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terça-feira, dezembro 18, 2012

Biografia Entrevista - Antonio Calmon


Antonio Calmon dirigiu “Eu Matei Lúcio Flávio”. Se quisesse, poderia ter parado por aí e começado a tecer o véu da imortalidade. Afinal, criou a obra-prima do cinema policial brasileiro. Mas Calmon, garoto da selva amazônica (sim, você não leu errado), inventou de embolar o meio de campo, entregar o corpo aos homens da encruzilhada e cair de cabeça em uma odisseia pessoal, imprevisível.

Ex-cria do Cinema Novo, ex-aluno de Glauber Rocha, daí um salto para o “underground do underground” e um pulo para o mainstream de “Menino do Rio” e da TV Globo. No meio de tudo, o desbunde em Salvador, dezessete cáries, quinze quilos a menos, barbas e cabelos pornográficos. Entre pirados e dogmáticos, preferiu viver. Não à toa, hoje zomba da mortificação moralista do politicamente correto.

Fala, ri, se diverte. Sobretudo, assume o que fala. Conta os infinitos causos. Em setembro de 2012 nos conhecemos pessoalmente, quando Daniel Camargo e Fábio Velloso organizaram a mostra “Antonio Calmon em 3 Atos”. Conseguiram montar algumas das mais saborosas mesas redondas que já vi. Ao lado de Anselmo Vasconcellos e do diretor, tive o prazer de debatermos “Terror e Êxtase”, o clássico premonitório.

Naquela ocasião, ao nos despedirmos, combinamos a entrevista. Final de ano, superado o engarrafamento carioca entre Copacabana e a Lagoa, liguei o gravador. Sempre admirei Calmon e ao ouvir sua história, a admiração renovou-se. Ofereço este presente aos leitores, desejando um feliz 2013!


ESTRANHO ENCONTRO – Calmon, eu acabo de entrar no seu escritório e vejo esse sincretismo todo: claquetes, medalhas, orixás, fotos...

ANTONIO CALMON – Esta aqui, durante as filmagens de “O Dragão da Maldade Contra O Santo Guerreiro”, em Milagres. Como o lugar é de peregrinação, havia a imagem da santa. O fotógrafo lambe-lambe batia as fotos dos peregrinos com a santa atrás. Era uma vida tão rústica, quase viramos cangaceiros. Aquele lá é o Affonso Beato, à esquerda. O assistente do Beato, o Ricardo Stein. Eles, o Glauber e eu. De certa forma, o Glauber Rocha é o meu pai. Está me dizendo: eis o meu filho dileto e querido, em que deposito todas as esperanças. Uma grande decepção, na estética do Cinema Novo [risos]...

EE – [risos]

AC – Se bem que jamais houve qualquer atitude ruim em relação aos meus filmes. Continuamos amigos, mas meio distantes. Os caminhos se separaram. [Aponta outra] Já esta é a foto da minha primeira comunhão...

EE – Um pequeno amazonense. A sua família é do Amazonas?

AC – Não, meu pai era do Espírito Santo. Minha mãe, do interior de São Paulo, Guaratinguetá. Eles se conheceram no subúrbio do Rio de Janeiro, acho que no Méier. Meu pai deu a louca quando se formou em Medicina. Quis começar a vida no Amazonas, e eu nasci lá, por causa disso. Não existia nem aeroporto. Chegaram de hidroplano.

EE – Em que ano?

AC – 1943 para 44. Nasci em 45. Manaus era uma cidade no meio da selva. Tinha os resquícios do esplendor da época da borracha, os palacetes começando a decair. A população com uma mistura muito forte, a maior parte de nordestinos e índios, os caboclos. A partir de certo momento da minha infância começou a imigração japonesa. Apareceram os tomates, as maçãs. Até então havia só os produtos da própria selva. Tudo muito grande. As mangas, por exemplo. Coisa de trópico. Tudo muito excessivo. Também uma enorme sensualidade. Anos atrás, eu voltei, não ia há muito tempo. Tive aquela sensação hilária: você acha tudo muito pequeno [risos]...

EE – [risos] Entendo. Você cresceu...

AC – Saí de Manaus com doze, treze anos. Voltei duas vezes, ambas para o Festival Internacional de Cinema. Uma, para o júri dos curtas e na outra, de alegre, como convidado mesmo. E aí reencontrei a infância. O colégio em que estudei, o Salesiano. O Teatro Amazonas. A cidade enorme, cheia de shoppings, crescida. A Manaus do meu tempo era o centro histórico. Reencontrei um pouco as raízes. Lembro do cinema à noite. Um desses cinemas era do pai do Oscar Ramos, um amigo, e se chamava “Éden”. Lá eu vi minha primeira mulher nua, Maria Félix em “French Can Can”, do Jean Renoir.

EE – Já era adolescente?

AC – Não, uns oito para dez, por aí. As memórias são meio nebulosas. Outro colega de infância era o Arthur Virgílio, depois eleito senador e agora prefeito de Manaus. Além dele, o Djalma Batista. São pessoas de quem eu lembro muito vagamente, não deixei a amizade fluir. Minha mãe criava uma redoma. Aqui no sudeste, ela era de classe média para baixa. Em Manaus, era esposa de médico, futuro deputado estadual, “alta sociedade”. Minha mãe cultivava sonhos loucos, principalmente em relação a mim, o filho mais velho. Tenho mais dois irmãos. Um, já falecido, o caçula, morreu aos cinquenta anos, do coração. E tenho um outro, um ano mais novo. Estudei francês, inglês, pintura, música. Ela tentou de tudo. Em algumas coisas, fui bem. Em outras, péssimo: música nunca deu certo. Nós vivíamos praticamente trancados em casa, meio isolados, como num castelo.

EE – Vocês eram “a família do médico”...

AC – Exatamente. Do Doutor Wilson. A gente não tinha muitos amigos, eu não tinha nenhum. Vivia enterrado nos livros, desde cedo. Por acaso, estou lendo agora um livro do Yukio Mishima, “Confissões de Uma Máscara”. Eu tive consciência, muito cedo, da minha homossexualidade, e estou me reencontrando novamente nesse livro. Todos os sintomas, todo o fascínio com a imagem de São Sebastião, com as esculturas gregas. Comecei até a fazer uma certa teoria, sobre o que o Mishima também fala no livro: como ele se colocava de fora. O observador. Ele não se sentia “belonging”, pertencendo. De certa maneira, acho que eu ficava filmando. [Aponta para mais uma das fotos]: Eu, nesta foto da primeira comunhão, na hora exata em que tirei esta foto, estava pensando na minha homossexualidade. Eu não tinha o conceito, evidentemente, com essa idade, mas sabia que era diferente e sabia do que gostava. Nesse exato momento, eu pensei nisso. E tenho uma outra foto, tirada junto, em que estou quase sorrindo e também estava pensando nisso. É um sorriso perverso. Curioso, porque tinha acabado de receber a primeira comunhão [risos]...

EE – [risos]

AC – O Mishima, assim como o [Pier Paolo] Pasolini, tiveram mortes violentas. Tanto que demorei muito a lê-lo, apesar de ter adorado o filme do Paul Schrader, que conheci aqui no Rio, em um festival de cinema. Adoro aquele filme, mas a literatura do Mishima me assustava um pouco, por causa do fascínio da violência. Algo que é da cultura japonesa, do samurai. E o Pasolini também tem essa mesma coisa com a violência.

EE – Que você utilizou muito, nos seus filmes.

AC – Mas eu não queria me destruir, nunca quis. Quando a minha geração teve que escolher entre a guerrilha e as drogas, eu não quis a guerrilha. Eu não queria morrer. Quando as drogas começaram a ser letais, eu pulei fora. E quando nas minhas aventuras homossexuais cheguei a beirar a marginalidade, jamais corri perigo real ou procurei situações perigosas sem saída. Muito embora eu tenha estado perto, nunca tive o problema que esses dois grandes artistas tiveram, da auto-aniquilação.

EE – Esse tipo de sexualidade autodestrutiva às vezes está relacionada a uma culpa. Então você não sentia culpa?

AC – Claro que sentia culpa. A sociedade toda te culpa, a cultura toda te culpa. Tanto que demorei a sair do armário, só com vinte e poucos anos. Conheci centenas de mulheres, o que também fez com que eu tivesse uma sexualidade viril. Não tenho problema nenhum, físico, de me relacionar com uma mulher. É que na verdade sou uma pessoa que não consigo, nem quero, ter relacionamentos. Fixos. Com ninguém, por muito tempo. Moro sozinho, tenho relacionamentos no momento, mas não de morar junto. Desenvolvi, por causa dessa repressão, por causa dessa culpa, uma atividade estritamente hétero, que foi falsa.

EE – Em Manaus ou só na vinda para o Rio?

AC – Em Manaus, não. Em Manaus era a mais inocente das criaturas, apesar de ter o lado perverso interno, a consciência interna. De noite eu via os filmes e, durante o dia inteiro, “filmava”. Nunca pertencia ao local, porém. Nunca fui sacristão, nunca fui coroinha, nunca fui escoteiro. Mais tarde, nunca fui de grêmio estudantil. Podia até estar em volta e participar, mas nunca realmente pertencia. Nunca fui de agremiação política. Exemplo: quando vim para o Rio, estudei no Colégio de Aplicação da UFRJ, na Lagoa. Ajudei a fundar lá uma célula secundarista do Partido Comunista, mas nunca entrei pro PC. Fui para a PUC estudar sociologia. Antes do vestibular, me chamaram para participar da Ação Popular, um grupo de esquerda cristã. Eu participei, mas sem ser membro.

EE – Qual a diferença, Calmon? Você participava como, então?

AC – Participava das assembleias, conchavos etc., mas não era membro. Não tinha compromissos mais profundos. Assim como eu jamais pertenci ao Cinema Novo. Por quê? Porque tenho essa máscara, como o personagem do Mishima também a tinha. Mesmo quando eu a tirei e me assumi publicamente, no jornal gay “Lampião da Esquina”, fundado pelo Aguinaldo Silva. A partir do momento em que tomei LSD e passei a enxergar o mundo de outra maneira, não tive problemas em me assumir. Portanto, o que eu quero dizer é o seguinte: sempre fui independente e isso, de certa forma, explica o meu cinema. A partir daí, parei de ter culpa de ser o que sou, de fazer o que faço. Quando as pessoas me acusaram de ter “traído” o Cinema Novo ou de ter “traído” o cinema e ido para a Rede Globo, não dei a mínima porque para mim isso nunca foi traição.

EE – O buraco é mais embaixo...

AC – Como dizia o personagem do Clint Eastwood, “a man must know his limitations”. Você tem que fazer o que você faz bem e não deve tentar ser o que não é. A coisa mais sábia que já ouvi no Brasil, do sábio dos sábios, foi do Zeca Pagodinho [risos]. Sempre deixei a vida me levar. E também sou muito sardônico. Já me perguntaram: “Calmon, o que você acha do casamento gay?” “Acho que estou muito velho pra isso...” [risos] “Na sua próxima novela você vai tratar do beijo gay?” “Não, vou tratar do divórcio gay. Agora que já teve o casamento, daqui a pouco vai ter o divórcio...” [risos] Não resisto a uma piada e às vezes também pago um preço caro por causa disso.

