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quinta-feira, outubro 07, 2010

A Mulata Que Queria Pecar


Se o Rio de Janeiro é a síntese do país e Copacabana a síntese da metrópole, com certeza o Shopping dos Antiquários -- Siqueira Campos, 143 -- resume bem o que seja o bairro mais famoso do mundo: luxo e Lixo (nome de extinta loja de moda hippie, no segundo piso), apartamentos confortáveis, coberturas monumentais e quitinetes modestas. Um mafuá de artistas, idosos, madames, prostitutas, vagabundos e tudo aquilo que nos faz sorrir e agradecer por Deus (e o diabo) terem feito sua grande obra.

"A Mulata que Queria Pecar" (1977), ode pornochanchadeira, anárquica, ao bairro e à carioquice extrema, talvez seja um dos melhores filmes do gênero -- o primeiro, claro, "Giselle". Ambos foram dirigidos pelo (a)moralista profissional Victor di Mello, cuja verve permanece eclipsada pela enorme sombra do semideus Carlo Mossy. Não se enganem sobre ambos, pois eram figuras que se completavam e sobre as quais pairava tanto amor, competição e amizade, que só uma pesquisa biográfica imparcial vai resgatar.

Aqui, Di Mello trabalha a história de um dia comum no Rio, onde Renato (Cláudio Olieni), atormentado pela sogra dominadora (Henriqueta Brieba), pega carona com um casal, depois de sogra e mulher fugirem durante passeio pelo Parque da Cidade. Dirigindo por Ipanema, caroneiro e casal avistam mulher e sogra. Porém, esqueçam, nada disso é o mote da narrativa: em outro ponto da praia, um grã-fino, Jonas (Celso Faria), paquera mulata jeitosa, e depois do motel a leva pra casa, no Shopping dos Antiquários.

Quem conhece bem o local ficará exultante em rever o teatro Opinião, nos fundos do empreendimento de mil unidades, cujo lançamento prometia "uma cidade dentro de outra" -- não à toa, seu nome de batismo é Super Shopping Center Cidade Copacabana. Profusão de lojas, dois teatros, um cinema -- que foi readaptado para supermercado -- e seis blocos de apartamentos talvez tenham confundido um pouco engenheiros e compradores, pois o término do projeto se arrastou durante décadas. Em 77, por exemplo, alguns blocos ainda não estavam finalizados, mas os depósitos do "Supermercado Leão Camarada" já aparecem esplendorosos.

Às portas do manjadíssimo Leão – hoje Sendas -- Jonas leva um flagrante da mulher, Bibi (Juciléia Telles), outra mulata espetacular, que entra com um pedido de desquite. Meses depois, duas festas se organizam: uma de Bibi e amigas, e outra do noivo (Antônio Pedro) que dera carona ao oprimido Renato, nas primeiras cenas. É sobre o desenrolar dessas festas que o filme trata.

Toda pornochanchada guarda momentos transcendentes, de epifania, e esse momento em "A Mulata Que Queria Pecar" é o clássico trenzinho de pelados cantando “Alalaô”, que a polícia descobre no apartamento de Bibi. Nada daquilo ocorria à toa: entre outras mumunhas, eles usam a palavra "desquite", mas já celebravam a lei do senador Nelson Carneiro, que estava nos finalmentes de instituir o divórcio, em junho de 77.

Trouxas e cretinos em geral vivem apontando que o desbunde, na comédia erótica, significava tentativa de controle do povo através do sexo. Outros, entendem na erotização da "mulata" ou simplesmente da mulher, inequívoco sinal de misoginia ou racismo. Mande-os às favas.

Quem hoje reveja o cinema de Di Mello, Mossy e tantos, compreende que sua aparente precariedade escondia mirações complexas, intelectualmente arrojadas. E que o sexo foi pista para um coquetel de sociologia esculhambativa, de reichianismo anárquico. Compartilhavam o ideal de que, através do cinema popular, faziam uma revolução (copacabanense) no público brasileiro, salvando-o da paranóia messiânica e das encucações esquizóides, viventes nas tardes marxistas do Laboratório Líder, em Botafogo.

