terça-feira, setembro 13, 2005

À Flor da Pele


Denise Bandeira é hoje mais conhecida como um apêndice de biografados famosos, especialmente Renato Russo, personagem para quem se transformou “em amiga e fiel conselheira”, segundo diversas reportagens e livros. A injustiça não poderia ser maior, pois na verdade Denise é um dos ícones da juventude brasileira dos anos 70 – protagonizou o histórico seriado “Ciranda, Cirandinha” na Tv Globo, em 1977 – e roteirizou inúmeras séries de tv e filmes – dentre estes “Bar Esperança”, em parceria com Hugo Carvana.

Em “À Flor da Pele” Denise interpreta Verônica Prado, universitária de vinte e pouquinhos anos, problemática, “intensa”, “em busca de si mesma” (leia-se “chave de cadeia”), apaixonada pelo professor de teatro, Marcelo Fonseca (Juca de Oliveira), o cinquentão ideal. Charmoso, culto, possuidor de toda a segurança emocional que ela gostaria de ter, mas – o que para ela não representa impedimento nenhum – casado.

O filme de 1976 é baseado numa peça de teatro escrita por Consuelo de Castro, e serve de veículo à atriz, que aparece em praticamente todas as cenas. Denise arrematou o Kikito de melhor atriz no ano seguinte, concorrendo com a futura bombshell Sonia Braga, do badalado “Dona Flor”. “À Flor da Pele” ainda levaria o o troféu de melhor filme, deixando para um quase imberbe Bruno Barreto o de melhor direção.

O que se deve ressaltar no trabalho do diretor, Francisco Ramalho Jr., é a aproximação da trama segundo o olhar de Verônica. Ramalho faria algo parecido cinco anos depois, em “Filhos e Amantes” no qual acompanha um grupo de jovens que se isolam na Serra de Itatiaia. Em “Á Flor...”, porém, o interesse principal é compreender Verônica.

De início me neguei a adotar a tese de que a menina buscava no professor maduro a representação do pai acolhedor, que substituísse o pai real, com quem briga, luta, cospe e xinga. Pensei que seguir este raciocínio seria de uma obviedade intolerável. Mas qual não foi a surpresa ao ver o drama às claras, falado com todas as letras? “Papai, você é um caretão!”, grita a Marcelo em uma das brigas em que se enrola com ele, depois de levar um sonoro tapa.

Verônica precisa, precisa, precisa. Quer apoio, apoio, apoio. Tanto faz se o mundo em volta cai, se induzir a esposa de Marcelo (Beatriz Segall) ao suicídio contando-lhe sobre o caso, se bater pézinho tirando o poster da filha do professor da parede do quarto. Eu sou eu, por que você não me aceita sem perguntas, parece dizer.

A teatralidade é traço marcante em pessoas de comportamento borderline (limítrofe), como Verônica. Uma hora, corta-se com um caco de vidro. Chora alto para atrair a atenção do pai, rejeita-o em seguida. Em outras, bate a porta com um estrondo, garantindo ser a última vez em que fala com o professor. O perdão vinha sempre e com ele agarrava as mãos do pai postiço, como se dali dependesse a própria vida.

Nelson Rodrigues diria que Verônica, “lésbica de si mesma”, tem aquele encantamento vertiginoso pelo sexo. Ewerton de Castro sofre, é o amiguinho bonzinho, que ela usa para enciumar o lobo cinqüentão; Jonas Bloch, em pequena ponta, assiste felizardo ao momento em que a parte de cima do biquini é tirada, talvez como manifesto contra a instituição sacal de ser apresentada pelo pai a um futuro bom marido.

Mas o que poderia ter sido o momento de guinada para Verônica é desperdiçado pela sucessão de equívocos que começaram de um equívoco mesmo. O velho truque de não tomar o anticoncepcional de propósito. Engravida, esconde de todos, em noite muito louca embebeda-se e na volta para casa apanha do pai, que – e esta é a sina dos acompanhantes de alguém parecido – surta junto e agride-a. Aborta em conseqüência, colocando fim ao projeto de ser mais uma das muitas mães fálicas, que usam o filho para auto-realização pessoal.

