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terça-feira, dezembro 18, 2012

Biografia Entrevista - Antonio Calmon


Antonio Calmon dirigiu “Eu Matei Lúcio Flávio”. Se quisesse, poderia ter parado por aí e começado a tecer o véu da imortalidade. Afinal, criou a obra-prima do cinema policial brasileiro. Mas Calmon, garoto da selva amazônica (sim, você não leu errado), inventou de embolar o meio de campo, entregar o corpo aos homens da encruzilhada e cair de cabeça em uma odisseia pessoal, imprevisível.

Ex-cria do Cinema Novo, ex-aluno de Glauber Rocha, daí um salto para o “underground do underground” e um pulo para o mainstream de “Menino do Rio” e da TV Globo. No meio de tudo, o desbunde em Salvador, dezessete cáries, quinze quilos a menos, barbas e cabelos pornográficos. Entre pirados e dogmáticos, preferiu viver. Não à toa, hoje zomba da mortificação moralista do politicamente correto.

Fala, ri, se diverte. Sobretudo, assume o que fala. Conta os infinitos causos. Em setembro de 2012 nos conhecemos pessoalmente, quando Daniel Camargo e Fábio Velloso organizaram a mostra “Antonio Calmon em 3 Atos”. Conseguiram montar algumas das mais saborosas mesas redondas que já vi. Ao lado de Anselmo Vasconcellos e do diretor, tive o prazer de debatermos “Terror e Êxtase”, o clássico premonitório.

Naquela ocasião, ao nos despedirmos, combinamos a entrevista. Final de ano, superado o engarrafamento carioca entre Copacabana e a Lagoa, liguei o gravador. Sempre admirei Calmon e ao ouvir sua história, a admiração renovou-se. Ofereço este presente aos leitores, desejando um feliz 2013!


ESTRANHO ENCONTRO – Calmon, eu acabo de entrar no seu escritório e vejo esse sincretismo todo: claquetes, medalhas, orixás, fotos...

ANTONIO CALMON – Esta aqui, durante as filmagens de “O Dragão da Maldade Contra O Santo Guerreiro”, em Milagres. Como o lugar é de peregrinação, havia a imagem da santa. O fotógrafo lambe-lambe batia as fotos dos peregrinos com a santa atrás. Era uma vida tão rústica, quase viramos cangaceiros. Aquele lá é o Affonso Beato, à esquerda. O assistente do Beato, o Ricardo Stein. Eles, o Glauber e eu. De certa forma, o Glauber Rocha é o meu pai. Está me dizendo: eis o meu filho dileto e querido, em que deposito todas as esperanças. Uma grande decepção, na estética do Cinema Novo [risos]...

EE – [risos]

AC – Se bem que jamais houve qualquer atitude ruim em relação aos meus filmes. Continuamos amigos, mas meio distantes. Os caminhos se separaram. [Aponta outra] Já esta é a foto da minha primeira comunhão...

EE – Um pequeno amazonense. A sua família é do Amazonas?

AC – Não, meu pai era do Espírito Santo. Minha mãe, do interior de São Paulo, Guaratinguetá. Eles se conheceram no subúrbio do Rio de Janeiro, acho que no Méier. Meu pai deu a louca quando se formou em Medicina. Quis começar a vida no Amazonas, e eu nasci lá, por causa disso. Não existia nem aeroporto. Chegaram de hidroplano.

EE – Em que ano?

AC – 1943 para 44. Nasci em 45. Manaus era uma cidade no meio da selva. Tinha os resquícios do esplendor da época da borracha, os palacetes começando a decair. A população com uma mistura muito forte, a maior parte de nordestinos e índios, os caboclos. A partir de certo momento da minha infância começou a imigração japonesa. Apareceram os tomates, as maçãs. Até então havia só os produtos da própria selva. Tudo muito grande. As mangas, por exemplo. Coisa de trópico. Tudo muito excessivo. Também uma enorme sensualidade. Anos atrás, eu voltei, não ia há muito tempo. Tive aquela sensação hilária: você acha tudo muito pequeno [risos]...

EE – [risos] Entendo. Você cresceu...

AC – Saí de Manaus com doze, treze anos. Voltei duas vezes, ambas para o Festival Internacional de Cinema. Uma, para o júri dos curtas e na outra, de alegre, como convidado mesmo. E aí reencontrei a infância. O colégio em que estudei, o Salesiano. O Teatro Amazonas. A cidade enorme, cheia de shoppings, crescida. A Manaus do meu tempo era o centro histórico. Reencontrei um pouco as raízes. Lembro do cinema à noite. Um desses cinemas era do pai do Oscar Ramos, um amigo, e se chamava “Éden”. Lá eu vi minha primeira mulher nua, Maria Félix em “French Can Can”, do Jean Renoir.

EE – Já era adolescente?

AC – Não, uns oito para dez, por aí. As memórias são meio nebulosas. Outro colega de infância era o Arthur Virgílio, depois eleito senador e agora prefeito de Manaus. Além dele, o Djalma Batista. São pessoas de quem eu lembro muito vagamente, não deixei a amizade fluir. Minha mãe criava uma redoma. Aqui no sudeste, ela era de classe média para baixa. Em Manaus, era esposa de médico, futuro deputado estadual, “alta sociedade”. Minha mãe cultivava sonhos loucos, principalmente em relação a mim, o filho mais velho. Tenho mais dois irmãos. Um, já falecido, o caçula, morreu aos cinquenta anos, do coração. E tenho um outro, um ano mais novo. Estudei francês, inglês, pintura, música. Ela tentou de tudo. Em algumas coisas, fui bem. Em outras, péssimo: música nunca deu certo. Nós vivíamos praticamente trancados em casa, meio isolados, como num castelo.

EE – Vocês eram “a família do médico”...

AC – Exatamente. Do Doutor Wilson. A gente não tinha muitos amigos, eu não tinha nenhum. Vivia enterrado nos livros, desde cedo. Por acaso, estou lendo agora um livro do Yukio Mishima, “Confissões de Uma Máscara”. Eu tive consciência, muito cedo, da minha homossexualidade, e estou me reencontrando novamente nesse livro. Todos os sintomas, todo o fascínio com a imagem de São Sebastião, com as esculturas gregas. Comecei até a fazer uma certa teoria, sobre o que o Mishima também fala no livro: como ele se colocava de fora. O observador. Ele não se sentia “belonging”, pertencendo. De certa maneira, acho que eu ficava filmando. [Aponta para mais uma das fotos]: Eu, nesta foto da primeira comunhão, na hora exata em que tirei esta foto, estava pensando na minha homossexualidade. Eu não tinha o conceito, evidentemente, com essa idade, mas sabia que era diferente e sabia do que gostava. Nesse exato momento, eu pensei nisso. E tenho uma outra foto, tirada junto, em que estou quase sorrindo e também estava pensando nisso. É um sorriso perverso. Curioso, porque tinha acabado de receber a primeira comunhão [risos]...

EE – [risos]

AC – O Mishima, assim como o [Pier Paolo] Pasolini, tiveram mortes violentas. Tanto que demorei muito a lê-lo, apesar de ter adorado o filme do Paul Schrader, que conheci aqui no Rio, em um festival de cinema. Adoro aquele filme, mas a literatura do Mishima me assustava um pouco, por causa do fascínio da violência. Algo que é da cultura japonesa, do samurai. E o Pasolini também tem essa mesma coisa com a violência.

EE – Que você utilizou muito, nos seus filmes.

AC – Mas eu não queria me destruir, nunca quis. Quando a minha geração teve que escolher entre a guerrilha e as drogas, eu não quis a guerrilha. Eu não queria morrer. Quando as drogas começaram a ser letais, eu pulei fora. E quando nas minhas aventuras homossexuais cheguei a beirar a marginalidade, jamais corri perigo real ou procurei situações perigosas sem saída. Muito embora eu tenha estado perto, nunca tive o problema que esses dois grandes artistas tiveram, da auto-aniquilação.

EE – Esse tipo de sexualidade autodestrutiva às vezes está relacionada a uma culpa. Então você não sentia culpa?

AC – Claro que sentia culpa. A sociedade toda te culpa, a cultura toda te culpa. Tanto que demorei a sair do armário, só com vinte e poucos anos. Conheci centenas de mulheres, o que também fez com que eu tivesse uma sexualidade viril. Não tenho problema nenhum, físico, de me relacionar com uma mulher. É que na verdade sou uma pessoa que não consigo, nem quero, ter relacionamentos. Fixos. Com ninguém, por muito tempo. Moro sozinho, tenho relacionamentos no momento, mas não de morar junto. Desenvolvi, por causa dessa repressão, por causa dessa culpa, uma atividade estritamente hétero, que foi falsa.

EE – Em Manaus ou só na vinda para o Rio?

AC – Em Manaus, não. Em Manaus era a mais inocente das criaturas, apesar de ter o lado perverso interno, a consciência interna. De noite eu via os filmes e, durante o dia inteiro, “filmava”. Nunca pertencia ao local, porém. Nunca fui sacristão, nunca fui coroinha, nunca fui escoteiro. Mais tarde, nunca fui de grêmio estudantil. Podia até estar em volta e participar, mas nunca realmente pertencia. Nunca fui de agremiação política. Exemplo: quando vim para o Rio, estudei no Colégio de Aplicação da UFRJ, na Lagoa. Ajudei a fundar lá uma célula secundarista do Partido Comunista, mas nunca entrei pro PC. Fui para a PUC estudar sociologia. Antes do vestibular, me chamaram para participar da Ação Popular, um grupo de esquerda cristã. Eu participei, mas sem ser membro.

EE – Qual a diferença, Calmon? Você participava como, então?

AC – Participava das assembleias, conchavos etc., mas não era membro. Não tinha compromissos mais profundos. Assim como eu jamais pertenci ao Cinema Novo. Por quê? Porque tenho essa máscara, como o personagem do Mishima também a tinha. Mesmo quando eu a tirei e me assumi publicamente, no jornal gay “Lampião da Esquina”, fundado pelo Aguinaldo Silva. A partir do momento em que tomei LSD e passei a enxergar o mundo de outra maneira, não tive problemas em me assumir. Portanto, o que eu quero dizer é o seguinte: sempre fui independente e isso, de certa forma, explica o meu cinema. A partir daí, parei de ter culpa de ser o que sou, de fazer o que faço. Quando as pessoas me acusaram de ter “traído” o Cinema Novo ou de ter “traído” o cinema e ido para a Rede Globo, não dei a mínima porque para mim isso nunca foi traição.

EE – O buraco é mais embaixo...

AC – Como dizia o personagem do Clint Eastwood, “a man must know his limitations”. Você tem que fazer o que você faz bem e não deve tentar ser o que não é. A coisa mais sábia que já ouvi no Brasil, do sábio dos sábios, foi do Zeca Pagodinho [risos]. Sempre deixei a vida me levar. E também sou muito sardônico. Já me perguntaram: “Calmon, o que você acha do casamento gay?” “Acho que estou muito velho pra isso...” [risos] “Na sua próxima novela você vai tratar do beijo gay?” “Não, vou tratar do divórcio gay. Agora que já teve o casamento, daqui a pouco vai ter o divórcio...” [risos] Não resisto a uma piada e às vezes também pago um preço caro por causa disso.

EE – Fale mais do seu processo de formação, como ele influenciou nesse distanciamento...

AC – O sonho da minha mãe era voltar para o Rio. Detestava tudo lá e queria voltar para o Rio. Meu pai, uma figura incrível a quem só fui dar o devido valor muito tarde, formou-se em medicina, mas em Manaus estudou português loucamente, depois estudou Direito, quase chegou a se formar. Não satisfeito, entrou para a política. Tirava uma semana, por mês, para pegar um barco e ir pelo interior. Trabalhar pro bono, por conta própria. Aos poucos, ele percebeu que tinha um eleitorado imenso e foi duas vezes deputado estadual, pelo Amazonas. Acabou se filiando a um partido, infelizmente, extremamente corrupto. Partido Social Progressista, do Adhemar de Barros, que vem a ser meu padrinho de crisma.

EE – [risos] Essa eu nunca teria imaginado: você e o Adhemar de Barros...

AC – [risos] É... Ele ia algumas vezes a Manaus. Lembro dele de terno panamá branco, o nariz muito vermelho, acho que de bebida. Usava aquela frase famosa, “roubo, mas faço”.

EE – Depois teve a volta: roubaram o cofre dele...

AC – Acabou o meu pai se elegendo deputado federal. Voltamos para o Rio, minha mãe feliz da vida, e o Juscelino muda a capital para Brasília [risos]. Meu pai se mudou para Brasília, ficou na ponte aérea, eu virei um garoto do Leblon, depois um garoto de Ipanema. Foi dolorosíssimo vir para o Rio. Durante dois, três anos, sofri horrivelmente de saudades do Amazonas. Sonhava, sonhava e sonhava em voltar. Custei a me aclimatar. Entre o Colégio Santo Agostinho e o Colégio de Aplicação, fiquei três, quatro meses em um outro, em que parei por acaso: o Padre Antônio Vieira. De meninos grã-finos, que não deram certo em colégio nenhum. Sofria bullying todo dia. Eu era o provinciano, usava aquele sapato chamado “tanque colegial”, calças de provinciano. Apanhava todo dia, porque era o segundo melhor aluno do colégio. Apanhávamos na entrada e na saída do colégio. Eu e o JC, Jesus Cristo, o primeiro aluno. Sempre fui nerd. Passei minha infância e adolescência lendo desvairadamente, e vendo filme.

EE – Desde pequeno...

AC – Qualquer folga que tivesse de tarde, eu ia ao cinema. Desde sempre, foi uma obsessão. Já no Rio, um dos colegas do Colégio de Aplicação tinha um câmera 16 milímetros e era músico também. O Sidney Weissman. Além dele, tinha mais dois, o Mair Tavares e o Amauri Alves, que depois se tornaram montadores. Nós quatro resolvemos fazer um filme. Comecei a trabalhar, porque meu pai percebeu minha homossexualidade cedo, embora eu nunca desse pinta, nem nada. Mas percebeu que eu era diferente. Parou de me dar dinheiro quando eu tinha quinze para dezesseis anos. Acho que isto salvou a minha vida. Fez com que eu tivesse o meu próprio dinheiro e foi com esse dinheiro que banquei o filminho.

EE – Que é o “Infância”?

AC – É, o “Infância”.

EE – Segundo lugar no Festival Mesbla/JB. Em primeiro, o“Escravos de Jó”, do Xavier de Oliveira.

AC – O “Infância” conseguiu o segundo lugar por causa do Glauber. Eu ficava ouvindo um cara gritar, durante a projeção inteira. “Pô, que filme maravilhoso!” Era o Glauber. Não respeitava nada, nem ninguém, falava e fazia o que queria. O meu prêmio foi ser assistente de direção do Cacá Diegues, em “A Grande Cidade”. Conheci todos nesta sessão do “Infância”, nunca os tinha visto antes. A partir de então, pouco a pouco, comecei a me profissionalizar.

EE – Nessa época você foi aluno do Gustavo Dahl, no MAM?

AC – O curso começou com o Ruy Guerra. Deu uma aula só, de decupagem. Havia acontecido o golpe militar e a decupagem foi de uma situação concreta: uma pessoa no apartamento, aguardando o contato político. Tocava a campainha, o cara ia olhar no olho mágico. O Ruy Guerra decupou a cena para nós e nunca mais apareceu. Depois veio o Gustavo Dahl, que tinha cursado o IDHEC, em Paris. Um grande conquistador. Ele e a Maria Lúcia Dahl, belíssima. As primeiras pessoas que vi usarem roupas jeans aqui no Rio. Bem libertinos, também. O Gustavo, agora que faleceu... [Pausa.] Normalmente não vou a velório, a enterro. Decidi que só vou ao meu. Mas quando o Gustavo faleceu, eu fui ao Palácio da Cultura. Tive um treco, chorei pra burro. Não falei com ninguém, estou cada vez mais misantropo, não gosto mais de ir aos lugares, não gosto de ver ninguém.