EE – Fale mais do seu processo de formação, como ele influenciou nesse distanciamento...

AC – O sonho da minha mãe era voltar para o Rio. Detestava tudo lá e queria voltar para o Rio. Meu pai, uma figura incrível a quem só fui dar o devido valor muito tarde, formou-se em medicina, mas em Manaus estudou português loucamente, depois estudou Direito, quase chegou a se formar. Não satisfeito, entrou para a política. Tirava uma semana, por mês, para pegar um barco e ir pelo interior. Trabalhar pro bono, por conta própria. Aos poucos, ele percebeu que tinha um eleitorado imenso e foi duas vezes deputado estadual, pelo Amazonas. Acabou se filiando a um partido, infelizmente, extremamente corrupto. Partido Social Progressista, do Adhemar de Barros, que vem a ser meu padrinho de crisma.

EE – [risos] Essa eu nunca teria imaginado: você e o Adhemar de Barros...

AC – [risos] É... Ele ia algumas vezes a Manaus. Lembro dele de terno panamá branco, o nariz muito vermelho, acho que de bebida. Usava aquela frase famosa, “roubo, mas faço”.

EE – Depois teve a volta: roubaram o cofre dele...

AC – Acabou o meu pai se elegendo deputado federal. Voltamos para o Rio, minha mãe feliz da vida, e o Juscelino muda a capital para Brasília [risos]. Meu pai se mudou para Brasília, ficou na ponte aérea, eu virei um garoto do Leblon, depois um garoto de Ipanema. Foi dolorosíssimo vir para o Rio. Durante dois, três anos, sofri horrivelmente de saudades do Amazonas. Sonhava, sonhava e sonhava em voltar. Custei a me aclimatar. Entre o Colégio Santo Agostinho e o Colégio de Aplicação, fiquei três, quatro meses em um outro, em que parei por acaso: o Padre Antônio Vieira. De meninos grã-finos, que não deram certo em colégio nenhum. Sofria bullying todo dia. Eu era o provinciano, usava aquele sapato chamado “tanque colegial”, calças de provinciano. Apanhava todo dia, porque era o segundo melhor aluno do colégio. Apanhávamos na entrada e na saída do colégio. Eu e o JC, Jesus Cristo, o primeiro aluno. Sempre fui nerd. Passei minha infância e adolescência lendo desvairadamente, e vendo filme.

EE – Desde pequeno...

AC – Qualquer folga que tivesse de tarde, eu ia ao cinema. Desde sempre, foi uma obsessão. Já no Rio, um dos colegas do Colégio de Aplicação tinha um câmera 16 milímetros e era músico também. O Sidney Weissman. Além dele, tinha mais dois, o Mair Tavares e o Amauri Alves, que depois se tornaram montadores. Nós quatro resolvemos fazer um filme. Comecei a trabalhar, porque meu pai percebeu minha homossexualidade cedo, embora eu nunca desse pinta, nem nada. Mas percebeu que eu era diferente. Parou de me dar dinheiro quando eu tinha quinze para dezesseis anos. Acho que isto salvou a minha vida. Fez com que eu tivesse o meu próprio dinheiro e foi com esse dinheiro que banquei o filminho.

EE – Que é o “Infância”?

AC – É, o “Infância”.

EE – Segundo lugar no Festival Mesbla/JB. Em primeiro, o“Escravos de Jó”, do Xavier de Oliveira.

AC – O “Infância” conseguiu o segundo lugar por causa do Glauber. Eu ficava ouvindo um cara gritar, durante a projeção inteira. “Pô, que filme maravilhoso!” Era o Glauber. Não respeitava nada, nem ninguém, falava e fazia o que queria. O meu prêmio foi ser assistente de direção do Cacá Diegues, em “A Grande Cidade”. Conheci todos nesta sessão do “Infância”, nunca os tinha visto antes. A partir de então, pouco a pouco, comecei a me profissionalizar.

EE – Nessa época você foi aluno do Gustavo Dahl, no MAM?

AC – O curso começou com o Ruy Guerra. Deu uma aula só, de decupagem. Havia acontecido o golpe militar e a decupagem foi de uma situação concreta: uma pessoa no apartamento, aguardando o contato político. Tocava a campainha, o cara ia olhar no olho mágico. O Ruy Guerra decupou a cena para nós e nunca mais apareceu. Depois veio o Gustavo Dahl, que tinha cursado o IDHEC, em Paris. Um grande conquistador. Ele e a Maria Lúcia Dahl, belíssima. As primeiras pessoas que vi usarem roupas jeans aqui no Rio. Bem libertinos, também. O Gustavo, agora que faleceu... [Pausa.] Normalmente não vou a velório, a enterro. Decidi que só vou ao meu. Mas quando o Gustavo faleceu, eu fui ao Palácio da Cultura. Tive um treco, chorei pra burro. Não falei com ninguém, estou cada vez mais misantropo, não gosto mais de ir aos lugares, não gosto de ver ninguém.

EE – Esse choro você acha que foi o quê? Fruto da guinada que você experimentou desde o “Infância”?

AC – O Glauber, o Gustavo e o Cacá são as três pessoas a quem eu devo demais. O Gustavo, na parte mais teórica e também porque, muito sutilmente, me passou os livros do Genet. Sem eu nunca ter dado um toque, me emprestou a garçonnière dele. Ensinou a me vestir direito. O Glauber, aquela torrente de informações, de teorias e de loucuras. O primeiro disco que eu tive do Jimi Hendrix foi o Cacá quem me trouxe. Um casaco italiano, de caça, este [aponta para a foto de “O Dragão da Maldade”], também. Em todos os sentidos, socialmente, intelectualmente, existencialmente, essas três pessoas me formaram. Tiraram o resto do meu provincianismo, viram em mim alguma coisa, acreditaram no meu talento e, pelo menos sempre vi isso, me adoravam. Cada diretor tinha um jovem e brilhante assistente. Eduardo Escorel, João Carlos Horta, vários desses. Eram, praticamente, aprendizes que trabalhavam e se revezavam de um filme para outro. Uma segunda geração, porque também havia muito esse negócio de continuar o Cinema Novo.

EE – Havia, conscientemente, um plano para o Cinema Novo.

AC – Lembro que, no enterro do Glauber, o Gustavo fez um discurso brilhante, brilhante. Parecia um senador romano: “O leão tinha sete cabeças. Morreu uma, ficaram seis.” O Cinema Novo sempre foi um projeto. Cultural e político. Sempre. Tanto que o Glauber, de certa forma, propiciou a Abertura, junto ao Golbery. Eles sempre conspiraram. Sempre houve uma guerra subterrânea, contra o CPC da União Nacional dos Estudantes, contra o Partido Comunista. O Cinema Novo, em determinado momento, foi quase um partido político. Aos poucos esse negócio foi se fragmentando. O Leon Hirzsman era um teórico marxista. Bem diferentes entre si: o Joaquim Pedro era um aristocrata de esquerda, como o Luchino Visconti. A aristocracia mineira. O Mário Carneiro, outro aristocrata, filho de embaixador, criado na França. O Leon era um desses judeus brilhantes, cerebral, fantástico. O Glauber era a única pessoa que eu conheci realmente possuída pelo gênio, pela genialidade. Ele funcionava em outro patamar. O Cacá sempre foi um político extremamente hábil, articulador, brilhante também. As reuniões deles, a fundação da Difilm, tudo isso tinha um cunho político. Havia um plano cultural. A maneira como a Embrafilme foi criada. Eu acompanhei. Agora, como sempre: de longe. “Not belonging”. Não fazendo parte. Um pé aqui, um pé lá, porque me mantive um renegado, um outsider.

EE – E “A Grande Cidade” encaminhou você nos meandros do cinema...

AC – O primeiro trabalho como assistente. De continuidade e de montagem. Eu era basicamente um neófito, não sabia nada, estava aprendendo. Assistente de direção foi o Luiz Fernando Goulart. Eu ficava com a claquete na mão e era a pior pessoa do mundo para fazer assistência de continuidade [risos]... Existem duas coisas que nunca poderia fazer: continuidade e produção. Sou muito neurótico, distraído, ansioso. É por isto que fui responsável por um dos maiores furos de continuidade no cinema brasileiro [risos]...

EE – [risos] Qual?

AC – Toda vez em que alguém levava um tiro no cinema brasileiro, acontecia um desastre, um horror. No final de “A Grande Cidade”, tanto o Leonardo Villar quanto a Anecy Rocha morriam, na estação das barcas para Niterói. Mortos pela polícia e separados por uma grade. Como não existiam técnicos, as pessoas improvisavam. Pegavam uma camisinha, groselha misturada com não sei o quê e pólvora. Colocavam embaixo da roupa do ator, com uma “proteção”. Depois ligavam dois fios, aquilo explodia o sangue e tal. Ninguém tinha noção de nada. Ficávamos horas ensaiando, mas um rapaz exagerou na carga de sangue. Quando ligou o efeito, parecia que a Anecy tinha tomado um tiro de obus [risos]... Caiu dura no chão, foi levada embora, desmaiada. Não teve monólogo da despedida dos dois. Quando você vê o filme, percebe que ela tomou um tiro não sei de quê.

EE – Realmente...

AC – E ainda teve uma consequência: o Leonardo Villar não queria filmar o tiro dele nem morto depois disso [risos]… Ficamos lá, eu, o Zelito Vianna, o Cacá. Nunca vou me esquecer. Conversamos com o Villar, nervoso pra burro. Estávamos tomando um cafezinho, fumando. Debaixo da calça dele saíam os dois fios. Nisto eu vejo o seu Lídio, um eletricista, que usava uma perna de pau. Vinha ele andando, percebeu aqueles dois fios e juntou. O Léo Villar explodiu! Na nossa frente [risos]...

EE – [risos]

AC – Moral da história: um mês depois, filmamos outra sequência da Anecy. Durante o tempo em que ela não gravou, o cabelo cresceu. Ela anda na calçada com o cabelo por aqui [indica a altura do ombro] e, quando sai do mar, o cabelo está aqui [as mãos bem abaixo] [risos]... Essa foi a minha experiência de continuidade. Teve outros probleminhas, de eixo, de olhar, um inferno! Depois veio o “Terra em Transe”, bem menos problemático. Afinal, o Glauber e a continuidade não se entendiam. Câmera na mão, loucura desvairada... Mil histórias saborosas da filmagem do “Terra em Transe”.

EE – Exemplo?

AC – Várias histórias. O Glauber provocava no elenco e na equipe um clima de exacerbação tão grande que não era incomum alguém chorar. Até o pessoal rude, da elétrica e da maquinaria. Aconteceu muito mais disso no “Dragão da Maldade”, mas também no “Terra em Transe”. Eu chorava à toa, choro até hoje. O Glauber fazia a emoção passar e, às vezes, com crueldade excessiva. Uma das vítimas preferidas era o Hugo Carvana. Precisávamos filmar com o Carvana na antiga redação do “Jornal do Brasil”, na Avenida Rio Branco. Eu que tinha que acordar o elenco. O assistente de direção, só para ficar claro, era o Moisés Kendler. Eu, de novo, o continuísta. Então acordava o Carvana, que estava produzindo um show de boate com a Odete Lara e o Antônio Carlos Fontoura. Ele saía da boate de manhãzinha e, como não havia filmagem prevista, chegou em casa umas cinco e meia da manhã. Comprou o jornal, um cafezinho no boteco, desabou na cama. Meia hora depois, toquei a campainha [risos]...

