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segunda-feira, maio 16, 2011

A Fêmea do Mar


O bom filho à casa torna: Ody Fraga deu um tchauzinho para a estação da Luz em São Paulo, apanhou as malas e embicou para o litoral de Santa Catarina. Volta ao estado de origem com “A Fêmea do Mar” (1981).

Roteirista, consultor, pornógrafo, ateu, ex-seminarista. O homem que recomendava Nietzsche às atrizes e mantinha uma biblioteca de mais de 3 mil títulos era capaz de descer do pedestal quando interessava. Nessas horas distribuía caretas, palavrões, castigando nos cigarros Minister.

Antes de gravar o subkhouriano “Mulher Tentação” (1982), Ody tentou em “A Fêmea do Mar” algo próximo de John Ford. Planos abertos, ventos, trilha sonora grandiosa, Grieg, Beethoven. Acompanhamos uma família presa, no tempo e no espaço. Jeruza (Neide Ribeiro) mora na beira da praia, leva artesanatos para uma lojinha distante, no centro da cidade.

Os rebentos, Cassandra (Aldine Müller) e Ulisses (Calu Caldine), têm um lance esquisitíssimo rolando solto. Uma espécie de versão moderna de “Totem e Tabu”, deixando claro o quanto é prejudicial a falta de socialização com outros amiguinhos.

O pai/esposo sumiu. Pegou um barco, evaporou-se. O desaparecimento de Santiago é a origem da neurose. Tudo o que ele tocou parece estar destruído. Ulisses não sabe ser homem. Cassandra não tem com quem desabrochar. Jeruza esqueceu de ser mulher. Anda de preto, coberta de panos.

Eis que um forasteiro aparece e traz a boa nova: Santiago morreu. Não adianta esperarem, não volta mais. E assim os mitológicos Ulisses e Cassandra começam uma odisséia, à qual se junta Jeruza. Querem acabar com o bode brabo que deprimia o casebre.

Começam a se animar através do sexo. Bastante sexo. Cheio de apetite, lambendo os beiços, Roque (Jean Garrett) passa o rodo, um anjo exterminador à base do Kama Sutra.

Os leitores não se enganaram com o nome do ator que interpreta Roque: sim, é ele, Jean Garrett. O mesmo que dirigiu algumas das obras-primas mais trágicas e negligenciadas do cinema brasileiro. Vira e mexe, a entidade de Garrett baixa aqui, nas páginas do Estranho Encontro.

Apesar de os dotes físicos de Garrett não encantarem o público tanto quanto a inteligência de diretor, Garrett cumpre bem o papel. O restante dos atores não consegue grandes vôos, fato piorado pelos dubladores. Além disso, problemas na montagem acabam com tomadas que deveriam ter uma importância brutal. Roque diz “seu pai está morto, meu rapaz”. Uma vinheta surge em seguida, Cassandra olha para baixo (deve estar triste) e pouco depois Roque agarra alguém.

Roque é, de fato, o eixo da trama. Guarda um segredo tremendo, uma grande sacada sobre a inveja masculina. Ody – também roteirista do filme – elabora o personagem com habilidade extrema. O marinheiro vira um pária, que se finge de bom moço mas cobiça a família do homem que matou. O tema da inveja entre marmanjos assusta. Bem mais comum falar de mulheres em fúria, lutando no gel, puxando cabelo ou fazendo caras e bocas umas para as outras.

Por outro lado, Ody peca terrivelmente ao colocar na boca de Roque alguns dos jargões da liberdade sexual. O sexo que pratica destrói, ao invés de construir, o que que pode soar retrógrado. Roque incentiva o incesto de Ulisses e Cassandra, transa com Jeruza, cata Cassandra, desestabiliza Ulisses. Ao perceber o ódio de Roque, Jeruza pára tudo. Triste, fechada, interditada. Fiel ao marido – que agora sabe estar morto –, e impossibilitada de gozar com qualquer outro. O moralismo vira norma de conduta, reação.

