segunda-feira, agosto 04, 2008

Liliam, A Suja


Antes de mais nada, a indicação: o clássico trash-exploitation “Liliam, A Suja” (1981) tem a peculiaridade de grifar com “m” e não com “n” o nome da protagonista – apesar de muitos livros insistirem em grifá-lo de maneira diferente.

Acima de tudo, a constatação: “Liliam, A Suja” foi dirigido por Antonio Meliande, um dos profissionais mais queridos e profícuos do cinema nacional, freqüentador de longa data das páginas do Estranho Encontro.

Italiano de nascimento, brasileiro por vocação, Meliande chegou aos 11 anos de idade ao Rio de Janeiro – porto inaugural de sua transferência ao Brasil, ainda que nas décadas seguintes tenha se identificado tanto com o cinema popular paulista.

Fato corriqueiro entre inúmeros outros talentos do ramo, aprendeu o ofício na lida diária. Assistente de câmera de Ruy Santos, Osvaldo de Oliveira, João Callegaro – no tropicalista “O Pornógrafo” –; diretor de fotografia – metiê que o celebrizou – de José Mojica Marins, Walter Hugo Khouri – destaque-se “O Anjo da Noite” (1975) –, João Batista de Andrade, Alfredo Sternheim, José Antonio Garcia e Ícaro Martins; diretor propriamente dito do WIP “Escola Penal de Mulheres Violentadas” – e do episódio “Belinha, a Virgem” em “As Safadas” (1982), ao lado de Inácio Araújo e Carlos Reichenbach.

O currículo continua e acompanha períodos não muito prósperos da Boca, quando passou então à fase comum entre os realizadores: dirigir pornôs, assinando sob pseudônimo (Tony Mel). Mais tarde, mudou-se para a televisão, habitat em que permanece até hoje, novamente radicado no Rio de Janeiro.

“Liliam, A Suja”, mesmo com toda a pinta de ter sido roteirizado por Ody Fraga, foi escrito por Meliande e Rajá de Aragão. Dado curioso, pelo menos na cópia exibida pelo Canal Brasil, não consta no filme qualquer crédito aos atores, à direção, à montagem e ao roteiro. Apenas a alguns integrantes da técnica e às locações – o jabaculê necessário para viabilizar o projeto. Ato contínuo, lá vai o pesquisador recorrer a fontes diferentes e montar o quebra-cabeças, para compreender o-quem-quando-e-como da produção.

Começando pela logomarca a la “Rocky Horror Picture Show” – o sangue escorrendo pelas letras do título –, “Liliam, A Suja” trafega entre o assim chamado “terror psicológico” (?) e o sexo quase explícito. Invariavelmente neste tipo de história, a anti-heroína psycho que barbariza nas telas costuma padecer de algum trauma de infância – no caso, o de ter assistido às surras que o pai dava na mãe – e tenta fingir em casa um comportamento fofíssimo – a mãe, idosa e doente, está entrevada numa cadeira de rodas –, antes de chutar o pau da barraca e passar o rodo em um tipo específico de vítima.

Homens – não se esqueçam, o pai cruel batia na mãe –, solitários, ricos, a fim de uma aventurazinha com uma criatura que parecia toda toda, fácil, uma tetéia pronta aos maiores prazeres.

No entanto, para infelicidade dos marmanjos, Liliam mata com navalha, estocada, tiro, faz miséria e assina no espelho, em bilhete ou em lençol de motel o slogan “Liliam, a Suja”, com o sangue que escorre dos cadáveres. Junta à cena uma rosa vermelha, como se fora a misteriosa fã de Rodolfo Valentino que, diz a lenda dos publicistas de Hollywood, ia todos os anos ao cemitério coberta por um véu, depositar a flor no túmulo do astro.

E enquanto a mãe tem pesadelos com a guria – sem desconfiar o que a moça possa fazer ao sair todo as noites coberta de “maquilage”, com a desculpa de trabalhar por hora extra –, corre em outra ponta do roteiro um grupo de estupradores/ladrões que ao final vai se unir aos destinos de Liliam, trazendo-lhe a máscara negra da morte. Vá lá que a atriz (Lia Furlin) continua a respirar, mas é o tipo de detalhe que nos tempos digitais fica bem mais gritante do que nas cópias transportadas em carrinho de mão, exibidas em alguma sala da periferia paulistana.

Ah, sim: momento chocante para quem viveu a infância nos anos 80 é o de assistir ao senhor calvo de olhos claros, Felipe Levy, coadjuvante dos Trapalhões, mantendo o intercurso propriamente dito com Liliam e depois morto, estirado, com o sangue escorrendo dos lábios.

Passadas situações como esta, o ridículo se mistura com a diversão. Entre quadros no estilo “Columbo”, com tiros e policiais de joelhos, mirando o alvo com as duas mão tensas em torno do revólver, casas de vila, inferninhos com amendoim em travessas de vidro e planos toscamente poéticos sobre o Centrão de São Paulo, “Liliam, a Suja” emula certos vícios do cinema norte-americano para, no fundo, significar uma coisa nova -- depreciada, criativa e libertina -- ou melhor dizendo, antropofagicamente brasileira.

7 comentários:

Mauro Teixeira disse...

Esse é um filme que eu já vi duas vezes e não consegui entender porque gosto tanto. A montoeira de clichês deu um resultado supreendentemente divertido, sem cair no escracho que seria de se esperar.

Márcio/BH disse...

Texto sensacional Andréa! Você tem muito savoir-faire. Estou me acabando de rir. Fiquei morrendo de vontade de assistir este filme e aprendi um pouco mais sobre "nosso" cinema.

Andréa Ormond disse...

Verdade, Mauro. O filme tem esse quê de folhetim do mal, digamos rs Talvez por isto divirta tanto.

Obrigada, Márcio. Gosto de falar desses filmes cabulosos, mas sem perder a ternura jamais :)

Renato disse...

Liliam,a suja foi um dos primeiros trabalhos profissionais dos Titãs,ainda como "Titãs do Ie Ie".A faixa que dá nome ao filme era uma das mais pedidas nos primeiros shows da banda.Uma pena que só a versão instrumental esta no filme

Andréa Ormond disse...

Valeu pela informação preciosa, Renato!

antonio disse...

Uma das coisas que mais me chama a atenção neste filme são os "planos toscamente poéticos sobre o Centrão de São Paulo", não pela proposta da ambientação da trama ou poética, mas pelo seu valor documental...Assisti este filme na madrugada, e no dia seguinte ao ir para o trabalho, passei por um daqueles lugares, a saída da estação São Bento no Anhangabaú. Na hora veio em minha mente aquele plano do fusquinha parado ao lado da estação, que então tinha uma via de carros em frente (hoje os carros passam por baixo do Anhangabaú). A ligação entre os dois tempos, as mudanças urbanas, seja na paisagem, na cultura, no modo de se vestir, a modernização automobilística e também as atemporalidades, como o próprio fusca, o viaduto Santa Ifigênia são questões que muito me interessam.

Unknown disse...

Adoro a banalidade dos filmes do tipo, assisto com prazer! Outra coisa que me agrada nesses filmes é a deliciosa "viagem ao passado" que me proporcionam: gosto de ver os carros antigos, pinturas antigas dos coletivos, ruas, roupas, cortes de cabelo e atores/atrizes quando jovens, caídos no esquecimento ou que já partiram.
Fico feliz por um espaço como esse e os excelentes comentários da criadora, apresentando uma classe de filmes esquecidos pela maioria, mas de grande valor a nossa cultura cinematográfica. Obrigado, Andréa