Mostrando postagens com marcador Antonio Meliande. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antonio Meliande. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, novembro 28, 2012

As Safadas


Ontem à noite, em alguma esquina, ouviram-se gritos de todas as cores e formatos. Diziam que Carlos Reichenbach era chapa do “cinema marginal”, ligado a Rogério Sganzerla. Acontece que em “As Safadas” (1982), o gaúcho paulistano fez exatamente o contrário. Dirigiu um dos três episódios do filme, sem qualquer vassourada de ideologismo. Sexo quase ginecológico não estava na cartilha de Sganzerla – nem do rival, Glauber Rocha.

O cult curta-metragem (“A Rainha do Fliper”) aproveita o lado potranca da deliciosa Zilda Mayo e revela uma batelada de obsessões do diretor. Reginéia (Zilda Mayo) é a liberdade, o lúmpen – vejam os ecos de Valério Zurlini e dos subúrbios, que aparecem a toda hora na obra de Reichenbach. A garota é a oposição ao tédio de Tenório, o mocinho engravatado, broxa e que prefere considerar que a moça é uma perdida. Tenório gostaria de regenerá-la. Mas regenerá-la de quê? O melhor é deixá-la livre, nos braços do cafifa (Giba). Um grandão brega e, porém, ouvinte do reverendo Al Green. A distância dos dois universos acaba sendo cantada pela própria voz de Carlos, que recita “O Guardador de Rebanhos”. Aqui Fernando Pessoa pulula no território sensorial da literatura. Em outros filmes, estará a cargo de Mário Faustino, Murilo Mendes, Aristóteles, Kierkegaard, surgindo no breu, como fantasmas.

Reginéia, Tenório e Giba passeiam de carro, comentam sobre os cinemas em ruínas, divertem a platéia ao citarem nomes clássicos (Fritz Lang, Mizoguchi). É o passado de Reichenbach, que se une ao ficcional. Os três também retomam a questão da (a)moralidade (esmiuçada em “O Império do Desejo”, 1981) e das firulas sociais. A mãe rejeita Reginéia. Não há redenção, a velha não a quer de volta. Acontece que o amor materno também pode ser desamor. E a mãe (ou o substituto dela) pode estar no ambiente fétido dos flipers – que, aliás, eram mania internacional: vide Carlos Hugo Cristensen em “A Morte Transparente” (1978) e a esfuziante Brigitte Lahaie, sempre disposta ao bom entretenimento.

“Uma Aula de Sanfona”, episódio seguinte, traz o crítico Inácio Araújo na versão diretor. Acostumado às mesas de montagem desde os anos 70, Inácio repete a solidão do lúmpen, tão característica de “A Rainha do Fliper” – na qual colaborou como argumentista. “Uma Aula de Sanfona” conta o amor entre a mocinha volúvel (mas que estuda para concurso) e o homem gordo, inesperado, tocador de sanfona. Claro que existe uma cizânia nos papéis: a relação estapafúrdia entre os dois. Acontece que a mulher delira, esconde o desejo pelo gordo, tenta manipulá-lo e fazê-lo refém da sua beleza. O olhar voyeur acaba revelando uma inversão bastante hábil para o desfecho final.

Atualmente em cartaz, “Gonzaga – De Pai Pra Filho” também fala sobre sanfoneiros cheios de graça, mas cairia do cavalo com a doença do namoro de Nancy (Sandra Graffi) e Durval (Cláudio Mamberti). Tudo gira em torno de Nancy, até mesmo a relação entre os coadjuvantes (sua amiga e seu ex-enrosco), atrás da porta, alheios ao que ocorre na cama do obtuso casal. Reza a lenda que Sandra Graffi quase foi limada do episódio por Antonio Galante, o venerando produtor de “As Safadas”. Galante queria gente pelada e dinheiro a rodo, mas a perspectiva de ver a namorada do filho nuinha em pêlo não o deixou nem um pouco maravilhado.

“As Safadas” mostra closes nas partes baixas das atrizes, típicos de 1982, ano cada vez mais próximo da guinada pornográfica na Boca do Lixo. Neste sentido, o terceiro e último conto (“Belinha a Virgem”) proporciona os maiores delírios à platéia masculina. Àquela hora, já aguardavam finalizar os trabalhos e sair da sala escura com o espírito renovado.

Dirigido por Antonio Meliande, “Belinha a Virgem” tem um quê do Marcelo chefão, abatedor de estagiárias em “Eros, O Deus do Amor” (1981). Fotógrafo e parceiro de Walter Hugo Khouri, Meliande aprendeu algo com o mestre e diluiu de propósito na superfície. A intenção era ser o alívio no underground de Reichenbach e Araújo. Meliande usa a fixação de mais outro diretor, José Mojica Marins: o título de “Comendador” para homens ricos. Comendador Passaralho tenta de todas as maneiras pegar Belinha, a garota que faz de tudo, menos entregar aos homens o precioso hímen. A piada-base do roteiro lembra as brincadeiras de José Miziara em “Pecado Horizontal” (1982).

