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quarta-feira, dezembro 29, 2010

O Cortiço


Escrito em 1890, auge do chamado naturalismo brasileiro, o romance "O Cortiço", do escritor maranhense Aluísio de Azevedo, significa bem mais do que pensam entediados estudantes secundaristas, normalmente fadados a lê-lo por obrigação curricular. Antes de ser vitrine morta, exemplo de tempo e pensamento ultrapassados, "O Cortiço" diagnostica muitas delícias e vícios brasileiros, bem mais até do que certas provocações revisionistas do século XX.

O filme homônimo (1978), dirigido por Francisco Ramalho Jr., infelizmente não alcança a plenitude do livro, e pode-se dizer que, a exemplo de tantas outras adaptações cinematográficas, somente arranha a superfície do tema, como se realizasse em apanhado de imagens uma idéia geral da obra literária.

Vindo de um dos melhores exemplares do cinema setentista – "À Flor da Pele" (1976) – Ramalho nunca mais encontraria, como diretor, a força do embate entre o intelectual quarentão interpretado por Juca de Oliveira e a borderline patricinha incorporada por Denise Bandeira. Verdade que "Filhos e Amantes" (1981) e "Besame Mucho" (1986) são ótimos, porém "À Flor da Pele" indicava um artista nobre, em outro patamar de realização. Sair dessa
tour de force para "O Cortiço" é algo que só um acidente pode explicar.

João Romão, personagem principal do livro e do filme, português avarento, dono da estalagem – cortiço para os detratores – amasiado com a negra Bertoleza (Jacira Silva), ganha tom simpático vivido por Armando Bógus. Romão é daqueles portugueses que prosperam na antiga colônia, às custas de desprendimento moral e crueldade. Dono também de uma pedreira ao lado do cortiço, o gajo sente inveja do patrício Miranda (Maurício do Valle), que compra um título de Barão e tem filha (Zaira Zambelli) em idade de casar.

O resto é o desfile – em baixa freqüência – dos arquétipos do livro. Rita Baiana (Betty Faria) rouba o galego Jerônimo (Mário Gomes) da mulher, e o envolve em uma briga por ciúme. Pombinha (Silvia Salgado), jovem que tinha dificuldades em menstruar, só vira “moça” depois de um gostoso
tête-à-tête lésbico com a madrinha. Os “causos” se sucedem, embora tudo pareça levado a toque de caixa.

Apesar da precariedade, "O Cortiço" foi bastante caro para os padrões nacionais, e a reconstituição de época nem é das piores. Se até hoje sotaques e prosódias são motivos de chacota nas novelas da Globo, aqui o problema maior reside justamente na preguiça dos atores em falarem com gosto oitocentista. Zaira Zambelli, por exemplo, saiu direto de um chopp no Baixo Leblon para o século XIX.

Mário Gomes é o mesmo de sempre, e nem seu entendimento com Betty Faria – importado da novela das oito, "Duas Vidas" – funciona a contento. Ramalho poderia ter trazido Francisco Cuoco – que na novela fazia triângulo amoroso com a dupla – ou mesmo uma indefectível cenoura – mentira sensacionalista espalhada em 1977 contra Gomes, dando conta de que o galã viril curtia experiências sexuais pouco ortodoxas.

O pano de fundo do movimento republicano, da covardia escravagista – Romão falsifica carta de alforria para Bertoleza – e a óbvia metáfora da formação sócio-cultural do país no microcosmo da estalagem, de uma forma ou de outra sobrevivem na revisão fílmica. A montagem do grande Silvio Renoldi, a dedicatória a Lulu de Barros – quem primeiro adaptou O Cortiço para o cinema, nos anos 40 – e a trilha cantada por Zezé Motta melhoram o resultado.

Logo, se o leitor não tiver paciência com o livro, que assista ao filme. Mergulhando em platitudes que fariam Aluísio de Azevedo considerar dar uma mão no roteiro, o cortiço de Francisco Ramalho é curioso, bem-feitinho, porém tão pálido que desapareceu no tempo. Já o de Azevedo – falecido em 1913, o escritor não deve ter conhecido sequer D. W. Griffith – mantém calor inefável, o que prova ser a transposição entre artes uma tarefa dura, hercúlea.


(in Zingu! #40, novembro de 2010)

segunda-feira, novembro 21, 2005

Filhos e Amantes


Praticamente um quarto de século nos separam agora de “Filhos e Amantes” (1981), pequena pérola de sensibilidade e simplicidade que o cinema brasileiro produziu naquele distante ano. Falando sobre a geração nascida entre 1960-1965, o filme defende a tese de que aquela era uma geração sem rumos ou ideais – e perdida em um hedonismo “sexo, drogas e rock n' roll” superficial e sufocante.

