e leva Azulão para dentro de uma tenda de camping. É bonito de se ver. Ninguém é de ninguém no cangaço das meninas, seu chimbungo da moléstia.

A quadrilha de Severino Azulão é tão má, tão má, que assassinou o pai de Mariinha. A garota consegue escapar do estupro, ajudada por Chang (Adriano Stuart). Antes de partir para o ataque, é claro que ele pendura o casaco e a bolsa, delicadamente, em um cabide.

Chang também teve a família dizimada por Severino Azulão e se une meio a contragosto a Mariinha – que, na verdade, preferia ser estrela de cinema. Vive lembrando dos conselhos de um sansei negro, imenso, de túnica vermelha e bigodes brancos.

Mariinha e Chang tentam se conhecer melhor. Aqueles papos: “De onde você veio?” “Da China, a pé.” “Você é chinês mesmo?” Os olhos de Chang lacrimejam. Atenção para os longos silêncios: “Papai era chinês... Mamãe, pernambucana... Vovô, australiano... Vovó, grega... E o titio... pelotense.” “Você é simpático. Meio feinho, mas é simpático.” Em seguida, o lado Servicine aparece e dá a entender que Mariinha comete um ato libidinoso, em toda a sua oralidade, com o embasbacado rapaz.

“Kung Fu Contra as Bonecas” ridiculariza de maneira tão azeitada o falso moralismo e o excesso de bile que até crianças zoam de Chang, tacam pedra. É um lóki totalmente desmoralizado. Já o vilão maravilha, Severino Azulão, passa os dedinhos no rosto de Travessa: “Cabra!... Chuchu beleza...”. As gargalhadas são inevitáveis. Canta “Camisa Listrada”, de Assis Valente – o pederasta de plantão da música popular brasileira –, enquanto os capangas dançam xaxado. O companheiro homoerótico, Travessa, retribui o carinho e dá-lhe umas apalpadas em Azulão.

Interessante que quando Azulão se deita com uma prostituta – mãe de Mariinha, que não a vê há anos –, conversam como se fossem amigas de bingo: “E me respeite, que eu sou uma senhora!” Severino Azulão é bissexual, ora essa. Quem diria e quem entenderá tamanha reviravolta? Afinal, para os bocós, jagunço tem que ser macho e gay não pode transar mulher. Mas acontece que Severino pode. Pode, vai e arrasa.

Além de Adriano Stuart, constam no roteiro Alfredo Palácios, Walter Negrão e Rajá de Aragão. Um “olê, mulher rendeira”, um clima de elevator music (Beto Strada) com o folclore que Lima Barreto nunca imaginaria. André Klotzel, futuro diretor de “A Marvada Carne” (1985) e do recente “Reflexões de um liquidificador”, faz a assistência de direção.

A próxima empreitada de Adriano Stuart seria o ecológico “Bacalhau” (1975), vulgo “Bacs”. Uma resposta cômica ao “Jaws” de Steven Spielberg. Recém-chegado da participação como ator em “O Exorcismo Negro” (1974), de José Mojica Marins, “Kung Fu” abre as portas para o Stuart diretor. Tarefa que incluiria vários títulos de “Os Trapalhões” e o lúdico “Fofão e a Nave sem Rumo” (1988), em que se ouvem os grugrugrus de Fofolo, primo de Fofão – o alienígena peludo e afásico do grupo “Balão Mágico”.

Campos, estradas desertas, sol a pino, flauta doce. “Bruce Lee versus Gay Power” – título da versão estrangeira – é um Stonewall do deboche. Em tempos de guerra, misoginia, homofobia e bestialidade, dai-nos paciência, Senhor. A sacrossanta engenhosidade nacional é o que ainda nos salva. Livrai-nos de todo o tosco mal. E ademã, que eu vou em frente. Amém.

segunda-feira, março 14, 2011

Os Trombadinhas


Vá lá que a birra entre Anselmo Duarte e o cinema brasileiro era recíproca, uma barbaridade. Mas nem por isto “Os Trombadinhas” (1978) merecia o posto de último filme do diretor. Empurrar a cruz da Palma de Ouro, sofrer os ataques díspares, trouxe para Anselmo alguns efeitos patológicos. Dentre eles, o ponto final (apressado) na trajetória de realizador com um pastel de vento que soa kitsch na melhor das hipóteses.

Pelé, o rei, havia acabado de chegar dos Estados Unidos, abandonando o New York Cosmos. Isto mil luas antes de implicar com Galvão Bueno nas transmissões dos anos 90, trocar nomes dos jogadores e pular enquanto o outro gritava o esganiçado “é tetra”.

Em “Os Trombadinhas”, acompanhamos um empresário com boas intenções (Paulo Goulart), que procura a polícia querendo saber como erradicar a delinquência juvenil. O delegado (Raul Cortez, dublado) explica que a sociedade não deve reclamar, precisa agir. Quem sabe, com as próprias mãos.

