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terça-feira, novembro 16, 2010

O Desafio


“Porto das Caixas” (1962) instalou em Paulo César Saraceni o fantasma de ser paradigma ao movimento que se dizia novo nem tanto pela idade, mas estruturalmente pela atitude. Com o ruminar dessas e diversas frases de efeito – algumas supostamente utilizadas por Glauber Rocha, sem repartir a co-autoria –, somadas ao impacto daquela obra de estréia, o ex-atleta do Fluminense Football Club, ator bissexto, experimentou trajeto libertário para desaguar em “O Desafio” (1965). Juntou os cacos da encomenda feita pelo Itamaraty, “Integração racial” (1964) – montada às pressas pela fervura do 1° de abril de 1964 – e repensou a possibilidade de prosseguir com “A Fera da Penha” ou encarar coisa qualquer que servisse de testamento para o período que surgia nebuloso.

“O Desafio” impôs-se pelas próprias pernas, “A Fera da Penha” desapareceu da pauta. Saraceni chamou para si a tarefa de dar voz à ressaca moral do golpe militar. Vêem-se e ouvem-se tiradas que o diretor colecionou pelas ruas, embrulhadas em quase ficção para contar o amor impossível de Marcelo (Vianinha) e Ada (Isabela). Cristaliza em Marcelo a cara de todo aquele que punhado de meses antes vibrava no comício da Central do Brasil e agora sentia-se subitamente nu em praça pública. Coloca em Ada a moça fina, bem intencionada e burguesa, lúcida, casada, traindo o marido industrial (Mário, Sérgio Britto) com o amante poeta, jornalista.

Exorciza – de maneira praticamente kamikaze – o que os profetas do bar Zeppelin e alhures gritavam a boca pequena. O aviso na versão restaurada deixa clara a sangria: “Este filme contém fragmentos de diálogo não originais, para repor trechos danificados pela censura da época.” De fato, palavrões e o termo “golpe” retornam dublados nas vozes de outrem, sobre o rosto de Vianinha e equipe. Alguns trechos ficaram intactos. O fotógrafo, colega de redação (Joel Barcellos), incorpora o espírito pragmático, tenta um pacote de manobras para estancar a treta política: “É o tempo da conscientização. Nós ainda vamos agradecer a este tempo.” Um amigo – sabe-se por comentários – é preso depois de responder a inquéritos – os insanos IPMs. Mário ajuda-o a se exilar em alguma Embaixada. O que o distanciamento histórico faz soar natural, anedotas dos chumbos de 1964-1985, cresce exponencialmente quando se atina que os dados hoje clichês – prisão, exílio – eram gritados em tempo real, com todas as letras.

A câmera – na mão, por óbvio – de Dib Lutfi e a fotografia de Guido Cosulich deixam mais vibrante a sensação de documentário político-afetivo. Saraceni conheceu Guido na Itália ao ganhar bolsa de estudos pelo curta “Arraial do Cabo”, mesma safra em que inicia contatos com Gustavo Dahl e Bernardo Bertolucci. Lutfi, auxiliado por José Medeiros, registra closes telúricos em Maria Bethânia, Zé Keti e João do Vale durante o show Opinião, no Teatro de Arena em Copacabana. Mário numa fossa monumental – e metalingüística, pois Vianinha foi um dos autores do espetáculo –, sofre por sofrer por si mesmo. O filme declara a utopia, o idealismo pagão do jovem que recusa a individualidade e amamenta as multidões, o espírito de coletividade. “Muita importância ao problema político e não a nós”, reclama Ada.

“É de manhã”, uma das primeiras canções de Caetano Veloso, pontua o encontro dos dois, já indo solto o prenúncio da separação. O arranjo do diretor-roteirista para o fim do casal se dá na bela seqüência em que vasculham um prédio em ruínas. O clímax os coloca frente a frente recitando “Invenção de Orfeu”, Jorge de Lima, em êxtase por segundos – sepultado em seguida pela constatação de que a união simbólica de Marcelo e Ada não vence a distância efetiva entre ambos.

No meio tempo, as citações pululam, na ânsia de dar conta de tudo o que houvesse de encantamento cultural, a vencer a tecnocracia. Capas de “Cahiers du Cinema” e de hits literários – “A invasão da América Latina”, de John Gerassi –; colagem de textos recortados de jornal; Vietnã, Otto Maria Carpeaux, discussões homéricas sobre Sartre ter se rendido ou não ao facínora sistema. Mário rebate os comentários do jornalista de meia-idade, cético, decadente, que repisa a inviabilidade da paz de espírito enquanto emborca os copos de uísque. Moço de bom tom revolucionário, recusa a esposa do amigo – por sinal, a mulher o assedia não sem uma certa condescendência do borracho idoso.

