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terça-feira, dezembro 18, 2012

Biografia Entrevista - Antonio Calmon


Antonio Calmon dirigiu “Eu Matei Lúcio Flávio”. Se quisesse, poderia ter parado por aí e começado a tecer o véu da imortalidade. Afinal, criou a obra-prima do cinema policial brasileiro. Mas Calmon, garoto da selva amazônica (sim, você não leu errado), inventou de embolar o meio de campo, entregar o corpo aos homens da encruzilhada e cair de cabeça em uma odisseia pessoal, imprevisível.

Ex-cria do Cinema Novo, ex-aluno de Glauber Rocha, daí um salto para o “underground do underground” e um pulo para o mainstream de “Menino do Rio” e da TV Globo. No meio de tudo, o desbunde em Salvador, dezessete cáries, quinze quilos a menos, barbas e cabelos pornográficos. Entre pirados e dogmáticos, preferiu viver. Não à toa, hoje zomba da mortificação moralista do politicamente correto.

Fala, ri, se diverte. Sobretudo, assume o que fala. Conta os infinitos causos. Em setembro de 2012 nos conhecemos pessoalmente, quando Daniel Camargo e Fábio Velloso organizaram a mostra “Antonio Calmon em 3 Atos”. Conseguiram montar algumas das mais saborosas mesas redondas que já vi. Ao lado de Anselmo Vasconcellos e do diretor, tive o prazer de debatermos “Terror e Êxtase”, o clássico premonitório.

Naquela ocasião, ao nos despedirmos, combinamos a entrevista. Final de ano, superado o engarrafamento carioca entre Copacabana e a Lagoa, liguei o gravador. Sempre admirei Calmon e ao ouvir sua história, a admiração renovou-se. Ofereço este presente aos leitores, desejando um feliz 2013!


ESTRANHO ENCONTRO – Calmon, eu acabo de entrar no seu escritório e vejo esse sincretismo todo: claquetes, medalhas, orixás, fotos...

ANTONIO CALMON – Esta aqui, durante as filmagens de “O Dragão da Maldade Contra O Santo Guerreiro”, em Milagres. Como o lugar é de peregrinação, havia a imagem da santa. O fotógrafo lambe-lambe batia as fotos dos peregrinos com a santa atrás. Era uma vida tão rústica, quase viramos cangaceiros. Aquele lá é o Affonso Beato, à esquerda. O assistente do Beato, o Ricardo Stein. Eles, o Glauber e eu. De certa forma, o Glauber Rocha é o meu pai. Está me dizendo: eis o meu filho dileto e querido, em que deposito todas as esperanças. Uma grande decepção, na estética do Cinema Novo [risos]...

EE – [risos]

AC – Se bem que jamais houve qualquer atitude ruim em relação aos meus filmes. Continuamos amigos, mas meio distantes. Os caminhos se separaram. [Aponta outra] Já esta é a foto da minha primeira comunhão...

EE – Um pequeno amazonense. A sua família é do Amazonas?

AC – Não, meu pai era do Espírito Santo. Minha mãe, do interior de São Paulo, Guaratinguetá. Eles se conheceram no subúrbio do Rio de Janeiro, acho que no Méier. Meu pai deu a louca quando se formou em Medicina. Quis começar a vida no Amazonas, e eu nasci lá, por causa disso. Não existia nem aeroporto. Chegaram de hidroplano.

EE – Em que ano?

AC – 1943 para 44. Nasci em 45. Manaus era uma cidade no meio da selva. Tinha os resquícios do esplendor da época da borracha, os palacetes começando a decair. A população com uma mistura muito forte, a maior parte de nordestinos e índios, os caboclos. A partir de certo momento da minha infância começou a imigração japonesa. Apareceram os tomates, as maçãs. Até então havia só os produtos da própria selva. Tudo muito grande. As mangas, por exemplo. Coisa de trópico. Tudo muito excessivo. Também uma enorme sensualidade. Anos atrás, eu voltei, não ia há muito tempo. Tive aquela sensação hilária: você acha tudo muito pequeno [risos]...

EE – [risos] Entendo. Você cresceu...

AC – Saí de Manaus com doze, treze anos. Voltei duas vezes, ambas para o Festival Internacional de Cinema. Uma, para o júri dos curtas e na outra, de alegre, como convidado mesmo. E aí reencontrei a infância. O colégio em que estudei, o Salesiano. O Teatro Amazonas. A cidade enorme, cheia de shoppings, crescida. A Manaus do meu tempo era o centro histórico. Reencontrei um pouco as raízes. Lembro do cinema à noite. Um desses cinemas era do pai do Oscar Ramos, um amigo, e se chamava “Éden”. Lá eu vi minha primeira mulher nua, Maria Félix em “French Can Can”, do Jean Renoir.

EE – Já era adolescente?

AC – Não, uns oito para dez, por aí. As memórias são meio nebulosas. Outro colega de infância era o Arthur Virgílio, depois eleito senador e agora prefeito de Manaus. Além dele, o Djalma Batista. São pessoas de quem eu lembro muito vagamente, não deixei a amizade fluir. Minha mãe criava uma redoma. Aqui no sudeste, ela era de classe média para baixa. Em Manaus, era esposa de médico, futuro deputado estadual, “alta sociedade”. Minha mãe cultivava sonhos loucos, principalmente em relação a mim, o filho mais velho. Tenho mais dois irmãos. Um, já falecido, o caçula, morreu aos cinquenta anos, do coração. E tenho um outro, um ano mais novo. Estudei francês, inglês, pintura, música. Ela tentou de tudo. Em algumas coisas, fui bem. Em outras, péssimo: música nunca deu certo. Nós vivíamos praticamente trancados em casa, meio isolados, como num castelo.

EE – Vocês eram “a família do médico”...

AC – Exatamente. Do Doutor Wilson. A gente não tinha muitos amigos, eu não tinha nenhum. Vivia enterrado nos livros, desde cedo. Por acaso, estou lendo agora um livro do Yukio Mishima, “Confissões de Uma Máscara”. Eu tive consciência, muito cedo, da minha homossexualidade, e estou me reencontrando novamente nesse livro. Todos os sintomas, todo o fascínio com a imagem de São Sebastião, com as esculturas gregas. Comecei até a fazer uma certa teoria, sobre o que o Mishima também fala no livro: como ele se colocava de fora. O observador. Ele não se sentia “belonging”, pertencendo. De certa maneira, acho que eu ficava filmando. [Aponta para mais uma das fotos]: Eu, nesta foto da primeira comunhão, na hora exata em que tirei esta foto, estava pensando na minha homossexualidade. Eu não tinha o conceito, evidentemente, com essa idade, mas sabia que era diferente e sabia do que gostava. Nesse exato momento, eu pensei nisso. E tenho uma outra foto, tirada junto, em que estou quase sorrindo e também estava pensando nisso. É um sorriso perverso. Curioso, porque tinha acabado de receber a primeira comunhão [risos]...

EE – [risos]

AC – O Mishima, assim como o [Pier Paolo] Pasolini, tiveram mortes violentas. Tanto que demorei muito a lê-lo, apesar de ter adorado o filme do Paul Schrader, que conheci aqui no Rio, em um festival de cinema. Adoro aquele filme, mas a literatura do Mishima me assustava um pouco, por causa do fascínio da violência. Algo que é da cultura japonesa, do samurai. E o Pasolini também tem essa mesma coisa com a violência.

EE – Que você utilizou muito, nos seus filmes.

AC – Mas eu não queria me destruir, nunca quis. Quando a minha geração teve que escolher entre a guerrilha e as drogas, eu não quis a guerrilha. Eu não queria morrer. Quando as drogas começaram a ser letais, eu pulei fora. E quando nas minhas aventuras homossexuais cheguei a beirar a marginalidade, jamais corri perigo real ou procurei situações perigosas sem saída. Muito embora eu tenha estado perto, nunca tive o problema que esses dois grandes artistas tiveram, da auto-aniquilação.

EE – Esse tipo de sexualidade autodestrutiva às vezes está relacionada a uma culpa. Então você não sentia culpa?

AC – Claro que sentia culpa. A sociedade toda te culpa, a cultura toda te culpa. Tanto que demorei a sair do armário, só com vinte e poucos anos. Conheci centenas de mulheres, o que também fez com que eu tivesse uma sexualidade viril. Não tenho problema nenhum, físico, de me relacionar com uma mulher. É que na verdade sou uma pessoa que não consigo, nem quero, ter relacionamentos. Fixos. Com ninguém, por muito tempo. Moro sozinho, tenho relacionamentos no momento, mas não de morar junto. Desenvolvi, por causa dessa repressão, por causa dessa culpa, uma atividade estritamente hétero, que foi falsa.

EE – Em Manaus ou só na vinda para o Rio?

AC – Em Manaus, não. Em Manaus era a mais inocente das criaturas, apesar de ter o lado perverso interno, a consciência interna. De noite eu via os filmes e, durante o dia inteiro, “filmava”. Nunca pertencia ao local, porém. Nunca fui sacristão, nunca fui coroinha, nunca fui escoteiro. Mais tarde, nunca fui de grêmio estudantil. Podia até estar em volta e participar, mas nunca realmente pertencia. Nunca fui de agremiação política. Exemplo: quando vim para o Rio, estudei no Colégio de Aplicação da UFRJ, na Lagoa. Ajudei a fundar lá uma célula secundarista do Partido Comunista, mas nunca entrei pro PC. Fui para a PUC estudar sociologia. Antes do vestibular, me chamaram para participar da Ação Popular, um grupo de esquerda cristã. Eu participei, mas sem ser membro.

EE – Qual a diferença, Calmon? Você participava como, então?

AC – Participava das assembleias, conchavos etc., mas não era membro. Não tinha compromissos mais profundos. Assim como eu jamais pertenci ao Cinema Novo. Por quê? Porque tenho essa máscara, como o personagem do Mishima também a tinha. Mesmo quando eu a tirei e me assumi publicamente, no jornal gay “Lampião da Esquina”, fundado pelo Aguinaldo Silva. A partir do momento em que tomei LSD e passei a enxergar o mundo de outra maneira, não tive problemas em me assumir. Portanto, o que eu quero dizer é o seguinte: sempre fui independente e isso, de certa forma, explica o meu cinema. A partir daí, parei de ter culpa de ser o que sou, de fazer o que faço. Quando as pessoas me acusaram de ter “traído” o Cinema Novo ou de ter “traído” o cinema e ido para a Rede Globo, não dei a mínima porque para mim isso nunca foi traição.

EE – O buraco é mais embaixo...

AC – Como dizia o personagem do Clint Eastwood, “a man must know his limitations”. Você tem que fazer o que você faz bem e não deve tentar ser o que não é. A coisa mais sábia que já ouvi no Brasil, do sábio dos sábios, foi do Zeca Pagodinho [risos]. Sempre deixei a vida me levar. E também sou muito sardônico. Já me perguntaram: “Calmon, o que você acha do casamento gay?” “Acho que estou muito velho pra isso...” [risos] “Na sua próxima novela você vai tratar do beijo gay?” “Não, vou tratar do divórcio gay. Agora que já teve o casamento, daqui a pouco vai ter o divórcio...” [risos] Não resisto a uma piada e às vezes também pago um preço caro por causa disso.

EE – Fale mais do seu processo de formação, como ele influenciou nesse distanciamento...

AC – O sonho da minha mãe era voltar para o Rio. Detestava tudo lá e queria voltar para o Rio. Meu pai, uma figura incrível a quem só fui dar o devido valor muito tarde, formou-se em medicina, mas em Manaus estudou português loucamente, depois estudou Direito, quase chegou a se formar. Não satisfeito, entrou para a política. Tirava uma semana, por mês, para pegar um barco e ir pelo interior. Trabalhar pro bono, por conta própria. Aos poucos, ele percebeu que tinha um eleitorado imenso e foi duas vezes deputado estadual, pelo Amazonas. Acabou se filiando a um partido, infelizmente, extremamente corrupto. Partido Social Progressista, do Adhemar de Barros, que vem a ser meu padrinho de crisma.

EE – [risos] Essa eu nunca teria imaginado: você e o Adhemar de Barros...

AC – [risos] É... Ele ia algumas vezes a Manaus. Lembro dele de terno panamá branco, o nariz muito vermelho, acho que de bebida. Usava aquela frase famosa, “roubo, mas faço”.

EE – Depois teve a volta: roubaram o cofre dele...