Resposta esquisita. Estamos aqui no limiar bronsoniano do “Death Wish”, mas que ao mesmo tempo guarda uma outra idéia, mais agradável e calminha. A de mobilização social, em tempos pré-Betinho. E é neste sururu mal explicado de cidadania que o empresário pede ajuda a Pelé.

O ex-jogador sai do CT do Santos, abandona os treinamentos que fazia com jovens, recorre ao culto à personalidade. Chama o problema na chincha. Ao lado do detetive (Paulo Villaça), pula, corre, faz a linha Terence Hill com voadoras dignas de Ted Boy Marino.

Como diria o próprio, existe em “Os Trombadinhas” o Pelé figura pública e o Pelé ator, entende? Sim, ator. Acalmem-se porque ainda não acabou: é também cantor e compositor dos versos de “Moleque Danado”.

A RFF Produções, provavelmente imaginando uma jogada de marketing semelhante à que havia feito com outro petardo pop, Roberto Carlos, embarca na onda. Passam batido o sucesso, a vivacidade, da trilogia “Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa” (1968), “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura” (1968), “Roberto Carlos a 300 Quilômetros Por Hora” (1971). “Os Trombadinhas” não parece genuíno. As cenas de ação provocam sono. A crítica social, confusa.

Oposto ao estereótipo que colaram erradamente em Gérson, o canhota de ouro, Pelé fica naquela vibe de Papai Noel. O self made man que nos States é sinônimo de agressividade positiva, mas que no patropi precisa vestir a capa do assistencialismo. Ele surge no filme como um ente regenerador, um Shaft bonzinho sem o lado cafa, protetor das creancenhas. Assunto que, por sinal, interessava ao rei – vide o magnânimo discurso na ocasião do milésimo gol, no Maracanã.

Obcecado pelo bem-estar dos pequeninos, pelas tantas surge uma recriação de presépio no centrão nervoso de São Paulo. Momento dramático da fita, quando os pivetes de camisas estudadamente rasgadas se deitam no chão, se ajoelham e um deles começa a chorar, clamando pela mãe.

Edson, o Arantes do Nascimento, bolou a história e com a ajuda de Carlos Heitor Cony montaram o roteiro cavernoso. Tentam deixar claro que os pequenos meliantes não têm culpa. Há por trás um esquema que movimenta grana preta. A filha do empresário, aluna de sociologia (Kátia D'Ângelo) balanceia a tese – apesar de não ser o que se espera de estudantes, quanto mais de sociologia. Fala alguma coisa sobre a ruindade dos meninos e acaba salva por Pelé quando se mete em uma investigação paralela, acompanhada do arquétipo de jornalista bocó.

Há apenas um gancho cético no fim, que mal diluiu o triunfalismo da vitória. Pelé desmantelou a quadrilha de criminosos, mas o problema não acabou. Em outras palavras: descobrem que o tema é complexo.

Cony, cinéfilo inveterado, em determinada hora faz uma marcação dupla de idas e vindas entre o malfeitor Manteiga (Sérgio Hingst) e seus meninos versus Pelé e seus treinados. O bem e o mal, claro está. Mas as reuniões promovidas por Hingst lembram uma versão capenga de “M., O Vampiro de Dusseldorf”. A marginália trancada numa sala escura, decidindo o que fazer.

Aparece um arremedo do bom e velho cinema popular na figura da comparsa, que chama Manteiga de otário. Diz que o que dá dinheiro é droga, contrabando, puxar carro. Depois de uns truques de “Foxy Brown”, ela é pega no flagra, se assusta: “Você é o Pelé?” “Não, eu sou o Jô Soares, sua piranha.” E o centroavante joga a arma para o detetive com uma embaixadinha.

“Orca, a baleia assassina”, futuro clássico da TV, estava em exibição no letreiro de um cinema. Para quem se interessa no lado musical e consiga dar atenção a alguma coisa que não sejam os versos de “Moleque Danado”, cabe a nota sobre a banda Made in Brazil. Como não havia intimidade com o assunto, os personagens a tratam de “punk”, vaticínio que faria Johnny Rotten ficar naquelas bravezas de dar dó.

Se o goleiro Andrada do Vasco bateu soquinhos no chão quando viu a bola passar chispando no gol número 1.000, também quero crer que o espectador possa fazer o mesmo exercício em relação ao filme. “Os Trombadinhas” usa o porto seguro do futebol, da caridade, cria um enrosco que mais parece maldição pregada pelos Joões do Garrincha.

domingo, fevereiro 27, 2011

10 Filmes do Coração


Quando a equipe da revista Filme Cultura me convidou para participar da sua edição de retomada (nº 50), escrevi aqui no blog sobre o quanto ela é parte da minha memória afetiva.

