terça-feira, maio 03, 2011

Biografia Entrevista - Alberto Salvá


Conheci a obra de Alberto Salvá da maneira como tantos espectadores a conheceram. “A Menina do Lado” foi o ponto de partida. O tal filme aviltante, horroroso, verdadeiro assassinato da moralidade nacional. A histeria gerou filas homéricas nas portas dos cinemas, debates acalorados, promessas de prisão – Salvá era acusado de explorar menores.

O bom é que ele não desiste, sempre ressurge e agora mesmo finalizou o incômodo “Na Carne e Na Alma”. Longa-metragem que ainda não conseguiu chegar aos olhos e aos ouvidos do público: uma barreira invisível impede o lançamento.

Espanhol de origem, brasileiro há inúmeros anos, Salvá acompanhou as mitológicas aulas de Arne Sucksdorff na Cinemateca do MAM-RJ. Foi guardião da moviola Steenbeck, inaugurou o Grupo Câmara, despontou no sentido contrário ao do rebanho oficial. Dirigiu os clássicos “Um Homem Sem Importância” e “As Quatro Chaves Mágicas”.

Vira e mexe coloca as mãos em conflitos sob a perspectiva feminina. “Inquietações de Uma Mulher Casada” crava uma antecessora de “Malu Mulher”. Escreveu o roteiro de “Mulher Objeto”, sucesso da Boca do Lixo que lhe rendeu tremendas dores de cabeça. Fases e fases, desde a estréia improvisada na fotografia.

Alberto Salvá narra-as com detalhes generosos no bate-papo de horas, que tivemos há algumas semanas atrás. Parafraseando-o, esta entrevista acolhe os “puros de coração”. Repleta daquela integridade que sempre o fez extrair a beleza mais intangível das mais simples coisas.


ESTRANHO ENCONTRO – Bom Salvá, nós temos a sua imagem enquanto diretor, homem público, no contexto das artes. Mas eu queria saber mais de você quando criança, por exemplo. Como é que foi a sua infância, família?

ALBERTO SALVÁ – Não nasci aqui no Brasil, nasci na Espanha. Aliás, não nasci na Espanha, nasci na Catalunha, em Barcelona, o que é diferente. Porque tem o espanhol e tem o catalão. 1938. A guerra civil acabou em 1939 e não tinha nada de nada. Não tinha comida, nada. Lembro que no inverno os cinemas enchiam. O único lugar quente que havia era dentro do cinema. Íamos eu, meu pai, minha mãe, minha avó. Mais tarde, nove anos e meio depois, tive um irmão. E ir ao cinema era inclusive um encontro social, eram sempre as mesmas pessoas. Você cumprimentava alguém da sétima fila, alguém da quinta fila. Acabava muito tarde, uma da manhã. Meu pai me colocava no colo e me levava para casa, quase dormindo. Já no caminho, tanto meu pai quanto minha mãe discutiam o filme. E aí durante a semana inteira se falava no filme. Vivia mergulhado em cinema, realmente. A primeira vez que fui ao cinema, não me lembro disso, tinha um ano de idade. Diz que havia um casal na minha frente se beijando e eu com as mãos [faz um gesto, como se afastasse a imagem]...

EE – [risos]

AS – [risos] Mas a partir de três anos e pouco, eu me lembro dos filmes que eu via. Cinquenta anos depois, vi os que eu não tinha gostado e continuei não gostando [risos]. Já tinha um senso crítico, quando criança.

EE – E você lembra quais filmes eram?

AS – Lembro. “Branca de Neve e os Sete Anões”, filmes adultos, porque não havia censura de nada. “No Tempo das Diligências”, vários filmes do Welles, imagina. De criança eu já estava com a cabeça cheia de besteira. Bom, aí eu vim para o Brasil, para o Rio de Janeiro, com 14 anos. Meu pai veio primeiro, chamou eu, minha mãe e meu irmão. Meu pai era uma espécie de pequeno empresário de obras. Pegava uma obra, uma reforma de uma casa, chamava várias pessoas e administrava a reforma da casa. Vim para o Brasil. Meu pais queriam segurança, principalmente minha mãe, que queria que eu fosse relojoeiro. Isto por causa de um parente. Relojoeiro e joalheiro. Ganha-se muito dinheiro, disse isso pra mim. Trabalhei cinco anos e meio na Souza Cruz, depois em outros dois ou três lugares, até me encher o saco. Achava aquilo tudo muito chato. Ficar atrás de uma escrivaninha, anotando. Passa o dia e o que eu fiz? A minha vida vale o quê? Nada. Apareceu um curso de fotografia, vi no jornal. Fui ficando, começando a fotografar. Depois aconteceu uma coisa que mudou o cinema no Brasil.

EE – O curso do Arne Sucksdorff.

AS – O curso do Arne Sucksdorff. Boa parte dos alunos estão praticamente todos vivos. O Joaquim Pedro aparecia, mas era figura notória, não era aluno. Aluno mesmo era o João Bethencourt, o [Arnaldo] Jabor, o Nelson Xavier, o Dib Lutfi, e eu também. Quando saí de lá, saí mais ou menos com as coordenadas.

EE – Como eram os bastidores? Porque esse é um curso bastante comentado na história brasileira. E o Arne professor? É uma figura meio mítica.

AS – O Arne eu via naquela época como um herói. Era um documentarista sueco, amigo do Bergman, tinha estado na Índia durante muito tempo. Matou um tigre que era comedor de gente e lá mesmo virou um “bwana bwana”. Agora, o curso em si tinha uma série de [risos]... tinha uma série de protegidos e gente fina. [Luiz Carlos] Saldanha, o Eduardo Escorel, Jabor, João Bethencourt, mais um ou dois que eu não me lembro agora. O resto era meio que esquecido. Fizemos um filme. O Arne ia embora antes da hora e não dizia o que deveríamos filmar. Agora, ele trouxe um material moderno. Trouxe o Nagra, que era uma coisa que naquele tempo não tinha no Brasil, ninguém conhecia. Trouxe a Arriflex, também ninguém conhecia. E trouxe a moviola sueca, Steenbeck. A moviola daquela época.

EE – Ficou anos, montou vários clássicos...

AS – Ficou, muitos. O Joaquim uma vez me perguntou se eu queria tomar conta da moviola, porque o pessoal usava, não pagava, nada. Dividimos em três pedidos de seis horas. Eu ficava colado na moviola para passar de turno para turno, o que originou uma grande briga com o Glauber [risos]...

EE – … Do tipo? Briga com o Glauber é meio previsível [risos]...

AS – Havia a turma da manhã, como o Eduardo Escorel. Das 9 às 3 da tarde. Às 3 da tarde tinha que entrar uma outra turma. Por acaso, eu estava não com o meu filme, mas com o filme do João Bethencourt, que o Glauber detestava, achava que era um fascista. E não era, não era mesmo. Mas quando chegou 3 horas, 3 e pouco, eu falei “Eduardo, passou-se o tempo. Desculpe, vai entrar alguém. Se eu deixar todo mundo fazer isso, vai ser uma confusão. O Joaquim Pedro avisou que eram seis horas para cada turno.” O Eduardo foi embora. Quando voltou, voltou com aquela fera alucinada [risos]...

EE – [risos]

AS – [risos] … O Glauber: “Não vai tirar a moviola de uma pessoa do Cinema Novo! De um amigo do Manuel Diegues [diretor do Departamento de Assuntos Culturais do MEC, pai de Carlos Diegues] para dar a esse fascista, sem cultura!” E quando ele falava, só ele falava, ninguém mais conseguia falar. Não tinha nem vírgula, nem ponto, nem nada [risos]. Eu não estou falando mal do Glauber, não. Glauber era isso mesmo. Uma analogia que eu posso fazer com ele é que o conheci com 23 anos de idade e ele já era o Glauber. E eu levei... acho que a partir dos 60 é que comecei a ser o Salvá.

EE – Você está lá cuidando da moviola Steenbeck, mas quando ingressa de fato no cinema? Botando a mão na massa, profissionalmente, para um filme que vá ser lançado?