“As Safadas” é aquele caso que confunde os espectadores que escolhem o filme pelo título. Prontinho para as taras psico-epidérmicas do público, é na verdade um sururu de tendências. Todas elas reunidas pela mão louca de Antonio Polo Galante, mestre em dar vida a projetos inusitados. Na fúria autodidata, Galante conseguiu fazer da trilogia um acerto. O comboio de “As Safadas” alcança a posteridade com adjetivos todos próprios: erudito, trash e debochado.

segunda-feira, agosto 04, 2008

Liliam, A Suja


Antes de mais nada, a indicação: o clássico trash-exploitation “Liliam, A Suja” (1981) tem a peculiaridade de grifar com “m” e não com “n” o nome da protagonista – apesar de muitos livros insistirem em grifá-lo de maneira diferente.

Acima de tudo, a constatação: “Liliam, A Suja” foi dirigido por Antonio Meliande, um dos profissionais mais queridos e profícuos do cinema nacional, freqüentador de longa data das páginas do Estranho Encontro.

Italiano de nascimento, brasileiro por vocação, Meliande chegou aos 11 anos de idade ao Rio de Janeiro – porto inaugural de sua transferência ao Brasil, ainda que nas décadas seguintes tenha se identificado tanto com o cinema popular paulista.

Fato corriqueiro entre inúmeros outros talentos do ramo, aprendeu o ofício na lida diária. Assistente de câmera de Ruy Santos, Osvaldo de Oliveira, João Callegaro – no tropicalista “O Pornógrafo” –; diretor de fotografia – metiê que o celebrizou – de José Mojica Marins, Walter Hugo Khouri – destaque-se “O Anjo da Noite” (1975) –, João Batista de Andrade, Alfredo Sternheim, José Antonio Garcia e Ícaro Martins; diretor propriamente dito do WIP “Escola Penal de Mulheres Violentadas” – e do episódio “Belinha, a Virgem” em “As Safadas” (1982), ao lado de Inácio Araújo e Carlos Reichenbach.

O currículo continua e acompanha períodos não muito prósperos da Boca, quando passou então à fase comum entre os realizadores: dirigir pornôs, assinando sob pseudônimo (Tony Mel). Mais tarde, mudou-se para a televisão, habitat em que permanece até hoje, novamente radicado no Rio de Janeiro.

“Liliam, A Suja”, mesmo com toda a pinta de ter sido roteirizado por Ody Fraga, foi escrito por Meliande e Rajá de Aragão. Dado curioso, pelo menos na cópia exibida pelo Canal Brasil, não consta no filme qualquer crédito aos atores, à direção, à montagem e ao roteiro. Apenas a alguns integrantes da técnica e às locações – o jabaculê necessário para viabilizar o projeto. Ato contínuo, lá vai o pesquisador recorrer a fontes diferentes e montar o quebra-cabeças, para compreender o-quem-quando-e-como da produção.

Começando pela logomarca a la “Rocky Horror Picture Show” – o sangue escorrendo pelas letras do título –, “Liliam, A Suja” trafega entre o assim chamado “terror psicológico” (?) e o sexo quase explícito. Invariavelmente neste tipo de história, a anti-heroína psycho que barbariza nas telas costuma padecer de algum trauma de infância – no caso, o de ter assistido às surras que o pai dava na mãe – e tenta fingir em casa um comportamento fofíssimo – a mãe, idosa e doente, está entrevada numa cadeira de rodas –, antes de chutar o pau da barraca e passar o rodo em um tipo específico de vítima.

Homens – não se esqueçam, o pai cruel batia na mãe –, solitários, ricos, a fim de uma aventurazinha com uma criatura que parecia toda toda, fácil, uma tetéia pronta aos maiores prazeres.

No entanto, para infelicidade dos marmanjos, Liliam mata com navalha, estocada, tiro, faz miséria e assina no espelho, em bilhete ou em lençol de motel o slogan “Liliam, a Suja”, com o sangue que escorre dos cadáveres. Junta à cena uma rosa vermelha, como se fora a misteriosa fã de Rodolfo Valentino que, diz a lenda dos publicistas de Hollywood, ia todos os anos ao cemitério coberta por um véu, depositar a flor no túmulo do astro.

E enquanto a mãe tem pesadelos com a guria – sem desconfiar o que a moça possa fazer ao sair todo as noites coberta de “maquilage”, com a desculpa de trabalhar por hora extra –, corre em outra ponta do roteiro um grupo de estupradores/ladrões que ao final vai se unir aos destinos de Liliam, trazendo-lhe a máscara negra da morte. Vá lá que a atriz (Lia Furlin) continua a respirar, mas é o tipo de detalhe que nos tempos digitais fica bem mais gritante do que nas cópias transportadas em carrinho de mão, exibidas em alguma sala da periferia paulistana.

Ah, sim: momento chocante para quem viveu a infância nos anos 80 é o de assistir ao senhor calvo de olhos claros, Felipe Levy, coadjuvante dos Trapalhões, mantendo o intercurso propriamente dito com Liliam e depois morto, estirado, com o sangue escorrendo dos lábios.

Passadas situações como esta, o ridículo se mistura com a diversão. Entre quadros no estilo “Columbo”, com tiros e policiais de joelhos, mirando o alvo com as duas mão tensas em torno do revólver, casas de vila, inferninhos com amendoim em travessas de vidro e planos toscamente poéticos sobre o Centrão de São Paulo, “Liliam, a Suja” emula certos vícios do cinema norte-americano para, no fundo, significar uma coisa nova -- depreciada, criativa e libertina -- ou melhor dizendo, antropofagicamente brasileira.