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sábado, março 23, 2013

Biografia Entrevista - Cristiano Requião



Morro da Providência à esquerda, relógio da Central do Brasil à direita, Cristiano Requião no meio. A foto acima é esclarecedora: lá está Requião entre a favela carioca e a estação de trens, sucesso internacional no filme de Walter Salles.

Por mais de trinta anos, Cristiano Requião também se equilibrou no cinema popular e nas produções de alto orçamento. Viajou pelos extremos, encaixando até filme de James Bond no currículo. Comandado por Jece Valadão, participa do primeiro pornô realizado no Brasil: “Viagem ao Céu da Boca”, detido pela censura e liberado meses depois do “Coisas Eróticas”, de Raffaele Rossi.

Fotógrafo e diretor assistente, tentou o namoro com o Beco da Fome – no centro do Rio, aonde os técnicos se reuniam para abater ovos coloridos e tulipas de cerveja. O encanto não aconteceu. Aos olhos do garoto de classe média, hippie montanhista, o preconceito veio de onde menos esperava.

Nas horas vagas, consertou moviolas para Roland Henze, que lhe abriu as portas dos curtas-metragens. Nos anos 80, travou contato com o cinema underground de Afrânio Vital, a Embrafilme de Ipojuca Pontes e “Pedro Mico”, além dos “Giselle H.”, a famosa série dos explícitos de Carlo Mossy. Bateu ponto no mitológico “As Aventuras de Sérgio Mallandro”. E sobreviveu.

Os bastidores desses e de outros filmes são contados de peito aberto, demonstrando o conhecimento prático de quem sabe filmar com pouco. Se preciso for, usando cano PVC de esgoto para cenas debaixo d'água. Aos sessenta anos, Cristiano Requião estreia como diretor de longa-metragem em “Outro Olhar” e já emenda o projeto para adaptar a biografia da atriz Jussara Calmon. Em breve, nos cinemas.

ESTRANHO ENCONTRO – Cristiano, começando pelo final: por que só aos sessenta anos você dirigiu o seu primeiro longa-metragem?

CRISTIANO REQUIÃO – Decepção com a classe de cinema, com o pessoal que trabalha em cinema. Participei de onze longas-metragens, durante dez anos da minha vida, de 1978 a 89. Me decepcionei muito com as pessoas, com o trato social dentro do universo do cinema etc e tal. Então migrei para a área institucional, filmes de treinamento, filmes de grandes empresas. Petrobras, Kawashima, Montreal Engenharia Internacional, algumas que não existem mais. Assim fiz o pé de meia, consegui juntar alguma grana. Aliás, a experiência me favoreceu muito quando voltei ao cinema e aos filmes de baixo ou baixíssimo orçamento. Viajava com a câmera, três refletores, um assistente às vezes bom, às vezes não. Eu tinha que, sozinho, dirigir, iluminar, montar cenário. Viajava para Tefé, Urucu, Amazônia, sul do país, o diabo, e precisava trazer um filme na volta. Quando minha filha nasceu em 1993, parei com as viagens e parti para o mercado publicitário. Trabalhei com artes gráficas, editei livros sobre montanhismo, dei aulas em universidade, no curso de comunicação. Produzia peças publicitárias e os telejornais internos com os alunos.

EE – Interessante você falar em decepção. Foi reiteradamente? Desde quando?

CR – O último filme acabou se tornando o mais marcante nesse aspecto. “O Quinto Macaco”, com Ben Kingsley, direção de Éric Rochat, rodado em Paraty, produção executiva no Brasil. Eu não aceitava determinadas atitudes, queria fazer outra coisa da vida e não aquilo. Não estava na minha turma. Eu era montanhista, dormia cedo, acordava cedo. Começou a me incomodar. Muitas vezes até fui convidado para fotografar alguns filmes porque as pessoas podiam não gostar de mim, mas sabiam que eu daria conta, me aturavam. Acabou que comecei a me tornar, também, uma pessoa difícil. Extremamente exigente, intempestivo, agressivo.

EE – A diferença entre o sonho do cinema e a realidade. As coisas como elas são...

CR – Exato. Engraçado que aos dezesseis anos fui ao Roxy, em Copacabana, ver “Os Aventureiros”, “Les Aventuriers”. Estrelado pelo Lino Ventura e o Alain Delon. Formidável, vibrante, revi recentemente. Naquela hora descobri o que queria fazer da vida. O que me sensibilizou não foi a história propriamente, mas sim a capacidade de emocionar as pessoas. Com a linguagem cinematográfica, a fotografia, a música, o drama. Então decidi: é o que eu quero. Estudei em cursinhos de cinema, li muito, frequentei a biblioteca de Copacabana. Como abandonei a escola, sobrava tempo livre. Comprei uma câmera 8 milímetros, mais tarde Super-8. Aliás, eu tenho filmezinhos Super-8 com a Monique Lafond, minha amiga de adolescência. Nesse período, comecei no montanhismo e aí surgiu um hiato. Eu tinha uma vida familiar extremamente cáustica e o montanhismo abriu as portas para mim. Era a família que eu havia escolhido. Era aonde eu dividia o gole de água, o chocolate, dormíamos juntos, acampávamos.

EE – E como era a família de sangue? A original. Pai, mãe, irmãos...

CR – Extremamente rigorosa até a adolescência. Tenho ascendência alemã, sou praticamente filho único. Dois irmãos, hoje com mais de oitenta anos. Temporão, vinte anos de diferença. Um clima exigente, família conturbada. Meu pai era muito explosivo, participou da Revolução de 30, em um combate no sul do Paraná ou de Santa Catarina, o mais ferrenho, uma madrugada sangrenta. Ele tinha vários traumas dessa fase e não era de um posicionamento político bem definido. A minha mãe era pior do que alemã: era filha de alemães [risos]... Nasci em 1952, em São Paulo, por uma série de motivos. A família é toda do Paraná, a parte do meu pai sempre foi muito influente por lá, embora a gente não se veja há uns trinta anos. Vim para o Rio aos quatro anos de idade, aos quatorze já havia sido expulso de seis escolas, tive problemas disciplinares e resolvi parar de estudar.

EE – Faz sentido, com esse generation gap todo...

CR – E, parando de estudar, recebi o ultimato do meu pai: se não estudar, vai trabalhar. Fui trabalhar. Em uma agência de propaganda, que me deu a base excelente em fotografia. Standard Propaganda, uma agência de ponta, com as contas da Shell e outras. Fiquei no laboratório fotográfico, conheci fotógrafos que se tornaram meus professores, ensinaram muito. Até que passei a fotografar de maneira autônoma. Com dezesseis anos ganhava dinheiro mole, indo para as pracinhas. Levava o equipamento, fotografava as crianças. Naquela época era moda fazer poster. A gente cobrava uma grana, os honorários eram irrepreensíveis [risos]

EE – [risos] Imagino. As avós e mães adoravam esses posters...

CR – E com dezesseis anos, a minha primeira escalada. Na outra semana, o Dedo de Deus, a minha paixão. A Monique Lafond estava nesse grupo. Quase me ferrei, dezesseis horas de escalada, chegamos de madrugada. Escalei o Dedo de Deus mais de sessenta vezes, ao longo dos anos. E houve esse hiato, da minha vida pessoal e profissional, porque fiquei dedicado exclusivamente ao montanhismo. Uma coisa absolutamente neurótica.

EE – Dando aula? Você sobrevivia do próprio montanhismo?

CR – Eu não sobrevivia. Vivia numa miséria do cão porque meu pai não me dava um puto. Aos dezoito, me apresentei no exército, mas quando disseram que eu teria que servir, fugi [risos]

EE – [risos] Eu também fugiria... Com 18 anos, significa que você estava em 1970, no fino da ditadura...

CR – O fino da bossa... Viajei para a Argentina, escalei em Bariloche e em Ushuaia. Pico Olimpo de Ushuaia, se não me engano. Meu negócio era montanhismo e eu ligava isso ao cinema, filmando em Super-8. Até que fui preso, aos vinte e um anos, por ter fugido do exército. Foram me buscar em casa por ter desertado, anos antes. Estava almoçando, de sunga, tinha acabado de chegar da praia. Tocou a campainha, minha mãe atendeu e era um sargento. “Por gentileza, o soldado Requião”. Minha mãe: “Aqui não tem nenhum soldado Requião.” Eles: “Estamos aqui com uma ordem de busca.” Nessa hora minha mãe me avisou: “Você pode sair pela porta dos fundos, descer a escada, o pessoal está esperando lá embaixo. Como nunca viram você, passa e vai para a casa do seu primo, depois a gente resolve.” Mas preferi ir com o sargento, ver o que estava acontecendo. Tocaram o terror no trajeto até o Forte de Copacabana, dentro de uma Rural velha [risos]...

EE – [risos]

CR – “Aí, ó: o manjuba de veludo vai te conhecer na cela...” [risos] Ainda pensei que se eu pulasse de costas, entrava na água e o pessoal de coturno e fuzil não iria me pegar. Mas segui até o Forte de Copacabana, fiquei preso quatro dias. Havia as pessoas boas e as más. Um sargento me acordava com um balde de água, às cinco horas da manhã. Depois de quatro dias, tudo resolvido, fui intimado a servir. Acontece que, aos vinte anos, fiz um curso de cinema, no MAM. Não lembro se foi antes ou depois desse episódio, e demorou cerca de seis meses. Era coordenado pelo José Carlos Avellar, pelo Ronald Monteiro e pelo Cosme Alves Neto, então presidente da Cinemateca. Dava aulas o Walter Goulart, que fez o som do meu filme agora, o “Outro Olhar”. Além dele, acho que o Oswaldo Caldeira, o Lael Rodrigues e outros. A gente aprendia teoria de cinema em profundidade, um filme por dia, um livro por semana e um seminário na semana seguinte. Muitos filmes, seis horas de aula por dia. Posso dizer que aprendi 70% do que eu conheço de linguagem de cinema assistindo aos filmes no MAM, nessa época.

EE – Quem mais fez o curso com você?

CR – A Regina Machado, que me levou para lá, mulher do Cosme. Creio que também o Marcos Magalhães, que dirigiu o “Meow”, depois migrou para o Canadá. Cabeludão, gente boa pra caramba. Era uma turma bastante legal, e para mim foi excelente. Só que para entrar no mercado foi zero. Comecei a fabricar antenas de transmissão, me inscrevi em curso de pilotagem, morei no Equador por quase um ano, entre 75 e 76. Em 77, uma menina que eu namorava, me disse: “Cristiano, vai fazer o segundo grau.” Era o artigo 91 ou 99, não me lembro. Fiz as provas. Seis meses depois, as outras e o vestibular na Cesgranrio, para engenharia mecânica. Passei no vestibular, paguei o Darf. Quando cheguei na fila da matrícula, ela me perguntou se era isso mesmo o que eu queria. “Não... Imagina, não tenho o menor saco de ficar vindo aqui na faculdade.” “Ok, vamos sair da fila, mas agora você faz cinema de qualquer jeito” [risos]

EE – [risos]

CR – Aí entrei de cabeça. Procurei a ABD, Associação Brasileira de Documentaristas, conheci o Noilton Nunes, na Lente Filmes, aonde corriam as reuniões. Conheci também o Roland Henze, que produziu o meu curta “Dedo de Deus” e me chamou para consertar as moviolas dele. Com o Henze fiz assistência de câmera em “Confeitaria Colombo”, sobre a família Lebrão, dona da Colombo. Depois, o “Depravação”, em 79. Fotografado por ele, produzido pelo Roberto Valanci, dirigido pelo Élio Vieira de Araújo e filmado em Casemiro de Abreu. Apareceram trabalhos institucionais, junto ao Roland. Virei um assistente de caderno.

EE – A dupla com o Roland durou bastante tempo.

CR – O Roland me deu todo o modus operandi de trabalhar com as câmeras de cinema. Eu já conhecia máquinas fotográficas. De chapa, de filme, todos os formatos. Mas cinema, não. Engraçado que ele me perguntou se eu conhecia a Arriflex 2C. “Claro! É minha amiga íntima! Lógico!” Saí desesperado, fui à Mega Filmes do Jorge Veras, uma pessoa maravilhosa, e ele me deu um catálogo da câmera. “Olha, não tenho tempo para ensinar, mas dá uma olhada.” Coloquei o filme pela primeira vez dentro da câmera na locação, cinco minutos antes de começar a rodar. Deu certo [risos]

EE – [risos] E viva a criatividade...

CR – Aprendi vários macetes, aprendi muito com o Roland. Principalmente a disciplina. Acordar na hora certa, tudo aquilo que depois eu bati de frente, até na Magnus Filmes, para onde me transferi em seguida, em 82.

EE – Estamos em pleno Beco da Fome. Um lugar estratégico no cinema popular brasileiro, aonde vários técnicos se reuniam. Conta algumas histórias de lá...

CR – Não cheguei a frequentar o Beco da Fome. Fui algumas vezes, na [rua] Álvaro Alvim [centro do Rio], mas era tão baixo astral que não frequentei. Talvez na Líder [no bairro de Botafogo], o pessoal fosse mais profissional. No Beco da Fome rachavam um cafezinho, dividiam um biscoito Extra.

EE – E você era um playboy de Copacabana.

CR – Eu era um garotão de Copacabana. Quando aparecia no Beco da Fome, me discriminavam completamente, nego nem falava comigo. Eu tentava chegar, “e aí, como é”, tal, e não tinha resposta. “Não te conheço”. Um negócio escroto, escrotíssimo. Talvez pelo meu physique du rôle, não sei. Alguma coisa acontecia ali. Quando trabalhei na Magnus Filmes, fiquei apenas na Magnus. O Jece Valadão me deu uma guarida formidável. Aliás, uma pessoa ímpar: você podia confiar em tudo o que ele dissesse, jamais no que ele assinasse. Aprendi essa máxima. Comigo o Jece foi de uma correção absoluta e trabalhei na Magnus durante dois anos, de 81 a 83. Na Magnus, havia uma empresa de propaganda que, se não me engano, era a JC Produções, para a área de comerciais. E uma empresa de cinema. Vi coisas do arco da velha.

EE – Do tipo?

