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segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Estou Com Aids



Amargando a decadência do modelo de produção que o consagrou na Boca, no final de 1985 David Cardoso dirigiu e atuou -- como entrevistador -- em um inacreditável filme-jabuticaba (fenômeno só possível no Brasil) chamado “Estou Com Aids”. Misto de ficção e reportagem, revisto e reavaliado nos oferece um verdadeiro tratado sociológico de como a doença era encarada (e mitificada) no país em meados da década de 80.

Sensacionalismo, preconceito e ignorância dão a tônica, embora David, coerente com sua linguagem e ambição popular -- críticos mal humorados diriam popularesca -- tente ser o mais neutro e respeitoso possível. Acontece que o meio onde se enfia é um pântano: entrevistar “personalidades” e transeuntes na rua, deixá-los falar à vontade. Ilustra os depoimentos com vinhetas e encenações de reportagens publicadas na grande imprensa, como a histórica capa da Veja de 14 de agosto de 1985.

Os créditos surpreendem com um vaticínio: “Htlv3=Aids=Morte”. Tal barbaridade é plenamente justificada pelo temor e pânico que a doença espalhava naquele ano. Entre outras coisas, difundia-se o boato de que as chuvas durante o Rock in Rio, realizado em janeiro, causaram a propagação do vírus no país. E que Nostradamus avisara antes.

Isso também explica a digressão da cantora Alcione, que afirma para David que os gays brasileiros são limpos, gostam de banho e que o problema estava nos estrangeiros. Em seguida aconselha para os brasileiros a tomarem cuidado com "aqueles dos olhos azuis" (!).

Entrevistas se sucedem: Dulce Damasceno de Brito fala sobre Rock Hudson, Pedro de Lara sobre a falta de valores cristãos e o lutador Maguila acredita que esportistas estão livres de tentações que levem à Aids. Já a atriz Zaíra Bueno busca paralelo entre a doença e a disseminada falta de amor-próprio. Em momento alucinógeno, David pergunta a um dono de restaurante se "a propagação da aids afetou o estabelecimento".

Nos trechos de ficção, o filme incute medo, muito medo. O caso da empregada doméstica, que transa com o patrão bissexual e termina na sarjeta, foi inspirado em box da matéria da Veja. Engraçado é o set de um filme pornô na Boca, onde a atriz -- que havia lido reportagem sobre o receio de Bo Derek fazer cenas eróticas -- recusa-se ao fellatio em dois rapazes, a não ser que eles se lavem “com bastante álcool”.

Exemplo típico de abordagem simples para um assunto complexo, “Estou Com Aids” termina demonstrando situações de suicídio, delegados que se metem na vida particular de doentes e hemofílicos confundidos com homossexuais porque contraíram a moléstia. Assim, denuncia quase sem querer o horror de se estar frágil em um país subdesenvolvido, de saúde pública e meios de informação precários.

Trazido à tona hoje, dificilmente escapa de uma condenação taxativa, mas precisamos levar em conta seu mérito de honestidade absoluta. Não sendo hipócrita, nem sutil, muito menos liberal, David Cardoso quis fazer um instantâneo vivo do pensamento corrente (e reacionário) sobre a moléstia.

E se por outro lado ainda não veio a cura -- como profetiza otimista Anselmo Duarte -- pelo menos causa enorme alívio a percepção de que, em 25 anos, brasileiros avançamos bastante no quesito opinião pública. Desastroso, pitoresco, sinistro, execrável, “Estou Com Aids” é tudo de horrível, ruim -- inclusive bastante real.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Quando as Mulheres Paqueram


De um tempo em que as pessoas podiam fumar à vontade, Chacrinha não era considerado politicamente incorreto e pernocas de fora motivavam suspiros em vez de ódio, "Quando as Mulheres Paqueram" (1971) causará no espectador, quarenta anos depois, a incômoda impressão de ser avançado e ousado em excesso.

Na gênese da pornochanchada, a direção de Victor di Mello -- roteiro da atriz Dilma Lóes, sua mulher -- acertou em tudo, e não parece exagero dizermos que, ao lado de "Os Paqueras", esta foi a melhor comédia erótica realizada no país. Inicialmente chamado "Assim Nem a Cama Aguenta", exibido em festivais internacionais com esse título, angariou grande simpatia pelo lindo e jovem casal diretor-roteirista. Voltando ao Brasil a censura implicou, e a liberação terminou vinculada à troca de nome.

