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sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Ariella


John Herbert faleceu há quase um mês e poucos sabem que além da pinta de galã – docinho de coco, o genro ideal em “Alô Doçura” na TV Tupi –, foi diretor de cinema. Mais do que isto: dirigiu “Ariella” (1980), o noir exploitation em que Nicole Puzzi aparece com todas as suas plumas.

Baleado por uma pneumonia, Herbert perde a vaga na equipe de natação para as Olimpíadas de Londres, 1948. Repete a trajetória do Cinema Novo – David Neves, Arnaldo Jabor, Carlos Diegues – e frequenta a faculdade de Direito. As semelhanças terminam aí. Depois disto, ficam só os extremos.

Herbert encara o show business, vai parar na Vera Cruz (“Floradas na Serra”, 1954), na Atlântida (“Matar ou Correr”, 1954) e, noves fora, dribla o estigma da carcaça física em pelo menos uma atuação consagradora: “O Caso dos Irmãos Naves” (1967), de Luiz Sérgio Person.

Em 1980, nas vésperas da guinada para o pornô na Boca do Lixo, aceita o convite de Pedro Carlos Rovái, dono da Sincrocine. Adapta uma novela de Cassandra Rios. Sim, Cassandra Rios. A fancha, autora dos milhares de pulp fictions vendidos com paixão na alta ditadura. Publica os capítulos de “Eu Sou uma Lésbica” na revista “Status”, degenerada como convinha a toda cunilíngue, delinquente máxima.

Para quem ainda não viu “Ariella” – monumento da adolescência de muita gente –, é preciso que se se diga que Herbert tentou ser audacioso, no bem e no mal. Colocou um rápido nu masculino, homens puxando ferro, malhando, derrières roliços que só, um homoerotismo indisfarçado.

Fez vistas grossas à tática de usar cenas com dublês. É assim que Christiane Torloni (Mercedes) passa pelo constrangimento de acharem que são seus os dedos que tateiam, digamos, determinadas instâncias de Nicole Puzzi (Ariella).

Cassandra participa no roteiro. Vai mal das pernas, com transições forçadas. Basta o advogado inescrupuloso – sempre há um, podem reparar – conferir o setor calipígico de Ariella para que a menina desabroche.

Vira fêmea, passa batom, deixa de ser a tímida que caminhava por cemitérios e curtia umas tendências incestuosas com o irmão (Alfonso, Herson Capri), atordoada pela culpa.

Interessante o relacionamento competitivo de Ariella com a mãe (Helena, Laura Cardoso). Beleza, velhice, egoísmo. A vinheta costuma funcionar e poderia ter sido melhor explorada, não fosse a vontade – grande às pampas – de fazer de Ariella um anjo vingador, usando o sexo para destruir as maldições familiares.

Descobre que está sendo enganada. O pai (Rodrigo, Sérgio Hingst) não é pai de fato. E, consequentemente, nem a mãe, nem os irmãos – além de Diogo, Clécio (Denis Derkian). Estranho que a bomba de uma vida inteira tenha sido percebida no bate-papo de Diogo com Clécio. Até os empregados conheciam a história. Sórdido, sórdido mundo este em que Ariella se isolava.

E se isolava como Onan, o bárbaro. Tocando-se sozinha, escrevendo um diário, beijando o espelho, acariciando um indefeso boneco do Snoopy. Na fase liberta, soltinha, tem o convescote com Mercedes, namorada de Diogo. Namorada por namorada, Clécio arranja uma de prestígio: Lúcia Buxy, antigo nome artístico de Lúcia Veríssimo, a Jeitosa do filme de Nello Rossi (1984), em que Herbert participa como ator.

Mercedes e Ariella vivem momentos de propaganda sáfica de margarina: beijos, chuva, um campo repleto de flores amarelas. Poderia ser a folhinha de março de um calendário, desses que as mães gostavam de ter na parede da cozinha. Ao invés de um casal de pulôver e gola alta, duas moças em êxtase, saudáveis e catitas. Como Giselle (Alba Valéria) e a colega guerrilheira (Monique Lafond) na favela da Maré, em momento do cult “Giselle” (1980), de Carlo Mossy.

