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quarta-feira, novembro 28, 2012

As Safadas


Ontem à noite, em alguma esquina, ouviram-se gritos de todas as cores e formatos. Diziam que Carlos Reichenbach era chapa do “cinema marginal”, ligado a Rogério Sganzerla. Acontece que em “As Safadas” (1982), o gaúcho paulistano fez exatamente o contrário. Dirigiu um dos três episódios do filme, sem qualquer vassourada de ideologismo. Sexo quase ginecológico não estava na cartilha de Sganzerla – nem do rival, Glauber Rocha.

O cult curta-metragem (“A Rainha do Fliper”) aproveita o lado potranca da deliciosa Zilda Mayo e revela uma batelada de obsessões do diretor. Reginéia (Zilda Mayo) é a liberdade, o lúmpen – vejam os ecos de Valério Zurlini e dos subúrbios, que aparecem a toda hora na obra de Reichenbach. A garota é a oposição ao tédio de Tenório, o mocinho engravatado, broxa e que prefere considerar que a moça é uma perdida. Tenório gostaria de regenerá-la. Mas regenerá-la de quê? O melhor é deixá-la livre, nos braços do cafifa (Giba). Um grandão brega e, porém, ouvinte do reverendo Al Green. A distância dos dois universos acaba sendo cantada pela própria voz de Carlos, que recita “O Guardador de Rebanhos”. Aqui Fernando Pessoa pulula no território sensorial da literatura. Em outros filmes, estará a cargo de Mário Faustino, Murilo Mendes, Aristóteles, Kierkegaard, surgindo no breu, como fantasmas.

Reginéia, Tenório e Giba passeiam de carro, comentam sobre os cinemas em ruínas, divertem a platéia ao citarem nomes clássicos (Fritz Lang, Mizoguchi). É o passado de Reichenbach, que se une ao ficcional. Os três também retomam a questão da (a)moralidade (esmiuçada em “O Império do Desejo”, 1981) e das firulas sociais. A mãe rejeita Reginéia. Não há redenção, a velha não a quer de volta. Acontece que o amor materno também pode ser desamor. E a mãe (ou o substituto dela) pode estar no ambiente fétido dos flipers – que, aliás, eram mania internacional: vide Carlos Hugo Cristensen em “A Morte Transparente” (1978) e a esfuziante Brigitte Lahaie, sempre disposta ao bom entretenimento.

“Uma Aula de Sanfona”, episódio seguinte, traz o crítico Inácio Araújo na versão diretor. Acostumado às mesas de montagem desde os anos 70, Inácio repete a solidão do lúmpen, tão característica de “A Rainha do Fliper” – na qual colaborou como argumentista. “Uma Aula de Sanfona” conta o amor entre a mocinha volúvel (mas que estuda para concurso) e o homem gordo, inesperado, tocador de sanfona. Claro que existe uma cizânia nos papéis: a relação estapafúrdia entre os dois. Acontece que a mulher delira, esconde o desejo pelo gordo, tenta manipulá-lo e fazê-lo refém da sua beleza. O olhar voyeur acaba revelando uma inversão bastante hábil para o desfecho final.

Atualmente em cartaz, “Gonzaga – De Pai Pra Filho” também fala sobre sanfoneiros cheios de graça, mas cairia do cavalo com a doença do namoro de Nancy (Sandra Graffi) e Durval (Cláudio Mamberti). Tudo gira em torno de Nancy, até mesmo a relação entre os coadjuvantes (sua amiga e seu ex-enrosco), atrás da porta, alheios ao que ocorre na cama do obtuso casal. Reza a lenda que Sandra Graffi quase foi limada do episódio por Antonio Galante, o venerando produtor de “As Safadas”. Galante queria gente pelada e dinheiro a rodo, mas a perspectiva de ver a namorada do filho nuinha em pêlo não o deixou nem um pouco maravilhado.