"Quando as Mulheres Paqueram" estreou no Rio em fevereiro de 1972. Carlos Imperial, em sua coluna, o definiu mais ou menos assim: "Conta a história de três garotas super da pesada que ficam abatendo os grandes abatedores de lebres que existem por aí" (sic). Traduzindo para o português de hoje, o filme pretende avançar na questão feminista -- grande pauta daquele ano que se iniciava -- mostrando duas primas, Ângela (Eva Christian) e Patrícia (Sandra Barsotti), além de uma amiga esquisitona, Meg (a própria Dilma Lóes), invertendo papéis e transformando em caça dúzias de garanhões caçadores.

Ângela é filha de um casal de meia-idade -- interpretado pelos pais de Dilma na vida real, Urbano Lóes e Lídia Mattos. Já a prima Patrícia retorna ao Brasil, junto com Meg, depois de longa temporada estudando em Londres. A produção se esforçou, despachando equipe para a Inglaterra e filmando na capital britânica as atrizes-turistas caminhando pela Carnaby Street, ouvindo discursos no Speaker´s Corner do Hyde Park e tumultuando a guarda do Palácio de Buckingham.

Por alguma razão misteriosa -- patrocínio? -- elas dispensam a Varig e compram passagens de volta ao Brasil pela Lufthansa. Já instaladas em terras cariocas iniciam um périplo, cada uma com seu objetivo: Meg pretende fazer pesquisas de comportamento; Patrícia quer faturar quantos homens puder. Ângela antipatiza com ambas, a quem considera umas "caretas".

Não se enganem com argumentos simplórios. Passeamos pela cidade maravilhosa do Antonio´s, do Zeppelin, do Castelinho e pelas inúmeras camas onde se deitam Ângela e Patrícia. Sandra Barsotti logo aprende a catequizar os locais com uma singela piscadinha, enquanto Eva Christian pratica topless em um apartamento cheio de amigos. Rivalizando em gostosura, vão enfileirando homens e situações não muito engraçadas, mas que servem de pano de fundo à crônica de costumes, tão ao estilo shagadellic da época.

Em certo momento o ator Cláudio Cavalcanti, antes de se apaixonar por uma melancia em "Vereda Tropical", faz o papel de si mesmo, saindo de uma incrível loja de artigos sonoros no Posto 6 -- e sendo abordado pelas furiosas. Outras vítimas são os galãs Carlo Mossy, David Cardoso e Francisco di Franco.

Sim, esta foi a primeira vez em que Carlo Mossy e David Cardoso -- os reis da pornochanchada - -- aparecem juntos nos créditos, embora não contracenem. Repetiram a dose, dezoito anos depois, no lendário "Solidão, Uma Linda História de Amor" (1989) -- também dirigido por Di Mello --, o maior elenco nacional já reunido em um dos piores filmes de todos os tempos.

Cansadas do Rio, as meninas sirigaitam em São Paulo, e a coisa ganha um ar ainda mais turístico que em Londres. De qualquer forma é bom ver a esquina de Paulista com Augusta irreconhecível, além do Monumento aos Bandeirantes, o Terraço Itália e outros pontos de interesse estereotipados, que certamente os realizadores cariocas puxaram pela memória.

Meg, a personagem de Dilma, é um espetáculo à parte com suas "pesquisas", chegando a vestir-se de mendiga para saber como é a vida nas ruas, tocando flauta de bumbum pra cima ou dirigindo um kart noite adentro. A última cena com Dilma, Mossy e Zózimo Bulbul na cama, sob um poster do futuro banido da vida artística Wilson Simonal, parece nos lembrar da impossibilidade de se compreender aquele espírito nos dias de hoje.

Não tanto pelos dramas descartáveis, mas pelas escolhas que seus personagens faziam, o cinema comercial dos anos 70 ganha ares cada vez mais exóticos e libertários. Responsáveis por seus atos, imunes ao vitimismo e à tutela, os ingênuos de outrora envelhecem como doces transgressores. Se discordam da observação sugiro experimentar em 2009 uma refilmagem de "Quando as Mulheres Paqueram". Depois chamem parte da crítica, do público -- quem sabe alguns alunos da Uniban -- para julgarem o resultado.


domingo, fevereiro 18, 2007

Caçada Sangrenta


Ozualdo Ribeiro Candeias faleceu aos 84 anos de idade, em São Paulo, no último dia 8 de fevereiro.

Difícil imaginá-lo preso a um leito de hospital, impossível cogitar a quantidade de impropérios que deve ter desferido a seu passado ou mesmo à ausência de seu futuro, principalmente se o considerarmos uma alma itinerante que -- a contragosto ou não -- tornou-se refúgio das expectativas sobre um determinado ideal cinematográfico.

Agricultor, motorista de caminhão, cafetão, crupiê, astronauta, todas as ocupações que teve e as que não teve somam-se à lenda urbana do realizador que, egresso do povo, retratou-o com conhecimento de causa polido à base de educação cinematográfica formal, já nos idos da década de 50 -- quando contava mais de 30 anos.