Aliás, Mercedes fala um dos mais bonitos “eu te amo, porra” do cinema brasileiro. Grande provérbio, dito de passagem, com a graciosidade de ser natural escondendo alguma afetação. As garotas convocam Diogo (Herbert) – o advogado estuprador –, que havia sofrido um golpe da família de Ariella. Nada pessoal, nada de proteger a menina contra o agressor, uma emboscada de negócios. Mordido, Diogo jura contra-atacar, aceita a proposta e firmam um pacto.

O resto de psicologismo aparece nos últimos lances. Mãe e filha se estranhando. Pai – paralítico – assediado e encurralado na fúria hormonal de Ariella. O vulto da garota queimando o diário, andando pela mansão como fantasma vitorioso enquanto sobem os créditos e ficamos sem saber do seu destino.

Escorado pelo sucesso do filme – em que o assistente de direção foi John Herbert Buckup Jr., seu filho –, Herbert volta a Cassandra Rios com “Tessa, a Gata” (1982). Novamente Puzzi, desta vez com Patrícia Scalvi. Fotografia de Carlos Reichenbach, que repetiria a dose em outro longa de John, “Primeiro de Abril” (1984).

No fumacê sombrio e algo luxuoso, “Ariella” transpira uma clima de telefone branco – vertente clássica do cinema, com escadarias, palacetes, vestidos vaporosos. Geralmente usado em comédias leves, é curioso como o molde retorna aqui pelo aspecto da cenografia ricaça. Provavelmente alguma superstição de quem realizou o filme, um amuleto com o passado, já que os telefones brancos eram praxe nos idos dos anos 40. Misture-se uma pitada de drama da Metro, pouca luz, escuridão, a ninfa em estado de graça e cá estamos nós no patropi, como sempre, miscigenando o cânone.

segunda-feira, julho 31, 2006

Eu


Walter Hugo Khouri em meados dos anos 80, em Dolby Stereo, sem uma peça-chave da equipe dos 70 (sai Rogério Duprat da direção musical, entra Júlio Medaglia) e a continuação da temática de Marcelo (Tarcísio Meira), desta vez focada no relacionamento pai/filha.

“Introduzindo Monique Evans” e um marketing agressivo na figura de Tarcísio – sucesso na época, galã da novela “Roda de Fogo” –, “Eu” (1986) deixa a desejar no sentido da densidade do personagem-chave (Marcelo), visto aqui como um maratonista sexual sem o mesmo esmero ou os subterfúgios de um “Eros, O Deus do Amor” (1981) ou de um “O Último Êxtase” (1973), para citarmos dois exemplos clássicos.

Aliás, ainda sobre “O Último Êxtase” vale a pena citá-lo até para se corrigir o erro comum de se classificar “Eu” como primeiro e único filme de Khouri rodado quase todo em externas. Ocorre que as externas são apenas mais “alegres”, ou menos pessimistas, do que as de “O Último Êxtase” – 13 anos mais velho –, que possui a mesma integração crucial com o cenário.

Em “Eu”, Marcelo deixa a garçonnière em São Paulo, herdada do pai – e que pode ser a mesma de “Eros”, já que em ambos os filmes o personagem regula a mesma idade – para passar o réveillon na casa de praia, acompanhado das gazelas Renata (Monique Lafond) e Liana (Nicole Puzzi). Duas scorts que circulam pelas rodas de senhores mais velhos, como o próprio Marcelo e Jeremias (Walter Forster, que também apareceu ao lado de Tarcísio em “Amor Estranho Amor”).

Para o azar de Marcelo, quando menos se espera aparecem a filha, Berenice (Bia Seidl), e a amiga da filha (Cristiane Torloni), separando-se os dois núcleos femininos que passam a competir entre si: Renata e Liana, vistas como forasteiras, alvo de vergonha particular; Berenice e Beatriz, encarnações da família respeitável, que inclui ainda a criadagem da mansão, que o acompanha há séculos.