Na edição nº 53, a revista convidou 102 críticos, pesquisadores e cineastas para montarem suas listas dos "10 Filmes Brasileiros do Coração". Não são os filmes famosos ou importantes para a história do cinema brasileiro. São os mais queridos para cada autor de cada lista. A relação completa das listas consta aqui.

Ao receber o desafio, mergulhei na intuição, do tipo que brota das profundezas, sem revisar. Meus dez escolhidos estão abaixo, acrescidos de um breve comentário sobre cada um deles. Em ordem alfabética, e com outros dois não menos queridos:


A Mulher que Inventou o Amor (1979)
- Tallulah, a primeira e única. O cinema de Jean Garrett permanece de difícil acesso, apesar de nos últimos anos ter sido alvo de exibições e discussões esporádicas. Em uma filmografia que inclui meia dúzia de obras-primas, escolhi "A Mulher que Inventou o Amor" (1979), paradigma daquilo que a Boca do Lixo produziu de melhor. A prostituição e o erotismo virados cinicamente, pelo avesso.

À Meia Noite Levarei Sua Alma (1964) - "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" (1966) foi o apogeu de Mojica. Mas é através da primeira "aventura" de Zé do Caixão, "À Meia Noite Levarei Sua Alma", que temos certeza da superioridade existencial do protagonista diante do resto da humanidade, simbolizada na cidadezinha crente e provinciana onde comete seus atos desvairados. Quem quiser um antídoto para "Nosso Lar", ele possui nome e sobrenome: Josefel Zanatas.

Chuvas de Verão (1978) - Cacá Diegues realizou em "Chuvas de Verão" uma espécie de inventário sentimental do subúrbio carioca, espaço onírico da cidade-síntese do país. A melhor atuação dos veteranos Joffre Soares e Míriam Pires no cinema. Muito além das sociochanchadas e da vitimização cretina e preconceituosa.

O Império do Desejo (1981) - Benjamin Cattan sempre. Ele e Roberto Miranda estão flanando quais pintos no lixo, em transe com a força do texto e da direção de Carlos Reichenbach. Notem o soco que é a última cena. Uma sonora patada, antológica, nas "irreprocháveis" consciências. Freak out, com Kierkegaard, Sartre e produção de Antonio Polo Galante.

Marcelo Zona Sul (1970) - Vi e revi "Marcelo" um zilhão de vezes, é daqueles filmes que a gente trata carinhosamente, chamando pelo primeiro nome. Atravessou infância e adolescência comigo, o lado amargo se sobrepondo ao doce e vice-versa. Os dois e os milhares de Marcelos possíveis conversando. Trilha sonora do Liverpool Sounds, futuro Bixo da Seda, que procurei nas lojas de lps (existiam!), até encontrar.

Noite Vazia (1964) - Quando me perguntam de Khouri, logo vêm "O Anjo da Noite", "Palácio dos Anjos", "Eros", "Corpo Ardente" e outros que com o tempo vão crescendo na memória e constróem a admiração pelo diretor. "Noite Vazia" é a porta de entrada. Agressividade, medo, abandono. Bolinhos de chuva que lembram um abraço de mãe, uma sobremesa antiga, para os quatro na garçonniere. De "Noite Vazia" em diante, o trabalho de Khouri foi ficando contagioso para mim.

Perdida (1976) - On the road matreiro, mineiro, poético, cheio de pequenos detalhes que se caça com uma lupa e ao serem encontrados deixam o espectador vibrando. Carlos Alberto Prates Correia tocou na humanidade, no sexo, na epifania e realizou uma aula para os sentidos.

A Rainha Diaba (1974) - Tarantino sobe e desce nas produções dos anos 70, abocanha tudo e lança as guloseimas por aí, repaginadas para a nobre platéia. Certeza que se visse Milton Gonçalves no épico de Antonio Carlos Fontoura, entraria em êxtase, coçaria o queixo. Algo como Krist Novoselic e Kurt Cobain quando encontraram Os Mutantes, essa curiosa banda do curioso terceiro mundo. Diaba é biscoito finíssimo, a violência, o kitsch, os dialetos, os planos que supreendem um após os outros.

São Paulo S/A (1965) - Walmor Chagas encarando a boçalidade média, sem saber o que quer, indo em frente e recomeçando, recomeçando sempre para provavelmente se frustar de novo. Costumam usar o filme para umas saudações canhestras, como se Luiz Sérgio Person fosse o rei dos borbagatos ou o líder da revolta constitucionalista. Mas não se trata de uma elegia chumbrega a São Paulo. A cidade é pano de fundo, manda uns estímulos para cima de Carlos (Walmor), que nem sempre consegue entendê-los. O suicídio da personagem de Ana Rosa, por exemplo, rende páginas de livros.