“O Desafio” anteviu o acirramento da guerra, que trazia o germe do AI-5, ainda sob as orelhas de Castello Branco. Marca fase de transição no Cinema Novo, associada geralmente com exclusividade a “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha. Apesar de usar a franquia da revolta perante a organização política nacional – em termos concretos, chicana política versus democracia –, “Terra em Transe” segue a trilha já estabelecida em “O Desafio”. Este, cravado no calor do momento, semelhante a um reflexo que não se consegue evitar – vide o título alternativo: “No Brasil depois de abril”. Saraceni comenta, inclusive, ter se sentido isolado por trazer o filme à baila, sendo acusado de irresponsável. A duras penas inscreve-o no primeiro Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, contornando a resistência lacerdista e deixando-o à audiência do seleto público, que incluía Roberto Rosselini.

Isabela, então casada com Saraceni, repetiria o protagonismo em “Capitu” (1968), diálogos de Lygia Fagundes Telles, roteiro de Paulo Emílio Salles Gomes. “Porto das Caixas” tivera outro adaptador luxuoso, Lúcio Cardoso, e presença feminina igualmente cáustica se comparada a “O Desafio” e à esfinge de Machado. “A Casa Assassinada” (1970), no mesmo fluxo lógico, conta com a presença de suporte literário – “Crônica da Casa Assassinada”, de Lúcio – e vestal de prestígio, Nina. Vestindo malha de rumbeira em “Amor, Carnaval e Sonhos” (1972) – último filme de Leila Diniz – e tocando a mente aberta em bailes filosóficos, Saraceni desfruta de abordagem peculiar entre os colegas de geração. Bate em tabus como homossexualidade – Timóteo (“A Casa Assassinada”) é marco da cinematografia gls brasileira –, intervém no elemento urbano ou rural, sem migrar para o Nordeste – busca mitos em outros grotões.

Herói da primeira hora, seu “Porto das Caixas” exalou devir, uniu os nós, serviu de escudo ao arrebanhar aprovação crítica para o grupo – Paulo Emílio em São Paulo e Alex Viany no Rio seguravam os esteios. Tempos mortos que foram cambiando, os de “Porto” sorriam nas trevas da mulher que assassina o marido, história verídica; os de “O Desafio” atordoam pela resistência intelectual, história nevralgicamente verídica.

O que pode transparecer como refinamento, “pedra” na vidraça que quiseram lhe atribuir, deve-se a processo delicado de formação pessoal. Em sua primeira dentição, Saraceni foi próximo de Lúcio Cardoso – dândi, suposto amor platônico-sensorial-existencial de Clarice Lispector – e Octávio de Faria – redator do mitológico “O Fan”, autor dos talagões da “Tragédia Burguesa”. Saraceni não se sentia à vontade no ultra-materialismo do Centro Popular de Cultura da UNE. Talvez preferisse bradar Verlaine a Górki, talvez cresse que “‬Deus é como um canteiro de violetas,‭ ‬cuja estação não passa nunca‭”, vaticínio firme de Lúcio. Por estancar a mesmice, é da espécie de realizador que lançou blocos consideráveis de dinamite no viés totalitário de elementos internos e externos ao cinemanovismo.

quarta-feira, junho 11, 2008

A Casa Assassinada


Em‭ ‬1970,‭ ‬época de realização deste‭ “‬A Casa Assassinada‭”‬,‭ ‬Paulo César Saraceni,‭ ‬Mário Carneiro e Antonio Carlos Jobim eram uma trinca bem azeitada,‭ ‬sete anos após a aventura inicial em‭ “‬Porto das Caixas‭” (‬1963‭)‬.

Diretor-roteirista‭ (‬Saraceni‭)‬,‭ ‬montador-fotógrafo‭ (‬Carneiro‭) ‬e compositor‭ (‬Jobim‭) ‬voltavam agora os olhos para‭ “‬Crônica da Casa Assassinada‭”‬,‭ ‬obra do mesmo argumentista de‭ “‬Porto das Caixas‭”‬,‭ ‬Lúcio Cardoso‭ – ‬falecido‭ em 1968 –‬,‭ ‬numa reiteração que não tem nada de casual.