AC – Acabou o meu pai se elegendo deputado federal. Voltamos para o Rio, minha mãe feliz da vida, e o Juscelino muda a capital para Brasília [risos]. Meu pai se mudou para Brasília, ficou na ponte aérea, eu virei um garoto do Leblon, depois um garoto de Ipanema. Foi dolorosíssimo vir para o Rio. Durante dois, três anos, sofri horrivelmente de saudades do Amazonas. Sonhava, sonhava e sonhava em voltar. Custei a me aclimatar. Entre o Colégio Santo Agostinho e o Colégio de Aplicação, fiquei três, quatro meses em um outro, em que parei por acaso: o Padre Antônio Vieira. De meninos grã-finos, que não deram certo em colégio nenhum. Sofria bullying todo dia. Eu era o provinciano, usava aquele sapato chamado “tanque colegial”, calças de provinciano. Apanhava todo dia, porque era o segundo melhor aluno do colégio. Apanhávamos na entrada e na saída do colégio. Eu e o JC, Jesus Cristo, o primeiro aluno. Sempre fui nerd. Passei minha infância e adolescência lendo desvairadamente, e vendo filme.

EE – Desde pequeno...

AC – Qualquer folga que tivesse de tarde, eu ia ao cinema. Desde sempre, foi uma obsessão. Já no Rio, um dos colegas do Colégio de Aplicação tinha um câmera 16 milímetros e era músico também. O Sidney Weissman. Além dele, tinha mais dois, o Mair Tavares e o Amauri Alves, que depois se tornaram montadores. Nós quatro resolvemos fazer um filme. Comecei a trabalhar, porque meu pai percebeu minha homossexualidade cedo, embora eu nunca desse pinta, nem nada. Mas percebeu que eu era diferente. Parou de me dar dinheiro quando eu tinha quinze para dezesseis anos. Acho que isto salvou a minha vida. Fez com que eu tivesse o meu próprio dinheiro e foi com esse dinheiro que banquei o filminho.

EE – Que é o “Infância”?

AC – É, o “Infância”.

EE – Segundo lugar no Festival Mesbla/JB. Em primeiro, o“Escravos de Jó”, do Xavier de Oliveira.

AC – O “Infância” conseguiu o segundo lugar por causa do Glauber. Eu ficava ouvindo um cara gritar, durante a projeção inteira. “Pô, que filme maravilhoso!” Era o Glauber. Não respeitava nada, nem ninguém, falava e fazia o que queria. O meu prêmio foi ser assistente de direção do Cacá Diegues, em “A Grande Cidade”. Conheci todos nesta sessão do “Infância”, nunca os tinha visto antes. A partir de então, pouco a pouco, comecei a me profissionalizar.

EE – Nessa época você foi aluno do Gustavo Dahl, no MAM?

AC – O curso começou com o Ruy Guerra. Deu uma aula só, de decupagem. Havia acontecido o golpe militar e a decupagem foi de uma situação concreta: uma pessoa no apartamento, aguardando o contato político. Tocava a campainha, o cara ia olhar no olho mágico. O Ruy Guerra decupou a cena para nós e nunca mais apareceu. Depois veio o Gustavo Dahl, que tinha cursado o IDHEC, em Paris. Um grande conquistador. Ele e a Maria Lúcia Dahl, belíssima. As primeiras pessoas que vi usarem roupas jeans aqui no Rio. Bem libertinos, também. O Gustavo, agora que faleceu... [Pausa.] Normalmente não vou a velório, a enterro. Decidi que só vou ao meu. Mas quando o Gustavo faleceu, eu fui ao Palácio da Cultura. Tive um treco, chorei pra burro. Não falei com ninguém, estou cada vez mais misantropo, não gosto mais de ir aos lugares, não gosto de ver ninguém.

EE – Esse choro você acha que foi o quê? Fruto da guinada que você experimentou desde o “Infância”?

AC – O Glauber, o Gustavo e o Cacá são as três pessoas a quem eu devo demais. O Gustavo, na parte mais teórica e também porque, muito sutilmente, me passou os livros do Genet. Sem eu nunca ter dado um toque, me emprestou a garçonnière dele. Ensinou a me vestir direito. O Glauber, aquela torrente de informações, de teorias e de loucuras. O primeiro disco que eu tive do Jimi Hendrix foi o Cacá quem me trouxe. Um casaco italiano, de caça, este [aponta para a foto de “O Dragão da Maldade”], também. Em todos os sentidos, socialmente, intelectualmente, existencialmente, essas três pessoas me formaram. Tiraram o resto do meu provincianismo, viram em mim alguma coisa, acreditaram no meu talento e, pelo menos sempre vi isso, me adoravam. Cada diretor tinha um jovem e brilhante assistente. Eduardo Escorel, João Carlos Horta, vários desses. Eram, praticamente, aprendizes que trabalhavam e se revezavam de um filme para outro. Uma segunda geração, porque também havia muito esse negócio de continuar o Cinema Novo.

EE – Havia, conscientemente, um plano para o Cinema Novo.

AC – Lembro que, no enterro do Glauber, o Gustavo fez um discurso brilhante, brilhante. Parecia um senador romano: “O leão tinha sete cabeças. Morreu uma, ficaram seis.” O Cinema Novo sempre foi um projeto. Cultural e político. Sempre. Tanto que o Glauber, de certa forma, propiciou a Abertura, junto ao Golbery. Eles sempre conspiraram. Sempre houve uma guerra subterrânea, contra o CPC da União Nacional dos Estudantes, contra o Partido Comunista. O Cinema Novo, em determinado momento, foi quase um partido político. Aos poucos esse negócio foi se fragmentando. O Leon Hirzsman era um teórico marxista. Bem diferentes entre si: o Joaquim Pedro era um aristocrata de esquerda, como o Luchino Visconti. A aristocracia mineira. O Mário Carneiro, outro aristocrata, filho de embaixador, criado na França. O Leon era um desses judeus brilhantes, cerebral, fantástico. O Glauber era a única pessoa que eu conheci realmente possuída pelo gênio, pela genialidade. Ele funcionava em outro patamar. O Cacá sempre foi um político extremamente hábil, articulador, brilhante também. As reuniões deles, a fundação da Difilm, tudo isso tinha um cunho político. Havia um plano cultural. A maneira como a Embrafilme foi criada. Eu acompanhei. Agora, como sempre: de longe. “Not belonging”. Não fazendo parte. Um pé aqui, um pé lá, porque me mantive um renegado, um outsider.

EE – E “A Grande Cidade” encaminhou você nos meandros do cinema...

AC – O primeiro trabalho como assistente. De continuidade e de montagem. Eu era basicamente um neófito, não sabia nada, estava aprendendo. Assistente de direção foi o Luiz Fernando Goulart. Eu ficava com a claquete na mão e era a pior pessoa do mundo para fazer assistência de continuidade [risos]... Existem duas coisas que nunca poderia fazer: continuidade e produção. Sou muito neurótico, distraído, ansioso. É por isto que fui responsável por um dos maiores furos de continuidade no cinema brasileiro [risos]...

EE – [risos] Qual?

AC – Toda vez em que alguém levava um tiro no cinema brasileiro, acontecia um desastre, um horror. No final de “A Grande Cidade”, tanto o Leonardo Villar quanto a Anecy Rocha morriam, na estação das barcas para Niterói. Mortos pela polícia e separados por uma grade. Como não existiam técnicos, as pessoas improvisavam. Pegavam uma camisinha, groselha misturada com não sei o quê e pólvora. Colocavam embaixo da roupa do ator, com uma “proteção”. Depois ligavam dois fios, aquilo explodia o sangue e tal. Ninguém tinha noção de nada. Ficávamos horas ensaiando, mas um rapaz exagerou na carga de sangue. Quando ligou o efeito, parecia que a Anecy tinha tomado um tiro de obus [risos]... Caiu dura no chão, foi levada embora, desmaiada. Não teve monólogo da despedida dos dois. Quando você vê o filme, percebe que ela tomou um tiro não sei de quê.

EE – Realmente...

AC – E ainda teve uma consequência: o Leonardo Villar não queria filmar o tiro dele nem morto depois disso [risos]… Ficamos lá, eu, o Zelito Vianna, o Cacá. Nunca vou me esquecer. Conversamos com o Villar, nervoso pra burro. Estávamos tomando um cafezinho, fumando. Debaixo da calça dele saíam os dois fios. Nisto eu vejo o seu Lídio, um eletricista, que usava uma perna de pau. Vinha ele andando, percebeu aqueles dois fios e juntou. O Léo Villar explodiu! Na nossa frente [risos]...

EE – [risos]

AC – Moral da história: um mês depois, filmamos outra sequência da Anecy. Durante o tempo em que ela não gravou, o cabelo cresceu. Ela anda na calçada com o cabelo por aqui [indica a altura do ombro] e, quando sai do mar, o cabelo está aqui [as mãos bem abaixo] [risos]... Essa foi a minha experiência de continuidade. Teve outros probleminhas, de eixo, de olhar, um inferno! Depois veio o “Terra em Transe”, bem menos problemático. Afinal, o Glauber e a continuidade não se entendiam. Câmera na mão, loucura desvairada... Mil histórias saborosas da filmagem do “Terra em Transe”.

EE – Exemplo?

AC – Várias histórias. O Glauber provocava no elenco e na equipe um clima de exacerbação tão grande que não era incomum alguém chorar. Até o pessoal rude, da elétrica e da maquinaria. Aconteceu muito mais disso no “Dragão da Maldade”, mas também no “Terra em Transe”. Eu chorava à toa, choro até hoje. O Glauber fazia a emoção passar e, às vezes, com crueldade excessiva. Uma das vítimas preferidas era o Hugo Carvana. Precisávamos filmar com o Carvana na antiga redação do “Jornal do Brasil”, na Avenida Rio Branco. Eu que tinha que acordar o elenco. O assistente de direção, só para ficar claro, era o Moisés Kendler. Eu, de novo, o continuísta. Então acordava o Carvana, que estava produzindo um show de boate com a Odete Lara e o Antônio Carlos Fontoura. Ele saía da boate de manhãzinha e, como não havia filmagem prevista, chegou em casa umas cinco e meia da manhã. Comprou o jornal, um cafezinho no boteco, desabou na cama. Meia hora depois, toquei a campainha [risos]...

EE – [risos] O lado burocrático de “Terra em Transe”...

AC – “Não, Antonio, hoje não tenho filmagem!” “Mas o Glauber escalou você.” O Carvana  acatou e, como sempre, o Glauber o colocou para fazer pessoas pusilânimes, covardes. Carvana estava completamente dopado, bêbado, virado. Não conseguia chorar. “Chora! Seu merda! Seu filho da puta! Você é um pusilânime, covarde!” O personagem, claro. O Glauber gritava, porque os filmes ainda eram dublados. Passou a esbofeteá-lo! Você vê, no copião, a mão dele entrando na cena [risos]

EE – [risos] Em “O Bravo Guerreiro”, imagino que a filmagem tenha sido mais tranquila...

AC – O Gustavo tinha profundo conhecimento. Talvez quem melhor conhecia a gramática cinematográfica, a teoria cinematográfica. Existem momentos visualmente deslumbrantes no filme, uma extraordinária interpretação do Pereio, como deputado em crise. Lembro basicamente de uma cena. Uma reunião sindical, em que havia o retrato enorme de uma figura política qualquer, durante o discurso do Pereio. O Gustavo foi um intelectual maior do que cineasta.

EE – Do “Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, o que você conta?

AC – Ah, “O Dragão” foi uma aventura inesquecível. Logo após o AI-5, pegamos um kombi, daqui para a Bahia. O Ronaldo Duarte e o Rogério Duarte haviam sido barbaramente torturados, depois de uma passeata. Como o Glauber era de uma generosidade extraordinária com os amigos, uma coisa super protetora, pegou o Ronaldo para fazer foto de cena e a figuração em Milagres. Também estava na kombi o Roque, eletricista de todos os filmes dele. Viajamos pela antiga estrada Rio-Bahia, paramos na terra do Glauber, Vitória da Conquista. Em Milagres, fiquei embasbacado. Embaixo, no ponto dos caminhoneiros, umas dez a quinze crianças se viravam, cheiravam gasolina, uma miséria terrível. Você escalava aquilo e, lá em cima, uma população paupérrima. Só poeira.

EE – Um descampado total.

AC – Ficamos hospedados na mesma casa. No quarto, o Glauber com a então esposa, a Rosa Maria Penna. Eu, no sofá. A Odete Lara, no outro. Dava para sentir a poeira caindo em cima da gente, durante a noite. Construímos o primeiro banheiro da cidade. O primeiro a usar era eu, porque depois ficava uma coisa assombrosa. Bom, durante a viagem, o Glauber foi lendo o começo do “Os Sertões”, em que o Euclides da Cunha descreve as mudanças da paisagem. Ele lendo junto, mostrando. Uma experiência inacreditável. A paisagem ainda não era tão diferente, naquela época. Partimos para Salvador, encontramos o Jorge Amado: “Isso agora é com vocês. Eu enfrentei o Estado Novo. Agora é a vez de vocês...”

EE – Pouco depois você participou do “Cara a Cara”, do Júlio Bressane. Outro tipo de cinema, outro projeto político.