AS – Fui convidado por uma pessoa que morreu há pouco tempo, o Thomas Farkas. Fui chamado para ser fotógrafo no “Brasil Verdade”, que ele produziu. Eu não tinha nível, mas tive de me virar. Realizei uma boa fotografia, tal, aí eu já fui pegando. Depois veio o “Paixão de Aleijadinho”, sobre o escultor. Viajei para a Bahia, ganhei o prêmio de melhor documentário do festival. Foi feito por mim, com o dinheiro de um amigo, o David Waissman. A primeira pessoa a quem eu realmente devo a minha carreira em cinema. Não sei se devo amaldiçoá-lo ou bendizê-lo por causa disso, pois sem ele eu nunca faria. E no “Brasil Verdade” eu fotografei o episódio “Nossa Escola de Samba”, do Manuel Horácio Giménez. Foram cinco meses no morro do Pau Bandeira. Cheguei a morar lá, a virar favelado. Estava de manhãzinha, às seis horas, para ver o pessoal descer. Ficava até de noite, até dar luz. Morei no lugar, fiquei amigo de todo mundo. Na despedida nos ofereceram um prato e tivemos que comer aquilo. Uma buchada [risos].

EE – Uma buchada! Parecendo político em eleição... [risos] E continuou a atuar como fotógrafo?

AS – Sim, fiz uma série de institucionais produzidos pelo INCE. Também trabalhei como técnico de som para o João Bethencourt. O importante é que na época em que eu tinha acabado de me casar, minha mulher tinha acabado de ter filho, eu não tinha dinheiro. Não tinha aonde enfiar minha mulher nem a mim mesmo, estávamos num hotelzinho na praça Tiradentes. Mas eu participei de um filme que foi selecionado para aquele famoso festival, do Jornal do Brasil. O Flávio Tambellini pai viu e gostou. “Olha, Salvá, gostei do modo como você fotografou, como você editou. Estou precisando de uma pessoa fixa, eu tenho um monte de filmes aqui. Filmados, sem editar. Dá para você editar?” “Claro, claro.”

EE – Proposta irrecusável.

AS – Eu nunca tinha sentado em uma mesa de edição, mas editei um monte de filmes. Às vezes dizem que eu dirigi, mas eu não dirigi. Apenas editei. O primeiro que eu realmente dirigi foi “Como Vai, Vai Bem?” De uma cooperativa, da qual o Glauber também virou inimigo. O Glauber tinha que ser assim. Era uma enorme galinha, que aninhava todos os pintinhos embaixo das asas. Se você não fosse lá pedir benção e seguir a linha ideológica dele, aí já era inimigo. Acontece que eu fiz parte de um grupo chamado “Grupo Câmara”. Que entrou com muita força, entrou com muita força. E aí eles ficaram assim, não é? “Opa, tem que matar esses caras aí”...

EE – Nisto surge o “Como Vai, Vai Bem”, um filme em oito episódios.

AS – Dirigi três deles. Agradou muito, então passei a ser interessante, mas continuava desempregado. De tarde, eu dormia. De noite, saía à procura de trabalho. E eu sou um animal diurno, não fico acordado à noite. Dormia antes, para sair depois. Ia na Fiorentina, aonde estavam todos os caras de cinema, de teatro. Um dia o Daniel Filho sentou-se na minha mesa. Propôs que ele dirigisse um episódio e eu, outro. Entrou um dinheiro do Jarbas Barbosa, entrou um dinheiro do Roberto Farias. Esse foi o segundo filme, “A Cama ao Alcance de Todos”. E o terceiro já foi o “Um Homem Sem Importância”.

EE – Por essa época você conhece o Vianinha, uma presença fundamental no “Um Homem Sem Importância”.

AS – Eu tinha trabalhado com o Flávio Migliaccio no “Como Vai, Vai Bem?”, em que ele fez oito papéis. O Paulo José fez seis. Estava com a idéia do “Um Homem Sem Importância”, o argumento todo, botei no papel e procurei o Flávio. “Não, Salvá, eu sou um ator decadente.” Imagina. Devo ter pego ele em um mal dia. “Eu tenho uma pessoa que vai te interessar. Vai lá na Tv Rio, no Posto Seis.” Fui lá e conheci o Vianinha. Entreguei o texto, ele me disse “deixa aí que de noite eu te dou uma resposta, na sua casa.” Acho que eu morava no Leblon, em um apartamentozinho. Ele foi lá em casa, topou. “Adorei o roteiro, quero fazer sim.” “Bom, para você eu tenho... é um filme sem dinheiro. Eu tenho 10 mil cruzeiros e 10%.” Olha a resposta do Vianinha: “Não... 10% é muito. Me dá só 5%. E 10 mil cruzeiros também é muito. Me dá só 5 mil.” Ele mesmo diminuiu o ordenado. Nossa Senhora, não existe isso, não é?

EE – Realmente, impressiona... Aliás, o filme também. “Um Homem Sem Importância” conseguiu ser neo-realista, no Rio de Janeiro, mas sem aquele ranço pesado de “Rio, Zona Norte” ou “Rio, 40 Graus”. Você fez uma coisa mais doce, de crônica, e ao mesmo tempo mais depressiva.

AS – Eu fiz uma coisa mais comunicativa. Se você vai ver “Rio, Zona Norte” ou “Rio, 40 Graus” é bom, mas é pesado. Às vezes é chato. Eu era contra isso. Gostava muito do neo-realismo, os filmes estavam na minha cabeça. Gostava muito do De Sicca, que era ainda mais difícil de compreender. Mas fiz algo para me comunicar, para falar com as pessoas mesmo. Fora isso, aquele filme mostrou um quê de pessoal, de autobiográfico também. Eu corri o mercado de trabalho, procurei emprego como o personagem. E pelo fato de ser um imigrante, depois eu me naturalizei, eu não tinha aqueles contatos que a gente nem sabe quão valiosos são, mas que são valiosos. Os contatos da infância. Eu não conhecia ninguém, estava desvinculado de todo mundo. No “Um Homem Sem Importância” até aconteceu uma coisa fantástica. Na metade do filme faltou dinheiro. Avisei aos atores, avisei à equipe. Não sabia de onde tirar o dinheiro.

EE – Imagino o que deve ter passado pela sua cabeça.

AS – Aí estou eu no bar em frente à antiga Líder, na [rua] Álvaro Ramos, tomando uma tristíssima média com pão e manteiga. Alguém bate nas minhas costas. Era o Flávio Tambellini, o pai. Uma pessoa extremamente generosa. “O que foi? Te acho triste.” “Triste? Parei meu filme, na metade.” “Vou confessar uma coisa para ti. A coisa mais triste do mundo. Estou indo para a cidade, quer vir comigo?” Eu me lembro até do que respondi: “olha, Flávio, eu quero ir pra casa e morrer um pouquinho. Quero dormir, para tirar isso da cabeça.” “Não, vem comigo. Você sabe que eu tenho medo de andar sozinho.” Tinha tido um acidente. Para atravessar a rua, você tinha que se pendurar no braço dele ou ele não atravessava. Acidente feio mesmo. Mexeu no rosto inteiro. Subimos num táxi e fomos para a cidade, aonde era mais ou menos o [terminal de ônibus] Menezes Cortes. “Espera aí no carro que eu volto já.” Ok, fiquei esperando no carro. Quando ele voltou, disse: “Copacabana”.

EE – Cada vez mais longo o passeio...

AS – Pois é, ele estava indo para casa agora. Morava em Copacabana, na [rua] Constante Ramos. E aí o Flávio coloca a mão dentro da calça, começa a tirar notas e notas e notas. Maços de dinheiro. “O que é isso, Flávio?! Assaltou um banco?!” “Não, Salvá, isso é para você acabar o filme.” “Flávio, você tirou esse dinheiro da conta do INCE?” “Bom, eu mesmo é que não tenho. Vou repôr, é claro, mas por enquanto pode ficar com você.” “Mas e se eu morrer e não conseguir te devolver esse dinheiro?” “Se você morrer eu vou ficar tão triste que não vou nem ligar pra esse dinheiro.” Olha a qualidade humana do cara. E eu sei que não me lembro de onde entrou, mas uma semana depois, dez dias depois, entrou um dinheiro para mim e devolvi pessoalmente. Esse salvou minha vida. Depois me deu um emprego no próprio INCE.

EE – Pelo que contam, o Tambellini era mesmo uma pessoa excepcional. E você rodou o filme quando?

