segunda-feira, outubro 23, 2006

Golias Contra o Homem das Bolinhas


Não é todo dia que um filme como “Golias Contra o Homem das Bolinhas” (1969) vence a barreira do tempo e consegue ser relançado em dvd.

Uma daquelas comédias que a produtora de Herbert Richers produzia em série, foi veículo objetivo para a graça do humorista Ronald Golias, que empresta seu nome ao título e sua presença nos delírios do personagem principal, o desafortunado Augusto (Otelo Zelloni). Mas, além do trivial, o “Homem das Bolinhas” oferece aos tripulantes do século XXI um rico arsenal de imagens e histórias, sobre os atores e a locação – no caso, a São Paulo da virada da década de 60 para 70.

“Veja a nova São Paulo, a cidade que se humaniza”, diz a placa explicativa, logo nos primeiros dez minutos de filme -- entre a viagem aérea de Golias pelo Centro, agarrado em balões de parque que o arrastavam, e a demonstração da vida terrível de Augusto, pobre burocrata atormentado por uma esposa possessiva (Zilda Cardoso) e um cunhado parasita. Augusto é tão infeliz que precisa implorar dinheiro à mulher para passear – sozinho – domingo pela cidade, dando uma passadinha pelo antigo Cine Astor, no Conjunto Nacional, e pelo Art Palácio, no Largo do Paissandu.

Termina sua “farra” bebendo coca-cola em um restaurante, lembrando ao garçom para lhe trazer a tampinha, na esperança de estar premiada. Em vez de uma televisão Colorado RQ ou um Karmanghia, ele ganha uma improvável paquera: Arlete (Íris Bruzzi), que ao lado de uma amiga (Darlene Glória) vivem de receber “primos”, no edifício suspeito onde moram.

Penhorado um relógio, ganho por vinte anos de trabalho árduo – único bem de valor que possuía – Augusto marca encontro com Arlete. Dali em diante, por conta de uma armadilha do destino, sua vida vira um inferno. Atormentado pela perseguição imaginária de Pacífico -- o personagem de Golias -- Augusto comete até a imprudência de escalar as obras da construção do Hotel Hilton, olhando o imponente Edifício Copan, este inaugurado poucos anos antes.

Uma multidão caça Augusto, que usava uma deprimente gravata de bolinhas – daí o título do filme. Golias aparece menos que Zelloni – e, de fato, o ator italiano naturalizado brasileiro, morto precocemente nos anos 70, faz o que quer no filme. Com um elenco excepcional, que inclui ainda Costinha (como dentista) e Benjamin Cattan (como advogado), é um mérito a se destacar o tipo inesquecível de loser que o Arturo de “São Paulo Sociedade Anônima” -- na época parceiro de Golias na “Família Trapo” -- cria com folgas.

Retendo-se também a direção segura do veterano – da época das chanchadas – Victor Lima, e a fotografia bem cuidada de outro oriundi, Guglielmo Lombardi – que começara no cinema italiano, ainda nos anos 30 – “Golias Contra o Homem das Bolinhas” sobrevive muito além da comédia de ocasião, trazendo um retrato coloridíssimo da São Paulo (que se humanizava?) naquele conturbado crepúsculo de década, no país da tortura e dos generais. Uma pena que Ronald Golias tenha falecido, aos 76 anos em 27 de Setembro de 2005, pouco antes do filme ser relançado pela Coleção Herbert Richers.

6 comentários:

Matheus Trunk disse...

Oi Andrea: só estou aqui para dizer que se não fosse esse GOLIAS CONTRA O HOMEM DAS BOLINHAS BRANCAS e outros filmes extraordinários como esse, eu nunca teria me interessado por cinema brasileiro. Victor Lima não é artesão; é poeta mesmo. Gosto de diversas coisas dele. Esse filme é muito especial, uma verdadeira obra-prima e Otelo Zeloni serevela um gigante da comédia tupiniquim. A crítica está a altura do filme Andrea, sendo uma bela declaração de amor ao cinema e a cidade de São Paulo. Mas faltou dizer que o cara que faz o cunhado dele é genial e o Zeloni termina a fita vendendo picolé no zoológico !! É sensacional. É bom lembrar que o Antônio Pitanga faz o porteiro do prédio da Iris Bruzzi. Parabéns Andrea pela boa crítica e espero que nossos esforços pelo cinema brasileiro não sejam NUNCA em vão.

Eduardo Aguilar disse...

Nossa!!! deu a maior vontade de ver o filme, q. eu ainda desconheço!!! Sou fã tanto de Golias, comediante extraordinário! mas de Zeloni, um ator extraodinário!!!

Andréa Ormond disse...

Oi Matheus! Aos poucos a gente vai falando sobre tanta coisa interessante no cinema. Até porque, na prática, todo mundo pode se divertir, nem que seja para assistir aos filmes e matar, no mínimo, a curiosidade de ver algo diferente e, dependendo do caso, inusitado mesmo.

Fala Edu!!! Os dilemas do Zeloni com o Golias e a Zilda Cardoso são muito cômicos mesmo. Aliás, a Zilda é ídola, com aquele jeitão cínico. Lembro logo dela incorporando a Catifúndia rsrs

Marcos Fritsch disse...

Que droga. Peguei o filme no fim, no Canal Brasil.
São Paulo é personagem dessa película. Vale gravar e prestar atenção nos detalhes, não só as locações, mas a arquitetura, veículos, roupas, objetos de cena (fogão, chaleira, interruptor, janela, etc). Sacanagem foi botarem o negro Pitanga como o assassino...

Anônimo disse...

Não conhecia esse filme, mas zapeando pela programação do Canal Brasi me deparei com esse filme e pus pra gravar, pois gosto do Golias. Fiquei fascinado pelas imagens da São Paulo de 40 anos atras,os carros (como tinha fusca), o Conjunto Nacional, O Cine Astor onde hj é a Livraria Cultura e mais um monte de coisas, incluindo roupas da época, móveis, etc..e claro, os atores, acho que já todos falecidos. Fantástico!

Mr-X disse...

Não é um grande filme, mas gostei muito de ver por três motivos: 1)Zeloni, que rouba mesmo o filme; 2) Iris Bruzzi, lindíssima; 3) a São Paulo de 44 anos atrás. Quem me decepcionou na película, mesmo, foi Golias, realmente menor que Zeloni - este sim um gigante.