EE – Esse choro você acha que foi o quê? Fruto da guinada que você experimentou desde o “Infância”?

AC – O Glauber, o Gustavo e o Cacá são as três pessoas a quem eu devo demais. O Gustavo, na parte mais teórica e também porque, muito sutilmente, me passou os livros do Genet. Sem eu nunca ter dado um toque, me emprestou a garçonnière dele. Ensinou a me vestir direito. O Glauber, aquela torrente de informações, de teorias e de loucuras. O primeiro disco que eu tive do Jimi Hendrix foi o Cacá quem me trouxe. Um casaco italiano, de caça, este [aponta para a foto de “O Dragão da Maldade”], também. Em todos os sentidos, socialmente, intelectualmente, existencialmente, essas três pessoas me formaram. Tiraram o resto do meu provincianismo, viram em mim alguma coisa, acreditaram no meu talento e, pelo menos sempre vi isso, me adoravam. Cada diretor tinha um jovem e brilhante assistente. Eduardo Escorel, João Carlos Horta, vários desses. Eram, praticamente, aprendizes que trabalhavam e se revezavam de um filme para outro. Uma segunda geração, porque também havia muito esse negócio de continuar o Cinema Novo.

EE – Havia, conscientemente, um plano para o Cinema Novo.

AC – Lembro que, no enterro do Glauber, o Gustavo fez um discurso brilhante, brilhante. Parecia um senador romano: “O leão tinha sete cabeças. Morreu uma, ficaram seis.” O Cinema Novo sempre foi um projeto. Cultural e político. Sempre. Tanto que o Glauber, de certa forma, propiciou a Abertura, junto ao Golbery. Eles sempre conspiraram. Sempre houve uma guerra subterrânea, contra o CPC da União Nacional dos Estudantes, contra o Partido Comunista. O Cinema Novo, em determinado momento, foi quase um partido político. Aos poucos esse negócio foi se fragmentando. O Leon Hirzsman era um teórico marxista. Bem diferentes entre si: o Joaquim Pedro era um aristocrata de esquerda, como o Luchino Visconti. A aristocracia mineira. O Mário Carneiro, outro aristocrata, filho de embaixador, criado na França. O Leon era um desses judeus brilhantes, cerebral, fantástico. O Glauber era a única pessoa que eu conheci realmente possuída pelo gênio, pela genialidade. Ele funcionava em outro patamar. O Cacá sempre foi um político extremamente hábil, articulador, brilhante também. As reuniões deles, a fundação da Difilm, tudo isso tinha um cunho político. Havia um plano cultural. A maneira como a Embrafilme foi criada. Eu acompanhei. Agora, como sempre: de longe. “Not belonging”. Não fazendo parte. Um pé aqui, um pé lá, porque me mantive um renegado, um outsider.

EE – E “A Grande Cidade” encaminhou você nos meandros do cinema...

AC – O primeiro trabalho como assistente. De continuidade e de montagem. Eu era basicamente um neófito, não sabia nada, estava aprendendo. Assistente de direção foi o Luiz Fernando Goulart. Eu ficava com a claquete na mão e era a pior pessoa do mundo para fazer assistência de continuidade [risos]... Existem duas coisas que nunca poderia fazer: continuidade e produção. Sou muito neurótico, distraído, ansioso. É por isto que fui responsável por um dos maiores furos de continuidade no cinema brasileiro [risos]...

EE – [risos] Qual?

AC – Toda vez em que alguém levava um tiro no cinema brasileiro, acontecia um desastre, um horror. No final de “A Grande Cidade”, tanto o Leonardo Villar quanto a Anecy Rocha morriam, na estação das barcas para Niterói. Mortos pela polícia e separados por uma grade. Como não existiam técnicos, as pessoas improvisavam. Pegavam uma camisinha, groselha misturada com não sei o quê e pólvora. Colocavam embaixo da roupa do ator, com uma “proteção”. Depois ligavam dois fios, aquilo explodia o sangue e tal. Ninguém tinha noção de nada. Ficávamos horas ensaiando, mas um rapaz exagerou na carga de sangue. Quando ligou o efeito, parecia que a Anecy tinha tomado um tiro de obus [risos]... Caiu dura no chão, foi levada embora, desmaiada. Não teve monólogo da despedida dos dois. Quando você vê o filme, percebe que ela tomou um tiro não sei de quê.

EE – Realmente...

AC – E ainda teve uma consequência: o Leonardo Villar não queria filmar o tiro dele nem morto depois disso [risos]… Ficamos lá, eu, o Zelito Vianna, o Cacá. Nunca vou me esquecer. Conversamos com o Villar, nervoso pra burro. Estávamos tomando um cafezinho, fumando. Debaixo da calça dele saíam os dois fios. Nisto eu vejo o seu Lídio, um eletricista, que usava uma perna de pau. Vinha ele andando, percebeu aqueles dois fios e juntou. O Léo Villar explodiu! Na nossa frente [risos]...

EE – [risos]

AC – Moral da história: um mês depois, filmamos outra sequência da Anecy. Durante o tempo em que ela não gravou, o cabelo cresceu. Ela anda na calçada com o cabelo por aqui [indica a altura do ombro] e, quando sai do mar, o cabelo está aqui [as mãos bem abaixo] [risos]... Essa foi a minha experiência de continuidade. Teve outros probleminhas, de eixo, de olhar, um inferno! Depois veio o “Terra em Transe”, bem menos problemático. Afinal, o Glauber e a continuidade não se entendiam. Câmera na mão, loucura desvairada... Mil histórias saborosas da filmagem do “Terra em Transe”.

EE – Exemplo?

AC – Várias histórias. O Glauber provocava no elenco e na equipe um clima de exacerbação tão grande que não era incomum alguém chorar. Até o pessoal rude, da elétrica e da maquinaria. Aconteceu muito mais disso no “Dragão da Maldade”, mas também no “Terra em Transe”. Eu chorava à toa, choro até hoje. O Glauber fazia a emoção passar e, às vezes, com crueldade excessiva. Uma das vítimas preferidas era o Hugo Carvana. Precisávamos filmar com o Carvana na antiga redação do “Jornal do Brasil”, na Avenida Rio Branco. Eu que tinha que acordar o elenco. O assistente de direção, só para ficar claro, era o Moisés Kendler. Eu, de novo, o continuísta. Então acordava o Carvana, que estava produzindo um show de boate com a Odete Lara e o Antônio Carlos Fontoura. Ele saía da boate de manhãzinha e, como não havia filmagem prevista, chegou em casa umas cinco e meia da manhã. Comprou o jornal, um cafezinho no boteco, desabou na cama. Meia hora depois, toquei a campainha [risos]...

EE – [risos] O lado burocrático de “Terra em Transe”...

AC – “Não, Antonio, hoje não tenho filmagem!” “Mas o Glauber escalou você.” O Carvana  acatou e, como sempre, o Glauber o colocou para fazer pessoas pusilânimes, covardes. Carvana estava completamente dopado, bêbado, virado. Não conseguia chorar. “Chora! Seu merda! Seu filho da puta! Você é um pusilânime, covarde!” O personagem, claro. O Glauber gritava, porque os filmes ainda eram dublados. Passou a esbofeteá-lo! Você vê, no copião, a mão dele entrando na cena [risos]

EE – [risos] Em “O Bravo Guerreiro”, imagino que a filmagem tenha sido mais tranquila...

AC – O Gustavo tinha profundo conhecimento. Talvez quem melhor conhecia a gramática cinematográfica, a teoria cinematográfica. Existem momentos visualmente deslumbrantes no filme, uma extraordinária interpretação do Pereio, como deputado em crise. Lembro basicamente de uma cena. Uma reunião sindical, em que havia o retrato enorme de uma figura política qualquer, durante o discurso do Pereio. O Gustavo foi um intelectual maior do que cineasta.

EE – Do “Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, o que você conta?

AC – Ah, “O Dragão” foi uma aventura inesquecível. Logo após o AI-5, pegamos um kombi, daqui para a Bahia. O Ronaldo Duarte e o Rogério Duarte haviam sido barbaramente torturados, depois de uma passeata. Como o Glauber era de uma generosidade extraordinária com os amigos, uma coisa super protetora, pegou o Ronaldo para fazer foto de cena e a figuração em Milagres. Também estava na kombi o Roque, eletricista de todos os filmes dele. Viajamos pela antiga estrada Rio-Bahia, paramos na terra do Glauber, Vitória da Conquista. Em Milagres, fiquei embasbacado. Embaixo, no ponto dos caminhoneiros, umas dez a quinze crianças se viravam, cheiravam gasolina, uma miséria terrível. Você escalava aquilo e, lá em cima, uma população paupérrima. Só poeira.

EE – Um descampado total.

AC – Ficamos hospedados na mesma casa. No quarto, o Glauber com a então esposa, a Rosa Maria Penna. Eu, no sofá. A Odete Lara, no outro. Dava para sentir a poeira caindo em cima da gente, durante a noite. Construímos o primeiro banheiro da cidade. O primeiro a usar era eu, porque depois ficava uma coisa assombrosa. Bom, durante a viagem, o Glauber foi lendo o começo do “Os Sertões”, em que o Euclides da Cunha descreve as mudanças da paisagem. Ele lendo junto, mostrando. Uma experiência inacreditável. A paisagem ainda não era tão diferente, naquela época. Partimos para Salvador, encontramos o Jorge Amado: “Isso agora é com vocês. Eu enfrentei o Estado Novo. Agora é a vez de vocês...”

EE – Pouco depois você participou do “Cara a Cara”, do Júlio Bressane. Outro tipo de cinema, outro projeto político.

AC – Era mais uma questão de perspectiva e de discurso. Na verdade, outra geração, tentando também formar um grupo, um lobby junto à imprensa, junto às fontes de financiamento. Igual à primeira geração. Eu era amicíssimo do Julinho, mais um daqueles jovens assistentes. Saíamos de carro, frequentávamos as mesmas mesas de bar. Éramos tratados com o mesmo carinho pelos diretores. O Júlio se rebelou, cometeu o gesto incestuoso de ficar com a ex-mulher do Glauber. E nunca vou esquecer do dia em que, na casa do Júlio, ele e o Neville de Almeida me propuseram entrar para o underground e não fazer o filme do Arnaldo Jabor, o “Pindorama”.

EE – Reunião de cúpula...

AC – Nessa hora, eu falei: “vem cá, o Jabor vai me contratar com dinheiro da Columbia, para ficar três a quatro meses em Itaparica, o paraíso na Terra, ganhando um ótimo salário. O que vocês me oferecem?”. Responderam: “Você vai participar do movimento revolucionário, ao invés de fazer um filme com dinheiro americano.” Eu: “E quem lidera esse movimento, vocês dois? Eu vou ser mais uma pessoa desse movimento, assim como no Cinema Novo o Glauber, Cacá, Gustavo lideram e fulano, beltrano etc. [de coadjuvantes]? Não quero. Vocês devem me oferecer um emprego muito bem pago, porque estou cagando para movimento intelectual.” E fiz o meu próprio filme underground. Quer dizer, eu sou o underground do underground. Em Cinemascope, com estrelas, e que não deu um tostão: “O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil”.

EE – No calor da hora, nessa guerra ideológica, você tinha noção de que alguns filmes eram melhores do que os outros? Outras pessoas tinham?

AC – Eu tinha. Um filme, inclusive, larguei no começo: “Brasil Ano 2000”. Cheguei lá e, quando vi aquilo, falei para o Walter [Lima Jr.], que nunca me perdoou: “Walter, quando o navio vai afundar, os ratos são os primeiros a saltar fora. E eu sou um rato...” [risos] Não morro de amores pelo Walter Lima Jr. e vice-versa. Muito tempo depois, em 1983, participei de “Inocência”. Não tive nada a ver com a parte criativa. Fiquei com a ingrata função de diretor de produção, ou seja, representante dos produtores. Isto provocou vários choques com o Walter, mas tenho que fazer justiça. “Inocência” é a obra-prima dele. A meu ver, um dos maiores filmes brasileiros de todos os tempos. Ele seguiu à risca o roteiro genial do Lima Barreto e todos os cineastas americanos que admirava. Acontece que no “Brasil Ano 2000”, tive que sair de Parati, vi que não tinha pé nem cabeça.

EE – Situação delicada...

AC – “Pindorama”, por exemplo, acabou porque a equipe toda começou a ir embora, depois do terceiro ou quarto mês. Para o “paraíso na Terra”, o Jabor só escolhia mangue e pantanal, estava em um processo muito ruim de depressão. Nós gravávamos no barro, na lama. Foi das filmagens mais acidentadas e terríveis de que já participei. E isto em um lugar maravilhoso. Mesmo assim, tenho pelo menos uma história sensacional. Os índios de “Pindorama” eram os negros de Itaparica, uns negros altíssimos. Eu cuidava dessa figuração. Plano sequência, com a Mitchell, aquela câmera de dez minutos de chassi. Os índios tinham que ficar ao fundo, segurando umas lanças. “Vocês não se mexam, mesmo que qualquer coisa aconteça!” O Jabor ensaiou pra cacete, começou a fazer um take, dois takes, três takes. De repente, eu olhei. Cadê eles? Estavam enterrados! Foram afundando no mangue [risos]...

EE – [risos] Inacreditável... E na linha do “underground do underground”, em 1973 você participou de “Rainha Diaba”. Um clássico do Antonio Carlos Fontoura.

AC – Minha história com o Fontoura é interessante. Eu sou Antonio Augusto, ele é Antonio Carlos. Nós dois só usávamos jeans. Nós dois somos desastrados, disritmia cerebral. Quero usar a mão esquerda, uso a mão direita. Andávamos juntos para cima e para baixo. Eu chamava ele de Calmon, ele me chamava de Fontoura. Até hoje [risos]... E o loirinho era como eu. Sempre foi uma pessoa solta. Tinha um belíssimo primeiro filme [“Copacabana Me Engana”], nada a ver com as linguagens e as preocupações do Cinema Novo. “Rainha Diaba” também não tinha nada a ver com nada. Fui diretor de produção dele nesse belo filme. Acho que o papel do Fontoura no cinema brasileiro não foi prestigiado como deveria. Assim como eu, ele não cortejava jornalista, não se “auto-publicitava”.

EE – Não tinha o grupo...

AC – Não tinha o grupo por trás. Sempre foi independente. E também não tinha a ideologia. Todos esses filmes possuíam um discurso político e, como havia repressão política, todos se amparavam. Havia a simpatia da elite cultural, de esquerda. “Rainha Diaba” é uma obra-prima. O filme não envelheceu. Lembro que o Wilson Grey odiava o Fontoura, odiava... Ele interpretava o “Manco”, um dos capangas da Diaba. Usava um sapato com o salto mais alto do que o outro, e já tinha uma certa idade. Um dia não apareceu para filmar. Tivemos que ir à casa dele, o Grey morava quase em frente ao IML. Aquele cheiro de formol que vem lá de dentro... Tive que entrar ali duas ou três vezes para reconhecer corpo. Ele morava em um quartinho, uma cabeça de porco, uma coisa terrível. Ele nos viu, levantou-se e disse: “Aqui mora o artista!” O Grey tinha uma dignidade. Era viciado em corrida de cavalo, tudo o que ele ganhava, jogava. A carreira dele vinha desde a época da chanchada.