CR – Do tipo cobranças, quem me contou foi uma secretária. Chegou uma turma do Vale do Canaã, por exemplo, aonde o Jece tinha filmado anos antes, com a Rossana Ghessa. Cobraram na base da arma, seguraram o Jece pelo colarinho: “Escuta, assina um cheque agora.” Ele assinou o cheque. “O meu amigo vai descontar. Se não tiver fundos, eu te mato”. “Opa, não, não... Espera aí, espera aí... Vou assinar outro cheque aqui...” [risos]

EE – [risos]

CR – E ligou para o banco: “Meu grande amigo! Escuta, libera aí, libera aí! Pelo amor de Deus, libera esse cheque...” O cara saiu, trouxe a grana, agradeceu, entraram no Dodge Dart e foram embora. Também participei da campanha política do Jece. O slogan não oficial era “ladrão por ladrão, vote em Valadão” [risos] Formidável! Eu tive uma escola na Magnus. E depois que li o livro do Roberto Freire, “Ame e Dê Vexame”, a minha vida deslanchou. Eu era contido, tímido, e comecei a me expor. O ambiente de montanha é muito peculiar. Se você viver apenas no ambiente de montanha, você se transforma, trata as pessoas com outro formato relacional.

EE – Estando no Rio, vocês tinham contato com a Boca do Lixo, em São Paulo?

CR – Não.

EE – Eram mundos isolados?

CR – Completamente. Ouvia falar, sabia da existência, mas nunca fui. Eu me lembro que aconteceram fases cruéis, como no final da Embrafilme, em que vários cineastas conhecidos, como o Carlos Reichenbach, estavam apelando para os filmes eróticos. Usavam codinomes para sobreviver. Conhecia os filmes do Walter Hugo Khouri. Mas era um pessoal que não estava no buchicho em que eu me situava.

EE – Você acredita, então, que havia panelinhas muito fechadas dentro do cinema brasileiro, que não se comunicavam?

CR – Como hoje. Que eu saiba, não se comunicavam. Lembro que havia um grau de competitividade incoerente. Fora do Brasil, até as produtoras concorrentes são simpáticas entre si. Aqui, farinha pouca, meu pirão primeiro. O elo de ligação que há entre Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Rio de Janeiro e outros estados é o sindicatos dos técnicos. Em São Paulo é o SINDCINE, aqui é o STIC. O sindicato promove os encontros entre os técnicos, acontece uma certa interação. Mas, até onde eu sei, existem os grupelhos. Aquelas oligarquiazinhas que se autopromovem, que ganham editais. Não vou dizer que as produtoras do Rio, onde moro, sejam desligadas umas das outras, totalmente inimigas ou distanciadas, mas existe um grau de competição que não acho saudável. O cinema teria muito mais chances de sobreviver se houvesse cooperação. Se você tem um público, eu vou no rastro do seu. E se o meu tiver mais ainda, melhor ainda.

EE – No final dos anos 70, você chegou a trabalhar em filme do James Bond. O “Moonraker”, de 1979...

CR – Eu tinha um amigo, o Estanislau, que me chamou para uma “décima-quinta” assistência de direção. Meu nome não está nem nos créditos. Eles chamavam as pessoas para controlar a figuração, era um escalão de terceira linha que ia para o povo com o rádio. Trouxeram tradutores de espanhol: porque aqui no Brasil se fala espanhol, obviamente [risos]... Foi uma experiência interessante, o primeiro filme de vulto em que eu pude assistir ao processo de produção. Era um tipo de cinema que até hoje não colou no Brasil. Grandes produções, com grande investimento de dinheiro. Não vou citar nomes porque as pessoas estão aí. Filmes que custaram oito milhões e tem cara de oitocentos mil, como disse recentemente o Kleber Mendonça Filho e eu acho corretíssimo...

EE – “A Serpente”, da Magnus, veio no início dos 80.

CR – A Magnus tinha uma tremenda estrutura, estúdio de trezentos metros quadrados, proteção acústica. O melhor estúdio do Rio de Janeiro, competindo com a Tycoon da Barra da Tijuca. No “A Serpente” eu fui assistente de câmera do Dib [Lutif], de quem eu tenho as melhores recordações. Rigorosíssimo, exigente e, se não pudesse exigir, ele sabia como conduzir a coisa. A direção do “A Serpente” era anárquica. Gastou-se uma fortuna em cenários. Nunca vi o filme, me disseram que conseguiram montar. Na época, quem estava montando era o [Antonio] Sarmento, o montador da casa, junto com o Beto Valadão. Não sei se foi o Sarmento que concluiu. Reza a lenda que o filme era “imontável”.

EE – E o “Viagem ao Céu da Boca”, o primeiro filme brasileiro de sexo explícito? Dirigido pelo Roberto Mauro, que tinha uma trajetória extensa no cinema popular...

CR – A trajetória do Roberto Mauro é interessante como realizador. Dirigiu “As Cangaceiras Eróticas”, “A Ilha das Cangaceiras”, com a esposa dele como cangaceira também. Ele tinha esse lado empreendedor. Lembro bastante do “Viagem ao Céu da Boca”, o primeiro filme pornô a ser rodado no Brasil. Erótico, pesado. Resolveram fazer o filme com esta intenção.

EE – Fala um pouco sobre os bastidores...

CR – Tinha acabado de passar “O Império dos Sentidos” no cinema Palácio, de Copacabana. O Jece Valadão chegou um dia e disse: “Se pode aparecer o pau do japonês, pode aparecer o pau do brasileiro, que é bem maior do que o do japonês!” [risos] Esta foi a fala literal. “Por que galã brasileiro tem que ser louro de olho azul? Galã tem que ser como eu. Moreno, de cabelo carapinha!” Você vê que o Jece era um cara de visão. Podia ter vários defeitos, mas era um cara de visão. Contratou o Roberto Mauro. Outro dia até me ligaram do STIC: “Tem um cara querendo falar com você, o Older Costa”. O Costa foi o diretor de produção.

EE – E a escolha do elenco?

CR – Escolheram algumas profissionais da noite. Havia chegado de Paris a Ângela Leclery, um travesti. O pessoal saía de madrugada, chegava com olheiras, de tanto assistirem aos shows na [rua] Duvivier. Chamaram um garoto que, se não me engano, o nome era Eduardo ou para quem deram o nome artístico de Eduardo Black. A menina entrou na história depois, de paraquedas. O Costa estava comprando tecidos no Largo do Machado e o bas fond de cinema gosta de virar cantador, jogar um papo. “Quero seis metros de tecido e... negócio é o seguinte: eu sou produtor de cinema, trabalho com o Jece Valadão, tenho uma parada legal pra gente. Não quer fazer um teste de atriz?” E a garota topou, era filha de um porteiro da rua do Catete. Novinha, dezenove anos. Apareceu no estúdio com o noivo. Um garotão, bonitão.

EE – Foi averiguar o ambiente...

CR – O que fizeram? Deixaram a garota ensaiando, deram um porre no cara, que terminou o noivado com a menina dali a três dias, quando percebeu o que era. Teve teste, inclusive. A menina pagou um boquete, para ver se conseguiria repetir no filme. Ela também topou. Pagaram um cachê, não lembro se bom ou normal. O fotógrafo de cena era o Paulo Jabur, ex-marido da Stellinha Valadão. Eu fazia assistência de câmera, o diretor de fotografia era um eletricista da Magnus, o Vitor [Neves]. Havia um operador de câmera, o Vicente. Usamos duas câmeras, uma Mitchell antiga e uma Arri. Filmamos na Avenida Brasil, ali no Caju, para aquelas externas de passarela. Na Magnus foi praticamente 80%. E numa casa na Barra, que o Jece conseguiu de um amigo. Aparece o frontispício da casa, as árvores. Formávamos um grupinho à parte: eu, Stella e o Paulo Jabur.

EE – Você conseguia dialogar com eles. Era uma espécie de “conselho ético” [risos]

CR – [risos] É, conseguíamos conversar. E a gente aprontou muito... O Eduardo Black, coitado, fazia espetáculo a noite inteira com duas ou três mulheres e tinha que comparecer de manhã. Chegava com um abacate para melhorar a performance. Os cenários foram do Seu Nézinho, um cenotécnico que virou cenógrafo. As coisas eram assim. O concunhado da vizinha fazia figuração. Teve até uma passagem engraçada: o cara começou a brochar. Convocaram um técnico de efeitos especiais, para fazer uma piroca de plástico e incorporar à do negão. Era encaixável... Fizeram uma de silicone com um arame que passava por baixo do saco e acabava na bunda com um pompom rosa. O diretor de arte era o Carlos Prieto, maquiador....

EE – [risos] Que adorava o babado, por sinal...

CR – [risos] Era com ele mesmo. Eu e o Paulo chegamos para os eletricistas, que eram negros também: “Olha, o Jece Valadão pediu, na encolha, para avisar a vocês que ele está procurando um dublê de corpo. Quem julga se é parecido, se tem compatibilidade, é o Prieto.” Eu sei que passaram algumas horas e dali a pouco entra o Prieto na sala de produção: “Deus meu! Não sei o que está acontecendo! Eu entro no banheiro, botam aquelas jebas pra fora! Eu não sei o que é isso!” [risos]

EE – [risos]

CR – [risos] A gente aprontava, fizemos várias dessas... Aliás, pensei em uma história que eu gostaria de desenvolver, “Amor e Bunda”. Sobre o cinema erótico e de sexo explícito no Brasil. Não que eu fosse fazer um filme de sexo explícito, mas aproveitar essas mil histórias. Por exemplo: eu fui o introdutor, não literal, do esperma artificial no cinema brasileiro, pelo menos neste filme. Um misto de goma de araruta com maisena para dar a mescla e a consistência exatas... O problema é que o “Viagem ao Céu da Boca” parou na censura.

EE – Dois anos. Vocês sabiam que estava rolando o “Coisas Eróticas” em São Paulo?

CR – Talvez os produtores soubessem. Eu, não. Aliás, eu faço uma análise paralela: os militares já estavam em uma fase crítica, a nossa dívida externa era cavalar, a Abertura era praticamente certa. A pornografia, como as drogas e tudo o mais, em um sociedade cristã, crédula e ignara como a nossa, sempre foi válvula de escape. Deve ter havido conivência do governo militar para a liberação do filme pelos juízes, nos tribunais. O fato é que o “Coisas Eróticas” foi o pioneiro em exibição pública. O “Viagem ao Céu da Boca” foi o pioneiro em realização. Por uma questão de meses.

EE – Às vezes confundem e falam besteira. Citam o “Coisas Eróticas” e nem sabem da existência do “Viagem”...

CR – E essa época, 1981, foi o boom do cinema pornô. Todo mundo ia assistir, até as minhas amigas do clube de montanha. Ver um filme pornô era um ato de coragem. As meninas se disfarçavam, colocavam touca. Em seguida vieram os filmes suecos, considerados de educação sexual e que não eram. Tremenda mentira, eram filmes de sacanagem mesmo. A gente tem que diferenciar o que é cinema erótico, cinema pornô e cenas eróticas dentro de um filme. No cinema erótico, o sexo não é um fim objetivo. “Ken Park” tem cenas de sexo explícito. É um filme pornográfico? Não, ele se concentra na trama. Veja “O Anticristo”: nos primeiros minutos aparece uma penetração...

EE – Passamos agora para o Afrânio Vital: “Longa Noite do Prazer” e o “Estranho Jogo do Sexo”.

CR – Esses dois filmes para mim são absolutamente fundamentais. O Afrânio foi continuísta, assistente de direção, trabalhou com Walter Hugo Khouri, Carlos Hugo Christensen. Além do “Longa Noite do Prazer” e do “Estranho Jogo do Sexo”, voltamos a trabalhar juntos quando ele fez a continuidade no “Pedro Mico”, do Ipojuca Pontes. O Afrânio tem uma formação de cinema empírica e teórica. Um estudioso que soube aprender cinema. E esses dois filmes são heroicos. Heroicos! A gente almoçava no Geneal [antiga carrocinha de cachorro-quente], que resolveu dar um sanduíche para cada membro da equipe. Não foi brincadeira. O produtor era o Reinaldo Cozer, sócio do Afrânio, na Aleph Filmes. Não sei que história os dois tiveram depois, acabaram se afastando. Mas o fato é que esses dois filmes são heroicos. Pegaram financiamento em banco, entraram com apartamento. Um negócio louco, acreditando nos filmes. Sofreram todos os preconceitos que podem sofrer os independentes. Para mim, uma verdadeira escola do que é trabalhar com poucos recursos. Trabalhar inteligentemente.

EE – Dá um exemplo. Além do almoço na Geneal.

CR – O Afrânio tinha uma capacidade rápida de solucionar problemas. Não tem a lancha, não tem o automóvel, então pega um patinete. Se você olhar o “Longa Noite do Prazer”, ele tem um apelo erótico porque, se não tivesse, não iria nem para o cinema. Tem até a história do cinema na [rua] Senador Dantas. O dono teve que chamar a polícia porque nego estava irritado, depredando tudo. Queriam ver a Jussara Calmon trepando e o filme não tem sexo explícito.

EE – Jussara, a estrela do “Coisas Eróticas” e que está no “Longa Noite” e no “Estranho Jogo”. Além dela, o “Longa Noite” também tem citação de Augusto dos Anjos e você, inclusive... [risos]

CR – [risos] Eu de ator, inclusive, em uma cena. Se eu ler o roteiro hoje, talvez até me surpreenda, mas acredito que não foi seguido à risca. Não havia como. Você tinha que fazer um filme, na base da porrada, do esforço, do sacrifício. Depois o Afrânio e o Reinaldo fizeram o “Estranho Jogo do Sexo”, acho que para pegar o vácuo. Teve um lançamento legal na Colômbia, na Venezuela, na Argentina, e despontou. Se esses filmes foram pagos, não sei dizer. Aquela época era película, e a copiagem, a edição, a sonorização, custavam 30, 40% do valor de um longa. Imediatamente depois dos filmes, vêm as contas e eles devem ter passado um sufoco. Tinham ideia de fazer outros filmes, dois por ano. Um planejamento estratégico maior, visão de mercado, mas é o tal negócio: os exibidores fecham só com distribuidores e, enfim... Aí é um outro papo.

EE – Cristiano, eu queria falar um pouco sobre o “Dedo de Deus”. Um curta de sua autoria muito bonito, e que está disponível no Youtube, por sinal.