EE – [risos] O lado burocrático de “Terra em Transe”...

AC – “Não, Antonio, hoje não tenho filmagem!” “Mas o Glauber escalou você.” O Carvana  acatou e, como sempre, o Glauber o colocou para fazer pessoas pusilânimes, covardes. Carvana estava completamente dopado, bêbado, virado. Não conseguia chorar. “Chora! Seu merda! Seu filho da puta! Você é um pusilânime, covarde!” O personagem, claro. O Glauber gritava, porque os filmes ainda eram dublados. Passou a esbofeteá-lo! Você vê, no copião, a mão dele entrando na cena [risos]

EE – [risos] Em “O Bravo Guerreiro”, imagino que a filmagem tenha sido mais tranquila...

AC – O Gustavo tinha profundo conhecimento. Talvez quem melhor conhecia a gramática cinematográfica, a teoria cinematográfica. Existem momentos visualmente deslumbrantes no filme, uma extraordinária interpretação do Pereio, como deputado em crise. Lembro basicamente de uma cena. Uma reunião sindical, em que havia o retrato enorme de uma figura política qualquer, durante o discurso do Pereio. O Gustavo foi um intelectual maior do que cineasta.

EE – Do “Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, o que você conta?

AC – Ah, “O Dragão” foi uma aventura inesquecível. Logo após o AI-5, pegamos um kombi, daqui para a Bahia. O Ronaldo Duarte e o Rogério Duarte haviam sido barbaramente torturados, depois de uma passeata. Como o Glauber era de uma generosidade extraordinária com os amigos, uma coisa super protetora, pegou o Ronaldo para fazer foto de cena e a figuração em Milagres. Também estava na kombi o Roque, eletricista de todos os filmes dele. Viajamos pela antiga estrada Rio-Bahia, paramos na terra do Glauber, Vitória da Conquista. Em Milagres, fiquei embasbacado. Embaixo, no ponto dos caminhoneiros, umas dez a quinze crianças se viravam, cheiravam gasolina, uma miséria terrível. Você escalava aquilo e, lá em cima, uma população paupérrima. Só poeira.

EE – Um descampado total.

AC – Ficamos hospedados na mesma casa. No quarto, o Glauber com a então esposa, a Rosa Maria Penna. Eu, no sofá. A Odete Lara, no outro. Dava para sentir a poeira caindo em cima da gente, durante a noite. Construímos o primeiro banheiro da cidade. O primeiro a usar era eu, porque depois ficava uma coisa assombrosa. Bom, durante a viagem, o Glauber foi lendo o começo do “Os Sertões”, em que o Euclides da Cunha descreve as mudanças da paisagem. Ele lendo junto, mostrando. Uma experiência inacreditável. A paisagem ainda não era tão diferente, naquela época. Partimos para Salvador, encontramos o Jorge Amado: “Isso agora é com vocês. Eu enfrentei o Estado Novo. Agora é a vez de vocês...”

EE – Pouco depois você participou do “Cara a Cara”, do Júlio Bressane. Outro tipo de cinema, outro projeto político.

AC – Era mais uma questão de perspectiva e de discurso. Na verdade, outra geração, tentando também formar um grupo, um lobby junto à imprensa, junto às fontes de financiamento. Igual à primeira geração. Eu era amicíssimo do Julinho, mais um daqueles jovens assistentes. Saíamos de carro, frequentávamos as mesmas mesas de bar. Éramos tratados com o mesmo carinho pelos diretores. O Júlio se rebelou, cometeu o gesto incestuoso de ficar com a ex-mulher do Glauber. E nunca vou esquecer do dia em que, na casa do Júlio, ele e o Neville de Almeida me propuseram entrar para o underground e não fazer o filme do Arnaldo Jabor, o “Pindorama”.

EE – Reunião de cúpula...

AC – Nessa hora, eu falei: “vem cá, o Jabor vai me contratar com dinheiro da Columbia, para ficar três a quatro meses em Itaparica, o paraíso na Terra, ganhando um ótimo salário. O que vocês me oferecem?”. Responderam: “Você vai participar do movimento revolucionário, ao invés de fazer um filme com dinheiro americano.” Eu: “E quem lidera esse movimento, vocês dois? Eu vou ser mais uma pessoa desse movimento, assim como no Cinema Novo o Glauber, Cacá, Gustavo lideram e fulano, beltrano etc. [de coadjuvantes]? Não quero. Vocês devem me oferecer um emprego muito bem pago, porque estou cagando para movimento intelectual.” E fiz o meu próprio filme underground. Quer dizer, eu sou o underground do underground. Em Cinemascope, com estrelas, e que não deu um tostão: “O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil”.

EE – No calor da hora, nessa guerra ideológica, você tinha noção de que alguns filmes eram melhores do que os outros? Outras pessoas tinham?

AC – Eu tinha. Um filme, inclusive, larguei no começo: “Brasil Ano 2000”. Cheguei lá e, quando vi aquilo, falei para o Walter [Lima Jr.], que nunca me perdoou: “Walter, quando o navio vai afundar, os ratos são os primeiros a saltar fora. E eu sou um rato...” [risos] Não morro de amores pelo Walter Lima Jr. e vice-versa. Muito tempo depois, em 1983, participei de “Inocência”. Não tive nada a ver com a parte criativa. Fiquei com a ingrata função de diretor de produção, ou seja, representante dos produtores. Isto provocou vários choques com o Walter, mas tenho que fazer justiça. “Inocência” é a obra-prima dele. A meu ver, um dos maiores filmes brasileiros de todos os tempos. Ele seguiu à risca o roteiro genial do Lima Barreto e todos os cineastas americanos que admirava. Acontece que no “Brasil Ano 2000”, tive que sair de Parati, vi que não tinha pé nem cabeça.

EE – Situação delicada...

AC – “Pindorama”, por exemplo, acabou porque a equipe toda começou a ir embora, depois do terceiro ou quarto mês. Para o “paraíso na Terra”, o Jabor só escolhia mangue e pantanal, estava em um processo muito ruim de depressão. Nós gravávamos no barro, na lama. Foi das filmagens mais acidentadas e terríveis de que já participei. E isto em um lugar maravilhoso. Mesmo assim, tenho pelo menos uma história sensacional. Os índios de “Pindorama” eram os negros de Itaparica, uns negros altíssimos. Eu cuidava dessa figuração. Plano sequência, com a Mitchell, aquela câmera de dez minutos de chassi. Os índios tinham que ficar ao fundo, segurando umas lanças. “Vocês não se mexam, mesmo que qualquer coisa aconteça!” O Jabor ensaiou pra cacete, começou a fazer um take, dois takes, três takes. De repente, eu olhei. Cadê eles? Estavam enterrados! Foram afundando no mangue [risos]...

EE – [risos] Inacreditável... E na linha do “underground do underground”, em 1973 você participou de “Rainha Diaba”. Um clássico do Antonio Carlos Fontoura.

AC – Minha história com o Fontoura é interessante. Eu sou Antonio Augusto, ele é Antonio Carlos. Nós dois só usávamos jeans. Nós dois somos desastrados, disritmia cerebral. Quero usar a mão esquerda, uso a mão direita. Andávamos juntos para cima e para baixo. Eu chamava ele de Calmon, ele me chamava de Fontoura. Até hoje [risos]... E o loirinho era como eu. Sempre foi uma pessoa solta. Tinha um belíssimo primeiro filme [“Copacabana Me Engana”], nada a ver com as linguagens e as preocupações do Cinema Novo. “Rainha Diaba” também não tinha nada a ver com nada. Fui diretor de produção dele nesse belo filme. Acho que o papel do Fontoura no cinema brasileiro não foi prestigiado como deveria. Assim como eu, ele não cortejava jornalista, não se “auto-publicitava”.

EE – Não tinha o grupo...

AC – Não tinha o grupo por trás. Sempre foi independente. E também não tinha a ideologia. Todos esses filmes possuíam um discurso político e, como havia repressão política, todos se amparavam. Havia a simpatia da elite cultural, de esquerda. “Rainha Diaba” é uma obra-prima. O filme não envelheceu. Lembro que o Wilson Grey odiava o Fontoura, odiava... Ele interpretava o “Manco”, um dos capangas da Diaba. Usava um sapato com o salto mais alto do que o outro, e já tinha uma certa idade. Um dia não apareceu para filmar. Tivemos que ir à casa dele, o Grey morava quase em frente ao IML. Aquele cheiro de formol que vem lá de dentro... Tive que entrar ali duas ou três vezes para reconhecer corpo. Ele morava em um quartinho, uma cabeça de porco, uma coisa terrível. Ele nos viu, levantou-se e disse: “Aqui mora o artista!” O Grey tinha uma dignidade. Era viciado em corrida de cavalo, tudo o que ele ganhava, jogava. A carreira dele vinha desde a época da chanchada.

EE – E convivendo ali, com essa nova onda de garotos...

AC – Lembro da gravação da morte do Stepan Nercessian. Mais uma vez deu uma cagada na hora dos tiros, que eram de metralhadora. Puseram o líquido em excesso, que misturou com os fios e começou a dar choque elétrico. O Stepan se debatendo, eu entrei gritando “Pára! Pára! Corta! Corta!”. Tiramos os fios, ele ia morrer eletrocutado. A filmagem continuou no dia seguinte, eu fui pegar o almoço da equipe. Quando volto, umas dez pessoas em cena, o Stepan morto... Mas tem um problema: o Fontoura é muito distraído. Eu olho em volta e falo: “Espera aí, cadê o sangue?” “Ahn?” “Fontoura, esse cara tomou trinta tiros ontem. Cadê o sangue? Ninguém viu?” Aí o Grey vira pra mim: “Psiu... Eu vi...” [risos]

EE – [risos] O “Rainha Diaba” conseguiu um elenco sideral...

AC – Só havia pessoas geniais ali. Um elenco de freaks maravilhosos. O Fontoura estava inspiradíssimo quando fez aquele filme. Um dia nós estávamos no centro da cidade, em uma área bem barra pesada, com travestis, policiais, putas. Eu, com aquele negócio de produção, quase tive uma úlcera. Fui pegar o jantar e quando voltei estava uma cagada. Começamos a ouvir gritos  lancinantes de criança. Era um cara batendo no filho com uma corrente. Começou um clima de linchamento e o cara era um operário, algo do gênero. Tinha sofrido um acidente de trabalho, queimadura de terceiro grau e ficou meio pirado. Eu nervoso, sem saber o que fazer, ninguém tomando uma providência. A Odete Lara me diz: “Calmon, vem cá. Toma isso.” Entregou um comprimido, tomei, senti logo um bem estar enorme. Fui lá, resolvi a situação, enquadrei as putas, os policiais, os travestis. Mandei chamar uma ambulância para o menino e para o pai. Tudo tranquilo, a filmagem continuou normal. Quando chegou de manhã, eu perguntei. “Odete, o que foi aquilo que você me deu?” Ela me disse: “Ah, uma morfinazinha...” [risos]

EE – [risos] Ah, essa beleza dos anos 70...