EE – E convivendo ali, com essa nova onda de garotos...

AC – Lembro da gravação da morte do Stepan Nercessian. Mais uma vez deu uma cagada na hora dos tiros, que eram de metralhadora. Puseram o líquido em excesso, que misturou com os fios e começou a dar choque elétrico. O Stepan se debatendo, eu entrei gritando “Pára! Pára! Corta! Corta!”. Tiramos os fios, ele ia morrer eletrocutado. A filmagem continuou no dia seguinte, eu fui pegar o almoço da equipe. Quando volto, umas dez pessoas em cena, o Stepan morto... Mas tem um problema: o Fontoura é muito distraído. Eu olho em volta e falo: “Espera aí, cadê o sangue?” “Ahn?” “Fontoura, esse cara tomou trinta tiros ontem. Cadê o sangue? Ninguém viu?” Aí o Grey vira pra mim: “Psiu... Eu vi...” [risos]

EE – [risos] O “Rainha Diaba” conseguiu um elenco sideral...

AC – Só havia pessoas geniais ali. Um elenco de freaks maravilhosos. O Fontoura estava inspiradíssimo quando fez aquele filme. Um dia nós estávamos no centro da cidade, em uma área bem barra pesada, com travestis, policiais, putas. Eu, com aquele negócio de produção, quase tive uma úlcera. Fui pegar o jantar e quando voltei estava uma cagada. Começamos a ouvir gritos  lancinantes de criança. Era um cara batendo no filho com uma corrente. Começou um clima de linchamento e o cara era um operário, algo do gênero. Tinha sofrido um acidente de trabalho, queimadura de terceiro grau e ficou meio pirado. Eu nervoso, sem saber o que fazer, ninguém tomando uma providência. A Odete Lara me diz: “Calmon, vem cá. Toma isso.” Entregou um comprimido, tomei, senti logo um bem estar enorme. Fui lá, resolvi a situação, enquadrei as putas, os policiais, os travestis. Mandei chamar uma ambulância para o menino e para o pai. Tudo tranquilo, a filmagem continuou normal. Quando chegou de manhã, eu perguntei. “Odete, o que foi aquilo que você me deu?” Ela me disse: “Ah, uma morfinazinha...” [risos]

EE – [risos] Ah, essa beleza dos anos 70...

AC – [risos] Todo dia eu enchia o saco dela. “Odete, não tem aquela coisa maravilhosa, não?” “Não, só quando a barra pesa muito” [risos]...

EE – [risos] Calmon, agora os seus longas-metragens. Primeiro, “O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil”.

AC – Sabe que “O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil” foi o primeiro filme financiado pela Embrafilme? O Glauber tirou para mim. Você vê que, mesmo eu tendo virado um anjo maldito, ele não só não me discriminou como bancou meu primeiro filme. Pior: eu já havia enlouquecido, virado um maluco, drogado. Carvana e eu fizemos esta firma chamada “Trópico Produções Cinematográficas Limitada”. Um de nós dois, não sei qual o idiota, disse: “Começamos a construir um império!” [risos]... Alguém descobriu que o Luiz Severiano Ribeiro tinha uma lente Cinemascope. Uma única lente, de cinquenta milímetros. Carvana era praticamente irmão do Cláudio Marzo, os dois se adoravam. Então reunimos um puta elenco e eu, em uma semana, completamente alucinado, escrevi o roteiro. Como todo primeiro filme, era uma mistura de tudo que eu gostava. O Jean Cocteau do “Orfeu”, misturado com a crise existencial de empresário, do Antonioni. Na época eu achava que fazia sentido e que seria um estouro comercial. O dinheiro mal dava. Filmamos em três semanas: uma em São Paulo, uma no Rio, uma em Arembepe, na Bahia. Loucos, o tempo todo. Adoro o filme, de vez em quando revejo, acho que não se parece com nada do cinema brasileiro.

EE – E hoje em dia você revê lúcido...

AC – [risos] É... Quem sabe? Não, brincadeiras à parte, fiquei louco para sempre. Como diz o Fontoura, não tomo mais nada para não cortar o meu barato... [risos]

EE – [risos]

AC – Aliás, lembrei de uma cena com o Jesus Pingo, irmão do Pereio. “Jesus Pingo”. Eu que dei esse nome pra ele. Uma figura. Compridão, cabelão, tomava tudo que era droga, inclusive uma chamada Rohypinol. Ficava completamente louco. Fazia o revolucionário no filme e era condenado a morrer na roda. No final, ele faz o discurso revolucionário com a casa pegando fogo, ao fundo. Ele no primeiro plano: “blá, blá, blá, a exploração etcetera e tal!” Um texto enorme. E você vê, no copião, que aos poucos as pessoas vão saindo. Vão saindo, vão saindo, vão saindo... Por causa do calor da casa queimando! Aí o Jesus improvisa: “E eu não aguento mais, porra!” E sai, desesperado [risos]...

EE – [risos] Genial!

AC – “Capitão Bandeira” levou cinco anos para se pagar. A estreia foi no cinema Pax, ao lado da Igreja Nossa Senhora da Paz [em Ipanema]. Lotado, lotado, um caos. Pessoas que acharam genial, pessoas que odiaram. A crítica destruiu. Um crítico, muito conhecido no meio cinematográfico e que até hoje está aí, disse que o Serviço Nacional de Informações deveria tomar providências. Era um acinte à bandeira brasileira. Na verdade, era uma metáfora da loucura da droga. E a Sônia Braga representava o meu grande amor gay, um rapaz que conheci nas filmagens de “Pindorama”.

EE – No “Paranóia”, de 1977, você estava mais calejado...

AC – “Paranóia” era um projeto de ambiciosíssimos produtores de Ribeirão Preto, junto à exibidora Galante. Foi escrito a partir uma crônica do [Carlos Heitor] Cony, baseada no tal  primeiro assalto em uma residência burguesa que se teve notícia, em São Paulo, onde também teria havido um estupro. Eu estava cinco anos sem filmar, ninguém mais queria ouvir falar de mim. Virei hippie, maluco, mendigo na Bahia, com a barba até aqui, cabelo até aqui. Andava descalço, morava numa comuna hippie, dormia no chão em uma esteira, cheia de santinho pregado.

EE – Viveu o desbunde na própria pele.

AC – Na época do “Capitão Bandeira” me casei com uma baiana. Ao mesmo tempo, estava com um cara. Ou seja, problemas do bissexualismo que sempre dão merda, infelicidade a três. Tinha pirado completamente, vivi na miséria até o meu pai me localizar. Perdi uns quinze quilos, sei lá. Estava com dezessete cáries. Fui trazido para o Rio e mais uma vez o anjo Cacá Diegues me salva. Era perto do Natal e ele me chama para Natal ou Ano Novo na casa dele. Apresenta o Samuel Wainer, que então me convida para trabalhar com ele, em um jornal dos Bloch. Volto para a Bahia, de onde havia sido retirado quase morto, para ficar no melhor hotel de lá. Um salário maravilhoso, uma diária maravilhosa, para cobrir o carnaval fazendo uma matéria com o Guilherme Araújo. Quer dizer, voltei por cima. Estava tão miserável na Bahia que três pessoas, um dia por semana, pagavam a minha refeição ou faziam uma refeição para mim e meu amigo. Nos outros dias a gente comia resto de feira. Uma loucura, cara. Sabe o livro “A Fome”, do Knut Hamsum? Eu vivi aquilo. Vivi ficar em porta de restaurante, sentindo cheiro de comida. Pedi esmola. Eu cheguei ao mais baixo do desespero.

EE – Mas foi por opção ou por consequência de algum fato?

AC – Depois que o “Capitão Bandeira” fracassou e também depois que me assumi, precisei fazer isso. Desbundei mesmo. Mesmo. Consegui dinheiro emprestado, cheguei de ônibus na Bahia, dez cruzeiros no bolso. Nos três primeiros dias, era uma celebridade. Depois que as pessoas viram que eu estava na merda, todo mundo cagou na minha cabeça. Menos os hippies. Então fiquei vivendo da caridade dos outros. Lembro que um dia teve uma guerra na feira, perto de onde nós morávamos. Duas turmas de playboys brigaram e sobrou fruta pra tudo que era lado [risos] Morávamos numa vilazinha, uma casinha precária, mas com uma vista linda, na Ladeira da Barra. Moravam as figuras mais estranhas naquela comuna. Tinha o Marquinhos Rebu, menino de uns dezesseis, dezessete anos. Lindo, deslumbrante, uma moça, mocinha. O Marquinhos se mudou para lá, com uma malinha de roupa e um espelho enorme. Na casa em frente, havia uma célula terrorista. Em toda a Bahia, todo mundo sabia que era uma célula terrorista. Os caras barbudinhos, de casaco, em um calor desgraçado. O Marquinhos ficava de baby-doll na varanda, paquerando os terroristas, pegando nos cachos de cabelo, flertando.

EE – Isso em que ano, Calmon?

AC – Não tenho ideia. 1970, 70 e pouco. Eu não respeito o artista apenas erudito, como o Borges, por exemplo. O artista tem que viver. Mas há um limite. Se você fica demais no existencial, ou você morre ou você deixa de ser artista. Como aconteceu com o Rimbaud e o Pasolini, por exemplo. Em “O Petróleo”, do Pasolini, o personagem na verdade é ele. Vai para um campo de futebol e dá para vinte garotos da periferia. Mais ou menos tipo o lugar onde o próprio Pasolini foi assassinado. Se você radicaliza a experiência existencial e mistura demais com a obra, você pode morrer. Então eu tive que aprender as horas de frear. Quando voltei dessas coisas todas, dirigi  “Paranóia”.

EE – Você foi pragmático.

AC – Acho que consegui parar por duas razões. Primeiro, porque a droga não é causa, é consequência. Droga sempre esconde algo maior. Pela psicanálise e por uma série de coisas, eu não precisava esconder nada. Segundo: graças a Deus, eu tenho a criação, eu posso jogar. Quando fiz o “Eu Matei Lúcio Flávio”, eu joguei tudo. Lá você vê o Mishima, você vê o Pasolini, você vê o William Burroughs, os caras todos que me influenciaram. E também coisas marginais que vivi, porque tive namorado assaltante. Coitado, de padaria, mas assaltante [risos]... Eu guardava a arma dele. Foi morto por um policial em Belo Horizonte, o primeiro que o espancou, quando era menor de idade. O policial tinha espancado o garoto, prendido ele e roubado sua bicicleta. O garoto o denunciou e ele foi punido. Anos depois se encontraram na rua e o policial atirou no rosto dele. O garoto chamava-se Para-Raios. Até escrevi um projeto de filme chamado “Para-Raios”, por conta disso. A vida é uma merda.

EE – Depois de “Paranóia”, temos o “Revólver de Brinquedo”.

AC – Isso. Que é a minha obra-prima perdida. Um filme precário e o som, um horror. Realizado no estúdio do Roberto Bataglin, com a fotografia de Miguel Rio Branco, que considero o maior artista brasileiro vivo. Roteiro de Leopoldo Serran, outro gênio. Os roteiros originais do Leopoldo, quando não escritos por encomenda, são todos obras-primas. Tem esse e o tal inédito, um filme policial passado em Lisboa. “Revólver de Brinquedo” é uma obra-prima, uma comédia noir. Quase um filme do Woody Allen, só que melhor. Vou te contar uma cena. É um cara que mora com a mãe, a Tereza Rachel, completamente dominado por ela e vivido pelo Helber Rangel, um ator brilhante, parecia saído de um filme do Truffaut. O cara conhece uma menina chamada Leninha, a Maria Lúcia Dahl. Ele, muito tímido, não conseguia se aproximar da mulher e morava em um sobrado de Santa Tereza. O filme é quase todo passado em Santa Tereza, no auge da repressão policial da ditadura militar. O rapaz resolve pichar no muro em frente: “Eu... Te... Amo... Lenin...” e aí passa uma viatura e leva ele [risos]... Fizemos com pouquíssimos recursos, poucos atores, mas olha que cena genial. O filme é isso, cara, maravilhoso. Pena que não tem cópia.

EE – Produzido pelo Pedro Rovai, você dirigiu uma trilogia: “Gente Fina É Outra Coisa”, “O Bom Marido” e “Nos Embalos de Ipanema”. Todos muito bons, os três filmes.

AC –  Sempre roteiros do Leopoldo e do Armando [Costa]. O Armando era um gênio e o Leopoldo, outro. Ambos haviam pertencido ao Centro Popular de Cultura da UNE, havia esse lado político forte neles. Também tive formação marxista e subversiva. Só que, mais do que anarquista, me defino como “anarco-conservador”.

EE – E, em 1979, você dirige aquela que é a sua obra-prima:“Eu Matei Lúcio Flávio”.

AC – Também é o filme de que eu mais gosto. O Jece Valadão, dono da Magnus Filmes, convidou o Leopoldo. Não sei como, nem por quê. Leopoldo me telefonou e eu estava numa merda, pra variar. Cinema é aquela coisa: você demora a receber, tem espaços entre um filme e outro. Aí você deve tudo, não paga o aluguel. Eu e o Leopoldo tínhamos uma tabelinha. Várias vezes eu tirei ele da merda e ele me tirou da merda. Dessa vez, ele me telefonou, do nada. “Olha, estou escrevendo um roteiro para o Jece Valadão, sobre o Mariel Mariscott.” De minha parte, não tive problemas e não foi nem por precisar do dinheiro. Simplesmente adorei o Beto [Alberto Magno, filho de Jece], um cara brilhante. Pianista, sobrinho do Nelson Rodrigues, uma mistura completamente maluca.

EE – O Jece esperava esse tipo de filme ou alguma coisa mais clássica?

AC – Ele adorou, achou que deu a maior sorte, porque o filme tinha tudo para dar errado. Era uma operação delicadíssima, fazer um filme sobre o Mariel.

EE – Mariel vivo ainda...

AC – Mariel “brother” dele. Fomos à cadeia, conversei com o Mariscott umas três vezes. Depois que o filme ficou pronto, contaram para ele, que ficou puto. Meio que me mandou uma ameaça e tive de contatar o Zuenir Ventura. Dei uma entrevista, dizendo que não era “presuntável”. Aí ele enviou o recado: “Que é isso, meu irmãozinho? Está tudo bem...” O Mariel tinha três celas: uma para dormir, uma para receber visitas e uma para ateliê.

EE – Uma das críticas mais burras ao “Eu Matei Lúcio Flávio” é de que se trata de uma apologia. Eu discordo. É uma perversão da apologia.

AC – O negócio é o seguinte: tinham feito uma hagiografia do Lúcio Flávio. O [Hector] Babenco transformou o Lúcio Flávio em herói popular. Uma metáfora do terrorista que assalta banco. Acontece que o Lúcio Flávio não era nada disso. Quando surgiu o filme, nesse ambiente cultural de esquerda em que se vivia e se vive ainda, agora meio desmoralizado porque o nosso líder terrorista está ameaçado de cadeia, as pessoas ficaram putas. Tacharam o “Eu Matei... de um filme de direita. Como se sabe, boa parte da humanidade é composta de imbecis. Outra boa parte, de oportunistas. O filme pertence a uma linha de produto artístico que leva os instintos mais sombrios e destrutivos, mas reais, ao seu extremo limite. O Tarantino faz essas coisas e todos acham maravilhoso. Ninguém questiona, todos acham o máximo. Porém, dentro de uma leitura marxista de qualquer coisa, é claro e óbvio como uma vaca pastando: trata-se de um filme de direita.

