domingo, abril 17, 2011

Coisas Eróticas


"São Paulo, 10 de maio de 1981. Queridos amigos: lemos o seu anúncio na revista Fiesta e depois de analisarmos vários outros anúncios, resolvemos optar pelo vosso. E, como não temos nenhuma experiência na prática do swing, gostaríamos de conhecê-los. Segue a nossa foto para aprovação."

O delicado correio amoroso faz parte do segundo episódio de "Coisas Eróticas" (1981), primeiro longa-metragem brasileiro de sexo explícito a ser lançado comercialmente nos cinemas. O trecho da carinhosa cartinha reúne pelo menos quatro características básicas para se compreender o filme. Temos o lugar (São Paulo) e o ano (1981) em que a trama ocorre. Em seguida, o alô esperto para a indústria pornográfica (representada na suculenta revista Fiesta). De quebra, o swing. A prática selvagem dos bacanais wife swap que faziam sucesso entre os 70 e 80, e que acabaria domesticada nos clubes privês, a partir dos 90.

José Miziara que o diga. No ainda ingênuo "Embalos Alucinantes" (1978) colocou a figura do malandro que ganha dinheiro deitando e rolando com casais. Em um extremo oposto, aparece "Coisas Eróticas". Ágil no gatilho, o diretor-produtor Raffaele Rossi abandonou o sexo da pornochanchada. A figura do galã metido a paquerador, as moças pudicas fora de casa. O sexo que antes era insinuado, fanfarrão e palatável, engata uma quinta marcha. Vira ginecológico.

Sem os penduricalhos estilísticos de um Tinto Brass, de um Radley Metzger, "Coisas Eróticas" está repleto de pêlos, panças, estrias, encontros toscos. Um naturalismo impensado, que decorre da obtusidade. Rossi já havia colocado trechos explícitos em "Boneca Cobiçada" (1980). Italiano de origem, cometeu alguns outros filmes -- no terror, "O Homem Lobo" (1971) e "Seduzidas pelo Demônio" (1975/77). Mas conquista um nicho através de "Coisas Eróticas".

Realizado em 10 dias, orçamento de 2 milhões de cruzeiros, com apenas uma semana em um cinema de São Paulo "Coisas Eróticas" arrematava 300 milhões. Trouxe o resultado irreversível: a Boca do Lixo se acostumaria a outra categoria de filmes. Embrulhados de presente para o respeitável público, que assiste a Rossi, Juan Bajon -- e, em breve, a autores como Jean Garrett e José Mojica Marins --, em toda sua explicitude.

Pobre coitado do presidente João Batista Figueiredo, que aguentava a recente liberação de "Império dos Sentidos" e as idéias subversivas de abertura política. Passaria, agora, a engolir a máquina dos mandados de segurança. Censores vetavam, advogados entravam na jogada. Corriam para as Olivettis, esmurravam as teclas, escreviam. O writ -- um dos remédios democráticos mais antigos no mundo civilizado -- se impôs. Verdadeiro amuleto da sorte.

E o Judiciário comprou uma briga às avessas com o Executivo -- que, por sua vez, era o responsável pela nefasta "Divisão de Censura de Diversões Públicas", prevista no Decreto nº 20.493, de 1946. Eis, então, que a meritíssima juíza da 2a. Vara Federal do Distrito Federal concedeu uma auspiciosa liminar para a Empresa Cinematográfica Rossi Ltda. Colocou a pá de cal em uma batalha incrível, determinando a liberação do filme que a Polícia Federal vira e mexe apreendia, em todas as bibocas do país.

Desde o pedido feito em novembro de 1981 até a hora de receber o Certificado nº 227, de 16/09/82, "Coisas Eróticas" passa por uma interminável ciranda. Do tipo que nem as personagens mais devassas imaginariam ser possível. Muitas mãos, muitas canetadas, muitos pareceres contrários.

Sempre atuante, o ex-censor Deusdeth de Souza Burlamaqui foi chamado por Rossi para agir na qualidade de procurador. Encaminha pedido de reconsideração e, lá pelas tantas, o Conselho Superior é incisivo: cortes no "lesbianismo" do primeiro episódio e corte integral do episódio "Sexomania" -- o do swing --, depois intitulado de "Coisas Eróticas".

Era este, por sinal, o nome do primeiro episódio, que acaba ficando sem título. Mas, independente das firulas, os três sobreviveram na esteira da decisão judicial. Além de Rossi, diretor do primeiro e do terceiro, Laente Calicchio entra no sanduíche e leva a direção do segundo.

Jussara Calmon -- que comandaria o belairiano "A Longa Noite do Prazer" (1983), de Afrânio Vital -- estréia aqui. Um rapaz gordinho (Oásis Minitti) faz literalmente a toillete no vaso sanitário, depois se encaminha ao chuveiro e se junta à legião de Onã. No resquício de argumento possível, enquanto Minitti passeia de carro pela Luz, encontra a modelo de uma revista erótica. A mesma revista que havia lido com tamanha atenção. E daí até visitar a casa de campo da mulher, é um pulo.