AC – [risos] Todo dia eu enchia o saco dela. “Odete, não tem aquela coisa maravilhosa, não?” “Não, só quando a barra pesa muito” [risos]...

EE – [risos] Calmon, agora os seus longas-metragens. Primeiro, “O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil”.

AC – Sabe que “O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil” foi o primeiro filme financiado pela Embrafilme? O Glauber tirou para mim. Você vê que, mesmo eu tendo virado um anjo maldito, ele não só não me discriminou como bancou meu primeiro filme. Pior: eu já havia enlouquecido, virado um maluco, drogado. Carvana e eu fizemos esta firma chamada “Trópico Produções Cinematográficas Limitada”. Um de nós dois, não sei qual o idiota, disse: “Começamos a construir um império!” [risos]... Alguém descobriu que o Luiz Severiano Ribeiro tinha uma lente Cinemascope. Uma única lente, de cinquenta milímetros. Carvana era praticamente irmão do Cláudio Marzo, os dois se adoravam. Então reunimos um puta elenco e eu, em uma semana, completamente alucinado, escrevi o roteiro. Como todo primeiro filme, era uma mistura de tudo que eu gostava. O Jean Cocteau do “Orfeu”, misturado com a crise existencial de empresário, do Antonioni. Na época eu achava que fazia sentido e que seria um estouro comercial. O dinheiro mal dava. Filmamos em três semanas: uma em São Paulo, uma no Rio, uma em Arembepe, na Bahia. Loucos, o tempo todo. Adoro o filme, de vez em quando revejo, acho que não se parece com nada do cinema brasileiro.

EE – E hoje em dia você revê lúcido...

AC – [risos] É... Quem sabe? Não, brincadeiras à parte, fiquei louco para sempre. Como diz o Fontoura, não tomo mais nada para não cortar o meu barato... [risos]

EE – [risos]

AC – Aliás, lembrei de uma cena com o Jesus Pingo, irmão do Pereio. “Jesus Pingo”. Eu que dei esse nome pra ele. Uma figura. Compridão, cabelão, tomava tudo que era droga, inclusive uma chamada Rohypinol. Ficava completamente louco. Fazia o revolucionário no filme e era condenado a morrer na roda. No final, ele faz o discurso revolucionário com a casa pegando fogo, ao fundo. Ele no primeiro plano: “blá, blá, blá, a exploração etcetera e tal!” Um texto enorme. E você vê, no copião, que aos poucos as pessoas vão saindo. Vão saindo, vão saindo, vão saindo... Por causa do calor da casa queimando! Aí o Jesus improvisa: “E eu não aguento mais, porra!” E sai, desesperado [risos]...

EE – [risos] Genial!

AC – “Capitão Bandeira” levou cinco anos para se pagar. A estreia foi no cinema Pax, ao lado da Igreja Nossa Senhora da Paz [em Ipanema]. Lotado, lotado, um caos. Pessoas que acharam genial, pessoas que odiaram. A crítica destruiu. Um crítico, muito conhecido no meio cinematográfico e que até hoje está aí, disse que o Serviço Nacional de Informações deveria tomar providências. Era um acinte à bandeira brasileira. Na verdade, era uma metáfora da loucura da droga. E a Sônia Braga representava o meu grande amor gay, um rapaz que conheci nas filmagens de “Pindorama”.

EE – No “Paranóia”, de 1977, você estava mais calejado...

AC – “Paranóia” era um projeto de ambiciosíssimos produtores de Ribeirão Preto, junto à exibidora Galante. Foi escrito a partir uma crônica do [Carlos Heitor] Cony, baseada no tal  primeiro assalto em uma residência burguesa que se teve notícia, em São Paulo, onde também teria havido um estupro. Eu estava cinco anos sem filmar, ninguém mais queria ouvir falar de mim. Virei hippie, maluco, mendigo na Bahia, com a barba até aqui, cabelo até aqui. Andava descalço, morava numa comuna hippie, dormia no chão em uma esteira, cheia de santinho pregado.

EE – Viveu o desbunde na própria pele.

AC – Na época do “Capitão Bandeira” me casei com uma baiana. Ao mesmo tempo, estava com um cara. Ou seja, problemas do bissexualismo que sempre dão merda, infelicidade a três. Tinha pirado completamente, vivi na miséria até o meu pai me localizar. Perdi uns quinze quilos, sei lá. Estava com dezessete cáries. Fui trazido para o Rio e mais uma vez o anjo Cacá Diegues me salva. Era perto do Natal e ele me chama para Natal ou Ano Novo na casa dele. Apresenta o Samuel Wainer, que então me convida para trabalhar com ele, em um jornal dos Bloch. Volto para a Bahia, de onde havia sido retirado quase morto, para ficar no melhor hotel de lá. Um salário maravilhoso, uma diária maravilhosa, para cobrir o carnaval fazendo uma matéria com o Guilherme Araújo. Quer dizer, voltei por cima. Estava tão miserável na Bahia que três pessoas, um dia por semana, pagavam a minha refeição ou faziam uma refeição para mim e meu amigo. Nos outros dias a gente comia resto de feira. Uma loucura, cara. Sabe o livro “A Fome”, do Knut Hamsum? Eu vivi aquilo. Vivi ficar em porta de restaurante, sentindo cheiro de comida. Pedi esmola. Eu cheguei ao mais baixo do desespero.

EE – Mas foi por opção ou por consequência de algum fato?

AC – Depois que o “Capitão Bandeira” fracassou e também depois que me assumi, precisei fazer isso. Desbundei mesmo. Mesmo. Consegui dinheiro emprestado, cheguei de ônibus na Bahia, dez cruzeiros no bolso. Nos três primeiros dias, era uma celebridade. Depois que as pessoas viram que eu estava na merda, todo mundo cagou na minha cabeça. Menos os hippies. Então fiquei vivendo da caridade dos outros. Lembro que um dia teve uma guerra na feira, perto de onde nós morávamos. Duas turmas de playboys brigaram e sobrou fruta pra tudo que era lado [risos] Morávamos numa vilazinha, uma casinha precária, mas com uma vista linda, na Ladeira da Barra. Moravam as figuras mais estranhas naquela comuna. Tinha o Marquinhos Rebu, menino de uns dezesseis, dezessete anos. Lindo, deslumbrante, uma moça, mocinha. O Marquinhos se mudou para lá, com uma malinha de roupa e um espelho enorme. Na casa em frente, havia uma célula terrorista. Em toda a Bahia, todo mundo sabia que era uma célula terrorista. Os caras barbudinhos, de casaco, em um calor desgraçado. O Marquinhos ficava de baby-doll na varanda, paquerando os terroristas, pegando nos cachos de cabelo, flertando.

EE – Isso em que ano, Calmon?

AC – Não tenho ideia. 1970, 70 e pouco. Eu não respeito o artista apenas erudito, como o Borges, por exemplo. O artista tem que viver. Mas há um limite. Se você fica demais no existencial, ou você morre ou você deixa de ser artista. Como aconteceu com o Rimbaud e o Pasolini, por exemplo. Em “O Petróleo”, do Pasolini, o personagem na verdade é ele. Vai para um campo de futebol e dá para vinte garotos da periferia. Mais ou menos tipo o lugar onde o próprio Pasolini foi assassinado. Se você radicaliza a experiência existencial e mistura demais com a obra, você pode morrer. Então eu tive que aprender as horas de frear. Quando voltei dessas coisas todas, dirigi  “Paranóia”.

EE – Você foi pragmático.

AC – Acho que consegui parar por duas razões. Primeiro, porque a droga não é causa, é consequência. Droga sempre esconde algo maior. Pela psicanálise e por uma série de coisas, eu não precisava esconder nada. Segundo: graças a Deus, eu tenho a criação, eu posso jogar. Quando fiz o “Eu Matei Lúcio Flávio”, eu joguei tudo. Lá você vê o Mishima, você vê o Pasolini, você vê o William Burroughs, os caras todos que me influenciaram. E também coisas marginais que vivi, porque tive namorado assaltante. Coitado, de padaria, mas assaltante [risos]... Eu guardava a arma dele. Foi morto por um policial em Belo Horizonte, o primeiro que o espancou, quando era menor de idade. O policial tinha espancado o garoto, prendido ele e roubado sua bicicleta. O garoto o denunciou e ele foi punido. Anos depois se encontraram na rua e o policial atirou no rosto dele. O garoto chamava-se Para-Raios. Até escrevi um projeto de filme chamado “Para-Raios”, por conta disso. A vida é uma merda.

EE – Depois de “Paranóia”, temos o “Revólver de Brinquedo”.

AC – Isso. Que é a minha obra-prima perdida. Um filme precário e o som, um horror. Realizado no estúdio do Roberto Bataglin, com a fotografia de Miguel Rio Branco, que considero o maior artista brasileiro vivo. Roteiro de Leopoldo Serran, outro gênio. Os roteiros originais do Leopoldo, quando não escritos por encomenda, são todos obras-primas. Tem esse e o tal inédito, um filme policial passado em Lisboa. “Revólver de Brinquedo” é uma obra-prima, uma comédia noir. Quase um filme do Woody Allen, só que melhor. Vou te contar uma cena. É um cara que mora com a mãe, a Tereza Rachel, completamente dominado por ela e vivido pelo Helber Rangel, um ator brilhante, parecia saído de um filme do Truffaut. O cara conhece uma menina chamada Leninha, a Maria Lúcia Dahl. Ele, muito tímido, não conseguia se aproximar da mulher e morava em um sobrado de Santa Tereza. O filme é quase todo passado em Santa Tereza, no auge da repressão policial da ditadura militar. O rapaz resolve pichar no muro em frente: “Eu... Te... Amo... Lenin...” e aí passa uma viatura e leva ele [risos]... Fizemos com pouquíssimos recursos, poucos atores, mas olha que cena genial. O filme é isso, cara, maravilhoso. Pena que não tem cópia.

EE – Produzido pelo Pedro Rovai, você dirigiu uma trilogia: “Gente Fina É Outra Coisa”, “O Bom Marido” e “Nos Embalos de Ipanema”. Todos muito bons, os três filmes.

AC –  Sempre roteiros do Leopoldo e do Armando [Costa]. O Armando era um gênio e o Leopoldo, outro. Ambos haviam pertencido ao Centro Popular de Cultura da UNE, havia esse lado político forte neles. Também tive formação marxista e subversiva. Só que, mais do que anarquista, me defino como “anarco-conservador”.

EE – E, em 1979, você dirige aquela que é a sua obra-prima:“Eu Matei Lúcio Flávio”.

AC – Também é o filme de que eu mais gosto. O Jece Valadão, dono da Magnus Filmes, convidou o Leopoldo. Não sei como, nem por quê. Leopoldo me telefonou e eu estava numa merda, pra variar. Cinema é aquela coisa: você demora a receber, tem espaços entre um filme e outro. Aí você deve tudo, não paga o aluguel. Eu e o Leopoldo tínhamos uma tabelinha. Várias vezes eu tirei ele da merda e ele me tirou da merda. Dessa vez, ele me telefonou, do nada. “Olha, estou escrevendo um roteiro para o Jece Valadão, sobre o Mariel Mariscott.” De minha parte, não tive problemas e não foi nem por precisar do dinheiro. Simplesmente adorei o Beto [Alberto Magno, filho de Jece], um cara brilhante. Pianista, sobrinho do Nelson Rodrigues, uma mistura completamente maluca.