Esse contato direto com o meio acadêmico é possivelmente a primeira das diferenças sutis em relação a outro ícone do cinema nacional, José Mojica Marins -- com quem, aliás, dividiu os créditos da "Trilogia do Terror" (1968): Mojica dirigiu o episódio "Pesadelo Macabro"; Candeias, "O acordo"; Luiz Sérgio Person, "Procissão dos Mortos".

Quando rodou em 1974 "Caçada Sangrenta", primeiro filme produzido pela Dacar, de David Cardoso, Candeias via-se na posição pouco confortável de autor reverenciado, associado a estruturas minimalistas de produção -- os recursos financeiros eram parcos; as equipes, enxutas -- e à anti-linearidade narrativa. Não à toa, seu primeiro longa-metragem, "A Margem" (1967), passara a ser metonimicamente identificado com o advento do próprio Cinema Marginal.

Espectadores mais atentos o notarão, ainda, na faceta de ator -- pontas em "O Bandido da Luz Vermelha" (1968) e "O Ritual dos Sádicos" (1969) -- ou na equipe de produção de filmes atípicos a seu ethos paticular -- "O Quarto" (1968), de Rubem Biáfora; "Agnaldo, Perigo à Vista" (1969), comédia estrelada por Agnaldo Rayol, secundada por David Cardoso.

Apesar de improvável, a presença na picardia lollipop de "Agnaldo, Perigo À Vista" possibilitou uma parceria entre Candeias e Cardoso que viria a ser retomada em "A Herança" (1971) -- dirigida por Candeias, uma subversão do "Hamlet" shakesperiano, com o galã no papel de Omleto.

A dupla reencontra-se três anos mais tarde, a pedido de David, então cabeça da Dacar Produções. E se considerarmos o começo da Dacar -- com muito de brasilidade e encantamento pelo poder, numa tônica da gestão cultural no país --, os detalhes vistos acima e nem tanto os aspectos estéticos do filme em si, "Caçada Sangrenta" alcança fácil o status de cult.

Suposta ode ao estado natal de Cardoso, Mato Grosso, "Caçada Sangrenta" foi financiado grande parte por um belo patrocínio: através de amigos em comum, David contactou o governador José Fragelli, conseguiu uma audiência, prometeu a exposição das belezas naturais do pantanal e afins, e dali por diante bastou pouco tempo para terem às mãos, importada e tinindo, uma Arriflex novinha em folha.

A pobre coitada, sem saber, acabou sendo responsável por colocar no ar mais de cinco minutos seguidos de noticiário sobre a Transpantaneira, o Brasil grande, desfile de Sete de Setembro com direito a poster do General Garrastazu Médici, além do progresso em Corumbá e Ponta Porã, tudo em um tom de triunfalismo que deve ter "desagradado" -- para não usarmos outro termo mais incisivo -- o exigente Candeias.

E dessa disparidade entre uma concepção "autenticamente" candeística e outra "autenticamente" voltada para garantir nas bilheterias o retorno dos investimentos da Dacar e dos co-produtores (Gilberto Adrien e José Eduardo Rolim), o filme torna-se manco, preso pelas pernas, com momentos raros de inventividade.

Neco (David Cardoso), suspeito do assassinato de uma ex-amante, é o easy-rider que foge de São Paulo após se envolver com uma mecenas morta brutalmente por um amigo. Com a maleta cheia de dinheiro, cruza o interior matogrossense, distribui tapas, pancadas, se enrosca com mocinhas liberadas, até que na maré de azar acaba encontrando um triste fim.

Também autor do argumento e do roteiro, a impressão que se tem é a de que em determinado momento Candeias simplesmente decidiu deixar o barco correr solto e aproveitar, com o frêmito beatnik de sempre, a oportunidade de viajar pelo Brasil Central. Mesmo sem a observação do material bruto em si, os depoimentos dos envolvidos deixam clara essa combustão entre perspectivas diferentes que acabaram prejudicando a construção do filme.

Cite-se a costura rápida no início -- ainda no ambiente urbano de São Paulo, em que o diretor sentia-se mais à vontade --; o senso de humor aqui e ali -- o nome de Pedro Rovái aparece na caderneta de telefone do protagonista --; e, de resto, esporadicamente Candeias dava o ar da graça: as cenas de luta tentam fugir do bom-mocismo -- há chutes abaixo da linha da cintura -- e angulações constroem quadros que o público mais ortodoxo do "Amaral Netto Repórter" não acharia muito agradável.