“A Fêmea do Mar” recebeu inicialmente o título de “Jeruza do Mar”, a intrépide matriarca do filme. Pressões de Antonio Polo Galante rebatizaram o projeto. Atitude comum, Ody Fraga já havia se acostumado. Até porque a relação com Galante sempre foi bastante pitoresca, cheia de benefícios mútuos. Em 1967, Galante descobre os latões de “Vidas Nuas”, junta pedaços da película, enxerta outros e quatro anos depois de começada por Ody, lança a fita com estardalhaço. Começam uma nova fase na Boca do Lixo, em que Ody Fraga lentamente se consagra como um dos mártires, fiel defensor.

terça-feira, agosto 26, 2008

E Agora, José?


Em 1982 Roberto Farias dirigiu “Pra Frente, Brasil”, considerado por muitos o melhor filme nacional a observar – com paixão, mas já com certo distanciamento – o caos da tortura nos governos autoritários de 1964-85. O roteiro claustrofóbico e a interpretação antológica de Reginaldo Faria, somados ao momento histórico de abertura política, transformaram a obra em sucesso de crítica e público, vista naquele ano por mais de 1 milhão de pessoas.

Do que trata “Pra Frente, Brasil”? Um homem inocente, quase apolítico, preso por engano pelos orgãos repressivos, paga com agonia e morte sua própria ignorância – melhor dizendo, sua omissão. Não deixava de ser bem construída parábola ao poema do pastor luterano Martin Niemöller, “Quando os Nazistas Levaram os Comunistas” – merecedor de uso sempre que os limites extrapolam --: “Se agridem o vizinho e não reagimos, as próximas vítima seremos nós”.

A surpresa é que, três anos antes, em 1979 – o ano da Anistia --, a Boca do Lixo paulistana fez sua própria investigação sobre o tema. Produção David Cardoso, dirigida e roteirizada por Ody Fraga, “E Agora, José?” tem tantas semelhanças com seu sucessor que podemos ver, no escurinho do Cine Marabá, Roberto Farias assistindo ao original de Ody e pensando: “Gênio! É isso! Quero fazer um igual lá no Rio, com dinheiro da Embrafilme!”.

Sarcasmo à parte, o exemplar da Boca reitera antigos vícios: niilismo decadente, obsessão pelo erotismo misógino – flerte com o gênero wip – e acaba sendo mais divertido do que o primo carioca. O que em “Pra Frente, Brasil” é seriedade, denúncia (história), aqui vira simplesmente (mau) cinema.

Inteligente, e, no bom sentido da palavra, picareta de carteirinha, Ody Fraga prova que foi melhor roteirista que diretor, dedicando ao personagem-título (vivido pelo futuro ex-Bozo, Arlindo Barreto), uma multifacetada personalidade. Bobo alegre, o desafortunado José assegura o tempo todo sua paixão pela literatura declamando trechos de livros. Ao mesmo tempo isso o faz sublimar a enrascada onde se encontra e atiça a gana dos carcereiros ignorantes, que o tomam por um subversivo pernóstico.

Na verdade, José foi preso no lugar de um amigo, Pedro -- os nomes bíblicos geram significação vazia. E, seguindo a Lei de Murphy, é perseguido pelo chefe corno (Luis Carlos Braga), que usa de influência para encarcerar a própria esposa nos subterrâneos do Dops. Por mais que as situações sejam risíveis e rocambolescas, não há nenhum exagero: em todas as ditaduras, sejam de direita ou de esquerda, vinganças pessoais movem boa parte das perseguições políticas.

Importante dizer que, em 1979, a tortura já vinha sendo amplamente discutida no país, e o filme tão somente repercute – ao modo dos empreendimentos made in Boca – este debate. As cenas de abuso são particularmente fortes, e estandardizam o velho dilema: necessidade de erotismo – sexo e mulher nua -- confunde-se com as possibilidades e peculiaridades de cada obra, oscilando entre discreta sugestão e tônica dominante.