AS – Outubro, novembro de 70.

EE – Bem naquela euforia do milagre, do governo militar. E o filme vai muito contra isso. Mostra alguém que está desempregado, não consegue se encaixar. Isso causou algum problema com a censura, mesmo com a crítica? Porque vai contra aquele estado de espírito reinante, aquele momento do país. É bem cético.

AS – Eu era contra o que estava acontecendo no país. Tive amigos que morreram. Tive até um sócio que morreu. Ele ia para a sala de tortura, no segundo andar, parece, e já o haviam torturado. Achou que não iria aguentar mais e se atirou pela janela. Um outro desapareceu. Uma boa parte foi torturada. Minha mulher e a família toda da minha mulher foi torturada. Eu era absolutamente contra, mas não houve reação ao “Um Homem Sem Importância”. Não se tocaram.

EE – E você ainda chamou o Denoy de Oliveira, do Grupo Opinião, para fazer a trilha sonora.

AS – Eu era amigo do Xavier de Oliveira, fizemos juntos o Festival JB. O Xavier era uma pessoa que eu, de cara, fiquei amigo. Aí conheci o Denoy. E quero fazer justiça ao Denoy. Sem a música do Denoy, meu filme não seria o mesmo que é. Ele deu alma ao filme. Do mesmo jeito que o Sérgio Ricardo deu alma ao filme do Glauber. Sérgio Ricardo e o Villa-Lobos deram alma ao “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. E apesar de tudo isso, não sofri com a censura. Eu era aquele cara que estava com as bolinhas de gude no bolso [risos]. Que depois se mostraram eficientes, porque elas rolavam...

EE – … e os cavalos caíam no chão, não é? [risos]

AS – [risos] É... Até que se passou a usar rolha, que era muito mais leve. Fui na primeira passeata, fui na segunda, terceira. Apanhei, não sei se deveria ter feito uma coisa dessas. Apanhei bastante, mas eu era o cara que fugia, corria mais que eles. Naquela época o que havia era uma grande censura a sexo. Aliás, continua tendo. Você pode mostrar alguém estripando alguém, mas não pode mostrar sexo. Mesmo assim, se produzia muito cinema. Acabei de editar “Um Homem Sem Importância” em dezembro de 70 e em janeiro de 71 estava em um novo filme, “As Quatro Chaves Mágicas”.

EE – Que é bastante marcante no cinema brasileiro. Toca na literatura infanto-juvenil, nesse clima infanto-juvenil e é excepcional. Lida com o universo lúdico, de sonho.

AS – Olha, o filme veio de uma experiência muito estranha. Depois de “Um Homem Sem Importância” eu passei a frequentar um clube, a fazer umas aulas de ioga. Eu via que, depois das aulas, algumas pessoas entravam em uma outra sala e não saíam. Um dia, um mestre me perguntou se eu gostaria de fazer parte do círculo interno. O DeRose. Tudo bem. Chegamos lá dentro, todo mundo tira a roupa, ficamos pelados. Pensei: “Que coisa estranha”. Mas as aulas continuavam, o cara lidava com magia. Eu fiquei fascinado com aquilo, conheci magos de verdade. Fiquei assustado também, por isso acabei saindo. Muito assustado.

EE – Por quê? Aconteceu alguma coisa em especial?

AS – Para você ter uma idéia: uma vez fomos a Friburgo, à casa de um homem conhecido, renomado. Quando chegamos, encontramos um senhor de uns 60 anos, afável e tal. Ele e o DeRose jogaram uma partida de xadrez. O DeRose ganhou. E mostrou que ganhou. O mago não gostou. Não gostou. E aí me lembro que, na despedida, ao invés de apertar a mão do DeRose, ele fez assim nele, com o dedo [coloca um polegar acima do nariz, entre os dois olhos]. No dia seguinte, o DeRose apareceu na academia. E estava com um buraco aqui [coloca o dedo no mesmo lugar que havia indicado]. Exatamente aqui. “O que foi isso, DeRose?” Ele me explicou. “Na descida de Friburgo, o carro perdeu os freios, eu olhei um muro e pensei: 'é para lá que eu eu vou'. Me machuquei todo, mas se não fizesse isso, caía lá embaixo.”

EE – Pesado...

AS – Vi algumas coisas assim. Uma senhora que era dona de um restaurante. Bruxinha também. Bruxinha não: bruxona. Dizia ter inimigos no astral. Isso eu vi. Dormia e acordava toda arranhada, sangrando. Quando brigam entre eles, quando um mago briga com um mago, cria formas e manda de encontro ao outro. Um deles criava lobos e mandava os lobos para cima dela. Ah, eu vi um monte de coisas. Uma barra muito pesada para mim.

EE – Você está contando, eu estou lembrando do filme. A bruxa, Astarte.

AS – Eu fiquei tão imbuído desse universo que eu tinha que contar. Um universo mágico. Filmei na entrada para Mury [distrito da região serrana, no estado do Rio]. Não sei se o restaurante ainda existe. Havia uma organização deles no local. A filha daquela senhora, que também era uma bruxona, disse para o tesoureiro: “Engraçado... Estou vendo você a dois palmos acima do chão.” Esse cara se enforcou, uma semana depois. Descobriram que ele estava roubando do círculo. E, no círculo, eles desenvolvem a chamada “egrégora”. A egrégora defende o grupo. Para a egrégora, roubar o grupo significa que aquela pessoa tinha que ser eliminada. Eliminaram. Pensei logo: “vou sair fora... vou fazer um filminho, calminho” [risos]...

EE – É... Melhor ficar na quase ficção... [risos]

AS – E fui parar em uma locação com problemas. Teve um dia que botamos a equipe inteira pelada, no meio de um riacho, e demos banho de ervas. Havia acontecido três, quatro coisas terríveis naquele dia. Um jipe quase caiu pelo desfiladeiro. Deu contato na bateria da máquina, o que poderia ter matado o cara: ele estava com os pés na água. Enfim, tanta coisa. Alguém falou “vamos dar um banho em todo mundo.”

EE – Você estava casado com a Dita Corte Real, não é? Ela trabalhou no “Um Homem Sem Importância” e faz o papel principal do “As Quatro Chaves Mágicas”, a Maria.

AS – Está também no “Vida e Glória de um Canalha”. As esposas dos diretores sempre estão... [risos]

EE – [risos] ...Sempre têm um papel. Vide o Sganzerla, a Helena Ignez... E, devido a esses problemas todos no set, você reformulou o filme?

AS – O roteiro foi escrito em menos de dois dias. Eu tinha aqui na minha frente um remédio chamado Catovit e, do lado, uma guimba de maconha. Dava uma tragadinha na guimba de maconha, ficava uma hora e pouquinho ligado, escrevendo. Escrevendo feito um louco. Começava a arrefecer o efeito, tomava um gole de Catovit e ficava mais uma hora. Escrevendo. Assim, direto. Em dois dias acabou.

EE – Saiu uma obra-prima, o roteiro é maravilhoso. Uma coisa que você falou na época, Salvá: que o filme era para os puros de coração. Não sei se você se lembra.

AS – É, eu lembro.

EE – O que é verdade, apesar de estranhamente não ter ido bem nas bilheterias.

AS – Houve uma coisa séria. Eu coloquei os dois filmes na mão de um distribuidor que não quero nem falar o nome, me repugna. Roubou toda a renda do “Um Homem Sem Importância” e toda a renda do “As Quatro Chaves Mágicas”. Toda. Me roubou, roubou o Paulo José. Roubou. Saí atrás, e catando ele. Fui naquela delegacia famosa, da Central do Brasil. Mandaram eu falar com um cara que resolveria o meu problema. Eu estava desesperado. O cara estava lá, dentro de uma kombi, guardando o material de guerra na frente. Contei qual era o problema e ele: “Tá bom. A gente faz esse trabalho. Agora, vai ter o dinheiro em cima?” Respondi: “É muito dinheiro. Duvido que ele tenha isso em cima.” “Não, porque aqui é o seguinte: tem o dinheiro em cima, a gente tira e acabou. Entrega. Não tem o dinheiro em cima, a gente faz ele na hora.” Eu falei “não, não posso carregar um defunto pelo resto da vida.” Lembro que ele bateu nas armas, estavam no capô da kombi: “A gente carrega tantos defuntos aqui...”