Existem momentos, porém, em que Neco se aproxima por segundos de um simulacro de "El Topo"; e nestes instantes as andanças a cavalo previsíveis tentam demonstrar a solidão e a farsa do protagonista.

Passados mais de trinta anos, temos ao fim a constatação de que Candeias dirigiria apenas outros cinco longa-metragens -- "A Opção" ou "As Rosas da Estrada" (1981), "Manelão, o Caçador de Orelhas" (1982); "A Freira e a Tortura" (1983), novamente com Cardoso; "As Belas da Billings" e "O Vigilante" (1993) -- e, no total, onze curtas.

Avesso às badalações de praxe, trancou consigo uma fração considerável de nossa identidade fílmica. Silenciosa e feérica, sempre à espera de um próximo encontro com as telas. Reencontro desta vez frustrado, por nunca mais vir.

sábado, outubro 28, 2006

Possuídas Pelo Pecado


Falar dos filmes da Boca do Lixo – principalmente aqueles feitos entre 1974 e 1984 – é um prazer revigorante, tanto quanto assisti-los. Toda aquela mistura de vulgaridade recatada e cinismo de valores – aquilo que os atuais tempos caretas chamam de politicamente incorreto – tornam a maior parte do cinema da Boca diversão compulsiva para quem se embrenha por sua fortuna.

Vejamos, por exemplo, o caso dos filmes de Jean Garrett. Transferida para qualquer outra realidade menos estigmatizada, a cinematografia do diretor mereceria enxurradas de estudos acadêmicos, tamanha sua riqueza e possibilidades de interpretação. Filmes como “Tchau, Amor”, “O Fotógrafo”, “Amadas e Violentadas”, “Karina, Objeto do Prazer” e “Possuídas pelo Pecado” (1976) vão muito além das titulações sensacionalistas, produzidas no afã de atraírem o transeunte que, na porta do cinema, vacilasse entre uma sessão ou outra depois do expediente.

Claro que os felizardos que em 1976 assistiram a “Possuídas pelo Pecado”, no Marrocos ou no Marabá, com certeza não o fizeram apenas por conta do talento cinematográfico de Garrett. Belas mulheres, nudez à vontade, temas palpitantes – eram estas as motivações do espectador padrão do cinema da Boca naqueles anos. Mas, por trás dessa necessidade comercial, havia dedicados artistas de cinema, que mergulhados no imaginário popular e atendendo às demandas específicas do mercado consumidor, foram capazes de produzir filmes interessantíssimos.

Que toda essa introdução prepare o leitor para a surpresa, livre de preconceitos ou hipocrisias, de um roteiro tão contundente quanto o de “Possuídas Pelo Pecado”. Uma das melhores produções da Dacar e um dos três filmes que Jean Garrett inicialmente dirigiu para David Cardoso, a trama cheia de reviravoltas rocambolescas mostra um homem rico e amargurado, Doutor Leme (Benjamin Cattan), que sustenta à sua volta um pequeno séqüito de criados, no qual se destacam duas “secretárias”, Jussara (Zilda Mayo) e Anita (Helena Ramos, irreconhecível), sendo Anita alcoólatra terminal, introduzida no vício pelo milionário que tortura a moça seguidamente em troca de bebida.

De tão agressivos, os arroubos humilhantes do homem para com a empregada chegam a ser ridículos; ainda assim, provocam certa viração no estômago de quem não está acostumado ao mondo cane: “Beija, meus sapatos”, ordena – e Anita, lascivamente, obedece.

Garrett tinha obsessão por este tipo de dinâmica, pois há cena parecida em “Tchau, Amor”, envolvendo Antônio Fagundes e as sandálias de Angelina Muniz. Aqui, em troca das garrafas do whisky que bebe com sofreguidão, a personagem de Helena Ramos se submete até a um patético striptease – além, claro, de sucessivas bolachas e xingamentos, pelas razões mais pueris possíveis.

No meio desse hospício, a entourage tenta sobreviver: esposa (Meiry Vieira), o motorista André (David Cardoso), o desenhista Marcelo (Agnaldo Rayol, compadre de David e proprietário do belo refúgio que serviu de set), a empregada Isaura e sua filha Dorinha (esta última, Nicole Puzzi, muito jovem) – todos doentes pelo mecenato do tresloucado Leme. Arma-se, então, um intrincado plano para roubarem a fortuna do velho.

Ody Fraga – roteirista desta e de tantas outras produções da Dacar – faz seu papel, criando plots satisfatórios até a apoteose final, que sugere, cinicamente, a velha máxima do “dinheiro não traz felicidade.”