Uma esquizofrenia que também justifica o subtítulo: “A Tortura do Sexo”, tornando claro que existem dois filmes: o primeiro denso, rico, engajado; o segundo, reiteração monótona de sevícias, peitinhos à mostra e jogos sexuais infanto-juvenis. Dirigido por Jean Garrett, é provável que as duas partes se equilibrassem melhor. Nas mãos de Ody Fraga soam desconexas, para não dizer ridículas.

Nos últimos anos, a ditadura militar brasileira e suas terríveis conseqüências acabaram se tornando prato cheio – fonte de renda fácil – para inúmeros cineastas, que a exemplo de Ody variam entre o tolo e o sublime. Patinho feio lançado em abril de 1980 nos cinemas, “E Agora, José?” foi um desses pioneiros nunca citados, sequer lembrado por críticos ou curadores das tantas retrospectivas sobre o assunto. Por isso mesmo agora merecedor de nossa atenção e revisão.

sábado, agosto 25, 2007

Mulher, Mulher


Apesar do estrondoso sucesso -- 2 milhões de espectadores em 1979 -- podemos dizer que "Mulher, Mulher" é de longe o título mais fraco de Jean Garrett, na fase virtuosa que sua carreira viveu até 1982. Mas, em se tratando de Garrett, quase tudo deve ser atentamente observado e reavaliado. Mesmo porque, em qualquer retrospectiva de sua obra, "Mulher, Mulher" surgirá como paradigma -- melhor dizendo, estigma -- e alvo fácil das leituras ignorantes que regem a crítica ao cinema popular brasileiro.

Marco zero de várias idiossincrasias da Boca, esta tour de force de Helena Ramos foi pilhada ao limite até praticamente ressurgir em nova encarnação: "Mulher Objeto" (1981), dirigido por Silvio de Abreu -- e ainda com Helena Ramos no papel de protagonista frígida e psicótica. Cortejadas por muitos, assoberbadas de si mesmas, as duas personagens refugiam-se no delírio e na loucura como forma de sublimarem um frenesi sexual de fazer inveja àquela que lhes servia de musa inspiradora: Séverine Serizy, a belle de jour, de Luís Buñuel.

No caso do roteiro picaretíssimo de Ody Fraga, Alice -- a "Mulher, Mulher" -- não demora a compreender estes sentimentos despudorados, e parte para a ação sem grandes elocubrações burguesas. Viúva de um psiquiatra famoso, é querida pelo advogado da família, Luiz Carlos (Dênis Derkian), a quem esnoba -- preferindo o flerte do caseiro Zé Preto (Aldo Bueno) e do cavalo Jumbo; ambos habitués de suas alucinações e divagações esquizóides.

Helena Ramos e Jumbo logo terminam protagonizando a cena que renderia dezenas e dezenas de imitações grotescas -- e até um subgênero -- dentro do futuro cinema pornográfico da Boca. Completamente alucinada e extasiada, perambulando pelo estábulo, Alice tira a blusa e o cavalo -- que é cavalo, mas não burro -- faz festinha discretamente nos seios da moça, inaugurando desnecessário trem da alegria eqüino nas imediações do Soberano.

Além dos esportes eqüestres, Alice se defronta com uma professora hippie, acampada nos fundos da sua chácara, pródiga em recitar Camões (seria uma homenagem às origens lusitanas de Garrett?), e relativizar os problemas da amiga com sociologia de botequim. Os diálogos são tão esdrúxulos que a visitante escande as sílabas e despeja o curriculum vitae completo: "Oi, eu sou Marta. Me formei em Literatura e vim para cá preparar a minha tese de pós-graduação..."

Marta e Alice fazem sexo na praia, com Alice pedindo mil desculpas por ter agredido a outra, em um dos inúmeros surtos que pontuam seu comportamento. Nova crise vitima o cavalo e o caseiro, que literalmente botam o pé na estrada e somem do mapa. No auge da insanidade -- e da cara de pau -- Alice aparece colocando fogo no corpo de Luiz Carlos, o advogado apaixonado -- quem cuidaria do espólio do marido? -- mas imediatamente descobrimos que foi mais um delírio, já que surge na cena seguinte marcando encontro pelo telefone com o recém-carbonizado.