EE – Em uma parte da minha geração existe uma outra visão do problema. Você tem noção disto, Calmon? Com o tempo, um filme antes acusado de ser “de direita” passou a ser uma obra  estética.

AC – Olha, o LSD me mudou. Eu tive uma coisa revolucionária na minha vida. Tomei não sei quantos LSDs e tive não sei quantas bad trips. Até que parou na minha mão “O Livro Tibetano dos Mortos”, traduzido pelo Timothy Leary, que aliás conheci depois em Los Angeles. “O Livro Tibetano dos Mortos”, ao contrário do que se pensava, não é um livro de preparação para a morte física. É um livro de preparação para a morte do ego. Neste momento, em que tudo se desfaz, você tem noção de como são arbitrárias as escolhas. O que é cultural, o que não é. Como são ridículos os medos, como são arbitrárias as certezas. Como a linguagem é uma besteira. Qualquer ideologia se desmonta e qual é o enorme perigo do LSD? Você nunca mais se reenquadrar na sociedade. Então, veja bem: essa minha experiência com o LSD fez com que o dogmatismo marxista fosse pra casa do caralho. Fez com que as minhas repressões sexuais fossem pra puta que o pariu.

EE – Exatamente...

AC – Por exemplo, esse negócio de casamento gay. Casamento, para mim, é uma coisa impensável. Eu venho de uma família disfuncional. Não conheço nenhuma família feliz, só tem monstruosidade por detrás. Não há coisa pior do que a discussão de uma herança. Enfim, enfim... Essas experiências com drogas e de vida fizeram com que eu me despisse disso. Então, quando aparece uma geração como a sua, livre dessas coisas, eu entendo perfeitamente, porque eram dados da época. Procuro sempre estar antenado.

EE – Talvez por isto o seu cinema continue moderno. Porque não tem esse dogmatismo ideológico. Na sequência de “Eu Matei Lúcio Flávio”, veio “O Torturador”.

AC – “O Torturador” era para ser uma superprodução, porque “Eu Matei Lúcio Flávio” deu muito dinheiro. O Grupo Severiano Ribeiro iria produzir. Então viajei ao Paraguai, Pedro Juan Caballero, com o Beto. Você atravessa a rua e está no Paraguai. Fomos muito bem recebidos por um grande traficante paraguaio. Fizemos uns contatos de produção, tivemos uma aventura fantástica. Primeiro a viagem de avião, aquela chapada. De repente, o abismo. A geografia maravilhosa, aquele aviãozinho pequeno. Depois, um descampado enorme e aquele casarão, só de um andar. Entramos eu e o Beto, doidaços. Parecia um filme de vampiro. Não tinha ninguém, ninguém, e começou a sair mulher. Era um puteiro [risos] Aí foi uma farra, estávamos bêbados, uma loucura. Quando voltamos, o Severiano tinha pulado fora e o Jece estava com uma merrequinha de dinheiro. Rodamos o filme inteiro na Barra da Tijuca, em duas semanas. Aquela pobreza. Não apenas isso como o roteiro tinha um lado meio “Casablanca”, que se perdeu. Deu pra curtir uma cena ou outra. Uma atriz enlouqueceu na filmagem, no meio de um plano. Foi embora, nunca mais apareceu. Não sei até hoje o que foi feito dela. Começou a rir, a balançar a cabeça. Teve um surto psicótico. Curti algumas coisas, principalmente com o Paulo Villaça, o Jece, o Anselmo [Vasconcellos], que está maravilhoso. E that's it. O filme é bem irregular.

EE – Agora vamos em um sentido oposto: o ciclo com o Luiz Carlos Barreto, em “Menino do Rio” e “Garota Dourada”.

AC –  Nas minhas pornochanchadas políticas e nos meus filmes de sexo e violência, não tem garotada. Tem uma cena ou outra com jovem, mas não são filmes tematizando-os. Isso só começou a acontecer quando o Bruno Barreto me convidou para o “Menino do Rio”. 

EE – “Menino do Rio” virou ícone de uma geração. Você imaginava isso, na origem do filme?

AC – Na verdade, era um réquiem para um amigo meu que morreu. Namorava uma empregadinha aqui da redondeza, transavam lá no alto do morro. Tem uma cachoeira, cheia de limo. Ele e a menina escorregaram, ele caiu de trinta metros. Quebrou a perna em cinco lugares. Era lindo, loirinho, arrebentou a cara inteira, ficou três dias na UTI do Miguel Couto e morreu. Quando o filme surgiu, havia essa coincidência. O irmão do André De Biase [Tonico De Biase] escreveu sobre um ator surfista, amigo dele, que morreu pegando surfe. História verídica. Aí eu transformei a morte do Pepeu em um réquiem para aquele menino que eu conhecia. Nem fazia sexo com ele. Ia ser ator, uma pessoa iluminada, e morreu. Quase morri junto. Enfim... [Pausa. Longa.] Eu joguei tudo no filme, então “Menino do Rio” tem muita emoção. E também o Bruno [Barreto] foi um fantástico produtor. Desde garotinho, os pais levavam para Los Angeles. O Bruno tinha experiência de filmagem comercial. Chamou o Carlos Egberto, um cara que estudou fotografia em Londres e também esteve em Los Angeles. O filme tem qualidade de produção, a primeira vez em que eu usei grua, e uma puta de uma fotografia.

EE – Um panteão dos ídolos jovens, nos anos 80. André De Biase, Sérgio Mallandro...

AC – Sérgio Mallandro era o melhor amigo do André De Biase. O André era autor da história, tinha estrelado o “Nos Embalos de Ipanema”, descoberto o gostinho do cinema. O Evandro Mesquita fui eu que trouxe. A Cissa [Guimarães] também. A Cláudia [Magno] era convite do Bruno. Tinha o Ricardo Zambelli,  um ator fantástico, comediante muito bom. Faz um vilão, mas um vilão cômico.

EE – Além desses dois filmes, o “Menina Veneno”, que não foi lançado.

AC – Este não saiu do roteiro. Seria uma trilogia também, como a do Rovai. “Garota Dourada” foi um flop. Vimos locação em Santa Catarina, mas acontece que era o primeiro ano do El Niño. Nunca havia chovido lá nessa época do ano e agora chovia todo dia. Eu chorava todo dia. Acordávamos às cinco da manhã, preparávamos tudo. Quando dizia “câmera”, caía uma tempestade. Tinha muito cogumelo... Uma pessoa levava todo mundo para a capital, Florianópolis. Descontrole da equipe. O filme perdeu eixo, entrou um lado místico. “Garota Dourada” não é um bom filme. Eu tenho dois  bem fracos: este e um horrível, “A Mulher Sensual ou Novela das Sete”, que dirigi para pagar o enterro de um namorado meu. Morreu aqui no Parque Lage. Peguei um empréstimo e tive que fazer o filme, que eu não queria. Um best seller, tipo o “Cinquenta Tons de Cinza”. Livro de sacanagem feminina.

EE – Vamos passar para os dois últimos: “Terror e Êxtase”, de 1979, e “Mulher Sensual”, de 1981. Queria que você falasse primeiro do “Mulher Sensual”, para depois nos aprofundarmos no “Terror e Êxtase”.

AC – Para “Mulher Sensual”, o Álvaro Pacheco tinha comprado os direitos daquele livro de sacanagem feminina. Queria porque queria que eu filmasse, para convidar a Helena Ramos,  rainha da pornochanchada paulista. Depois que a conheci, vim a saber que era uma moça arrimo de família, ex-secretária do Sílvio Santos. Usava gola aqui, manga aqui [dando a entender que eram roupas longas]. Tinha namorado e odiava fazer esses filmes. Não deu pra ninguém, ficava constrangidíssima, e eu idem. Em uma cena ela estava pelada com quatro atores. Paulo Ramos, André De Biase e mais dois: a fantasia sexual da personagem. Coisa desagradável. Fiz o “Mulher Sensual” realmente sem tesão. Aí parei. Parei de filmar. Acho que meu ciclo de cinema acabou. Foi quando pintou o convite do Daniel Filho para a Globo.

EE – E o “Terror e Êxtase”? Um filme extremamente emblemático. Adaptação do romance homônimo do Carlinhos de Oliveira.

AC – O Carlinhos é desses exemplos em que o excesso de experiência existencial conduz à morte prematura. Ele simplesmente se destruiu com a bebida e foi embora muito cedo. Tinha a enorme frustração de não ser um grande romancista.

EE – Frustração que nem se justificava. Escreveu romances maravilhosos, como “O Pavão Desiludido”, e se dizia a grande promessa não realizada da literatura brasileira...

AC – Aliás, é a síndrome do cronista... No filme, o Álvaro Pacheco estava encantado com a Denise Dummont, que faz a Leninha. Ele chegou a negociar com o empresário da Maria Schneider, a deliciosa francesinha do “O Último Tango em Paris”. Achei que o Álvaro estava de sacanagem, mas conseguiu combinar um almoço com La Schneider e o empresário. Conversa vai, conversa vem e nada da moça. Até que ela aparece, de biquíni e saída de praia, bronzeada, linda. Reparei logo nas marcas de picadas nos braços. Tudo ficou claro para mim, e foi depois confirmado pelo Álvaro: o empresário queria tirá-la da Europa, afastá-la da heroína, que ainda não existia no Brasil. Ela me perguntou se eu gostaria de experimentar um pouco. Incapaz de dizer não a uma dama, aceitei o convite. Subimos para o quarto, ela imediatamente se aplicou. E imediatamente correu para o banheiro, começou a vomitar. E não parava mais. Aí baixou a paranoia em mim. E se essa mulher tem uma overdose? E se eu sou pego no quarto com ela defunta e aquela droga toda? Resolvi me mandar e não voltei ao restaurante [risos]... Para o papel do bandido, o “1001”, tentei um ator negro, mas não houve jeito. O preconceito racial era enorme, o Brasil sempre foi uma África do Sul light. O Roberto Bonfim era uma estrela, lindo. Hoje, o Lázaro Ramos faria um grande “1001”.

EE – Você sabia que o projeto do “Terror e Êxtase” havia sido vendido antes? Foi revendido para o Álvaro.

AC – Não. Não sabia de nada. Por isto que muita gente me detesta e nem sei por quê.

EE – O Carlinhos queria na direção o Glauber, que pensou no Antonio Pitanga para o papel do “1001”.

AC – Eu peguei o bonde andando. Sei que um dia o Álvaro me chamou e fui fazer. O Glauber faria um filme do Glauber, nada a ver com o Carlinhos, que ficaria puto. Eu, pelo menos, fui fiel ao livro. Só não fui fiel em relação ao ator porque não havia condições de público.

EE – É um tremendo filme. “Terror e Êxtase” zomba daquela esquerda festiva, daquela demagogia de asfalto/favela. E foi baseado em uma das cocotas com quem o Carlinhos teve caso...

AC – Um livro que previu o futuro. Hoje em dia estão todas as patricinhas subindo para dar pra traficante, pra conseguir pó. O Carlinhos de Oliveira ficava ali no Antonio's e, de certa forma, ele era o “1001”. Feio, baixinho, transando todas as gatinhas da Zona Sul. Tinha um charme, uma coisa qualquer. Era destruidor. Ficava sozinho em uma mesa, dava escândalos às vezes. Quando o Álvaro me chamou, eu disse: “Pô, Álvaro, esse cara deve me achar um merda.” O Ely Azeredo escrevia no JB, ao lado dele, e fez três críticas seguidas de “O Bom Marido” me demolindo. Esse cara deve me achar um lixo, tal. Que nada. Fez menção ao filme em uma crônica, bem simpática.

EE – Você foi roteirista de vários filmes, em épocas diferentes na indústria. Por exemplo:  “Aventuras de um Paraíba”, nos tempos da Embrafilme. “Dias Melhores Virão”, na rebordosa da era Collor. “O Quatrilho”, em 1995, indicado ao Oscar.

AC – “Aventuras de um Paraíba” foi o primeiro projeto de José Gonçalves Neto, um talentoso artista nordestino, que procurou a L.C. Barreto. Eles se encantaram com a ideia, mas acharam necessário ter um roteirista profissional. Meu trabalho foi essencialmente técnico, lado a lado com o Gonçalves. Procurei respeitar ao máximo as intenções dele. Morri de vergonha ao ver meu nome em primeiro lugar como roteirista, embora se justificasse por eu ser um profissional conhecido e o Gonçalves, um estreante. Mas a ficção é dele e só dele. “Dias Melhores Virão” se originou de argumento e roteiro originais meus, encomendados pelo Cacá Diegues. O Cacá é também excelente roteirista, mas queria uma história diferente das dele. É claro que adaptou o filme a seu estilo autoral e considero o resultado muito mais dele do que meu. No “Quatrilho”, o Luiz Carlos Barreto tinha me encomendado uma adaptação para o cinema. É um extraordinário romance do José Clemente Pozenato. Não sabiam na época se o projeto seria para um longa-metragem ou um seriado para a televisão. Concluí e tempos depois estava em Nova Iorque, descansando de uma novela, quando a Lucy Barreto me chamou para retomá-lo. Não quis interromper as férias e recusei. Mas indiquei o Leopoldo Serran, que fez um belo trabalho. Eu mesmo tive a iniciativa de combinar com o Luiz Carlos que o Leopoldo ficasse sozinho como roteirista e meu nome viesse como adaptador. E assim foi. Perdi a ida à cerimônia do Oscar, mas não me arrependo nem um pouco.

EE – Depois de “Mulher Sensual” você parou, deixou o cinema e foi para a televisão. Tem planos de voltar?

AC – Eu até tentei, há dois, três anos atrás, fazer um spin-off de “O Beijo do Vampiro”. Primeiro,  logo após a novela, mas não foi possível. Tempos depois, voltei ao projeto em outro roteiro e procurei o Cacá. Conseguimos a aprovação da Globo Filmes, a simpatia da Columbia. A Secretaria de Cultura de Manaus forneceria hospedagem, passagens, alimentação. O objetivo era dinamizar a parte cinematográfica da cidade. O cenário principal seria no próprio Teatro Amazonas, porque os vampiros morariam ali embaixo. O que aconteceu? Burocracia, burocracia, burocracia. Fui chamado para uma novela e desisti dos vampiros de vez. Mas tenho dois argumentos prontos. O “Para-raios”, a história policial que nós comentamos, produção pequena. Além dela, um projeto mais ambicioso: “Palácio”, sobre uma sauna gay e um agente. Um 007, assassino com licença para matar. Muito sangrento e muito sexo explícito também. Os dois projetos bem na linha dos meus filmes de sexo e violência.

EE – E como é que você pretende driblar a ditadura do politicamente correto no meio disso tudo?

AC – I don't give a shit. Não me interessa, é um problema dessas pessoas. Para mim, são iguais a fanáticos religiosos. Estão possuídas por uma crise psicótica coletiva. Não discuto. Não dá para discutir com pessoa ideologizada ou fanática. Eu fico olhando como se fosse maluca.  Desconstruo  o pensamento dela, mas não desconstruo verbalmente. Fico só olhando. I don't give a shit, realmente. Nem penso nisso.

EE – Por fim, Calmon, você por você mesmo. Aonde você acha que a sua obra se integra na história do cinema brasileiro?