CR – No início, eu queria contar a história da conquista da montanha. Mas a conquista envolve pesquisa histórica, lidar com parentes. Até existe um filme de 1932, de quando subiram o Dedo de Deus vinte anos depois da conquista. Foi a segunda escalada e puseram escada de ferro, subiram um padre, rezaram missa. Um cinegrafista filmou e as imagens estavam de posse de um dentista. Acharam que valia uma fortuna, não me cederam as imagens, dificultaram as coisas. Aí cheguei para o Roland Henze, disse que conseguiria fazer um curta lá, que poderíamos ganhar o prêmio da Concine. Pagavam trinta mil cruzeiros. Custou cinco mil, baratíssimo, subi com o grupo de montanhismo do qual eu fazia parte.

EE – Então as duas protagonistas são do grupo.

CR – Sim, Valéria e Tereza, de dezesseis e vinte e seis anos. Eu quis fazer um filme mais lúdico sobre o alpinismo, mostrando que não se escala pelo risco. Não é para ficar dependurado. É um passeio, como o cara vai jogar futebol, o cara também pode escalar montanha. Tive a ideia de colocar as duas meninas, o que é inusitado. Muita gente imaginava que mulher nunca escalaria, que não seria capaz de escalar. E o Dedo de Deus é uma figura simbólica, enigmática, no imaginário. Tem escaladas fáceis e escaladas difíceis. Nós fizemos por uma das vias fáceis, mas impressionantes. O Roland topou, me deu quatro latas de negativo, de quatro minutos. Levei o negativo contado e tive que trazer o filme. E eu trouxe um filme. A história se passa em um dia, mas foram três. Subimos até o Polegar, ficamos uma noite até o nascer do sol, fizemos a escalada, voltamos, dormimos e no dia seguinte chegamos ao cume. Meses depois, o Roland conseguiu uma carona de helicóptero com o Departamento de Estradas, o DNER. E aí eu fiz as cenas aéreas. A gente se comunicava por rádio, as meninas escalaram com mais dois amigos.

EE – Aquela parte em que estão lá em cima e aparece a estrada embaixo...

CR – É, exatamente. O Roland impôs a narração do Walmor Chagas, que deu uma certa caretice ao filme. Uma namorada minha escreveu o texto. O filme ganhou pelo exotique. Nós ganhamos esse prêmio de trinta mil, houve uma repercussão negativa da Veja, que sempre sentava o pau nos filmes brasileiros, independente de serem bons ou ruins. Em poucas palavras, chamou o filme de reacionário. Mas eles implicavam com o curta-metragem. Estavam baixando o cacete no curtas, podiam ser o que fossem, por causa da lei da obrigatoriedade.

EE – Que era uma coisa odiosa.

CR – A obrigatoriedade causou um tiro no pé. O John Houston dizia que poucas profissões no mundo conseguem reunir tantos canalhas por metro quadrado quanto o cinema. Aprovaram a lei de obrigatoriedade dos curta e os exibidores, que também tinham produtoras de gaveta, resolveram produzir. Chamaram lá os merdas do Beco da Fome. “Aí, quer ganhar dez merréis? Faz aí um curta-metragem.” Um cara, acho que o nome dele era Nilo Machado, tinha uma carreira interessante. Mas ele rodou um curta com a exibição de slides da mulher dele, que era professora primária de uma escola municipal. Havia bons curtas, mas eram diluídos por essa canalha escrota.

EE – Eis que, em 85, surgem as “As Aventuras de Sérgio Malandro”!

CR – “As Aventuras de Sérgio Malandro”! Uma esculhambação do cacete... [risos] Fui chamado para fotografar o filme, direção do Erasto Filho, que tinha feito o “Tudo Acontece em Copacabana”. O primeiro dele, que nunca vi, não faço idéia. Ele era amigo do Sérgio Mallandro. Amigo de infância, de colégio, não sei. O roteiro é uma das coisas mais alucinadas. O Erasto simplesmente não tinha nenhuma formação de cinema. Nada, nada, nada. Não sabia fazer. O negócio ali era ganhar baba, grana. Filmamos em 16 milímetros, para ampliar para 35, um recurso da época. Trabalharam como atores os amigos do Sérgio Mallandro. Um de São Paulo, horroroso, um cabelo deste tamanho, o Pedro de Lara. Algumas pessoas que faziam pontas nos Trapalhões também. Um anão, o Rolinha que interpretava o mago. Geravam efeitos no roteiro que eles não sabiam realizar na prática. Por sorte, muita coisa eu já dominava, pela minha experiência. Do tipo fazer uma pessoa desaparecer e aparecer.

EE – [risos] Efeitos especiais, sei...

CR – [risos] Banal... Efeitos especiais ao vivo. Dependia muito de mim, e não de quem havia concebido o filme. Extremamente estressante, acabei com um cálculo renal. Pra minha sorte, uma das produtoras me levou a um acupunturista. Abandonei o filme na última semana. A gente filmou uma parte em uma casa, na Barra da Tijuca. Alugaram e não sabiam de quem. A equipe foi para lá. Tinha piscina, dois andares, sobrado. Um assistente que não era assistente, mas amigo do Sérgio Mallandro, chamado Kibe, tinha um defeito na perna. Andava de moto com um cabo de vassoura na marcha e era dono de um Dodge Dart. O Sérgio estava casado com a Mary Mallandro, que não deixava ele ir à filmagem. “Mary, estou aqui ocupadíssimo. Vou trabalhar até tarde.” E a Mary não aparecia na filmagem. Eu tinha um eletricista e um assistente, que era filho do eletricista. Adolescente, coitadinho. Puxando cabo. Película. Era negativo de 64 asa, 100 asa. Barra pesada. Precisava usar muita luz, a gente trabalhando. Até que em um momento chegaram os verdadeiros donos da casa. Estavam viajando, não sabiam o que estava acontecendo. Tinha sido o caseiro quem alugou a casa...

EE – [risos]

CR – [risos] Aí parou tudo, acabou. O caseiro deve ter sido defenestrado. Não pudemos filmar na casa, que aparece no filme: a portaria, a piscina... Tem cenas que são de plano geral e o Sérgio Mallandro derrubando estante, virando mesa. Arruinavam com a casa, com o cenário, com os livros. Teve uma hora na praia em que o Sérgio Mallandro disse “ó, deixa comigo. Filma aí, filma aí!” E saiu. Vinha um cara cheio de sacolas, de panos, de barracas e ele “ahhhhhhh!!!” Deu um susto no cara, derrubou tudo. Aquilo não tinha sido planejado [risos]

EE – [risos]

CR – Uma poça d'água imunda, o carro passa e a água jorra. Isto estava no roteiro. Mas aí passa o carro e joga aquela água imunda mesmo, não era água fake [risos] Fomos em uma discoteca, só que era o dia em que a discoteca ia funcionar. O som ensurdecedor. “Filma aí, filma aí!” Um negócio de doido, era o cinema do descaralho total, sob o ponto de vista técnico, artístico.

EE – “Pedro Mico”, do Ipojuca Pontes vai em uma linha completamente diferente, na estrutura da Embrafilme...

CR – No “Pedro Mico” me creditaram como still e eu não fui o still. Fiz as cenas aéreas, porque o Walter Carvalho tinha caído recentemente de um helicóptero no Ceará, durante o filme do irmão dele, algo assim. Então não entrava em helicóptero de jeito nenhum. “Pedro Mico” tinha cenas de montanhismo e o Sanin Cherques, meu amigo, me indicou. Arranjamos um dublê, um ator negro, para fazer o papel do Pelé. Filmei as cenas da descida de rapel, de um apartamento para o outro na cobertura do edifício Chopin em Copacabana. Isso eu fazia brincando, todo final de semana, sem o menor problema. O Ipojuca era um cara de esquerda, hoje de direita. Um reacionário, que renega todo o passado. O irmão era um cara formidável, o Paulo Pontes, autor, diretor, ex-marido da Bibi Ferreira. O Ipojuca sempre foi uma sombra. Fez o filme, que é uma merda, insuportável. Todo mundo que participou acha isso. Uma estrutura de produção cara, o Pelé estrelando, dublado pelo Milton Gonçalves.

EE – Às vezes, o pessoal não sabe, mas isto aconteceu antes da participação do Ipojuca Pontes na era Collor. Como foi a estreia do “Pedro Mico”?

CR – No Ricamar, em Copacabana. Não tinha público. Boicotaram o filme, não havia ninguém, só meia dúzia de pessoas. O Sanin Cherques virou-se para mim: “Pô, Cristiano, vamos ter que arranjar alguém...” Chamávamos as pessoas na rua. “Você não quer assistir a um filme agora? É com o Pelé, ele está aí no cinema!” Respondiam: “Ah, vai tomar no cu!...”

EE – [risos]

CR – [risos] Quem podia entrava no cinema. Mas imagina quem? O povo da rua. A equipe e o elenco subiram para o mezanino e conseguimos colocar umas oitenta pessoas. O público espinafrava, dava gargalhadas. No filme, chamaram o Oscar Niemeyer para fazer o projeto de um barraco. Bacana, mas acontece que o Niemeyer nunca foi cenógrafo e desenhou um quadrângulo de 3 por 3, reproduzido no estúdio. Ali dentro botou uma cama, uma pia. Não é assim. Quem já entrou em barraco sabe que não tem aquela proporção.

EE – Aquela métrica, aquela linearidade modernista...

CR – É tábua na parede, vaza luz de fora. O Sanin me contou na época passagens maravilhosas da filmagem. Estavam subindo o Morro dos Cabritos, com a Tereza Rachel, para a chegada dela no barraco. Construíram a parte externa do barraco, o interior foi filmado no estúdio. A Tereza Rachel não conseguiu subir as escadarias, no meio da comunidade do Morro dos Cabritos. Aí os eletricistas, para quebrarem o galho, fizeram uma maca: dois sarrafos de madeira e uma cadeira. Pregaram a cadeira e...

EE – Uma coisa meio Brasil Império...

CR – [risos] Brasil Império... Só que esqueceram o seguinte: na escada, o que está na frente tem que levar a maca lá embaixo. O que está atrás tem que levar a maca lá em cima. Se não, vira. E ali a pirambeira é mais de quarenta e cinco graus. Eu sei que a Tereza Rachel começou a gritar e de repente ouviu-se “plac!” Ela caiu e foi um tal de nego segurando pela perna... Vi trechos do filme e me dá um negócio na garganta, não consigo. Muito ruim. Então não sei até hoje se há cenas dela em cima do morro. Cogitaram levá-la de helicóptero...

EE – E finalmente chegamos ao “O Quinto Macaco”, em 89...

CR – Produção do Menahem Golan, da Cannon Filmes. Depois tiraram o nome porque a Canon, da indústria fotográfica entrou com uma ação. O diretor foi o Éric Rochat, que tinha feito o “Histoire d'O” alguns anos antes, com sucesso. Veio com um produtor português para o Brasil, para fechar negócio com a LC Barreto. Fui convidado pela Maria da Salete, para ser assistente de direção. O Ricardo Favilla era o diretor assistente. Depois você me explica, na carreira do cinema, qual é a diferença [risos] Eu era o assistente de direção que fazia a ordem do dia, toda a parte burocrática pesada. Até chegar em Paraty o Vicente Amorim, já no final do filme, faltando uma ou duas semanas. A primeira carteira assinada que eu tive no cinema, um stress profundo, me desagradou muito. Eu via alguns profissionais ralando, fazendo o possível para realizar o filme, e outras pessoas se drogando abertamente. Saíam nas madrugadas para pegar as meninas de Paraty. Faltava profissionalismo. Hoje em dia encaro de outra forma. Simplesmente me afasto. Na época, eu enfrentava e esse enfrentamento foi desgastante, do ponto de vista psicológico.

EE – Nas produções do Carlo Mossy, o clima foi outro? Você participou da fase pornográfica do Mossy, no “Giselle H.”

CR – Não fiz “Giselle H.”, participei da fase pornô, mas desse eu não participei. Conheci o Mossy por tabela, porque era sócio do Victor di Mello e eu conhecia a Dilma Lóes, ex-esposa do Victor. Filmamos juntos o “Banana Prende, Mamão Solta”, uma peça infantil dela. Quem me convidou para o filme do Mossy foi um amigo meu, o Jorge Mansur. Para gravar em vídeo, que na época era precário: U-matic.

EE – Em que ano?

CR – Talvez início da década de 90.

EE – Época da “Giselle H.”. Talvez você não saiba porque quando estavam filmando era o Mossy no set, mas quem assinava era uma moça de dezoito anos, recém-chegada de Paris [risos]...

CR – [risos] Para você ter uma ideia, eu nunca vi esses filmes. A minha relação era estritamente profissional, de entregar a fita gravada. Eu fotografava. Começou quando o Mossy colocou um anúncio nos jornais, pedindo atores pornográficos. O escritório era em cima do Bob's, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. A fila ia até a Avenida Atlântica, trezentas, quatrocentas pessoas.Tinha uma atriz pornô na recepção da produtora, um quarto e sala pequenininho. O Mansur filmava num estilo reportagem, o Mossy entrevistava e escolhia os tipos mais exóticos. Manco, cego, perneta, sei lá. Débil mental, mulheres muito obesas. “Olha, nós estamos fazendo um teste remunerado. Vocês vão receber direito de imagem e, se forem aprovados, começamos o filme.” Mentira. Aquele já era o filme. Tiravam a roupa e fodiam. O Mossy realizou um filme com esse material, mandou para Paris e virou um sucesso. Era o início do pornô-realidade. Não eram aquelas mulheres glamourosas, americanas, aquele sexo que parece de plástico. Eram de carne mesmo. O Mansur então se empolgou, e aí eu entro na parada a convite dele.

EE – Por quê?

CR – Porque o Mossy queria filmar com duas câmeras e eu tinha as duas câmeras. Nesse ínterim, mudou o formato do video, nós fizemos em Super VHS, uma bitola menor, o custo lá embaixo. O diretor de produção era o Geraldo Mohr, um alemão, que tinha trabalhado comigo no “Viagem ao Céu da Boca”. O Geraldo mandou vir uma atriz de Portugal. Brasileira, prostituta profissional lá. Rodamos um filme inteiro em uma cobertura, na [Avenida] Vieira Souto, residência de um cara que era biliardário, senhor de idade. Só trabalhei nesse da Vieira Souto, que teve cenas em toda casa e no escritório. Uma das frases mais pitorescas do cinema pornô eu atribuo ao Mossy. Tinha uma trepada na janela, e ele aproveitava os intervalos para sugerir as falas. Saiu-se com essa: “fala, minha filha, fala: eu adoro dar o cuzinho na janela...” [risos]

EE – Seu nome consta nos créditos?