“Possuídas Pelo Pecado” rende aos incautos combustível suficiente para uma velha acusação ao cinema da Boca, aquela que o classifica como ultra-machista. Evidências não faltariam: as personagens mulheres se dividem entre femme fatales picaretas ou bobas de carteirinha. Mas percebam melhor a empregada Isaura, com seu pragmatismo sistemático; e o movimento final de Anita, vencendo a submissão e se associando à esposa do chefe.

Fica evidente que, por vezes, até na Boca o girl power funcionava, apesar de eventuais disposições contrárias – as quais, com certeza, deixariam Betty Friedan com vontade de virar um cálice de café nas arriflex da turma do Soberano.

terça-feira, outubro 03, 2006

A Noite das Taras 2


Dos quatro filmes em episódios realizados por David Cardoso entre 80-82, “Noite das Taras 2” (1982) é de longe o mais fraco. Nem por isso chega perto de ser ruim. Todos tinham em comum o roteiro e argumento de Ody Fraga e, com exceção do fenomenal “O Gafanhoto”, de John Doo, os episódios mais relevantes dos quatro filmes são justamente os dirigidos pelo roteirista.

Parecendo feito às pressas, “Noite das Taras 2” é curto e tem apenas dois episódios, não três como de praxe. O primeiro é o de Ody, chamado “Solo de Violino”, que conduz um drama psicológico doentio na história de um violinista (Ênio Gonçalves), homem cujo significado existencial parece estar atrelado ao nome do pai, músico fracassado e espezinhado pela mãe (Wanda Kosmo), possessiva e dominadora.

Sem grandes atrativos, com ecos de Rubem Fonseca ou Nelson Rodrigues, a história tem aquele mérito realista dos filmes da Boca em mostrar uma São Paulo depressiva, abandonada e triste – nem por isso menos atraente e cinematográfica. A vida do jovem violinista é cinza, sua mãe é mesquinha, as prostitutas com quem ele anda são desglamourizadas – todos lutam pela sobrevivência e ninguém parece ter qualquer prazer autêntico em sobreviver.

E se o primeiro episódio deixa o espectador melancólico, o segundo dirigido por Cláudio Portiolli é hedonismo puro. Em “A Guerra da Malvina”, David Cardoso, interpretando David Cardoso, tem sua casa assaltada por uma quadrilha de garotas bonitas, entre elas Malvina (Matilde Mastrangi). Divertido de tão cabotino, o episódio mostra as garotas extasiadas pelo reconhecimento de tão “ilustre” personalidade, se entregando a ele em série (ao som de "Runaway", de Del Shannon, em versão orquestra de baile) .

Parodiando a famigerada Guerra das Malvinas entre Argentina e Inglaterra, que acontecia naquele ano, novamente David e La Mastrangi protagonizam um show à parte. É curioso que Matilde, passadas duas décadas, não goste muito dos filmes que fez: ótima atriz, uma das mulheres mais bonitas que o cinema brasileiro já viu, ela com certeza fazia o ingresso valer cada centavo, tanto quanto uma Monica Vitti, brasileira e paulistana.

David aproveita para colocar em seu próprio filme uma garota tomando banho de banheira com seu pôster e outra visivelmente excitada por vê-lo fazendo xixi. Pareceria tolo, se não fosse cínico e cômico. E no final, a surpresa: em um curioso exercício de meta-linguagem, David e Matilde comentam sua participação no filme anterior – “Pornô!” – saindo de cena abraçados e prometendo uma nova maratona sexual.

Aliás, se você tiver a chance de rever alguns destes filmes em episódios da DaCar, esqueça o requentado “A Noite das Taras 2” e se concentre em “Pornô!”. Entre altos e baixos, os quatro filmes formariam um único suficientemente bom, com episódios selecionados entre eles.

Na verdade, as produções da DaCar refletiam um bocado o cinema feito na Boca do Lixo naquela época: quando acertavam eram geniais, quando erravam, eram só um pouco menos interessantes. Por tudo isso é que a Boca foi a tradução perfeita do que deveria ser um cinema brasileiro criativo, independente e próximo ao público. Infelizmente tudo isso ficou para trás. Vale a pena não esquecer, retornando a ela sempre que se falar da utopia de uma fábrica de ilusões auto-sustentável.

sábado, setembro 30, 2006

Pornô!


Junto com “A Noite das Taras”, David Cardoso e a DaCar Produções saíram com dois outros filmes em episódios, “Aqui, Tarados!” e “Pornô!” (1981), cujos títulos, exponencialmente escandalosos, deixam claro o quanto a necessidade de se vender sexo sob a chancela cinematográfica era grande naqueles tempos.