EE – O Jece esperava esse tipo de filme ou alguma coisa mais clássica?

AC – Ele adorou, achou que deu a maior sorte, porque o filme tinha tudo para dar errado. Era uma operação delicadíssima, fazer um filme sobre o Mariel.

EE – Mariel vivo ainda...

AC – Mariel “brother” dele. Fomos à cadeia, conversei com o Mariscott umas três vezes. Depois que o filme ficou pronto, contaram para ele, que ficou puto. Meio que me mandou uma ameaça e tive de contatar o Zuenir Ventura. Dei uma entrevista, dizendo que não era “presuntável”. Aí ele enviou o recado: “Que é isso, meu irmãozinho? Está tudo bem...” O Mariel tinha três celas: uma para dormir, uma para receber visitas e uma para ateliê.

EE – Uma das críticas mais burras ao “Eu Matei Lúcio Flávio” é de que se trata de uma apologia. Eu discordo. É uma perversão da apologia.

AC – O negócio é o seguinte: tinham feito uma hagiografia do Lúcio Flávio. O [Hector] Babenco transformou o Lúcio Flávio em herói popular. Uma metáfora do terrorista que assalta banco. Acontece que o Lúcio Flávio não era nada disso. Quando surgiu o filme, nesse ambiente cultural de esquerda em que se vivia e se vive ainda, agora meio desmoralizado porque o nosso líder terrorista está ameaçado de cadeia, as pessoas ficaram putas. Tacharam o “Eu Matei... de um filme de direita. Como se sabe, boa parte da humanidade é composta de imbecis. Outra boa parte, de oportunistas. O filme pertence a uma linha de produto artístico que leva os instintos mais sombrios e destrutivos, mas reais, ao seu extremo limite. O Tarantino faz essas coisas e todos acham maravilhoso. Ninguém questiona, todos acham o máximo. Porém, dentro de uma leitura marxista de qualquer coisa, é claro e óbvio como uma vaca pastando: trata-se de um filme de direita.

EE – Em uma parte da minha geração existe uma outra visão do problema. Você tem noção disto, Calmon? Com o tempo, um filme antes acusado de ser “de direita” passou a ser uma obra  estética.

AC – Olha, o LSD me mudou. Eu tive uma coisa revolucionária na minha vida. Tomei não sei quantos LSDs e tive não sei quantas bad trips. Até que parou na minha mão “O Livro Tibetano dos Mortos”, traduzido pelo Timothy Leary, que aliás conheci depois em Los Angeles. “O Livro Tibetano dos Mortos”, ao contrário do que se pensava, não é um livro de preparação para a morte física. É um livro de preparação para a morte do ego. Neste momento, em que tudo se desfaz, você tem noção de como são arbitrárias as escolhas. O que é cultural, o que não é. Como são ridículos os medos, como são arbitrárias as certezas. Como a linguagem é uma besteira. Qualquer ideologia se desmonta e qual é o enorme perigo do LSD? Você nunca mais se reenquadrar na sociedade. Então, veja bem: essa minha experiência com o LSD fez com que o dogmatismo marxista fosse pra casa do caralho. Fez com que as minhas repressões sexuais fossem pra puta que o pariu.

EE – Exatamente...

AC – Por exemplo, esse negócio de casamento gay. Casamento, para mim, é uma coisa impensável. Eu venho de uma família disfuncional. Não conheço nenhuma família feliz, só tem monstruosidade por detrás. Não há coisa pior do que a discussão de uma herança. Enfim, enfim... Essas experiências com drogas e de vida fizeram com que eu me despisse disso. Então, quando aparece uma geração como a sua, livre dessas coisas, eu entendo perfeitamente, porque eram dados da época. Procuro sempre estar antenado.

EE – Talvez por isto o seu cinema continue moderno. Porque não tem esse dogmatismo ideológico. Na sequência de “Eu Matei Lúcio Flávio”, veio “O Torturador”.

AC – “O Torturador” era para ser uma superprodução, porque “Eu Matei Lúcio Flávio” deu muito dinheiro. O Grupo Severiano Ribeiro iria produzir. Então viajei ao Paraguai, Pedro Juan Caballero, com o Beto. Você atravessa a rua e está no Paraguai. Fomos muito bem recebidos por um grande traficante paraguaio. Fizemos uns contatos de produção, tivemos uma aventura fantástica. Primeiro a viagem de avião, aquela chapada. De repente, o abismo. A geografia maravilhosa, aquele aviãozinho pequeno. Depois, um descampado enorme e aquele casarão, só de um andar. Entramos eu e o Beto, doidaços. Parecia um filme de vampiro. Não tinha ninguém, ninguém, e começou a sair mulher. Era um puteiro [risos] Aí foi uma farra, estávamos bêbados, uma loucura. Quando voltamos, o Severiano tinha pulado fora e o Jece estava com uma merrequinha de dinheiro. Rodamos o filme inteiro na Barra da Tijuca, em duas semanas. Aquela pobreza. Não apenas isso como o roteiro tinha um lado meio “Casablanca”, que se perdeu. Deu pra curtir uma cena ou outra. Uma atriz enlouqueceu na filmagem, no meio de um plano. Foi embora, nunca mais apareceu. Não sei até hoje o que foi feito dela. Começou a rir, a balançar a cabeça. Teve um surto psicótico. Curti algumas coisas, principalmente com o Paulo Villaça, o Jece, o Anselmo [Vasconcellos], que está maravilhoso. E that's it. O filme é bem irregular.

EE – Agora vamos em um sentido oposto: o ciclo com o Luiz Carlos Barreto, em “Menino do Rio” e “Garota Dourada”.

AC –  Nas minhas pornochanchadas políticas e nos meus filmes de sexo e violência, não tem garotada. Tem uma cena ou outra com jovem, mas não são filmes tematizando-os. Isso só começou a acontecer quando o Bruno Barreto me convidou para o “Menino do Rio”. 

EE – “Menino do Rio” virou ícone de uma geração. Você imaginava isso, na origem do filme?

AC – Na verdade, era um réquiem para um amigo meu que morreu. Namorava uma empregadinha aqui da redondeza, transavam lá no alto do morro. Tem uma cachoeira, cheia de limo. Ele e a menina escorregaram, ele caiu de trinta metros. Quebrou a perna em cinco lugares. Era lindo, loirinho, arrebentou a cara inteira, ficou três dias na UTI do Miguel Couto e morreu. Quando o filme surgiu, havia essa coincidência. O irmão do André De Biase [Tonico De Biase] escreveu sobre um ator surfista, amigo dele, que morreu pegando surfe. História verídica. Aí eu transformei a morte do Pepeu em um réquiem para aquele menino que eu conhecia. Nem fazia sexo com ele. Ia ser ator, uma pessoa iluminada, e morreu. Quase morri junto. Enfim... [Pausa. Longa.] Eu joguei tudo no filme, então “Menino do Rio” tem muita emoção. E também o Bruno [Barreto] foi um fantástico produtor. Desde garotinho, os pais levavam para Los Angeles. O Bruno tinha experiência de filmagem comercial. Chamou o Carlos Egberto, um cara que estudou fotografia em Londres e também esteve em Los Angeles. O filme tem qualidade de produção, a primeira vez em que eu usei grua, e uma puta de uma fotografia.

EE – Um panteão dos ídolos jovens, nos anos 80. André De Biase, Sérgio Mallandro...

AC – Sérgio Mallandro era o melhor amigo do André De Biase. O André era autor da história, tinha estrelado o “Nos Embalos de Ipanema”, descoberto o gostinho do cinema. O Evandro Mesquita fui eu que trouxe. A Cissa [Guimarães] também. A Cláudia [Magno] era convite do Bruno. Tinha o Ricardo Zambelli,  um ator fantástico, comediante muito bom. Faz um vilão, mas um vilão cômico.

EE – Além desses dois filmes, o “Menina Veneno”, que não foi lançado.

AC – Este não saiu do roteiro. Seria uma trilogia também, como a do Rovai. “Garota Dourada” foi um flop. Vimos locação em Santa Catarina, mas acontece que era o primeiro ano do El Niño. Nunca havia chovido lá nessa época do ano e agora chovia todo dia. Eu chorava todo dia. Acordávamos às cinco da manhã, preparávamos tudo. Quando dizia “câmera”, caía uma tempestade. Tinha muito cogumelo... Uma pessoa levava todo mundo para a capital, Florianópolis. Descontrole da equipe. O filme perdeu eixo, entrou um lado místico. “Garota Dourada” não é um bom filme. Eu tenho dois  bem fracos: este e um horrível, “A Mulher Sensual ou Novela das Sete”, que dirigi para pagar o enterro de um namorado meu. Morreu aqui no Parque Lage. Peguei um empréstimo e tive que fazer o filme, que eu não queria. Um best seller, tipo o “Cinquenta Tons de Cinza”. Livro de sacanagem feminina.

EE – Vamos passar para os dois últimos: “Terror e Êxtase”, de 1979, e “Mulher Sensual”, de 1981. Queria que você falasse primeiro do “Mulher Sensual”, para depois nos aprofundarmos no “Terror e Êxtase”.

AC – Para “Mulher Sensual”, o Álvaro Pacheco tinha comprado os direitos daquele livro de sacanagem feminina. Queria porque queria que eu filmasse, para convidar a Helena Ramos,  rainha da pornochanchada paulista. Depois que a conheci, vim a saber que era uma moça arrimo de família, ex-secretária do Sílvio Santos. Usava gola aqui, manga aqui [dando a entender que eram roupas longas]. Tinha namorado e odiava fazer esses filmes. Não deu pra ninguém, ficava constrangidíssima, e eu idem. Em uma cena ela estava pelada com quatro atores. Paulo Ramos, André De Biase e mais dois: a fantasia sexual da personagem. Coisa desagradável. Fiz o “Mulher Sensual” realmente sem tesão. Aí parei. Parei de filmar. Acho que meu ciclo de cinema acabou. Foi quando pintou o convite do Daniel Filho para a Globo.

EE – E o “Terror e Êxtase”? Um filme extremamente emblemático. Adaptação do romance homônimo do Carlinhos de Oliveira.

AC – O Carlinhos é desses exemplos em que o excesso de experiência existencial conduz à morte prematura. Ele simplesmente se destruiu com a bebida e foi embora muito cedo. Tinha a enorme frustração de não ser um grande romancista.

EE – Frustração que nem se justificava. Escreveu romances maravilhosos, como “O Pavão Desiludido”, e se dizia a grande promessa não realizada da literatura brasileira...