A Censura odiou "A Mulata Que Queria Pecar" e tentou proibi-lo duas vezes: antes da estréia nos cinemas e quando estava para ser exibido na tv, em 1982. Detalhe para o fato de que o filme foi rodado no período em que Victor di Mello já era contratado da Vidya Filmes, de Mossy, mas mantinha produtora própria na Rua Senador Dantas, número 19, sala 806. O Canal Brasil trouxe todo esse ethos de volta, atestando sua qualidade de paradigma do espírito presepeiro tupiniquim.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Quando as Mulheres Paqueram


De um tempo em que as pessoas podiam fumar à vontade, Chacrinha não era considerado politicamente incorreto e pernocas de fora motivavam suspiros em vez de ódio, "Quando as Mulheres Paqueram" (1971) causará no espectador, quarenta anos depois, a incômoda impressão de ser avançado e ousado em excesso.

Na gênese da pornochanchada, a direção de Victor di Mello -- roteiro da atriz Dilma Lóes, sua mulher -- acertou em tudo, e não parece exagero dizermos que, ao lado de "Os Paqueras", esta foi a melhor comédia erótica realizada no país. Inicialmente chamado "Assim Nem a Cama Aguenta", exibido em festivais internacionais com esse título, angariou grande simpatia pelo lindo e jovem casal diretor-roteirista. Voltando ao Brasil a censura implicou, e a liberação terminou vinculada à troca de nome.

"Quando as Mulheres Paqueram" estreou no Rio em fevereiro de 1972. Carlos Imperial, em sua coluna, o definiu mais ou menos assim: "Conta a história de três garotas super da pesada que ficam abatendo os grandes abatedores de lebres que existem por aí" (sic). Traduzindo para o português de hoje, o filme pretende avançar na questão feminista -- grande pauta daquele ano que se iniciava -- mostrando duas primas, Ângela (Eva Christian) e Patrícia (Sandra Barsotti), além de uma amiga esquisitona, Meg (a própria Dilma Lóes), invertendo papéis e transformando em caça dúzias de garanhões caçadores.

Ângela é filha de um casal de meia-idade -- interpretado pelos pais de Dilma na vida real, Urbano Lóes e Lídia Mattos. Já a prima Patrícia retorna ao Brasil, junto com Meg, depois de longa temporada estudando em Londres. A produção se esforçou, despachando equipe para a Inglaterra e filmando na capital britânica as atrizes-turistas caminhando pela Carnaby Street, ouvindo discursos no Speaker´s Corner do Hyde Park e tumultuando a guarda do Palácio de Buckingham.

Por alguma razão misteriosa -- patrocínio? -- elas dispensam a Varig e compram passagens de volta ao Brasil pela Lufthansa. Já instaladas em terras cariocas iniciam um périplo, cada uma com seu objetivo: Meg pretende fazer pesquisas de comportamento; Patrícia quer faturar quantos homens puder. Ângela antipatiza com ambas, a quem considera umas "caretas".

Não se enganem com argumentos simplórios. Passeamos pela cidade maravilhosa do Antonio´s, do Zeppelin, do Castelinho e pelas inúmeras camas onde se deitam Ângela e Patrícia. Sandra Barsotti logo aprende a catequizar os locais com uma singela piscadinha, enquanto Eva Christian pratica topless em um apartamento cheio de amigos. Rivalizando em gostosura, vão enfileirando homens e situações não muito engraçadas, mas que servem de pano de fundo à crônica de costumes, tão ao estilo shagadellic da época.

Em certo momento o ator Cláudio Cavalcanti, antes de se apaixonar por uma melancia em "Vereda Tropical", faz o papel de si mesmo, saindo de uma incrível loja de artigos sonoros no Posto 6 -- e sendo abordado pelas furiosas. Outras vítimas são os galãs Carlo Mossy, David Cardoso e Francisco di Franco.

Sim, esta foi a primeira vez em que Carlo Mossy e David Cardoso -- os reis da pornochanchada - -- aparecem juntos nos créditos, embora não contracenem. Repetiram a dose, dezoito anos depois, no lendário "Solidão, Uma Linda História de Amor" (1989) -- também dirigido por Di Mello --, o maior elenco nacional já reunido em um dos piores filmes de todos os tempos.

Cansadas do Rio, as meninas sirigaitam em São Paulo, e a coisa ganha um ar ainda mais turístico que em Londres. De qualquer forma é bom ver a esquina de Paulista com Augusta irreconhecível, além do Monumento aos Bandeirantes, o Terraço Itália e outros pontos de interesse estereotipados, que certamente os realizadores cariocas puxaram pela memória.