CR – Não sei. Não lembro nem de ter pedido para não constar.

EE – Você se sentiu mal de participar de filmes pornôs? Afinal, você estava fora da sua realidade de hippie montanhista...

CR – Olha, o negócio é o seguinte: eu tive uma educação alemã. Aos quatorze anos, minha mãe me deu um livro de cabeceira, editado em Portugal e escrito pelo Wilhelm Reich em 1916, se não me engano. Chamava-se “Combate Sexual da Juventude”. De iniciação sexual, para a juventude comunista alemã. Eu tinha uma liberdade muito grande em casa. A gente ia para Curitiba, nas férias da família, e tomávamos banho de piscina pelados. Para mim, ficar pelado nunca foi problema. A nudez nunca esteve ligada à excitação sexual.

EE – No seu primeiro longa-metragem, o “Outro Olhar”, você teve um cuidado extremo em relação ao sexo. Até mesmo em relação ao corpo da protagonista...

CR – O tema fundamental do “Outro Olhar” é o romance entre a menina adolescente e o homem adulto sequestrado. Então, o que eu penso? O público-alvo deste filme é a garotada de quatorze anos para cima. Escolhi um funkeiro, o MC Martinho, para fazer o tema musical. Ele abre e fecha o filme, tem uma visibilidade muito grande nas comunidades, é conhecidíssimo. Tão alijado quanto o nosso cinema. O Martinho não toca nas grandes rádios, não vai para a televisão. Se eu faço um filme com nudez ou cenas tórridas de sexo, a censura é dezesseis anos, dezoito. Eu perderia imediatamente essa fatia do público. Até coloquei uma cena, para justificar a droga. O cara grita com o outro: “você vai queimar isso?” Se não coloco, é apologia às drogas e a indicação de idade vai lá em cima. Para segurar os quatorze anos, isto foi estudado no roteiro. Em um filme para adultos, agora no futuro próximo, já vou abrir um pouco mais esse leque. Acho que o sexo explícito não se encaixa no perfil do espectador brasileiro em geral. Eu tenho a preocupação de realizar um filme que seja assistido. Não quero que seja visto pela minha família e pelos meus vizinhos do prédio.

EE – O “Outro Olhar” teve consultoria do Alberto Salvá.

CR – O Salvá disse coisas significativas que, de fato, eu alterei no roteiro. Uma dica foi bacana: não colocar data no filme, porque ele precisa ser atemporal. Além do Salvá, o Francisco Chao me auxiliou, me ensinou como se sequestra alguém. Tive que entender esse modus operandi. Por exemplo: eu passei o filme para uma plateia de alunos de segundo grau de colégio estadual em Nilópolis. Cento e sessenta alunos assistiram ao filme em duas sessões. A sala lotada. Para mim, o que foi muito satisfatório? Eles entenderam a história de fio a pavio. Eles conhecem o código, sabem o que acontece em um cativeiro, faz parte da cultura deles. Ouvem falar, discutem, conhecem indiretamente algum bandidão. O filme foi plenamente compreendido pela garotada que é o meu público-alvo. Provavelmente, vou fazer muito mais sucesso em Duque de Caxias do que em Portugal, aonde também será exibido. Em Portugal talvez seja uma coisa exótica, um pouco de miséria, de favela movie. No Ver Cine, na Baixada [Fluminense], vai ter um grau de afinidade muito maior com a plateia. Disto não tenho a menor dúvida. E foi esta a intenção, porque eu já sabia dos problemas que iria enfrentar na distribuição e na exibição.

EE – Pouco antes você havia dirigido um curta, o “Enquanto Faço As Unhas”. Foi uma espécie de preparatório para o longa? O produtor, por exemplo, é o mesmo.

CR – Foi um preparatório, sim. O produtor é o Saulo Moretzsohn, mas a produção, minha gente, é doméstica. Não é só o produtor que entra com a grana. Paguei os dois filmes, o produtor executivo fui eu e está lá no créditos. Filmes muito baratos, porque estava exercitando o que aprendi no cinema institucional: trabalhar com muito pouco. “Enquanto Faço As Unhas” foi filmado aqui em casa. Aquele salão de costura é a entrada, cenografamos aqui. Minha mulher, que nunca trabalhou em cinema mas é engenheira de produção, ajudou no planejamento. É o tipo de formação que o cineasta não tem. Ele vai aprender na prática, tomando porrada e desperdiçando dinheiro. “Enquanto Faço As Unhas” custou cinco mil reais. Paguei alimentação e condução para os atores e equipe técnica. Para você ter uma ideia: eu fiz o blimp subaquático, para as cenas embaixo d'água. Como eu tinha o blimp, usei no longa. Gerei aquela cena embaixo d'água porque acho que dá um molho, cresce um pouco o filme, em termos de produção visual. Quem sabe, um produtor profissional ache que custe, pelo menos, três mil reais por dia. Você tem o operador de câmera, aluguel do blimp, aluguel de câmera, caminhão gerador. E nós filmamos em Itacoatiara, com um blimp feito com cano PVC de esgoto, uma câmerazinha HV20. Não é nem Full HD.

EE – Cano PVC de esgoto?

CR – E no “Outro Olhar” a piscina estava suja, favoreceu, porque parece que eles estão no mar. Pau na burra, é saber fazer. A fabricação desse blimp me custou cem reais, se tanto. Mais caros foram os vidros, que cortei redondos, para poder encaixar no fundo. Eu tenho aqui em casa uma oficina. Se você olhar as fotos nos dois filmes, vai ver que até o dolly é doméstico. Fiz um carrinho de skate, uma prancha de madeira e uns trilhozinhos de alumínio. Não deixa nada a desejar a um carrinho que eu tivesse alugado da Ted, da Quanta. Funciona tal e qual. Só que custou cinquenta merréis. Essa é a diferença, por isso é que o curta custou cinco mil reais. O mais caro foi a alimentação, mil e tantos. A gente levava o pessoal para comer em restaurante legal, a Débora às vezes preparava a comida para oito, dez pessoas.

EE – Você me contou que existe um projeto de adaptar a biografia da Jussara Calmon para o cinema. O que vocês já conversaram sobre isso?

CR – A Jussara foi à pré-estreia do “Outro Olhar”, que eu fiz no no MAM, para amigos. No final da exibição, ela pegou a biografia e me entregou com uma dedicatória. “Cristiano, pensa no filme. Eu vou cobrar isso de você.” Botei o livro debaixo do braço, fui ler. Conta a história dela desde criança até o casamento com um armador norueguês. A Jussara mora hoje na Noruega, muito bem sucedida, tem uma escola de teatro e dança. Como ela chegou a mim através do “Outro Olhar”, por uma questão ética eu também chamei o Saulo para participar do projeto. A ideia é a gente tentar uma co-produção Brasil-Noruega. Tentar um incentivo aqui no Brasil, um incentivo na Noruega, filmar lá e aqui. Fazer um filme de ficção sobre a Jussara Calmon. Filme de época, com a história da mãe, da família, a vinda para o Rio de Janeiro. Ela viveu uma trajetória muito peculiar, esteve presa, por exemplo. O filme tem conteúdo. Acabaríamos e começaríamos na Noruega.

EE – Agora pense em um panorama do cinema brasileiro atual. O que você considera correto ou errado.

CR – A resposta tem que passar pela questão da exibição e da distribuição. O panorama atual do cinema brasileiro está muito atrelado à nova tecnologia. Acabou o negativo, muito pouca gente está filmando em película e isso reduziu muitíssimo o custo. Você pode filmar até com um celular. O resultado que aparece na tela pode funcionar dramaticamente. Então, a versatilidade de produção atual é muito grande, e a um custo muito acessível. Isso veio a favorecer aquele produtor pequeno. Por outro lado, é uma política neoliberal, em que se tem a democratização das informações de uma forma nunca antes vista. Mas as pessoas estão pensando cada vez menos. Na minha infância, havia poucos recursos, mas se pensava. Estão esquecendo que cinema é uma profissão em que você depende de formação erudita, técnica e prática. Normalmente, o cineasta brasileiro é empírico. Aprende fazendo ou vendo o outro fazer. Isto nos coloca distante de países mais pobres, como Romênia, Bósnia, que têm filmes muito melhores do que os nossos.

EE – O que você acha da sua participação no cinema brasileiro?

CR – Eu estou, na realidade, realizando um sonho. Quando saí do emprego na universidade, recebi uma grana legal e estou podendo me sustentar durante um determinado período. Fiz o “Outro Olhar” com cinquenta mil reais. Para a maioria das produções brasileiras, é simplesmente impensável. Tive uma equipe razoável, paguei todo mundo, ninguém trabalhou de graça. E, no entanto, o custo foi muito aquém dos baixos orçamentos. Estou discutindo, sem modéstias, uma questão de resultados. Isso conta com a minha competência técnica, na medida em que eu aprendi a trabalhar com pouco. Esse longa-metragem, não é mentira, eu fiz com quatro lâmpadas convencionais. Lâmpada que você compra em supermercado, de duzentos watts. Um refletor de seiscentos e cinquenta watts e dois refletorezinhos de luz fria que eu montei em casa, com seis lâmpadas. Com isto, fotografei um longa-metragem. Normalmente, é impensável.

EE – Um esquema tão diferenciado de produção.

CR – E isto é muito importante: nós que produzimos com a grana do nosso bolso, somos mal vistos pelos produtores nossos concorrentes, pelos distribuidores e pelos exibidores. Estou falando de um núcleo, porque existem os independentes que fazem filmes “a Bangu”, sem o menor cuidado técnico. Fazemos filme barato, sem nenhum incentivo. Então ficam com cara de tacho quando gastam oitocentos, um milhão, dois milhões, e conseguem um acabamento técnico com o mesmo grau de sofisticação. Tive uma conversa com um produtor, que me respondeu: “Filmes para mim só interessam com orçamentos a partir de quatro milhões”. Por que quatro milhões? Porque ele ganha seiscentos mil. Filme de cinquenta mil não interessa porque ele não ganha na bilheteria. Ele ganha no processo de produção, nos incentivos estatais, na Oi Futura, na Petrobras...

EE – E na Lei Rouanet.

CR – E na Lei Rouanet. É ali que ele ganha dinheiro. Obviamente, há exceções, eu estou generalizando. Mas a grande maioria age assim. Com a grana de um filme você poderia fazer outros quatro, cinco filmes. Eu te digo com absoluta franqueza de alma: é um sonho diletante. O fundamental é como eu fazia no montanhismo. Por que você pratica o montanhismo? Não se ganha porra nenhuma praticando o montanhismo. Você arrisca a sua vida, você passa por dificuldades, você cansa, passa por enfrentamentos climáticos e atmosféricos. Peguei frio, subi o Elbrus na Rússia, 30 e tanto graus abaixo de zero. Por que isso? Porque você tem um objetivo pessoal. Ou talvez você precise de um aporte psicológico para continuar vivendo. Eu sou agnóstico, então não acredito em vidas futuras. Eu acho que, de repente, estou fazendo o que eu gosto. E é a única coisa que eu sei fazer hoje. Se fosse há trinta anos, teria outras opções. Iria fazer antenas de novo, tentar pilotar de novo. Mas hoje eu só tenho o cinema.

quinta-feira, outubro 27, 2011

Alberto Salvá (1938-2011)


A primeira vez que contactei Alberto Salvá para uma entrevista foi em março de 2009. Conversamos bastante por telefone. Como estava me mudando do Rio para São Paulo, ele brincou dizendo que adorava São Paulo e também tinha vontade de fazer o mesmo. E perguntou se eu não o traria junto, em troca de ser meu entrevistado.

Por conta da mudança, a entrevista acabou não acontecendo. Perdi inclusive o contato de Salvá, já que ele também se mudou ao longo do tempo.

No início de 2011 estava em uma mesa de bar com o cineasta Cristiano Requião, quando o nome de Salvá chegou à tona. Soube que havia adoecido e que o Cristiano era próximo dele. E foi graças ao incentivo do Cristiano que a entrevista veio a ser realizada, finalmente.

Salvá estava saindo de uma operação complicada. Parecia bastante frágil, até que começamos a gravar. Então, se transformou. Foi ao século XX, trazendo histórias preciosas. Riu, se empolgou, se emocionou. Achei uma das entrevistas mais fáceis que já realizei, pois disse quase tudo sem que eu precisasse estimular sua memória. Falou, creio, porque sabia que era importante deixar registrado.

No final, pedi que me enviasse uma foto para a publicação da entrevista. Respondeu que não, que gostaria de tirá-la naquele momento. Fiquei um bocado constrangida e Salvá acrescentou que não saía bem em fotos:

"Se eu vou sair mal mesmo, me fotografa desse jeito, à vontade."

Realizei seu pedido, portanto.

Quando soube da morte de Salvá no dia 13 de outubro fiquei, além de triste, pensativa sobre por que sua obra continua esquecida e seu último filme, "Na Carne e na Alma", não chegou às telas como ele sonhava. Ao me presentear com uma cópia em dvd, suspirou dizendo que tinha esperança de vê-lo nos cinemas ainda esse ano. Por alguma razão misteriosa, permanece inédito.

Quem assistir a "Na Carne e na Alma" vai ter a oportunidade de admirar um cinema que não se faz mais no Brasil. Imperfeito, passional, vulgar às vezes. O cinema de um gênio franco e honesto que, pelo jeito, pagou um preço enorme por isso.

Obrigada, Alberto Salvá.


terça-feira, maio 03, 2011

Biografia Entrevista - Alberto Salvá


Conheci a obra de Alberto Salvá da maneira como tantos espectadores a conheceram. “A Menina do Lado” foi o ponto de partida. O tal filme aviltante, horroroso, verdadeiro assassinato da moralidade nacional. A histeria gerou filas homéricas nas portas dos cinemas, debates acalorados, promessas de prisão – Salvá era acusado de explorar menores.

O bom é que ele não desiste, sempre ressurge e agora mesmo finalizou o incômodo “Na Carne e Na Alma”. Longa-metragem que ainda não conseguiu chegar aos olhos e aos ouvidos do público: uma barreira invisível impede o lançamento.