EE – Mas ainda existe essa pessoa? Já falecida?

AS – Soube que ele está em um negócio que não tem nada a ver. É um sociopata, na realidade. É um sociopata. Daqueles calmos, que parece que está tudo bem. Mas é um ladrão. Calculava antes, não esperava a oportunidade. Ele criava a oportunidade, para te roubar. Então eu não vi um tostão do “Um Homem Sem Importância”, não vi um tostão de “As Quatro Chaves Mágicas”. Lançou mal, muito mal.

EE – O filme seguinte,“Vida e Glória de um Canalha”.

AS – “Vida e Glória de Um Canalha” tinha sido publicado em capítulos em um jornal paulista. Deu muito certo, incrementou a venda do jornal, um pasquinzão. Acharam que daria um filme e dinheiro, claro. Me convidaram. Era horrível o roteiro, era horrível tudo, mas foi uma ótima experiência. Fiz um grande amigo, que já faleceu. Milton Rodrigues. O Milton participou de vários filmes, andou tendo um caso com a Silvia Pinal, atriz do Buñuel. A Silvia levou ele para o México, conseguiu uma carreira enorme, na televisão. Conheci a Odete Lara também. Foi interessante. Quem entrou muito com o dinheiro era o cara que trabalhava no cais. Controlava entrada e saída, na alfândega. Por debaixo do pano devia pegar muita grana.

EE – Participando de projetos de outros colegas, em 70 você é escalado como ator em um filme do Carlos Frederico, “A Possuída dos Mil Demônios”. Um tipo de linguagem cinematográfica diferente da sua.

AS – É, ele era mais desbundado do que eu. Mas era mais chato. É tipo o filme do Sganzerla ou do Júlio Bressane. Ótimo, ótima experiência, mas na metade do filme você diz “eu quero sair, quero ver um Bruce Willis” [risos]. Eu só me lembro que não sei se foi no “A Possuída dos Mil Demônios” ou no “Lerfa Mu”. Sei eu que era ator, sei que ele me levou pra filmar em um depósito de lixo. Você sabe que o lixo entra em decomposição e queima. Queima mesmo. Fui lá de bota, mas no que eu pisei , afundei meu pé dentro daquele lixo. Entrou aquela coisa queimando na minha bota e me queimei todo. Lembro disso. Uma lembrança forte.

EE – No “Os Homens Que Eu Tive” que também não é seu como diretor, você faz a fotografia. É uma história interessante, dirigida pela Tereza Trautman, sua esposa depois da Dita...

AS – Eu sou um monógamo serial. Fico com uma pessoa, sou fiel, amo aquela pessoa. Quando acaba... cadê a outra pessoa? [risos] É a mesma coisa, repete o mesmo esquema...

EE – [risos] E, por outro lado, se no “Um Homem Sem Importância” havia uma coisa autobiográfica, aconteceu o mesmo no filme da Tereza? O argumento bem libertário: a protagonista vive uma relação aberta, com alguns amantes.

AS – Não, era ficção. Eu só dei o nome. A Tereza estava comentando, um papo assim, aquela coisa de casal, “os homens que eu tive”. Na hora, eu falei: “Isso dá um título ótimo para o filme! 'Os Homens Que Eu Tive'!” E aí ela resolveu fazer “Os Homens Que Eu Tive”. Eu só fotografei. Aliás, a Ítala Nandi está no filme, quis o papel principal. O Herbert Richers vetou: “Tem que botar uma mulher que tenha imagem de puta. A Ítala Nandi não tem esse perfil, quem tem é a Darlene Glória.” E a Darlene criava problemas. Nós aprontamos um namoro entre ela e o Gabriel Archanjo, ator do elenco. E isto porque a Darlene desaparecia, subia o morro pra comprar alguma coisa, comprar maconha, sei lá o quê. Comprava tudo o que era droga e ele ia junto. Telefonava de lá, dizendo: “Olha aí! Estamos no morro!” Dizia as coisas mais absurdas. “Dormimos aqui, mas já estamos descendo. Estou carregando a mulher!” [risos]. Sem ele a gente teria perdido o controle, eu tinha uma experiência. O Carlos Alberto Souza Barros filmou com ela e ela sumiu! Sumiu na praia. Sumiu, foi embora.

EE – E era pra ter sido a Leila Diniz. Não deu tempo, ela morreu antes.

AS – Era, era para ter sido a Leila.

EE – Esse filme a censura pegou, não é, Salvá? Interditado por muitos anos.

AS – Naquela época não lançavam os filmes na sexta-feira. “Os Homens Que Eu Tive” foi lançado e passou segunda, terça, quarta, sempre dando dinheiro. Só nesses três dias pagou toda a propaganda, as cópias, pagou tudo. Eu era co-produtor, pensei: “Vamos ficar ricos, Tereza!” Na quinta-feira, a mulher de um general começou o problema: “Um filme com o nome 'Os Homens Que Eu Tive'! É absurdo!” Já havia sido liberado pela censura, estava sendo exibido e foi proibido. Ficou 12, 14 anos proibido.

EE – Com o “Revólveres Não Cospem Flores” você tocou nessa arena política de um modo mais direto?

AS – Olha, eu gostava muito da idéia. Achava que era um filme político, mas a política estava tão escondida que ninguém percebeu. Eram dois irmãos. O Paulo Villaça e o Carlos Eduardo Dolabella. O Dolabella era um policial. O Villaça, um traficante. Os dois vivem em oposição o tempo inteiro. Eu achava que estava falando da realidade brasileira, uma visão da realidade brasileira. Filmei praticamente na praia, fotografei também.

EE – Pelo título, “Os Maníacos Eróticos” parece ter ido por outro caminho. Esse é mais um filme raríssimo de se encontrar...

AS – Eu tentei pegar uma cópia desse filme com o produtor, o Victor di Mello. Ele tinha uma sala na [rua] Senador Dantas com o Carlo Mossy e mais dois. Um faleceu. Era uma turma amigável, gostava muito deles, mas estavam a fim de fazer dinheiro. Nessa altura, eu morava em Teresópolis com a Tereza. Desci a serra com moedinhas no bolso, para encontrar o Victor. Só tinha moedinha, não tinha nem nota. Deixei minha mulher em casa, sem dinheiro, preocupado. O Victor: “Salvá, você tem algum argumento aí?” Não tinha. Falei: “Claro, tenho!”

EE – [risos]

AS – [risos] “Como é que se chama?” “Opa! Os Maníacos!” “Bom nome.” Saiu na hora. Veja a necessidade, a fome. “Quanto você quer para fazer esse filme?” Acho que eram trezentos mil. Foi com alguém para a sala de reuniões, que era o banheiro. Voltaram, me ofereceram dois terços do que eu havia pedido. Duzentos mil cruzeiros. Aí eu falei “só topo se vocês me pagarem 10% agora.” “Está bom, está bom. Traz o roteiro pra cá.” Fui no banco, na própria Senador Dantas, descontei o cheque. Aquela dinheirama. Quando cheguei em casa, fiz igual ao “Assalto ao Trem Pagador”, espalhei as notas. “Tereza! Olha aqui!” “O que houve?!” Ela quase teve uma síncope, um troço. “Está vendo? Casa comigo, que você acaba dando certo.” [risos]

EE – [risos] E para o roteiro, como você fez?

AS – Tive ideazinhas. Pequenas idéias para pequenas histórias. O nome “Os Maníacos Eróticos” é porque, quando o Victor foi registrar, já havia um filme chamado “Os Maníacos”. Japonês. Ele não duvidou: ficou “Os Maníacos Eróticos”. “Mas, ô Victor, isso não tem nada de erótico. Ninguém nem transa com ninguém.” “Ah, deixa. O pessoal nem sabe!” Escrevi um monte de histórias. Tinha 64 histórias, 64 esquetes. Às vezes o mesmo ator fazia três esquetes. Eu não sabia em que ordem filmar, se aquilo fazia algum sentido. A gente ainda estava na época da droga, então puxei um fuminho, botei o nome de cada episódio em um papel, coloquei os papéis na mesa. E olhei. Foi fácil: a ordem é essa [risos]. Eu conhecia muita gente no Rio, telefonava para todos: “Fulana, você não quer passar um fim de semana em Teresópolis? Você vai fazer um filmezinho curto, mas vai poder ficar aqui, tem piscina e tal”. Todo mundo topava.