Flanando neste universo trash, Garrett capricha e consegue até um resultado agradável de ser visto. É ajudado pela fotografia de Carlos Reichenbach e a performance desprendida de Helena Ramos; quase sempre dublada, mas ainda assim uma das grandes atrizes brasileiras de todo o sempre. Versátil no drama e na comédia, se sua voz equiparasse à presença cênica, Benedita Helena Ramos teria feito uma transição fácil do cinema para a tv e de volta para o cinema. Outras, com muito menos talento, foram assíduas da Boca e estão aí até hoje.

Três décadas depois, "Mulher, Mulher" ainda se mantém entre as 100 maiores bilheterias da história, mas fere a expectativa de quem conheça o Garrett de "A Mulher que Inventou o Amor" e "Tchau, Amor" -- artesão, obsessivo e intuitivo. Olhado no todo que o diretor realizou, parece um desperdício: sem obter a alta-voltagem erótica -- e sofisticada -- do xerox "Mulher Objeto", alimenta o tosco vaticínio de que "o cinema paulista só era auto-sustentável por vender nudez e machismo".

Driblando essas simplificações, os filmes de Garrett trazem sempre as mulheres como vitoriosas. E grande parte deles sobreviveria sem corpos em fúria; imposição dos produtores e deleite das variadas platéias do Centro e dos subúrbios. Resta-nos não repetir estereótipos, lendas urbanas, mas entender o que de fato ocultava-se e diluía-se naquele infinito imaginário de cultura e entretenimento popular.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Mulher Tentação


Dando prosseguimento ao mapeamento dos filmes produzidos por David Cardoso (pelas mãos de quem chegaremos até a filmografia do grande Ozualdo Candeias, falecido este mês), temos Ody Fraga dirigindo e roteirizando um argumento próprio em "Mulher Tentação", lançamento da Dacar Produções em 1982.


Próximo da onda de filmes explícitos que implodiriam a Boca a partir de 83/84, o filme já exibe alguns traços que se tornariam característicos: closes quase ginecológicos, isso naquilo, aquilo nisso e variações que os leitores conseguirão imaginar perfeitamente.

No entanto "Mulher Tentação", trata-se, antes de mais nada, de um exemplo do sincretismo comum no cinema brasileiro da época: a mistura entre aspirações estéticas e comerciais, no caldo das perversões que gradualmente iam sendo liberadas pela Censura Federal, no quase-crepúsculo da ditadura.

Fato inegável, o resultado final dessa mistura acaba sendo truncado. Não se entende com clareza o que Ody Fraga provavelmente tentou no roteiro. Crítico, ensaísta, dramaturgo, ex-seminarista protestante, Ody possuía passagens de prestígio por cadernos literários, grupos teatrais e trabalhos free-lancers. Sabia como poucos acumular erudição renascentista e malícia suficiente para acompanhar a trajetória das bilheterias. Morto de infarto fulminante em 1987, no pequeno apartamento aonde estocava a biblioteca de mais de 3.000 livros, teclava na máquina mais um roteiro -- a ser vendido nos estertores da Boca, naquelas últimas horas de uma festança que parecia cada vez mais distante.

Portanto, se não é possível classificar Ody pura e simplesmente como um naïf ou, na pior das hipóteses, um displicente -- alguém que não conhecesse perfeitamente bem os nós que um roteiro de cinema é capaz de apresentar --, "Mulher Tentação" acaba se revelando na verdade como ele verdadeiramente é: um conjunto de elementos insólitos.

Desde a tentativa de imprimir um mal-estar khouriano -- nos closes totais na personagem Marina Assunção ou na temática sobre o não-ser e o vazio sexual da moçoila e das pessoas ao redor --, passando pela procura de um "bom gosto" da produção -- nas letras serifadas dos créditos, nas telas que combinam aleatoriamente Vermeer, Rembrandt e Cézanne, ao som de "She" em flautas soporíferas, supostamente no clima de "bela arte" -- tudo soa fora de lugar e, por isto mesmo, como de hábito, interessante de ser assistido.