Espanhol de origem, brasileiro há inúmeros anos, Salvá acompanhou as mitológicas aulas de Arne Sucksdorff na Cinemateca do MAM-RJ. Foi guardião da moviola Steenbeck, inaugurou o Grupo Câmara, despontou no sentido contrário ao do rebanho oficial. Dirigiu os clássicos “Um Homem Sem Importância” e “As Quatro Chaves Mágicas”.

Vira e mexe coloca as mãos em conflitos sob a perspectiva feminina. “Inquietações de Uma Mulher Casada” crava uma antecessora de “Malu Mulher”. Escreveu o roteiro de “Mulher Objeto”, sucesso da Boca do Lixo que lhe rendeu tremendas dores de cabeça. Fases e fases, desde a estréia improvisada na fotografia.

Alberto Salvá narra-as com detalhes generosos no bate-papo de horas, que tivemos há algumas semanas atrás. Parafraseando-o, esta entrevista acolhe os “puros de coração”. Repleta daquela integridade que sempre o fez extrair a beleza mais intangível das mais simples coisas.


ESTRANHO ENCONTRO – Bom Salvá, nós temos a sua imagem enquanto diretor, homem público, no contexto das artes. Mas eu queria saber mais de você quando criança, por exemplo. Como é que foi a sua infância, família?

ALBERTO SALVÁ – Não nasci aqui no Brasil, nasci na Espanha. Aliás, não nasci na Espanha, nasci na Catalunha, em Barcelona, o que é diferente. Porque tem o espanhol e tem o catalão. 1938. A guerra civil acabou em 1939 e não tinha nada de nada. Não tinha comida, nada. Lembro que no inverno os cinemas enchiam. O único lugar quente que havia era dentro do cinema. Íamos eu, meu pai, minha mãe, minha avó. Mais tarde, nove anos e meio depois, tive um irmão. E ir ao cinema era inclusive um encontro social, eram sempre as mesmas pessoas. Você cumprimentava alguém da sétima fila, alguém da quinta fila. Acabava muito tarde, uma da manhã. Meu pai me colocava no colo e me levava para casa, quase dormindo. Já no caminho, tanto meu pai quanto minha mãe discutiam o filme. E aí durante a semana inteira se falava no filme. Vivia mergulhado em cinema, realmente. A primeira vez que fui ao cinema, não me lembro disso, tinha um ano de idade. Diz que havia um casal na minha frente se beijando e eu com as mãos [faz um gesto, como se afastasse a imagem]...

EE – [risos]

AS – [risos] Mas a partir de três anos e pouco, eu me lembro dos filmes que eu via. Cinquenta anos depois, vi os que eu não tinha gostado e continuei não gostando [risos]. Já tinha um senso crítico, quando criança.

EE – E você lembra quais filmes eram?

AS – Lembro. “Branca de Neve e os Sete Anões”, filmes adultos, porque não havia censura de nada. “No Tempo das Diligências”, vários filmes do Welles, imagina. De criança eu já estava com a cabeça cheia de besteira. Bom, aí eu vim para o Brasil, para o Rio de Janeiro, com 14 anos. Meu pai veio primeiro, chamou eu, minha mãe e meu irmão. Meu pai era uma espécie de pequeno empresário de obras. Pegava uma obra, uma reforma de uma casa, chamava várias pessoas e administrava a reforma da casa. Vim para o Brasil. Meu pais queriam segurança, principalmente minha mãe, que queria que eu fosse relojoeiro. Isto por causa de um parente. Relojoeiro e joalheiro. Ganha-se muito dinheiro, disse isso pra mim. Trabalhei cinco anos e meio na Souza Cruz, depois em outros dois ou três lugares, até me encher o saco. Achava aquilo tudo muito chato. Ficar atrás de uma escrivaninha, anotando. Passa o dia e o que eu fiz? A minha vida vale o quê? Nada. Apareceu um curso de fotografia, vi no jornal. Fui ficando, começando a fotografar. Depois aconteceu uma coisa que mudou o cinema no Brasil.

EE – O curso do Arne Sucksdorff.

AS – O curso do Arne Sucksdorff. Boa parte dos alunos estão praticamente todos vivos. O Joaquim Pedro aparecia, mas era figura notória, não era aluno. Aluno mesmo era o João Bethencourt, o [Arnaldo] Jabor, o Nelson Xavier, o Dib Lutfi, e eu também. Quando saí de lá, saí mais ou menos com as coordenadas.

EE – Como eram os bastidores? Porque esse é um curso bastante comentado na história brasileira. E o Arne professor? É uma figura meio mítica.

AS – O Arne eu via naquela época como um herói. Era um documentarista sueco, amigo do Bergman, tinha estado na Índia durante muito tempo. Matou um tigre que era comedor de gente e lá mesmo virou um “bwana bwana”. Agora, o curso em si tinha uma série de [risos]... tinha uma série de protegidos e gente fina. [Luiz Carlos] Saldanha, o Eduardo Escorel, Jabor, João Bethencourt, mais um ou dois que eu não me lembro agora. O resto era meio que esquecido. Fizemos um filme. O Arne ia embora antes da hora e não dizia o que deveríamos filmar. Agora, ele trouxe um material moderno. Trouxe o Nagra, que era uma coisa que naquele tempo não tinha no Brasil, ninguém conhecia. Trouxe a Arriflex, também ninguém conhecia. E trouxe a moviola sueca, Steenbeck. A moviola daquela época.

EE – Ficou anos, montou vários clássicos...

AS – Ficou, muitos. O Joaquim uma vez me perguntou se eu queria tomar conta da moviola, porque o pessoal usava, não pagava, nada. Dividimos em três pedidos de seis horas. Eu ficava colado na moviola para passar de turno para turno, o que originou uma grande briga com o Glauber [risos]...

EE – … Do tipo? Briga com o Glauber é meio previsível [risos]...

AS – Havia a turma da manhã, como o Eduardo Escorel. Das 9 às 3 da tarde. Às 3 da tarde tinha que entrar uma outra turma. Por acaso, eu estava não com o meu filme, mas com o filme do João Bethencourt, que o Glauber detestava, achava que era um fascista. E não era, não era mesmo. Mas quando chegou 3 horas, 3 e pouco, eu falei “Eduardo, passou-se o tempo. Desculpe, vai entrar alguém. Se eu deixar todo mundo fazer isso, vai ser uma confusão. O Joaquim Pedro avisou que eram seis horas para cada turno.” O Eduardo foi embora. Quando voltou, voltou com aquela fera alucinada [risos]...

EE – [risos]

AS – [risos] … O Glauber: “Não vai tirar a moviola de uma pessoa do Cinema Novo! De um amigo do Manuel Diegues [diretor do Departamento de Assuntos Culturais do MEC, pai de Carlos Diegues] para dar a esse fascista, sem cultura!” E quando ele falava, só ele falava, ninguém mais conseguia falar. Não tinha nem vírgula, nem ponto, nem nada [risos]. Eu não estou falando mal do Glauber, não. Glauber era isso mesmo. Uma analogia que eu posso fazer com ele é que o conheci com 23 anos de idade e ele já era o Glauber. E eu levei... acho que a partir dos 60 é que comecei a ser o Salvá.

EE – Você está lá cuidando da moviola Steenbeck, mas quando ingressa de fato no cinema? Botando a mão na massa, profissionalmente, para um filme que vá ser lançado?

AS – Fui convidado por uma pessoa que morreu há pouco tempo, o Thomas Farkas. Fui chamado para ser fotógrafo no “Brasil Verdade”, que ele produziu. Eu não tinha nível, mas tive de me virar. Realizei uma boa fotografia, tal, aí eu já fui pegando. Depois veio o “Paixão de Aleijadinho”, sobre o escultor. Viajei para a Bahia, ganhei o prêmio de melhor documentário do festival. Foi feito por mim, com o dinheiro de um amigo, o David Waissman. A primeira pessoa a quem eu realmente devo a minha carreira em cinema. Não sei se devo amaldiçoá-lo ou bendizê-lo por causa disso, pois sem ele eu nunca faria. E no “Brasil Verdade” eu fotografei o episódio “Nossa Escola de Samba”, do Manuel Horácio Giménez. Foram cinco meses no morro do Pau Bandeira. Cheguei a morar lá, a virar favelado. Estava de manhãzinha, às seis horas, para ver o pessoal descer. Ficava até de noite, até dar luz. Morei no lugar, fiquei amigo de todo mundo. Na despedida nos ofereceram um prato e tivemos que comer aquilo. Uma buchada [risos].

EE – Uma buchada! Parecendo político em eleição... [risos] E continuou a atuar como fotógrafo?

AS – Sim, fiz uma série de institucionais produzidos pelo INCE. Também trabalhei como técnico de som para o João Bethencourt. O importante é que na época em que eu tinha acabado de me casar, minha mulher tinha acabado de ter filho, eu não tinha dinheiro. Não tinha aonde enfiar minha mulher nem a mim mesmo, estávamos num hotelzinho na praça Tiradentes. Mas eu participei de um filme que foi selecionado para aquele famoso festival, do Jornal do Brasil. O Flávio Tambellini pai viu e gostou. “Olha, Salvá, gostei do modo como você fotografou, como você editou. Estou precisando de uma pessoa fixa, eu tenho um monte de filmes aqui. Filmados, sem editar. Dá para você editar?” “Claro, claro.”

EE – Proposta irrecusável.

AS – Eu nunca tinha sentado em uma mesa de edição, mas editei um monte de filmes. Às vezes dizem que eu dirigi, mas eu não dirigi. Apenas editei. O primeiro que eu realmente dirigi foi “Como Vai, Vai Bem?” De uma cooperativa, da qual o Glauber também virou inimigo. O Glauber tinha que ser assim. Era uma enorme galinha, que aninhava todos os pintinhos embaixo das asas. Se você não fosse lá pedir benção e seguir a linha ideológica dele, aí já era inimigo. Acontece que eu fiz parte de um grupo chamado “Grupo Câmara”. Que entrou com muita força, entrou com muita força. E aí eles ficaram assim, não é? “Opa, tem que matar esses caras aí”...

EE – Nisto surge o “Como Vai, Vai Bem”, um filme em oito episódios.

AS – Dirigi três deles. Agradou muito, então passei a ser interessante, mas continuava desempregado. De tarde, eu dormia. De noite, saía à procura de trabalho. E eu sou um animal diurno, não fico acordado à noite. Dormia antes, para sair depois. Ia na Fiorentina, aonde estavam todos os caras de cinema, de teatro. Um dia o Daniel Filho sentou-se na minha mesa. Propôs que ele dirigisse um episódio e eu, outro. Entrou um dinheiro do Jarbas Barbosa, entrou um dinheiro do Roberto Farias. Esse foi o segundo filme, “A Cama ao Alcance de Todos”. E o terceiro já foi o “Um Homem Sem Importância”.

EE – Por essa época você conhece o Vianinha, uma presença fundamental no “Um Homem Sem Importância”.

AS – Eu tinha trabalhado com o Flávio Migliaccio no “Como Vai, Vai Bem?”, em que ele fez oito papéis. O Paulo José fez seis. Estava com a idéia do “Um Homem Sem Importância”, o argumento todo, botei no papel e procurei o Flávio. “Não, Salvá, eu sou um ator decadente.” Imagina. Devo ter pego ele em um mal dia. “Eu tenho uma pessoa que vai te interessar. Vai lá na Tv Rio, no Posto Seis.” Fui lá e conheci o Vianinha. Entreguei o texto, ele me disse “deixa aí que de noite eu te dou uma resposta, na sua casa.” Acho que eu morava no Leblon, em um apartamentozinho. Ele foi lá em casa, topou. “Adorei o roteiro, quero fazer sim.” “Bom, para você eu tenho... é um filme sem dinheiro. Eu tenho 10 mil cruzeiros e 10%.” Olha a resposta do Vianinha: “Não... 10% é muito. Me dá só 5%. E 10 mil cruzeiros também é muito. Me dá só 5 mil.” Ele mesmo diminuiu o ordenado. Nossa Senhora, não existe isso, não é?

EE – Realmente, impressiona... Aliás, o filme também. “Um Homem Sem Importância” conseguiu ser neo-realista, no Rio de Janeiro, mas sem aquele ranço pesado de “Rio, Zona Norte” ou “Rio, 40 Graus”. Você fez uma coisa mais doce, de crônica, e ao mesmo tempo mais depressiva.

AS – Eu fiz uma coisa mais comunicativa. Se você vai ver “Rio, Zona Norte” ou “Rio, 40 Graus” é bom, mas é pesado. Às vezes é chato. Eu era contra isso. Gostava muito do neo-realismo, os filmes estavam na minha cabeça. Gostava muito do De Sicca, que era ainda mais difícil de compreender. Mas fiz algo para me comunicar, para falar com as pessoas mesmo. Fora isso, aquele filme mostrou um quê de pessoal, de autobiográfico também. Eu corri o mercado de trabalho, procurei emprego como o personagem. E pelo fato de ser um imigrante, depois eu me naturalizei, eu não tinha aqueles contatos que a gente nem sabe quão valiosos são, mas que são valiosos. Os contatos da infância. Eu não conhecia ninguém, estava desvinculado de todo mundo. No “Um Homem Sem Importância” até aconteceu uma coisa fantástica. Na metade do filme faltou dinheiro. Avisei aos atores, avisei à equipe. Não sabia de onde tirar o dinheiro.

EE – Imagino o que deve ter passado pela sua cabeça.

AS – Aí estou eu no bar em frente à antiga Líder, na [rua] Álvaro Ramos, tomando uma tristíssima média com pão e manteiga. Alguém bate nas minhas costas. Era o Flávio Tambellini, o pai. Uma pessoa extremamente generosa. “O que foi? Te acho triste.” “Triste? Parei meu filme, na metade.” “Vou confessar uma coisa para ti. A coisa mais triste do mundo. Estou indo para a cidade, quer vir comigo?” Eu me lembro até do que respondi: “olha, Flávio, eu quero ir pra casa e morrer um pouquinho. Quero dormir, para tirar isso da cabeça.” “Não, vem comigo. Você sabe que eu tenho medo de andar sozinho.” Tinha tido um acidente. Para atravessar a rua, você tinha que se pendurar no braço dele ou ele não atravessava. Acidente feio mesmo. Mexeu no rosto inteiro. Subimos num táxi e fomos para a cidade, aonde era mais ou menos o [terminal de ônibus] Menezes Cortes. “Espera aí no carro que eu volto já.” Ok, fiquei esperando no carro. Quando ele voltou, disse: “Copacabana”.