EE – No filme seguinte, o “Ana, a Libertina”, você manteve esse esquema?

AS – Não. E, na produção, havia o Herbert Richers, que investiu no “Revólveres Não Cospem Flores” e no filme da Tereza. É uma pena porque o “Ana, a Libertina” é muito melhor do que certos filmes feitos na época. O Herbert era um produtor razoável, mas não era um bom distribuidor. Um filme bom e passou assim. É sobre uma mulher que de dia é grã-fina e de noite ela vai pra casa de umas empregadas, troca a roupa, se veste de puta e sai pegando homem. No fundo, no fundo, é o filme do Buñuel, “A Bela da Tarde”. Não copiei nada, mas a idéia era. A Marília Pera estrelava. Certa vez nos encontramos, ela me disse “eu não era a atriz daquele filme, Salvá”. Eu disse “era, era.” “Não era, Salvá.” Precisava de uma Darlene Glória. Não me lembro por que a Darlene não fez.

EE – O “Inquietações de Uma Mulher Casada”, em 79, vai em outro sentido. Traz um pouco daquele clima de “Malu Mulher”.

AS – Na realidade, até 79 não tinha nada parecido. “Malu Mulher” veio depois. Quem tratou de problema de homem, mulher, relacionamento, foi o “Inquietações de Uma Mulher Casada”. Depois veio a coqueluche. Esse filme ninguém gosta muito, não. Não é aquele filme que estoura, mas é contado com honestidade.

EE – Gosto do plano inicial, a Denise Bandeira se olhando no espelho. Ela está e não está ali. Com o rosto fechado, no meio de um conflito que vai ser explicado mais para frente.

AS – É assim que começa? Não me lembro. É porque eu já tinha tido vários casamentos [risos]...

EE – [risos] Ah, então havia uma experiência nessa área... O filme fala sobre troca de casais, bem típico da época, o wife-swap nos Estados Unidos.

AS – Nunca fale “swing”. É uma droga, swing. É melhor ménage à trois, bundalelê. Agora, swing não, porque sempre tem um olhando, sem nada para fazer [risos]. O Pedro Camargo me interpretou neste filme, ele aparece como um cineasta. Mas, de resto, não foi empírico. Nunca tive experiências desse tipo, não.

EE – Já o “Mulher Objeto” é um filme marcante para o cinema brasileiro. Você escreveu apenas o argumento?

AS – Eu fiz o roteiro. O Aníbal me botou um assistente, o Jaime Camargo, que depois ele colocaria em primeiro lugar como se fosse o autor do roteiro. Eu escrevi o roteiro inteiro e o Jaime foi apenas uma pessoa que deu uns palpites. Era bom, um cara legal. Mas já estava pronto o filme. Eu tinha um trato com o produtor, o Aníbal Massaini. Eu era burro nessa época, não fiz nenhum contrato vinculando o roteiro à direção. E o Aníbal era muito chato. Quase nunca as coisas estavam certas, tinha-se que escrever, reescrever. Passei um tempão, meses da minha vida escrevendo e reescrevendo na casa dele, na minha casa. Ele sempre tinha um palpite, às vezes completamente errados. Até que no final, acertamos uma versão. E aí eu não me lembro o que eu fui fazer. Um trabalho que me ocupou duas semanas. Quando voltei, ele tinha dado o filme para o Silvio de Abreu. “Aníbal, eu era o diretor!” “Tá, mas você desapareceu.” “Eu fiquei meses à disposição de você. Desapareço duas semanas para fazer um trabalho, porque eu estava inclusive sem dinheiro. Fiquei com você sem receber dinheiro e você me dá o filme para outra pessoa dirigir?” “Mas ele é bom.” Enfim. E esse filme enriqueceu o Aníbal.

EE – É interessante como os seus roteiros trabalham o conflito de relação. Há sempre uma tendência neste sentido. No próprio “Mulher Objeto”, a esposa que não consegue sentir prazer com o marido. Ou no “Inquietações de Uma Mulher Casada”. A que você atribui essa verve?

AS – Para mulheres frágeis? Talvez porque eu só encontre mulher que tenha o pau maior do que o meu. Só encontro sargenta de cavalaria. Talvez, por isso, procure mulheres frágeis na imaginação [risos]. É uma coisa difícil de entender mas, sei lá, talvez por aí. Acontece o mesmo com um personagem bom. O bom, nenhum ator quer fazer. Ele é estéril. Mesmo quando a gente faz um cara bom, é necessário colocar alguma coisa de ruim nele, para virar gente. Então, a melhor forma de você lidar com uma personagem mulher é fazer uma mulher frágil. Assim você fala um monte de coisas. A mulher forte já está pronta.

EE – Da Boca do Lixo, com o “Mulher Objeto”, passamos para a Z Produtora, no Rio Grande do Sul. Em 84 você fotografou o “Me Beija”, do Werner Schunemann.

AS – Me chamaram. Acho que eles não tinham dinheiro. Sabiam que eu existia e, com certeza, sabiam que eu tinha uma câmera. Duas câmeras Arri. Também iluminava, então juntava tudo. O cara que tinha experiência, sabia fazer câmera, sabia iluminar. Tinha luz, tinha câmera. Era uma espécie de pai do pessoal, bem mais jovens.

EE – No mesmo ano você assina como Alberto S. Contel o “SOS Sex Shop”. Bem no período em que o cinema erótico degringolava para o explícito.

AS – Eu escrevi um conto, uma das melhores coisas que já escrevi. Saiu publicado em uma revista, o Pedro Rovái leu e me disse: “Salvá, isto aqui dá um filme”. “Então produza!” Ele resolveu produzir. A verdade é que o Rovái era insuportável. Melhor trabalhar com o Herbert Richers. O Herbert Richers, inclusive, saía para não pagar. Ficava a equipe inteira passando o fim de semana sem o pagamento. E cobravam do diretor, evidentemente. Mas o Rovái era pior. Todo dia de manhã, quando eu acordava, tinha um monte de folha embaixo da porta. Ele dizia como é que eu tinha que fazer essa cena, como é que eu tinha que fazer essa outra cena. Eu saía do filme pensando “mas por que é que eu não dei uma porrada no Rovái, um murro?” O próximo diretor que ele produziu deu uma porrada [risos]. Fui vingado. Foi muito sofrido, muito sofrido.

EE – O “Alice” aparece por aí?

AS – O “Alice” gerou “A Menina do Lado”. Também é um texto, publicado em uma revista. Eu sei que eu tinha acabado de me separar de uma das mulheres, a mãe do meu filho. E agora ela me deu a maior ajuda nesta doença, nesta operação [Salvá encontra-se em recuperação de uma cirurgia]. Ela me deu a maior ajuda. As coisas mudam. Não se pode nem ficar chateado com as pessoas porque as pessoas mudam. Eu tinha acabado de me separar dela. Aliás, não me separei, fugi. E fui morar na casa de um amigo, o Cláudio MacDowell, também cineasta. A mãe do meu filho, essa mulher, esperava que eu me trumbicasse. Que Deus jogasse um raio na minha cabeça, que me rachasse. Eu sei que no quarto, quinto dia de eu estar morando na casa desse meu amigo, recebo um telefonema bem cedo, de manhã. “Comunico que o senhor tirou o primeiro lugar no meio de 400 novelas enviadas para a revista tal.”

EE – Era a revista Status?

AS – Era. “O senhor quer que mande o dinheiro ou quer vir aqui apanhar?” “Eu vou aí apanhar.” [risos] Pode se perder no caminho, sei lá. E até hoje é o maior prêmio pago por um conto, pago por uma produção literária. Eu sei que era um luxo, o Jorge Amado estava no júri e tal. E com esse dinheiro, ao invés de cair um raio na minha cabeça, eu aluguei um apartamento, comprei móveis. E, estava andando na praia, me veio o Gustavo Dahl. Gustavo Dahl era mais da turma do Glauber. Vem correndo pra mim, me encara a um palmo, e diz: “Eu li o seu conto. E é sutil!” Quer dizer, não se esperava jamais um conto sutil vindo de mim. Mas todo mundo que lia, dizia: “Salvá, isso é um filme. Salvá, isso é um filme. Salvá, isso é um filme.”