AC – Aliás, é a síndrome do cronista... No filme, o Álvaro Pacheco estava encantado com a Denise Dummont, que faz a Leninha. Ele chegou a negociar com o empresário da Maria Schneider, a deliciosa francesinha do “O Último Tango em Paris”. Achei que o Álvaro estava de sacanagem, mas conseguiu combinar um almoço com La Schneider e o empresário. Conversa vai, conversa vem e nada da moça. Até que ela aparece, de biquíni e saída de praia, bronzeada, linda. Reparei logo nas marcas de picadas nos braços. Tudo ficou claro para mim, e foi depois confirmado pelo Álvaro: o empresário queria tirá-la da Europa, afastá-la da heroína, que ainda não existia no Brasil. Ela me perguntou se eu gostaria de experimentar um pouco. Incapaz de dizer não a uma dama, aceitei o convite. Subimos para o quarto, ela imediatamente se aplicou. E imediatamente correu para o banheiro, começou a vomitar. E não parava mais. Aí baixou a paranoia em mim. E se essa mulher tem uma overdose? E se eu sou pego no quarto com ela defunta e aquela droga toda? Resolvi me mandar e não voltei ao restaurante [risos]... Para o papel do bandido, o “1001”, tentei um ator negro, mas não houve jeito. O preconceito racial era enorme, o Brasil sempre foi uma África do Sul light. O Roberto Bonfim era uma estrela, lindo. Hoje, o Lázaro Ramos faria um grande “1001”.

EE – Você sabia que o projeto do “Terror e Êxtase” havia sido vendido antes? Foi revendido para o Álvaro.

AC – Não. Não sabia de nada. Por isto que muita gente me detesta e nem sei por quê.

EE – O Carlinhos queria na direção o Glauber, que pensou no Antonio Pitanga para o papel do “1001”.

AC – Eu peguei o bonde andando. Sei que um dia o Álvaro me chamou e fui fazer. O Glauber faria um filme do Glauber, nada a ver com o Carlinhos, que ficaria puto. Eu, pelo menos, fui fiel ao livro. Só não fui fiel em relação ao ator porque não havia condições de público.

EE – É um tremendo filme. “Terror e Êxtase” zomba daquela esquerda festiva, daquela demagogia de asfalto/favela. E foi baseado em uma das cocotas com quem o Carlinhos teve caso...

AC – Um livro que previu o futuro. Hoje em dia estão todas as patricinhas subindo para dar pra traficante, pra conseguir pó. O Carlinhos de Oliveira ficava ali no Antonio's e, de certa forma, ele era o “1001”. Feio, baixinho, transando todas as gatinhas da Zona Sul. Tinha um charme, uma coisa qualquer. Era destruidor. Ficava sozinho em uma mesa, dava escândalos às vezes. Quando o Álvaro me chamou, eu disse: “Pô, Álvaro, esse cara deve me achar um merda.” O Ely Azeredo escrevia no JB, ao lado dele, e fez três críticas seguidas de “O Bom Marido” me demolindo. Esse cara deve me achar um lixo, tal. Que nada. Fez menção ao filme em uma crônica, bem simpática.

EE – Você foi roteirista de vários filmes, em épocas diferentes na indústria. Por exemplo:  “Aventuras de um Paraíba”, nos tempos da Embrafilme. “Dias Melhores Virão”, na rebordosa da era Collor. “O Quatrilho”, em 1995, indicado ao Oscar.

AC – “Aventuras de um Paraíba” foi o primeiro projeto de José Gonçalves Neto, um talentoso artista nordestino, que procurou a L.C. Barreto. Eles se encantaram com a ideia, mas acharam necessário ter um roteirista profissional. Meu trabalho foi essencialmente técnico, lado a lado com o Gonçalves. Procurei respeitar ao máximo as intenções dele. Morri de vergonha ao ver meu nome em primeiro lugar como roteirista, embora se justificasse por eu ser um profissional conhecido e o Gonçalves, um estreante. Mas a ficção é dele e só dele. “Dias Melhores Virão” se originou de argumento e roteiro originais meus, encomendados pelo Cacá Diegues. O Cacá é também excelente roteirista, mas queria uma história diferente das dele. É claro que adaptou o filme a seu estilo autoral e considero o resultado muito mais dele do que meu. No “Quatrilho”, o Luiz Carlos Barreto tinha me encomendado uma adaptação para o cinema. É um extraordinário romance do José Clemente Pozenato. Não sabiam na época se o projeto seria para um longa-metragem ou um seriado para a televisão. Concluí e tempos depois estava em Nova Iorque, descansando de uma novela, quando a Lucy Barreto me chamou para retomá-lo. Não quis interromper as férias e recusei. Mas indiquei o Leopoldo Serran, que fez um belo trabalho. Eu mesmo tive a iniciativa de combinar com o Luiz Carlos que o Leopoldo ficasse sozinho como roteirista e meu nome viesse como adaptador. E assim foi. Perdi a ida à cerimônia do Oscar, mas não me arrependo nem um pouco.

EE – Depois de “Mulher Sensual” você parou, deixou o cinema e foi para a televisão. Tem planos de voltar?

AC – Eu até tentei, há dois, três anos atrás, fazer um spin-off de “O Beijo do Vampiro”. Primeiro,  logo após a novela, mas não foi possível. Tempos depois, voltei ao projeto em outro roteiro e procurei o Cacá. Conseguimos a aprovação da Globo Filmes, a simpatia da Columbia. A Secretaria de Cultura de Manaus forneceria hospedagem, passagens, alimentação. O objetivo era dinamizar a parte cinematográfica da cidade. O cenário principal seria no próprio Teatro Amazonas, porque os vampiros morariam ali embaixo. O que aconteceu? Burocracia, burocracia, burocracia. Fui chamado para uma novela e desisti dos vampiros de vez. Mas tenho dois argumentos prontos. O “Para-raios”, a história policial que nós comentamos, produção pequena. Além dela, um projeto mais ambicioso: “Palácio”, sobre uma sauna gay e um agente. Um 007, assassino com licença para matar. Muito sangrento e muito sexo explícito também. Os dois projetos bem na linha dos meus filmes de sexo e violência.

EE – E como é que você pretende driblar a ditadura do politicamente correto no meio disso tudo?

AC – I don't give a shit. Não me interessa, é um problema dessas pessoas. Para mim, são iguais a fanáticos religiosos. Estão possuídas por uma crise psicótica coletiva. Não discuto. Não dá para discutir com pessoa ideologizada ou fanática. Eu fico olhando como se fosse maluca.  Desconstruo  o pensamento dela, mas não desconstruo verbalmente. Fico só olhando. I don't give a shit, realmente. Nem penso nisso.

EE – Por fim, Calmon, você por você mesmo. Aonde você acha que a sua obra se integra na história do cinema brasileiro?

AC – Acho que pertenço a um tipo de fenômeno que existe na literatura, na pintura: os fenômenos isolados. Prefiro me situar dentro de um movimento universal, que reúne pessoas como as que eu já citei aqui. O Mishima era um solitário. O Pasolini era outro. Embora o Mishima estivesse ligado profundamente à cultura japonesa, ele, na época, era um solitário. Ontem mesmo vi um filme gay chinês, o “Residência Permanente”. Segundo filme do diretor, produção bem feita. Existe toda uma corrente de cinema gay chinesa, tailandesa, que descende muito do Mishima. Há pessoas que plantam raízes. Coisas decorrem daquilo. É o velho papo: certos artistas são antenas e outros são receptores. Eu prefiro me situar em um panorama universal, mas não estou muito preocupado com isso, não. Quero trabalhar, ter uma atividade criativa, sobreviver.

domingo, fevereiro 27, 2011

10 Filmes do Coração


Quando a equipe da revista Filme Cultura me convidou para participar da sua edição de retomada (nº 50), escrevi aqui no blog sobre o quanto ela é parte da minha memória afetiva.

Na edição nº 53, a revista convidou 102 críticos, pesquisadores e cineastas para montarem suas listas dos "10 Filmes Brasileiros do Coração". Não são os filmes famosos ou importantes para a história do cinema brasileiro. São os mais queridos para cada autor de cada lista. A relação completa das listas consta aqui.

Ao receber o desafio, mergulhei na intuição, do tipo que brota das profundezas, sem revisar. Meus dez escolhidos estão abaixo, acrescidos de um breve comentário sobre cada um deles. Em ordem alfabética, e com outros dois não menos queridos:


A Mulher que Inventou o Amor (1979)
- Tallulah, a primeira e única. O cinema de Jean Garrett permanece de difícil acesso, apesar de nos últimos anos ter sido alvo de exibições e discussões esporádicas. Em uma filmografia que inclui meia dúzia de obras-primas, escolhi "A Mulher que Inventou o Amor" (1979), paradigma daquilo que a Boca do Lixo produziu de melhor. A prostituição e o erotismo virados cinicamente, pelo avesso.

À Meia Noite Levarei Sua Alma (1964) - "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" (1966) foi o apogeu de Mojica. Mas é através da primeira "aventura" de Zé do Caixão, "À Meia Noite Levarei Sua Alma", que temos certeza da superioridade existencial do protagonista diante do resto da humanidade, simbolizada na cidadezinha crente e provinciana onde comete seus atos desvairados. Quem quiser um antídoto para "Nosso Lar", ele possui nome e sobrenome: Josefel Zanatas.

Chuvas de Verão (1978) - Cacá Diegues realizou em "Chuvas de Verão" uma espécie de inventário sentimental do subúrbio carioca, espaço onírico da cidade-síntese do país. A melhor atuação dos veteranos Joffre Soares e Míriam Pires no cinema. Muito além das sociochanchadas e da vitimização cretina e preconceituosa.

O Império do Desejo (1981) - Benjamin Cattan sempre. Ele e Roberto Miranda estão flanando quais pintos no lixo, em transe com a força do texto e da direção de Carlos Reichenbach. Notem o soco que é a última cena. Uma sonora patada, antológica, nas "irreprocháveis" consciências. Freak out, com Kierkegaard, Sartre e produção de Antonio Polo Galante.

Marcelo Zona Sul (1970) - Vi e revi "Marcelo" um zilhão de vezes, é daqueles filmes que a gente trata carinhosamente, chamando pelo primeiro nome. Atravessou infância e adolescência comigo, o lado amargo se sobrepondo ao doce e vice-versa. Os dois e os milhares de Marcelos possíveis conversando. Trilha sonora do Liverpool Sounds, futuro Bixo da Seda, que procurei nas lojas de lps (existiam!), até encontrar.

Noite Vazia (1964) - Quando me perguntam de Khouri, logo vêm "O Anjo da Noite", "Palácio dos Anjos", "Eros", "Corpo Ardente" e outros que com o tempo vão crescendo na memória e constróem a admiração pelo diretor. "Noite Vazia" é a porta de entrada. Agressividade, medo, abandono. Bolinhos de chuva que lembram um abraço de mãe, uma sobremesa antiga, para os quatro na garçonniere. De "Noite Vazia" em diante, o trabalho de Khouri foi ficando contagioso para mim.

Perdida (1976) - On the road matreiro, mineiro, poético, cheio de pequenos detalhes que se caça com uma lupa e ao serem encontrados deixam o espectador vibrando. Carlos Alberto Prates Correia tocou na humanidade, no sexo, na epifania e realizou uma aula para os sentidos.

A Rainha Diaba (1974) - Tarantino sobe e desce nas produções dos anos 70, abocanha tudo e lança as guloseimas por aí, repaginadas para a nobre platéia. Certeza que se visse Milton Gonçalves no épico de Antonio Carlos Fontoura, entraria em êxtase, coçaria o queixo. Algo como Krist Novoselic e Kurt Cobain quando encontraram Os Mutantes, essa curiosa banda do curioso terceiro mundo. Diaba é biscoito finíssimo, a violência, o kitsch, os dialetos, os planos que supreendem um após os outros.