As posturas opostas desses dois núcleos vão articulando a tensão que desagüará no final. Berenice fingindo naturalidade com as conquistas do pai; Renata defendendo seu métier e dominando Liana; Beatriz virando caça aos olhos de um Marcelo que avança sobre o território da filha – já que Beatriz e Berenice parecem ter uma amizade pra lá de carinhosa.

Cinqüentão, procurando engolir o feminino – closes das nucas das personagens são simbólicos neste sentido –, o empresário trafega naquela fase da vida que vai do crepúsculo da maturidade ao medo da morte. Tentando cobrir esse gap com hiper-atividade sexual, “Eu” revela sobretudo o desejo carnal por Berenice, encarada como uma promessa de amor duradouro, feliz.

Correndo por fora, como uma fuga para a impossibilidade desse desejo, está Liana, que procura um substituto para o pai morto. Lembrando uma das melhores fixações de Khouri, em alto estilo, o diretor-roteirista coloca-a falando sobre os preparativos do enterro – “eu que tive que lavar e limpar meu pai” – enquanto Marcelo tenta atinar o sentido da confissão – “por que ela está me contando isso?” –, antes de sonhar que a penetra como um simulacro da filha.

Por outro lado, também existe em “Eu” – a começar pelo título – outra frente de batalha do roteiro: a busca pelo individualismo profundo, que passa longe da superficialidade de pensar em Marcelo como um “egoísta” bobo, “que só pensa em si mesmo”.

O fato é que o estado de entranhamento do personagem vem do conflito central de precisar escolher entre ser um pai bom ou o conquistador que agarra todas que vê pela frente. “O que que eu vim fazer aqui?” se pergunta, abraçado a Renata e Liana.

E num desespero que não vai embora, que se aproxima da velhice e do ceticismo diante de tudo, surge o individualismo como escolha consciente, criteriosa: “Eu só acredito em pessoas, em gente que faz as coisas. Indivíduos. O mundo se tornou um horror [...].” Completando a seguir, com o sorriso canastra: “mas não é culpa minha”, como se quisesse dizer “ as coisas são assim, mas carpe diem!”, investindo novamente sobre a interlocutora (Beatriz), num ciclo interminável.

A chegada felliniana de Diana (Monique Evans) – em um helicóptero – degringola a situação após um faniquito da garota, que leva consigo Renata e Liana. Beatriz – que há pouco encarnava uma espécie de Geneviève Graad, olhando pensativa para um navio semelhante ao de “Palácio dos Anjos” (1970) – sai no mesmo dia, para rever o ex-namorado. Sozinhos os dois, Berenice e Marcelo concretizam o improvável. Mais adiante, deixa-se implícita a separação – a voracidade vence qualquer promessa de estabilidade.

Antonio Meliande assina a direção de fotografia, “Rupert” Khouri na câmera e Aníbal Massaini na produção executiva deste 22º. filme do diretor. Um pouco aquém do esperado, um pouco além das expectativas do público à cata de mulheres e delírios maliciosos. “Eu” pode não atingir a ascese propriamente dita, mas destaca-se como o capítulo de algo muito maior, conseguido antes e depois, em mais de uma dezena de filmes.

segunda-feira, março 13, 2006

Convite ao Prazer


A melhor maneira para revermos “Convite ao Prazer” (1980) parece ser o esquecimento de que o filme teve a assinatura de Walter Hugo Khouri. Analisado diante do legado autoral do diretor é obra menor, quase um comentário a “Noite Vazia”, dezesseis anos antes. Mas se olhado apenas como aquilo que de fato foi, um curto drama de costumes, produzido dentro dos esquemas da Boca do Lixo, “Convite ao Prazer” cresce e se parece muito com uma daquelas obras-primas que os cineastas da Boca deixaram para serem descobertas pelo mundo, antes que mofem nas Cinematecas.