AC – Acho que pertenço a um tipo de fenômeno que existe na literatura, na pintura: os fenômenos isolados. Prefiro me situar dentro de um movimento universal, que reúne pessoas como as que eu já citei aqui. O Mishima era um solitário. O Pasolini era outro. Embora o Mishima estivesse ligado profundamente à cultura japonesa, ele, na época, era um solitário. Ontem mesmo vi um filme gay chinês, o “Residência Permanente”. Segundo filme do diretor, produção bem feita. Existe toda uma corrente de cinema gay chinesa, tailandesa, que descende muito do Mishima. Há pessoas que plantam raízes. Coisas decorrem daquilo. É o velho papo: certos artistas são antenas e outros são receptores. Eu prefiro me situar em um panorama universal, mas não estou muito preocupado com isso, não. Quero trabalhar, ter uma atividade criativa, sobreviver.

sábado, novembro 28, 2009

Bar Esperança


Um dos melhores botequins que o Rio de Janeiro já teve funcionou somente por algumas semanas, e em endereço improvável: o cinzento bairro de São Cristóvão, Rua Sá Freire, 94 -- mais precisamente os estúdios da Magnus Filmes, de Jece Valadão -- onde Hugo Carvana filmava o seu delicioso "Bar Esperança" (1983).

Como em todos os filmes de Carvana, a história simples -- o fechamento de um bar, espaço sentimental de amigos -- melhora na proporção em que compreendemos as intenções do autor: se "Vai Trabalhar Vagabundo" era uma ode ao homem brasileiro urbano, "Bar Esperança" é sobre um estado de espírito -- carioca e cosmopolita -- que àquela altura dos acontecimentos já se mostrava inviável.

No bar trafegam o escritor Zeca (Carvana) e a atriz Ana Moreno (Marília Pêra), sufocados por litros de chopp e toneladas de amigos. Zeca é o típico intelectual da zona sul, equilibrando-se entre a necessidade de ganhar dinheiro e a vontade de rumos mais interessantes. Sente-se mortificado pelo trabalho na tv, refém da arrogância do patrão -- o produtor Baby (Oswaldo Loureiro) -- e da hipocrisia dos próprios colegas.

Zeca e Ana moram em um apartamento enfeitado por um pôster de John Lennon, duas crianças e uma máquina de escrever. Utilizam pouco a casa, extensão do bar. Ao levar chá de cadeira na tv, Zeca dá um piti e joga tudo para o alto. Ana, fazendo sucesso na mesma emissora como a vilã Berenice, se desespera e larga o marido. No bar, discutem e discutem a relação -- e as decisões ganham ares de imersão existencialista.

A loucura dos gestos e falas dos personagens é explicável pelo temperamento histérico e displicente da chamada "esquerda festiva", termo cunhado pelo jornalista Carlos Leonam para designar um mito ipanemense. Revolucionários adoráveis, esculhambavam com o meio, a fauna e a flora. Cariocas militantes, aceitariam o Sig -- aquele ratinho verde do Pasquim -- na mesa de braços abertos, desde que ele não enchesse a paciência e bebesse um bocado.

Os filhos de Ana e Zeca, conhecendo a verve dos pais, fazem até estoque de comida para tempos difíceis. Wilson Grey, como sempre o único lúcido, sugere que "Copacabana e Leme vão acabar tragados pela merda". Um ex-colega de faculdade de Ana, Pessanha -- apelidado Camelo -- denuncia que "enquanto ela fazia política, ele ganhava dinheiro". Ana baixa os olhos, mesmo porque sabe que sem a tv o marido terá que voltar a produzir romances -- sob o mimoso pseudônimo de "Shirley Almada".

Outro que se desfaz nos mesmos dilemas é Tuca (Luis Fernando Guimarães), ator que consegue oportunidade em uma pornochanchada, "A Viúva do Sadomasoquista", contracenando -- e brochando -- com a estrela do gênero, Áurea Celeste. E, de fracasso em fracasso, resta beber, cair duro ou até sequestrar cachorro. Zeca e o amigo Ivan (Nelson Dantas) depois de uma noite e tanta acordam -- ironizando o delirium tremens -- com um belo pastor alemão na cama, roubado de Nina (Louise Cardoso).

No decorrer da separação, Ana diz a Zeca que "crise a gente tem é pra melhorar, se não é desculpa pra fraqueza". O marido parece realmente fraco, confuso, e na hora de pegar a mudança no apartamento toca na vitrola o lp "Cores Nomes" de Caetano Veloso, safra 82. Em seguida junta-se a Nina para fazer teatro em tribos indígenas, enquanto Ana conhece Arnaldo (Daniel Filho), sujeito mais enrolado (e fraco, confuso) que o marido.

História paralela, a de Cabelinho (Paulo Cesar Pereio) e a mulher, Cotinha (Silvia Bandeira), termina em striptease da dedicada esposa, durante louca vernissage do artista plástico Walfrido Salvador (Anselmo Vasconcellos) no banheiro do bar. Humilhado, etilicamente dependente do garçom Prepúcio (Sandro Solviatti), Cabelinho muda do vinho pra água e passa a tratar a mãe de seus filhos como uma deusa, o que de fato naquela época Silvia Bandeira não se furtava a ser.

Segunda extensão de lar carioca, -- além do botequim -- a praia mostra-se tímida, sob a trilha-sonora da famigerada Rádio Cidade, então quase ruído incidental dos acontecimentos locais. Outra figuração datadíssima é do veículo-merchandising em formato de tênis, que circulou pela orla durante alguns verões.

O desaparecimento do Esperança, para dar vez a um shopping center, serve de paralelo lúdico ao que o Rio perdeu. E quando celebram a perda, os frequentadores não escapam à triste sina da metrópole que assistiu passiva à retirada do status de capital, à demolição do Palácio Monroe, à fusão com o estado do Rio -- e ao sacrifício de quase tudo que um dia foi orgulho, sem receber qualquer compensação em troca.

Discutindo com Passarinho (Antônio Pedro), Zeca faz auto-crítica: viravam todos caricaturas de si mesmos. Mais uma vez o sentido do diálogo é amplo: dispersos em seu estilo de vida, orfãos de um bem-estar nostálgico, os frequentadores do Bar Esperança são a cidade e seus habitantes acuados pelo progresso decadente, insatisfeitos com uma transformação artificiosa.

Misto de vários bares reais: o Lagoa, o Lamas, o Bar Luiz, a Confeitaria Colombo, "Bar Esperança" acumula emoções vivas, psicanálise dionisíaca, etnocentrismo de primeira. Não à toa, o roteiro passou por diversos tratamentos (Carvana, Denise Bandeira, Martha Alencar, Armando Costa, Euclydes Marinho), montando um comovente retrato da classe-média nos anos 80. Justo quando o país -- e sua urbanidade-síntese -- descobriam-se em exasperante ressaca.


terça-feira, agosto 08, 2006

Terror e Êxtase


Uma velha senhora (Gracinda Freire) está sentada em um banco no final da praia do Leme, ao lado do Caminho dos Pescadores. Com uma garrafa de vodka nas mãos, pragueja contra a vida. Seu destino é beber e no dia seguinte resolver o porre com “copos e mais copos de água gelada”. Mas eis que, naquele princípio de manhã, um fusca conversível estaciona por ali e do carro salta o marginal Mil e Um (“apelido de bandido quando pega, pega de vez!”), aborda a mulher e os dois discutem. O bandido saca uma arma e acerta dois tiros na testa da vítima.

Com esta vinheta melancólica e doentia inicia-se “Terror e Êxtase” (1979), um dos melhores filmes policiais brasileiros, dirigido por um especialista no gênero, Antônio Calmon.

Baseado no livro homônimo de José Carlos Oliveira, “Terror e Êxtase” foi visto à exaustão nos anos 90 pelos adolescentes que descobriam o cinema nacional através das sessões da Tv Bandeirantes. Injustiça que fosse notado apenas pelas tórridas cenas entre o primitivo Mil e Um (Roberto Bomfim) e a dondoca Leninha (Denise Dumont). Além do aspecto voyeurístico, a trama oferece também um apanhado cuidadoso das relações conflitantes entre a classe-média e a periferia da cidade, que encontram no tráfico de drogas seu denominador comum e combustível de desgraças.

Leninha é uma menina da “patota barra-pesada do Baixo Leblon”, o que para bom entendedor do subtexto carioca traduz-se por abastados filhinhos de papai, que encaram uma vida vazia e sem perspectivas mergulhados em toneladas de pó e noitadas de farras. Militante dessa tribo, Leninha paradoxalmente odeia a burguesia – odeia a si mesma – e quer enfiar o pé na jaca, sem saber direito como.

Quando conhece Mil e Um – ele romanticamente tenta assaltá-la – junta-se a vontade e a necessidade. O casal parte para o morro, transam, se apaixonam. Mil e Um tem resquícios de filosofia de porta de botequim e paternalismo barato, que encantam a moça. Ela, por sua vez, oferece a ele aquele tipo de carinho que meninas muito jovens associam à maternidade, em uma doçura ingênua e um bocado irritante. No afã de continuarem juntos, Mil e Um descobre a pólvora e tem a idéia de seqüestrar um amigo de Leninha, o junkie Betinho (André di Biase).

“Ele trabalhou uns tempos em um jornal, aí enjoou, ficou de saco cheio, aí ele largou tudo e agora está escrevendo literatura udigrudi, ele diz que é contra o sistema (...) O Betinho é tão rico por parte de pai e de mãe que ele simplesmente não consegue ser pobre, entendeu? Por isso que ele é revoltado” – é assim que Leninha introduz Betinho para seu homem, que convence a moça a levá-lo na casa do garotão, e, com uma quadrilha de assaltantes de terceira categoria, assaltam primeiro um banco e depois seqüestram Betinho, na ação alucinada de bandidos em fim de carreira.

Leninha precisa ser “mãe” de Betinho e de Mil e Um; logo, enquanto consola o seqüestrado, afaga o sequestrador. Da gangue faz parte Minhoquinha (Anselmo Vasconcellos), psicopata perigoso, que assassina o cachorro da casa apenas para desocupar espaço e prender o zelador no canil. Quando a relação entre Mil e Um e Leninha se desgasta, na pressão psicológica a que estão expostos, o bandido permite ao comparsa que estupre sua namorada, em cena dantesca onde brilha a capacidade e o desprendimento dos quatro atores para que o susto saísse perfeito.

Nada escapa aos olhos de Calmon, que junto com Álvaro Pacheco Júnior adaptou o romance dificílimo do lendário Carlinhos de Oliveira, nome associado à crônica, mas que em “Terror e Êxtase” documentou em um texto longo e complexo todas as nuances do universo paralelo que se ocultava no país.

Capitalizando a droga e a contravenção, a elite naquele tempo abria as portas para o caos institucionalizado que vivemos nos dias de hoje. Assim, nada melhor do que citar Mil e Um, na seqüência final, se explicando para Betinho: “Desculpe o mau jeito, garotão, mas guerra é guerra!”.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Biografia Entrevista - Anselmo Vasconcellos


“Como todo bom filme, terminou em lágrimas”. Com essas palavras, Anselmo Vasconcellos – cinqüenta e três anos de vida e mais de trinta de carreira –, encerrou o longo depoimento que realizamos em seu atual habitat, o Hipódromo Up, onde ensaia e apresenta a peça “Terror no Baixo Gávea”, sucesso absoluto no circuito carioca.

Mais do que uma entrevista, mergulhamos com ele durante duas horas e meia em uma viagem surpreendente. Presença certa na galeria sentimental de qualquer cinéfilo que se preze, Anselmo nos brinda aqui com histórias e revelações incríveis, demonstrando uma rara consciência de seu papel na história dos filmes que ajudou a construir.

A filmografia de Anselmo é tão extensa e complexa, que a melhor forma de entendê-la talvez seja iniciar por um panorama geral. Realizou três filmes com Antonio Calmon, os clássicos “Eu Matei Lúcio Flávio”, “Terror e Êxtase” e “O Torturador”. Com Hugo Carvana atuou em quase todos os filmes do diretor, a ponto de ser sinônimo para o adjetivo “carvaniano”. Além desses e tantos outros, foi a inesquecível Eloína, a coadjuvante mais importante do cinema brasileiro, no clássico “República dos Assassinos”.

Entrevistá-lo não me pareceu tarefa das mais difíceis: tudo em Anselmo é claro e objetivo. Talvez por isso, seus papéis no cinema exalem aquela sensação ímpar de compreensão total do personagem pelo ator, e vice-versa. Em tudo o que fez e faz, Anselmo chama para si a responsabilidade da excelência, que conduz com tranqüilidade e honestidade.

Convido, portanto, os leitores a conhecerem melhor Anselmo Vasconcellos. E admirarem ao final da leitura, não só o gênio, mas o homem por trás da predestinada vocação para a tela grande.


ESTRANHO ENCONTRO – Anselmo, para a gente começar a entender você, fala um pouco das suas origens, das suas primeiras lembranças...

ANSELMO VASCONCELLOS – A minha família, Almeida Carneiro Goulart, tem uma mistura boa de europeus com brasileiros. E uma parte também de origem africana muito forte. Eu cheguei a conhecer uma tia-avó que era negra, uma figura extraordinária. A infância se deu no subúrbio do Rio de Janeiro e na zona rural também, em Bangu, porque uma parte da família morava lá. E isso significava ambientes com grandes proporções geográficas, terrenos baldios. Um ambiente entre o rural e o suburbano. Bonsucesso basicamente, que tinha uma tradição de um lugar bastante interessante em termos culturais. E fui criado brincando em terrenos baldios, em fábricas que havia ali por perto. Por exemplo, uma coisa muito interessante, foi uma fábrica de gesso que havia em frente à casa em que eu morava... Era uma fábrica de imagens. Então as imagens que haviam sido mal formadas ou que não eram vendidas, jogavam em um terreno. E eu brincava muito ali, naquele panteon de imagens. Referências estranhíssimas pra mim, mas eu brincava muito ali...

EE – Você tem irmãos?

AV – Tenho uma irmã, muito mais velha do que eu. Oito anos mais velha. Na realidade sou um temporão, eu sou um acidente na vida dos meus pais. Minha mãe fazia um tratamento para não engravidar e ficou grávida de mim [risos]. E eu nasci em circunstâncias especiais, porque o tratamento que ela fazia na época consistia em coisas pesadas, que poderiam causar algum malefício. Mais estranho ainda foi que a gravidez dela era de gêmeos. Havia eu e mais um outro serzinho lá dentro. E mais estranho ainda é que esse serzinho não se desenvolveu. Ele parou no terceiro ou quarto mês, me conta a minha mãe, e aí o invólucro criado pelo útero cristalizou e não expeliu, isso é que foi estranho. Se tivesse expelido eu tinha dançado, enfim, a natureza tramou ali uma consistência de proteção e eu nasci com uma junta médica, para observar como era aquilo. Ou seja, eu já nasci em um anfiteatro, já nasci com público... [risos]

EE – E sua infância?

AV – Por conta disso, na minha infância acho que tive sempre fascinação pelo duplo. Talvez ainda seja algo presente na minha vida. Sempre queria a mesma coisa duplicada. Devia ser alguma referência inconsciente, que eu absorvi. E brinquei muito. Soltei pipa, inventei brinquedo. Eu tinha um laboratório na minha casa, e tinha visto um filme muito famoso, que era o “Doutor Mabuse”... E a minha fascinação era o mundo científico, então eu tinha um laboratório. Pedi para o meu pai fazer um guarda-pó pra mim e estava escrito lá: “Doutor Mabuse” [risos]. Então era um cientista louco [risos]. Com pouquíssimos anos de idade. Tinha oito, nove, dez anos...

EE – Isso prosseguiu durante a adolescência?