EE – Cada vez mais longo o passeio...

AS – Pois é, ele estava indo para casa agora. Morava em Copacabana, na [rua] Constante Ramos. E aí o Flávio coloca a mão dentro da calça, começa a tirar notas e notas e notas. Maços de dinheiro. “O que é isso, Flávio?! Assaltou um banco?!” “Não, Salvá, isso é para você acabar o filme.” “Flávio, você tirou esse dinheiro da conta do INCE?” “Bom, eu mesmo é que não tenho. Vou repôr, é claro, mas por enquanto pode ficar com você.” “Mas e se eu morrer e não conseguir te devolver esse dinheiro?” “Se você morrer eu vou ficar tão triste que não vou nem ligar pra esse dinheiro.” Olha a qualidade humana do cara. E eu sei que não me lembro de onde entrou, mas uma semana depois, dez dias depois, entrou um dinheiro para mim e devolvi pessoalmente. Esse salvou minha vida. Depois me deu um emprego no próprio INCE.

EE – Pelo que contam, o Tambellini era mesmo uma pessoa excepcional. E você rodou o filme quando?

AS – Outubro, novembro de 70.

EE – Bem naquela euforia do milagre, do governo militar. E o filme vai muito contra isso. Mostra alguém que está desempregado, não consegue se encaixar. Isso causou algum problema com a censura, mesmo com a crítica? Porque vai contra aquele estado de espírito reinante, aquele momento do país. É bem cético.

AS – Eu era contra o que estava acontecendo no país. Tive amigos que morreram. Tive até um sócio que morreu. Ele ia para a sala de tortura, no segundo andar, parece, e já o haviam torturado. Achou que não iria aguentar mais e se atirou pela janela. Um outro desapareceu. Uma boa parte foi torturada. Minha mulher e a família toda da minha mulher foi torturada. Eu era absolutamente contra, mas não houve reação ao “Um Homem Sem Importância”. Não se tocaram.

EE – E você ainda chamou o Denoy de Oliveira, do Grupo Opinião, para fazer a trilha sonora.

AS – Eu era amigo do Xavier de Oliveira, fizemos juntos o Festival JB. O Xavier era uma pessoa que eu, de cara, fiquei amigo. Aí conheci o Denoy. E quero fazer justiça ao Denoy. Sem a música do Denoy, meu filme não seria o mesmo que é. Ele deu alma ao filme. Do mesmo jeito que o Sérgio Ricardo deu alma ao filme do Glauber. Sérgio Ricardo e o Villa-Lobos deram alma ao “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. E apesar de tudo isso, não sofri com a censura. Eu era aquele cara que estava com as bolinhas de gude no bolso [risos]. Que depois se mostraram eficientes, porque elas rolavam...

EE – … e os cavalos caíam no chão, não é? [risos]

AS – [risos] É... Até que se passou a usar rolha, que era muito mais leve. Fui na primeira passeata, fui na segunda, terceira. Apanhei, não sei se deveria ter feito uma coisa dessas. Apanhei bastante, mas eu era o cara que fugia, corria mais que eles. Naquela época o que havia era uma grande censura a sexo. Aliás, continua tendo. Você pode mostrar alguém estripando alguém, mas não pode mostrar sexo. Mesmo assim, se produzia muito cinema. Acabei de editar “Um Homem Sem Importância” em dezembro de 70 e em janeiro de 71 estava em um novo filme, “As Quatro Chaves Mágicas”.

EE – Que é bastante marcante no cinema brasileiro. Toca na literatura infanto-juvenil, nesse clima infanto-juvenil e é excepcional. Lida com o universo lúdico, de sonho.

AS – Olha, o filme veio de uma experiência muito estranha. Depois de “Um Homem Sem Importância” eu passei a frequentar um clube, a fazer umas aulas de ioga. Eu via que, depois das aulas, algumas pessoas entravam em uma outra sala e não saíam. Um dia, um mestre me perguntou se eu gostaria de fazer parte do círculo interno. O DeRose. Tudo bem. Chegamos lá dentro, todo mundo tira a roupa, ficamos pelados. Pensei: “Que coisa estranha”. Mas as aulas continuavam, o cara lidava com magia. Eu fiquei fascinado com aquilo, conheci magos de verdade. Fiquei assustado também, por isso acabei saindo. Muito assustado.

EE – Por quê? Aconteceu alguma coisa em especial?

AS – Para você ter uma idéia: uma vez fomos a Friburgo, à casa de um homem conhecido, renomado. Quando chegamos, encontramos um senhor de uns 60 anos, afável e tal. Ele e o DeRose jogaram uma partida de xadrez. O DeRose ganhou. E mostrou que ganhou. O mago não gostou. Não gostou. E aí me lembro que, na despedida, ao invés de apertar a mão do DeRose, ele fez assim nele, com o dedo [coloca um polegar acima do nariz, entre os dois olhos]. No dia seguinte, o DeRose apareceu na academia. E estava com um buraco aqui [coloca o dedo no mesmo lugar que havia indicado]. Exatamente aqui. “O que foi isso, DeRose?” Ele me explicou. “Na descida de Friburgo, o carro perdeu os freios, eu olhei um muro e pensei: 'é para lá que eu eu vou'. Me machuquei todo, mas se não fizesse isso, caía lá embaixo.”

EE – Pesado...

AS – Vi algumas coisas assim. Uma senhora que era dona de um restaurante. Bruxinha também. Bruxinha não: bruxona. Dizia ter inimigos no astral. Isso eu vi. Dormia e acordava toda arranhada, sangrando. Quando brigam entre eles, quando um mago briga com um mago, cria formas e manda de encontro ao outro. Um deles criava lobos e mandava os lobos para cima dela. Ah, eu vi um monte de coisas. Uma barra muito pesada para mim.

EE – Você está contando, eu estou lembrando do filme. A bruxa, Astarte.

AS – Eu fiquei tão imbuído desse universo que eu tinha que contar. Um universo mágico. Filmei na entrada para Mury [distrito da região serrana, no estado do Rio]. Não sei se o restaurante ainda existe. Havia uma organização deles no local. A filha daquela senhora, que também era uma bruxona, disse para o tesoureiro: “Engraçado... Estou vendo você a dois palmos acima do chão.” Esse cara se enforcou, uma semana depois. Descobriram que ele estava roubando do círculo. E, no círculo, eles desenvolvem a chamada “egrégora”. A egrégora defende o grupo. Para a egrégora, roubar o grupo significa que aquela pessoa tinha que ser eliminada. Eliminaram. Pensei logo: “vou sair fora... vou fazer um filminho, calminho” [risos]...

EE – É... Melhor ficar na quase ficção... [risos]

AS – E fui parar em uma locação com problemas. Teve um dia que botamos a equipe inteira pelada, no meio de um riacho, e demos banho de ervas. Havia acontecido três, quatro coisas terríveis naquele dia. Um jipe quase caiu pelo desfiladeiro. Deu contato na bateria da máquina, o que poderia ter matado o cara: ele estava com os pés na água. Enfim, tanta coisa. Alguém falou “vamos dar um banho em todo mundo.”

EE – Você estava casado com a Dita Corte Real, não é? Ela trabalhou no “Um Homem Sem Importância” e faz o papel principal do “As Quatro Chaves Mágicas”, a Maria.

AS – Está também no “Vida e Glória de um Canalha”. As esposas dos diretores sempre estão... [risos]

EE – [risos] ...Sempre têm um papel. Vide o Sganzerla, a Helena Ignez... E, devido a esses problemas todos no set, você reformulou o filme?

AS – O roteiro foi escrito em menos de dois dias. Eu tinha aqui na minha frente um remédio chamado Catovit e, do lado, uma guimba de maconha. Dava uma tragadinha na guimba de maconha, ficava uma hora e pouquinho ligado, escrevendo. Escrevendo feito um louco. Começava a arrefecer o efeito, tomava um gole de Catovit e ficava mais uma hora. Escrevendo. Assim, direto. Em dois dias acabou.

EE – Saiu uma obra-prima, o roteiro é maravilhoso. Uma coisa que você falou na época, Salvá: que o filme era para os puros de coração. Não sei se você se lembra.

AS – É, eu lembro.

EE – O que é verdade, apesar de estranhamente não ter ido bem nas bilheterias.

AS – Houve uma coisa séria. Eu coloquei os dois filmes na mão de um distribuidor que não quero nem falar o nome, me repugna. Roubou toda a renda do “Um Homem Sem Importância” e toda a renda do “As Quatro Chaves Mágicas”. Toda. Me roubou, roubou o Paulo José. Roubou. Saí atrás, e catando ele. Fui naquela delegacia famosa, da Central do Brasil. Mandaram eu falar com um cara que resolveria o meu problema. Eu estava desesperado. O cara estava lá, dentro de uma kombi, guardando o material de guerra na frente. Contei qual era o problema e ele: “Tá bom. A gente faz esse trabalho. Agora, vai ter o dinheiro em cima?” Respondi: “É muito dinheiro. Duvido que ele tenha isso em cima.” “Não, porque aqui é o seguinte: tem o dinheiro em cima, a gente tira e acabou. Entrega. Não tem o dinheiro em cima, a gente faz ele na hora.” Eu falei “não, não posso carregar um defunto pelo resto da vida.” Lembro que ele bateu nas armas, estavam no capô da kombi: “A gente carrega tantos defuntos aqui...”

EE – Mas ainda existe essa pessoa? Já falecida?

AS – Soube que ele está em um negócio que não tem nada a ver. É um sociopata, na realidade. É um sociopata. Daqueles calmos, que parece que está tudo bem. Mas é um ladrão. Calculava antes, não esperava a oportunidade. Ele criava a oportunidade, para te roubar. Então eu não vi um tostão do “Um Homem Sem Importância”, não vi um tostão de “As Quatro Chaves Mágicas”. Lançou mal, muito mal.

EE – O filme seguinte,“Vida e Glória de um Canalha”.

AS – “Vida e Glória de Um Canalha” tinha sido publicado em capítulos em um jornal paulista. Deu muito certo, incrementou a venda do jornal, um pasquinzão. Acharam que daria um filme e dinheiro, claro. Me convidaram. Era horrível o roteiro, era horrível tudo, mas foi uma ótima experiência. Fiz um grande amigo, que já faleceu. Milton Rodrigues. O Milton participou de vários filmes, andou tendo um caso com a Silvia Pinal, atriz do Buñuel. A Silvia levou ele para o México, conseguiu uma carreira enorme, na televisão. Conheci a Odete Lara também. Foi interessante. Quem entrou muito com o dinheiro era o cara que trabalhava no cais. Controlava entrada e saída, na alfândega. Por debaixo do pano devia pegar muita grana.

EE – Participando de projetos de outros colegas, em 70 você é escalado como ator em um filme do Carlos Frederico, “A Possuída dos Mil Demônios”. Um tipo de linguagem cinematográfica diferente da sua.

AS – É, ele era mais desbundado do que eu. Mas era mais chato. É tipo o filme do Sganzerla ou do Júlio Bressane. Ótimo, ótima experiência, mas na metade do filme você diz “eu quero sair, quero ver um Bruce Willis” [risos]. Eu só me lembro que não sei se foi no “A Possuída dos Mil Demônios” ou no “Lerfa Mu”. Sei eu que era ator, sei que ele me levou pra filmar em um depósito de lixo. Você sabe que o lixo entra em decomposição e queima. Queima mesmo. Fui lá de bota, mas no que eu pisei , afundei meu pé dentro daquele lixo. Entrou aquela coisa queimando na minha bota e me queimei todo. Lembro disso. Uma lembrança forte.

EE – No “Os Homens Que Eu Tive” que também não é seu como diretor, você faz a fotografia. É uma história interessante, dirigida pela Tereza Trautman, sua esposa depois da Dita...

AS – Eu sou um monógamo serial. Fico com uma pessoa, sou fiel, amo aquela pessoa. Quando acaba... cadê a outra pessoa? [risos] É a mesma coisa, repete o mesmo esquema...

EE – [risos] E, por outro lado, se no “Um Homem Sem Importância” havia uma coisa autobiográfica, aconteceu o mesmo no filme da Tereza? O argumento bem libertário: a protagonista vive uma relação aberta, com alguns amantes.

AS – Não, era ficção. Eu só dei o nome. A Tereza estava comentando, um papo assim, aquela coisa de casal, “os homens que eu tive”. Na hora, eu falei: “Isso dá um título ótimo para o filme! 'Os Homens Que Eu Tive'!” E aí ela resolveu fazer “Os Homens Que Eu Tive”. Eu só fotografei. Aliás, a Ítala Nandi está no filme, quis o papel principal. O Herbert Richers vetou: “Tem que botar uma mulher que tenha imagem de puta. A Ítala Nandi não tem esse perfil, quem tem é a Darlene Glória.” E a Darlene criava problemas. Nós aprontamos um namoro entre ela e o Gabriel Archanjo, ator do elenco. E isto porque a Darlene desaparecia, subia o morro pra comprar alguma coisa, comprar maconha, sei lá o quê. Comprava tudo o que era droga e ele ia junto. Telefonava de lá, dizendo: “Olha aí! Estamos no morro!” Dizia as coisas mais absurdas. “Dormimos aqui, mas já estamos descendo. Estou carregando a mulher!” [risos]. Sem ele a gente teria perdido o controle, eu tinha uma experiência. O Carlos Alberto Souza Barros filmou com ela e ela sumiu! Sumiu na praia. Sumiu, foi embora.

EE – E era pra ter sido a Leila Diniz. Não deu tempo, ela morreu antes.

AS – Era, era para ter sido a Leila.

EE – Esse filme a censura pegou, não é, Salvá? Interditado por muitos anos.