“As Safadas” mostra closes nas partes baixas das atrizes, típicos de 1982, ano cada vez mais próximo da guinada pornográfica na Boca do Lixo. Neste sentido, o terceiro e último conto (“Belinha a Virgem”) proporciona os maiores delírios à platéia masculina. Àquela hora, já aguardavam finalizar os trabalhos e sair da sala escura com o espírito renovado.

Dirigido por Antonio Meliande, “Belinha a Virgem” tem um quê do Marcelo chefão, abatedor de estagiárias em “Eros, O Deus do Amor” (1981). Fotógrafo e parceiro de Walter Hugo Khouri, Meliande aprendeu algo com o mestre e diluiu de propósito na superfície. A intenção era ser o alívio no underground de Reichenbach e Araújo. Meliande usa a fixação de mais outro diretor, José Mojica Marins: o título de “Comendador” para homens ricos. Comendador Passaralho tenta de todas as maneiras pegar Belinha, a garota que faz de tudo, menos entregar aos homens o precioso hímen. A piada-base do roteiro lembra as brincadeiras de José Miziara em “Pecado Horizontal” (1982).

“As Safadas” é aquele caso que confunde os espectadores que escolhem o filme pelo título. Prontinho para as taras psico-epidérmicas do público, é na verdade um sururu de tendências. Todas elas reunidas pela mão louca de Antonio Polo Galante, mestre em dar vida a projetos inusitados. Na fúria autodidata, Galante conseguiu fazer da trilogia um acerto. O comboio de “As Safadas” alcança a posteridade com adjetivos todos próprios: erudito, trash e debochado.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Mulher Tentação


Dando prosseguimento ao mapeamento dos filmes produzidos por David Cardoso (pelas mãos de quem chegaremos até a filmografia do grande Ozualdo Candeias, falecido este mês), temos Ody Fraga dirigindo e roteirizando um argumento próprio em "Mulher Tentação", lançamento da Dacar Produções em 1982.


Próximo da onda de filmes explícitos que implodiriam a Boca a partir de 83/84, o filme já exibe alguns traços que se tornariam característicos: closes quase ginecológicos, isso naquilo, aquilo nisso e variações que os leitores conseguirão imaginar perfeitamente.

No entanto "Mulher Tentação", trata-se, antes de mais nada, de um exemplo do sincretismo comum no cinema brasileiro da época: a mistura entre aspirações estéticas e comerciais, no caldo das perversões que gradualmente iam sendo liberadas pela Censura Federal, no quase-crepúsculo da ditadura.

Fato inegável, o resultado final dessa mistura acaba sendo truncado. Não se entende com clareza o que Ody Fraga provavelmente tentou no roteiro. Crítico, ensaísta, dramaturgo, ex-seminarista protestante, Ody possuía passagens de prestígio por cadernos literários, grupos teatrais e trabalhos free-lancers. Sabia como poucos acumular erudição renascentista e malícia suficiente para acompanhar a trajetória das bilheterias. Morto de infarto fulminante em 1987, no pequeno apartamento aonde estocava a biblioteca de mais de 3.000 livros, teclava na máquina mais um roteiro -- a ser vendido nos estertores da Boca, naquelas últimas horas de uma festança que parecia cada vez mais distante.

Portanto, se não é possível classificar Ody pura e simplesmente como um naïf ou, na pior das hipóteses, um displicente -- alguém que não conhecesse perfeitamente bem os nós que um roteiro de cinema é capaz de apresentar --, "Mulher Tentação" acaba se revelando na verdade como ele verdadeiramente é: um conjunto de elementos insólitos.

Desde a tentativa de imprimir um mal-estar khouriano -- nos closes totais na personagem Marina Assunção ou na temática sobre o não-ser e o vazio sexual da moçoila e das pessoas ao redor --, passando pela procura de um "bom gosto" da produção -- nas letras serifadas dos créditos, nas telas que combinam aleatoriamente Vermeer, Rembrandt e Cézanne, ao som de "She" em flautas soporíferas, supostamente no clima de "bela arte" -- tudo soa fora de lugar e, por isto mesmo, como de hábito, interessante de ser assistido.