Esqueça, portanto, que o Marcelo é o mesmo de “Eros”, que o apartamento também é quase no mesmo endereço, e que o embate Luciano-Marcelo é similar ao de Luisinho-Nelson em “Noite Vazia”.

Nos concentremos nas primeiras cenas, quando o dentista Luciano (Serafim Gonzalez) mostra-se entusiasmado ao colocar uma jovem garota de programa na sua cadeira de trabalho. Quando queria, Khouri sabia ser pateticamente machista e a garota (Aldine Müller) nada mais é do que um adereço. Não fala, não tem vontades, nem guarda em si a força a que Marcelo costumava querer dominar e se misturar sem sucesso. No fato da garota explicitamente não-ser, reside o impacto inicial da história.

Não-sendo, ela serve a Luciano como uma bonequinha viva, até que alguém chega de surpresa: Marcelo (Roberto Maya) resolve visitar o amigo e o surpreende como uma criança surpreende outra comendo um doce. A alusão homossexual é fácil: Marcelo é o macho mais forte e Luciano cede ao amigo sua conquista. A menina continua a servir, passiva.

Marcelo e Luciano têm um pacto, repartido de forma silenciosa por décadas. Uma destas amizades masculinas, difusas, que normalmente só se sustentam pelo óbvio interesse homossexual latente entre uma (ou as duas) partes. Luciano inveja em Marcelo seu dinheiro, seu poder, suas conquistas. Marcelo gosta de se ver mais bonito refletido na admiração de Luciano. As mulheres são desnecessárias no conluio: os dois, apaixonadamente, se completam e se amam.

Rememoram festas, histórias do passado, dissertam de tudo um pouco. Marcelo, o pavão, convida o amigo para uma nova rodada de voyeurismo explícito, dessa vez no edifício em que mantém uma garçonniére. Há toda uma lenda envolvendo a famigerada garçonniére, contada de forma mais atraente um ano depois, em “Eros”. Mas aqui sutilezas não importam tanto. O apartamento guarda móveis de Laka e o jazz na vitrola faz alusão ao passado nostálgico dos velhos lobos. Marcelo contratou algumas prostitutas. Em horários alternados elas chegam e servem, servem sempre.

Trocando olhares furtivos e sexo em posições de Kama Sutra (excepcionalmente filmadas pelo gênio que, afinal, se escondia na direção e operação da câmera), a vida é passada em sua plenitude e gozo. Como o loft possui um mezanino, a ação ocorre em dois ambientes. Os casais se alternam e a composição dos quadros é primorosa, podendo ser assistida mil vezes sem parecer tediosa ou enjoativa.

Marcelo tem uma esposa, a inevitável Ana (Sandra Bréa, no auge da beleza), com quem disputa o título de mais infeliz e neurótico. A relação dos dois é apenas formal. Por outro lado, a esposa de Luciano, Anita (Helena Ramos), dá uma de detetive particular e caça o marido por São Paulo inteira. Quando encontra provas suficientes de que ele sublimou a paz conjugal no apartamento do melhor amigo, arma uma cilada. E, entre um bacanal e outro, Marcelo e Luciano brigam, para Ana acabar vitoriosa. Mesmo porque, ainda sendo este atípico, nos filmes de Khouri a anima sempre vence.

A narrativa é boba, fraca, deixando um quê de inutilidade. No entanto, como em toda obra menor de um talento maior, os defeitos e pontas soltas fazem com que questões autorais escondidas tornem-se melhor estudadas.

Em nenhum outro filme, Khouri sugeriu tanto a homossexualidade latente de seus protagonistas masculinos quanto aqui. Fica quase claro que Luciano e Marcelo se desejam. Por outro lado, também fica entregue o quanto Marcelo é uma projeção do super-homem brasileiro e paulistano, na fantasia de poder, carisma e indiferença, que como em um grupo de predadores divide a classe masculina entre os que vencem muito e os que vencendo pouco, se sentem derrotados e excluídos.