Cinéfilo de carteirinha,‭ ‬autor de um longa inacabado‭ – “‬A Mulher de Longe‭” (‬1949‭)‬,‭ ‬em que assinou argumento,‭ ‬roteiro,‭ ‬direção‭ – ‬Lúcio Cardoso foi uma daquelas figuras arrebatadoras do Rio de Janeiro em meados do século XX.

É clichê qualificá-lo como‭ “‬cavalheiro do tipo fino sofisticado‭”‬,‭ mas o slogan está bem próximo da verdade.‭ ‬Cardoso era o irmão/pai/amigo,‭ ‬responsável pela formação intelectual de vários jovens,‭ ‬criando um vínculo atemporal,‭ ‬à semelhança dos tutores ingleses e seus‭ ‬pupils.

Como não estávamos em Oxford,‭ mas‬ sim na Guanabara,‭ ‬a audiência de Lúcio incluía gente como Saraceni e Luiz Carlos Lacerda.‭ ‬Este último,‭ ‬coincidentemente,‭ ‬também em‭ ‬1970‭ ‬rodava‭ “‬Mãos Vazias‭” – ‬penúltimo filme de Leila Diniz‭ –‬,‭ ‬baseado em romance homônimo de Cardoso.

Tendo as referências acima fica mais fácil adentramos os portais do tempo que levam à‭ “‬Casa Assassinada‭”‬.‭ ‬Desde a leitura inicial do livro,‭ ‬em‭ ‬1959,‭ ‬Saraceni se interessou em adaptá-lo ao cinema.‭

O projeto teve idas e vindas‭ – ‬com direito,‭ ‬inclusive,‭ ‬a recomendação da amiga Edla Van Steen para que Saraceni convidasse Luchino Visconti‭ –‬,‭ ‬terminando felizmente no início da década de‭ ‬70 ‬com um Saraceni e um ambiente fílmico brasileiro maduros,‭ ‬capazes de compreender a obra e não simplificá-la barbaramente.

Digo isto porque a família Menezes,‭ ‬que habita a‭ “‬casa assassinada‭”‬,‭ ‬mansão decadente no sul de Minas‭ – ‬as locações foram em Valença,‭ ‬interior do estado do Rio‭ – ‬é uma reunião de tipos espectrais,‭ ‬folclóricos,‭ ‬sombrios.‭

Os Menezes vivem numa dupla-face entre o desequilíbrio existencial‭ – ‬que inclui religiosidade e hipocrisia das velhas famílias mineiras‭ – ‬e o lado onírico,‭ ‬que desemboca na multiplicidade de narradores,‭ ‬alegorias e cortes temporais. No romance,‭ ‬levam o leitor a construir o quebra-cabeças e a conhecer os delírios de personagens em um estilo literário‭ “‬intimista‭”, ‬que muitos associam à escrita de Clarice Lispector.

Por isto,‭ ‬crucificar a demência dos Menezes,‭ ‬tachando-os como horrorosos, não seria o ideal.‭ ‬Melhor fez Saraceni, ao colocá-los convivendo como deuses de si mesmos,‭ ‬cada qual num conflito particular.

Nina‭ (‬Norma Bengell‭) ‬é casada com Valdo Menezes‭ (‬Rubens Araujo‭)‬,‭ ‬irmão de Demétrio‭ (‬Nelson Dantas‭)‬,‭ ‬o louco-chefe,‭ ‬por sua vez casado com Ana‭ (‬Tetê Medina‭)‬,‭ ‬a abutre-mor que olha Nina à distância,‭ ‬cobiça-a pela voluptuosidade que inveja e,‭ ‬claro,‭ ‬quer destruir.

Alberto‭ (Augusto Lorenzo)‬,‭ ‬roceiro apaixonado por Nina,‭ ‬tem um caso com a patroa mas suicida-se depois de vários desencontros.‭ ‬Passados alguns anos,‭ ‬existe um incesto fundamental entre Nina e André‭ (‬também Augusto Lorenzo‬,‭ ‬suposto filho da moça e do capataz).

Por outro lado,‭ ‬literalmente trancado em um dos cômodos da casa,‭ ‬tal qual uma das pragas do Egito,‭ ‬está a maravilhosa figura ursina de Timóteo‭ (‬Carlos Kroeber,‭ ‬em interpretação estupenda,‭ ‬no rol das maiores de nosso cinema‭)‬.‭

Homossexual exagerado,‭ ‬triunfal,‭ ‬a boca pintada,‭ ‬os traços realçados pela maquiagem,‭ ‬pelas roupas e jóias do guarda-roupas da falecida mãe,‭ ‬Timóteo se funde em Nina e ela nele,‭ ‬como se ambos se prometessem a salvação que nunca se concretizaria,‭ ‬diante do ambiente atormentado em que vivem.