EE – Deram um ponta pé inicial.

AS – “Está bom, então vou entrar com o projeto na Embrafilme.” Entrei, eles autorizaram. Autorizaram 18 roteiros, o meu estava junto. Um dia, no telefone, era o Eduardo Escorel. Estava na direção da Embrafilme. “Salvá, o seu projeto saiu com mais 17. Todo mundo já veio aqui, você não veio. Você não quer?” Eu tinha acabado de receber uma proposta de contrato da Globo. Telefonei para o Daniel Filho. “Daniel, está acontecendo isso, assim, assim. Eu quero entrar na Globo.” Claro, era um emprego. “Mas como é que eu vou deixar de fazer um filme que me é oferecido na bandeja?” “Não, pode ir. Pode ir que o seu lugar aqui está guardado.” Mais tarde eu falei pra ele: “Você me falou isso, cara.” “Salvá, se eu levantar aqui pra fazer xixi, demorar um pouquinho mais, quando eu voltar encontro alguém sentado na minha cadeira. Ocupando o meu trabalho.” “Não é isso o que você me falou.” “Não, e tal...” A Globo nunca mais me chamou, ficaram assim comigo.

EE – E o “Alice” virou “A Menina do Lado”.

AS – Aí apresentei o primeiro orçamento, o Eduardo falou “mas está muito baixo isso, Salvá. Aumente uns números. Não vai conseguir fazer com esse dinheiro.” Aumentei os números. Devolvi a ele. Agradeço ao Eduardo, que era meu inimigo durante o curso do Arne, mas ficou amigo, foi muito legal. Apresentei um novo orçamento. “Está muito baixo ainda. Aumenta esse negócio aí.” Fui filmar. Poderia ter filmado em menos tempo. O fotógrafo era lerdo. Se há uma coisa que o diretor implique, qualquer diretor, é o maquiador e o fotógrafo. O maquiador porque está tudo pronto e ele “não, só mais um pouquinho, espera aí, estou acabando.” Você fala “e aí, como é que está a maquiagem?” Vinte minutos depois: “Não, não, estou acabando.” E você parado lá. Já o fotógrafo tem sob o seu comando os maquinistas e os eletricistas. Ou seja, o poder de fazer um filme ou de parar, ou de ficar mais veloz, é com ele. Eu arranjei um bom fotógrafo, mas era lerdo. Então fiquei com dívidas que se arrastaram, porque foi concluído além do tempo que eu tinha.

EE – Quando você começou o filme pensou que teria essa retaliação toda? Porque as pessoas têm um olhar extremamente tacanho em relação a ele. Extremamente estúpido.

AS – Eu fui a programas de televisão, como o da Sílvia Poppovic, muito simpática. Estávamos eu e seis, sete pessoas. Alguém abriu baterias contra mim. Disse que eu deveria ser preso, por abusar de menor. Durante o filme inteiro eu tive permissão do juiz, os pais estiveram o tempo inteiro presentes à filmagem. Em qualquer filmagem. Aquela cena que parecia que a menina estava sentada nele, estava na realidade sentada em um travesseiro. O Reginaldo Faria estava no Rio de Janeiro e aproveitei para filmar só ela, sentada em um travesseiro. “Ah, não sei, não sei.” “Como você não sabe? Você não viu o filme?” “Não, não vi o filme.” “Você não viu o filme e está dizendo que eu devo ir preso por causa disso?” “Eu não preciso ver um filme desses para saber como é que é.” Teve coisas neste nível. Um filme considerado imoral. Imagina, um quarentão se envolvendo com uma menina de 14 anos. Parece que “Lolita” nunca foi feito. Era leve em relação ao “Lolita”, em que o cara acaba matando.

EE – E no “Lolita” havia uma simbiose bem doentia, o contrário de “A Menina do Lado”.

AS – “A Menina do Lado” foi, aliás, baseado em um caso verídico. Era um sujeito jornalista, tinha sido torturado, tinha o maior respeito da praça, do meio. Passou uma mulata na frente dele. Ele olhou para a mulata, largou mulher, filhas, casa e tudo. Assim ele me contou toda essa história. Depois de 2 anos, a filha resolver fazer as pazes com o pai. Encontrou o pai de chinelo, dando milho para as galinhas no quintal [risos]. “Minha filha, eu só passei a ser feliz depois que me separei da sua mãe. Só passei a ser feliz com esta mulher que você tem raiva.” Era a mulata. Que história maravilhosa essa. Agora, se eu botar uma mulata, o cara indo atrás de uma mulata, vai ficar muito folclórico. Então vamos botar uma menina, que também é uma coisa transgressora.

EE – Porque a moça não era menor de idade, na vida real.

AS – Não, não era menor de idade. Eu sou uma pessoa talvez mais complicada do que muitas pessoas. Tenho nós, tenho manias, tenho coisas. Mas nunca tive nenhum problema com sexo. Zero. Para mim tudo é absolutamente natural, nenhum problema para mim. Jamais pensei que alguém pudesse me criar caso com aquilo. Eu fui de boa vontade. Quando eu vi o caso, as pessoas reclamando, pensei “estão reclamando de quê?” Uma relação limpa que eu estou apresentando. Essas coisas acontecem. Uma menina daquela, de 14 anos. E mais uma coisa: os galalaus todos daquela época, todos eles ficaram apaixonados pela menininha de 14 anos. Todo mundo queria saber da menina, não era só gente jovem, não.

EE – Salvá, uma coisa: como foi a seleção de elenco?

AS – Deixei duas pessoas. Uma chamava as candidatas, a outra atendia, fazia o teste. Era um rapaz de 20 anos. Foram montes de testes. Me lembro que, na última vez em que passamos os testes filmados, estava o da Flavinha [Flávia Monteiro]. Olhei aquilo, levantei, fiz uma coisa bem épica. “Temos personagem! Temos Alice!” “Tem certeza?” “Vocês não viram?” Era a Alice, era a própria. Muito boa, o único problema é que ela precisa de alguém dirigindo. Sempre foi subutilizada. É excelente atriz, e mais: excelente atriz trágica.

EE – Hoje em dia, essa questão que você falou, de acharem o filme criminoso, amoral, piorou por conta da caretice que cresceu nos últimos anos. O que falam para você do “A Menina do Lado”?

AS – O Brasil, ao invés de evoluir, está encaretando. Coisas que eram permitidas no tempo da ditadura, não são permitidas agora. Estamos regredindo, cada vez mais. Então muitas pessoas continuam achando que aquele filme é pedofilia. Incrível. Já me deu vontade seriamente de sair do Brasil. Parece o Chile. O Chile é um dos países mais caretas do universo. O Brasil está ficando assim, também. Continua aquela coisa. “Salvá só faz filme de sacanagem.” Sou conhecido por fazer filmes de sacanagem. Fiz um curta-metragem chamado “O Vendedor”, em 1990. É uma piada. Sobre um casal que, por causa de um plano, não me lembro o nome, aqueles que tinham a cada três meses, perdem o emprego. São demitidos e, na cama, eles comentam. “E agora, o que nós vamos fazer?” Quando estão dormindo, ouvem um barulho na sala. Um barulho esquisito. Vão ver, tem um monte de pau de borracha, uma pilha de paus de borracha na sala. E eles passam a vender os paus a domicílio [risos]. A história toda é sobre os paus, até o último pau que eles entregam. Dormem novamente e... blup, blup, blup, blup! Tem um monte de xereca de borracha. Começa tudo de novo [risos]. É uma piada, uma piada... O Jorge Furtado falou, em Gramado, durante um intervalo: “só você, Salvá, só você...” “Só eu o quê?” “Só você, só você...” E foi um tremendo sucesso. Foi para o festival cubano, um escândalo. Adoraram! Ninguém criticou, não. Adoraram mesmo.

EE – Depois de “O Vendedor”, entramos na fase Collor.