AS – Naquela época não lançavam os filmes na sexta-feira. “Os Homens Que Eu Tive” foi lançado e passou segunda, terça, quarta, sempre dando dinheiro. Só nesses três dias pagou toda a propaganda, as cópias, pagou tudo. Eu era co-produtor, pensei: “Vamos ficar ricos, Tereza!” Na quinta-feira, a mulher de um general começou o problema: “Um filme com o nome 'Os Homens Que Eu Tive'! É absurdo!” Já havia sido liberado pela censura, estava sendo exibido e foi proibido. Ficou 12, 14 anos proibido.

EE – Com o “Revólveres Não Cospem Flores” você tocou nessa arena política de um modo mais direto?

AS – Olha, eu gostava muito da idéia. Achava que era um filme político, mas a política estava tão escondida que ninguém percebeu. Eram dois irmãos. O Paulo Villaça e o Carlos Eduardo Dolabella. O Dolabella era um policial. O Villaça, um traficante. Os dois vivem em oposição o tempo inteiro. Eu achava que estava falando da realidade brasileira, uma visão da realidade brasileira. Filmei praticamente na praia, fotografei também.

EE – Pelo título, “Os Maníacos Eróticos” parece ter ido por outro caminho. Esse é mais um filme raríssimo de se encontrar...

AS – Eu tentei pegar uma cópia desse filme com o produtor, o Victor di Mello. Ele tinha uma sala na [rua] Senador Dantas com o Carlo Mossy e mais dois. Um faleceu. Era uma turma amigável, gostava muito deles, mas estavam a fim de fazer dinheiro. Nessa altura, eu morava em Teresópolis com a Tereza. Desci a serra com moedinhas no bolso, para encontrar o Victor. Só tinha moedinha, não tinha nem nota. Deixei minha mulher em casa, sem dinheiro, preocupado. O Victor: “Salvá, você tem algum argumento aí?” Não tinha. Falei: “Claro, tenho!”

EE – [risos]

AS – [risos] “Como é que se chama?” “Opa! Os Maníacos!” “Bom nome.” Saiu na hora. Veja a necessidade, a fome. “Quanto você quer para fazer esse filme?” Acho que eram trezentos mil. Foi com alguém para a sala de reuniões, que era o banheiro. Voltaram, me ofereceram dois terços do que eu havia pedido. Duzentos mil cruzeiros. Aí eu falei “só topo se vocês me pagarem 10% agora.” “Está bom, está bom. Traz o roteiro pra cá.” Fui no banco, na própria Senador Dantas, descontei o cheque. Aquela dinheirama. Quando cheguei em casa, fiz igual ao “Assalto ao Trem Pagador”, espalhei as notas. “Tereza! Olha aqui!” “O que houve?!” Ela quase teve uma síncope, um troço. “Está vendo? Casa comigo, que você acaba dando certo.” [risos]

EE – [risos] E para o roteiro, como você fez?

AS – Tive ideazinhas. Pequenas idéias para pequenas histórias. O nome “Os Maníacos Eróticos” é porque, quando o Victor foi registrar, já havia um filme chamado “Os Maníacos”. Japonês. Ele não duvidou: ficou “Os Maníacos Eróticos”. “Mas, ô Victor, isso não tem nada de erótico. Ninguém nem transa com ninguém.” “Ah, deixa. O pessoal nem sabe!” Escrevi um monte de histórias. Tinha 64 histórias, 64 esquetes. Às vezes o mesmo ator fazia três esquetes. Eu não sabia em que ordem filmar, se aquilo fazia algum sentido. A gente ainda estava na época da droga, então puxei um fuminho, botei o nome de cada episódio em um papel, coloquei os papéis na mesa. E olhei. Foi fácil: a ordem é essa [risos]. Eu conhecia muita gente no Rio, telefonava para todos: “Fulana, você não quer passar um fim de semana em Teresópolis? Você vai fazer um filmezinho curto, mas vai poder ficar aqui, tem piscina e tal”. Todo mundo topava.

EE – No filme seguinte, o “Ana, a Libertina”, você manteve esse esquema?

AS – Não. E, na produção, havia o Herbert Richers, que investiu no “Revólveres Não Cospem Flores” e no filme da Tereza. É uma pena porque o “Ana, a Libertina” é muito melhor do que certos filmes feitos na época. O Herbert era um produtor razoável, mas não era um bom distribuidor. Um filme bom e passou assim. É sobre uma mulher que de dia é grã-fina e de noite ela vai pra casa de umas empregadas, troca a roupa, se veste de puta e sai pegando homem. No fundo, no fundo, é o filme do Buñuel, “A Bela da Tarde”. Não copiei nada, mas a idéia era. A Marília Pera estrelava. Certa vez nos encontramos, ela me disse “eu não era a atriz daquele filme, Salvá”. Eu disse “era, era.” “Não era, Salvá.” Precisava de uma Darlene Glória. Não me lembro por que a Darlene não fez.

EE – O “Inquietações de Uma Mulher Casada”, em 79, vai em outro sentido. Traz um pouco daquele clima de “Malu Mulher”.

AS – Na realidade, até 79 não tinha nada parecido. “Malu Mulher” veio depois. Quem tratou de problema de homem, mulher, relacionamento, foi o “Inquietações de Uma Mulher Casada”. Depois veio a coqueluche. Esse filme ninguém gosta muito, não. Não é aquele filme que estoura, mas é contado com honestidade.

EE – Gosto do plano inicial, a Denise Bandeira se olhando no espelho. Ela está e não está ali. Com o rosto fechado, no meio de um conflito que vai ser explicado mais para frente.

AS – É assim que começa? Não me lembro. É porque eu já tinha tido vários casamentos [risos]...

EE – [risos] Ah, então havia uma experiência nessa área... O filme fala sobre troca de casais, bem típico da época, o wife-swap nos Estados Unidos.

AS – Nunca fale “swing”. É uma droga, swing. É melhor ménage à trois, bundalelê. Agora, swing não, porque sempre tem um olhando, sem nada para fazer [risos]. O Pedro Camargo me interpretou neste filme, ele aparece como um cineasta. Mas, de resto, não foi empírico. Nunca tive experiências desse tipo, não.

EE – Já o “Mulher Objeto” é um filme marcante para o cinema brasileiro. Você escreveu apenas o argumento?

AS – Eu fiz o roteiro. O Aníbal me botou um assistente, o Jaime Camargo, que depois ele colocaria em primeiro lugar como se fosse o autor do roteiro. Eu escrevi o roteiro inteiro e o Jaime foi apenas uma pessoa que deu uns palpites. Era bom, um cara legal. Mas já estava pronto o filme. Eu tinha um trato com o produtor, o Aníbal Massaini. Eu era burro nessa época, não fiz nenhum contrato vinculando o roteiro à direção. E o Aníbal era muito chato. Quase nunca as coisas estavam certas, tinha-se que escrever, reescrever. Passei um tempão, meses da minha vida escrevendo e reescrevendo na casa dele, na minha casa. Ele sempre tinha um palpite, às vezes completamente errados. Até que no final, acertamos uma versão. E aí eu não me lembro o que eu fui fazer. Um trabalho que me ocupou duas semanas. Quando voltei, ele tinha dado o filme para o Silvio de Abreu. “Aníbal, eu era o diretor!” “Tá, mas você desapareceu.” “Eu fiquei meses à disposição de você. Desapareço duas semanas para fazer um trabalho, porque eu estava inclusive sem dinheiro. Fiquei com você sem receber dinheiro e você me dá o filme para outra pessoa dirigir?” “Mas ele é bom.” Enfim. E esse filme enriqueceu o Aníbal.

EE – É interessante como os seus roteiros trabalham o conflito de relação. Há sempre uma tendência neste sentido. No próprio “Mulher Objeto”, a esposa que não consegue sentir prazer com o marido. Ou no “Inquietações de Uma Mulher Casada”. A que você atribui essa verve?

AS – Para mulheres frágeis? Talvez porque eu só encontre mulher que tenha o pau maior do que o meu. Só encontro sargenta de cavalaria. Talvez, por isso, procure mulheres frágeis na imaginação [risos]. É uma coisa difícil de entender mas, sei lá, talvez por aí. Acontece o mesmo com um personagem bom. O bom, nenhum ator quer fazer. Ele é estéril. Mesmo quando a gente faz um cara bom, é necessário colocar alguma coisa de ruim nele, para virar gente. Então, a melhor forma de você lidar com uma personagem mulher é fazer uma mulher frágil. Assim você fala um monte de coisas. A mulher forte já está pronta.

EE – Da Boca do Lixo, com o “Mulher Objeto”, passamos para a Z Produtora, no Rio Grande do Sul. Em 84 você fotografou o “Me Beija”, do Werner Schunemann.

AS – Me chamaram. Acho que eles não tinham dinheiro. Sabiam que eu existia e, com certeza, sabiam que eu tinha uma câmera. Duas câmeras Arri. Também iluminava, então juntava tudo. O cara que tinha experiência, sabia fazer câmera, sabia iluminar. Tinha luz, tinha câmera. Era uma espécie de pai do pessoal, bem mais jovens.

EE – No mesmo ano você assina como Alberto S. Contel o “SOS Sex Shop”. Bem no período em que o cinema erótico degringolava para o explícito.

AS – Eu escrevi um conto, uma das melhores coisas que já escrevi. Saiu publicado em uma revista, o Pedro Rovái leu e me disse: “Salvá, isto aqui dá um filme”. “Então produza!” Ele resolveu produzir. A verdade é que o Rovái era insuportável. Melhor trabalhar com o Herbert Richers. O Herbert Richers, inclusive, saía para não pagar. Ficava a equipe inteira passando o fim de semana sem o pagamento. E cobravam do diretor, evidentemente. Mas o Rovái era pior. Todo dia de manhã, quando eu acordava, tinha um monte de folha embaixo da porta. Ele dizia como é que eu tinha que fazer essa cena, como é que eu tinha que fazer essa outra cena. Eu saía do filme pensando “mas por que é que eu não dei uma porrada no Rovái, um murro?” O próximo diretor que ele produziu deu uma porrada [risos]. Fui vingado. Foi muito sofrido, muito sofrido.

EE – O “Alice” aparece por aí?

AS – O “Alice” gerou “A Menina do Lado”. Também é um texto, publicado em uma revista. Eu sei que eu tinha acabado de me separar de uma das mulheres, a mãe do meu filho. E agora ela me deu a maior ajuda nesta doença, nesta operação [Salvá encontra-se em recuperação de uma cirurgia]. Ela me deu a maior ajuda. As coisas mudam. Não se pode nem ficar chateado com as pessoas porque as pessoas mudam. Eu tinha acabado de me separar dela. Aliás, não me separei, fugi. E fui morar na casa de um amigo, o Cláudio MacDowell, também cineasta. A mãe do meu filho, essa mulher, esperava que eu me trumbicasse. Que Deus jogasse um raio na minha cabeça, que me rachasse. Eu sei que no quarto, quinto dia de eu estar morando na casa desse meu amigo, recebo um telefonema bem cedo, de manhã. “Comunico que o senhor tirou o primeiro lugar no meio de 400 novelas enviadas para a revista tal.”

EE – Era a revista Status?

AS – Era. “O senhor quer que mande o dinheiro ou quer vir aqui apanhar?” “Eu vou aí apanhar.” [risos] Pode se perder no caminho, sei lá. E até hoje é o maior prêmio pago por um conto, pago por uma produção literária. Eu sei que era um luxo, o Jorge Amado estava no júri e tal. E com esse dinheiro, ao invés de cair um raio na minha cabeça, eu aluguei um apartamento, comprei móveis. E, estava andando na praia, me veio o Gustavo Dahl. Gustavo Dahl era mais da turma do Glauber. Vem correndo pra mim, me encara a um palmo, e diz: “Eu li o seu conto. E é sutil!” Quer dizer, não se esperava jamais um conto sutil vindo de mim. Mas todo mundo que lia, dizia: “Salvá, isso é um filme. Salvá, isso é um filme. Salvá, isso é um filme.”

EE – Deram um ponta pé inicial.

AS – “Está bom, então vou entrar com o projeto na Embrafilme.” Entrei, eles autorizaram. Autorizaram 18 roteiros, o meu estava junto. Um dia, no telefone, era o Eduardo Escorel. Estava na direção da Embrafilme. “Salvá, o seu projeto saiu com mais 17. Todo mundo já veio aqui, você não veio. Você não quer?” Eu tinha acabado de receber uma proposta de contrato da Globo. Telefonei para o Daniel Filho. “Daniel, está acontecendo isso, assim, assim. Eu quero entrar na Globo.” Claro, era um emprego. “Mas como é que eu vou deixar de fazer um filme que me é oferecido na bandeja?” “Não, pode ir. Pode ir que o seu lugar aqui está guardado.” Mais tarde eu falei pra ele: “Você me falou isso, cara.” “Salvá, se eu levantar aqui pra fazer xixi, demorar um pouquinho mais, quando eu voltar encontro alguém sentado na minha cadeira. Ocupando o meu trabalho.” “Não é isso o que você me falou.” “Não, e tal...” A Globo nunca mais me chamou, ficaram assim comigo.

EE – E o “Alice” virou “A Menina do Lado”.

AS – Aí apresentei o primeiro orçamento, o Eduardo falou “mas está muito baixo isso, Salvá. Aumente uns números. Não vai conseguir fazer com esse dinheiro.” Aumentei os números. Devolvi a ele. Agradeço ao Eduardo, que era meu inimigo durante o curso do Arne, mas ficou amigo, foi muito legal. Apresentei um novo orçamento. “Está muito baixo ainda. Aumenta esse negócio aí.” Fui filmar. Poderia ter filmado em menos tempo. O fotógrafo era lerdo. Se há uma coisa que o diretor implique, qualquer diretor, é o maquiador e o fotógrafo. O maquiador porque está tudo pronto e ele “não, só mais um pouquinho, espera aí, estou acabando.” Você fala “e aí, como é que está a maquiagem?” Vinte minutos depois: “Não, não, estou acabando.” E você parado lá. Já o fotógrafo tem sob o seu comando os maquinistas e os eletricistas. Ou seja, o poder de fazer um filme ou de parar, ou de ficar mais veloz, é com ele. Eu arranjei um bom fotógrafo, mas era lerdo. Então fiquei com dívidas que se arrastaram, porque foi concluído além do tempo que eu tinha.

EE – Quando você começou o filme pensou que teria essa retaliação toda? Porque as pessoas têm um olhar extremamente tacanho em relação a ele. Extremamente estúpido.