‭“‬Deus é um canteiro de violetas,‭ ‬cuja estação não passa nunca‭”‬,‭ ‬Timóteo vocifera em uma‭ ‬metáfora belíssima sobre o prazer e o amor‭ (‬simbolizados nas violetas,‭ ‬que Alberto colocava diariamente na janela do quarto de Nina‭) ‬em contraposição a um Deus perverso,‭ ‬punitivo,‭ ‬censor das relações humanas tomadas como‭ “‬exóticas‭” ‬e pecaminosas.

A frase ecoa no velório de Nina,‭ ‬depois de Timóteo beijar o rosto do cadáver e estapeá-lo uma vez,‭ ‬revoltado.‭ ‬Reparem que ele havia chegado ao local carregado por mucamos negros,‭ ‬em um dos momentos em que o surrealismo dá a tônica da trama.‭ ‬No meio da fauna típica dos velórios,‭ ‬do tom farsesco em que os risos,‭ ‬cafezinhos e falsas palavras de conforto pululam aqui e ali,‭ ‬é aquela figura‭ ‬over,‭ ‬ampla e bisonha de Timóteo a única provida de humanismo e dignidade.

Figurinos brilhantes de Ferdy Carneiro‭ – ‬colaborador freqüente de Saraceni e Mário Carneiro‭ –; ‬fotografia e montagem de Mário Carneiro trabalhando na contenção entre cores frias e exuberantes,‭ ‬trazendo o quê viscontiano também imprimido pela direção de Saraceni.‭

Essa massa de imagens‭ (‬figurino e fotografia‭)‬,‭ ‬por sinal,‭ ‬alcança vigor muito maior que o do roteiro,‭ ‬que trabalha com a ingratíssima tarefa de adaptar para o cinema uma obra perfeita e talhada em outro universo,‭ ‬o literário,‭ ‬vasto por si só.

A poética do livro é difícil de ser verbalizada naturalmente pelos atores.‭ ‬As frases longas nem sempre soam casadas com os conflitos visuais.‭ ‬Mesmo assim,‭ ‬há acertos como o do uso do arquétipo de padre interditor,‭ ‬ao qual Ana literalmente se agarra e acaricia,‭ ‬para dar vazão à culpa e aos seus delírios histéricos.‭

Jogado por décadas em algum porão à espera de ser trazido de volta, "A Casa Assassinada" por pouco não ficou na obscuridade. Muitos o davam como perdido, mas a partir dos anos 90 passou a ser figurinha fácil no Canal Brasil.

Dois momentos permanecem como fantasmas que rodeiam o longa: o rosto de Lúcio Cardoso e a citação do capítulo‭ ‬11,‭ ‬versículos‭ ‬29‭ ‬e‭ 3‬0‭ ‬do livro de São João na Bíblia‭ – ‬em que Jesus ressuscita Lázaro porque fiel à Palavra.‭ ‬Aparecem antes dos créditos,‭ ‬mas servem de aperitivo e elementos inicializadores,‭ ‬como se encerrassem o enigma que atormenta as paredes descascadas na mansão da fictícia Vila Velha.

domingo, maio 06, 2007

Ao Sul do Meu Corpo


Foi só depois de assistir ao constrangedor "Duas Vezes com Helena", de 2001 -- baseado no mesmo conto de Paulo Emílio Salles Gomes -- que percebi o quanto "Ao Sul do Meu Corpo" (1981) é um belo filme. Empostado e superficial, o segundo falha em quase todos os acertos do primeiro, e parece sintomático -- em detrimento ao cinema atual -- duas adaptações de fonte semelhante obterem resultados tão diversos.

Como costume na obra do diretor Paulo César Saraceni, "Ao Sul do Meu Corpo" teve enormes dificuldades em ser liberado pela censura. Sabe-se que os censores se desagradaram do aspecto político do filme, deixando passar incólume sua inteligente subversão de valores convencionais, e a clara sugestão de homossexualismo entre os protagonistas: mestre e discípulo, levados às últimas consequências em triângulo amoroso.