São Paulo S/A (1965) - Walmor Chagas encarando a boçalidade média, sem saber o que quer, indo em frente e recomeçando, recomeçando sempre para provavelmente se frustar de novo. Costumam usar o filme para umas saudações canhestras, como se Luiz Sérgio Person fosse o rei dos borbagatos ou o líder da revolta constitucionalista. Mas não se trata de uma elegia chumbrega a São Paulo. A cidade é pano de fundo, manda uns estímulos para cima de Carlos (Walmor), que nem sempre consegue entendê-los. O suicídio da personagem de Ana Rosa, por exemplo, rende páginas de livros.

Um Homem Sem Importância (1971) - Alberto Salvá em plena forma, estrelando Vianinha, desempregado num bode preto enquanto circula pela cidade, o que inclui o consumo de algumas substâncias psicotrópicas. É o que dava ser trintão, sem curso de datilografia, no Brasil do ame-o ou deixe-o. Neorealismo carioca, em um dos olhares mais impressionantes e depressivos que alguém já produziu sobre a falta de perspectivas.

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Eu Matei Lúcio Flávio (1979) - Ode ao policial vigarista Mariel Mariscott, transformado em semideus urbano, driblando o bem e o mal. Entre outras sacadas geniais, Antônio Calmon levou o fetiche por Copacabana ao limite da insanidade. A cena dos carros na Galeria Menescal, o assalto à farmácia Vitória Régia, Monique Lafond se picando pelos corredores de um edifício de quitinetes, sempre fazem bater descompassado o coração desta moça copacabanense.

Ódio (1977) - Carlo Mossy estaria fadado a ser o eterno galã das pornochanchadas se em 1977, aos 30 anos, não tivesse dirigido "Ódio", espécie de "Desejo de Matar" acrescido de informações ocultas no Beco da Fome e na paixão cinéfila do diretor. Trabalhando e retrabalhando cada idéia e cada cena com esmero, Mossy queimou a língua de seus eternos patrulhadores e conseguiu algo raro na filmografia brasileira: uma obra-prima universal, plena de entendimentos e significados em qualquer idioma.

segunda-feira, março 02, 2009

Chuvas de Verão


"A vida não é como as águas do rio que passam sem descanso, nem como o sol que vai e volta sempre. A vida é uma chuva de verão, súbita e passageira, que se evapora ao cair."

Quando Isaura (Miriam Pires) lê para Afonso (Jofre Soares) a citação acima, o espectador já está completamente entregue a "Chuvas de Verão" (1978), obra-prima do diretor Carlos Diegues. Não utilizo a palavra "obra-prima" de forma leviana: aula de roteiro, direção, fotografia, e principalmente esforço interpretativo da própria Miriam, Jofre Soares, Rodolfo Arena e Loudes Mayer, transformaram -- passados trinta anos -- "Chuvas de Verão" em um dos melhores filmes do cinema brasileiro.

Ao revê-lo, muito impressiona como a arte fílmica nacional desaprendeu de lá pra cá, brutalizando o olhar atento e individualizado sobre o povo e a vida cotidiana em um arremedo de hipocrisia coletiva, superficialidade sociológica e terror bélico. Dói concluir que, apesar do salto no tempo, aquele subúrbio onírico de "Chuvas de Verão" ainda existe em algum lugar. Os personagens idem. Extinguiu-se, apenas, a vontade de retratá-los novamente.

Isso porque em "Chuvas de Verão" ninguém morre em nome do fetiche estético, a pobreza não busca expiações e a periferia não é tratada por um olhar infantilizante. No entanto, que bela crítica social é a figura de Afonso, um homem que dedicou toda vida à repartição, para em troca ser aposentado e receber como troféu uma caneta dourada. Obediente às normas, ciente dos seus deveres, Afonso jogou a vida fora. Está na hora de substituí-lo e devolvê-lo de pijama para uma casa pobre, onde como tantos esperará sozinho e resignado a morte.

Emulando um personagem qualquer do neo-realismo italiano, o homem velho sabe que viveu para nada. A partir dele fica claro que todos em volta habitam o mesmo dilema: a pianista fracassada, Dona Helô (Loudes Mayer), mãe de um inútil de 32 anos que nunca lhe dará netos; um ex-ponta esquerda do Bangu, que quase jogou no Vasco; o palhaço Guaraná (Rodolfo Arena), amigo de Afonso, que oculta um segredo terrível; e o x9 da polícia, Juracy (Paulo César Peréio), atuante na vizinhança como uma espécie de coringa.

É Juracy, conhecido como Pereba, quem dá as boas-vindas ao funcionário público depois da aposentadoria; é ele também que ajuda a filha de Seu Afonso, Dodora (Marieta Severo), a desmascarar a traição conjugal do marido; e será ele a apontar o dedo para o velho, que escondia em casa o bandido Lacraia (Luis Antonio), namorado da empregada Lurdinha (Cristina Aché). O drama do bandido Lacraia e o crime cometido pelo Palhaço Guaraná servem de informação ao público de que o roteiro não ignorava a violência urbana, tema já presente nos noticiários da época.

A vida futura de Afonso, depois da aposentadoria, resume-se a quatro dias. É cerceada imediatamente por funcionários da prefeitura, que derrubarão sua casa -- e o bairro tradicional -- para construírem um viaduto. O viaduto, metáfora da morte, da temporalidade, mas aceito de bom grado por Seu Afonso depois que concretiza a paixão reprimida por Isaura. Em um filme sobre a mediocridade, o sexo voluntarioso e libertário entre os dois velhos que bebem cerveja e escutam Francisco Alves não é chuva de verão: são águas de março, promessa de vida em resignados corações.

Cacá Diegues passou quase três anos escrevendo o roteiro, talvez para evitar que seu olhar de morador da zona sul -- alagoano de nascimento, foi criado em Botafogo -- contaminasse o espírito suburbano. De fato, chama atenção nos curtos 87 minutos de "Chuvas de Verão" a total ausência de estereótipos, e o despertar natural de uma empatia entre narrativa e público.

Sem qualquer julgamento por parte do diretor, a câmera apenas os observa. Somente Juracy, com suas frases de efeito ( "Eu tenho a cabeça boa, o que atrapalha é os pensamentos"), potencializado pelo tom excessivo e cativante de Paulo César Pereio, força a barra em um confronto. Os outros
existem -- imperfeitos e observáveis.

A equipe passou semanas filmando em Marechal Hermes, zona norte do Rio, e em algumas outras locações da região, inclusive no Conjunto Habitacional Presidente Getúlio Vargas, Guadalupe, onde dez anos depois Cacá fez "Um Trem Para as Estrelas".

Moradia de Vina em "Um Trem Para as Estrelas" o popular Conjunto Deodoro aparece em "Chuvas de Verão" na cena da fuga de Lacraia, quando o motorista do táxi (Procópio Mariano) despeja um monólogo amargo, ilustrando em um desfile de impropérios a inutilidade da própria vida. O gordo Procópio, ator intuitivo e fabuloso, rouba a cena em entreato que deprime e exaspera.

"Chuvas de Verão" estaria no direito de ser, guardadas as ricas circunstâncias, uma experiência soturna, pesada. Pelo contrário, Cacá Diegues a conduz com tanta maestria e suavidade que terminamos o filme quase leves, felizes.

À verdade íntima de Seu Afonso, dos vizinhos, de cada um de nós, não importa a transitoriedade da vida e dos acontecimentos. Importa o que fazemos com eles, o almoço que preparamos para saciar nossa fome. Enquanto Dona Isaura após o sexo passa a usar vestidos claros,
Carpe Diem, o aforismo do romano Horácio, cairia bem como resumo poético deste imperativo.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Um Trem Para as Estrelas


"Um Trem Para as Estrelas" (1987) é obra atípica de Carlos Diegues. Vindo de "Quilombo" (1984) -- na verdade "Que Rombo", pelo alto investimento e baixíssimo retorno artístico e comercial -- Cacá Diegues quis fazer um filme "jovem", de tintas contemporâneas. A idéia lhe rendeu uma enorme dor de cabeça, graças ao processo movido pelo escritor Júlio César Monteiro Martins, que alegava ter sido plagiado no roteiro.

Contrariando esta promoção involuntária, a carreira do filme foi pífia, as críticas desfavoráveis, e menos de seis meses após a estréia era exibido na Rede Globo, forma inteligente e sensata de compensar os prejuízos.

E o que resta hoje desse imbróglio? Quase nada. Mesmerizado por néon-realismo, trilha-sonora de Gilberto Gil e um roteiro tão ingênuo que é difícil imaginar demanda judicial por ele, "Um Trem Para as Estrelas" sobreviveu entre as melhores coisas dos anos 80. Típica fábula oitentista, a recriação de Orfeu -- que Cacá tentaria novamente -- levada a sério em locações que mostram um Rio de Janeiro horrível, transfigurado, promove no século XXI imersão nostálgica, observação poética de certos costumes brasileiros de outrora.

A história estava programada para São Paulo, mas problemas financeiros a deixaram no Rio. Melhor assim: fabricada na capital paulista, se pareceria bastante com "Anjos da Noite" ou "Cidade Oculta", virando pastiche espúrio. Habitantes do subúrbio carioca de Guadalupe, Vinícius (Guilherme Fontes) e Dream (Taumaturgo Ferreira) ganham ares de pessoas reais, jovens cosmopolitas de um país lacrado por dentro e empobrecido pelo surto inflacionário.

Aquele Brasil era ruim, mas não importa. Bom é ver a cidade renascida através de imagens. Nicinha (Ana Beatriz Wiltgen) trabalha na boutique Pier, do Rio Sul (alguém lembra da Pier?), e namora Vinícius, o Vina, saxofonista que busca uma chance de ser famoso. Os dois vivem noite de amor; na manhã seguinte a menina some. Enquanto procura pela namorada, Vinícius se defronta com o inferno, e com uma porção de referências datadíssimas, como Cazuza e a banda Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros.

A aparição do performer Fausto Fawcett é o ponto alto da trama. Conhecido nacionalmente por "Kátia Flávia", naquele ano de 87 Fausto gravava um dos melhores retratos pop-musicais da década. Seu lp de estréia narra uma saga absurda, com influências de Arrigo Barnabé e "Clara Crocodilo", sobre personagens fictícios da noite de Copacabana. Uma espécie de "Rio Babilônia" em vinil, a ser redescoberto, ótimo quando documentado em alguns minutos de "Um Trem Para as Estrelas".

Na peregrinação, Vinícius conhecerá também uma delegacia, onde o delegado (Milton Gonçalves) bebe cerveja durante o expediente. Ainda freqüenta uma redação de jornal, habitada por tipos como o bêbado Teacher (José Wilker), repórter de sarcasmo abundante: "Também já fui brasileirinho feito vocês. Torcia pelo Flamengo, era Mangueira...", além de uma favela abençoada por milagres.
Entre altos e baixos, o calvário de Vinícius se sustenta, mesmo que a favela esteja fora de contexto e o desfecho da namorada seja toscamente inverossímil.

Curioso
lembrarmos de Guilherme Fontes esperando o sol nascer e tocando sax: "Falta pouquinho para o ano 2000, e nós vamos ser os habitantes da Terra do terceiro milênio!" Fontes nem imaginava que chegaria aos anos 2000 enrolado com um tal de Chatô, mas aí já é outra história.