Um Homem Sem Importância (1971) - Alberto Salvá em plena forma, estrelando Vianinha, desempregado num bode preto enquanto circula pela cidade, o que inclui o consumo de algumas substâncias psicotrópicas. É o que dava ser trintão, sem curso de datilografia, no Brasil do ame-o ou deixe-o. Neorealismo carioca, em um dos olhares mais impressionantes e depressivos que alguém já produziu sobre a falta de perspectivas.

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Eu Matei Lúcio Flávio (1979) - Ode ao policial vigarista Mariel Mariscott, transformado em semideus urbano, driblando o bem e o mal. Entre outras sacadas geniais, Antônio Calmon levou o fetiche por Copacabana ao limite da insanidade. A cena dos carros na Galeria Menescal, o assalto à farmácia Vitória Régia, Monique Lafond se picando pelos corredores de um edifício de quitinetes, sempre fazem bater descompassado o coração desta moça copacabanense.

Ódio (1977) - Carlo Mossy estaria fadado a ser o eterno galã das pornochanchadas se em 1977, aos 30 anos, não tivesse dirigido "Ódio", espécie de "Desejo de Matar" acrescido de informações ocultas no Beco da Fome e na paixão cinéfila do diretor. Trabalhando e retrabalhando cada idéia e cada cena com esmero, Mossy queimou a língua de seus eternos patrulhadores e conseguiu algo raro na filmografia brasileira: uma obra-prima universal, plena de entendimentos e significados em qualquer idioma.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Violência na Carne


Tateando o início da decadência cinematográfica na Boca do Lixo, “Violência na Carne” (1980), de Alfredo Sternheim, traz uma razão de ser parecida com a de outros filmes lançados na mesma onda. Grunhidos, pêlos, cenas quase ginecológicas, um tico de nada para o achado irreversível do explícito.

Entressafra dos 1980, achava-se que aquele seria um entreato, coisa breve. O sexo faturaria uns cobres, garantiria o acesso a obras “autorais”, livres na forma e no conteúdo. A pressão dos produtores era uma constante, fato inegável, mas em nada se comparou ao que surgiu em seguida, no apogeu de zoófilos, anões e outras traquitanas.

Sternheim havia dirigido recentemente “A Herança dos Devassos” (1979). Loucuras no financiamento – binacional, Brasil-Argentina –, alucinações da vedete
borderline, Sandra Bréa. Em “Corpo Devasso” (1980) – acreditem, o adjetivo “devasso” era campeão – aborda a homossexualidade masculina: tabu em que a Dacar, de David Cardoso, ousou mexer e provincianamente esquecer. O galã geralmente o omite no rol das nonchalances corajosas do passado.

Com essas duas fitas vizinhas na biografia, Sternheim chega ao “Violência na Carne”. Guerrilheiro cândido (Tércio), cáften (Paulão) e assaltante (Jorge) fogem de penitenciária desconhecida. Armas em punho, isolam um grupo de artistas em um bangalô, na beira da praia. Tudo deve durar até o dia seguinte, porque Tércio declama no
look condoreiro: “É que amanhã, 500 metros daqui, um barco estará nos levando para outro país. Para a liberdade total. Adeus, prisões. Adeus, medo. Adeus, sonhos. Adeus... pátria amada.”

Entre as prisioneiras, Letícia Simmons (Helena Ramos). Oportunidade rara de se conferir Helena Ramos com a voz que Deus lhe deu – via de regra, sofria na dublagem.

A começar pelo nome, Letícia Simmons tem fôlego de
starlet americana do time de Darryl Zanuck. Atriz, “não sabe quando atua ou quando fala a sério”, vive em depressão. Uma Gene Tierney que poderia nadar até o meio do lago em “Amar Foi Minha Ruína”, mas prefere as encucações de Malu Mulher, debatendo sobre o amor. Sabem como é, o amor. O verdadeiro amor. Tudo é consumismo e “o que estou fazendo na rua com essas pessoas”, poderia assobiar, imitando a canção de Evinha.

Letícia recebe um alento de Tércio. Apaixonam-se. Ali mesmo no cativeiro, psicologismo que o roteiro mal consegue descrever mas que acontece. Libertação. Libertação para ambos, cansados do mundo hipócrita, sem perspectivas. E a toda hora, dá-lhe Letícia falando sobre o amor.

O assassinato de Tércio por Letícia, o suicídio de Letícia: por um verdadeiro amor, para fugirem do sofrimento, para alcançarem a paz. Estratégia que teria outra dimensão e acerto se houvesse credibilidade no namoro dos dois. Algo que evanesce e não atinge o alvo. Semelhante a assistirmos a um presidiário com marca de sol (Jorge), revelada no
skinny dipping pelas redondezas.