Polidoro (Nuno Leal Maia) é aluno de Alberto (Paulo César Pereio); e, para Polidoro, o homem mais velho transmite sua filosofia epicurista com grande entusiasmo. Dividem mulheres, porres, impressões sobre Paris -- tendo como pano de fundo um Brasil provinciano e afrancesado, no final dos anos 30. Em período de formação, Polidoro vai para a Europa estudar. Alberto leva seu menino até o navio, com uma lista de recomendações e locais a serem visitados.

Na França, Polidoro descobre algo além do que buscava: as idéias fascistas, o nazismo, a divisão do tal "velho mundo", que ele gostaria de abraçar por inteiro. Uma emissora de rádio transmitindo em alemão e a risada macabra do rapaz gordo e convalescente na pensão onde mora são uma espécie de prenúncio do horror. Precisa voltar ao Brasil, à província, mas parodiando "Morro Velho", de Milton Nascimento, quando volta já é outro.

No entanto, impossível esquecer do mentor. Alberto, por sua vez, se corrói de saudades, mas deixa de ser um irremediável solteirão e contrai núpcias com a bela Helena (Ana Maria Nascimento e Silva). O que Polidoro não sabe é que o professor -- impossibilitado de ter filhos -- trama com a esposa para que ela seduza o aluno e engravide dele.

A sedução e o interlúdio do adultério são a melhor parte do filme. A presença de Alberto é massacrante, ainda que ele esteja muito longe dali. Polidoro tem em relação à mulher do próximo uma espécie de desejo apavorado -- aos poucos, sente-se paranóico com a situação. E Helena oferece seu corpo a Polidoro com um pragmatismo que discute todas as noções machistas de posse, ao mesmo tempo que reafirma as mesmas (afinal, ela é teleguiada pelo marido; seu ventre, em última instância, é depositário do prazer castrado de Alberto em engravidar do aluno).

Tudo isso acontece sem que Polidoro tenha sequer noção de fazer parte de um jogo reprodutor. Crê, impossivelmente crê, que a mulher do ídolo o ama. Quando é rechaçado por Helena parte cheio de culpas. Vai rever a dupla trinta anos mais tarde, hipnotizado e mortificado pela traição ao amigo. Só então descobre a verdade.

"Ao Sul do Meu Corpo" não é de compreensão muito fácil, inclusive por seu íntimo diálogo com a literatura. Escrito por um dos maiores críticos de cinema do país, o conto que deu origem ao filme necessitava da intervenção de um homem letrado como Saraceni. Acostumado a adaptar Lúcio Cardoso, o diretor trafega com segurança pelo universo repleto de cristianismo (Othon Bastos, como padre, tem o olhar de um sacerdote da Igreja Ortodoxa Russa), e, ao mesmo tempo, pela construção psicanalítica de um triângulo revivido.

"Meu pudor não fica ofendido, ele se foi com Alberto", Helena sussurra e mostra os seios a Polidoro, como se encerrassem o segredo da vida. Ela sabe que seu gozo é auxiliar; o que importa é o gozo de Alberto. A pobre mulher aceita, passiva, a contenção do amor entre dois homens. E viverá, ainda passiva, por trinta anos, consolando o marido por esse amor que destrói sua possibilidade feminina de ser.

Paulo Emílio Salles Gomes morreu de enfarte em 1977, mesmo ano em que publicou o livro "Três mulheres de três PPPês", onde está a história de Helena. Sem dúvida teria gostado do filme. Ambos -- livro e filme -- trazem a marca da falta de medo, da afronta intelectual misturada com um enorme senso de perenidade e modéstia. Enfim, trazem o signo de dois Paulos: Emílio e Saraceni, homens da renascença, que fizeram a vida na crítica e no cinema por amor, já que podiam ter se dedicado a qualquer outra forma de arte com igual êxito.

quinta-feira, abril 12, 2007

Porto das Caixas


Quem hoje assista a "Porto das Caixas" (1962), estréia em longa-metragem de Paulo César Saraceni, talvez tenha dificuldade em enxergar os méritos do filme, mesmo porque quase cinco décadas se passaram, e os detalhes e bastidores da produção venham progressivamente sumindo na memória.

Influenciado pelo neo-realismo italiano -- Rosselini é a citação mais costumeira -- o esforço do jovem Saraceni, então com 29 anos, remete também às idiossincrasias de sua própria formação. Amigo dos escritores Octavio de Faria e Lúcio Cardoso, Saraceni impregnou seu cinema da obra deste último: Cardoso assina o argumento de "Porto das Caixas" e seria revisto em outros dois filmes -- "A Casa Assassinada" e "O Viajante", formando a trilogia que representa o melhor da produção do amigo diretor.