AV – Muitos anos. Essa coisa da ciência prosseguiu durante muitos anos. E minha irmã era uma artista plástica fantástica. Na época, ser normalista era a grande meta, ela estudava no Instituto de Educação e aquelas coisas que ela aprendia, aqueles trabalhos manuais, eu achava o máximo. Então eu trabalhava muito com as mãos e com a imaginação. E meu pai também. Meu pai era da classe dos alfaiates, que é muito importante na história do Rio de Janeiro. Porque era uma bancada comunista. A carteira de trabalho do meu pai foi expedida pelo Partido Comunista Brasileiro, eu tenho guardada até hoje. E foram esses artesãos que pela primeira vez projetaram Charles Chaplin no Brasil, no Rio de Janeiro. E eu fui ver, não a inauguração, porque eu não teria idade pra isso. Mas eu vi muito Chaplin, através desse poeirinha que eles tinham, que era um projetor Pathé. Não sei se era 18 milímetros ou 16 milímetros, 35 não era com certeza. E uma salinha simples assim, onde era projetado, lá em Bonsucesso...

EE – O cinema surgiu aí pra você.

AV – O cinema surgiu aí. E na escola em que eu estudava, tinha uma coisa maravilhosa. Todas as quartas-feiras a escola ia ao cinema, para ver filmes nacionais. Então toda quarta-feira aquela turma de meninos ia visitar o Cinema Paraíso, na Praça das Nações. Quando eu falo isso hoje, por causa do “Cinema Paradiso” as pessoas acham que eu estou inventando [risos]. Mas não é não. Havia um Cinema Paraíso, onde hoje é uma universidade. E nós assistíamos então àquelas comédias. Atlântida, Mazzaropi, os filmes nacionais. Comecei a ver Oscarito, Grande Otelo, Zé Trindade, Wilson Grey. Aquela infinidade de atores brasileiros e me identifiquei demais com eles. Lembro que imediatamente eu tive uma osmose com o jeito deles falarem, com o jeito deles andarem, com o jeito deles comunicarem e brincava com isso sempre, o tempo todo. Gostava de imitar.

EE – E a adolescência?

AV – Nós saímos de Bonsucesso e fomos para a Tijuca. Fundei um grupo de motoqueiros, porque tinha assistido no cinema ao “Wild One”, do Marlon Brando, e fiquei louco. A gente ia para o Café Palheta, que era a Broadway da Tijuca, e o Cinema Metro, que era fantástico, todo art decó. E aprontava um mundo de sacanagens ali. Eu soltei uma galinha dentro do Cinema Metro [risos]. Botava sal de frutas no açucareiro, quer dizer, quando o cara botava no café fazia shwrrrr [imita o ruído]. Tudo isso era um processo meio assim, veio daquele filme, veio um comportamento anárquico. E isso me trouxe um monte de problemas, e esses problemas passaram a ser pontes de reflexão para mim e para minha família... Eu passei a ser um aluno terrível. Lembro de ter feito a escola inteira dar uma gargalhada em uníssono no hasteamento de bandeira, aquela coisa de tocar o hino. E eles pra segurarem a minha onda cometeram um erro. Pediram para eu hastear a bandeira. E aí no que eu fui hastear a bandeira, fiz um trejeito entre Oscarito e Zé Trindade que matou a galera de rir.

EE – Fala mais desse período de formação...

AV – Um dia minha irmã me deu um livro que mudou a minha vida, um livro do A. S. Neill, chamado “Liberdade Sem Medo”. E aí eu me embasei, quer dizer, aquela teatralidade, aquele excentricidade comportamental adquirida por essas vias todas, ganhou uma ideologia, ganhou um suporte ideológico, técnico. Comecei a escrever artigos contra o chamado ensino padronizado ao qual eu estava submetido. Fundei um jornal, escrevia isso. E fui contactado, por causa desse jornal, pelo movimento estudantil secundário, que estava começando a surgir, e comecei a entrar no movimento estudantil, comecei a ter uma consciência política. Eu já ouvia muita coisa dos meus pais, meu pai sobretudo, que era um operário consciente. E comecei a ter um suporte ideológico muito forte, muito bacana. Cheguei a participar daquela porradaria que teve na 28 de Setembro, com a polícia, com o Exército.

EE – Aí a gente já está em que ano?

AV – Já pulei pra 67, 68. Acabei expulso do colégio, fiquei sem o direito de estudar num colégio público. Por causa dessas coisas, essas transgressões todas. E minha irmã conseguiu uma bolsa no São Bento, ela era professora do São Bento, que foi assim, num ano eu tive que recuperar tudo. E fui tentar a faculdade e queria fazer medicina. Mas um dia entrou uma professora na sala de aula, e era uma professora de literatura... Era obrigatório naquela época fazer literatura também, ou redação, não me lembro direito. E eu me apaixonei por ela. Imediatamente. Eu olhei pra ela, meu coração zum, pulou. E ela tinha falado que gostaria que a gente fosse ao teatro, então eu parei ela, disse: “Professora”, ela respondeu “O que foi?”. Eu olhei nos olhos dela, na boca dela, por um segundo eu percorri o corpo dela inteiro, e o que veio na minha cabeça foi “Eu faço teatro”. Ela falou “É? Quando é que eu posso ver?”. Era uma segunda-feira, eu falei “Sexta-feira tá bom?”. Ela falou, “Tá ótimo”. Aí voltei pra sala de aula, reuni minha gangue, falei “Olha, nós vamos fazer teatro”. E voltando pra casa, eu pegava um ônibus, um 434, acho, e no ônibus escrevi uma peça ...

EE – Qual era o nome da peça?

AV – Chamava-se “O Auto da Expiação”, com “x”. Escrevi essa peça, basicamente um monólogo. Ensaiei com os meninos e no que eu comecei a fazer, comecei a perceber que aquilo ali era uma coisa muito parecida com o que eu tinha feito a infância inteira, que era criar coisas. Criar ambientes. Aí eu me lembrei da fábrica de imagens, fiz umas imagens. Lembrei também de uma fábrica de fogos que eu visitava, aí bolei uns fogos que explodiram durante o espetáculo, fiz uma luz, fiz um figurino.

EE – E a professora?

AV – Eu vi que depois da apresentação, que foi um sucesso, a professora estava falando com os meus primos, com a minha família. Fui guardar as coisas, trocar de roupa e quando eu voltei, eles estavam meio que em reunião. E um primo, que era um cara muito bacana na minha vida, o Rapuano, ele virou e disse assim: “Anselmo, você não tem que fazer medicina não”. Só falou isso. “Você não tem que fazer medicina não”. E aí aquilo foi um insight, um marco na minha vida, entende? Anos depois achei novamente esse texto e por incrível que pareça ele é um auto português, com as características todas de um auto português. Devia estar no meu inconsciente, nos meus arquétipos, na minha memória afetiva. E aquela paixão pela professora abriu essa comporta, abriu esse hard disk e captou isso. E depois foi uma sucessão de fatos acontecendo e que me encaminharam para a coisa de ator. Mas foi assim, foi um acidente...

EE – E como você chegou em um set de filmagem, como ator?

AV – Foi quando eu fazia uma peça, a minha primeira peça profissional, “Calabar”, que não estreou porque foi proibida pela censura, em 1973. Um dos atores, José Roberto Mendes, que hoje é um diretor, trabalha há anos na TVE. Ele era louco por cinema e tinha uma câmera de 16 milímetros. E o José Roberto teve uma idéia genial. Já que ele não podia fazer um filme, ele decidiu fazer o trailer do filme [risos]. Que era um spot, uma coisa de quatro minutos, de cinco minutos. Chamava-se “Os Revoltados”. Então era só a apresentação dos personagens. Foi a minha primeira experiência com cinema, com um set de filmagem, com iluminação e com uma câmera. E os atores eram atores profissionais, alguns já com uma história de cinema, como por exemplo o Ankito, que foi um ícone do cinema brasileiro. E essa foi a minha estréia em cinema.

EE – E a estréia profissional em cinema?

AV – A estréia profissional também foi resultado de uma participação minha, num espetáculo fantástico chamado “O Último Carro”, que foi a última produção do Grupo Opinião, do João das Neves. Um espetáculo que marcou uma época e que todos os diretores de cinema foram ver. Jabor, Carvana, John Herbert, Leon Hirzsman. O Leon chegou a filmar o espetáculo, inclusive. Todos, todos. Vivia apinhado de gente ali. E eu era um destaque no espetáculo, uma figura que chamava a atenção. E então o Carvana e o Emiliano Ribeiro se apaixonaram pela figura que eu era, que estava ali. Chamaram para fazer o “Se Segura, Malandro!”, que foi o meu primeiro filme profissional. Com salário, carteira assinada, papel. Foi uma delícia.

EE – Foi o início da parceira com o Hugo Carvana, que depois viria a se repetir.

AV – Eu fiz todos os filmes dele, com exceção de “Vai Trabalhar Vagabundo” 1 e 2. Os outros todos eu fiz. E no outro dia, o Canal Brasil colocou uma coisa lá que eu achei emocionante. Falou que eu era uma figura “carvaniana” [risos].

EE – E as filmagens?

AV – O “Se Segura” eu me lembro que a gente filmou numa favela. Na própria favela que aparece no filme. E a coisa que mais me impressionava era a maneira como a gente interferia naquele cotidiano e como que a favela sumia e nós virávamos os personagens da favela. E o que eu me lembro mais mesmo era de um documentário, de um making of que estava sendo feito pelo Sergio Rezende e a Mariza Leão, e eles me perguntaram qual era a minha sensação, de um ator de teatro que estava começando a fazer cinema. E pelas instruções que eu recebia do Carvana e da equipe, dos seus auxiliares, dos assistentes, do fotógrafo e tudo mais, eu tinha percebido o seguinte: que no teatro a minha instrução era representar pra quadragésima fileira do teatro, então eu tinha que expandir a minha representação lá pra quadragésima fileira. E que no cinema, não. No cinema eu tinha só que sentir, porque tinha uma câmera captando. Então essa diferença entre expansão e recolhimento foi uma coisa que eu aprendi muito via o Carvana, muito via aquelas pessoas que fizeram o “Se Segura, Malandro!”.

EE – E daquele papel inicial, na favela do “Se Segura”, você engatou outros.

AV – Na realidade, tudo acontecia em seqüência, porque era a época da Embrafilme. Havia um produção constante no cinema. Eu saí do “Se Segura, Malandro!”, e meu segundo filme foi com o Paulo Porto, chamado “Fim de Festa”. E o Paulo Porto era muito ligado ao Jabor, o Jabor estava começando a fazer o “Tudo Bem”, ele tinha visto “O Último Carro”, as coisas se juntaram e o Jabor me deu aquele fantástico personagem, que é o Washington, do “Tudo Bem”, com aquele super elenco.

EE – Ele alugou o apartamento retratado no filme?

AV – Ele alugou o apartamento, colocou o elenco todo lá e mesmo quando você não filmava ele pedia pra você ir para lá, para ter uma convivência artística ali. Então passei semanas convivendo com a Fernanda Montenegro, com o Paulo Gracindo, com aqueles atores maravilhosos, alguns que estavam surgindo, como o Luiz Fernando Guimarães, a Regina Casé. Enfim, formou-se uma família. E foi um trabalho extraordinário, eu considero este filme uma obra-prima. Um corte cirúrgico na sociedade, na classe média brasileira e isso me preparou muito. Depois veio o Denoy de Oliveira, um cineasta de São Paulo, já falecido, e que queria o Carvana pra fazer um papel que eu acabei fazendo. O Carvana não pôde fazer. “Bom, se não tem o Carvana, tem o Anselmo”. E esse outro filme também me deu um prêmio. E eu faço basicamente uma interpretação carvaniana. Chama-se “O Amigo do Super-Homem”.

EE – De 78, não é?

AV – Acho que sim, não me lembro. Depois houve uma explosão do curta-metragem. Então todas as pessoas que eu conheci, que eram assistentes, como o José Joffily, o Emiliano Ribeiro e tantos outros, o próprio Sergio Rezende, a Mariza Leão, o Jorge Durán, começaram a fazer curtas. E eu era a novidade do cinema brasileiro. Quando os filmes estrearam, eles estrearam em seqüência. Então eu me lembro nitidamente disso, de um dia eu passar pelo Flamengo, tinha aquele cinema duplo ali, e tinha dois filmes diferentes comigo, eu participava dos dois. Fui filmando em seqüência e eles foram estreando em seqüência.

EE – Tudo isso preparando terreno para um clássico belíssimo do cinema policial brasileiro, o “República dos Assassinos”. Como é que chegou pra você o papel da Eloína?

AV – É, então, os filmes tinham estreado e duas pessoas me perceberam de uma maneira muito forte. A primeira foi a Graça Mota, que falou para o Daniel Filho. “Olha, vi um ator, em dois ou três filmes, você tem que levar pra televisão.” E outra foi o Carlos Prieto, que era um diretor de arte, figurinista fantástico, irmão da Adriana Prieto, e que estava no “República dos Assassinos”, dirigido pelo Miguel Faria Jr. E eles precisavam de um jovem ator para fazer o par da Eloína, o homem da Eloína, que por sua vez era um travesti que arquitetava a vingança contra o assassino desse namorado. O Prieto ambicionava muito ser a Eloína. A gente estava na praia, ele me deu o toque. “Anselmo, você tem que fazer esse filme porque eu acho que você tem a sensibilidade, você tem uma masculinidade, você tem uma coisa gostosa. Vai ficar lindo”. Aí o Miguel me chamou, fui lá, fui contratado para fazer o Carlos Alberto dos Santos, papel que o Tonico Pereira acabou fazendo. Saí da produtora feliz da vida. Era um filme com um bom orçamento, papel legal, mais um filme. E fui pra praia, encontrar a mulher com quem eu vivia na época, e eu tava apaixonado pra caramba. E chego na praia...

EE – Pode falar o nome dela ou não?

AV – É Paula. A famosa Paula. E aí chego na praia conversando com o Jorginho Fernando. “E aí?”, “Pintou um filme maravilhoso”, “E o que você vai fazer?”, Eu contei: “É a história de um travesti, que tem um namorado e esse namorado vai morrer, e ela aí empreende toda uma vingança, toda uma revanche contra o cara que matou. É uma história lindíssima, é uma história de amor entre um travesti e um assaltante de carros”. Aí o Jorginho virou pra mim e disse: “Você vai fazer o travesti, não é?” Não consegui dizer para ele que não. Aí a Paula olhou e disse “Ah, você é ator pra fazer isso. Você tem que fazer isso, é a sua cara fazer isso.” Olhei pro outro lado da rua, tinha um orelhão, eu estava com o contratinho, a cópia do contratinho na mão, o telefone da produtora. Falei, “ferrou”. Liguei para a produtora, atendeu o Bigode, o Luiz Carlos Lacerda, que era o produtor executivo do filme. “Bigode, quem vai fazer o travesti?”, “Esse é o problema. A gente já entrevistou aqui vários travestis, eles são muito over pro papel, que é enorme. E estamos em busca de um ator, mas tá um perigo para qualquer ator que vá fazer isso, vai ficar marcado.”, “Eu posso fazer um teste?” “O quê? Você já tá contratado pra fazer o Carlos”. Eu falei: “Pois é, já estou nesse papel, mas eu posso fazer um teste pro travesti?”, “Mas, cara, você tá de bigode, o Miguel não quer que você tire o bigode”. Eu usava um bigode, marcava muito aquela época [risos]. “Mas tudo bem, eu vou falar com o Miguel, se ele topar...” E o Miguel topou fazer um teste e foi engraçadíssimo. O Carlinhos fez uma maquiagem lindíssima, me botou uma peruca e eu estava de bigode [risos].

EE – Essa filmagem se perdeu, existe? Tipo um extra pro dvd...