Dirigido pelo hoje mega produtor Francisco Ramalho Jr., “Filhos e Amantes” é imitação tardia de um tipo de filme muito em moda nos Eua e na Europa no final dos anos 60, de classificação ainda não definida, mas que se caracterizava por mostrar jovens em férias “descobrindo a vida”. Bom exemplo deste tipo de narrativa é o (então) polêmico, por sua cena de estupro, “The Last Summer” (1969). Outro, também famoso, o acridoce “Summer of 42”, bastante conhecido no Brasil pela trilha-sonora de Michel Legrand.

Em “Filhos e Amantes”, título surrupiado de D. H. Lawrence, não há nenhum verão, mas um inverno rigoroso passado por jovens paulistanos em uma casa de campo em Itatiaia, região sul do estado do Rio. Lá, Silvia (Lúcia Veríssimo) e Roberto (André de Biasi) chegam para visitar Marta (Denise Dummont) e Bebel (Nicole Puzzi).

As duas haviam se mudado para a casa buscando uma forma de vida hippie-alternativa, que em 1981 talvez já soasse um tanto anacrônica. Bebel é a verdadeira misantropa, enquanto Marta parece apenas deslumbrada com a vida no campo. Desta tênue diferença de personalidade entre as duas, o filme ergue-se e desenrola-se.

Silvia e Roberto são amigos de Marta. Bebel não gosta da presença deles em seu refúgio. Gosta menos ainda quando chegam Dinho (Hugo DellaSanta), ex-namorado de Marta, e a histérica Carminha (Rosina Malbouisson), sua nova namorada. Os seis são jovens, lindos, mas não se entendem. Bebel tem um ciúme doentio de Marta e esta ainda parece interessada em Dinho; Roberto e Silvia brigam e Silvia quer Dinho; Marta acaba nos braços de Dinho. Ou seja, todos ficam com todos e nem por isso deixam de se azucrinar mutuamente.

Apesar deste aparente inferno existencial, as cenas de amor são belíssimas, igualmente as tomadas de Itatiaia, local paradisíaco no meio do caminho entre Rio e São Paulo. Francisco Ramalho filma com capricho artesanal, o que faz o filme ter uma atmosfera idílica, de sonho bom. Não há sexo, o erotismo é suave e existe muita coisa a se aprender na questão de “quão suave é possível o erotismo ser”, pois aqui ele é praticamente uma pluma diáfana.

André de Biasi e Hugo Dellasanta, os rapazes, são incrivelmente parecidos com os personagens de “The Last Summer”, o que fornece a conclusão óbvia de que o filme foi inspirado no similar ao norte do Equador. Mas não importa, porque em quase todas as vezes em que o cinema brasileiro criou este tipo de pastiche, ele fez melhor.

É o caso aqui. A construção das personalidades não segue o esquema maniqueísta dos filmes americanos: Dinho é um salafrário, mas temos simpatia por ele na medida em que se humaniza no relacionamento com as moças. Roberto é o herói e antagonista de Dinho, mas em certo momento é tão impossível gostar dele que simplesmente torcemos para que apareça menos. Isso é uma das coisas que fazia do cinema brasileiro genial: a não busca pela saída fácil, pela conclusão digerida que facilite a vida do espectador preguiçoso.

No fundo do poço, os seis jovens em ebulição encontram Cláudio (Walmor Chagas), escritor com câncer terminal, que vive com sua namorada Ruth (Reneé de Vielmond), esperando a morte na casa ao lado. Cria-se então o contraste entre “os jovens que não sabiam dar valor à vida que tinham” versus “o adulto que ama a vida mas está condenado a desaparecer”.

Dinho se droga, quase mata a namorada Carminha em uma overdose. Carminha, posteriormente, tenta o suicídio nas pedras de Itatiaia, a poucos metros da locação onde Walter Hugo Khouri criou em seus filmes a mística do “trono de pedra”, o local da infância de Marcelo. Silvia adquire então consciência plena dos fatos que a cercam e grita para Carminha, em cena magistral: “Tem um homem aqui perto que quer viver e não pode. Você pode viver e não quer”.

O fim simbólico, com o epílogo de Sílvia tendo um filho ao mesmo tempo em que Cláudio, o escritor, morre, é igualmente antológico. Dá vontade de não acordar nunca e morar eternamente com eles naquele lugar, nas suas idas e vindas. Mas nós, em pleno futuro, apenas os vemos como se conhecêssemos os segredos de uma civilização distante e delicada, que não mais nos pertence.

terça-feira, setembro 13, 2005

À Flor da Pele


Denise Bandeira é hoje mais conhecida como um apêndice de biografados famosos, especialmente Renato Russo, personagem para quem se transformou “em amiga e fiel conselheira”, segundo diversas reportagens e livros. A injustiça não poderia ser maior, pois na verdade Denise é um dos ícones da juventude brasileira dos anos 70 – protagonizou o histórico seriado “Ciranda, Cirandinha” na Tv Globo, em 1977 – e roteirizou inúmeras séries de tv e filmes – dentre estes “Bar Esperança”, em parceria com Hugo Carvana.