Mas quem foi Lúcio Cardoso? Espécie de guia espiritual para Clarice Lispector, figura símbolo da Ipanema sofisticada das décadas de 50 e 60, acabou bem menos famoso do que sua pupila. Autor de uma obra densa, cada vez mais distante de ser lida, na qual o gosto pela especulação de atmosferas só não é maior que as culpas sombrias, católicas, invadindo as profundezas do discurso.

Pouco antes de "Porto das Caixas", Paulo César Saraceni trazia a experiência de "Arraial do Cabo", curta feito em parceria com o diretor de fotografia, Mário Carneiro -- e considerado obra seminal do chamado "Cinema Novo". O passo seguinte, a direção de um longa, consolidaria a adesão de Saraceni como adepto e pensador do movimento.

"Porto das Caixas" baseia-se em crime ocorrido na localidade homônima do município de Itaboraí, antigo estado do Rio. Mulher paupérrima (Irma Alvarez), maltratada por um marido ignorante e bruto (Paulo Padilha), resolve assassiná-lo, e utiliza para isso seus encantos femininos, buscando em mesquinha fauna de amantes o cumpridor da proeza.

Como nenhum se apresente, acabará executando o serviço sozinha, sob o olhar medroso do dono do armazém (Reginaldo Faria), para quem prometera o paraíso em troca do homicídio. Desnorteado, o amante a abandona depois do crime; e, na linha ferroviária, seguem por fim caminhos diferentes.

Além dos aspectos históricos e estéticos que guiam a modesta produção -- nos quais a fotografia de Mário Carneiro talvez seja, sob olhar imparcial, o mais bem sustentado -- temos que perceber as sutilezas da trama, diluída da vida real em ficção por Lúcio Cardoso a pedido do próprio Saraceni. É notável, por exemplo, que a maldade em grandes personagens femininas -- de Madame Bovary à Eve Harrington -- seja sempre calcada em aspectos narcisistas de personalidade, e aqui não se fuja à regra.

A protagonista será alguém que, do início ao fim, conspira e mata porque cria mecanismo auto-centrado de referência -- ela em primeiro lugar, os outros e suas vontades em patamar inferior. Mesmo que o marido a maltrate e a olhe como utensílio doméstico, sua opção pelo dolo -- imputando sofrimento, com um machado, e mobilizando várias pessoas em prol do desejo homicida -- diz muito sobre a dinâmica narcísica, aquela que espelha sua desgraça, sem enxergar meios de escape ou explicação lógica -- e pouco sobre variantes sócio-econômicas, como queriam os cinemanovistas.

Para sustentar tamanha ruminação íntima, Mário Carneiro optou por uma fotografia cheia de espaços não-vistos, que deve ter agradado a Lúcio, prosador que sugeria mais do que frontalmente dizia. A direção de Saraceni também é apaixonada e inspirada, e a trilha-sonora de Antônio Carlos Jobim transborda lirismo -- embora longe de seu habitat, engolida na imperfeição de um Brasil melancólico.

Como curiosidade, o distrito de Porto das Caixas -- ressaltado toda hora como lugar esquecido e inóspito -- em 1968 ganharia fama duradoura, por uma imagem de Cristo que verteu sangue. O lugar é -- muito mais do que os personagens coadjuvantes -- o terceiro vértice da relação mulher-marido, empurrando a protagonista em busca de solução que a levasse para longe, o mais longe possível, da doença espiritual que a atormentava.

Lúcio Cardoso morreu no mesmo 68, sem ver "A Casa Assassinada" (1970) e "O Viajante" (1999), os outros dois filmes que Saraceni extraiu de sua obra. Se sobrevivesse, o aspirante a cineasta -- chegou a começar um filme, "A Mulher de Longe" -- e autor da brilhante frase "Estranho dom, Deus me deu todos os sexos" -- ficaria satisfeito com o monumento, fabricado com esmero, pois quase quarenta anos separam o primeiro filme do último.

A verdade é que Cardoso injetou na filmografia do talentosíssimo Saraceni uma subversão plena, muito além do que poderiam supôr as discussões daqueles jovens e idealistas cineastas. Mudar ou não mudar o mundo através da arte, citemos o próprio Lúcio Cardoso, para quem a organização política não tinha qualquer graça, já que preferia os homens "livres e desorganizados".