Meg, a personagem de Dilma, é um espetáculo à parte com suas "pesquisas", chegando a vestir-se de mendiga para saber como é a vida nas ruas, tocando flauta de bumbum pra cima ou dirigindo um kart noite adentro. A última cena com Dilma, Mossy e Zózimo Bulbul na cama, sob um poster do futuro banido da vida artística Wilson Simonal, parece nos lembrar da impossibilidade de se compreender aquele espírito nos dias de hoje.

Não tanto pelos dramas descartáveis, mas pelas escolhas que seus personagens faziam, o cinema comercial dos anos 70 ganha ares cada vez mais exóticos e libertários. Responsáveis por seus atos, imunes ao vitimismo e à tutela, os ingênuos de outrora envelhecem como doces transgressores. Se discordam da observação sugiro experimentar em 2009 uma refilmagem de "Quando as Mulheres Paqueram". Depois chamem parte da crítica, do público -- quem sabe alguns alunos da Uniban -- para julgarem o resultado.


quarta-feira, setembro 26, 2007

O Seqüestro


Os maiores cineastas brasileiros ainda vivos, contam-se nos dedos das mãos. Não há nenhum favor em incluirmos Carlo Mossy neste rol seleto -- antes, é de se espantar que outros, com muito menos talento, vontade e capacidade criativa, estejam sempre lembrados, ao sacrifício dos verdadeiros construtores do imaginário fílmico nacional.

Claro que, ator, produtor ou diretor, Mossy não foi perfeito: enquanto algumas produções da Vidya tornaram-se apenas divertida nostalgia graffiti, outras -- "Giselle", "Ódio", "Crazy", etc -- continuam surpreendendo gerações e gerações de pesquisadores e cinéfilos.

Bastante influenciado pelo correção técnica e narrativa da indústria norte-americana, é curioso que seus melhores filmes pareçam mais um híbrido de brasilidade malandra com o cinema europeu dos gialli italianos e do erotismo francês. "O Seqüestro" (1981), exploitation do Caso Carlinhos -- menino seqüestrado no Rio, em 1973, e desaparecido para sempre -- remete àquelas semelhanças com perfeição.

Baseados no livro do jornalista Valério Meinel, o roteiro de José Louzeiro e a direção de Victor di Mello disfarçam, trocam o nome de Carlinhos por Zezinho, e o bairro de Laranjeiras por Santa Teresa. O objetivo era construir livremente um inferno de amoralidade cínica, investigando o submundo da corrupção policial e a desgraça de um pai, que supostamente encarcerou o filho em troca de recompensa financeira.

Típica engenhosidade das produções de Victor e Mossy, à trilha-sonora encomendada -- dessa vez aos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle -- sobrepõem-se imagens da noite carioca: a Praça Mauá, o Jockey Club, o Cinema Roxy. Até que, na última estrofe (Isso aí não é gente/ e parece com gente/ mas é um animal...), a câmera focalize um sorridente cachorrinho de pelúcia, para simbolizar o "animal" da canção (!).

Expresso o alívio cômico, vemos uma senhora assaltada em frente ao Ponto Frio da Av. Copacabana; enquanto isso, na delegacia, travestis em fúria são subornados pela polícia. Ah sim, estamos na "Casa da Lei": Mossy, é o Detetive Vilarinho; Jorge Dória, o Delegado Marcondes; Milton Moraes, o Subdelegado Argola. Os três comandam as investigações do Caso Zezinho.

A mãe do menino, Fátima (Helena Ramos) logo revela-se uma ninfomaníaca. O pai, Pedro Pereira (Adriano Reys), crápula dissimulado. No subterrâneo da instituição, torturas e sevícias correm soltas. Quando um banqueiro (Celso Faria) paga o resgate, o dinheiro é dividido entre pai e autoridades. Por fim, descobrimos que o filme foi (sic) "dedicado a SERPICO e a todos que tentam fazer da polícia uma instituição digna, capaz de oferecer realmente segurança a todo e qualquer cidadão".