AS – A época do Collor... O Brasil me causou dois grandes malefícios. Um deles foi a proibição do filme da Tereza. Eu era sócio, o Herbert também. O outro malefício foi o Collor. Eu estava acabando o “Manobra Radical”, da Eliza Tolomelli. Era o produtor. No final do filme, saíam quantias grandes. De repente, o Collor confisca o dinheiro. E aí? Como é que eu vou pagar as quantias que estão saindo? Como é que eu vou acabar o filme? Fui tentar colher dinheiro na praça. Como não havia dinheiro na praça, os juros... Quem emprestava dinheiro arrancava a pele junto. O Severiano Ribeiro e o Marco Aurélio Marcondes, que estava na Severiano Ribeiro, me ajudaram. Acabaram o filme. Depois, mais tarde, não quiseram receber o dinheiro adiantado. “Não, de você não queremos, não.”

EE – Nesse hiato a partir de 90 até o projeto novo “Na Carne e Na Alma”, o que você fez?

AS – Dois contratinhos com a TVE, dei muita aula. Tive um contrato bem maior até, com a Multi-Rio. Passei a dar aula, o que eu não gosto, cansei. Você acaba contando sempre as mesmas coisas, fazendo sempre as mesmas piadas. Sabe até aonde a turma vai rir.

EE – Em termos de produção, você testemunhou mudanças drásticas no cinema brasileiro.

AS – Acho que tem uma coisa que, talvez para mim, em relação ao meu jeito de fazer cinema, é algo ruim. Nós pegamos o sistema de trabalho de Hollywood. Sendo que em Hollywood, eles trabalham com uma câmera de terceira geração. Nós só trabalhamos com câmeras de primeira geração. Para quê? O americano leva não sei quanto tempo para terminar. Ah, também vamos ficar não sei quantos meses para terminar. Meu último filme, o “Na Carne e Na Alma”, eu fiquei 12 dias filmando. Um longa-metragem. Três dias foram só de festinhas. Da filmagem mesmo, foram 9 dias.

EE – E como você arrecadou o dinheiro? Entrou em algum edital ou foi através da iniciativa privada?

AS – Ninguém iria botar dinheiro nesse filme, não. As pessoas não gostam de ousar, eu até entendo. Para que ousar, se tudo sendo feito normal dá certo? Eu sabia que eu teria que fazer. Comecei com um dinheiro meu, peguei dinheiro em banco. O dinheiro acabou, percebi que meu sócio, que naquela época ainda não era, trabalhava na equipe, percebi que eu ia direto para ele pedir dinheiro. “Está aí um membro da equipe útil para burro.” Depois ele ficou tão amigo que acabou virando meu sócio. Acho que deveríamos fazer um cinema bom, claro, mas adequado aos nossos recursos. Adequado porque o cara para fazer qualquer filme gasta 5 milhões de reais. Aí você vai ver o filme, onde ele botou esses 5 milhões? Eu sei como é. Filma, pára, conversa, procura aonde é que vai a câmera. Sabe? Não pode, não pode.

EE – Gasta-se tempo, você quer dizer?

AS – Cinema deveria ser feito como televisão. Com melhor qualidade, claro. Mas deveria ser feito assim. Não tem hesitação. Saber o que se quer antes de você filmar. Isso é o lado ruim. E achamos que somos muito profissionais por causa disso. Eu acho que isso está levando o cinema para baixo, na medida em que os orçamentos ficaram muito altos. Automaticamente, esse dinheiro que poderia servir para fazer dois, talvez quem sabe três filmes, só serve para fazer um. Isso é o lado ruim. O lado bom é que saíram bons diretores. Compara o [José] Padilha com o Cacá [Diegues]. Tenho o maior respeito pelo Cacá, Cacá é um excelente produtor. Ele escolhe a melhor equipe, os melhores atores, o melhor diretor de figurinos, o melhor fotógrafo. Mas nunca deu, nunca deu. Sempre tentou entrar em Cannes e nunca foi aceito. “Mas será que só tem um cineasta no Brasil? Só tem esse tal desse Cacá?” Agora você vê o Padilha, você vê o Walter Salles, você vê o Fernando Meirelles. Tem ótimos. Tem o menino que dirigiu o “Cidade Baixa”, o Sérgio Machado. Eu não quis ver o “Quincas Berro D'Água”. Já quando li o conto, não gostei, detestei. Falei “bom, vão fazer um filme esticado.” E é. Mas o primeiro dele, o “Cidade Baixa”, é ótimo, ótimo. Tem vários. E tem cineasta que promete. O tal do olho de vidro, do “Cheiro do Ralo”, o Heitor Dhalia. Hoje existem no Brasil uns oito caras que merecem respeito. Em 60 tinha quase ninguém [risos].

EE – [risos] Você acha que hoje tem mais gente talentosa do que antes, Salvá?

AS – Sim, eu acho, eu acho.

EE – E você acha que o nível do cinema, não enquanto produção técnica, mas enquanto arte, mensagem artística, está melhor hoje em dia do que nos anos 1960 e 70?

AS – Você viu “O Desafio”? Você entendeu que aquilo é um filme de protesto? Se você fazia um cinema cooptado pela esquerda, tudo bem. Naquela época eu também era de esquerda. Mas... que chato, não é? Quem vai ver uma coisa daquelas? Hoje você vai ver, por exemplo, o “Tropa de Elite”. Esse segundo, então. Mesmo o primeiro, mas o segundo principalmente. É um filme político, extremamente político.

EE – Você acha que hoje a mensagem é mais direta?

AS – Mais direta e melhor. Hoje, quando se faz o filme, se olha o público para quem está falando. Antes, não olhavam. O cara gostava, estava bom. Hoje não tem isso. Agora existe uma grande pressão exatamente dos exibidores, dos distribuidores. Por exemplo, neste meu novo filme eu procurei todos os distribuidores. Ninguém quis distribuir. Botei em todos os festivais. Não entrou em nenhum. Por quê? Eu acho que ele tem qualidade. No Festival do Rio foram selecionados 65 filmes ao todo. O meu estava lá, não foi selecionado. Porque existe o preconceito e existe o medo. Mesmo que esse filme não fosse tão forte sexualmente como ele é, não teria chance. Trabalhei com o Diler. Aliás, além de muito bom produtor, é muito bom roteirista. O Diler levou o filme para as companhias. Levou para a Columbia, levou para a Ford, levou para a Warner. Saiu um dinheiro, falaram: “Dou o dinheiro, mas só se for para o filme do Renato Aragão.” Hoje você faz um filme para agradar ao distribuidor. Se não agrada ao distribuidor, como tem tanto filme para distribuir, e tão pouco espaço na tela ocupado por esses blockbusters, você não exibe.

EE – Uma competição diferente dentro do mercado.

AS – O filme tem que ser agradável, apetitoso. Apetecível para o distribuidor. Por causa disso, uma produção que poderia ser mais política e também mais discutível, o distribuidor não quer saber, não quer se sujar com aquilo. Não quer criar caso. Então se os filmes hoje, embora melhores de um modo geral, são menos políticos do que antigamente, é por causa disso. Não é porque as pessoas queiram, não.

EE – Em um acerto de contas, digamos, interno: o que você acha da sua obra, o que você tentou fazer, Salvá? Eu queria entender você diante de você mesmo.

AS – Eu acho que, por incompetência minha, fui subestimado. Isso me incomoda. Sou olhado assim na praça, um pouco: “O Salvá que entende tanto de cinema, que é tão bom dirigindo, sabe fazer tudo, trabalha pouco ele. Coitado.” Detesto isso. Então, na realidade, o que eu fiz já faz tanto tempo que ficou esquecido. Não sei o que ficou disso. Ficou para os cinquentões e sessentões. “As Quatro Chaves Mágicas”, “Um Homem Sem importância”. Não sei o que ficou. Para ser sincero, sincero mesmo... E de um modo geral quando se fala isso não se está sendo sincero, mas eu estou sendo, tentei sempre fazer os filmes de maneira honesta. Vocês vão ver o “Na Carne e Na Alma”, vão ver como ele é forte. Mas é absolutamente honesto. Não tem nada ali que não venha do coração. Não tem nada ali que eu coloque para agradar ao público, para isso ou para aquilo. As cenas de sexo que eu filmei, por exemplo. Saíam coisas lindíssimas na montagem, eu fiz sair tudo. Porque depois que você mostra para o que é aquela cena, você não precisa continuar. O resto é exibicionismo sexual.

EE – Uma diferença gritante, que você coloca de maneira natural.