Também é notável a ambientação, a colocação dos cenários, como um filme-ensaio para “Eros” ou “Eu”. Compreendido mais como diversão do que reflexão, apreciadas as belas plásticas femininas e decorativas, anotando-se as peculiaridades de cada uma das festas, atrizes no auge (Patrícia Scalvi, Nicole Puzzi, Kate Lyra, para citar só as melhores) e transas que se sucedem, “Convite ao Prazer” vira diversão inofensiva e fácil, conquistando o mais renitente dos espectadores para os quintais do universo khouriano.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Filhos e Amantes


Praticamente um quarto de século nos separam agora de “Filhos e Amantes” (1981), pequena pérola de sensibilidade e simplicidade que o cinema brasileiro produziu naquele distante ano. Falando sobre a geração nascida entre 1960-1965, o filme defende a tese de que aquela era uma geração sem rumos ou ideais – e perdida em um hedonismo “sexo, drogas e rock n' roll” superficial e sufocante.

Dirigido pelo hoje mega produtor Francisco Ramalho Jr., “Filhos e Amantes” é imitação tardia de um tipo de filme muito em moda nos Eua e na Europa no final dos anos 60, de classificação ainda não definida, mas que se caracterizava por mostrar jovens em férias “descobrindo a vida”. Bom exemplo deste tipo de narrativa é o (então) polêmico, por sua cena de estupro, “The Last Summer” (1969). Outro, também famoso, o acridoce “Summer of 42”, bastante conhecido no Brasil pela trilha-sonora de Michel Legrand.

Em “Filhos e Amantes”, título surrupiado de D. H. Lawrence, não há nenhum verão, mas um inverno rigoroso passado por jovens paulistanos em uma casa de campo em Itatiaia, região sul do estado do Rio. Lá, Silvia (Lúcia Veríssimo) e Roberto (André de Biasi) chegam para visitar Marta (Denise Dummont) e Bebel (Nicole Puzzi).

As duas haviam se mudado para a casa buscando uma forma de vida hippie-alternativa, que em 1981 talvez já soasse um tanto anacrônica. Bebel é a verdadeira misantropa, enquanto Marta parece apenas deslumbrada com a vida no campo. Desta tênue diferença de personalidade entre as duas, o filme ergue-se e desenrola-se.

Silvia e Roberto são amigos de Marta. Bebel não gosta da presença deles em seu refúgio. Gosta menos ainda quando chegam Dinho (Hugo DellaSanta), ex-namorado de Marta, e a histérica Carminha (Rosina Malbouisson), sua nova namorada. Os seis são jovens, lindos, mas não se entendem. Bebel tem um ciúme doentio de Marta e esta ainda parece interessada em Dinho; Roberto e Silvia brigam e Silvia quer Dinho; Marta acaba nos braços de Dinho. Ou seja, todos ficam com todos e nem por isso deixam de se azucrinar mutuamente.

Apesar deste aparente inferno existencial, as cenas de amor são belíssimas, igualmente as tomadas de Itatiaia, local paradisíaco no meio do caminho entre Rio e São Paulo. Francisco Ramalho filma com capricho artesanal, o que faz o filme ter uma atmosfera idílica, de sonho bom. Não há sexo, o erotismo é suave e existe muita coisa a se aprender na questão de “quão suave é possível o erotismo ser”, pois aqui ele é praticamente uma pluma diáfana.

André de Biasi e Hugo Dellasanta, os rapazes, são incrivelmente parecidos com os personagens de “The Last Summer”, o que fornece a conclusão óbvia de que o filme foi inspirado no similar ao norte do Equador. Mas não importa, porque em quase todas as vezes em que o cinema brasileiro criou este tipo de pastiche, ele fez melhor.

É o caso aqui. A construção das personalidades não segue o esquema maniqueísta dos filmes americanos: Dinho é um salafrário, mas temos simpatia por ele na medida em que se humaniza no relacionamento com as moças. Roberto é o herói e antagonista de Dinho, mas em certo momento é tão impossível gostar dele que simplesmente torcemos para que apareça menos. Isso é uma das coisas que fazia do cinema brasileiro genial: a não busca pela saída fácil, pela conclusão digerida que facilite a vida do espectador preguiçoso.