Vale ressaltar que a conclusão da história apresentada é a do livro de Valério Meinel. Outro lendário repórter policial brasileiro, Octávio "Pena Branca" Ribeiro, tinha versão própria para o Caso Carlinhos, inocentando o pai -- como atesta seu depoimento no livro "Barra Pesada", da falecida Editora Codecri. A verdade é que a desafortunada criança da vida real nunca apareceu, enquanto uma penca de programas sensacionalistas dos anos 70 e 80 anunciavam a localização do garoto, cada vez em um canto diferente do país.

Curiosidade para as moças e rapazes que apreciam em Mossy não apenas seu talento cinematográfico: já no final da trama, vemos a única cena de nudez frontal da carreira do ator. O Detetive Vilarinho, flagrado em intercurso com uma "boneca" oitentista (Ângela Leclery, a mesma do assustador "Viagem ao Céu da Boca", com roteiro também de José Louzeiro) levanta-se inteiramente nu, e discute com o Subdelegado Argola, antes de afanar um dinheirinho da penteadeira da moçoila.

Exibido no Palácio 1 da Cinelândia -- hoje, a maior sala do Rio; na época, uma sala mediana -- entre novembro de 81 e fevereiro de 82, "O Seqüestro" andou morno de bilheteria; e, de certa forma, encerrou a grande era do cinema policial brasileiro dos anos 70. Boa notícia é que, junto com um pacote de outros cinco filmes de Mossy, foi tirado do limbo e relançado em edição bem cuidada. Com imagem e som perfeitos, o que já era bom, em dvd ficou ainda melhor.

segunda-feira, outubro 10, 2005

Giselle


Se “Cassy Jones” supostamente inaugurou o gênero da pornochanchada no Brasil, pode-se dizer que foi necessária quase uma década até que o estilo alcançasse seu apogeu e criasse a obra máxima. Tal como os russos precisaram de dez séculos de história para ver surgir um Dostoieviski, um Tolstoi, a grande década que a pornochanchada atravessou nos anos 70 culminou, em 1980, com o lançamento em centenas de cinemas no Brasil e no mundo de “Giselle”.

“Giselle” é um filme impressionante, em todos os sentidos. Merece um livro para estudá-lo, por suas múltiplas e ricas leituras. Cinema trash, panfleto libertário, carnaval do absurdo. Não há rótulo possível para a obra e quem consegue rotulá-la é porque não a compreende em sua totalidade. Vou optar pela via mais difícil de entendimento, que é a análise psicanalítica dos personagens. Colocar “Giselle” no divã talvez seja uma alternativa viável para seu tom de Pirandello.

Uma produção da Vidya (mais uma), direção de Victor di Mello, estrelada por ele, nosso homem nos anos 70, Carlo Mossy. A seleção da trilha sonora inacreditável também é de Mossy, com sucessos dos anos 60 interpretados por uma orquestra que lembra a famigerada “101 Strings”. Co-estrelando Maria Lúcia Dahl, Ricardo Faria, Nildo Parente e Alba Valéria; esta última é a personagem título e leitmotiv da trama.

Giselle é filha de Luchinni (Nildo Parente) e tem Haydeé (Dahl) de madrasta. Quando volta da Europa para o sítio do pai, encontra na madrasta não uma mãe, mas uma amante insaciável. Haydeé é apresentada como uma destas mulheres com TPN (Transtorno de Personalidade Narcísica), que encontra na jovem enteada seu refúgio para uma relação voraz, que amorteça sua frustração por estar envelhecendo. Giselle não se nega a ser o espelho de Haydeé; é uma quase adolescente amoral, que por trás de sua extrema felicidade e ingenuidade esconde um comportamento parasitário e perverso.

Notem que não haveria Giselle sem o pai, Luchinni. É ele que a sustenta, que a mantém em seu mundo hedonista. Haydeé, a esposa, também o parasita, e Luchinni é passivo a tudo porque também esconde um segredo. Enquanto Haydeé e Giselle transam no quarto ao lado, Luchinni trata a todos com bondade, tolerância e aspecto cordato. Antes de Haydeé, no entanto, Giselle também estava envolvida sexualmente com o capataz do sítio, Ângelo (Mossy). Com o planejamento das duas, Ângelo é trazido da “senzala” para dentro da casa grande, e os três formam um daqueles trisais típicos de quem vê a vida com bons olhos.