O roteiro, como vêem, é rico. A abordagem psicanalítica soberba, talvez seja mais fruto de intuição do que de estudo, pois a personalidade borderline de Verônica é tão bem desenhada que parece tirada de trabalhos sobre o assunto, principalmente os de Otto Kernberg, no final daquela década de 70. Sua dependência mórbida, sua obssessão por engravidar (borderlines adquirem esta monomania como forma de compensarem o vazio existencial que sentem), a tendência à idealização absoluta de Marcelo seguida de uma ridicularização vexatória; tudo é tão bem encaixado na composição da personagem que a torna um arquétipo do cinema, a ser rediscutido em outros filmes.

Muito se diz que o diretor, Francisco Ramalho, teria colocado na obra sua própria história de vida, através da composição de Marcelo (alguma aproximação com os Marcelos de Khouri?). Mesmo sendo um alter ego, seu Marcelo é um homem sem qualquer maniqueísmo, cruel e canalha às vezes e em outras ocasiões completamente vítima dos pitis de Verônica. Em suma, é um ser humano tentando sobreviver e ser feliz à sua maneira.

Denise Bandeira e Juca de Oliveira por outro lado, se apegam a essa riqueza de detalhes e possibilidades e dão um show à parte. Contando ainda com o pano de fundo charmoso de São Paulo nos anos 70 (a cidade mais injustiçada do cinema mundial, já que nunca é mostrada) e a bela plástica de Bandeira, Ramalho fez um dos melhores e mais adultos filmes da cinematografia brasileira. Merece com certeza relançamento em dvd duplo.

8 comentários:

Maitê disse...

Olá!

Econtrei seu blog no site do Carlos, o diretor. Eu curto muito cinema... Acho que vindo ao seu blog, poso aprender mais sobre cinema nacional...

Bjos

dr.lorax disse...

me lembrei q o seu blog pode suprir a falta q faz um IMDB brasileiro,é muito difícil encontrar informações de cinema nacional...hj fui numa exibiçao de
Esta noite encarnarei no teu cadáver,do Mojica,com a presença
do próprio,q após o filme nos brindou c/ muitas histórias sobre sua trajetória e tb sobre cinema...
foi simplesmente uma aula...

Andréa Ormond disse...

É verdade, dr. lorax, mas acho o Imdb razoavelmente bom para se conhecer a filmografia dos atores e diretores brasileiros. Vc conhece "Maldito", a biografia do Mojica? Recomendo, é um dos melhores livros sobre a vontade de fazer cinema que já li.

Anônimo disse...

Olá Andréa
Parabéns pelo blog, que infelizmente só conheci agora, mas está sendo muito útil em uma pesquisa que eu venho fazendo sobre cinema brasileiro. Em relação à "Á Flor da Pele" (título brasileiro que algum distribuidor 171 deu ao filme de Kar Wai), o filme está longe da peça de Consuelo, um dos nomes que mudaram a dramaturia brasileira nos 60 e 70. Pena que outras peças dela não tenham chegado à tela. E também do Bivar, Zé Vicente, Isabel Câmara...

Daniel P disse...

Muito boa a crítica, só acho a interpretação de Denise um pouco datada

Anônimo disse...

Andréa, você foi muito generosa com esse filme. Achei-o muito mal dirigido, com péssimos diálogos, apesar de ter boas imagens e da Denise ser muito bonita..

Anônimo disse...

Eu simplesmente me pego toda vez vendo este filme no Canal Brasil e choro todas as vezes quase que copiosamente...pois tive em minha vida uma história totalmente semelhante a esta...aonde o meu papel seria o de Veronica...e o Marcelo um diretor muito conhecido de TEATRO como no filme. Apesar dele não ser casado...vivemos um inferno astral tão insano e uma paixão tão obsessiva como o que mostra o filme. No fundo o que me importa nele além da historia que é a historia de minha vida...é o fato da trilha sonora literalmente acompanhar belissimamente em uma sincronia perfeita. E no fim é exatamente como a Veronica fala, "Não da pra tirar alguem simplesmente de uma hora pra outra de dentro de você, mas o tempo vai fazendo isto ao poucos..."in fading"...Eu amo este filme. Nada mais a dizer.

ADEMAR AMANCIO disse...

Só aqui mesmo pra uma atriz do porte de Denise Bandeira ser reabilitada,pois a grande mídia tem sempre uma visão estreita e imediata das coisas,parecendo sofrer de alzheimer.