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domingo, março 06, 2011

O Libertino


A diferença entre o reacionarismo dos anos 60 e 70 para o de hoje é que a vigilância não contaminava endemicamente todos os setores da sociedade. Havia resistência nas artes, no comportamento, além de uma franca dicotomia entre "velhos" e "novos", entre vanguarda e ultrapassado. Em 2011, corremos o risco de presenciar garotos universitários brandindo discursos substantivos de jargões pseudo-iconoclastas, porém repletos daquela ânsia adjetiva de controle social.

Até no moralismo de outrora, sob aspecto de caricatura, havia certo humor. E cínicos, que contrabandeavam sacanagem entre gritos de alerta e avisos sobre a "decadência dos bons costumes".

Leiam a picardia, proibida pela Censura: "Copacabana em Trajes Íntimos", de Diderot Freitas, um moralista que escreveu o fulgurante tratado sobre a dolce vita balneária. Ou recordem o epílogo de "Giselle", quando Victor Di Mello e Carlo Mossy, depois de construírem um monumento à perversão, lançam uma bomba atômica sob a civilização ocidental e saem felizes para beber um chopp no Fiorentina.

"O Libertino" (1973), estrelando o fenomenal Lírio Mário da Costa, vulgo Costinha, manipula justamente este universo exacerbado da moralidade, esta vontade de que a família brasileira não se perca. Claro, o comendador Emanuel, homem de reputação ilibada, dono de uma fábrica de chapéus, acabará tragado pela indecência e malandragem carioca, alugando sem querer sua nobre ex-residência para um prostíbulo.

Dirigido por Victor Lima, veterano das chanchadas, "O Libertino" não conseguiu fazer Costinha render tanto quanto Ronald Golias -- com o mesmo Lima, quatro anos antes -- em "Golias Contra o Homem das Bolinhas" (1969).

Um crítico de teatro contemporâneo diria que o humorista parece "preso", tímido no papel, o que é um paradoxo em se tratando de uma força da natureza como Costinha. Solta, apenas sua consciência. Em papel duplo, Costinha usa bermudas e camiseta florida, contraponto aos vestutos jaquetões do Comendador.

Agradecimentos "ao Deputado Afonso Nunes e à rádio patrulha do Estado da Guanabara", o sofá vermelho-bombeiro do psicanalista e uma palestra na Tv Tupi formam parte do tesouro arqueológico inerente à revisão de qualquer pornochanchada. Cinqüenta e oito anos de repressão sexual, o Comendador ainda sofre com as escapadas da neta rumo à Barra da Tijuca. Na época, um antro de perdição urbana, palco das "corridas de submarino", das ancestrais curras e de tantas mumunhas eróticas da metrópole.

A evolução de Emanuel para sócio da libertinagem incomodou bastante os censores, o filme teve enormes dificuldades para ser exibido. Perde-se em meio ao universo da comédia sexual escapista, utilizando recursos tão didáticos quanto a vinheta sonora na exibição de um derrière feminino.

Victor Lima, hoje esquecido, fabricou momentos melhores, entre eles "Bonga, o Vagabundo" (1971), parceria com outro gênio do humor, Renato Aragão. Morreria em 1981, durante a finalização de "Os Paspalhões em Pinóquio 2000", tragédia que atrasou o lançamento e custou a falência da Vidya Produções, de Carlo Mossy, que enterrara todo seu capital obtido em “Giselle” na malfadada produção infantil. acusada de ser mera cópia de "Os Trapalhões". Ciranda que já nos leva a outras tantas histórias, para serem contadas em breve.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Golias Contra o Homem das Bolinhas


Não é todo dia que um filme como “Golias Contra o Homem das Bolinhas” (1969) vence a barreira do tempo e consegue ser relançado em dvd.

Uma daquelas comédias que a produtora de Herbert Richers produzia em série, foi veículo objetivo para a graça do humorista Ronald Golias, que empresta seu nome ao título e sua presença nos delírios do personagem principal, o desafortunado Augusto (Otelo Zelloni). Mas, além do trivial, o “Homem das Bolinhas” oferece aos tripulantes do século XXI um rico arsenal de imagens e histórias, sobre os atores e a locação – no caso, a São Paulo da virada da década de 60 para 70.

“Veja a nova São Paulo, a cidade que se humaniza”, diz a placa explicativa, logo nos primeiros dez minutos de filme -- entre a viagem aérea de Golias pelo Centro, agarrado em balões de parque que o arrastavam, e a demonstração da vida terrível de Augusto, pobre burocrata atormentado por uma esposa possessiva (Zilda Cardoso) e um cunhado parasita. Augusto é tão infeliz que precisa implorar dinheiro à mulher para passear – sozinho – domingo pela cidade, dando uma passadinha pelo antigo Cine Astor, no Conjunto Nacional, e pelo Art Palácio, no Largo do Paissandu.

Termina sua “farra” bebendo coca-cola em um restaurante, lembrando ao garçom para lhe trazer a tampinha, na esperança de estar premiada. Em vez de uma televisão Colorado RQ ou um Karmanghia, ele ganha uma improvável paquera: Arlete (Íris Bruzzi), que ao lado de uma amiga (Darlene Glória) vivem de receber “primos”, no edifício suspeito onde moram.

Penhorado um relógio, ganho por vinte anos de trabalho árduo – único bem de valor que possuía – Augusto marca encontro com Arlete. Dali em diante, por conta de uma armadilha do destino, sua vida vira um inferno. Atormentado pela perseguição imaginária de Pacífico -- o personagem de Golias -- Augusto comete até a imprudência de escalar as obras da construção do Hotel Hilton, olhando o imponente Edifício Copan, este inaugurado poucos anos antes.

Uma multidão caça Augusto, que usava uma deprimente gravata de bolinhas – daí o título do filme. Golias aparece menos que Zelloni – e, de fato, o ator italiano naturalizado brasileiro, morto precocemente nos anos 70, faz o que quer no filme. Com um elenco excepcional, que inclui ainda Costinha (como dentista) e Benjamin Cattan (como advogado), é um mérito a se destacar o tipo inesquecível de loser que o Arturo de “São Paulo Sociedade Anônima” -- na época parceiro de Golias na “Família Trapo” -- cria com folgas.

Retendo-se também a direção segura do veterano – da época das chanchadas – Victor Lima, e a fotografia bem cuidada de outro oriundi, Guglielmo Lombardi – que começara no cinema italiano, ainda nos anos 30 – “Golias Contra o Homem das Bolinhas” sobrevive muito além da comédia de ocasião, trazendo um retrato coloridíssimo da São Paulo (que se humanizava?) naquele conturbado crepúsculo de década, no país da tortura e dos generais. Uma pena que Ronald Golias tenha falecido, aos 76 anos em 27 de Setembro de 2005, pouco antes do filme ser relançado pela Coleção Herbert Richers.