Ângelo esconde, por trás da sua aparência de capataz fiel, uma personalidade bombástica, pronta a explodir. É bissexual, libertário, ama Giselle e Haydeé como se daquilo dependesse sua vida (e dependia). Quando o filho de Haydeé, Serginho (Ricardo Faria), chega do Rio, o teatro se completa. Ângelo domina a tudo e a todos com sua masculinidade insinuante e decreta aos discípulos embevecidos uma ditadura falocêntrica.

Em suma, Ângelo transa com Serginho, Haydeé e Giselle. Os três o adoram e ele responde esta adoração com proteção. Quando marginais tentam bater em Serginho, uma briga tem início e Ângelo quase morre para defender o amigo. No fim das contas os quatro são estuprados pelos marginais, em uma das cenas mais absurdas e grotescas do cinema mundial.

Por outro lado, Giselle é uma daquelas personalidades que tem o poder de transformar com seus atos a vida das outras pessoas. A madrasta Haydeé é quase sua escrava. Serginho tem uma relação simbiótica com ela, com quem compartilha seus desejos. Ângelo, por sua vez, respeita Giselle como uma igual e os dois transitam por todos os universos, cientes de seu domínio sobre os outros.

O que chama muita atenção no filme, mais do que um enredo tão rocambolesco quanto envolvente, é a pretensão libertária que involuntariamente adquire aos poucos, mesmo que por trás de um alerta conservador nas primeiras cenas (respirem fundo): “Assim como na antiga civilização romana, como em Sodoma e Gomorra, todas as vezes que uma sociedade está em decadência, a principal característica, é a falta de valores morais, a promiscuidade sexual, o desamor, as frustrações, e os desencontros. Os dias que hoje estamos vivendo, não diferem muito daqueles que antecederam a destruição daquelas sociedades”.

Este blábláblá meio “O Homem do Sapato Branco” (lembram disso?) é esquecido ao longo da história, demonstrando a obviedade de que o texto moralista foi plantado ali apenas para agradar aos velhinhos censores. Victor di Mello, Mossy e todos que atuaram, na verdade simpatizavam era com a liberdade sexual e, no seu estilo pitoresco, trabalharam em uma ode a ela.

A trilha-sonora repete insistentemente “San Francisco”, o hino hippie da geração flower-power. É necessário que se escreva um “Afinal, quem faz os filmes” brasileiro, parodiando a obra clássica de Peter Bogdanovich, para que entendamos melhor o que se passava pela cabeça dos intrépidos cineastas e suas inspirações duvidosas. À primeira vista, fica a pergunta: “San Francisco” durante longas cenas foi uma maneira “sutil” de evocar outra época recente, mais libertária? E por que quando Mossy e Giselle estão em plenos trabalhos na cachoeira, escutamos ao fundo o clássico dos Beatles, “Let it be”?

Acentuando o aspecto libertário, temos além das cenas de bacanal, outras em que o consumo de maconha é farto. Giselle, Ângelo e Serginho em certo momento partem para o fight com Zózimo Bulbul, o negro-fetiche das mulheres e dos homens brasileiros dos anos 70. Bulbul se deixa chicotear pelos três, pede mais, Mossy fumando um baseado entra em êxtase e em seu complexo de onipotência dá uma surra em todos. “Bate machão, bate!” – Serginho pede, e a gente se pergunta por que é a Conspiração Filmes, não a Vidya, quem manda no cinema brasileiro hoje em dia.

O filme termina com a separação, a dissolução daquele arranjo sexual fabuloso. Haydeé, a narcísica, abandona o marido e vira traficante de drogas. Serginho dá vazão ao seu homossexualismo e vira uma vedete carnavalesca. Ângelo e Giselle se entregam à realização plena de suas personalidades, mas Ângelo parece ter apanhado uma doença sexual, em cena final duvidosa.

Resta Luchinni, que abandonado por todos e pego em flagrante de pedofilia (sim, até isso conseguiram encaixar, ele lê uma revistinha com o título de “O amiguinho do Rei”), assume sua condição de provedor dos parasitas e sustenta a felicidade (?) de todos. Se me contassem que “Giselle” existe, eu duvidaria. Mas foi filmado no Rio de Janeiro em meados de 1979. E, segundo os responsáveis, vendido para quase trinta países. Há muito mais a ser dito, e tal como uma manchete do Notícias Populares, ninguém perde por esperar.