Sem Rogério Duprat na direção musical, mas castigando no mote das flautinhas -- em certo ponto é usada a estrutura rítmica da fuga, tentando deliciar algum pornô-barroquista de plantão --, o sexo explícito se funde em tédio vez por outra, mas quase sempre os diálogos salvadores aparecem e redimem todo o resto.

Melissa (Sandra Graffi) e Rodolfo (Luiz Carlos Braga, diga-se de passagem corajoso por interpretar maridos traídos e homossexuais enrustidos, a exemplo do personagem em "As Seis Mulheres de Adão" do mesmo ano, também com Ody, Graffi e Cardoso) esperam Marina, sua mãe e esposa, respectivamente.

Instável, sabendo que a mãe está se entregando pela enésima vez ao capataz -- que também recebe alguns trocados de Rodolfo para copular com as empregadas na frente do patrão --, Melissa sacode-se na poltrona. E entre o olhar distante e a súbita raiva, pergunta o porquê da demora da mulher.

-- Ela é vagorosa no vestir -- Rodolfo responde numa fleugma britânica.

-- Pai, tu é um manso mesmo -- manda a garota no estilo Rua Aurora, que invade a tela e será a tônica dessa ambivalência entre o que se supõe "sofisticado" e o que se supõe "popular" no filme.

A troca de delicadezas entre a família chega às raias da traição quando Marina, socialite ninfomaníaca, ataca o namorado da filha (Sérgio), no escritório do rapaz. Na véspera, Melissa e Sérgio haviam se desentendido justamente pelas encucações que travavam sexualmente a menina. Tentaram uma incursão pela noite paulistana, sem qualquer probabilidade de melhorar a situção. Combinavam de se darem uma chance, mas eis que Marina, nos instintos mais primitivos do que os de Joan Crawford, destrói a possibilidade de realização filial.

Interessante notar que o tour, por si, diz muito daquela tentativa de composição khouriana. Há referência explícita a "Noite Vazia" em cena passada no rendez-vouz japonês. Subindo a sonoplastia, quebra-se porém essa referência -- não se sabe se propositadamente ou não. No momento em que a gueixa dedilha o shamisen, ouvimos a todo vapor uma guarânia (!), trilha sonora recorrente e enaltecida nas produções de Cardoso, célebre pantaneiro.

As miudezas de composição dos quadros -- neste sentido, a direção de fotografia de Cláudio Portioli é fundamental -- e a pulsão entre o membros da família, também pretendem alguma sutileza, mas é logo afastada pela concretização das taras de Rodolfo -- que menciona, rapidamente, a sua atração por cavalos. Sim, o mito eqüino, sempre povoando os sonhos de filmes rodados nos 70/80, seja em "Giselle", seja em "Emanuelle in America", para lembrarmos dois exemplos clássicos.

Nos últimos 30 minutos a montagem infelizmente perde um pouco do pique e parecemos assistir à repetição de uma mesma piada-base: os delírios do patriarca, que corre de porta em porta, feliz de observar em delírio a esposa, a filha e o capataz, cada qual com seus respectivos acompanhantes, num frêmito danado.

Finalizadas as danças do acasalamento, todos se despedem, o ex-namorado de Melissa dá uma carona ao atual, o Passat cor de creme se afasta, o portão da casa senhorial se fecha, e as luzes provavelmente se acendiam na sala escura. Estafados, correndo para o trabalho, um a um, os contínuos, os chefes, os respeitáveis, os de reputação nem tanto, muitos sem perceberem a tensão entre os referenciais dentro e fora das telas, cumpriam com seus préstimos à produção nacional, induzidos pelo ofício de gente talentosa, como o inefável Ody Fraga.