No fundo do poço, os seis jovens em ebulição encontram Cláudio (Walmor Chagas), escritor com câncer terminal, que vive com sua namorada Ruth (Reneé de Vielmond), esperando a morte na casa ao lado. Cria-se então o contraste entre “os jovens que não sabiam dar valor à vida que tinham” versus “o adulto que ama a vida mas está condenado a desaparecer”.

Dinho se droga, quase mata a namorada Carminha em uma overdose. Carminha, posteriormente, tenta o suicídio nas pedras de Itatiaia, a poucos metros da locação onde Walter Hugo Khouri criou em seus filmes a mística do “trono de pedra”, o local da infância de Marcelo. Silvia adquire então consciência plena dos fatos que a cercam e grita para Carminha, em cena magistral: “Tem um homem aqui perto que quer viver e não pode. Você pode viver e não quer”.

O fim simbólico, com o epílogo de Sílvia tendo um filho ao mesmo tempo em que Cláudio, o escritor, morre, é igualmente antológico. Dá vontade de não acordar nunca e morar eternamente com eles naquele lugar, nas suas idas e vindas. Mas nós, em pleno futuro, apenas os vemos como se conhecêssemos os segredos de uma civilização distante e delicada, que não mais nos pertence.

sexta-feira, setembro 23, 2005

Eros, o Deus do Amor


107 minutos, produção de 1981, escrita e dirigida por Walter Hugo Khouri. Acompanhamento incidental da Traditional Jazz Band, música de Rogério Duprat. No elenco, Lillian Lemmertz, Denise Dummont, Norma Bengell, Dina Sfat, Renée de Vielmond, Kate Lyra, Nicole Puzzi, Selma Egrei, Monique Lafond, Kate Hansen, Lara Deheinzelein, Maria Cláudia, Christiane Torloni, a voz e o vulto de Roberto Maya.

“Eros” foi o 19o. trabalho de Khouri, na carreira iniciada em 1952, com “O gigante de pedra”. Mas devemos esquecer o aspecto cronológico e analisarmos o filme à luz de “O Corpo Ardente”, lançado quinze anos antes, em 1966, para compreendermos alguma coisa a respeito da intimidade do personagem “Marcelo”, alter-ego do diretor.

Se em “O Último Êxtase” Marcelo é um adolescente em fuga – personificado por Wilfred Khouri, filho do diretor – em “O Corpo ardente” Marcelo é o menino levado pela mãe a conhecer as montanhas e o trono de pedra, às bordas de um precipício, cena que mais tarde se transformará num dos pontos centrais de “Eros”. Este encontro materno, edípico, fundamental -- ao qual o diretor voltará reiteradamente e intercalará com imagens de um animal enjaulado, furioso --, represa a gama de sentimentos do Marcelo quarentão, observado em “Eros” em plena crise de meia-idade.

De Barbara Laage, em 1966, a Dina Sfat, em 1981, a mãe de Marcelo passa da depressiva de “O corpo ardente” à invisível no “Último Êxtase” para, finalmente, já falecida, ter a foto rasgada por uma dupla de prostitutas sádicas. Convidadas ao programa, foram ao último andar do prédio construído pelo pai, cúmplice na “caça e domínio” de meninas por todo território paulistano.

“São Paulo, Brasil, América do Sul, hemisfério meridional, Terra, sistema solar, universo... um deles. Eu nasci aqui. Vivo aqui a maior parte do meu tempo, cada vez mais.” O texto inicial de “Eros”, narrado em voice-over por Roberto Maia (Marcelo) é das coisas mais belas em cinema nacional, a sinfonia plena da metrópole, reveladora da profissão de fé do personagem. “Em quase todos os lugares alguma coisa aconteceu. Por isso, mas não só por isso, alguma coisa me agarra aqui, me prende, me segura e me fascina. [...] No meu plano individual, me sinto como ela: o mesmo turbilhão, a avalanche, a ânsia e a fúria, a falta de medida, a vontade de não sei o quê. O meu interesse se concentra em mim e nas minhas obsessões, que eram muitas e que agora reduziram-se a praticamente uma só. Restou apenas uma coisa encrustada aqui dentro, que às vezes parece o começo e outras o fim.”