Sem Rogério Duprat na direção musical, mas castigando no mote das flautinhas -- em certo ponto é usada a estrutura rítmica da fuga, tentando deliciar algum pornô-barroquista de plantão --, o sexo explícito se funde em tédio vez por outra, mas quase sempre os diálogos salvadores aparecem e redimem todo o resto.

Melissa (Sandra Graffi) e Rodolfo (Luiz Carlos Braga, diga-se de passagem corajoso por interpretar maridos traídos e homossexuais enrustidos, a exemplo do personagem em "As Seis Mulheres de Adão" do mesmo ano, também com Ody, Graffi e Cardoso) esperam Marina, sua mãe e esposa, respectivamente.

Instável, sabendo que a mãe está se entregando pela enésima vez ao capataz -- que também recebe alguns trocados de Rodolfo para copular com as empregadas na frente do patrão --, Melissa sacode-se na poltrona. E entre o olhar distante e a súbita raiva, pergunta o porquê da demora da mulher.

-- Ela é vagorosa no vestir -- Rodolfo responde numa fleugma britânica.

-- Pai, tu é um manso mesmo -- manda a garota no estilo Rua Aurora, que invade a tela e será a tônica dessa ambivalência entre o que se supõe "sofisticado" e o que se supõe "popular" no filme.

A troca de delicadezas entre a família chega às raias da traição quando Marina, socialite ninfomaníaca, ataca o namorado da filha (Sérgio), no escritório do rapaz. Na véspera, Melissa e Sérgio haviam se desentendido justamente pelas encucações que travavam sexualmente a menina. Tentaram uma incursão pela noite paulistana, sem qualquer probabilidade de melhorar a situção. Combinavam de se darem uma chance, mas eis que Marina, nos instintos mais primitivos do que os de Joan Crawford, destrói a possibilidade de realização filial.

Interessante notar que o tour, por si, diz muito daquela tentativa de composição khouriana. Há referência explícita a "Noite Vazia" em cena passada no rendez-vouz japonês. Subindo a sonoplastia, quebra-se porém essa referência -- não se sabe se propositadamente ou não. No momento em que a gueixa dedilha o shamisen, ouvimos a todo vapor uma guarânia (!), trilha sonora recorrente e enaltecida nas produções de Cardoso, célebre pantaneiro.

As miudezas de composição dos quadros -- neste sentido, a direção de fotografia de Cláudio Portioli é fundamental -- e a pulsão entre o membros da família, também pretendem alguma sutileza, mas é logo afastada pela concretização das taras de Rodolfo -- que menciona, rapidamente, a sua atração por cavalos. Sim, o mito eqüino, sempre povoando os sonhos de filmes rodados nos 70/80, seja em "Giselle", seja em "Emanuelle in America", para lembrarmos dois exemplos clássicos.

Nos últimos 30 minutos a montagem infelizmente perde um pouco do pique e parecemos assistir à repetição de uma mesma piada-base: os delírios do patriarca, que corre de porta em porta, feliz de observar em delírio a esposa, a filha e o capataz, cada qual com seus respectivos acompanhantes, num frêmito danado.

Finalizadas as danças do acasalamento, todos se despedem, o ex-namorado de Melissa dá uma carona ao atual, o Passat cor de creme se afasta, o portão da casa senhorial se fecha, e as luzes provavelmente se acendiam na sala escura. Estafados, correndo para o trabalho, um a um, os contínuos, os chefes, os respeitáveis, os de reputação nem tanto, muitos sem perceberem a tensão entre os referenciais dentro e fora das telas, cumpriam com seus préstimos à produção nacional, induzidos pelo ofício de gente talentosa, como o inefável Ody Fraga.

sábado, outubro 28, 2006

Possuídas Pelo Pecado


Falar dos filmes da Boca do Lixo – principalmente aqueles feitos entre 1974 e 1984 – é um prazer revigorante, tanto quanto assisti-los. Toda aquela mistura de vulgaridade recatada e cinismo de valores – aquilo que os atuais tempos caretas chamam de politicamente incorreto – tornam a maior parte do cinema da Boca diversão compulsiva para quem se embrenha por sua fortuna.