Sternheim demonstra cuidados ocasionais na composição, como no pequeno prólogo. Paulo, Jorge e Tércio queimam um carro encharcado de gasolina. As chamas, a fumaça subindo para o céu, promessa de uma escuridão anterior, fatalismo para o que vai ser contado.

“Violência na Carne” amarra, inseguro, um enredo que aponta para a tal violência e para a tal da carne, sem resultados convincentes do cinema de um e de outro gênero. A violência carece da montagem – fria, de Jair Garcia Duarte, parceiro de Juan Bajon –; carece da engenharia dos planos – convencionais, previsíveis.

A carne segue o mesmo princípio. Estupros que dão bocejos no público acostumado aos
exploitations hardcore que começavam a estalar nos poeiras. Os arroubos podem ter provocado algum calor, mas a curiosidade permanece no quesito – este sim interessante, de novo – da intimidade dos casais gay e lésbico. Tratada com a naturalidade necessária, soma uns pontos no polaróide em que todo filme acaba se transformando, no cair do tempo.

Carinhos, ciúmes, postura protetora de uma com outra – Sandra e Ana. Dançarino (Fábio) orgulhoso da carreira do protetor (Renato, Luiz Carlos Braga). Mimos afins, nuances de cotidiano e que na hora de o bicho pegar fogo não somem, continuam. Seria cômodo para o diretor colocar apenas as meninas sendo atormentadas pelos agressores. Encaixa, porém, a curra em Fábio, a pegação de Sandra e Ana ordenada por Paulo, o voyeurismo que sai às claras, varrido do tapete.

O problema é que a deixa para entrar no desfiladeiro é jogada fora por um excesso de didatismo – “estes sustos, estes pesadelos, ocorrem devido a um sentimento de culpa. Intimamente você ainda não aceitou a nossa relação.” Piora muito, mas muito mesmo, na atuação precária dos atores, resguardada sempre a figura de Luiz Carlos Braga – por sinal, apaixonado por David Cardoso em “As Seis Mulheres de Adão”.

Ao invés do escracho que reina em “Adão” ou de uma ofensiva corporal bombástica e teorizável, “Violência na Carne” tenta se levar na dureza, filosofando como a estudante de sociologia da USP. E o que seria crível ou encantamento, ganha um contorno metódico, cambaleante, impedindo a fluência que poderia tê-lo salvado.


(in Zingu! #42, fevereiro de 2011)

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Ariella


John Herbert faleceu há quase um mês e poucos sabem que além da pinta de galã – docinho de coco, o genro ideal em “Alô Doçura” na TV Tupi –, foi diretor de cinema. Mais do que isto: dirigiu “Ariella” (1980), o noir exploitation em que Nicole Puzzi aparece com todas as suas plumas.

Baleado por uma pneumonia, Herbert perde a vaga na equipe de natação para as Olimpíadas de Londres, 1948. Repete a trajetória do Cinema Novo – David Neves, Arnaldo Jabor, Carlos Diegues – e frequenta a faculdade de Direito. As semelhanças terminam aí. Depois disto, ficam só os extremos.

Herbert encara o show business, vai parar na Vera Cruz (“Floradas na Serra”, 1954), na Atlântida (“Matar ou Correr”, 1954) e, noves fora, dribla o estigma da carcaça física em pelo menos uma atuação consagradora: “O Caso dos Irmãos Naves” (1967), de Luiz Sérgio Person.

Em 1980, nas vésperas da guinada para o pornô na Boca do Lixo, aceita o convite de Pedro Carlos Rovái, dono da Sincrocine. Adapta uma novela de Cassandra Rios. Sim, Cassandra Rios. A fancha, autora dos milhares de pulp fictions vendidos com paixão na alta ditadura. Publica os capítulos de “Eu Sou uma Lésbica” na revista “Status”, degenerada como convinha a toda cunilíngue, delinquente máxima.

Para quem ainda não viu “Ariella” – monumento da adolescência de muita gente –, é preciso que se se diga que Herbert tentou ser audacioso, no bem e no mal. Colocou um rápido nu masculino, homens puxando ferro, malhando, derrières roliços que só, um homoerotismo indisfarçado.

Fez vistas grossas à tática de usar cenas com dublês. É assim que Christiane Torloni (Mercedes) passa pelo constrangimento de acharem que são seus os dedos que tateiam, digamos, determinadas instâncias de Nicole Puzzi (Ariella).

Cassandra participa no roteiro. Vai mal das pernas, com transições forçadas. Basta o advogado inescrupuloso – sempre há um, podem reparar – conferir o setor calipígico de Ariella para que a menina desabroche.

Vira fêmea, passa batom, deixa de ser a tímida que caminhava por cemitérios e curtia umas tendências incestuosas com o irmão (Alfonso, Herson Capri), atordoada pela culpa.