AS – Eu fui a programas de televisão, como o da Sílvia Poppovic, muito simpática. Estávamos eu e seis, sete pessoas. Alguém abriu baterias contra mim. Disse que eu deveria ser preso, por abusar de menor. Durante o filme inteiro eu tive permissão do juiz, os pais estiveram o tempo inteiro presentes à filmagem. Em qualquer filmagem. Aquela cena que parecia que a menina estava sentada nele, estava na realidade sentada em um travesseiro. O Reginaldo Faria estava no Rio de Janeiro e aproveitei para filmar só ela, sentada em um travesseiro. “Ah, não sei, não sei.” “Como você não sabe? Você não viu o filme?” “Não, não vi o filme.” “Você não viu o filme e está dizendo que eu devo ir preso por causa disso?” “Eu não preciso ver um filme desses para saber como é que é.” Teve coisas neste nível. Um filme considerado imoral. Imagina, um quarentão se envolvendo com uma menina de 14 anos. Parece que “Lolita” nunca foi feito. Era leve em relação ao “Lolita”, em que o cara acaba matando.

EE – E no “Lolita” havia uma simbiose bem doentia, o contrário de “A Menina do Lado”.

AS – “A Menina do Lado” foi, aliás, baseado em um caso verídico. Era um sujeito jornalista, tinha sido torturado, tinha o maior respeito da praça, do meio. Passou uma mulata na frente dele. Ele olhou para a mulata, largou mulher, filhas, casa e tudo. Assim ele me contou toda essa história. Depois de 2 anos, a filha resolver fazer as pazes com o pai. Encontrou o pai de chinelo, dando milho para as galinhas no quintal [risos]. “Minha filha, eu só passei a ser feliz depois que me separei da sua mãe. Só passei a ser feliz com esta mulher que você tem raiva.” Era a mulata. Que história maravilhosa essa. Agora, se eu botar uma mulata, o cara indo atrás de uma mulata, vai ficar muito folclórico. Então vamos botar uma menina, que também é uma coisa transgressora.

EE – Porque a moça não era menor de idade, na vida real.

AS – Não, não era menor de idade. Eu sou uma pessoa talvez mais complicada do que muitas pessoas. Tenho nós, tenho manias, tenho coisas. Mas nunca tive nenhum problema com sexo. Zero. Para mim tudo é absolutamente natural, nenhum problema para mim. Jamais pensei que alguém pudesse me criar caso com aquilo. Eu fui de boa vontade. Quando eu vi o caso, as pessoas reclamando, pensei “estão reclamando de quê?” Uma relação limpa que eu estou apresentando. Essas coisas acontecem. Uma menina daquela, de 14 anos. E mais uma coisa: os galalaus todos daquela época, todos eles ficaram apaixonados pela menininha de 14 anos. Todo mundo queria saber da menina, não era só gente jovem, não.

EE – Salvá, uma coisa: como foi a seleção de elenco?

AS – Deixei duas pessoas. Uma chamava as candidatas, a outra atendia, fazia o teste. Era um rapaz de 20 anos. Foram montes de testes. Me lembro que, na última vez em que passamos os testes filmados, estava o da Flavinha [Flávia Monteiro]. Olhei aquilo, levantei, fiz uma coisa bem épica. “Temos personagem! Temos Alice!” “Tem certeza?” “Vocês não viram?” Era a Alice, era a própria. Muito boa, o único problema é que ela precisa de alguém dirigindo. Sempre foi subutilizada. É excelente atriz, e mais: excelente atriz trágica.

EE – Hoje em dia, essa questão que você falou, de acharem o filme criminoso, amoral, piorou por conta da caretice que cresceu nos últimos anos. O que falam para você do “A Menina do Lado”?

AS – O Brasil, ao invés de evoluir, está encaretando. Coisas que eram permitidas no tempo da ditadura, não são permitidas agora. Estamos regredindo, cada vez mais. Então muitas pessoas continuam achando que aquele filme é pedofilia. Incrível. Já me deu vontade seriamente de sair do Brasil. Parece o Chile. O Chile é um dos países mais caretas do universo. O Brasil está ficando assim, também. Continua aquela coisa. “Salvá só faz filme de sacanagem.” Sou conhecido por fazer filmes de sacanagem. Fiz um curta-metragem chamado “O Vendedor”, em 1990. É uma piada. Sobre um casal que, por causa de um plano, não me lembro o nome, aqueles que tinham a cada três meses, perdem o emprego. São demitidos e, na cama, eles comentam. “E agora, o que nós vamos fazer?” Quando estão dormindo, ouvem um barulho na sala. Um barulho esquisito. Vão ver, tem um monte de pau de borracha, uma pilha de paus de borracha na sala. E eles passam a vender os paus a domicílio [risos]. A história toda é sobre os paus, até o último pau que eles entregam. Dormem novamente e... blup, blup, blup, blup! Tem um monte de xereca de borracha. Começa tudo de novo [risos]. É uma piada, uma piada... O Jorge Furtado falou, em Gramado, durante um intervalo: “só você, Salvá, só você...” “Só eu o quê?” “Só você, só você...” E foi um tremendo sucesso. Foi para o festival cubano, um escândalo. Adoraram! Ninguém criticou, não. Adoraram mesmo.

EE – Depois de “O Vendedor”, entramos na fase Collor.

AS – A época do Collor... O Brasil me causou dois grandes malefícios. Um deles foi a proibição do filme da Tereza. Eu era sócio, o Herbert também. O outro malefício foi o Collor. Eu estava acabando o “Manobra Radical”, da Eliza Tolomelli. Era o produtor. No final do filme, saíam quantias grandes. De repente, o Collor confisca o dinheiro. E aí? Como é que eu vou pagar as quantias que estão saindo? Como é que eu vou acabar o filme? Fui tentar colher dinheiro na praça. Como não havia dinheiro na praça, os juros... Quem emprestava dinheiro arrancava a pele junto. O Severiano Ribeiro e o Marco Aurélio Marcondes, que estava na Severiano Ribeiro, me ajudaram. Acabaram o filme. Depois, mais tarde, não quiseram receber o dinheiro adiantado. “Não, de você não queremos, não.”

EE – Nesse hiato a partir de 90 até o projeto novo “Na Carne e Na Alma”, o que você fez?

AS – Dois contratinhos com a TVE, dei muita aula. Tive um contrato bem maior até, com a Multi-Rio. Passei a dar aula, o que eu não gosto, cansei. Você acaba contando sempre as mesmas coisas, fazendo sempre as mesmas piadas. Sabe até aonde a turma vai rir.

EE – Em termos de produção, você testemunhou mudanças drásticas no cinema brasileiro.

AS – Acho que tem uma coisa que, talvez para mim, em relação ao meu jeito de fazer cinema, é algo ruim. Nós pegamos o sistema de trabalho de Hollywood. Sendo que em Hollywood, eles trabalham com uma câmera de terceira geração. Nós só trabalhamos com câmeras de primeira geração. Para quê? O americano leva não sei quanto tempo para terminar. Ah, também vamos ficar não sei quantos meses para terminar. Meu último filme, o “Na Carne e Na Alma”, eu fiquei 12 dias filmando. Um longa-metragem. Três dias foram só de festinhas. Da filmagem mesmo, foram 9 dias.

EE – E como você arrecadou o dinheiro? Entrou em algum edital ou foi através da iniciativa privada?

AS – Ninguém iria botar dinheiro nesse filme, não. As pessoas não gostam de ousar, eu até entendo. Para que ousar, se tudo sendo feito normal dá certo? Eu sabia que eu teria que fazer. Comecei com um dinheiro meu, peguei dinheiro em banco. O dinheiro acabou, percebi que meu sócio, que naquela época ainda não era, trabalhava na equipe, percebi que eu ia direto para ele pedir dinheiro. “Está aí um membro da equipe útil para burro.” Depois ele ficou tão amigo que acabou virando meu sócio. Acho que deveríamos fazer um cinema bom, claro, mas adequado aos nossos recursos. Adequado porque o cara para fazer qualquer filme gasta 5 milhões de reais. Aí você vai ver o filme, onde ele botou esses 5 milhões? Eu sei como é. Filma, pára, conversa, procura aonde é que vai a câmera. Sabe? Não pode, não pode.

EE – Gasta-se tempo, você quer dizer?

AS – Cinema deveria ser feito como televisão. Com melhor qualidade, claro. Mas deveria ser feito assim. Não tem hesitação. Saber o que se quer antes de você filmar. Isso é o lado ruim. E achamos que somos muito profissionais por causa disso. Eu acho que isso está levando o cinema para baixo, na medida em que os orçamentos ficaram muito altos. Automaticamente, esse dinheiro que poderia servir para fazer dois, talvez quem sabe três filmes, só serve para fazer um. Isso é o lado ruim. O lado bom é que saíram bons diretores. Compara o [José] Padilha com o Cacá [Diegues]. Tenho o maior respeito pelo Cacá, Cacá é um excelente produtor. Ele escolhe a melhor equipe, os melhores atores, o melhor diretor de figurinos, o melhor fotógrafo. Mas nunca deu, nunca deu. Sempre tentou entrar em Cannes e nunca foi aceito. “Mas será que só tem um cineasta no Brasil? Só tem esse tal desse Cacá?” Agora você vê o Padilha, você vê o Walter Salles, você vê o Fernando Meirelles. Tem ótimos. Tem o menino que dirigiu o “Cidade Baixa”, o Sérgio Machado. Eu não quis ver o “Quincas Berro D'Água”. Já quando li o conto, não gostei, detestei. Falei “bom, vão fazer um filme esticado.” E é. Mas o primeiro dele, o “Cidade Baixa”, é ótimo, ótimo. Tem vários. E tem cineasta que promete. O tal do olho de vidro, do “Cheiro do Ralo”, o Heitor Dhalia. Hoje existem no Brasil uns oito caras que merecem respeito. Em 60 tinha quase ninguém [risos].

EE – [risos] Você acha que hoje tem mais gente talentosa do que antes, Salvá?

AS – Sim, eu acho, eu acho.

EE – E você acha que o nível do cinema, não enquanto produção técnica, mas enquanto arte, mensagem artística, está melhor hoje em dia do que nos anos 1960 e 70?

AS – Você viu “O Desafio”? Você entendeu que aquilo é um filme de protesto? Se você fazia um cinema cooptado pela esquerda, tudo bem. Naquela época eu também era de esquerda. Mas... que chato, não é? Quem vai ver uma coisa daquelas? Hoje você vai ver, por exemplo, o “Tropa de Elite”. Esse segundo, então. Mesmo o primeiro, mas o segundo principalmente. É um filme político, extremamente político.

EE – Você acha que hoje a mensagem é mais direta?

AS – Mais direta e melhor. Hoje, quando se faz o filme, se olha o público para quem está falando. Antes, não olhavam. O cara gostava, estava bom. Hoje não tem isso. Agora existe uma grande pressão exatamente dos exibidores, dos distribuidores. Por exemplo, neste meu novo filme eu procurei todos os distribuidores. Ninguém quis distribuir. Botei em todos os festivais. Não entrou em nenhum. Por quê? Eu acho que ele tem qualidade. No Festival do Rio foram selecionados 65 filmes ao todo. O meu estava lá, não foi selecionado. Porque existe o preconceito e existe o medo. Mesmo que esse filme não fosse tão forte sexualmente como ele é, não teria chance. Trabalhei com o Diler. Aliás, além de muito bom produtor, é muito bom roteirista. O Diler levou o filme para as companhias. Levou para a Columbia, levou para a Ford, levou para a Warner. Saiu um dinheiro, falaram: “Dou o dinheiro, mas só se for para o filme do Renato Aragão.” Hoje você faz um filme para agradar ao distribuidor. Se não agrada ao distribuidor, como tem tanto filme para distribuir, e tão pouco espaço na tela ocupado por esses blockbusters, você não exibe.

EE – Uma competição diferente dentro do mercado.

AS – O filme tem que ser agradável, apetitoso. Apetecível para o distribuidor. Por causa disso, uma produção que poderia ser mais política e também mais discutível, o distribuidor não quer saber, não quer se sujar com aquilo. Não quer criar caso. Então se os filmes hoje, embora melhores de um modo geral, são menos políticos do que antigamente, é por causa disso. Não é porque as pessoas queiram, não.

EE – Em um acerto de contas, digamos, interno: o que você acha da sua obra, o que você tentou fazer, Salvá? Eu queria entender você diante de você mesmo.

AS – Eu acho que, por incompetência minha, fui subestimado. Isso me incomoda. Sou olhado assim na praça, um pouco: “O Salvá que entende tanto de cinema, que é tão bom dirigindo, sabe fazer tudo, trabalha pouco ele. Coitado.” Detesto isso. Então, na realidade, o que eu fiz já faz tanto tempo que ficou esquecido. Não sei o que ficou disso. Ficou para os cinquentões e sessentões. “As Quatro Chaves Mágicas”, “Um Homem Sem importância”. Não sei o que ficou. Para ser sincero, sincero mesmo... E de um modo geral quando se fala isso não se está sendo sincero, mas eu estou sendo, tentei sempre fazer os filmes de maneira honesta. Vocês vão ver o “Na Carne e Na Alma”, vão ver como ele é forte. Mas é absolutamente honesto. Não tem nada ali que não venha do coração. Não tem nada ali que eu coloque para agradar ao público, para isso ou para aquilo. As cenas de sexo que eu filmei, por exemplo. Saíam coisas lindíssimas na montagem, eu fiz sair tudo. Porque depois que você mostra para o que é aquela cena, você não precisa continuar. O resto é exibicionismo sexual.

EE – Uma diferença gritante, que você coloca de maneira natural.

AS – Eu fiz como amostra de uma coisa que talvez seja a minha melhor qualidade, se é que eu tenho alguma, mas enfim, que é fazer os filmes de maneira honesta. Honestamente. E de maneira leve também. Com amor pelos personagens. Neste filme, a menina é o elemento de transformação do rapaz. Fazendo-o sofrer, porque é uma bipolar louca. Tem diretores que conseguem não se envolver com os personagens. O mau é mau, o bom é bom. Eu acho que não existe isso nem na vida. Não tem o mau, não tem o bom. Não existe o branco, o preto. Existe o cinza. O que eu quis fazer sempre foi mostrar as coisas como elas são. É meio complexo. Nada mais complexo do que fazer um filme que pareça simples.