sábado, outubro 28, 2006

Possuídas Pelo Pecado


Falar dos filmes da Boca do Lixo – principalmente aqueles feitos entre 1974 e 1984 – é um prazer revigorante, tanto quanto assisti-los. Toda aquela mistura de vulgaridade recatada e cinismo de valores – aquilo que os atuais tempos caretas chamam de politicamente incorreto – tornam a maior parte do cinema da Boca diversão compulsiva para quem se embrenha por sua fortuna.

Vejamos, por exemplo, o caso dos filmes de Jean Garrett. Transferida para qualquer outra realidade menos estigmatizada, a cinematografia do diretor mereceria enxurradas de estudos acadêmicos, tamanha sua riqueza e possibilidades de interpretação. Filmes como “Tchau, Amor”, “O Fotógrafo”, “Amadas e Violentadas”, “Karina, Objeto do Prazer” e “Possuídas pelo Pecado” (1976) vão muito além das titulações sensacionalistas, produzidas no afã de atraírem o transeunte que, na porta do cinema, vacilasse entre uma sessão ou outra depois do expediente.

Claro que os felizardos que em 1976 assistiram a “Possuídas pelo Pecado”, no Marrocos ou no Marabá, com certeza não o fizeram apenas por conta do talento cinematográfico de Garrett. Belas mulheres, nudez à vontade, temas palpitantes – eram estas as motivações do espectador padrão do cinema da Boca naqueles anos. Mas, por trás dessa necessidade comercial, havia dedicados artistas de cinema, que mergulhados no imaginário popular e atendendo às demandas específicas do mercado consumidor, foram capazes de produzir filmes interessantíssimos.

Que toda essa introdução prepare o leitor para a surpresa, livre de preconceitos ou hipocrisias, de um roteiro tão contundente quanto o de “Possuídas Pelo Pecado”. Uma das melhores produções da Dacar e um dos três filmes que Jean Garrett inicialmente dirigiu para David Cardoso, a trama cheia de reviravoltas rocambolescas mostra um homem rico e amargurado, Doutor Leme (Benjamin Cattan), que sustenta à sua volta um pequeno séqüito de criados, no qual se destacam duas “secretárias”, Jussara (Zilda Mayo) e Anita (Helena Ramos, irreconhecível), sendo Anita alcoólatra terminal, introduzida no vício pelo milionário que tortura a moça seguidamente em troca de bebida.

De tão agressivos, os arroubos humilhantes do homem para com a empregada chegam a ser ridículos; ainda assim, provocam certa viração no estômago de quem não está acostumado ao mondo cane: “Beija, meus sapatos”, ordena – e Anita, lascivamente, obedece.

Garrett tinha obsessão por este tipo de dinâmica, pois há cena parecida em “Tchau, Amor”, envolvendo Antônio Fagundes e as sandálias de Angelina Muniz. Aqui, em troca das garrafas do whisky que bebe com sofreguidão, a personagem de Helena Ramos se submete até a um patético striptease – além, claro, de sucessivas bolachas e xingamentos, pelas razões mais pueris possíveis.

No meio desse hospício, a entourage tenta sobreviver: esposa (Meiry Vieira), o motorista André (David Cardoso), o desenhista Marcelo (Agnaldo Rayol, compadre de David e proprietário do belo refúgio que serviu de set), a empregada Isaura e sua filha Dorinha (esta última, Nicole Puzzi, muito jovem) – todos doentes pelo mecenato do tresloucado Leme. Arma-se, então, um intrincado plano para roubarem a fortuna do velho.

Ody Fraga – roteirista desta e de tantas outras produções da Dacar – faz seu papel, criando plots satisfatórios até a apoteose final, que sugere, cinicamente, a velha máxima do “dinheiro não traz felicidade.”

“Possuídas Pelo Pecado” rende aos incautos combustível suficiente para uma velha acusação ao cinema da Boca, aquela que o classifica como ultra-machista. Evidências não faltariam: as personagens mulheres se dividem entre femme fatales picaretas ou bobas de carteirinha. Mas percebam melhor a empregada Isaura, com seu pragmatismo sistemático; e o movimento final de Anita, vencendo a submissão e se associando à esposa do chefe.

Fica evidente que, por vezes, até na Boca o girl power funcionava, apesar de eventuais disposições contrárias – as quais, com certeza, deixariam Betty Friedan com vontade de virar um cálice de café nas arriflex da turma do Soberano.

6 comentários:

Jorge disse...

Andréa, tinha certeza de que você iria comentar esse filme, assisti no Canal Brasil e fiquei impressionado. Para mim, o filme é praticamente uma obra-prima, a começar pela abertura impactante e que não é frustrada pela seqüência até o final; um enredo quase de tragédia grega e interpretações magistrais de atores e atrizes tão injustamente pouco valorizados hoje em dia como Helena Ramos, numa atuação marcante como a secretária alcoólatra.

Infelizmente, o clichê de que o brasileiro não dá valor ao que é dele se mostra uma verdade total, um filme desses, que as faculdades de cinema nacionais insistem em ignorar até hoje, está num nível de qualidade incomparavelmente superior às superproduções hollywoodianas.