Vejamos, por exemplo, o caso dos filmes de Jean Garrett. Transferida para qualquer outra realidade menos estigmatizada, a cinematografia do diretor mereceria enxurradas de estudos acadêmicos, tamanha sua riqueza e possibilidades de interpretação. Filmes como “Tchau, Amor”, “O Fotógrafo”, “Amadas e Violentadas”, “Karina, Objeto do Prazer” e “Possuídas pelo Pecado” (1976) vão muito além das titulações sensacionalistas, produzidas no afã de atraírem o transeunte que, na porta do cinema, vacilasse entre uma sessão ou outra depois do expediente.

Claro que os felizardos que em 1976 assistiram a “Possuídas pelo Pecado”, no Marrocos ou no Marabá, com certeza não o fizeram apenas por conta do talento cinematográfico de Garrett. Belas mulheres, nudez à vontade, temas palpitantes – eram estas as motivações do espectador padrão do cinema da Boca naqueles anos. Mas, por trás dessa necessidade comercial, havia dedicados artistas de cinema, que mergulhados no imaginário popular e atendendo às demandas específicas do mercado consumidor, foram capazes de produzir filmes interessantíssimos.

Que toda essa introdução prepare o leitor para a surpresa, livre de preconceitos ou hipocrisias, de um roteiro tão contundente quanto o de “Possuídas Pelo Pecado”. Uma das melhores produções da Dacar e um dos três filmes que Jean Garrett inicialmente dirigiu para David Cardoso, a trama cheia de reviravoltas rocambolescas mostra um homem rico e amargurado, Doutor Leme (Benjamin Cattan), que sustenta à sua volta um pequeno séqüito de criados, no qual se destacam duas “secretárias”, Jussara (Zilda Mayo) e Anita (Helena Ramos, irreconhecível), sendo Anita alcoólatra terminal, introduzida no vício pelo milionário que tortura a moça seguidamente em troca de bebida.

De tão agressivos, os arroubos humilhantes do homem para com a empregada chegam a ser ridículos; ainda assim, provocam certa viração no estômago de quem não está acostumado ao mondo cane: “Beija, meus sapatos”, ordena – e Anita, lascivamente, obedece.

Garrett tinha obsessão por este tipo de dinâmica, pois há cena parecida em “Tchau, Amor”, envolvendo Antônio Fagundes e as sandálias de Angelina Muniz. Aqui, em troca das garrafas do whisky que bebe com sofreguidão, a personagem de Helena Ramos se submete até a um patético striptease – além, claro, de sucessivas bolachas e xingamentos, pelas razões mais pueris possíveis.

No meio desse hospício, a entourage tenta sobreviver: esposa (Meiry Vieira), o motorista André (David Cardoso), o desenhista Marcelo (Agnaldo Rayol, compadre de David e proprietário do belo refúgio que serviu de set), a empregada Isaura e sua filha Dorinha (esta última, Nicole Puzzi, muito jovem) – todos doentes pelo mecenato do tresloucado Leme. Arma-se, então, um intrincado plano para roubarem a fortuna do velho.

Ody Fraga – roteirista desta e de tantas outras produções da Dacar – faz seu papel, criando plots satisfatórios até a apoteose final, que sugere, cinicamente, a velha máxima do “dinheiro não traz felicidade.”

“Possuídas Pelo Pecado” rende aos incautos combustível suficiente para uma velha acusação ao cinema da Boca, aquela que o classifica como ultra-machista. Evidências não faltariam: as personagens mulheres se dividem entre femme fatales picaretas ou bobas de carteirinha. Mas percebam melhor a empregada Isaura, com seu pragmatismo sistemático; e o movimento final de Anita, vencendo a submissão e se associando à esposa do chefe.