Ainda assim os filmes seguram as rédeas das coisas, não apelam, e com certeza podemos dizer que os três episódios de “Pornô!” são um espetáculo de razoável apreço pelo bom gosto. Nada muito diferente do que se via na Globo, a partir da década de 90, em seriados como “Dona Flor e Seus Dois Maridos” ou “Presença de Anita”: os mesmos diálogos cheios de insinuações divertidas e pueris, as mesmas incursões (com ousadia ingênua) à intimidade dos personagens em banhos de chuveiro ou ferventes téte-à-tétes.

E se o espectador se divertir assistindo ao clássico “Pornô!” – que de pornô não tem nada, emprestando o termo pela bilheteria – também vai poder notar uma certa discrepância entre os dois primeiros episódios, “As Gazelas” e “O Prazer da Virtude”, que apenas medianos, são redimidos pelo terceiro, “O Gafanhoto”, um exercício de roteiro e direção que deixaria Julio Cortázar ou Salvador Dali empolgados.

“As Gazelas”, dirigido por Luiz Castellini, mostra Bia (Maristela Moreno) e Maria Helena (Patrícia Scalvi) como um desajeitado casal de jovens lésbicas, sendo Maria Helena a caça e Bia a caçadora. Tentando seduzir a amiga, Bia utiliza-se de todos os subterfúgios possíveis para fazer com que a outra se entregue.

A precariedade do argumento é salva – como em todos os filmes da DaCar – pelo cuidado da ambientação e fotografia, deixando a ilusória impressão de que, na virada dos anos 70 para 80, a maioria dos cidadãos comuns habitava suntuosos apartamentos ou mansões nos Jardins, com teto alto e mobiliário antigo.

Já “O Prazer da Virtude”, dirigido por David, é o tipo de veículo que o diretor-ator-produtor adorava. Fazendo par com Matilde Mastrangi, David é Romano, um homem que seduz Ilona e a leva para sua casa, onde os dois iniciam um jogo erótico: Ilona insinua e Romano se defende. Doze horas transcorrem (a informação do tempo durante uma conversa é inútil, mas curiosa) até que Romano consiga que a moça vista um hábito de freira, e finalmente, os dois realizem-se mutuamente. Mais banal do que isso, impossível.

“Pornô!” interessa, na verdade, é por seu terceiro episódio, “O Gafanhoto”, de John Doo, que mostra Marcos (Arthur Rodever), um homem aprisionado em um casarão por uma jovem e atraente mulher cega, Diana (Zélia Diniz), que, no entanto, tem o poder de vigiar os passos do marido através de reflexos nos espelhos da casa. É um plot da Boca do Lixo, tão denso quanto uma pérola surrealista.

Diana limita Marcos de várias formas, principalmente pelo sexo – um erotismo diferente, tátil, onde a cegueira é parte da sedução. Certo dia, Marcos – ressentido pelo controle absoluto da mulher – captura um gafanhoto em um pote de vidro e traça analogias entre sua situação e a do bicho. Sendo os dois prisioneiros, Marcos resolve oferecer à mulher o gafanhoto. Ela, extasiada – ao som infernal de “Born Free”, música-tema do drama leonino de 1966, “A História de Elza” – passa a trocar o marido pelo prazer repugnante do inseto caminhando por seu corpo.

Marcos, enciumado, discute com Diana e num rompante de fúria quebra todos os espelhos da casa, impedindo-a de enxergar e, por extensão, controlá-lo. Como a falta de controle significa morte, a cada espelho quebrado uma cicatriz funda brota no rosto da mulher aterrorizada.

Perfeito em seu simbolismo, “O Gafanhoto” é um tema à parte, trabalhando com elementos da tensão Feminino-Masculino e com a questão psicanalítica dos invasivos e pertubadores mecanismos obsessivos. Por este roteiro e direção, Ody Fraga – que escreveu – e John Doo – que dirigiu – dão uma demonstração de quantos recursos técnicos e criativos possuíam, e do que eram capazes de fazer em cinema, além dos estigmas e preconceitos que cercavam seus trabalhos.

Quanto a David Cardoso, a partir de 1984, 85 começaria a sofrer – como todo o esquema de produção da Boca – o refluxo dos novos tempos, leia-se a explosão do vhs e da pornografia massificada.
Sem o poderio financeiro – e o gigantesco mercado consumidor norte-americano – de um Roger Corman, por exemplo, os ágeis e espertos diretores e produtores paulistanos bem que tentavam driblar as adversidades.