Dream, com quem Vina realiza um assalto, tem aquele sonho cafona e latino-americano de dar no pé e trabalhar nos Estados Unidos. Imagina uma Nova York maniqueísta, esteticamente perfeita, ao gosto da ideologia classe-média, que logo estaria trocando o circuito Nova York-Londres-Paris pelo arrivismo de Miami. Passados um ou dois anos, certo que o rapaz viraria eleitor de Collor, e Taumaturgo Ferreira escandiria as sílabas, naquele seu falar característico, para louvar as belezas e o sonho de vender cachorros-quentes em uma praia da Flórida.

"Um Trem Para as Estrelas" é sociologia do "que foi ou poderia ter sido" em estado puro. Se aparentava ter linguagem ágil, de videoclipe, hoje transparece aquele movimento reflexivo (e opressivo) típico do cinema nacional. Se gerava cartas furibundas para os jornais acusando-o de retratar a juventude marginalizada como leviana e apta ao crime, agora descortina uma ética otimista e infantil. O que nunca sai de moda é a boa estrela de Cacá Diegues para realizar filmes que devem ser bem guardados em prateleiras e apreciados com renovado interesse, dez ou vinte anos depois.


quinta-feira, março 08, 2007

Bye, Bye Brasil


Apesar de criticado em seu tempo como produção dispendiosa, "Bye, Bye Brasil" (1979), quase trinta anos depois, guarda pelo menos um mérito notável: é um filme que não envelheceu.

Fruto do amadurecimento artístico do diretor Carlos Diegues, a idéia de registrar a transição de um país arcaico e distante do mundo para outro, "integrado" -- porém esquizofrênico e pateticamente miserável -- surgiu durante visita do diretor à floresta amazônica.

Para conhecermos "Bye, Bye Brasil" precisamos conhecer a Caravana Rólidei, fictícia protagonista e preâmbulo da diversão levada de cidade em cidade, cada uma mais distante e necessitada do grupo de artistas mambembes, que vendem ilusão, sexo e circo, na medida certa para deleite dos espectadores e autoridades locais. Esta realidade mudará com o passar do tempo, com a chegada da televisão e a perda da inocência sertaneja para uma espécie de "subcapitalismo". A glória e decadência da Caravana serão o reflexo dessas transformações, ou o "neurótico manifesto" do trauma brasileiro.

Da Caravana fazem parte inicialmente Lorde Cigano (José Wilker), Salomé (Beth Faria) e Andorinha (Príncipe Nabor). Lorde Cigano é legítima figura nacional: sobrevivente, mestre do improviso, vai da vidência espiritualizada à baixa cafetinagem ao sabor dos acontecimentos. Salomé, sua partner, não difere muito, conciliando a atividade de dançarina e cantora com a de eventual prostituta, engolindo todas com ar blasé e sutilmente arrogante. No meio da dupla, Andorinha, negro forte e silencioso, que também improvisa sua atividade de faz-tudo com a de vencedor nas apostas de queda-de-braço promovidas por Lorde Cigano, sempre em nome de um retorno financeiro rápido e tranqüilo.

A eles se juntam Ciço (Fábio Júnior) -- sanfoneiro que vislumbra na passagem da Caravana uma chance de sobrevivência -- e Dasdô (Zaira Zambelli), mulher de Ciço, grávida que dará à luz no meio da Transamazônica. Curioso é que, dos cinco, sabemos apenas a origem do jovem casal. Lorde Cigano, Salomé e Andorinha vieram de lugar desconhecido e não temos qualquer informação passada sobre eles.

No ano da Anistia o Brasil urbano nunca mais seria o mesmo. Já para aquele Brasil rural, profundo, as mudanças eram de outra natureza: chegando a televisão, patrocinada pelas prefeituras e colocada no meio da praça, os gostos de entretenimento rapidamente se modificavam. As apresentações da Rólidei recebem cada vez menos público e surge uma espécie de critério para a trupe: onde houvesse "espinhas de peixe" (antenas) a féria seria curta e a passagem efêmera.

No meio dessa crise nasce uma esperança chamada Altamira. Perdedor na queda de braço contra Andorinha, um caminhoneiro (Carlos Kroeber) contará para Lorde Cigano sobre as maravilhas da cidade, desenvolvida no rastro da estrada Transamazônica, onde "as frutas são descomunais" e uma multidão aproxima-se em busca de fortuna. Os olhos gulosos de Lorde Cigano brilham e ele conduz o futuro de todos Brasil adentro, atrás da terra prometida.

No caminho registram que, nesse país gigantesco e estranho, promessas muitas vezes redundam em tragédias: a estrada espalha morte, desagregação de culturas e famílias. Dasdô tem o bebê -- batizado Altamira -- entre uma parada e outra. Chegando ao destino final, a Caravana Rólidei se depara com a modernidade. Não uma modernidade utópica, sonhada por Montesquieu; mas o progresso sujo, regido pelo capitalismo spencerista típico de lugares onde antes havia nenhuma lei.

É em Altamira que a Caravana se desagrega e -- à parte os esforços da mensagem otimista do final -- o roteiro do diretor e de Leopoldo Serran, a trilha-sonora de Chico Buarque e o charme tristonho dos personagens, sugerem uma divagação melancólica, anti-etnocêntrica, de um país periférico, belo e exótico, porém esquecido e desimportante. Inteligente é o recurso da camiseta de Lorde Cigano, onde se lê "Copacabana": o bairro símbolo do país moderno fazendo a pororoca com o país atrasado, como se fossem dois Brasis, que só com a quebra da inércia têm a possibilidade de um espelhamento intruso.

Carlos Diegues, ou Cacá, vinha na ocasião de filmes completamente opostos: Xica da Silva (1976), megasucesso de bilheteria, e o suave "Chuvas de Verão" (1978). Com a acidez realista de "Bye, Bye Brasil" manteve o ciclo virtuoso e uma divertida briga com setores das esquerdas, que o levara a cunhar o brilhante neologismo "patrulhas ideológicas", para designar aquilo que parte da inteligentsia brasileira praticava e ainda pratica, mas que ninguém ousava botar nome.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Quando O Carnaval Chegar


Para o Sergio Andrade

Em 1972, durante o lançamento de “Quando o Carnaval Chegar”, Cacá Diegues não era mais o aluno de Direito da PUC, não freqüentava mais as discussões do CPC da Une – por onde produziu “Escola de Samba, Alegria de Viver”, episódio de “Cinco Vezes Favela” (1961) – e voltava, no ano anterior, de um exílio na Itália ao lado da mulher, Nara Leão.

Interessante que passado aquele boom do Cinema Novo nos 60, já em 1973 em entrevista à Filme Cultura para divulgação de “Joanna Francesa” – filme posterior a “Quando O Carnaval Chegar” –, Diegues traçava um micro-inventário do período, em atitude geralmente associada a cinqüentões ou sessentões, nunca ao rapaz de 32 anos de idade:

“Não posso, porém, dizer que não existe uma vontade de recomeçar, de reelaborar o moderno cinema brasileiro. Ele ficou conhecido, há 10 anos, pelas suas idéias. Hoje está desinteressante, seu nível baixou, temos feito alguns dos piores filmes do mundo.” A explicação: “Não é culpa dos cineastas. O filme brasileiro custa cerca de 50 mil dólares (Cr$300 mil) e o estrangeiro entra no país por 10 mil dólares (Cr$ 60 mil).” A solução: “O governo complementar a diferença" ou "[taxar-se] a produção estrangeira.”

“Quando O Carnaval Chegar” nasce, portanto, em meio a essa inquietação entre a política oficial de cinema e o desejo de esquadrinhar ou “reelaborar”, após uma experiência do exílio, o cinema até então inventado .

Mas para se pensar no futuro, foi preciso voltar-se ao passado. Tanto na produção cinemanovista da Mapa Filmes de Zelito Vianna, associada a Luiz Buarque de Hollanda, K. M. Eckstein e ao próprio Diegues – roteirista e co-autor do argumento, com Chico Buarque e Hugo Carvana –, quanto na temática, que pretende construir uma homenagem aos cantores da era do rádio.

A equipe formada por Chico Buarque (Paulo), Nara Leão (Mimi) e Maria Bethânia (Rosa) ganha em subtexto: cantores, garotos, divertem-se em um filme que joga conscientemente com a fama do trio, fora das telas. A herança musical sente-se bem forte nos acertos da trilha-sonora – com músicas de Chico, Lamartine Babo, Braguinha, Joubert de Carvalho, Assis Valente, Nássara, Tom e Vinícius, lançada em discos pela Phillips, sucesso na época. E se sobressai da consistência de uma obra um tanto solta, que não aproveita a idéia plausível do argumento.

Paulo, Mimi e Rosa são cantores agenciados pelo empresário Lourival (Hugo Carvana), e convivem com o motorista Cuíca (Antonio Pitanga), tocador do instrumento nas rodas de samba da favela de origem, sempre pedindo ao Loura uma oportunidade no show.

Cuíca consegue, e ainda é usado por uma espectadora francesa (Elke Evremides, popularmente Elke Maravilha) que estava na platéia. Ilude o pobre com promessas de casa, comida, viagens pela Europa. Enquanto isso, Paulo se apaixona por Virgínia (Ana Maria Magalhães), decepcionando a pobre Mimi – o nome do personagem em referência à canção de Mário Reis –, que ouve os conselhos de Rosa – referência à de Pixinguinha –, freqüentadora assídua do terreiro da mãe-de-santo Tiazinha.

Nara e Bethânia, primeira e segunda intérpretes no show Opinião do Teatro de Arena, tentam tocar o barco e segurar a onda de Lourival, pressionado por Anjo (José Lewgoy), manda-chuva do show business, cujo capanga é vivido pelo grande Wilson Grey.

Numa foto que se perpetuou no tempo, Chico, Nara e Bethânia estão de fraque, bengala e cartola, cantando “As Cantoras do Rádio”, como no esquete de Aurora e Carmen Miranda em “Alô, Alô, Carnaval” (1935), de Adhemar Gonzaga. No entanto, apesar da alegria de se falar e cantar o carnaval em espírito de camaradagem, são de Mimi as cenas mais intrigantes do filme, numa linha de austeridade que surpreende a base do enredo.

Deprimida, deitada em um casarão colonial em ruínas – Mimi é descendente de quatrocentões mineiros – com quatro círios crepitando de cada lado do corpo, ela canta marchinhas num compasso lento, tristíssimo, propositadamente fantasmagórico. O mesmo na cadeira de balanço, quase recitando “Tahí”, de Joubert de Carvalho, como numa ode ao amor de Paulo.

A avenida Rio Branco vazia no início e depois inundada pelos corsos e figuras bizarras do carnaval de rua – quando o Sambódromo ainda nem pensava em ser construído – dão um tom rápido de cinejornalismo, do tipo a que se assistia nos anos 30 e 40.
Com fotografia de Dib Lufti e montagem de Eduardo Escorel, o Carnaval chega, termina e, confundido com a passagem, se despede.

A idéia da trupe em um ônibus voltaria repaginada por Cacá, sete anos depois, em “Bye Bye Brasil”, numa caminhonete azul desbotada. Mas os artistas da “Caravana Rolídei” procuravam às escuras não mais o Rio de Janeiro, e sim o Brasil profundo que teimava em não se ver.