AC – Era mais uma questão de perspectiva e de discurso. Na verdade, outra geração, tentando também formar um grupo, um lobby junto à imprensa, junto às fontes de financiamento. Igual à primeira geração. Eu era amicíssimo do Julinho, mais um daqueles jovens assistentes. Saíamos de carro, frequentávamos as mesmas mesas de bar. Éramos tratados com o mesmo carinho pelos diretores. O Júlio se rebelou, cometeu o gesto incestuoso de ficar com a ex-mulher do Glauber. E nunca vou esquecer do dia em que, na casa do Júlio, ele e o Neville de Almeida me propuseram entrar para o underground e não fazer o filme do Arnaldo Jabor, o “Pindorama”.

EE – Reunião de cúpula...

AC – Nessa hora, eu falei: “vem cá, o Jabor vai me contratar com dinheiro da Columbia, para ficar três a quatro meses em Itaparica, o paraíso na Terra, ganhando um ótimo salário. O que vocês me oferecem?”. Responderam: “Você vai participar do movimento revolucionário, ao invés de fazer um filme com dinheiro americano.” Eu: “E quem lidera esse movimento, vocês dois? Eu vou ser mais uma pessoa desse movimento, assim como no Cinema Novo o Glauber, Cacá, Gustavo lideram e fulano, beltrano etc. [de coadjuvantes]? Não quero. Vocês devem me oferecer um emprego muito bem pago, porque estou cagando para movimento intelectual.” E fiz o meu próprio filme underground. Quer dizer, eu sou o underground do underground. Em Cinemascope, com estrelas, e que não deu um tostão: “O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil”.

EE – No calor da hora, nessa guerra ideológica, você tinha noção de que alguns filmes eram melhores do que os outros? Outras pessoas tinham?

AC – Eu tinha. Um filme, inclusive, larguei no começo: “Brasil Ano 2000”. Cheguei lá e, quando vi aquilo, falei para o Walter [Lima Jr.], que nunca me perdoou: “Walter, quando o navio vai afundar, os ratos são os primeiros a saltar fora. E eu sou um rato...” [risos] Não morro de amores pelo Walter Lima Jr. e vice-versa. Muito tempo depois, em 1983, participei de “Inocência”. Não tive nada a ver com a parte criativa. Fiquei com a ingrata função de diretor de produção, ou seja, representante dos produtores. Isto provocou vários choques com o Walter, mas tenho que fazer justiça. “Inocência” é a obra-prima dele. A meu ver, um dos maiores filmes brasileiros de todos os tempos. Ele seguiu à risca o roteiro genial do Lima Barreto e todos os cineastas americanos que admirava. Acontece que no “Brasil Ano 2000”, tive que sair de Parati, vi que não tinha pé nem cabeça.

EE – Situação delicada...

AC – “Pindorama”, por exemplo, acabou porque a equipe toda começou a ir embora, depois do terceiro ou quarto mês. Para o “paraíso na Terra”, o Jabor só escolhia mangue e pantanal, estava em um processo muito ruim de depressão. Nós gravávamos no barro, na lama. Foi das filmagens mais acidentadas e terríveis de que já participei. E isto em um lugar maravilhoso. Mesmo assim, tenho pelo menos uma história sensacional. Os índios de “Pindorama” eram os negros de Itaparica, uns negros altíssimos. Eu cuidava dessa figuração. Plano sequência, com a Mitchell, aquela câmera de dez minutos de chassi. Os índios tinham que ficar ao fundo, segurando umas lanças. “Vocês não se mexam, mesmo que qualquer coisa aconteça!” O Jabor ensaiou pra cacete, começou a fazer um take, dois takes, três takes. De repente, eu olhei. Cadê eles? Estavam enterrados! Foram afundando no mangue [risos]...

EE – [risos] Inacreditável... E na linha do “underground do underground”, em 1973 você participou de “Rainha Diaba”. Um clássico do Antonio Carlos Fontoura.

AC – Minha história com o Fontoura é interessante. Eu sou Antonio Augusto, ele é Antonio Carlos. Nós dois só usávamos jeans. Nós dois somos desastrados, disritmia cerebral. Quero usar a mão esquerda, uso a mão direita. Andávamos juntos para cima e para baixo. Eu chamava ele de Calmon, ele me chamava de Fontoura. Até hoje [risos]... E o loirinho era como eu. Sempre foi uma pessoa solta. Tinha um belíssimo primeiro filme [“Copacabana Me Engana”], nada a ver com as linguagens e as preocupações do Cinema Novo. “Rainha Diaba” também não tinha nada a ver com nada. Fui diretor de produção dele nesse belo filme. Acho que o papel do Fontoura no cinema brasileiro não foi prestigiado como deveria. Assim como eu, ele não cortejava jornalista, não se “auto-publicitava”.

EE – Não tinha o grupo...

AC – Não tinha o grupo por trás. Sempre foi independente. E também não tinha a ideologia. Todos esses filmes possuíam um discurso político e, como havia repressão política, todos se amparavam. Havia a simpatia da elite cultural, de esquerda. “Rainha Diaba” é uma obra-prima. O filme não envelheceu. Lembro que o Wilson Grey odiava o Fontoura, odiava... Ele interpretava o “Manco”, um dos capangas da Diaba. Usava um sapato com o salto mais alto do que o outro, e já tinha uma certa idade. Um dia não apareceu para filmar. Tivemos que ir à casa dele, o Grey morava quase em frente ao IML. Aquele cheiro de formol que vem lá de dentro... Tive que entrar ali duas ou três vezes para reconhecer corpo. Ele morava em um quartinho, uma cabeça de porco, uma coisa terrível. Ele nos viu, levantou-se e disse: “Aqui mora o artista!” O Grey tinha uma dignidade. Era viciado em corrida de cavalo, tudo o que ele ganhava, jogava. A carreira dele vinha desde a época da chanchada.

EE – E convivendo ali, com essa nova onda de garotos...

AC – Lembro da gravação da morte do Stepan Nercessian. Mais uma vez deu uma cagada na hora dos tiros, que eram de metralhadora. Puseram o líquido em excesso, que misturou com os fios e começou a dar choque elétrico. O Stepan se debatendo, eu entrei gritando “Pára! Pára! Corta! Corta!”. Tiramos os fios, ele ia morrer eletrocutado. A filmagem continuou no dia seguinte, eu fui pegar o almoço da equipe. Quando volto, umas dez pessoas em cena, o Stepan morto... Mas tem um problema: o Fontoura é muito distraído. Eu olho em volta e falo: “Espera aí, cadê o sangue?” “Ahn?” “Fontoura, esse cara tomou trinta tiros ontem. Cadê o sangue? Ninguém viu?” Aí o Grey vira pra mim: “Psiu... Eu vi...” [risos]

EE – [risos] O “Rainha Diaba” conseguiu um elenco sideral...

AC – Só havia pessoas geniais ali. Um elenco de freaks maravilhosos. O Fontoura estava inspiradíssimo quando fez aquele filme. Um dia nós estávamos no centro da cidade, em uma área bem barra pesada, com travestis, policiais, putas. Eu, com aquele negócio de produção, quase tive uma úlcera. Fui pegar o jantar e quando voltei estava uma cagada. Começamos a ouvir gritos  lancinantes de criança. Era um cara batendo no filho com uma corrente. Começou um clima de linchamento e o cara era um operário, algo do gênero. Tinha sofrido um acidente de trabalho, queimadura de terceiro grau e ficou meio pirado. Eu nervoso, sem saber o que fazer, ninguém tomando uma providência. A Odete Lara me diz: “Calmon, vem cá. Toma isso.” Entregou um comprimido, tomei, senti logo um bem estar enorme. Fui lá, resolvi a situação, enquadrei as putas, os policiais, os travestis. Mandei chamar uma ambulância para o menino e para o pai. Tudo tranquilo, a filmagem continuou normal. Quando chegou de manhã, eu perguntei. “Odete, o que foi aquilo que você me deu?” Ela me disse: “Ah, uma morfinazinha...” [risos]

EE – [risos] Ah, essa beleza dos anos 70...

AC – [risos] Todo dia eu enchia o saco dela. “Odete, não tem aquela coisa maravilhosa, não?” “Não, só quando a barra pesa muito” [risos]...

EE – [risos] Calmon, agora os seus longas-metragens. Primeiro, “O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil”.

AC – Sabe que “O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil” foi o primeiro filme financiado pela Embrafilme? O Glauber tirou para mim. Você vê que, mesmo eu tendo virado um anjo maldito, ele não só não me discriminou como bancou meu primeiro filme. Pior: eu já havia enlouquecido, virado um maluco, drogado. Carvana e eu fizemos esta firma chamada “Trópico Produções Cinematográficas Limitada”. Um de nós dois, não sei qual o idiota, disse: “Começamos a construir um império!” [risos]... Alguém descobriu que o Luiz Severiano Ribeiro tinha uma lente Cinemascope. Uma única lente, de cinquenta milímetros. Carvana era praticamente irmão do Cláudio Marzo, os dois se adoravam. Então reunimos um puta elenco e eu, em uma semana, completamente alucinado, escrevi o roteiro. Como todo primeiro filme, era uma mistura de tudo que eu gostava. O Jean Cocteau do “Orfeu”, misturado com a crise existencial de empresário, do Antonioni. Na época eu achava que fazia sentido e que seria um estouro comercial. O dinheiro mal dava. Filmamos em três semanas: uma em São Paulo, uma no Rio, uma em Arembepe, na Bahia. Loucos, o tempo todo. Adoro o filme, de vez em quando revejo, acho que não se parece com nada do cinema brasileiro.

EE – E hoje em dia você revê lúcido...

AC – [risos] É... Quem sabe? Não, brincadeiras à parte, fiquei louco para sempre. Como diz o Fontoura, não tomo mais nada para não cortar o meu barato... [risos]

EE – [risos]

AC – Aliás, lembrei de uma cena com o Jesus Pingo, irmão do Pereio. “Jesus Pingo”. Eu que dei esse nome pra ele. Uma figura. Compridão, cabelão, tomava tudo que era droga, inclusive uma chamada Rohypinol. Ficava completamente louco. Fazia o revolucionário no filme e era condenado a morrer na roda. No final, ele faz o discurso revolucionário com a casa pegando fogo, ao fundo. Ele no primeiro plano: “blá, blá, blá, a exploração etcetera e tal!” Um texto enorme. E você vê, no copião, que aos poucos as pessoas vão saindo. Vão saindo, vão saindo, vão saindo... Por causa do calor da casa queimando! Aí o Jesus improvisa: “E eu não aguento mais, porra!” E sai, desesperado [risos]...

EE – [risos] Genial!

AC – “Capitão Bandeira” levou cinco anos para se pagar. A estreia foi no cinema Pax, ao lado da Igreja Nossa Senhora da Paz [em Ipanema]. Lotado, lotado, um caos. Pessoas que acharam genial, pessoas que odiaram. A crítica destruiu. Um crítico, muito conhecido no meio cinematográfico e que até hoje está aí, disse que o Serviço Nacional de Informações deveria tomar providências. Era um acinte à bandeira brasileira. Na verdade, era uma metáfora da loucura da droga. E a Sônia Braga representava o meu grande amor gay, um rapaz que conheci nas filmagens de “Pindorama”.

EE – No “Paranóia”, de 1977, você estava mais calejado...

AC – “Paranóia” era um projeto de ambiciosíssimos produtores de Ribeirão Preto, junto à exibidora Galante. Foi escrito a partir uma crônica do [Carlos Heitor] Cony, baseada no tal  primeiro assalto em uma residência burguesa que se teve notícia, em São Paulo, onde também teria havido um estupro. Eu estava cinco anos sem filmar, ninguém mais queria ouvir falar de mim. Virei hippie, maluco, mendigo na Bahia, com a barba até aqui, cabelo até aqui. Andava descalço, morava numa comuna hippie, dormia no chão em uma esteira, cheia de santinho pregado.

EE – Viveu o desbunde na própria pele.

AC – Na época do “Capitão Bandeira” me casei com uma baiana. Ao mesmo tempo, estava com um cara. Ou seja, problemas do bissexualismo que sempre dão merda, infelicidade a três. Tinha pirado completamente, vivi na miséria até o meu pai me localizar. Perdi uns quinze quilos, sei lá. Estava com dezessete cáries. Fui trazido para o Rio e mais uma vez o anjo Cacá Diegues me salva. Era perto do Natal e ele me chama para Natal ou Ano Novo na casa dele. Apresenta o Samuel Wainer, que então me convida para trabalhar com ele, em um jornal dos Bloch. Volto para a Bahia, de onde havia sido retirado quase morto, para ficar no melhor hotel de lá. Um salário maravilhoso, uma diária maravilhosa, para cobrir o carnaval fazendo uma matéria com o Guilherme Araújo. Quer dizer, voltei por cima. Estava tão miserável na Bahia que três pessoas, um dia por semana, pagavam a minha refeição ou faziam uma refeição para mim e meu amigo. Nos outros dias a gente comia resto de feira. Uma loucura, cara. Sabe o livro “A Fome”, do Knut Hamsum? Eu vivi aquilo. Vivi ficar em porta de restaurante, sentindo cheiro de comida. Pedi esmola. Eu cheguei ao mais baixo do desespero.