O caso de David, que fez até uma tentativa de documentário sobre Aids em 1986, é parte da história. Em trajetória descendente, no retorno
ao formato dos episódios – com “Caçadas Eróticas”, de 84 – a DaCar já se rendia aos novos tempos do sexo explícito enxertado na trama, comprometendo um bocado sua criatividade e graça popular.

segunda-feira, setembro 25, 2006

A Noite das Taras


Ninguém precisa se assustar com os títulos sugestivos dos filmes da Boca do Lixo, que aumentavam o sensacionalismo na proporção em que a indústria do cinema paulistano enfrentava dificuldades e declinava. Dessa forma, na virada da década de 70 para 80, um filme chamado “A Noite das Taras” (1980) não significava propriamente um espetáculo pornô ou de baixo nível, sendo um interessante exercício de cinema – onde o erotismo foi apenas chamariz comercial, tão suave quanto o que vemos hoje em dia na novela das oito.

“A Noite das Taras”, dividido em três episódios, faz com que três nomes conhecidos do esquema de produção da Boca – John Doo, David Cardoso e Ody Fraga – conduzam histórias diferentes girando sobre um mesmo tema: a noite de marinheiros, que desembarcados em Santos, se deslocam até São Paulo em busca de aventuras.

Os filmes em episódios eram uma saída inteligente para o cinema brasileiro daquele tempo, já que eram fáceis de fazer e permitiam que vários profissionais trabalhassem, repartissem os lucros e, em alguns casos, os gastos com a produção. A DaCar, produtora do galã David Cardoso, realizou filmes antológicos do gênero, e vamos analisá-los aqui um em seguida do outro.

David Cardoso – o homem por trás da marca – é figura polêmica, mas goste-se dele ou não sua trajetória profissional foi notável: a exemplo de Carlo Mossy e Reginaldo Faria – galãs e visionários cineastas – aceitar David significa entender uma maneira de se fazer cinema no Brasil sem depender exclusivamente das benesses do dinheiro público. Vale acrescentar também, por curiosidade, que, apesar de não ter sua produtora fisicamente situada na Boca, era lá que David buscava atores e técnicos, tornando seus filmes quase um paradigma do quadrilátero da Luz.

“A Noite das Taras” começa com o episódio “A Carta de Érico”, onde o chinês naturalizado paulistano John Doo mostra um marinheiro recém-chegado com uma missão: entregar uma carta em São Paulo para uma mulher misteriosa (Patrícia Scalvi), infeliz e viciada em drogas, moradora de um aristocrático apartamento.

Notem que o marinheiro é ninguém menos que Arlindo Barreto, o futuro palhaço Bozo, que antes de se consagrar como ídolo da criançada fez história na rua do Triunfo. Não há grandes surpresas na trama linear, que serve apenas de atmosfera e ambientação para as belas cenas de Scalvi nua e à sedução revigorante do marinheiro falastrão.

O segundo episódio, “Peixe Fora d'Água”, dirigido pelo próprio David Cardoso, conta sobre uma quadrilha dirigida por uma ninfomaníaca (Matilde Mastrangi), que faz de tudo – exatamente tudo – para que um marinheiro recém-desembarcado cometa um crime. Mastrangi, parecendo uma diva do cinema italiano, nos faz lembrar que, afinal, foi de lá que o cinema brasileiro seqüestrou a idéia dos filmes em episódios, a exemplo do clássico “Boccaccio 70”, onde Matilde deixaria Anita Ekberg intimidada.

Já a terceira história, “Julio e o Paraíso”, dirigida por Ody Fraga, é – talvez involuntariamente – a melhor de todas: um grupo de moças paupérrimas não tem o que comer, vão ser despejadas do cômodo onde moram e resolvem seduzir um marinheiro para roubá-lo. Como parte do plano, matam o homem através de uma maratona sexual, no subtexto que mescla influências de Luís Buñuel, mitologia grega e José Mojica Marins. Um clássico do cinema da Boca.

“A Noite das Taras” deve ter feito sucesso, pois David bancou dois anos depois a continuação, também em episódios – e no meio tempo, em 81, lançou “Pornô!” e "Aqui, Tarados!", que dialogam com os dois, formando uma quadrilogia que merece ser vista em seqüência, como um só filme conceitual em pequenas partes. Entre altos e baixos, cada uma destas histórias simples e popularescas traz em si algum encanto que as torna interessantes, divertidas ou, quem sabe, até mesmo inspiradoras de idéias para jovens cineastas que enxerguem longe.

segunda-feira, maio 15, 2006

Caingangue, A Pontaria do Diabo


Uma espécie de "Shane" (Os Brutos Também Amam) brasileiro, “Caingangue, A Pontaria do Diabo” (1973) foi rodado em Maracaju, cidade natal do galã David Cardoso, e conta com a curiosa participação de membros do clã Cardoso: a esposa (Evelise Olivier) e o pai de David (Oswaldo Cardoso), mocinha protagonista e comerciante numa ponta, respectivamente.