Interessante o relacionamento competitivo de Ariella com a mãe (Helena, Laura Cardoso). Beleza, velhice, egoísmo. A vinheta costuma funcionar e poderia ter sido melhor explorada, não fosse a vontade – grande às pampas – de fazer de Ariella um anjo vingador, usando o sexo para destruir as maldições familiares.

Descobre que está sendo enganada. O pai (Rodrigo, Sérgio Hingst) não é pai de fato. E, consequentemente, nem a mãe, nem os irmãos – além de Diogo, Clécio (Denis Derkian). Estranho que a bomba de uma vida inteira tenha sido percebida no bate-papo de Diogo com Clécio. Até os empregados conheciam a história. Sórdido, sórdido mundo este em que Ariella se isolava.

E se isolava como Onan, o bárbaro. Tocando-se sozinha, escrevendo um diário, beijando o espelho, acariciando um indefeso boneco do Snoopy. Na fase liberta, soltinha, tem o convescote com Mercedes, namorada de Diogo. Namorada por namorada, Clécio arranja uma de prestígio: Lúcia Buxy, antigo nome artístico de Lúcia Veríssimo, a Jeitosa do filme de Nello Rossi (1984), em que Herbert participa como ator.

Mercedes e Ariella vivem momentos de propaganda sáfica de margarina: beijos, chuva, um campo repleto de flores amarelas. Poderia ser a folhinha de março de um calendário, desses que as mães gostavam de ter na parede da cozinha. Ao invés de um casal de pulôver e gola alta, duas moças em êxtase, saudáveis e catitas. Como Giselle (Alba Valéria) e a colega guerrilheira (Monique Lafond) na favela da Maré, em momento do cult “Giselle” (1980), de Carlo Mossy.

Aliás, Mercedes fala um dos mais bonitos “eu te amo, porra” do cinema brasileiro. Grande provérbio, dito de passagem, com a graciosidade de ser natural escondendo alguma afetação. As garotas convocam Diogo (Herbert) – o advogado estuprador –, que havia sofrido um golpe da família de Ariella. Nada pessoal, nada de proteger a menina contra o agressor, uma emboscada de negócios. Mordido, Diogo jura contra-atacar, aceita a proposta e firmam um pacto.

O resto de psicologismo aparece nos últimos lances. Mãe e filha se estranhando. Pai – paralítico – assediado e encurralado na fúria hormonal de Ariella. O vulto da garota queimando o diário, andando pela mansão como fantasma vitorioso enquanto sobem os créditos e ficamos sem saber do seu destino.

Escorado pelo sucesso do filme – em que o assistente de direção foi John Herbert Buckup Jr., seu filho –, Herbert volta a Cassandra Rios com “Tessa, a Gata” (1982). Novamente Puzzi, desta vez com Patrícia Scalvi. Fotografia de Carlos Reichenbach, que repetiria a dose em outro longa de John, “Primeiro de Abril” (1984).

No fumacê sombrio e algo luxuoso, “Ariella” transpira uma clima de telefone branco – vertente clássica do cinema, com escadarias, palacetes, vestidos vaporosos. Geralmente usado em comédias leves, é curioso como o molde retorna aqui pelo aspecto da cenografia ricaça. Provavelmente alguma superstição de quem realizou o filme, um amuleto com o passado, já que os telefones brancos eram praxe nos idos dos anos 40. Misture-se uma pitada de drama da Metro, pouca luz, escuridão, a ninfa em estado de graça e cá estamos nós no patropi, como sempre, miscigenando o cânone.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Pecado Horizontal


Quase tudo o que se produziu na Boca do Lixo alçou por décadas o estigma de frouxo, submetido a uma perversidade que poluiu até mesmo o imaginário de técnicos sobreviventes do local e do período. Comum ouvi-los repetindo o óbvio, introjetando uma ética auto-depreciativa. E por essa brecha instala-se outra praga: os menos atentos, os mais burros e ingênuos, podem achar que, para acabar com o ataque sofrido por milanos, a defesa há de ser tão intransigente quanto. Para matar uma gazela, cria-se outra – desde que, dessa outra, tenha-se agora total controle.

Sinto muito, senhores, julgamento errado. Trará problemas a longo prazo, é o reverso do espelho. Defender não significa fechar os olhos aos erros. Combater não significa vestir a histeria homicida. A Boca não foi um pacote homogêneo. Ter o símbolo de auto-sustentáveis não iguala as produções realizadas por lá. Este o soberano – nome do bar de larga história – fato.

Aprendiz de feiticeiro, José Miziara embarca no sonho quando os dramas de costumes, as invenções udigrudi, os filmes garnizés, o tosco e o sublime rodavam alucinados, em espiral. Tarefa inglória a de conviver com pontas de lança. Pior: autores de reputação construída por motivos insólitos, frágeis, aparentemente naturais. Walter Hugo Khouri era o homem dos filmes complicados. Ody Fraga, o intelectual libertino. Jean Garrett – para ficarmos em um dos garotos – se esforçava, fazendo o que podia, contrabandeando erotismo em tragédias e cinema de gênero.