AV – Seria maravilhoso, seria maravilhoso. Mas foi filmado com película, eu me lembro, com câmera. E aí o Miguel, pra escapar do bigode, mandou a câmera fechar num close-up, num super close-up. Quando ele viu no copião, viu que eu tinha um olhar. E aí ele me deu o papel. Comecei a ir não sei onde fazer laboratório, de isso e daquilo outro e sempre isso. E veio o carnaval e eu esqueci um pouco, estava vivendo aquele grande amor. De repente toca o telefone. “Olha, amanhã você filma. Houve uma mudança aqui na filmagem, amanhã você tem que filmar. Então vai passar um carro aí pra te pegar. O Carlinhos quer que você faça depilação no corpo, para você ficar sem pêlo. Você vai aparecer de calcinha, com um topzinho, ele quer fazer também as suas sobrancelhas e quer pintar o seu cabelo.” Caceta! E aí foram essas etapas. Eu pintei o cabelo, fiz a sobrancelha e aí fui pra depilação. Quando eu fui pra depilação, me lembro como se fosse hoje, era uma traveca que fazia a depilação e quando ela soube que era eu que ia fazer o filme... O papel estava sendo ambicionado por todos os travestis. A Eloína... A Eloína existe. Existe um travesti famosérrimo chamado Eloína. E aí a bicha me olhou assim, e aí ela passava cera quente, puxava... uahhhhh.... quer dizer, na verdade eu passei por uma tortura ali [risos].

EE – Chegou a dar briga?

AV – Não, não. Quando terminou ela se tocou que eu não reclamei, não falei nada. E ela também não falava nada. Aí eu saí de lá, e aquela coisa me pinicando, sabe assim? Lembro que isso foi em Copacabana, eu vi o mar, disse “Vou dar um mergulho no mar”. Do jeito que eu tava. Parei o carro e naquela época a gente usava uma tanguinha zazá. Eu entrei com aquela tanguinha, aquela cuequinha, e dei um mergulho no mar. Quando eu dei um mergulho, foi um choque. Porque os poros estavam todos desprotegidos, falta de pêlo, sensibilidade. E aquilo veio uma sensação, uma sensação muito feminina. Aquela sensação com o mar foi o ponto de partida. Fui pro set de filmagem, fazer um take. Era eu na cama, uma cena que aparece no meio do filme. Eu deitado, assistindo à televisão. Me lembro do Miguel dizer “Nossa, que coxa, que pernas” [risos]. Ele angulou uma câmera de tal jeito que ficou perfeito. E na hora de eu me vestir o Prieto disse “Bota essa calcinha aqui.” Eu botei a calcinha e não gostei. Não me senti bem com aquela calcinha. E a gente usava aquelas mochilas na época, não era mochila, eram umas bolsas nordestinas. Fui pegar um cigarro, alguma coisa assim, e aí quando eu fui pegar tinha a calcinha da Paula dentro [risos]. E eu achei que aquilo era um sinal, sabe, inconscientemente eu vesti a calcinha da Paula. Imediatamente a Paula... sabe... o amor, quando você ama uma pessoa você fica parecido com ela, você apreende ela, você pega o jeito dela. E aí eu deitei naquela cama como eu via aquela mulher deitar, como eu via, como eu observava dentro de mim. Então naquele momento ali não tinha nem como representar, não tinha nem lido ainda.

EE – Como eram os ensaios, a construção dos personagens?

AV – A gente não fazia leitura naquela época, nada. Era uma coisa que era feita na hora mesmo. E o personagem surgiu assim. Surgiu de sensações, das mulheres que eu conheci, que eu amei, que eu observei. E engraçado que o Miguel pedia para eu externar mais o personagem. Não quero usar a palavra desmunhecar porque não foi isso que ele me pediu, mas ele queria uma coisa mais pra fora, mais evidente. E eu não consegui fazer, porque a sensação interna era muito forte. E quando eu me via, o Prieto me maquiava, eu ficava absolutamente igual à minha irmã. Que aí, voltando em tudo isso que eu te falei, oito anos de diferença, a minha irmã já era uma mulher feita e eu era um pré-adolescente. Então eu ficava vendo aquela mulher se vestir, tomar banho, ir à praia. Até mesmo pela distância, pela dificuldade de diálogo com ela por causa da idade, era tudo de observação, não era de aproximação. Então isso ficou muito forte em mim, não coloquei muito o personagem pra fora, eu coloquei o personagem todo pra dentro. Por isso que ele é muito bonito. Por isso que ele é muito intenso, porque ele é todo insight.

EE – Acho que esse foi o diferencial.

AV – Não tem um minutinho que eu faça uma gracinha pra fora, pra conseguir um efeito. Pelo contrário, eu não desgrudo da sensação, da reação com a minha própria anima, com o meu próprio inconsciente feminino. Então isso foi muito bonito. Porque é o trabalho de um ator que consegue colocar para fora sua própria feminilidade. Como todos os homens têm e reprimem. Somos treinados, adestrados pra isso. Muita gente pensa que eu sou gay, bi ou sei lá o quê [risos], e não sou. Por circunstâncias, não sou [risos]. Heterossexual absolutamente convicto e testado. É o surpreendente para o filme. Como que dois atores famosos por serem heterossexuais, se entregaram tanto aos seus personagens. E a segunda cena que eu filmei foi com o Tonico Pereira...

EE – Que é aquela cena da pensão?

AV – É, o início do filme. Eu comecei pelo meio e depois voltei pro início. E o Miguel, durante aquela cena que a gente foi para o terraço, pediu pra gente dançar, ligaram o rádio, e alguém ficou cantando “Ronda”, não me lembro quem foi [Cantando trecho da música:] “De noite, eu rondo a cidade, a te procurar.” Começamos a dançar e o Tonico falou baixinho pra mim: “A gente tem que fazer isso direito, Anselmo”. E aí o Miguel disse: “Beija.” [pausa] E eu beijei. E o Tonico beijou também. E foi a primeira vez que eu beijei um homem dessa maneira. E foi um beijo, um beijo mesmo [risos]. Quando eles viram o copião então, eles falaram “Ninguém incomoda o Anselmo, deixa o Anselmo exalar esse personagem”. Aí o personagem foi ganhando vida própria. Tanto é que ele não matava...

EE – ... Não matava?

AV – Não, no roteiro ele não matava. Isso foi uma conquista do personagem.

EE – E do ator também.

AV – É... Hoje, aos cinqüenta e três anos de idade e trinta e tantos de carreira, acho que determinados trabalhos que você faz como ator, não são propriamente trabalhos de ator. No sentido da construção física, milimétrica, consciente, lógica, ideológica, técnica. Tem trabalhos que transcendem um pouco isso. É como se você conseguisse realmente entrar numa quarta dimensão. Eu não estou aqui tentando vender nenhum peixe “mágico” não. Mas tem isso sim. A Eloína foi um mergulho dentro de um inconsciente. E ali está a base de todo o meu trabalho que viria depois. Engraçado que a Eloína é coadjuvante no filme, ela não é protagonista, e eu ganhava prêmio de melhor ator. Nunca ganhei um prêmio com a Eloína de melhor coadjuvante, sempre foi de melhor ator, inclusive fora do Brasil. Então eu penso sempre, como que eu consegui fazer isso com tão pouco, com tão pouca idade e sem escolaridade, sem formação, sem nada. Eu vejo que trabalhei com a disponibilidade, eu trabalhei com a despreparação, eu trabalhei com a entrega. Isso passou a ser a minha técnica de trabalho. Eu não subordino a minha atuação às técnicas que eu adquiri ao longo da carreira ou às coisas que eu estudei depois. Não. Eu começo sempre do zero. A experiência não significa nada, pelo contrário. Como diz o Pedro Nava, “a experiência é um farol virado para trás”. Ilumina o que já passou.

EE – E é interessante ver um ator como o Tarcísio Meira, o João Coragem da tv, fazer aquela cena de sexo com a Eloína. Houve algum mal estar na hora ou a atmosfera transcendia?

AV – Pelo contrário. Exatamente isso que você tocou. Parecia que inconscientemente, ou conscientemente... Eu, inconscientemente total [risos]. Mas aquelas pessoas, com muito mais consciência, muito mais anos de vida, eles sabiam. O Tarcisão, que é um baratão de pessoa, também. Todo mundo estava sacando que tinham uma coisa importante na mão.

EE – Mais um exemplo de filme para ser redescoberto.

AV – Com certeza. Eu estive agora no Rio Grande do Sul, fui homenageado pelo FLO, Festival do Livre Olhar, e houve a exibição do “República”, com comentários meus. E a garotada de lá, como vocês, tem uma memória crítica do cinema nacional. Uma garotada de 18, 19, 20, 21 anos, falando sobre o que esse filme significa pra eles. Como que esse filme fala da realidade brasileira, dessa conjuntura polícia-bandido-política, de uma maneira extraordinária. E até me conscientizei de uma coisa que eu não tinha percebido até então. Porque quando eu li o panfleto do Festival, estava escrito “Anselmo Vasconcellos, um ícone do Cinema Marginal Brasileiro”. Eu não sabia que eu era isso [risos]. Nunca pensei sobre isso. Porque eu transitei. “Eles Não Usam Black-Tie”, que é Leão de Ouro em Veneza, ao “Segredo da Múmia”, que é isso, é um cinema marginal. Eu transitei nisso aí sem pensar muito. Mas, de repente, essas coisas todas. A Eloína, o Minhoquinha do “Terror e Êxtase”...

EE – ... O Pola Negri, do “Perdoa-me Por Me Traíres”...

AV – O Pola Negri. São iconoclastas. A minha maneira de representar, que é muito particular, muito pessoal. Meus erros. Lembrei de uma coisa agora, eu ia falar de como os meus erros geraram qualidades por generosidade dos outros. Porque eu aprendi, Carvana me dizia uma coisa assim, “Não pára se você errar, porque a gente aproveita e a gente não perde a mágica de estar rodando. Então erra, respira e continua”. No “República”, na cena final, quando eu estou falando com o Tarcísio, convidando ele pro barco, eu dou uma rateada. É lindo, porque o personagem está nervoso, o personagem está em pânico e é bárbaro. E o Miguel manteve. É lindo, porque é normal, é humano. Quer dizer, eu aprendi isso muito cedo.

EE – Passando pro “Eu Matei Lúcio Flávio”, acho que foi o seu primeiro trabalho com o Calmon, não é?

AV – Exatamente, foi um encontro com o Calmon, que é uma figura extraordinária. Ele me trouxe uma sofisticação, uma coisa nova-iorquina, freak, underground, um deboche sofisticado. E o Calmon estava ali com o Jece Valadão para fazer uma pequena série de filmes. O Jece Valadão sempre foi um produtor extraordinário, não podemos nos esquecer disso. Embora ele seja uma figura dúbia, num panorama geral, ele é um realizador extraordinário, na minha opinião e na opinião de qualquer pessoa que conheça cinema brasileiro. E o Jece estava produzindo o “Eu matei Lúcio Flávio” sob a concordância e as bençãos do próprio Mariel. Mariel deu pra ele aquele medalhão que ele usa no filme, é o medalhão do Mariel. Tinha uma força bárbara. E o Calmon me chamou para fazer aquele personagem. É um filme que tem quatro leituras no mínimo. E trabalhos extraordinários, como por exemplo o da Monique Lafond. Então foi uma delícia entrar na Magnus Filmes e fazer um filme de estúdio. Dali eu faria três filmes. “Eu Matei Lúcio Flávio”, “O Torturador”, também produção do Jece Valadão, e um curta genial chamado “Elogio Histérico da Razão”, que foi um dos últimos textos do Nelson Rodrigues, filmado pelo sobrinho dele, que é o Alberto Magno, filho do Jece Valadão. Então fiquei dentro de estúdio, e filmar em estúdio é muito interessante. Porque é um trabalho mais de câmera. Câmera... no sentido de “câmara”, de você estar dentro de um ambiente muito propício para filme.

EE – Já no “Terror e Êxtase”, como foi chegar naquela cena brutal em que o Minhoquinha estupra os personagens do André di Biasi e da Denise Dummont?

AV – Ali estava reunido um tripé extraordinário, que era o Calmon, novamente o Carlinhos Prieto, eu, o Bonfim, a Denise Dummont, o André di Biasi, que são pessoas muito próximas, com quem eu vinha filmando muito. No dia dessa cena, que era uma noturna, a gente tinha uma diurna que era a cena em que começa uma crise de sensibilidade do personagem do Bonfim, do Mil e Um, em relação à seqüestrada, que é a Denise Dummont, um caso dele, com quem ele tinha uma relação amorosa. Ele está em silêncio olhando para ela, não sabe o que fazer, ainda há um vestígio de paixão, mas ele tem um trauma muito maior. Ele está executando uma tarefa, ele tem que separar essas duas coisas, e o Minhoquinha é a arma dele. É a faca mais pontiaguda que ele tem. E eu não tinha texto nenhum pra falar naquela cena e o Calmon botou uma música, que por acaso era a Rita Lee. Não me lembro agora, mas era uma Rita Lee. Até tem um poster da Rita Lee, que é um propósito do Calmon, mais uma quarta leitura do Calmon. E aí no ensaio eu comecei a dançar. Na época eu estava ensaiando jazz, com o Lenny Dale, porque ia fazer o “Ciranda Cirandinha” na Globo. Estava estourando aquela coisa dos “Embalos de Sábado à Noite”, e eu ia fazer um cara que dançava. Então eu estava com o corpo todo trabalhadinho para dançar e resolvi dançar, o Calmon achou genial. Aquilo ele manteve no filme. E sem que eu soubesse, aquela atitude corporal me despreparou para quando chegou a noturna. Despreparou pra encarar aquela cena terrível com o André di Biasi e a Denise Dummont, horripilante, que foi barra pesada de fazer, porque são duas pessoas queridas virando absolutamente contra você e você contra elas. Foi muito difícil de fazer, mas a gente fez de primeira. Foi uma coisa assim que... Calmon sabe filmar esse tipo de coisa, então não foi assim doloroso de ter que encarar aquilo muitas vezes. Foi uma coisa que foi um surto. Vai e faz, entende?

EE – E aí no “Amante Latino”, você foi para um filme mais pitoresco, naquela loucura toda da “Magalmania”, de 79...

AV – É o encontro também com outra grande figura, o Pedro Carlos Rovai, que percebeu esse ícone de latinidade, de almas, de explosão, de arquétipo, que é o Sidney Magal. Então o Rovai, que é um visionário na minha opinião, ele percebeu a questão do Magal. E nós fizemos esse filme, que é tipo Roberto Carlos, na linha Roberto Farias, e que teve a sua razão de ser. Foi muito engraçado, porque eu tenho uma certa semelhança com o Magal. Inclusive no teatro já brinquei de fazer o Sidney Magal, com muito resultado. E aí eu tive que ficar diferente dele, pra representar o antagonista dele. Então tive que criar um personagem. Pintei o cabelo, os gestos. Foi muito interessante fazer, foi muito engraçado fazer.

EE – Você interpretou depois outro travesti, o Pola Negri de “Perdoa-me Por Me Traíres”. Teve algum medo de ficar estereotipado pelo “República”?

AV – Bom, sem dúvida nenhuma eu sabia que ficaria marcado, fiquei marcado e acredito até em várias oportunidades que viriam naturalmente se eu tivesse feito, por exemplo, o Carlos Alberto dos Santos, o papel que tinha sido me destinado. Eu teria consolidado uma imagenzinha como o machão, gostosinho, moreno, a figura que eu sou e que foi aproveitado esporadicamente. Mas o “República” é de 79, que é uma virada de década, marcou muito a época, marcou muito a mim sobretudo, e eu fui muito premiado com esse filme. Então eu fiquei um pouco marcado por isso. Não que tivessem aparecido não sei quantos travestis. Pelo contrário, não aconteceu isso...