Fica evidente que, por vezes, até na Boca o girl power funcionava, apesar de eventuais disposições contrárias – as quais, com certeza, deixariam Betty Friedan com vontade de virar um cálice de café nas arriflex da turma do Soberano.

terça-feira, outubro 03, 2006

A Noite das Taras 2


Dos quatro filmes em episódios realizados por David Cardoso entre 80-82, “Noite das Taras 2” (1982) é de longe o mais fraco. Nem por isso chega perto de ser ruim. Todos tinham em comum o roteiro e argumento de Ody Fraga e, com exceção do fenomenal “O Gafanhoto”, de John Doo, os episódios mais relevantes dos quatro filmes são justamente os dirigidos pelo roteirista.

Parecendo feito às pressas, “Noite das Taras 2” é curto e tem apenas dois episódios, não três como de praxe. O primeiro é o de Ody, chamado “Solo de Violino”, que conduz um drama psicológico doentio na história de um violinista (Ênio Gonçalves), homem cujo significado existencial parece estar atrelado ao nome do pai, músico fracassado e espezinhado pela mãe (Wanda Kosmo), possessiva e dominadora.

Sem grandes atrativos, com ecos de Rubem Fonseca ou Nelson Rodrigues, a história tem aquele mérito realista dos filmes da Boca em mostrar uma São Paulo depressiva, abandonada e triste – nem por isso menos atraente e cinematográfica. A vida do jovem violinista é cinza, sua mãe é mesquinha, as prostitutas com quem ele anda são desglamourizadas – todos lutam pela sobrevivência e ninguém parece ter qualquer prazer autêntico em sobreviver.

E se o primeiro episódio deixa o espectador melancólico, o segundo dirigido por Cláudio Portiolli é hedonismo puro. Em “A Guerra da Malvina”, David Cardoso, interpretando David Cardoso, tem sua casa assaltada por uma quadrilha de garotas bonitas, entre elas Malvina (Matilde Mastrangi). Divertido de tão cabotino, o episódio mostra as garotas extasiadas pelo reconhecimento de tão “ilustre” personalidade, se entregando a ele em série (ao som de "Runaway", de Del Shannon, em versão orquestra de baile) .

Parodiando a famigerada Guerra das Malvinas entre Argentina e Inglaterra, que acontecia naquele ano, novamente David e La Mastrangi protagonizam um show à parte. É curioso que Matilde, passadas duas décadas, não goste muito dos filmes que fez: ótima atriz, uma das mulheres mais bonitas que o cinema brasileiro já viu, ela com certeza fazia o ingresso valer cada centavo, tanto quanto uma Monica Vitti, brasileira e paulistana.

David aproveita para colocar em seu próprio filme uma garota tomando banho de banheira com seu pôster e outra visivelmente excitada por vê-lo fazendo xixi. Pareceria tolo, se não fosse cínico e cômico. E no final, a surpresa: em um curioso exercício de meta-linguagem, David e Matilde comentam sua participação no filme anterior – “Pornô!” – saindo de cena abraçados e prometendo uma nova maratona sexual.

Aliás, se você tiver a chance de rever alguns destes filmes em episódios da DaCar, esqueça o requentado “A Noite das Taras 2” e se concentre em “Pornô!”. Entre altos e baixos, os quatro filmes formariam um único suficientemente bom, com episódios selecionados entre eles.

Na verdade, as produções da DaCar refletiam um bocado o cinema feito na Boca do Lixo naquela época: quando acertavam eram geniais, quando erravam, eram só um pouco menos interessantes. Por tudo isso é que a Boca foi a tradução perfeita do que deveria ser um cinema brasileiro criativo, independente e próximo ao público. Infelizmente tudo isso ficou para trás. Vale a pena não esquecer, retornando a ela sempre que se falar da utopia de uma fábrica de ilusões auto-sustentável.

segunda-feira, setembro 25, 2006

A Noite das Taras


Ninguém precisa se assustar com os títulos sugestivos dos filmes da Boca do Lixo, que aumentavam o sensacionalismo na proporção em que a indústria do cinema paulistano enfrentava dificuldades e declinava. Dessa forma, na virada da década de 70 para 80, um filme chamado “A Noite das Taras” (1980) não significava propriamente um espetáculo pornô ou de baixo nível, sendo um interessante exercício de cinema – onde o erotismo foi apenas chamariz comercial, tão suave quanto o que vemos hoje em dia na novela das oito.