Somado a essa trupe familiar, David Cardoso atua como protagonista da produção com a assinatura R. F. Farias – empresa que garantia de saída um mercado distribuidor considerável através da Ipanema Filmes, presidida por Roberto Farias, Riva Faria, Jarbas Barbosa e Jece Valadão. Na direção e roteiro, Carlos Hugo Christensen, figura cosmopolita acostumada ao Rio de Janeiro, mas que decidiu embrenhar-se na fronteira do Mato Grosso com o Paraguai, dando vida ao argumento de Péricles Leal.

Caingangue (David Cardoso) é o justiceiro nascido numa aldeia indígena, recém-chegado à minúscula Santa Helena. Sem mover muitos músculos faciais, Caingangue vai pouco a pouco barbarizando e exterminando os capangas do latifundiário Dr. Ribeiro (Sérgio Britto), vilão para os posseiros que clamam por justiça social.

Shane pantaneiro, Caingangue tem aquela atmosfera de homem impenetrável, que fascina os seus pares. Em Hollywood, a dupla formada por Alan Ladd (Shane) e pelo garoto Brandon de Wilde beirava a histeria do segundo, numa idolatria pesada por Shane, possível substituto para o pai. Algo parecido acontece entre Caingangue e o filho de um dos posseiros, que fica sensibilizado pelo caubói indígena, criatura alerta e viril.

Na base dos sopapos e da espingarda, o justiceiro da tribo Caingangue – daí o seu nome – vai se impondo entre os foras-da-lei, afirmando que “está de passagem”. Simboliza o arquétipo que, tanto na língua inglesa quanto no português, tem a mensagem subliminar de ser um colonizador às avessas, vivendo um heroísmo que ele próprio não gostaria de encarar.

Há outras semelhanças entre os dois filmes: os planos paisagísticos, as mulheres vistas de relance, o amontoado de homens lutando por um punhado de chão. Mas o fato é que “Caingangue...”, como bom pastiche brasileiro, trouxe novidades surpreendentes em relação ao clássico far west.

Como exemplo, um dos bandidos, vá lá, se veste de preto – roupa parecida com a de Jack Palance, em “Os Brutos...” –, mas possui o delicado costume de castrar as vítimas a navalhadas. Aliás, o membro de uma delas é mostrado pelas câmeras antes do derradeiro golpe e de o corpo do infeliz ser arrastado pelo matagal.

George Stevens obviamente não trabalhou com cenas tão explícitas. Nem mesmo o suposto homossexualismo de Shane é igualável ao clima entre Dr. Ribeiro – que chega a usar um roupão roxo, possivelmente pela atenção de Christensen à escala cromática – e o capanga (Pedrinho Aguinaga). Mais uma vez encontramos a interação entre homem mais velho e homem mais novo, reiterada em quase todos os filmes do diretor argentino naturalizado brasileiro.

Outro fator em especial distancia “Caingangue” de “Os Brutos” – o brasileiro é passado no tempo presente (1973); “Os Brutos...”, na ocupação do Oeste americano, século XIX.

Além disso, Stevens não contou com “a colaboração da Viação Motta ou dos Produtos Mandetta”. Muito menos com a participação dos cavalos do 11o. Regimento de Cavalaria de Ponta Porã. Nem teve o cuidado didático de situar o espectador nas tradições locais. Um longo diálogo em “Caingangue...” comenta a situação das terras do Dr. Ribeiro, desde o Império à República, passando pela revolução de 30.

A brasilidade de “Caingangue...” guarda uma última surpresa no final, que parece ter saído de uma das produções da Dacar – a companhia cinematográfica de David Cardoso. Movendo os lábios pela primeira vez sem o objetivo da fala ou da alimentação, o indígena dá aquele sorriso irônico, confirmando o possível “convescote” com Micheline (Evelise Olivier), amante de Ribeiro.

Equívocos de ambientação aparecem de repente – o delegado e as casas mato-grossenses parecem-se demais com os americanos, o bigode de um dos marginais lembra os dos papa-defuntos chineses que viajavam pelo Oeste.

Mas ainda assim a montagem de João Ramiro Mello e a fotografia de Antonio Gonçalves chamam a atenção para este achado christenseniano: “Caingangue, A Pontaria do Diabo” possui o cuidado típico do diretor em construir os quadros como pinturas, contando como adendo o fato de ter uma temática rural contraposta à urbanidade de “A Morte Transparente” (1978) ou de “Anjos e Demônios” (1970). Logo, no cômputo geral, fica ressaltada a versatilidade de Carlos Hugo Christensen, erudito e conhecedor da multiplicidade de realidades brasileiras, como poucos conseguiram no nosso cinema.