EE – Mas foi por opção ou por consequência de algum fato?

AC – Depois que o “Capitão Bandeira” fracassou e também depois que me assumi, precisei fazer isso. Desbundei mesmo. Mesmo. Consegui dinheiro emprestado, cheguei de ônibus na Bahia, dez cruzeiros no bolso. Nos três primeiros dias, era uma celebridade. Depois que as pessoas viram que eu estava na merda, todo mundo cagou na minha cabeça. Menos os hippies. Então fiquei vivendo da caridade dos outros. Lembro que um dia teve uma guerra na feira, perto de onde nós morávamos. Duas turmas de playboys brigaram e sobrou fruta pra tudo que era lado [risos] Morávamos numa vilazinha, uma casinha precária, mas com uma vista linda, na Ladeira da Barra. Moravam as figuras mais estranhas naquela comuna. Tinha o Marquinhos Rebu, menino de uns dezesseis, dezessete anos. Lindo, deslumbrante, uma moça, mocinha. O Marquinhos se mudou para lá, com uma malinha de roupa e um espelho enorme. Na casa em frente, havia uma célula terrorista. Em toda a Bahia, todo mundo sabia que era uma célula terrorista. Os caras barbudinhos, de casaco, em um calor desgraçado. O Marquinhos ficava de baby-doll na varanda, paquerando os terroristas, pegando nos cachos de cabelo, flertando.

EE – Isso em que ano, Calmon?

AC – Não tenho ideia. 1970, 70 e pouco. Eu não respeito o artista apenas erudito, como o Borges, por exemplo. O artista tem que viver. Mas há um limite. Se você fica demais no existencial, ou você morre ou você deixa de ser artista. Como aconteceu com o Rimbaud e o Pasolini, por exemplo. Em “O Petróleo”, do Pasolini, o personagem na verdade é ele. Vai para um campo de futebol e dá para vinte garotos da periferia. Mais ou menos tipo o lugar onde o próprio Pasolini foi assassinado. Se você radicaliza a experiência existencial e mistura demais com a obra, você pode morrer. Então eu tive que aprender as horas de frear. Quando voltei dessas coisas todas, dirigi  “Paranóia”.

EE – Você foi pragmático.

AC – Acho que consegui parar por duas razões. Primeiro, porque a droga não é causa, é consequência. Droga sempre esconde algo maior. Pela psicanálise e por uma série de coisas, eu não precisava esconder nada. Segundo: graças a Deus, eu tenho a criação, eu posso jogar. Quando fiz o “Eu Matei Lúcio Flávio”, eu joguei tudo. Lá você vê o Mishima, você vê o Pasolini, você vê o William Burroughs, os caras todos que me influenciaram. E também coisas marginais que vivi, porque tive namorado assaltante. Coitado, de padaria, mas assaltante [risos]... Eu guardava a arma dele. Foi morto por um policial em Belo Horizonte, o primeiro que o espancou, quando era menor de idade. O policial tinha espancado o garoto, prendido ele e roubado sua bicicleta. O garoto o denunciou e ele foi punido. Anos depois se encontraram na rua e o policial atirou no rosto dele. O garoto chamava-se Para-Raios. Até escrevi um projeto de filme chamado “Para-Raios”, por conta disso. A vida é uma merda.

EE – Depois de “Paranóia”, temos o “Revólver de Brinquedo”.

AC – Isso. Que é a minha obra-prima perdida. Um filme precário e o som, um horror. Realizado no estúdio do Roberto Bataglin, com a fotografia de Miguel Rio Branco, que considero o maior artista brasileiro vivo. Roteiro de Leopoldo Serran, outro gênio. Os roteiros originais do Leopoldo, quando não escritos por encomenda, são todos obras-primas. Tem esse e o tal inédito, um filme policial passado em Lisboa. “Revólver de Brinquedo” é uma obra-prima, uma comédia noir. Quase um filme do Woody Allen, só que melhor. Vou te contar uma cena. É um cara que mora com a mãe, a Tereza Rachel, completamente dominado por ela e vivido pelo Helber Rangel, um ator brilhante, parecia saído de um filme do Truffaut. O cara conhece uma menina chamada Leninha, a Maria Lúcia Dahl. Ele, muito tímido, não conseguia se aproximar da mulher e morava em um sobrado de Santa Tereza. O filme é quase todo passado em Santa Tereza, no auge da repressão policial da ditadura militar. O rapaz resolve pichar no muro em frente: “Eu... Te... Amo... Lenin...” e aí passa uma viatura e leva ele [risos]... Fizemos com pouquíssimos recursos, poucos atores, mas olha que cena genial. O filme é isso, cara, maravilhoso. Pena que não tem cópia.

EE – Produzido pelo Pedro Rovai, você dirigiu uma trilogia: “Gente Fina É Outra Coisa”, “O Bom Marido” e “Nos Embalos de Ipanema”. Todos muito bons, os três filmes.

AC –  Sempre roteiros do Leopoldo e do Armando [Costa]. O Armando era um gênio e o Leopoldo, outro. Ambos haviam pertencido ao Centro Popular de Cultura da UNE, havia esse lado político forte neles. Também tive formação marxista e subversiva. Só que, mais do que anarquista, me defino como “anarco-conservador”.

EE – E, em 1979, você dirige aquela que é a sua obra-prima:“Eu Matei Lúcio Flávio”.

AC – Também é o filme de que eu mais gosto. O Jece Valadão, dono da Magnus Filmes, convidou o Leopoldo. Não sei como, nem por quê. Leopoldo me telefonou e eu estava numa merda, pra variar. Cinema é aquela coisa: você demora a receber, tem espaços entre um filme e outro. Aí você deve tudo, não paga o aluguel. Eu e o Leopoldo tínhamos uma tabelinha. Várias vezes eu tirei ele da merda e ele me tirou da merda. Dessa vez, ele me telefonou, do nada. “Olha, estou escrevendo um roteiro para o Jece Valadão, sobre o Mariel Mariscott.” De minha parte, não tive problemas e não foi nem por precisar do dinheiro. Simplesmente adorei o Beto [Alberto Magno, filho de Jece], um cara brilhante. Pianista, sobrinho do Nelson Rodrigues, uma mistura completamente maluca.

EE – O Jece esperava esse tipo de filme ou alguma coisa mais clássica?

AC – Ele adorou, achou que deu a maior sorte, porque o filme tinha tudo para dar errado. Era uma operação delicadíssima, fazer um filme sobre o Mariel.

EE – Mariel vivo ainda...

AC – Mariel “brother” dele. Fomos à cadeia, conversei com o Mariscott umas três vezes. Depois que o filme ficou pronto, contaram para ele, que ficou puto. Meio que me mandou uma ameaça e tive de contatar o Zuenir Ventura. Dei uma entrevista, dizendo que não era “presuntável”. Aí ele enviou o recado: “Que é isso, meu irmãozinho? Está tudo bem...” O Mariel tinha três celas: uma para dormir, uma para receber visitas e uma para ateliê.

EE – Uma das críticas mais burras ao “Eu Matei Lúcio Flávio” é de que se trata de uma apologia. Eu discordo. É uma perversão da apologia.

AC – O negócio é o seguinte: tinham feito uma hagiografia do Lúcio Flávio. O [Hector] Babenco transformou o Lúcio Flávio em herói popular. Uma metáfora do terrorista que assalta banco. Acontece que o Lúcio Flávio não era nada disso. Quando surgiu o filme, nesse ambiente cultural de esquerda em que se vivia e se vive ainda, agora meio desmoralizado porque o nosso líder terrorista está ameaçado de cadeia, as pessoas ficaram putas. Tacharam o “Eu Matei... de um filme de direita. Como se sabe, boa parte da humanidade é composta de imbecis. Outra boa parte, de oportunistas. O filme pertence a uma linha de produto artístico que leva os instintos mais sombrios e destrutivos, mas reais, ao seu extremo limite. O Tarantino faz essas coisas e todos acham maravilhoso. Ninguém questiona, todos acham o máximo. Porém, dentro de uma leitura marxista de qualquer coisa, é claro e óbvio como uma vaca pastando: trata-se de um filme de direita.

EE – Em uma parte da minha geração existe uma outra visão do problema. Você tem noção disto, Calmon? Com o tempo, um filme antes acusado de ser “de direita” passou a ser uma obra  estética.

AC – Olha, o LSD me mudou. Eu tive uma coisa revolucionária na minha vida. Tomei não sei quantos LSDs e tive não sei quantas bad trips. Até que parou na minha mão “O Livro Tibetano dos Mortos”, traduzido pelo Timothy Leary, que aliás conheci depois em Los Angeles. “O Livro Tibetano dos Mortos”, ao contrário do que se pensava, não é um livro de preparação para a morte física. É um livro de preparação para a morte do ego. Neste momento, em que tudo se desfaz, você tem noção de como são arbitrárias as escolhas. O que é cultural, o que não é. Como são ridículos os medos, como são arbitrárias as certezas. Como a linguagem é uma besteira. Qualquer ideologia se desmonta e qual é o enorme perigo do LSD? Você nunca mais se reenquadrar na sociedade. Então, veja bem: essa minha experiência com o LSD fez com que o dogmatismo marxista fosse pra casa do caralho. Fez com que as minhas repressões sexuais fossem pra puta que o pariu.

EE – Exatamente...

AC – Por exemplo, esse negócio de casamento gay. Casamento, para mim, é uma coisa impensável. Eu venho de uma família disfuncional. Não conheço nenhuma família feliz, só tem monstruosidade por detrás. Não há coisa pior do que a discussão de uma herança. Enfim, enfim... Essas experiências com drogas e de vida fizeram com que eu me despisse disso. Então, quando aparece uma geração como a sua, livre dessas coisas, eu entendo perfeitamente, porque eram dados da época. Procuro sempre estar antenado.

EE – Talvez por isto o seu cinema continue moderno. Porque não tem esse dogmatismo ideológico. Na sequência de “Eu Matei Lúcio Flávio”, veio “O Torturador”.

AC – “O Torturador” era para ser uma superprodução, porque “Eu Matei Lúcio Flávio” deu muito dinheiro. O Grupo Severiano Ribeiro iria produzir. Então viajei ao Paraguai, Pedro Juan Caballero, com o Beto. Você atravessa a rua e está no Paraguai. Fomos muito bem recebidos por um grande traficante paraguaio. Fizemos uns contatos de produção, tivemos uma aventura fantástica. Primeiro a viagem de avião, aquela chapada. De repente, o abismo. A geografia maravilhosa, aquele aviãozinho pequeno. Depois, um descampado enorme e aquele casarão, só de um andar. Entramos eu e o Beto, doidaços. Parecia um filme de vampiro. Não tinha ninguém, ninguém, e começou a sair mulher. Era um puteiro [risos] Aí foi uma farra, estávamos bêbados, uma loucura. Quando voltamos, o Severiano tinha pulado fora e o Jece estava com uma merrequinha de dinheiro. Rodamos o filme inteiro na Barra da Tijuca, em duas semanas. Aquela pobreza. Não apenas isso como o roteiro tinha um lado meio “Casablanca”, que se perdeu. Deu pra curtir uma cena ou outra. Uma atriz enlouqueceu na filmagem, no meio de um plano. Foi embora, nunca mais apareceu. Não sei até hoje o que foi feito dela. Começou a rir, a balançar a cabeça. Teve um surto psicótico. Curti algumas coisas, principalmente com o Paulo Villaça, o Jece, o Anselmo [Vasconcellos], que está maravilhoso. E that's it. O filme é bem irregular.

EE – Agora vamos em um sentido oposto: o ciclo com o Luiz Carlos Barreto, em “Menino do Rio” e “Garota Dourada”.

AC –  Nas minhas pornochanchadas políticas e nos meus filmes de sexo e violência, não tem garotada. Tem uma cena ou outra com jovem, mas não são filmes tematizando-os. Isso só começou a acontecer quando o Bruno Barreto me convidou para o “Menino do Rio”. 

EE – “Menino do Rio” virou ícone de uma geração. Você imaginava isso, na origem do filme?