Miziara, tentando colocar o anel de alquimista, joga umas ervas, cozinha o caldeirão. Aonde ele se encaixa, de verdade? Ex-artista de circo, faz-tudo da Rádio Nacional, dublador, cômico, seguiu os filões do rádio que moldaram os pioneiros da televisão. O bem e o mal, o homem e a mulher, o esperto e o enganado. Salpicou de anos 70 a regra e desaguou na malícia, no sexo depois da pílula.

Assim fez enorme sucesso em “O Bem Dotado: O Homem de Itu (1977)” – o jeca versus o povo da cidade grande. Tateia uma reportagem esperta sobre o swing em “Embalos Alucinantes” (1979), cruzamento de revista Veja e “Vai Trabalhar Vagabundo” sem nuances, puro deboche. No polêmico “As Intimidades de Analu e Fernanda” (1980) avança no paternalismo – homem e mulher, colunas estanques. Tenta vender as carícias loucas entre Fernanda e a separada Analu. Na prática, coloca a sombra do homem rondando em loop, desestabilizador da relação das duas. Um garoto na praia significa o elemento fálico faltante, a justificar interdição. Analu diz ao garoto que vá embora, mente que o marido chegará. Ambas se vêem através de um terceiro, não por si. O filme não alcança a voragem de Jean Garrett , que fez de “Karina, Objeto do Prazer” (1981), “A Mulher que Inventou o Amor” (1979), “Possuídas Pelo Pecado” (1976), antros do exploitation, quicando o feminismo e o machismo superficiais.

“Pecado Horizontal" (1982), gravado no ano limite entre a chanchada e o pornô, consegue um caminho mais hábil. Acerta. Coloca o corpo em foco não apenas dos moços, mas das moças. Elas a fim, procuram, gozam, sem o terror da vergonha, da racionalização.

Dirigido e escrito por Miziara, busca a atmosfera, bem nacional, dos subterrâneos de uma cidade do interior. A se prestar atenção na trilha sonora – a valsa “Oh, Minas Gerais” –, chegamos ao estado das Alterosas.

Três conhecidos reúnem-se em volta de uma mesa, bebem cerveja e contam “causos” passados de suas vidas. Relatá-los seria perda de tempo. Estão no limite do grosseiro – o protagonista não consegue traçar Matilde Mastrangi por conta de hemorróidas – e do engraçadíssimo, principalmente o segundo. O que interessa é que idas, vindas e deslizes dos personagens têm um objetivo: a obcecada fornicação. Sentem prazer absurdo em quase perderem a vida por conta desse mito. As mulheres, quando “dão”, sorriem; os homens, vivenciam um êxtase.

Essa vontade natural impressiona as normas egoístas e atualíssimas de conduta. Colocando-se em perspectiva, a "busca existencial" do sexo parece ter morrido no século XXI. Deu lugar ao aspecto esquizóide, narcísico, em que a aparente liberalidade oculta uma perturbação moralista. Ir pra cama não é mais libido, recompensa. Necessita de enrolação, de pose, de frieza. José Miziara nunca foi Betty Friedan, mas “Pecado Horizontal” coloca o desejo feminino atuante. Notem que as três protagonistas são mulheres insatisfeitas, que escolhem seus parceiros e desejam somente aquilo que toda fêmea heterossexual deseja, mas que certos homens costumam atrapalhar com grilos e lentidões.

Um mergulho nos documentos da censura revela dado espantoso: nenhum vigilante do governo militar implicou com a terceira história, na qual um menino de doze anos transa uma coquete aflita. Em 82, o duvidoso intercurso entre menino e mulher podia ser visto tanto no cinema de Miziara, quanto em “Amor Estranho Amor”, de Khouri. Implicando com cenas de sodomia, por outro lado a censura aceitava tranqüilamente o garoto Ric Ostrower cobrindo Mariza Sommer.

Além do princípio de que cinema popular não é pornochanchada, precisamos entender que, dentro dos filmes legítimos do gênero, existem sutilezas a serem pesquisadas e resgatadas. O passado de má vontade dos críticos explicava-se por um (falso) ideal de melhora, que não faz mínimo sentido quando o tempo e as influências são outros. Hoje, um chiste como “Pecado Horizontal” vira subversivo, libertário, porque nos ensina um espanto: a picardia pelo prazer de ser vivida. E que ocorreu, de igual maneira, fora da Boca do Lixo. Carlo Mossy, leitor de Schopenhauer, não fez “Giselle” à toa: nada mais importante para a menina “recém-chegada da Europa” que a vontade cega do corpo. Em tantas pornochanchadas – algumas de Mozael Silveira – o corpo é quem manda. E tal imperativo pede para destroçarmos o labirinto, entendermos as pistas falsas que o enfoque bruto – favorável ou contrário – cisma em corromper.

