segunda-feira, maio 15, 2006

Caingangue, A Pontaria do Diabo


Uma espécie de "Shane" (Os Brutos Também Amam) brasileiro, “Caingangue, A Pontaria do Diabo” (1973) foi rodado em Maracaju, cidade natal do galã David Cardoso, e conta com a curiosa participação de membros do clã Cardoso: a esposa (Evelise Olivier) e o pai de David (Oswaldo Cardoso), mocinha protagonista e comerciante numa ponta, respectivamente.

Somado a essa trupe familiar, David Cardoso atua como protagonista da produção com a assinatura R. F. Farias – empresa que garantia de saída um mercado distribuidor considerável através da Ipanema Filmes, presidida por Roberto Farias, Riva Faria, Jarbas Barbosa e Jece Valadão. Na direção e roteiro, Carlos Hugo Christensen, figura cosmopolita acostumada ao Rio de Janeiro, mas que decidiu embrenhar-se na fronteira do Mato Grosso com o Paraguai, dando vida ao argumento de Péricles Leal.

Caingangue (David Cardoso) é o justiceiro nascido numa aldeia indígena, recém-chegado à minúscula Santa Helena. Sem mover muitos músculos faciais, Caingangue vai pouco a pouco barbarizando e exterminando os capangas do latifundiário Dr. Ribeiro (Sérgio Britto), vilão para os posseiros que clamam por justiça social.

Shane pantaneiro, Caingangue tem aquela atmosfera de homem impenetrável, que fascina os seus pares. Em Hollywood, a dupla formada por Alan Ladd (Shane) e pelo garoto Brandon de Wilde beirava a histeria do segundo, numa idolatria pesada por Shane, possível substituto para o pai. Algo parecido acontece entre Caingangue e o filho de um dos posseiros, que fica sensibilizado pelo caubói indígena, criatura alerta e viril.

Na base dos sopapos e da espingarda, o justiceiro da tribo Caingangue – daí o seu nome – vai se impondo entre os foras-da-lei, afirmando que “está de passagem”. Simboliza o arquétipo que, tanto na língua inglesa quanto no português, tem a mensagem subliminar de ser um colonizador às avessas, vivendo um heroísmo que ele próprio não gostaria de encarar.

Há outras semelhanças entre os dois filmes: os planos paisagísticos, as mulheres vistas de relance, o amontoado de homens lutando por um punhado de chão. Mas o fato é que “Caingangue...”, como bom pastiche brasileiro, trouxe novidades surpreendentes em relação ao clássico far west.

Como exemplo, um dos bandidos, vá lá, se veste de preto – roupa parecida com a de Jack Palance, em “Os Brutos...” –, mas possui o delicado costume de castrar as vítimas a navalhadas. Aliás, o membro de uma delas é mostrado pelas câmeras antes do derradeiro golpe e de o corpo do infeliz ser arrastado pelo matagal.

George Stevens obviamente não trabalhou com cenas tão explícitas. Nem mesmo o suposto homossexualismo de Shane é igualável ao clima entre Dr. Ribeiro – que chega a usar um roupão roxo, possivelmente pela atenção de Christensen à escala cromática – e o capanga (Pedrinho Aguinaga). Mais uma vez encontramos a interação entre homem mais velho e homem mais novo, reiterada em quase todos os filmes do diretor argentino naturalizado brasileiro.

Outro fator em especial distancia “Caingangue” de “Os Brutos” – o brasileiro é passado no tempo presente (1973); “Os Brutos...”, na ocupação do Oeste americano, século XIX.

Além disso, Stevens não contou com “a colaboração da Viação Motta ou dos Produtos Mandetta”. Muito menos com a participação dos cavalos do 11o. Regimento de Cavalaria de Ponta Porã. Nem teve o cuidado didático de situar o espectador nas tradições locais. Um longo diálogo em “Caingangue...” comenta a situação das terras do Dr. Ribeiro, desde o Império à República, passando pela revolução de 30.

A brasilidade de “Caingangue...” guarda uma última surpresa no final, que parece ter saído de uma das produções da Dacar – a companhia cinematográfica de David Cardoso. Movendo os lábios pela primeira vez sem o objetivo da fala ou da alimentação, o indígena dá aquele sorriso irônico, confirmando o possível “convescote” com Micheline (Evelise Olivier), amante de Ribeiro.

Equívocos de ambientação aparecem de repente – o delegado e as casas mato-grossenses parecem-se demais com os americanos, o bigode de um dos marginais lembra os dos papa-defuntos chineses que viajavam pelo Oeste.

Mas ainda assim a montagem de João Ramiro Mello e a fotografia de Antonio Gonçalves chamam a atenção para este achado christenseniano: “Caingangue, A Pontaria do Diabo” possui o cuidado típico do diretor em construir os quadros como pinturas, contando como adendo o fato de ter uma temática rural contraposta à urbanidade de “A Morte Transparente” (1978) ou de “Anjos e Demônios” (1970). Logo, no cômputo geral, fica ressaltada a versatilidade de Carlos Hugo Christensen, erudito e conhecedor da multiplicidade de realidades brasileiras, como poucos conseguiram no nosso cinema.

4 comentários:

Nirton Venancio disse...

Andréa, a analogia que você faz com o filme de George Stevens é perfeita. Deu-me vontade de rever esse trabalho do versátil Christensen.

Nirton Venancio disse...

Andréa, reli agora o post sobre "Em família" e na primeira leitura não percebi que o Paulo Porto estava entre os que você cita como falecidos. Quanta gente boa naquele filme! E que filme maravilhoso!

Quero lhe dar uma sugestão de entrevista: o montador Severino Dadá. É uma enciclopédia do cinema brasileiro. Se lhe interessar, passo-lhe o contato por e-mail.

sergio andrade disse...

Acabei perdendo esse :(
Ótimo o texto Andréa. Adorei o Shane pantaneiro e "beirava a histeria do segundo" :)
Beijo!

Andréa Ormond disse...

Nirton, valeu pela sugestão. Já estou com algumas entrevistas engatilhadas, é coisa à beça. Mas assim que puder falo com vc, sim, com certeza :)

Sergio, obrigada :) Tem horas em que o Brandon de Wilde parece que vai surtar a qq minuto, não parece? rs Beijo!