“A Noite das Taras”, dividido em três episódios, faz com que três nomes conhecidos do esquema de produção da Boca – John Doo, David Cardoso e Ody Fraga – conduzam histórias diferentes girando sobre um mesmo tema: a noite de marinheiros, que desembarcados em Santos, se deslocam até São Paulo em busca de aventuras.

Os filmes em episódios eram uma saída inteligente para o cinema brasileiro daquele tempo, já que eram fáceis de fazer e permitiam que vários profissionais trabalhassem, repartissem os lucros e, em alguns casos, os gastos com a produção. A DaCar, produtora do galã David Cardoso, realizou filmes antológicos do gênero, e vamos analisá-los aqui um em seguida do outro.

David Cardoso – o homem por trás da marca – é figura polêmica, mas goste-se dele ou não sua trajetória profissional foi notável: a exemplo de Carlo Mossy e Reginaldo Faria – galãs e visionários cineastas – aceitar David significa entender uma maneira de se fazer cinema no Brasil sem depender exclusivamente das benesses do dinheiro público. Vale acrescentar também, por curiosidade, que, apesar de não ter sua produtora fisicamente situada na Boca, era lá que David buscava atores e técnicos, tornando seus filmes quase um paradigma do quadrilátero da Luz.

“A Noite das Taras” começa com o episódio “A Carta de Érico”, onde o chinês naturalizado paulistano John Doo mostra um marinheiro recém-chegado com uma missão: entregar uma carta em São Paulo para uma mulher misteriosa (Patrícia Scalvi), infeliz e viciada em drogas, moradora de um aristocrático apartamento.

Notem que o marinheiro é ninguém menos que Arlindo Barreto, o futuro palhaço Bozo, que antes de se consagrar como ídolo da criançada fez história na rua do Triunfo. Não há grandes surpresas na trama linear, que serve apenas de atmosfera e ambientação para as belas cenas de Scalvi nua e à sedução revigorante do marinheiro falastrão.

O segundo episódio, “Peixe Fora d'Água”, dirigido pelo próprio David Cardoso, conta sobre uma quadrilha dirigida por uma ninfomaníaca (Matilde Mastrangi), que faz de tudo – exatamente tudo – para que um marinheiro recém-desembarcado cometa um crime. Mastrangi, parecendo uma diva do cinema italiano, nos faz lembrar que, afinal, foi de lá que o cinema brasileiro seqüestrou a idéia dos filmes em episódios, a exemplo do clássico “Boccaccio 70”, onde Matilde deixaria Anita Ekberg intimidada.

Já a terceira história, “Julio e o Paraíso”, dirigida por Ody Fraga, é – talvez involuntariamente – a melhor de todas: um grupo de moças paupérrimas não tem o que comer, vão ser despejadas do cômodo onde moram e resolvem seduzir um marinheiro para roubá-lo. Como parte do plano, matam o homem através de uma maratona sexual, no subtexto que mescla influências de Luís Buñuel, mitologia grega e José Mojica Marins. Um clássico do cinema da Boca.

“A Noite das Taras” deve ter feito sucesso, pois David bancou dois anos depois a continuação, também em episódios – e no meio tempo, em 81, lançou “Pornô!” e "Aqui, Tarados!", que dialogam com os dois, formando uma quadrilogia que merece ser vista em seqüência, como um só filme conceitual em pequenas partes. Entre altos e baixos, cada uma destas histórias simples e popularescas traz em si algum encanto que as torna interessantes, divertidas ou, quem sabe, até mesmo inspiradoras de idéias para jovens cineastas que enxerguem longe.