AC – Na verdade, era um réquiem para um amigo meu que morreu. Namorava uma empregadinha aqui da redondeza, transavam lá no alto do morro. Tem uma cachoeira, cheia de limo. Ele e a menina escorregaram, ele caiu de trinta metros. Quebrou a perna em cinco lugares. Era lindo, loirinho, arrebentou a cara inteira, ficou três dias na UTI do Miguel Couto e morreu. Quando o filme surgiu, havia essa coincidência. O irmão do André De Biase [Tonico De Biase] escreveu sobre um ator surfista, amigo dele, que morreu pegando surfe. História verídica. Aí eu transformei a morte do Pepeu em um réquiem para aquele menino que eu conhecia. Nem fazia sexo com ele. Ia ser ator, uma pessoa iluminada, e morreu. Quase morri junto. Enfim... [Pausa. Longa.] Eu joguei tudo no filme, então “Menino do Rio” tem muita emoção. E também o Bruno [Barreto] foi um fantástico produtor. Desde garotinho, os pais levavam para Los Angeles. O Bruno tinha experiência de filmagem comercial. Chamou o Carlos Egberto, um cara que estudou fotografia em Londres e também esteve em Los Angeles. O filme tem qualidade de produção, a primeira vez em que eu usei grua, e uma puta de uma fotografia.

EE – Um panteão dos ídolos jovens, nos anos 80. André De Biase, Sérgio Mallandro...

AC – Sérgio Mallandro era o melhor amigo do André De Biase. O André era autor da história, tinha estrelado o “Nos Embalos de Ipanema”, descoberto o gostinho do cinema. O Evandro Mesquita fui eu que trouxe. A Cissa [Guimarães] também. A Cláudia [Magno] era convite do Bruno. Tinha o Ricardo Zambelli,  um ator fantástico, comediante muito bom. Faz um vilão, mas um vilão cômico.

EE – Além desses dois filmes, o “Menina Veneno”, que não foi lançado.

AC – Este não saiu do roteiro. Seria uma trilogia também, como a do Rovai. “Garota Dourada” foi um flop. Vimos locação em Santa Catarina, mas acontece que era o primeiro ano do El Niño. Nunca havia chovido lá nessa época do ano e agora chovia todo dia. Eu chorava todo dia. Acordávamos às cinco da manhã, preparávamos tudo. Quando dizia “câmera”, caía uma tempestade. Tinha muito cogumelo... Uma pessoa levava todo mundo para a capital, Florianópolis. Descontrole da equipe. O filme perdeu eixo, entrou um lado místico. “Garota Dourada” não é um bom filme. Eu tenho dois  bem fracos: este e um horrível, “A Mulher Sensual ou Novela das Sete”, que dirigi para pagar o enterro de um namorado meu. Morreu aqui no Parque Lage. Peguei um empréstimo e tive que fazer o filme, que eu não queria. Um best seller, tipo o “Cinquenta Tons de Cinza”. Livro de sacanagem feminina.

EE – Vamos passar para os dois últimos: “Terror e Êxtase”, de 1979, e “Mulher Sensual”, de 1981. Queria que você falasse primeiro do “Mulher Sensual”, para depois nos aprofundarmos no “Terror e Êxtase”.

AC – Para “Mulher Sensual”, o Álvaro Pacheco tinha comprado os direitos daquele livro de sacanagem feminina. Queria porque queria que eu filmasse, para convidar a Helena Ramos,  rainha da pornochanchada paulista. Depois que a conheci, vim a saber que era uma moça arrimo de família, ex-secretária do Sílvio Santos. Usava gola aqui, manga aqui [dando a entender que eram roupas longas]. Tinha namorado e odiava fazer esses filmes. Não deu pra ninguém, ficava constrangidíssima, e eu idem. Em uma cena ela estava pelada com quatro atores. Paulo Ramos, André De Biase e mais dois: a fantasia sexual da personagem. Coisa desagradável. Fiz o “Mulher Sensual” realmente sem tesão. Aí parei. Parei de filmar. Acho que meu ciclo de cinema acabou. Foi quando pintou o convite do Daniel Filho para a Globo.

EE – E o “Terror e Êxtase”? Um filme extremamente emblemático. Adaptação do romance homônimo do Carlinhos de Oliveira.

AC – O Carlinhos é desses exemplos em que o excesso de experiência existencial conduz à morte prematura. Ele simplesmente se destruiu com a bebida e foi embora muito cedo. Tinha a enorme frustração de não ser um grande romancista.

EE – Frustração que nem se justificava. Escreveu romances maravilhosos, como “O Pavão Desiludido”, e se dizia a grande promessa não realizada da literatura brasileira...

AC – Aliás, é a síndrome do cronista... No filme, o Álvaro Pacheco estava encantado com a Denise Dummont, que faz a Leninha. Ele chegou a negociar com o empresário da Maria Schneider, a deliciosa francesinha do “O Último Tango em Paris”. Achei que o Álvaro estava de sacanagem, mas conseguiu combinar um almoço com La Schneider e o empresário. Conversa vai, conversa vem e nada da moça. Até que ela aparece, de biquíni e saída de praia, bronzeada, linda. Reparei logo nas marcas de picadas nos braços. Tudo ficou claro para mim, e foi depois confirmado pelo Álvaro: o empresário queria tirá-la da Europa, afastá-la da heroína, que ainda não existia no Brasil. Ela me perguntou se eu gostaria de experimentar um pouco. Incapaz de dizer não a uma dama, aceitei o convite. Subimos para o quarto, ela imediatamente se aplicou. E imediatamente correu para o banheiro, começou a vomitar. E não parava mais. Aí baixou a paranoia em mim. E se essa mulher tem uma overdose? E se eu sou pego no quarto com ela defunta e aquela droga toda? Resolvi me mandar e não voltei ao restaurante [risos]... Para o papel do bandido, o “1001”, tentei um ator negro, mas não houve jeito. O preconceito racial era enorme, o Brasil sempre foi uma África do Sul light. O Roberto Bonfim era uma estrela, lindo. Hoje, o Lázaro Ramos faria um grande “1001”.

EE – Você sabia que o projeto do “Terror e Êxtase” havia sido vendido antes? Foi revendido para o Álvaro.

AC – Não. Não sabia de nada. Por isto que muita gente me detesta e nem sei por quê.

EE – O Carlinhos queria na direção o Glauber, que pensou no Antonio Pitanga para o papel do “1001”.

AC – Eu peguei o bonde andando. Sei que um dia o Álvaro me chamou e fui fazer. O Glauber faria um filme do Glauber, nada a ver com o Carlinhos, que ficaria puto. Eu, pelo menos, fui fiel ao livro. Só não fui fiel em relação ao ator porque não havia condições de público.

EE – É um tremendo filme. “Terror e Êxtase” zomba daquela esquerda festiva, daquela demagogia de asfalto/favela. E foi baseado em uma das cocotas com quem o Carlinhos teve caso...

AC – Um livro que previu o futuro. Hoje em dia estão todas as patricinhas subindo para dar pra traficante, pra conseguir pó. O Carlinhos de Oliveira ficava ali no Antonio's e, de certa forma, ele era o “1001”. Feio, baixinho, transando todas as gatinhas da Zona Sul. Tinha um charme, uma coisa qualquer. Era destruidor. Ficava sozinho em uma mesa, dava escândalos às vezes. Quando o Álvaro me chamou, eu disse: “Pô, Álvaro, esse cara deve me achar um merda.” O Ely Azeredo escrevia no JB, ao lado dele, e fez três críticas seguidas de “O Bom Marido” me demolindo. Esse cara deve me achar um lixo, tal. Que nada. Fez menção ao filme em uma crônica, bem simpática.

EE – Você foi roteirista de vários filmes, em épocas diferentes na indústria. Por exemplo:  “Aventuras de um Paraíba”, nos tempos da Embrafilme. “Dias Melhores Virão”, na rebordosa da era Collor. “O Quatrilho”, em 1995, indicado ao Oscar.

AC – “Aventuras de um Paraíba” foi o primeiro projeto de José Gonçalves Neto, um talentoso artista nordestino, que procurou a L.C. Barreto. Eles se encantaram com a ideia, mas acharam necessário ter um roteirista profissional. Meu trabalho foi essencialmente técnico, lado a lado com o Gonçalves. Procurei respeitar ao máximo as intenções dele. Morri de vergonha ao ver meu nome em primeiro lugar como roteirista, embora se justificasse por eu ser um profissional conhecido e o Gonçalves, um estreante. Mas a ficção é dele e só dele. “Dias Melhores Virão” se originou de argumento e roteiro originais meus, encomendados pelo Cacá Diegues. O Cacá é também excelente roteirista, mas queria uma história diferente das dele. É claro que adaptou o filme a seu estilo autoral e considero o resultado muito mais dele do que meu. No “Quatrilho”, o Luiz Carlos Barreto tinha me encomendado uma adaptação para o cinema. É um extraordinário romance do José Clemente Pozenato. Não sabiam na época se o projeto seria para um longa-metragem ou um seriado para a televisão. Concluí e tempos depois estava em Nova Iorque, descansando de uma novela, quando a Lucy Barreto me chamou para retomá-lo. Não quis interromper as férias e recusei. Mas indiquei o Leopoldo Serran, que fez um belo trabalho. Eu mesmo tive a iniciativa de combinar com o Luiz Carlos que o Leopoldo ficasse sozinho como roteirista e meu nome viesse como adaptador. E assim foi. Perdi a ida à cerimônia do Oscar, mas não me arrependo nem um pouco.

EE – Depois de “Mulher Sensual” você parou, deixou o cinema e foi para a televisão. Tem planos de voltar?

AC – Eu até tentei, há dois, três anos atrás, fazer um spin-off de “O Beijo do Vampiro”. Primeiro,  logo após a novela, mas não foi possível. Tempos depois, voltei ao projeto em outro roteiro e procurei o Cacá. Conseguimos a aprovação da Globo Filmes, a simpatia da Columbia. A Secretaria de Cultura de Manaus forneceria hospedagem, passagens, alimentação. O objetivo era dinamizar a parte cinematográfica da cidade. O cenário principal seria no próprio Teatro Amazonas, porque os vampiros morariam ali embaixo. O que aconteceu? Burocracia, burocracia, burocracia. Fui chamado para uma novela e desisti dos vampiros de vez. Mas tenho dois argumentos prontos. O “Para-raios”, a história policial que nós comentamos, produção pequena. Além dela, um projeto mais ambicioso: “Palácio”, sobre uma sauna gay e um agente. Um 007, assassino com licença para matar. Muito sangrento e muito sexo explícito também. Os dois projetos bem na linha dos meus filmes de sexo e violência.

EE – E como é que você pretende driblar a ditadura do politicamente correto no meio disso tudo?

AC – I don't give a shit. Não me interessa, é um problema dessas pessoas. Para mim, são iguais a fanáticos religiosos. Estão possuídas por uma crise psicótica coletiva. Não discuto. Não dá para discutir com pessoa ideologizada ou fanática. Eu fico olhando como se fosse maluca.  Desconstruo  o pensamento dela, mas não desconstruo verbalmente. Fico só olhando. I don't give a shit, realmente. Nem penso nisso.

EE – Por fim, Calmon, você por você mesmo. Aonde você acha que a sua obra se integra na história do cinema brasileiro?

AC – Acho que pertenço a um tipo de fenômeno que existe na literatura, na pintura: os fenômenos isolados. Prefiro me situar dentro de um movimento universal, que reúne pessoas como as que eu já citei aqui. O Mishima era um solitário. O Pasolini era outro. Embora o Mishima estivesse ligado profundamente à cultura japonesa, ele, na época, era um solitário. Ontem mesmo vi um filme gay chinês, o “Residência Permanente”. Segundo filme do diretor, produção bem feita. Existe toda uma corrente de cinema gay chinesa, tailandesa, que descende muito do Mishima. Há pessoas que plantam raízes. Coisas decorrem daquilo. É o velho papo: certos artistas são antenas e outros são receptores. Eu prefiro me situar em um panorama universal, mas não estou muito preocupado com isso, não. Quero trabalhar, ter uma atividade criativa, sobreviver.

terça-feira, novembro 30, 2010

Deus e o Diabo na Terra do Sol


Cravando a tese de que o sertão possui traços míticos, entes imaginários, fábulas acima do realismo, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) solapou um gosto diferente no cinema acostumado a Graciliano Ramos e Euclides da Cunha. A contenção do primeiro – mot juste dos trópicos – e o rigor obsessivo-compulsivo do segundo – complexo de informações para um tratado – são modificadas a favor de uma linha supra-fantástica, que ao mesmo tempo desse conta da onipresente busca pela “brasilidade”.

Afinal, Glauber Rocha não escreveu, dirigiu e reorganizou diversas vezes a obra – desde fins dos anos 50 – impunemente. Queria um atestado em que coubesse toda sua geração, em que se deflagrasse a releitura da produção fílmica brasileira, em que lhe consolidasse posição de liderança e, num estampido, tornasse o movimento suprassumo internacional.