AS – Eu fiz como amostra de uma coisa que talvez seja a minha melhor qualidade, se é que eu tenho alguma, mas enfim, que é fazer os filmes de maneira honesta. Honestamente. E de maneira leve também. Com amor pelos personagens. Neste filme, a menina é o elemento de transformação do rapaz. Fazendo-o sofrer, porque é uma bipolar louca. Tem diretores que conseguem não se envolver com os personagens. O mau é mau, o bom é bom. Eu acho que não existe isso nem na vida. Não tem o mau, não tem o bom. Não existe o branco, o preto. Existe o cinza. O que eu quis fazer sempre foi mostrar as coisas como elas são. É meio complexo. Nada mais complexo do que fazer um filme que pareça simples.

12 comentários:

Roberto Pepino disse...

Deliciosa e oportuníssima entrevista. Mais um tesouro retirado do baú quase sempre trancado do cinema brasileiro, a nos oferecer estórias, visões e instantâneos fundamentais. E com poesia. "Tristíssimo café da manhã" é como uma música de Nelson Cavaquinho, que imagem meu Deus! Parabéns, seu trabalho continua impescindível, assim como o de quem, como este senhor catalão do mundo, respira a 7a. arte. E, se permite, uma dica sobre as Lolitas do mundo: tente ver a edição portuguesa, restaurada, em dvd, de um trabalho fundamental de João César Monteiro: A Comédia de Deus.

André Setaro disse...

Bela entrevista com Alberto Salvá, que tem um dos mais comoventes e belos filmes do cinema brasileiro: "Um homem sem importância", com Oduvaldo Vianna Filho e Glauce Rocha (circa 1971, 1972). É um artesão a respeitar na nossa cinematografia, tem sentido de cinema.

Fiz uma entrevista com ele, aqui na Bahia, quando veio para lançar 'A menina do lado', nos já distantes anos 80, com aquela bela adolescente cujo nome me esqueço agora. Depois o encontrei, em 1990, no júri do curta do Concine no Rio do qual fiz parte, quando um curta era obrigatório antes de cada longa estrangeiro.

Seu blog é um imenso tesouro, com pedras preciosas, diamantes e topázios.

Olga disse...

Salvá pode até dizer que não tem + saco pra dar aula; já eu, só posso considerar uma coisa a respeito: foi um privilégio na minha vida ter sido aluna dele, e posteriormente ter trabalhado com ele em algumas frentes. Sem ele eu não teria conhecido Vogler, e isso pra mim foi fundamental, um marco zero, aquele cadeado que estava lá e eu com a chave na mão sem saber mais onde enfiar, porque nada abria. Então, um dia, em 1998, as peças do meu mosaico começaram finalmente a desenhar alguma coisa. Salvá é Mestre, e "Um Homem sem Importância", que eu já conhecia de longa data, é de uma atualidade assustadora. Salvá merece todo o respeito, e mais do que tudo: merece ver o seu "Na Carne e na Alma" ser lançado. Beleza de entrevista, Andrea; o Salvá é um artista generoso. Valeu!

Xavier de Oliveira disse...

Andrea querida, li a entrevista do amigo Salvá, ótima.
Na entrevista, ele fala bastante do "Homem sem importância", um filme que todos nós, da nossa geração e da mesma linha de trabalho, admiramos muito. Não bastasse, do filme participaram pessoas notáveis, como o Vianinha (endosso o que Salvá falou dele) um dos maiores dramaturgos brasileiros, uma pessoa que morreu trabalhando, como ele queria. Generosa, gentil, um idealista realmente. E também cito a Glauce, com ela tive breve encontro, casualmente em frente ao teatro que tem hoje o nome dela. Me lembro, na época era difícil achar ator mirim, e ela me indicou a Françoise que morava em Brasília pro "Marcelo ZS". O Rafael de Carvalho também foi outra pessoa admirável, maravilhoso ator, alegr e, tive o prazer de fazer com ele o "Gargalhada Final". Enfim, o "Homem sem importância" é cercado desses Anjos do bem, sem falar do meu irmão (sou suspeito) Denoy, que fez uma música belíssima para o filme e ainda cantou. Essas pessoas se foram, mas ficaram na minha memória e de muita gente, com seus nomes marcados na cultura brasileira.
Andrea, parabéns pela entrevista, que tem a profundidade humana que só você é capaz de buscar.
Beijos,
Xavier.

AV VARELA FILMES disse...

em 1988 ou 89 quando passou por aqui - em Manaus, o filme nao saia da minha mente, como tambem nao saia da minha mente a recente entrevista que Salva deu para Cinemin,,,,lembro de uma frase q esta comigo ate hj,,,``como todo cineasta brasileiro, eu tambem passei fome``...sera q os de hj ainda passam? VIVA SALVA...
ANDRE VARELA, MANAUS. www.avvarelafilmes.blogspot.com

Gilmar disse...

Andréa: parabéns pela entrevista. Abs. Gilmar

Anônimo disse...

Andrea, parabéns por esta bela entrevista. Já conhecia diversos filmes do Salvá, mas só tive oportunidade de assistir "Um Homem sem Importância" bem recentementemente. Minhas expectativas sobre este filme, que eram altas, foram superadas. Pura emoção. Forte abraço,
Márcio/MG

Marco Antonio disse...

Muito legal, Andrea.
Conheci pessoalmente o seu entrevistado quando do lançamento de A MENINA DO LADO no Festivsl de Gramado. Cometi uma gafe, pois confundi o SOS SEX SHOP com o pornô AIDS-O FUROR DO SEXO e perguntei a ele como foi fazer o filme. Salvá me respondeu "Esse filme eu não fiz, não. Nem com pseudônimo".
Votos para que ele se recupere bem da cirurgia.

André Setaro disse...

Já guardei a entrevista nos meus arquivos.

Andrea Ormond disse...

Roberto, obrigada. Também gostei muito da imagem do café quando a ouvi. Um lado cronista do diretor, não te pareceu? E bela dica, um intercâmbio internacional das Lolitas!

Obrigada, Setaro. Essas entrevistas são uma parte do blog da qual eu gosto bastante e complementam os textos. Procuro ir conduzindo as lembranças para extrair sentido do que vai sendo falado. Alguns dados, por exemplo, passariam batidos e lá vou eu escavucar. Aliás, uma coisa: o blogspot tem me dado dor de cabeça, vi um comentário seu que foi apagado do nada. Outros comentários de outras pessoas também, em outros posts.

Olga, pelo que eu percebi, o lançamento do "Na Carne e Na Alma" seria um alívio para ele, pelo investimento pessoal e profissional que teve com o filme. Obrigada!

Xavier querido, agradeço o depoimento. Me emocionou o jeito de você contar, de você trazer esses detalhes sobre o Vianinha, o Denoy, o Rafael de Carvalho. Os detalhes do cotidiano, sempre com muita sinceridade, com amor pelas histórias. Fico feliz de saber que a entrevista do Salvá trouxe esta autenticidade. Tento fazer com que o papo flua, fico sempre com uma missão na cabeça: compartilhar as informações e também fazer com que os leitores entendam a pessoa que está ali, se abrindo. Beijos

Andre, discordo da afirmação de que todos os diretores brasileiros passaram fome. As dificuldades variam, inclusive para os atuais.

Obrigada, Gilmar. Abs

Obrigada, Márcio. "Um Homem Sem Importância" é um filme do qual eu particularmente gosto muito. Motivos não faltam mesmo. Forte abraço.

Marco Antonio, obrigada. Momento saia justa esse. Visualizei a cena, que não deve ter sido das melhores rs

Alejandro Sainz de Vicuña disse...

Que entrevista! Fiquei emocionado. E muito curioso para ver "Na Carne e na Alma". Também lembrei com alegria do passado irônico em que eu e o Gabriel Salvá (o filho) éramos straight-edges (nem me peçam pra explicar o que raios é isso). Se eu soubesse, teria trocado muitos dos clips e discos que ouvíamos na época pelos filmes do pai.

Raquel Cristina Maia disse...

Linda entrevista... Trabalhar com o Salvá foi, além de um privilégio, uma experiência muito forte. Foi a minha descoberta do cinema enquanto
atriz... Mas conviver com ele me fez uma pessoa melhor.