Não vejo espaço para acusações de machismo contra o filme, já que tanto os personagens masculinos como os femininos se equivalem no seu cinismo e na sua sordidez. Misantropo talvez, um retrato implacável do ser humano que é o que confere ao filme sua maior força.

Uma história para ver e rever e, porque não, para se refilmar. Espero que os estudantes e professores de cinema estejam prestando a devida atenção a este blog e outros sites que discutem filmes como esse, de uma época gloriosa porém esquecida do cinema nacional.

Mauricio disse...

Oi,

Parabéns pelo blog. Considero seu blog, junto com o do Carlão, o melhor sobre cinema brasleiro, principalmente devido às entrevistas, maravilhosas.

Estou lançando hoje um blog dedicado ao cinema asiático (principalmente Coréia, Japão e Índia) e gostaria de convidar a todos para conhecê-lo e ajudar a divulgá-lo:

http://asiancinema.blig.ig.com.br/

Valeu!

Matheus Trunk disse...

Oi Andréa. Cheguei um dia de madrugada da Mostra e vi o final desse filme. Só por ter a Nicole Puzzi de loira, já vale o ingresso. O David está impagável e como bem disse o Jorge, é uma das maiores atuações da Helena Ramos. O post do Jorge, diga-se de passagem é antológico e corajoso. Ele somente esqueceu que essa crítica Andrea, talvez seja uma das suas 3 melhores. Mas infelizmente, eu creio que os estudantes e professores estão mais preocupados em paparicar estatais, superproduções e mesmo filmes europeus metidos a tudo que fazer algo por nossos gigantes. É triste mas é a realidade. Um artista como o David Cardoso, por exemplo, na minha opinião é o maior artista vivo do Brasil e deveria ser bem mais reconhecido.

Jorge disse...

Pois é Matheus... e acho que a ECA/USP, financiada com dinheiro público, deve (ou deveria) ter entre as suas missões o estudo e a divulgação dessa que foi a época mais profícua do nosso cinema. Até onde eu sei, só existe uma pesquisa acadêmica, da Unicamp, sobre o Cinema da Boca, que aliás parece que acaba de sair em livro. Espero que atores e atrizes como David Cardoso, Helena Ramos e Zilda Mayo estejam pelo menos sendo convidados para palestras na ECA, e que essas palestras sejam gravadas e incorporadas ao acervo da Universidade, para que os alunos saibam como se faz um cinema de qualidade e sem dinheiro do governo (sem querer aqui satanizar a Embrafilme, que apoiou muita coisa boa, e muita porcaria também).

De qualquer forma, o Cinema da Boca, feito com 100% de dinheiro da iniciativa privada, sem assistência do governo (que aliás só agiu para quebrar a Boca e o Cinema nacional), está sendo revalorizado e rediscutido com muita propriedade pelo Zingu, Estranho Encontro, e outras iniciativas dos verdadeiros amantes do cinema. Que estão (finalmente), fazendo justiça aos inesquecíveis Ody Fraga, Jean Garrett (autores do filme em questão) e tantos outros gigantes do cinema nacional - e, porque não, mundial.

Matheus Trunk disse...

Valeu pela força Jorge ! Mas parece que é só a gente mesmo por enquanto hehehe ! Agora o David dando palestra na ECA ! Eca ! Você acha que eles sabem que é o David Cardoso ? Eles só sabem que é o Walter Salles. O trabalho da Andrea que me levou a fundar a Zingu! e ela que deve ganhar todos os louros. Ela, Remier Lion essas pessoas que divulgam a nossa cultura de forma independente e corajosa. Mundial com certeza. Se Ody Fraga fosse europeu ele seria um Pasolini, um Jesus Franco alguma dúvida ? E o Jean, seria um Luis Buñuel.

Andréa Ormond disse...

Jorge, quando vi o "Possuídas pelo Pecado" achei certas cenas inacreditáveis de tão boas, de um sadismo que só poderia ter sido elaborado (no argumento e na direção) por gente que soubesse muito bem o que estava fazendo. Vai daí que qq crítica apressada em relação ao Garret é nula, não atinge a substância do negócio. Tipificar é muito fácil, o que se precisa fazer na prática é conhecer aquilo a que se acostumou dizer que não vale a pena ser conhecido. Um livro do Alfredo Sternheim foi lançado há um tempo, chama-se "Dicionário da Boca", pela Coleção Aplauso. Recomendo. Ele compila muitas informações importantes sobre o período. Um abraço.

Maurício, muito obrigada. Gostei da escolha do tema para o seu blog e do tratamento que vc deu às matérias. Dá para se ter uma visão do todo. Vou linká-lo. Abraços.

Matheus, o texto pode até estar razoável, mas o filme ajuda pra caramba, facilita o trabalho. Hoje mesmo estava conversado com uns amigos sobre a fotografia dos filmes da Dacar. É normal que algumas pessoas não simpatizem com o David Cardoso, com o jeitão dele, isso vai do gosto de cada um. Mas omitir não é possível. No mínimo como produtor ele fez mais do que muita gente que deitou em berço esplêndido, sem fazer nada. E eu agradeço pelo que vc disse a respeito da Zingu! Vamos debater, trocar informações, essa é a melhor coisa a se fazer :) Um abraço!