No esquema de grandiosidade, as Bachianas de Villa-Lobos são douradas pela canção de Sérgio Ricardo em acento de cordel, letra de Glauber. O primeiro instantâneo de Manoel (Geraldo Del Rey), com feições da era silenciosa, remete-se à amplidão do John Ford clássico – subvertido pela absoluta ausência de virilidade do caubói. Se tomarmos o western enquanto narrativa espetacular, fundante, a nesga de semelhança retorna. Especialmente no momento da morte da mãe por capangas – o rapaz assassinara o chefe. Enterra-a sem jurar qualquer justiça pragmática – a similitude aqui se afasta –, preferindo, não sem resistência da esposa Rosa (Yoná Magalhães), entregar-se ao protótipo de Antônio Conselheiro, o nordestiníssimo Santo Sebastião (Lídio Silva, carpinteiro que trabalhara em “Barravento”, filme anterior e estréia de Glauber). Após Sebastião, juntam-se ao bando de Corisco/Cristino (Othon Bastos, substituindo Adriano Lisboa, que não comparecera às filmagens).

Finalmente livres, não se dão conta do que fazer, correm a desembestada – à semelhança dos relatos sobre Lampião, que fascinavam Glauber: durante a matança do Corisco verídico, um casal de sobreviventes foragira. Na tela, a corrida e a aparição balsâmica do mar deixam a metáfora de o "povo" tomar a rédea da situação pela unha, desprezando os delírios alheios. Corisco, a violência anárquica; Sebastião, o excesso religioso. O filme conclama à ação prática, à tomada de posição ultra-materialista, contrariando a entourage simbólica que norteia o enredo.

Curioso notar que, por um achado das circunstâncias, Othon Bastos dublou o Beato – a falta de formação profissional de Lídio criou peso inevitável. A situação joga sutileza extra na composição dos personagens, como se a ressaltar que Corisco e Sebastião, mesma voz, fossem espectros da mesma moeda, um imbuído do outro. Guardariam igual semente de irracionalidade, punem o destino flagelado.

A homilia de Sebastião usa cânticos, preleções messiânicas, promessas da ilha “onde tudo é verde”, “tem água e comida”, “fartura do céu”. O extremismo chega à histeria na grande cena em que Manoel oferta o filho ao Beato, este o sangra, junta o líquido na faca, passa-o depois na testa de Rosa, sinal da cruz. A mulher o golpeia em seguida, aproveitando a desilusão de Manoel, mesmo instante em que os fiéis são dizimados por Antônio das Mortes (Maurício do Valle) – capanga eleito pelo Padre e pelo Latifundiário. O som desconcatenado, massa em desordem, a fotografia e a câmera de Waldemar Lima – criando jogos propositais de sombras em todo o filme – são especialmente felizes nesse entrecho.

Iniciada a segunda parte da história, Corisco surge entre citações de Padim Ciço e Lampião. Batiza Manoel de Satanás, nome másculo de cangaceiro. Pilham, saqueiam, atordoam. Entronizado por São Jorge, Corisco impõe a espada em êxtase, contra o "dragão da maldade" – expressão que, noutros termos, significa a própria miséria. O cartaz antológico – ícone pop dos anos 60 –, desenhado pelo tropicalista Rogério Duarte dá a dimensão do ato.

Corisco traz consigo Dadá (Sonia dos Humildes), que forma com Rosa um núcleo feminino. Chegam a se acariciarem, sensibilidade do roteiro ao demonstrar que a euforia de Corisco e Sebastião – para qual Manoel correu, ouvindo o soluçar da sereia – deixara Rosa como resíduo, a ponto de beijar Corisco ou, acima disto, entregar-se à solidez que representa.

Eisenstein tangenciou essa desintegração típica de Novo Mundo – pobreza, religiosidade, folclore – em “Que Viva Mexico!”. Também encontram-se em “Deus e o Diabo” reminiscências do ancestral “Encouraçado Potemkin”, além da dramaticidade que Glauber assumidamente vira em “Rocco e Seus Irmãos”, de Luchino Visconti. Além dos citados, note-se que o Cego Júlio traz uma onisciência bem mais próxima da estrutura nordestina do que de teatro grego.

Certamente o rol de influências pulula, mas temperadas por injeções do jovem GR, que concluiu o filme aos 25 anos. Alçou vôo grande, condoreiro, como a tal reencarnação de Castro Alves, idéia que defendia – faleceu aos 42, idade que previu por ser o reverso dos 24, em que o conterrâneo evanesceu. No caldo “Deus e o Diabo” percebe-se o culto ao sebastianismo, a São Jorge, além da onipresente dobradinha Igreja-Latifúndio – estes um tanto estanques, sem a relativização moral que o filme joga sobre demais personagens. Manoel, por exemplo, mente a Corisco imputando a Antônio das Mortes o extermínio de Sebastião. O bom selvagem é, antes de tudo, fraco.

A propósito da amoralidade, o corpulento Antônio das Mortes encarna uma das maiores personas do cinema nacional. O que deveria ter de monstruoso se refaz – literalmente, pois a participação de Antônio foi reescrita à última hora, construindo-o como ente dúbio. Jagunço de idéias progressistas, aniquila, espingarda em punho, com olhos na recompensa prometida e igualmente por se oprimir perante a miséria. Mexendo nos tabus retrógrados, na visão dicotômica sobre o papel da vanguarda popular – jagunço mau versus jagunço humanizado –, Antônio beijou as telas numa complexidade que escapa aos slogans míopes. Quase revolucionário, não é o vilão destrambelhado – o latifundiário o é –; antes um híbrido, vulto que dada sua magnitude retorna em “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969).

Monte Santo, Cocorobó, Canudos foram locações escolhidas por Glauber. Associou-se ao Banco Nacional de Minas Gerais – de José Magalhães Lins – e às mãos eclesiásticas – agradecimentos, nos créditos, ao Monsenhor Francisco Berenguer. Produção, ainda, de Luiz Augusto Mendes, aliado ao dínamo Jarbas Barbosa. Montagem de Rafael Valverde, presença constante na filmografia cinemanovista – esta, em "Deus e o Diabo" aproveitou a assistência de direção de Paulo Gil Soares e Walter Lima Jr. Equipe mínima, multifuncional, à moda do conveniente cooperativismo.

Competindo em Cannes no ano em que Baleia e "Vidas Secas" flanavam pelo balneário, volta sem o prêmio, sequer o coadjuvante arrebatado pelo "O Cangaceiro" em 1953. Sabe-se que entre o autor e Lima Barreto existem quilômetros de distância – não em termos "evolutivos", por óbvio. Máscara ilusória, o nordestinismo pouco faz para os unirem – o que em Barreto é estruturante, em Glauber provoca bocejos e ira. Barreto deixou irrealizado "O Sertanejo", projeto que poderia avançar na temática e iluminar o ponto de vista com mais calma. Os destinos de ambos se cruzariam, mesmo tênues, depois de mortos: Walter Lima Jr. – colaborador reiterado de Glauber, membro da família – dirigiu o roteiro de "Inocência" (1983), escrito pelo totem da Vera Cruz.

Os rastilhos de pólvora em que Glauber se envolveu – o rechaço a "O Cangaceiro" é apenas fração – confirmam a trajetória colonizadora que tanto o empolgava. Entradas e bandeiras, repovoar uma Panamérica estilística, borrifar especiarias, como o mascate que impõe valores mas sobe à montanha por algum destino inebriado, guardando as tábuas da lei. Caiu no ostracismo, desfrutou de uma segunda volta, redimido pelo além. Apesar dos equívocos posteriores, a serem colocados em perspectiva, neste "Deus e o Diabo na Terra do Sol" construiu a obra fulminante, que os próximos e os afastados da "onda nova" devem conhecer com fôlego. Cogitar do contrário, fechando-se no puro preconceito ou no endeusamento leviano, implica em autofagia, esse crime déspota que o anseio crítico não deixa mais persistir.

quinta-feira, novembro 25, 2010

Vidas Secas


Pobre coitado do homem feudal, o encurralado que temia a chuva, o vizinho, o ludibriado que gritava antes de se jogar numa fogueira e, acaso retornasse vivo, considerava-se abençoado por Deus. Vá lá que a cronologia mudou essa rotina, o ocidente mascou bastante chiclete, viveu de todas as guerras, a guerra, desfez o laço de vassalagem, mas uma corrente ainda agarra o imaginário do mítico Nordeste brasileiro.

É o agreste perdido, enclave injusto, que o geist modernista ungiu à condição de Arcádia, volta ao campo, criando tipos que desaguaram fora da literatura. Lembrança rápida faz citar pérolas do cinema nacional, três delas rodadas quase simultaneamente, na mesma região, parte das equipes freqüentando-se durante o processo: “Os Fuzis” (1963), de Ruy Guerra; “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha; “Vidas Secas” (1963), de Nelson Pereira do Santos.

Somando-se os nordesterns – da Vera Cruz ou não –, as colorações diferentes, encontramos no território a oportunidade de ouro para realizadores do século passado que vez por outra engatavam uma premissa messiânica, como se a denunciar e a um só tempo combater. Colocada na lente de aumento, a denúncia atacava o servilismo do país, o “porvir” que haveria de ser construído, tal como no letreiro inicial urgido por NPS: realidade que “nenhum brasileiro digno pode mais ignorar”.

O convite ao levante não gerou qualquer desconfiança para transpor “Vidas Secas” com respeito absoluto, sem tirar nem por sequer uma vírgula do original de Graciliano Ramos – quadro do PCB, perseguido pela ditadura getulista. Fidelidade aceita ideologicamente, e sobretudo incensada, tratou de um caos que a escrita de 1938 deixou próxima de 1963. As décadas de distância entre livro e filme fizeram-nos irmãos, pressupostos similares.

Graciliano Ramos contou com José Olympio para a primeira edição. Nelson Pereira, com a produção de Herbert Richers – pacto celebrado à época de “Boca de Ouro” (1962) –, Luiz Carlos Barreto – também fotógrafo da luz propositadamente estourada, ao lado de José Rosa – e Danilo Trelles. O roteiro de Nelson passou pela consultoria de Waldemar Lima, Clovis Ramos, Rubens Amorim. Lygia Pape assina os letreiros que não trazem qualquer indício de virtuose e mantêm o minimalismo do longa-metragem. Poucas falas, gestos bruscos, inferências, a animalidade que Graciliano Ramos concedia às personagens – Fabiano sentia-se bem mais bicho do que homem.

Fabiano (Átila Iório) é o pai, Sinhá Vitória (Maria Ribeiro), a mãe dos “dois meninos” que vagam pela caatinga até encontrarem um pouso, vendendo a alma ao latifundiário (Joffre Soares). Família composta ainda por Baleia, a cachorrinha acompanhada pela câmera, como na seqüência de sua morte – sacrificada por Fabiano, em razão da doença que afastava da utilidade para a tribo. O ponto de vista do animal marca o momento antológico, quando percebe que chegou perto do fim. Baleia fez sucesso considerável, a ponto de ser levada como estrela ao Festival de Cannes de 1964 – “Vidas Secas” e “Deus e o Diabo” competiram –, para comprovar que não havia sido assassinada. Afinal, a artista estava viva, a personagem é quem havia falecido.

Outra estreante, Maria Ribeiro foi arrebanhada numa luta difícil, com intercessão de Richers. Maria, que trabalhava nos bastidores do laboratório da Líder, demorou em aceitar o convite, ingressar efetivamente na vida artística. Conseguiu atuação convincente, o mesmo não se diga do veteraníssimo Atila Iório, de prosódia carioca, biotipo alongado, forte, diferente do esquálido retirante. Melhor sorte lhe aguardou no clássico “Ódio” (1977), de Carlo Mossy, que subverteu o cânone da ultra-violência.

O imaginário de Nelson Pereira dos Santos adequa-se, conforme ressaltado pelo autor , à estrutura conferida por Graciliano para o texto; os plano físico e psicológico sem adornos. Grande estratégia de Nelson ao usar o zumbido duro das rodas do carro de boi, fazendo-o presente – bem como o que evoca – sem estar exatamente no centro das ações. Em quebra de expectativa para a pureza de determinada cena, Sinhá Vitória mata um papagaio que corrupiava por perto, ao tomá-lo de estalo.

Claro está que as nuances típicas da esfera literária – aquela em que há co-autoria individualizada entre escritor e leitor – se perdem, algo aliás esperado. Baleia, a atriz, não consegue traduzir o desconforto pelo carinho excessivo de um dos garotos, que apertava-lhe na falta de carinho dos pais. No texto, Graciliano comenta que o bicho sente antes de mais nada o cheiro de um osso, com alguma carne, vindo da cozinha. O espectador pode ceder ao encanto romântico do afago.