EE – Ao mesmo tempo, são papéis diferentes, não é?

AV – Completamente diferentes. Porque o Pola Negri não é tão somente um homossexual. Pelo contrário, ele é o que na época do Nelson se chamava “gilete”. Um cara que corta dos dois lados, como a própria expressão quer dizer. E tinha uma masculinidade, porque ele é o gerente daquele prostíbulo, daquele rendez-vous. Ele é o que segura a barra. Este personagem é um personagem do bas-fond carioca, um personagem das entranhas, da malandragem carioca. Tem uma galeria de tipos como esse que passa por Madame Satã, que passa por Miguelzinho Camisa Preta, que passa por Sete Coroas, é uma plêiade de estrelas, desse universo que o Nelson Rodrigues, como bom repórter policial, sabia do que estava falando. Então tinha que ter essa dubiedade. Quem me ajudou muita na composição e na compreensão da Pola Negri foi o saudoso Sadi Cabral, que faz o senador no filme. Ele viveu muito essa época, desses personagens. As prostitutas polonesas, que é a representação da Madame Luba, os rendez-vous que existiam no Rio de Janeiro, que fizeram parte da transformação do comportamento sexual do homem brasileiro, sobretudo carioca, um universo fantástico. Eu comecei a compreender esse tipo de serviçal, dúbio, cheio de arestas, cheio de mistérios, o personagem foi construído com essa consciência.

EE – Vamos pular para o “Segredo da Múmia”, que também renderia horas de papo...

AV – O Ivan Cardoso me convidou pra fazer um projeto dele, um filme B. Tipo aqueles filmes da Hammer, e me convidou para fazer o galã do filme, que era o repórter. E me deu o roteiro, eu li o roteiro. “E aí, vamos fazer, vamos fazer”. Eu falei, “Vou fazer sim, mas só que você disse que estava me convidando pra fazer o papel principal do filme, mas não. Você me convidou pra fazer o repórter.” “Mas é o papel principal do filme”, “Não. Como é o nome do filme?”, “O Segredo da Múmia”, “Não é ‘O Segredo do Repórter’. É o segredo da múmia, a múmia é um personagem extraordinário, só foi feita por grandes atores, eu quero fazer a múmia”, “O quê?” [risos] Eu quero fazer a múmia, depois de ter feito um travesti, depois de ter feito não sei o quê, agora eu quero a máscara total, que é o corpo inteiro. Não aparecer nada do meu corpo. Aí ele percebeu. Falou “É mesmo. Do cacete. Vamos fazer”. E começamos então a fazer. Só que pra coisa ganhar um aspecto legal, a gente começou pela parte em que a múmia era viva. O Runamb, que era um egípcio louco, apaixonado por uma mulher, um psicopata de época [risos]. E aí quando o Oscar Ramos me vestiu com aquela roupa e aquele cajal no olho, aquilo caiu em mim perfeitamente. Eu poderia ter sido um egípcio tranqüilamente. Essa foi a parte maravilhosa. Beijar mulheres, andar de cavalo, até o dia que chegou de fazer a múmia propriamente dita, que aí foi um absurdo de... [risos]. Eu não sabia aonde é que eu estava me metendo. O Oscar Ramos construía a múmia junto com a Nina de Pádua, no meu corpo, então eu era mumificado todos os dias. Eram camadas e mais camadas de gaze.

EE – Isso por quanto tempo?

AV – O filme parou não sei quantas vezes. Era uma produção marginal, tinha uma pequena grana da Embrafilme, mas era uma produção totalmente marginal. E o Ivan Cardoso fazia questão de que o filme tivesse essa característica underground mesmo. Só que as paradas... e na realidade ele vinha fazendo esse filme já de priscas eras, tanto que tem um material preto-e-branco que entra no filme, bem anterior, e até uma múmia que não sou eu [risos]. Não é feita por mim. E aí a gente foi conseguindo adesões. A Regina Casé, o Cláudio Marzo, a Dora Pellegrino, enfim, uma série de pessoas que foram entrando. Quer dizer, o elenco básico mesmo era o Wilson Grey, a Clarice Piovesan, eu e o Felipe Falcão. Eram os personagens básicos. O resto foram participações afetivas, especialíssimas que depois foram entrando. O Evandro Mesquita, a Tânia Boscoli, foram se agregando ao filme. Mas foram filmagens muito interrompidas. Muito tempo. Um verão carioca, eu vestido de múmia andando pela cidade, carregando mulheres, um absurdo. E na hora de fazer xixi, por exemplo? [risos] Como é que fazia? E na hora de beber alguma coisa?

EE – Canudinho?

AV – Canudinho, depois a gente foi se aperfeiçoando. Aí tinha um macete aqui, na parte do sexo, que dava pra tirar, a gente foi descobrindo. Mas foi engraçadíssimo. No primeiro dia da filmagem com o Grey, era a primeira vez que a múmia aparecia e cortava a cabeça do Igor, que era o Felipe Falcão. A cabeça dele rolava no chão. E o Grey entrava, porque era o cara que ele tinha criado. E o Grey entrou, over-acting total. [Imitando:] “Iiiiiigooooorrrrrr”. Aquilo assustou todo mundo. Porque até então a gente estava com a idéia de fazer um filme B. O filme B, ele é feito com uma verdade, ele não é feito com um humor trash, com um humor crítico, ele é feito na verdade mesmo. Resulta numa coisa trash, mas não é feito para tal. E aí eu senti que o Grey tinha dado o tom do filme, e eu acho que o Ivan captou isso também. E o filme começou a ganhar características de chanchada. De humor, de gags, de trash. E na hora da edição foi aquele banho de criatividade. Botar música de filmes famosos, coisas engraçadíssimas. Porque estava previsto de a gente ir pro Cairo filmar, e claro que a gente não foi pro Cairo filmar. O Ivan teve uma solução fantástica, filmar o cartão postal do Cairo. “Cairo, mil novecentos e...” era o cartão postal. E corta para onde hoje é o Novo Leblon, aquelas dunas que tinham ali na Sernambetiba, eu num cavalo. Maravilhoso isso, entendeu, maravilhoso. E aí se descobriu o terrir, descobriu esse filão fantástico, em que eu trabalho até hoje. Hoje eu faço uma coisa chamada “Teatro do Terror” que são comédias trash, inspiradas nesses produtos “equivocados” entre aspas e que geram uma comicidade extraordinária.

EE – Indo para um extremo oposto, como foi o “Eles Não Usam Black-Tie”, com Leon Hirszman ?

AV – O Leon e o Guarnieri eram a dupla que executou o trabalho e que pensou o trabalho com uma formação política muito declarada, muito assumida, muito conseqüente. Leon, uma pessoa que faz uma falta enorme, um pensador político extraordinário. Esse filme é muito diferente de todos os outros que eu fiz. É um filme que teve ensaio, é um filme que teve leitura de mesa, que teve uma discussão política sobre as intenções que iam percorrer todos os setores do filme. E eu queria fazer o Tião. Dessa vez não deu certo a troca [risos]. Ele já estava fechado com o Riccelli, que faz um lindo Tião. E eu fiquei então com o Gesuíno, que é o pelego, que é o cara do lado dos patrões. Era muito difícil para mim fazer. Talvez foi o personagem que eu encontrei mais dificuldades. Eu representar o lado pelego, o lado traidor, o lado vendido, era muito sofrido para mim. Eu via as cenas da greve, da marcha dos operários, a porrada com a polícia e eu tinha tomado porrada da polícia, eu queria estar desse lado, mas eu estava do outro lado. Me lembro de uma cena, em que eu ficava dentro da fábrica. Todo o elenco ficava do lado de fora [risos]. E o Leon olhava pra mim, dizia “Não se deixe seduzir por isso, não se deixe seduzir por isso, você não olha dessa maneira”. E aí ele foi me dirigindo, me dirigindo, e eu tive dificuldade de confeccionar o olhar de quem debochava daquilo, de quem achava que aquilo estava errado. O Gesuíno, na realidade, é o apêndice do Tião, tanto que é um personagem que resume... vem de uma peça tetral. Ele resume todo o lado patronal, a esperança de ter um way of life, que seduz o Tião. Pouca gente sabe disso, foi muito pouco divulgado, mas quando o filme foi exibido no Palácio de Veneza, quando terminou a projeção o cinema inteiro levantou e aplaudiu de pé, aplaudiu o elenco de pé. Ficaram extremamente comovidos com a grandeza do filme, mas foi muito difícil fazer.

EE – “Bar Esperança”, de 1983, já foi em outro contexto e trabalhando com o Carvana. Tenta explicar melhor o imaginário dele.

AV – Tanto eu quanto ele nos identificamos com a proposta de sermos atores populares. E que buscam basicamente representar o homem brasileiro. O comportamento do homem brasileiro e sobretudo uma coisa muito carioca que ele tem e eu também, muito coincidente. Ele é carioca, eu sou carioca; ele é Fluminense, eu sou Fluminense; ele tem uma veia espírita, eu também tenho. Então, é assim... eu acho que... essas semelhanças são muito grandes. Tanto que quando eu ganhei o meu primeiro prêmio como ator eu fiz questão que ele me entregasse. O Carvana, pra mim, seria o que eu acho que o Fellini é para Roma, Itália. Carvana é pro Rio de Janeiro. E “Bar Esperança, O Último que Fecha” fala de uma memória afetiva, ele fala daquilo que o tocou. Tem uma reunião de personagens muito característicos da boemia dos anos sessenta, setenta. O meu personagem, por exemplo, o Walfrido Salvador, “o salvador daqui”, ele retira algumas características do Hugo Bidet, que foi um extraordinário piadista, um cara que chegou a alugar um camelo pra ir a uma festa...

EE – Deu feijoada no bidet...

AV – [risos] Exatamente... A história do rato, que virou Sigmund, todo mundo fingia que não via porque achava que era delirium tremens. E a história do Millor, que fez uma exposição com quadros brancos e que vendeu tudo. E essa coisa de exibir no banheiro, a exposição ser no banheiro, que é uma sacação da contracultura, daquela geração. Uma coisa iconoclasta que tinha naquelas pessoas, que o Carvana retrata muito bem. Então o Walfrido Salvador é o típico artista daquela conjuntura, daquele tecido extremamente colorido, pedaços daquela colcha de retalhos de influências, de culturas. Contracultura, underground, udigrudi, cinema. Tudo está misturado. E é lindo. É um filme... Mário Lago dizia que era o filme mais emocionante que ele já tinha visto.

EE – Você viu um período áureo do cinema feito aqui no Brasil, dos anos 50, 60, 70. Agora eu queria que você passasse para um período um tanto quanto negro, dos anos 90, antes da Retomada.

AV – Eu acho que... algumas pessoas foram exiladas do Brasil e foram morar fora. Não por sua vontade, mas forçadas a fazerem isso. O período Collor, a extinção do patrimônio cultural da Embrafilme... Se discute muito a Embrafilme, não cabe aqui a gente discutir isso, é um outro papo. Mas era um fomento real, era um processo de desenvolvimento de uma pré-industria. E eu me sentia exilado. Eu deixei de fazer cinema. Eu e todos nós. E vimos atrocidades serem cometidas. Cadê o patrimônio todo? Enfim, muito complicado. Foi muito difícil mesmo. Foi muito doloroso. E eu consegui fazer algumas coisas nesse período que foram...

EE – ... “A Maldição de Sampaku”...

AV – É. A bondade do Zé Joffilly, de me botar pra fazer uma aparição, só para eu sentir novamente o gosto da câmera. Mas eu fiz com uns canadenses, o “Comme Les Oiseaux Dans Rio” e um americanóide, chamado “Bocca”, que foi feito em cima do filme do Walter Avancini, o “Boca de Ouro”. E fiz um filme finlandês, chamado “Filhos de Yemanjá”, com uma diretora finlandesa, Pia Tikka, que na época era mulher do Mika, um cineasta finlandês radicado aqui no Rio. Então, de repente eu fazia filmes estrangeiros no Brasil. Olha que loucura. Uma coisa meio de exilado. De repente eu estava representando em inglês na minha terra.

EE – Qual a diferença de você estar num filme estrangeiro, ainda que seja no seu próprio país, e você estar num filme brasileiríssimo, como todos esses que a gente falou?

AV – Ah, uma diferença brutal. Por mais que seja gostoso, tentador, e até uma ambição que eu acho que todo ator deve ter, que é representar numa outra língua. Por exemplo, no caso do “Les Oiseaux”, era um filme em francês, os canadenses falam em francês, e o “Bocca” era em inglês. Eu falei muito pouco no filme, mas eu ouvia o tempo todo os diálogos serem falados nessas línguas. E eu não estava no Brasil. Não era um filme brasileiro, não era, entendeu? A equipe não era brasileira, tinha um ou outro brasileiro. Então era como se eu tivesse ido pra fora, descolado uma ponta pra fazer uns filmes fora. E muito estranho, muito esquisito. Apesar do fato deles estarem filmando aqui e que dava a eles um grau de gentileza, de cortesia muito interessante. A questão financeira era excelente, pagavam direitinho, bem. Mas a língua é uma identidade muito forte. E foi muito bom eu ter feito, pra sacar isso. Como é bom você pronunciar tua língua, falar do teu jeito de falar.

EE – E no cinema, o que você tem feito? Projetos futuros também, o que você tem em mente, já engatilhados.

AV – Olha, um dia eu estava num festival e um diretor francês me falou: “Conheço o seu trabalho, vi muitos filmes seus. Acho você um coadjuvante extraordinário, mas eu queria ver você como o protagonista absoluto”. Aquilo não me saiu da cabeça, porque eu nunca pensei nisso. Eu nunca parei pra pensar... a carreira, o que que eu vou fazer agora. Isso é mais de um ator de primeiro mundo. Um ator que tenha tido uma sorte e uma estabilidade dentro da carreira que eu nunca tive. Sempre tive que correr muito atrás. E depois dessa observação, eu fiquei pensando. E aí eu concebi uma história, chamada “O Apostador”, que é um homem dentro de um apartamento, e ele tem até o último páreo do jóquei pra tentar salvar a sua vida. Coincidentemente o MinC lançou um concurso e um dos roteiros selecionados foi esse e eu filmei. O Emiliano Ribeiro dirigiu, ele tá quase pronto. A única produção que existe no filme é a interpretação. Então estou louco para ver o resultado disso, para ver como isso vai resultar. E o outro projeto também, é a adaptação do livro do Antonio Torres, “Um Táxi Para Viena D’Áustria”. Que é sobre um cara que mata, começa o filme matando o seu melhor amigo, você não sabe por que, só vai descobrir no final do filme, do livro [risos]... Olha aí, já estou falando do filme. Eu peguei, tive a ousadia de eu mesmo fazer a adaptação, o Antônio Torres aprovou, acha que é bacana. Botei num concurso do MinC, foi premiado como roteiro pra longa-metragem. Depois de “O Apostador”, eu espero ganhar credibilidade pra poder tentar, então, fazer o “Um Táxi Pra Viena D’Áustria”.

EE – Ouvindo tudo isso que você falou, eu vejo a trajetória de um cara que sonhou o cinema. São milhões de coisas fora dele, mas especificamente no cinema brasileiro, o que você acha que fica do Anselmo Vasconcellos?

AV – Ah... são esses fotogramas todos assim, que alguém talvez junte... não é tarefa minha... Eu acho que a essência do ator é justamente essa. Ele faz para que o outro veja. Pra que o outro perceba e dê a dimensão que ele tem. Eu não saberia...