Em “À Flor da Pele” Denise interpreta Verônica Prado, universitária de vinte e pouquinhos anos, problemática, “intensa”, “em busca de si mesma” (leia-se “chave de cadeia”), apaixonada pelo professor de teatro, Marcelo Fonseca (Juca de Oliveira), o cinquentão ideal. Charmoso, culto, possuidor de toda a segurança emocional que ela gostaria de ter, mas – o que para ela não representa impedimento nenhum – casado.

O filme de 1976 é baseado numa peça de teatro escrita por Consuelo de Castro, e serve de veículo à atriz, que aparece em praticamente todas as cenas. Denise arrematou o Kikito de melhor atriz no ano seguinte, concorrendo com a futura bombshell Sonia Braga, do badalado “Dona Flor”. “À Flor da Pele” ainda levaria o o troféu de melhor filme, deixando para um quase imberbe Bruno Barreto o de melhor direção.

O que se deve ressaltar no trabalho do diretor, Francisco Ramalho Jr., é a aproximação da trama segundo o olhar de Verônica. Ramalho faria algo parecido cinco anos depois, em “Filhos e Amantes” no qual acompanha um grupo de jovens que se isolam na Serra de Itatiaia. Em “Á Flor...”, porém, o interesse principal é compreender Verônica.

De início me neguei a adotar a tese de que a menina buscava no professor maduro a representação do pai acolhedor, que substituísse o pai real, com quem briga, luta, cospe e xinga. Pensei que seguir este raciocínio seria de uma obviedade intolerável. Mas qual não foi a surpresa ao ver o drama às claras, falado com todas as letras? “Papai, você é um caretão!”, grita a Marcelo em uma das brigas em que se enrola com ele, depois de levar um sonoro tapa.

Verônica precisa, precisa, precisa. Quer apoio, apoio, apoio. Tanto faz se o mundo em volta cai, se induzir a esposa de Marcelo (Beatriz Segall) ao suicídio contando-lhe sobre o caso, se bater pézinho tirando o poster da filha do professor da parede do quarto. Eu sou eu, por que você não me aceita sem perguntas, parece dizer.

A teatralidade é traço marcante em pessoas de comportamento borderline (limítrofe), como Verônica. Uma hora, corta-se com um caco de vidro. Chora alto para atrair a atenção do pai, rejeita-o em seguida. Em outras, bate a porta com um estrondo, garantindo ser a última vez em que fala com o professor. O perdão vinha sempre e com ele agarrava as mãos do pai postiço, como se dali dependesse a própria vida.

Nelson Rodrigues diria que Verônica, “lésbica de si mesma”, tem aquele encantamento vertiginoso pelo sexo. Ewerton de Castro sofre, é o amiguinho bonzinho, que ela usa para enciumar o lobo cinqüentão; Jonas Bloch, em pequena ponta, assiste felizardo ao momento em que a parte de cima do biquini é tirada, talvez como manifesto contra a instituição sacal de ser apresentada pelo pai a um futuro bom marido.

Mas o que poderia ter sido o momento de guinada para Verônica é desperdiçado pela sucessão de equívocos que começaram de um equívoco mesmo. O velho truque de não tomar o anticoncepcional de propósito. Engravida, esconde de todos, em noite muito louca embebeda-se e na volta para casa apanha do pai, que – e esta é a sina dos acompanhantes de alguém parecido – surta junto e agride-a. Aborta em conseqüência, colocando fim ao projeto de ser mais uma das muitas mães fálicas, que usam o filho para auto-realização pessoal.

O roteiro, como vêem, é rico. A abordagem psicanalítica soberba, talvez seja mais fruto de intuição do que de estudo, pois a personalidade borderline de Verônica é tão bem desenhada que parece tirada de trabalhos sobre o assunto, principalmente os de Otto Kernberg, no final daquela década de 70. Sua dependência mórbida, sua obssessão por engravidar (borderlines adquirem esta monomania como forma de compensarem o vazio existencial que sentem), a tendência à idealização absoluta de Marcelo seguida de uma ridicularização vexatória; tudo é tão bem encaixado na composição da personagem que a torna um arquétipo do cinema, a ser rediscutido em outros filmes.

Muito se diz que o diretor, Francisco Ramalho, teria colocado na obra sua própria história de vida, através da composição de Marcelo (alguma aproximação com os Marcelos de Khouri?). Mesmo sendo um alter ego, seu Marcelo é um homem sem qualquer maniqueísmo, cruel e canalha às vezes e em outras ocasiões completamente vítima dos pitis de Verônica. Em suma, é um ser humano tentando sobreviver e ser feliz à sua maneira.

Denise Bandeira e Juca de Oliveira por outro lado, se apegam a essa riqueza de detalhes e possibilidades e dão um show à parte. Contando ainda com o pano de fundo charmoso de São Paulo nos anos 70 (a cidade mais injustiçada do cinema mundial, já que nunca é mostrada) e a bela plástica de Bandeira, Ramalho fez um dos melhores e mais adultos filmes da cinematografia brasileira. Merece com certeza relançamento em dvd duplo.