Quanto à solidão das crianças, sabe-se que elas sofrem da liturgia da caatinga, a ausência de pedagogia que “Infância” – livro autobiográfico de Graciliano – deixou clara. Maus tratos, atos duros, destituídos de complacência, piorados no caso pela pobreza absoluta, aspecto que o escritor não vivenciou. Pelas tantas, Fabiano e Sinhá monologam, a fala de um sobrepondo-se à do outro, os olhares vidrados, a loucura surgindo pelo desgaste fisiológico, a fome, o sol, os pés curtidos. Nesta sensação de inferno, o menino maior conhece a palavra ao ouvi-la da curandeira chamada para tratar do pai, que havia sido esfolado pelo volante (Orlando Macedo). “O que é inferno? O que é inferno? Inferno. Inferno”. Em uma tomada de consciência, filosoficamente o menino associa o conceito ao lugar, circuito de pensamento que o diretor apresenta nitidamente à platéia.

A intolerância se espalha na corrupção estatal, no achaque de impostos, nas chibatadas em Fabiano ao abandonar um carteado, quando aguarda a esposa sair da novena na igreja. O fazendeiro (Joffre Soares) complementa a ladinice que o rapaz sofre por todos os lados, dando-lhe a noção típica do conceito de “mais valia” – em alta na geração de Graciliano –, com o cálculo feito para roubar o vaqueiro. No casarão, a filha tem aulas de violino, o café da manhã é lauto, para lá migram os pífaros, os folguedos, numa pajelança ao chefe. Ponto positivo, Fabiano não é tão puro quanto o bom selvagem, não sofre da injustiça sem grunhir alguma truculência – “não sou negro” é o clamor para que o patrão lhe respeite. Essa confusão de disciplinas, de atraso sepulcral, recheada por elementos antropológicos – a igreja, a violência, a seca – fazem do livro-filme um documentário que se quis primor de força, de agressividade. Adotada pelo Brasil afora, a idéia subjacente chega com facilidade após anos de reportagens, incluindo o mercado livre da televisão.

Malogrado de início, “Vidas Secas” enxergou a luz depois de uma parada meteorológica, devido às chuvas que estragaram o cronograma de Nelson e fizeram-no improvisar “Mandacaru Vermelho” (1961) em seu lugar. Inevitável que tenha se tornado um ícone, por conta das referências que manipula, caríssimas à ordem do dia. Em termos estilísticos, está em sua obra como episódio imediatamente anterior ao “ciclo de Paraty” – “Azyllo Muito Louco” (1969-1971), “Como Era Gostoso o Meu Francês” (1970), “Quem É Beta?” (1973), rodados na cidade fluminense – com alegorias e poesia diferentes, refrescantes em relação ao neorealismo fundamental que estabeleceu os primeiros passos do diretor. Enquanto o futuro não vinha, os agradecimentos da equipe à população do Minador do Negrão e de Palmeira dos Índios – terra natal de Graciliano Ramos – deixam o pacto com o entorno que se multiplicou exponencialmente nas engrenagens do audiovisual brasileiro.

domingo, novembro 21, 2010

Boca de Ouro


Escaldado no calor saariano do subúrbio, acompanhando os trilhos do trem que varrem a zona profunda do arrabalde, ei-lo aqui, o espectro que ronda Madureira. Torto, abençoado na pia de um salão de dança ao nascer de mãe suja, o bairro vira antro para o nobre Boca de Ouro – epítome do malandro agulha, bicheiro, mezzo homicida, mezzo benemérito de pobres. Lenço na mão, dá umas apalpadelas na testa, anel no dedo mínimo, ascende na contravenção e troca os molares, os incisivos, os caninos, os dentes todos por substitutos kitsch em ouro 24 quilates. Encomenda o próprio caixão no metal, supondo uma dignidade tosca que o enterro conseguisse lhe dar. 

Este o monstrengo que encarou Nelson Pereira dos Santos após o recente neorealismo urbano – “Rio 40 Graus” (1955), “Rio, Zona Norte” (1957) – e agreste – “Mandacaru Vermelho” (1961). A ele retornaria com “Vidas Secas” (1963), barganha assentada com a produção de “Boca de Ouro”. Faz-se um filme como mero realizador contratado, sem o mínimo de apego à obra, para conseguir-se o que se almeja com toda alma. No trajeto ao graal, Nelson esbarra na criação do xará, o Rodrigues, autor da peça que originou o filme. “Boca de Ouro” (1962) lança, portanto, outro deque de cartas à sorte das adaptações de textos de Nelson Rodrigues pelo Cinema Novo.

Acaso se queira dar um sentido amplo à genealogia do movimento, tem-se em “Agulha no Palheiro” (1952), de Alex Viany, uma das sementes – assistido na direção por NPS, recém-chegado de São Paulo. Há muito Nelson resistia no meio cinematográfico brasileiro. Mais velho em alguns anos do que a geração de Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues et alli tornou-se, a despeito, a tocha do cinema dito “independente”, “antiimperialista”, “materialista-dialético-pragmático” e construções do gênero. Em “Rio, 40 Graus” sobe o morro, passa as câmeras por vielas, faz da produção um evento de cooperativa, manda uma foice à política dos estúdios. Vá lá que não filma despachos de macumba – profissão de fé também de Glauber, em “Barravento” (1961) –, religiosidade a que cederia em fase outra, no “O Amuleto de Ogum” (1974). O elemento popular era inegavelmente tomado por um tanto de sectarismo naqueles 1950-1960, sem dar a entender a abertura de consciência que “Na Estrada da Vida” (1980), por exemplo, possibilitaria. Direção de Nelson Pereira, estrelado por Milionário e Zé Rico, une-se ao melhor gosto do cinema de Clery Cunha e companhia.

Ainda assim, tendo-se em mente o tempo e espaço de “Boca de Ouro”, natural que se compreenda a implicância do diretor – e demais colegas de Vermelhinho – com a encomenda feita pela Copacabana Filmes, de Herbert Richers, produção de Jarbas Barbosa. Produto feito, vendido, máquina midiática. Tirando-se o ranço de guerrilha sessentista, a situação há de ser repaginada, para se colocar o filme como coletânea de acertos que de fato é. E não só pelo desempenho tonitruante de Jece Valadão, mas pelas estratégias de Nelson no que se referem à direção e ao roteiro. Os minutos iniciais apresentam belamente o protagonista e driblam as armadilhas deixadas pela peça – encadeamento lógico, literalidade e quetais, feitos para a comunicação com uma audiência de teatro. Boca (Jece Valadão) é visto preso, libertado, assaltando, matando chefe e tomando o trono, sem dizer palavra. Atenção para o diálogo tenso que trava com o dentista: está ali Rodolfo Arena impondo o boticão, próximo da pinta de galã que sustentou por décadas, como em “O Ébrio” (1946).

Colocado no contratempo a ser desvendado pela trama, Boca morre e a notícia chega à redação de jornal em que trabalha Caveirinha (Ivan Cândido), o quase-papa-defunto à procura do próximo urubu. Nelson Pereira insere inteligentemente o chiste típico do outro Nelson: “Miguel Borges, telefone!” – coloca o crítico-diretor na piada que Rodrigues vira e mexe fazia com o alvo certeiro, Otto Lara Resende.

Para as três versões contadas pela cocada Guiomar (Odete Lara) – ex-amante de Boca, caçada por Caveirinha –, a caracterização do contraventor muda em figurino e preparação visual, deixando a dose de facilidade para ensinar ao público a manipulação da história pela mulher. Leleco (Daniel Filho) e Celeste (Maria Lúcia Monteiro) formam o casal que tangencia Boca. Ora Leleco é o desempregado covarde; Celeste, pura; Boca, o cruel. Ora Leleco é o traído, Celeste enrolada com um granfo em Copacabana; Boca, o que revida golpe de Leleco. Ora os dois são mortos pelo bandido, em êxtase com a bacana da Zona Sul, que perdera o campeonato de seios bonitos, na versão anterior. Interessantemente, o grau de aceitação em torno do nascimento problemático – e suado – muda em Boca. Há espaço inclusive para ser filho (quase) amoroso, à medida em que Guigui doura a pílula, com pena do amásio morto.

Nelson, o Pereira, opta por uma linha vertiginosa, rápida, mesclada pela montagem de Rafael Valverde e pela música de Remo Usai. Deixa o clima de excentricidade jornalística, deixa o humor, cede ao encanto de Valadão – ainda incipiente em “Rio 40 Graus” –, aqui em estado de graça, feliz qual penáceo no lixo. Os diálogos de Nelson, o Rodrigues, acrescentam em brilho, dando o cinismo que ululava no reacionário das causas inglórias. “Se Deus quiser, hei de ver a Grace Kelly”, “Só tive um colar, das Lojas Americanas”, e tudo o mais o que Celeste e as personagens oníricas merecessem.

O pastelão guarda uma premissa rodrigueana – dessas incompreendidas e que a crítica redimiu, sobretudo desde a década dos 1990. Cômodo supor que a animalidade, o coito em casa de família ou nos porões escuros de Madame Clessi, fossem pretextos para chocarem de modo vazio, misturados aos bordões cômicos. Hoje, até o idiota da objetividade pescou que Nelson – sim, o Rodrigues – guardava uma singeleza de séculos, sobrepunha planos de consciência e escondia uma faca no bolso, encoberta pela voz bovina. O que a princípio é grosseria, termina em ceticismo. O filho incestuoso, nu, em “O Álbum de Família” (1945). Os dentes de Boca roubados, o cadáver seguindo o sortilégio de ser filho do nada, saindo da vida para entrar no ocaso.

A interdição de Rodrigues – aos cântaros, a cada nova peça – sustentou a aura de maldito que, por sinal, cutucou de leve “Boca de Ouro”, o filme. Mais uma vez galanteador na estratégia de xerife das boas práticas, acima da competência funcional de Chefe de Polícia, o sr. Newton Marques Cruz tentou impedir a gravação de internas no Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro. Compreendam que se tratavam dos píncaros da morte de Boca, o povo querendo saudar o self-made marginal. A Censura nada dissera, extras e curiosos começaram a circular, a balbúrdia foi num crescendo, a proibição poderia causar prejuízo de milhares de cruzeiros. No vai e vem, a equipe conseguiu empurrar Wilson Grey – sempre ele – como transeunte, além de Caveirinha, Guiomar e o marido. Correndo entre as ruas do Centro velho, aproveitando a histeria e o desencontro de ordens, as cenas trazem aquele misto de cafajestada e verdade, improvisos que caracterizam as heranças do cinema popular brasileiro. Nelson Pereira dos Santos aproximou-se dele, deixou um regalo para os materialistas e imaterialistas que ainda podiam valsar ou tocar um tango argentino, luas antes da noite bruta chegar.

terça-feira, novembro 16, 2010

O Desafio


“Porto das Caixas” (1962) instalou em Paulo César Saraceni o fantasma de ser paradigma ao movimento que se dizia novo nem tanto pela idade, mas estruturalmente pela atitude. Com o ruminar dessas e diversas frases de efeito – algumas supostamente utilizadas por Glauber Rocha, sem repartir a co-autoria –, somadas ao impacto daquela obra de estréia, o ex-atleta do Fluminense Football Club, ator bissexto, experimentou trajeto libertário para desaguar em “O Desafio” (1965). Juntou os cacos da encomenda feita pelo Itamaraty, “Integração racial” (1964) – montada às pressas pela fervura do 1° de abril de 1964 – e repensou a possibilidade de prosseguir com “A Fera da Penha” ou encarar coisa qualquer que servisse de testamento para o período que surgia nebuloso.

“O Desafio” impôs-se pelas próprias pernas, “A Fera da Penha” desapareceu da pauta. Saraceni chamou para si a tarefa de dar voz à ressaca moral do golpe militar. Vêem-se e ouvem-se tiradas que o diretor colecionou pelas ruas, embrulhadas em quase ficção para contar o amor impossível de Marcelo (Vianinha) e Ada (Isabela). Cristaliza em Marcelo a cara de todo aquele que punhado de meses antes vibrava no comício da Central do Brasil e agora sentia-se subitamente nu em praça pública. Coloca em Ada a moça fina, bem intencionada e burguesa, lúcida, casada, traindo o marido industrial (Mário, Sérgio Britto) com o amante poeta, jornalista.

Exorciza – de maneira praticamente kamikaze – o que os profetas do bar Zeppelin e alhures gritavam a boca pequena. O aviso na versão restaurada deixa clara a sangria: “Este filme contém fragmentos de diálogo não originais, para repor trechos danificados pela censura da época.” De fato, palavrões e o termo “golpe” retornam dublados nas vozes de outrem, sobre o rosto de Vianinha e equipe. Alguns trechos ficaram intactos. O fotógrafo, colega de redação (Joel Barcellos), incorpora o espírito pragmático, tenta um pacote de manobras para estancar a treta política: “É o tempo da conscientização. Nós ainda vamos agradecer a este tempo.” Um amigo – sabe-se por comentários – é preso depois de responder a inquéritos – os insanos IPMs. Mário ajuda-o a se exilar em alguma Embaixada. O que o distanciamento histórico faz soar natural, anedotas dos chumbos de 1964-1985, cresce exponencialmente quando se atina que os dados hoje clichês – prisão, exílio – eram gritados em tempo real, com todas as letras.

