terça-feira, outubro 03, 2006

A Noite das Taras 2


Dos quatro filmes em episódios realizados por David Cardoso entre 80-82, “Noite das Taras 2” (1982) é de longe o mais fraco. Nem por isso chega perto de ser ruim. Todos tinham em comum o roteiro e argumento de Ody Fraga e, com exceção do fenomenal “O Gafanhoto”, de John Doo, os episódios mais relevantes dos quatro filmes são justamente os dirigidos pelo roteirista.

Parecendo feito às pressas, “Noite das Taras 2” é curto e tem apenas dois episódios, não três como de praxe. O primeiro é o de Ody, chamado “Solo de Violino”, que conduz um drama psicológico doentio na história de um violinista (Ênio Gonçalves), homem cujo significado existencial parece estar atrelado ao nome do pai, músico fracassado e espezinhado pela mãe (Wanda Kosmo), possessiva e dominadora.

Sem grandes atrativos, com ecos de Rubem Fonseca ou Nelson Rodrigues, a história tem aquele mérito realista dos filmes da Boca em mostrar uma São Paulo depressiva, abandonada e triste – nem por isso menos atraente e cinematográfica. A vida do jovem violinista é cinza, sua mãe é mesquinha, as prostitutas com quem ele anda são desglamourizadas – todos lutam pela sobrevivência e ninguém parece ter qualquer prazer autêntico em sobreviver.

E se o primeiro episódio deixa o espectador melancólico, o segundo dirigido por Cláudio Portiolli é hedonismo puro. Em “A Guerra da Malvina”, David Cardoso, interpretando David Cardoso, tem sua casa assaltada por uma quadrilha de garotas bonitas, entre elas Malvina (Matilde Mastrangi). Divertido de tão cabotino, o episódio mostra as garotas extasiadas pelo reconhecimento de tão “ilustre” personalidade, se entregando a ele em série (ao som de "Runaway", de Del Shannon, em versão orquestra de baile) .

Parodiando a famigerada Guerra das Malvinas entre Argentina e Inglaterra, que acontecia naquele ano, novamente David e La Mastrangi protagonizam um show à parte. É curioso que Matilde, passadas duas décadas, não goste muito dos filmes que fez: ótima atriz, uma das mulheres mais bonitas que o cinema brasileiro já viu, ela com certeza fazia o ingresso valer cada centavo, tanto quanto uma Monica Vitti, brasileira e paulistana.

David aproveita para colocar em seu próprio filme uma garota tomando banho de banheira com seu pôster e outra visivelmente excitada por vê-lo fazendo xixi. Pareceria tolo, se não fosse cínico e cômico. E no final, a surpresa: em um curioso exercício de meta-linguagem, David e Matilde comentam sua participação no filme anterior – “Pornô!” – saindo de cena abraçados e prometendo uma nova maratona sexual.

Aliás, se você tiver a chance de rever alguns destes filmes em episódios da DaCar, esqueça o requentado “A Noite das Taras 2” e se concentre em “Pornô!”. Entre altos e baixos, os quatro filmes formariam um único suficientemente bom, com episódios selecionados entre eles.

Na verdade, as produções da DaCar refletiam um bocado o cinema feito na Boca do Lixo naquela época: quando acertavam eram geniais, quando erravam, eram só um pouco menos interessantes. Por tudo isso é que a Boca foi a tradução perfeita do que deveria ser um cinema brasileiro criativo, independente e próximo ao público. Infelizmente tudo isso ficou para trás. Vale a pena não esquecer, retornando a ela sempre que se falar da utopia de uma fábrica de ilusões auto-sustentável.

7 comentários:

Jorge Rubies disse...

Prezada Andréa, eu curti muito o episódio do violinista do filme: o enredo prende a atenção, os atores são de primeira (Ênio Gonçalves e Wanda Kosmos, sempre excelentes), mas o que eu adorei mesmo foram as locações na pitoresca Vila Napolitana, um gracioso conjunto de casas na Rua Vitorino Carmilo, na Barra Funda que mais parece uma cidadezinha medieval européia.

sergio disse...

Oi, Andréa! Sem dúvida "Pornô" é melhor, mas gostei desse Noite das Taras 2, em especial do primeiro episódio. O confronto entre mãe e filho tem força!
Já o segundo vale principalmente pelo excelente time feminino, com Matilde a frente :)
Beijos!

Marcelo V. disse...

O Ênio comentou comigo recentemente sobre este episódio do violinista, que infelizmente ainda não pude ver. Tive a alegria de dirigi-lo recentemente (num curta que também traz o Carlo Mossy e a Kate Hansen, além do jovem Gustavo Engracia), se quiser ver algumas fotos, elas estão no meu blog.

Marcelo V. disse...

Esqueci: o endereço é cinemacuspido.blogspot.com.

Anônimo disse...

Andrea, como você tem acesso aos filmes comentados neste blog???

Andréa Ormond disse...

Jorge, valioso seu comentário sobre o local das filmagens, obrigada :)

Oi Sergio, eu acho o primeiro episódio interessante, o elenco é impecável, mas fiquei com a impressão de que o roteiro do Ody peca um pouco em originalidade, principalmente se comparado aos do primeiro "Noite" e ao "Pornô". Mas como tudo da Boca, é entretenimento de primeira :) Beijos!

Oi Marcelo, o Mossy comentou comigo sobre o curta que vocês fizeram :) Quando estiver finalizado, me avise, estou curiosa para assistir.

Anônimo, tenho muitos vhs antigos e o Canal Brasil também ajuda um bocado :)

ademar amancio disse...

Eu sempre gostei de pornochanchada pelo simples prazer visual,pois eu sou um voyeur a mil por hora,não sabia que este tipo de cinema tinha qualidades artística,obrigada pela ressignificação destes filmes.