Minitti conhece a filha e a amiga da garota. "Quem é, mamãe?", pergunta nuinha em pelo. Antes de atacá-lo, há o sketch do sexo lésbico. Praticamente se resume a ficarem tremelicando, como se espalhassem Vicky Vaporub uma nas partes da outra.

Chevette azul indo, Chevette azul voltando, o episódio termina e surge o do swing. Com Vânia Bonier. O alvo do cãozinho Jack, mimoso animal das "24 Horas de Sexo Ardente" (1985), direção de Mojica.

Em "Coisas Eróticas", Vânia tasca a chibata no marido masô, se acasala com a colega -- novamente o momento Vaporub. Encanta-se pela foto do casal remetente, que mais parece ter sido roubada de algum jazigo de cemitério. Olheiras, poses de 3X4.

Interessante que no meio tempo há espaço para apertadas de um homem no outro. Tabu que aterrorizou os censores tanto quanto as carícias loucas das meninas. Pela variedade hardcore, o episódio se destaca no cômputo geral.

Ao longo do filme, a elevator music domina com fúria. Arranjos à la Walt Disney, "The Shadow of Your Smile", "Manhã de Carnaval" e "Last Tango in Paris" em uma versão que Gato Barbieri jamais imaginaria. Apesar da referência implícita ao Bertolucci "sensual" -- era moda vê-lo assim --, não há qualquer vestígio de potes de manteiga. As obsessões de Rossi são diferentes. Envolvem idas ao banheiro, sexo com mulheres que já tiveram filhas.

Essas imagens voltam no último episódio ("Férias de Amor"), em que Rossi enxerta uma aliviada moralista para tentar acalmar os ânimos. Depois de um moço abocanhar a irmã da pretendente, se irrita com o fogo cruzado da futura esposa. "Até a minha namorada? Pensei que fosse pra casamento!"

Em outras palavras: existe mulher para casar e existe mulher para namorar. Linha de raciocínio que deixa claro o quanto "Coisas Eróticas" usa uma carapaça, escorrega nos pudores e nas culpas em torno do belo esporte. Não tem nada de libertário. E isto muito embora o filme trate do tema com espontaneidade. Homens feios, suados, papos de microssegundos sobre o amor. Amor se contrapondo ao sexo. Algo que o esquematismo do tempo esqueceu. Os roteiros pornôs partiram direto para os finalmentes, sem muitas conjecturas.

O contemporâneo "Viagem ao Céu da Boca" (1981, liberado em 1983), maldito de Roberto Mauro, foi pelo caminho da escatologia. Pedofilia, tortura. O bichão grilo Zé Rodrix fez a música e parou nessa parafernália, até hoje renegada pelo suposto roteirista. José Louzeiro afirma ter chamado o diretor para briga, exigindo que lhe tirasse dos créditos.

Considerando a loucura de Roberto Mauro, não se pode dizer que "Viagem ao Céu da Boca" seja paralelo a "Coisas Eróticas". É aberração do momento histórico no qual o longa de Raffaele Rossi, bem mais pragmático, aproveitou para cavar uma franquia poderosíssima.

Em 1984, produz "Coisas Eróticas II", explora o bonde que ainda passava e que iria rarear drasticamente. Afinal, o mercado do home video prometia o nirvana e para lá viajaram tantos outros, com as sacolas prontas. As sessões do meio dia na Ipiranga e na Cinelândia carioca estavam perto do fim.

12 comentários:

Marco Antonio disse...

"Um rapaz gordinho faz literalmente a toillete no vaso sanitário, depois se encaminha ao chuveiro e se junta à legião de Onã."
Adorei o ´rebusqueio´ usado no lugar de ´defecar´ e ´masturbar-se`!
Vale dizer que foi parcialmente filmado em Campinas (um amigo que assitiu comigo-e havia morado na cidade- reconheceu algumas das locações.
E DE TODAS AS MANEIRAS, também do falecido Rossi- com a sumida Grace Beck, você viu, Andrea? Se não me engano foi lançada antes de COISAS ERÓTICAS 2.
FOME DE SEXO (do Ody Fraga), com a tbm sumida musa pornô Ariadne de Lima tbm é da mesma época que BONECA COBIÇADA e conseguiu burlar a censura mostrando um pouco de ´explicitude`.
Belo texto, Andrea!

Alfredo Sternheim disse...

ANDREA, olá
Parabéns. Você está fazendo algo que, por convardia ou pseudo moralismo, os críticos deveriam
ter feito: uma revisão do cinema de serxo explícito. No teu texto, você consegiu, além de analisar o
filme, lembrar a fase dos mandados de segurança que se tornariam automáticos, obrigatórios nos
orçamentos da nossa produção, ou daquela produção que não mamava na Embrafilme. Mandados
estes que me deixavam injuriados, provavam ou comprovavam que a nossa Justiça não é igual para
todos, que vivemos sob o domínio de uma jurisdição confusão e lerda.
Apenas, uma observação ao teu brilhante texto: será que leitores jovens de hoje sabem o que é um Chevete?
Claro, não se pode esclarecer tudo. Nos meus ouvidos, Chevete soou saudade .
Valeu e uma sugestão: tente ver Gozo ALucinante, do Jean Garret, com fotografia de Carlão.
Na minha opinião, uma obra prima do cinema de sexo explícito.