A câmera – na mão, por óbvio – de Dib Lutfi e a fotografia de Guido Cosulich deixam mais vibrante a sensação de documentário político-afetivo. Saraceni conheceu Guido na Itália ao ganhar bolsa de estudos pelo curta “Arraial do Cabo”, mesma safra em que inicia contatos com Gustavo Dahl e Bernardo Bertolucci. Lutfi, auxiliado por José Medeiros, registra closes telúricos em Maria Bethânia, Zé Keti e João do Vale durante o show Opinião, no Teatro de Arena em Copacabana. Mário numa fossa monumental – e metalingüística, pois Vianinha foi um dos autores do espetáculo –, sofre por sofrer por si mesmo. O filme declara a utopia, o idealismo pagão do jovem que recusa a individualidade e amamenta as multidões, o espírito de coletividade. “Muita importância ao problema político e não a nós”, reclama Ada.

“É de manhã”, uma das primeiras canções de Caetano Veloso, pontua o encontro dos dois, já indo solto o prenúncio da separação. O arranjo do diretor-roteirista para o fim do casal se dá na bela seqüência em que vasculham um prédio em ruínas. O clímax os coloca frente a frente recitando “Invenção de Orfeu”, Jorge de Lima, em êxtase por segundos – sepultado em seguida pela constatação de que a união simbólica de Marcelo e Ada não vence a distância efetiva entre ambos.

No meio tempo, as citações pululam, na ânsia de dar conta de tudo o que houvesse de encantamento cultural, a vencer a tecnocracia. Capas de “Cahiers du Cinema” e de hits literários – “A invasão da América Latina”, de John Gerassi –; colagem de textos recortados de jornal; Vietnã, Otto Maria Carpeaux, discussões homéricas sobre Sartre ter se rendido ou não ao facínora sistema. Mário rebate os comentários do jornalista de meia-idade, cético, decadente, que repisa a inviabilidade da paz de espírito enquanto emborca os copos de uísque. Moço de bom tom revolucionário, recusa a esposa do amigo – por sinal, a mulher o assedia não sem uma certa condescendência do borracho idoso.

“O Desafio” anteviu o acirramento da guerra, que trazia o germe do AI-5, ainda sob as orelhas de Castello Branco. Marca fase de transição no Cinema Novo, associada geralmente com exclusividade a “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha. Apesar de usar a franquia da revolta perante a organização política nacional – em termos concretos, chicana política versus democracia –, “Terra em Transe” segue a trilha já estabelecida em “O Desafio”. Este, cravado no calor do momento, semelhante a um reflexo que não se consegue evitar – vide o título alternativo: “No Brasil depois de abril”. Saraceni comenta, inclusive, ter se sentido isolado por trazer o filme à baila, sendo acusado de irresponsável. A duras penas inscreve-o no primeiro Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, contornando a resistência lacerdista e deixando-o à audiência do seleto público, que incluía Roberto Rosselini.

Isabela, então casada com Saraceni, repetiria o protagonismo em “Capitu” (1968), diálogos de Lygia Fagundes Telles, roteiro de Paulo Emílio Salles Gomes. “Porto das Caixas” tivera outro adaptador luxuoso, Lúcio Cardoso, e presença feminina igualmente cáustica se comparada a “O Desafio” e à esfinge de Machado. “A Casa Assassinada” (1970), no mesmo fluxo lógico, conta com a presença de suporte literário – “Crônica da Casa Assassinada”, de Lúcio – e vestal de prestígio, Nina. Vestindo malha de rumbeira em “Amor, Carnaval e Sonhos” (1972) – último filme de Leila Diniz – e tocando a mente aberta em bailes filosóficos, Saraceni desfruta de abordagem peculiar entre os colegas de geração. Bate em tabus como homossexualidade – Timóteo (“A Casa Assassinada”) é marco da cinematografia gls brasileira –, intervém no elemento urbano ou rural, sem migrar para o Nordeste – busca mitos em outros grotões.

Herói da primeira hora, seu “Porto das Caixas” exalou devir, uniu os nós, serviu de escudo ao arrebanhar aprovação crítica para o grupo – Paulo Emílio em São Paulo e Alex Viany no Rio seguravam os esteios. Tempos mortos que foram cambiando, os de “Porto” sorriam nas trevas da mulher que assassina o marido, história verídica; os de “O Desafio” atordoam pela resistência intelectual, história nevralgicamente verídica.

O que pode transparecer como refinamento, “pedra” na vidraça que quiseram lhe atribuir, deve-se a processo delicado de formação pessoal. Em sua primeira dentição, Saraceni foi próximo de Lúcio Cardoso – dândi, suposto amor platônico-sensorial-existencial de Clarice Lispector – e Octávio de Faria – redator do mitológico “O Fan”, autor dos talagões da “Tragédia Burguesa”. Saraceni não se sentia à vontade no ultra-materialismo do Centro Popular de Cultura da UNE. Talvez preferisse bradar Verlaine a Górki, talvez cresse que “‬Deus é como um canteiro de violetas,‭ ‬cuja estação não passa nunca‭”, vaticínio firme de Lúcio. Por estancar a mesmice, é da espécie de realizador que lançou blocos consideráveis de dinamite no viés totalitário de elementos internos e externos ao cinemanovismo.

quarta-feira, novembro 10, 2010

A Falecida


Desavisadamente, a ponto de imitar as crônicas do século XX – “a alma encantadora das ruas”, ronronaria João do Rio –, um bilhete da loteca se instala na residência dos Hirszman, muito pelo aborrecido vendedor, que importunava o pai de Leon. Batata, batatíssima, o pedaço de papel é premiado e traz fortuna ao lar que se transfere para a Tijuca, santuário da classe média suburbana na Guanabara. Ao aterrissar na praça Saenz Peña, o garoto já formara o gosto pelo cinema, a voragem das sessões duplas na infância, privilegiando Chaplin bem antes da chegada de Eisenstein – que irrompe com mão de ferro e molda o cordão umbilical do mais rubro freqüentador do bar da Líder.

Leon Hirszman ainda experimentaria o fascínio pelas mostras do Museu de Arte Moderna – Moniz Vianna, antípoda do Cinema Novo, organizou-as entre 1958 e 1962 –, flanaria pela casa de Joaquim Pedro de Andrade em Ipanema, pelo Centro Popular de Cultura (CPC) – que ajudou a fundar – da UNE, pela Escola Nacional de Engenharia. Auxiliou o set de “Rio Zona Norte” (1957), direção de Nelson Pereira dos Santos, como quem não quer nada, para absorver o dia-a-dia da entourage. Trabalhou como assistente de direção em “Juventude Sem Amanhã” (1959), chorumela no vácuo das fitas sobre moços cruéis e desregrados – produção de Aécio Andrade, primo de Glauber Rocha. Rodou o primeiro curta, “Pedreira de São Diogo”, capítulo de “Cinco Vezes Favela” (1962), assumidamente sob a aura eisensteiniana, fosse no aspecto visual, fosse no argumento – operários e denuncismo em torno de situação verídica que não conseguiu ser evitada: a demolição do local acabou ocorrendo de fato. “Maioria Absoluta”(1964), outro pipete incendiário, experimentou o banimento de exibições no território nacional até o distante 1980, ao cutucar o analfabetismo – com direito, inclusive, a viagens ao Nordeste.

Através de “A Falecida”(1965), estréia por acaso nos longas-metragens. Assume a função recusada por Glauber Rocha, que optara dirigir “Senhora dos Afogados”, baseado em outra peça também de Nelson Rodrigues, produzida pelo filho Joffre Rodrigues. O projeto terminou inconcluído e esses burros n'água minaram as estripulias de todos que sonhavam colocar na mesma frase Glauber Rocha e Nelson Rodrigues, acompanhados, quiçá, pela cabra vadia.

O convite chegou de maneira inusitada, horas após Leon sofrer um acidente quase fatal de carro – o veículo a poucos metros de se estatelar na Lagoa Rodrigues de Freitas. Enquanto o consertava, encharcado pela chuva, Hirszman escuta a voz do ator Billy Davis, que corria a cidade em frêmito, procurando-o. Billy informa que Glauber havia pessoalmente indicado Leon para Joffre Rodrigues. O rapaz aceita, escolhe a obra que lhe pareceu mais próxima e ancora na tragédia rodrigueana com o passaporte visado por outra república, outro território que não o do bruxo da Aldeia Campista. Apesar de conhecer a entidade “suburbana”, apesar do processo de formação naquela atmosfera, a abordagem de Leon estabeleceu uma dissociação profunda em termos de universos autorais, aspecto que caracterizou irremediavelmente o filme.

Para garimpar o roteiro, convocou Eduardo Coutinho – colega do CPC, diretor do censurado “Cabra Marcado Para Morrer” (1964-1984). No elenco, a protagonista estreante em cinema, Fernanda Montenegro (Zulmira), e atores que apareceriam na rotina do Cinema Novo – Ivan Cândido (Tuninho), Nelson Xavier (Timbira), Joel Barcellos, Hugo Carvana, aparição esporádica de Zé Keti e ponta de José Wilker, outro em atuação inaugural. Música de Radamés Gnatalli, samba de Nelson Cavaquinho e Amâncio Cardozo, trazem os momentos mais doces de “A Falecida” – acompanhados pelo esforço de Montenegro –, que se tornam desconectos no cômputo geral.

Estabelecer a premissa de que a adaptação seguiu o perfil do diretor em detrimento da peça original não redime de todo “A Falecida”. O filme não alcança a coesão necessária para tanto e alinhava as cenas do teatro sem manter, contudo, alguma pulsão, alguma vida que justifique as neuroses de Zulmira – tísica, apaixonada pela própria morte, frígida que se descobre post-mortem adúltera.

Espreme os cravos das costas do marido (Tuninho), no “tempo em que Pelé era Ademir”. Rivaliza com a prima Glorinha – essa luta de sabres entre mulheres, a que Nelson serviu belamente de cavalo –, gaba-se por sabê-la sem o seio esquerdo. Visita a cartomante, se oferece para o papa-defunto picareta (Timbira). Canta hinos – histérica, em um tal “teofilismo” – e comete frases como a deliciosa “macumba que essa cara me fez”. Mas até aí estamos diante da forma de Nelson Rodrigues. A substância, não se percebe.

Falta cinismo aonde sobra solidão. Falta comichão aonde sobra aceitação, fado, destino. Leon sacou do audiovisual os resquícios do que substancialmente se pode atribuir ao dramaturgo, sem colocar algo no lugar. Daí a revolta do marido, no meio do Maracanã, não empolgar, não criar o vínculo com o público que o entendesse tão apaixonado ou humilhado por falar com Pimentel (Paulo Gracindo) – o bambambam das contravenções, com quem Zulmira lhe traiu. De igual maneira, a moça gozar um temporal – caminho para a morte, piorando-lhe os pulmões – é elemento didático demais para a catarse cinematográfica; não acrescenta no descarrilhar mental da personagem. Até os filhos da cartomante olham para a câmera com a tentativa de seriedade de um Othon Bastos em “São Bernardo” (1972) – de Hirszman, retirado do romance homônimo de Graciliano Ramos. Esporadicamente o talento individual se sobrepõe, a exemplo da fanfarronice do Timbira de Nelson Xavier.

Percebam que a pompa de um “cinema verdade” é contraproducente, pecaminosa. Ainda mais pelo fato de que o objetivo não é atingido nem na linha da morbidez sardônica de Nelson, nem na diatribe de Leon – que tateava uma proposta de realismo “engajado”, quadro excepcional que era do PCB.

Equilibrando-se na ressaca do 1° de abril de 1964, Hirszman emigraria para o Chile em companhia da esposa exilada. Na cordilheira convive com a fina flor dos refugiados – Fernando Henrique Cardoso, um deles –, estuda economia, vive o ocaso da democracia popular janguista. Trabalha febrilmente, no idealismo que serviu como usina de vida. Afirmava ter feito apenas uma concessão ao que supunha “cinema comercial” – “Garota de Ipanema” (1967), que ainda assim funcionou bem mais de deboche condoído, demonstração de desprazer para a felicidade do balneário. Assobiando esse brevíssimo hiato, retoma o plano de ação e nele fixa o vôo de cruzeiro até 1987. A morte precoce, antes de sequer completar 50 anos, deixa-lhe de epitáfio a coerência fundamental de atitudes, articuladas em detalhe, instrumentos que eram à causa.