(in Zingu! #41, janeiro de 2011)

quinta-feira, janeiro 13, 2011

A Menina e o Estuprador


Nos jogos eróticos da Boca havia sempre um mato, inferno verde onde personagens - notoriamente os femininos - expurgavam pecados e vícios. É dessa forma que encontramos a menina Vanessa (Vanessa Alves), subjugada pelo homem negro, que a coloca de bruços, levantando sua saia. Em seguida, descobrimos que nada daquilo acontecia de fato: Vanessa estava delirando. De certa forma, compartilha seu delírio com o do espectador, ávido na poltrona do cinema por uma espécie de punição, de humilhação ao ente mulher. Indefesa, bumbum inocente à mostra, disponível para um qualquer, Vanessa celebra nossos esgares sádicos, perversos. E reafirma o ethos selvagem e fascinante do meio em que sobrevivia como atriz.

Conrado Sanchez, diretor de "A Menina e o Estuprador" (1982), será lembrado para sempre na história do cinema brasileiro como o gênio de "Cinederela Baiana" (1998), cinebiografia de Carla Perez que tornou-se objeto de assombro. Porém, dezesseis anos antes de sua magnum opus, Conrado estreava na direção com essa produção baratíssima, feita às pressas por encomenda de Antonio Polo Galante. O roteiro que escreve e filma é Freud puro: Vanessa guarda um trauma. Esse trauma retorna através de sonhos/delírios. Lembrado, desrecalcado, o trauma deixa de ser trauma e Vanessa torna-se, repentinamente, feliz e plena. Toma banho de cachoeira, entrega-se de verdade a um namorado real.

Entre começo e fim o recheio é obsessivo, repugnante. Mas Conrado sabe, em última instância, que o ser humano é fraco e não presta. Portanto, gosta daquilo. A atriz Vanessa Alves era adolescente de 18, 19 anos, no auge da beleza física, e os seios, a boca e até as mãos ganham um aspecto de pureza devassada. Diferente de outras baluartes - Helena Ramos, Matilde Mastrangi, Zilda Mayo - em que a sexualidade madura nos convida a sonhá-las plenamente, a de Vanessa Alves transparece inefável. Em ação magoa, dói, constrange.

À parte os problemas sexuais, Vanessa mora em uma casa típica das produções da Boca, escoltada pela empregada (Jussara Calmon) e pelo motorista Pedro (Zózimo Bulbul). A óbvia discussão sobre racismo na maneira em que se aborda a figura do negro é plenamente válida. Embora tudo se explique no final, há um exploitation, um sensacionalismo em volta dos abusos repetidos, como se a famosa sequência de Lucélia Santos em "Bonitinha Mas Ordinária" ganhasse um filme inteiro só pra si. Além disso, a trilha-sonora de Jairo Ferreira apela até para o lp "Missa Luba", do coro "Les Troubadours du Roi Baudouin". Imaginemos um filme em que uma heroína negra fosse estuprada por wasps ao som de "Yellow Rose of Texas" e teríamos a mesma exaltação da raça e seus símbolos como discrepância entre dois seres humanos. Nem D. W. Griffith, em sequência animadíssima, faria pior.

Pilotando um Passat branco, poltronas de couro, quatro portas, o motorista carrega Vanessa de um lado para outro, enquanto ela delira. Cabe à amiga libertina, Denise, as sequências de sexo "saudáveis", inclusive com o psicanalista (Rubens Pignatari) que atende ambas. Estávamos no limiar do pornô, o que gera observação interessante: em Vanessa, os algozes passam mãos, línguas, no máximo roçam o colo entre as suas pernas. Em Denise chega-se às vias de fato: no coito à beira da represa de Guarapiranga e no fellatio estilo cama-de-motel, lugar comum a partir daquele período em tantas cenas que os próprios atores e diretores não devem se recordar de nenhuma.

Talvez a maior qualidade de "A Menina e o Estuprador" esteja mesmo em seus aspectos deprimentes, torpes. Eles não nos iludem, não nos prometem nada. Não são a graça humorística de Cláudio Cunha em "Oh! Rebuceteio", nem tão pouco a vergonha de um Jean Garrett dirigindo pornôs sob pseudônimo. Conjugam a nudez de uma ninfeta lindíssima com fantasias imundas, sacodem psicologia de botequim e, ao fundo, ouvimos ainda "Another Brick in the Wall", do Pink Floyd. No meio de tantos brasileiros, descesse um marciano para também tirar uma casquinha de Vanessa, Antonio Polo Galante venderia tranquilamente o petardo como ficção científica. Tudo era uma questão do que o público acatasse. E o público andava turbinado, pronto para qualquer coisa.