Mas Marcelo quarentão nunca é visto, é presumido. Não tem o rosto do filho de Khouri, não tem qualquer outro referencial imagético. Como dissemos acima, conhecemos apenas a voz e o vulto de Roberto Maya. Em termos de narrativa cinematográfica, o filme cria paixões e antipatias, pois muitos posicionam-se contra o recurso da, assim chamada, câmera subjetiva.

Vemos o que Marcelo vê, ouvimos o que ele ouve, pensamos o que ele pensa e o que não dá a entender aos outros membros da trama. Entramos no que possa haver de mais tortuoso e nostálgico no personagem – as caminhadas com a mãe, os olhares pelo corpo da filha, as cenas de sexo precoce, o sexo atual, o desejo que explode como o urso, visto de relance, e morre depois de satisfeito. Em um dado momento, lembra-se de uma aula com a professora de filosofia no colégio. Discute-se Eros, o deus do amor, citado por Platão em “O banquete”: “É pobre e está longe de ser delicado e belo, como muita gente supõe. E vive como sua mãe, em eterna penúria. Por outro lado, herdeiro das qualidades paternas, anda sempre no encalço do belo e do bom. Não é mortal, nem imortal. No mesmo dia floresce e vive, enquanto na abundância; mas quando satisfeito, morre.”

Assim, os impulsos priápicos de Marcelo levam a uma sucessão de personagens femininas contrapostas a um único masculino – desprezando-se o mordomo, peça coadjuvante no enredo –: ele próprio. Duplo, dúbio, como a natureza do Eros, que vive diariamente num esquema de moralidade cindida. A personagem de Denise Dummont (Ana) lê trechos de um livro sublinhado, na garçonniere, que ressaltam a dualidade: “Olha aqui isso. Isso serve pra nós, hein, Marcelo? Há uma interessante mistura entre moral absoluta e relativa dentro do indivíduo. Na Gestalt nós usamos o termo ‘duplo padrão’, o que significa que temos duas formas de medida moral: uma para nós e uma para os outros.”

Note-se que “Ana” foi outra das obsessões de Khouri. Em “As deusas”, por exemplo, era a psiquiatra (Kate Hansen), que se mistura com a dor da paciente e termina em fuga. Em “Eros”, Ana representa a tentativa de conversão de Marcelo para um lado mais humano de relacionamento amoroso. Assemelha-se com uma força interna, que tenta-o a desprezar os dias de conquistador, a esquecer o apartamento, a construírem algo juntos, mas que vê tudo evaporar-se com a chegada da segunda Ana (Cristiane Torloni), atriz de cinema, jovem. A segunda Ana leva-o, então, a outro filme. Ao filme dentro do filme dentro de outro filme.

O diretor, Serafim Gonzalez – o dentista de “Convite ao prazer” --, em cena, o menino de colo (Marcelo) que vira a revolucionária de 1935 escondendo-se numa gruta e observava seus traços com prazer ainda incompreensível.

Temos aqui um primeiro filme (sobre o evento histórico de 1935), um segundo filme (“Eros, o deus do amor”, em que Marcelo está no set de filmagens do primeiro) e um terceiro filme (que começa ali, ao término de “Eros”, quando Marcelo, no meio das filmagens, volta em flashes sucessivos a todos os encontros amorosos, ao trono de pedra, à sensação de observar ao animal enclausurado, à paixão, abraçado à mãe). Este terceiro filme seria retomado em “Eu”, de 1986, em que o personagem aprofunda os laços com a filha e ainda aproveita da grande entourage feminina que permanece. Mas os filmes de Khouri são universos, muitas vezes, interligados. E serão analisados futuramente, leitores, com bastante calma.