Roberto Pepino disse...

À época com idade suficiente para não precisar mais falsificar carteirinha de identidade, fui ao cinema assistir este filme que jorrava-se em propaganda como "o primeiro filme brasileiro com sexo explícito" e sem censura. Bem, se na época achei um lixo, não sei o que sentiria fazendo uma revisão do tosco empreendimento Rossi. Já que o sr. Alfredo, que dirigiu vários filmes do gênero, indicou um filme com fotografia do Carlão, permita-me nominar um que, à época selecionado a passar como um dos melhores do ano do Cinesesc de São Paulo, foi dirigido pelo próprio Carlos Reinchenbach: O Império do Desejo (Anarquia Sexual), onde temos até uma oriental a ler o livro vermelho nas areias da praia, como a provar que, de fato, tudo ia literalmente de Mao a Piao.

Adilson Marcelino disse...

Querida,
Como já escrevi lá no Insensatez, assisti Coisas eróticas quando do lançamento no cinema.
A sala estava lotada, com muito marmanjo coladinho um no outro, já que praticamente todas as cadeiras estava ocupadas.
Um acontecimento.
Bjs

Andrea Ormond disse...

Marco, essas locações em Campinas envolvem o sítio? Aquele antro de perdição. Vai que virou igreja atualmente, seria curioso... Não vi o "E de todas as maneiras", vai para a lista. Grande abraço!

Alfredo, obrigada. A guinada para o explícito tem tantos momentos interessantes. A questão dos mandados de segurança, por exemplo. Uma loucura completa que foi abrindo caminho para se ganhar (ou perder) no tapetão o que a censura tinha de engolir. E o Chevette é saudade mesmo. Não fica apenas o carro, vira o símbolo de um mundo... Os leitores se lembram, mas sempre cabe um Google images rsrs Pretendo em breve escrever sobre o "Gozo Alucinante" e alguns do Bajon que ando revendo.

Roberto, ora, ora: temos um representante da platéia do "Coisas Eróticas"! Poderíamos fazer uma reportagem sobre o tema, adoro essa memória viva da Boca do Lixo. O "Anarquia Sensual/Império do Desejo" é um filme que usa algumas cenas ousadas, mas com uma densidade absurda, bem diferente do "Coisas Eróticas". É um filme excepcional do Carlão, um dos meus preferidos no cinema brasileiro. E o Orlando Parolini louco, correndo pela praia? Os diálogos do Benjamin Cattan, do Roberto Miranda.

Adilson querido, outro moço da platéia do "Coisas Eróticas"! Devia ser um tal de olha pra cá, olha pra lá, imagino o acontecimento. Beijo

Marco Antonio disse...

A cena do restaurante-com o Oásis- foi filmada em Campinas, segundo o meu amigão que morava lá. Vou repassar a tua dúvida para um amigo que está preparando um documentário sobre o COISAS ERÓTICAS para que suas dúvidas sejam sanadas, ok?

Andrea Ormond disse...

Nem precisava, Marco, foi apenas uma curiosidade. Nos filmes da Boca na época era praxe gravarem no litoral (como Sternheim em Mongaguá) ou em locações rurais no interior. Sempre concentrando blocos de cenas em uma mesma área, para facilitar a produção.

Enaldo disse...

A exibição deste filme teve tanto impacto quanto Tropa de Elite. Gostei do blog,depois eu volto e leio com mais tempo.

Anônimo disse...

Um rapaz gordinho e GOSTOSO, assim era o Minitti nessa epoca.

Teo Pasquini disse...

Andrea,
seu texto é inspirador.
Estou utilizando-o, bem como outros trabalhos seus, como referência na redação do meu trabalho de conclusão de curso.
As informações que você nos dá e a análise à qual você se propõe são bastante contundentes.
Obrigado pelos textos.
Grande abraço!

Ricardo ( Highlander ). disse...

Hola Andrea..! Em primeiro lugar Te elogio pelos Teus brilhantes comentários acerca de importantes produções nacionais.
Porém gostaria de fazer aqui algumas correções , que são as seguintes: o diretor de ``Coisas Eróticas´´ Raffaele Rossi era Italiano de nascimento ( 1938 ) , de Arsiero , comuna italiana da região do Veneto , Província de Vicenza e não descendente como foi aqui afirmado , assim como o nome correto do diretor do segundo episódio é Laerte ( e não Laente ) Calicchio.. certo..?
Muito obrigado Andrea e parabéns por Seu Trabalho & Arte..!

Andrea Ormond disse...

Oi, Ricardo, o Laente não é Laerte, é Laente mesmo. E "italiano de origem", como está escrito no texto, é justamente isso: italiano de nascimento.