Lendário professor na cadeira de "Introdução ao Cinema" da Puc-Rio, o cineasta Pedro Camargo dirigiu cinco longa-metragens e inúmeros curtas nos anos 60 e 70. Típico militante da fértil cena cultural carioca -- a exemplo de Afrânio Vital e tantos outros -- Camargo fez de tudo um pouco, trabalhando em publicidade ou compondo canções de sucesso -- "Chuva", parceria com Durval Ferreira, foi gravada por Sarah Vaughan e Baden Powell.
No cinema, Camargo esteve quase sempre associado à R.F. Farias -- dos irmãos Roberto, Reginaldo e Riva. Fez ponta na comédia erótica "A Penúltima Donzela" (1969), onde já aparecia -- jovial e maroto -- flanando pelos pilotis da Puc, cúmplice de Tânia, a personagem pra frentex de Adriana Prieto. Foi também o marido de Anecy Rocha, no clássico "Em Família", intolerante com o sogro Souza, Rodolfo Arena, em uma São Paulo claustrofóbica e opressiva, às margens do Rio Tietê.
Paralelo ao trabalho de ator, Camargo roterizava e dirigia seu primeiro longa-metragem, "Estranho Triângulo" (1970), que guarda incríveis semelhanças com a vida real do protagonista, Carlo Mossy. Amante do marchand de quadros falsos Fernand Legros, Mossy ganhou do picareta milionário uma vida de príncipe, confortável e nababesca -- igual à do jovem recém-chegado do interior, o fictício Durval, que se envolve com Werner (José Augusto Branco), homem mais velho que oferece a ele o paraíso na terra, em troca de atenção e cumplicidade.
Mossy, na flor dos 25 anos, dublado por Reginaldo Faria, é observado minuciosamente pela câmera, seja namorando a púbere Lúcia Alves ou discutindo política com Walter (José Wilker), no moquifo estudantil onde moram -- detalhe curioso, o quarto tem um pôster de "Os Paqueras", sucesso recente da R.F. Farias.
Logo Durval conhece Werner, que está noivo de Suzana (Leila Santos). Sem nenhuma habilitação profissional, mas dono de belíssimos olhos azuis, sobe rapidamente na empresa de exportação do "melhor amigo". Viaja para Nova York, compra carro zero e passa a morar com o outro, para escândalo dos colegas famélicos e politizados.
Werner e Suzana casam, e Durval vira mais assíduo na cama da moça que o próprio marido. Como em todos os triângulos amorosos -- em qualquer combinação possível -- o homossexualismo submisso de uma das partes é que dá a tônica.
À parte o tema polêmico, "Estranho Triângulo" faz curiosa crítica aos ânimos acirrados da época, sugerindo o quão fracos e manipuláveis podiam ser os sonhadores dos anos 60. Quando o grupo de Durval expulsa do restaurante um casal de holandeses, confundidos com americanos imperialistas (?), fica claro que beiravam a insensatez. E José Wilker, contemplativo, afirma que "sente pena da revolução".
Werner não era rico e poderoso à toa: percebendo que a simbiose de Durval e Suzana está indo longe demais, simplesmente apela para a boa e velha moral burguesa e acusa o amigo e a esposa de adultério. Magnânimo, perdoa a mulher em nome da sagrada instituição do casamento. Durval, na iminência de perder o castelo de cartas que Werner lhe ofertara, entra em desespero e sucumbe à tragédia.
Por conta da censura e da atmosfera paroquial do final dos 1960, é fácil compreendermos que "Estranho Triângulo" mais insinua do que mostra de fato, investigando apenas superficialmente a paixão Werner-Durval, e o prazer sombrio de Werner em ofertar sua vida, suas relações e sua mulher ao amigo. "Ao Sul do Meu Corpo" -- filme de Paulo César Saraceni, baseado em conto de Paulo Emílio Salles Gomes, realizado onze anos depois -- amarra melhor uma abordagem sobre este tipo de dinâmica, merecedora de novas e ousadas leituras pelo cinema brasileiro.
O que fica de interessante em "Estranho Triângulo" é o cuidado para se fazer um filme de narrativa tradicional, agradável e fluente, ao gosto das produções Farias. Esta chancela o fez envelhecer bem, edulcorando o drama perverso com uma tensão quase hollywoodiana, que só se dilui na última cena. Imune aos amadorismos travestidos de mitificações -- tão típicos do cinema carioca "sério" do período -- transparece firme a proposição do estreante Pedro Camargo em buscar autoria sólida, de qualidade.
No cinema, Camargo esteve quase sempre associado à R.F. Farias -- dos irmãos Roberto, Reginaldo e Riva. Fez ponta na comédia erótica "A Penúltima Donzela" (1969), onde já aparecia -- jovial e maroto -- flanando pelos pilotis da Puc, cúmplice de Tânia, a personagem pra frentex de Adriana Prieto. Foi também o marido de Anecy Rocha, no clássico "Em Família", intolerante com o sogro Souza, Rodolfo Arena, em uma São Paulo claustrofóbica e opressiva, às margens do Rio Tietê.
Paralelo ao trabalho de ator, Camargo roterizava e dirigia seu primeiro longa-metragem, "Estranho Triângulo" (1970), que guarda incríveis semelhanças com a vida real do protagonista, Carlo Mossy. Amante do marchand de quadros falsos Fernand Legros, Mossy ganhou do picareta milionário uma vida de príncipe, confortável e nababesca -- igual à do jovem recém-chegado do interior, o fictício Durval, que se envolve com Werner (José Augusto Branco), homem mais velho que oferece a ele o paraíso na terra, em troca de atenção e cumplicidade.
Mossy, na flor dos 25 anos, dublado por Reginaldo Faria, é observado minuciosamente pela câmera, seja namorando a púbere Lúcia Alves ou discutindo política com Walter (José Wilker), no moquifo estudantil onde moram -- detalhe curioso, o quarto tem um pôster de "Os Paqueras", sucesso recente da R.F. Farias.
Logo Durval conhece Werner, que está noivo de Suzana (Leila Santos). Sem nenhuma habilitação profissional, mas dono de belíssimos olhos azuis, sobe rapidamente na empresa de exportação do "melhor amigo". Viaja para Nova York, compra carro zero e passa a morar com o outro, para escândalo dos colegas famélicos e politizados.
Werner e Suzana casam, e Durval vira mais assíduo na cama da moça que o próprio marido. Como em todos os triângulos amorosos -- em qualquer combinação possível -- o homossexualismo submisso de uma das partes é que dá a tônica.
À parte o tema polêmico, "Estranho Triângulo" faz curiosa crítica aos ânimos acirrados da época, sugerindo o quão fracos e manipuláveis podiam ser os sonhadores dos anos 60. Quando o grupo de Durval expulsa do restaurante um casal de holandeses, confundidos com americanos imperialistas (?), fica claro que beiravam a insensatez. E José Wilker, contemplativo, afirma que "sente pena da revolução".
Werner não era rico e poderoso à toa: percebendo que a simbiose de Durval e Suzana está indo longe demais, simplesmente apela para a boa e velha moral burguesa e acusa o amigo e a esposa de adultério. Magnânimo, perdoa a mulher em nome da sagrada instituição do casamento. Durval, na iminência de perder o castelo de cartas que Werner lhe ofertara, entra em desespero e sucumbe à tragédia.
Por conta da censura e da atmosfera paroquial do final dos 1960, é fácil compreendermos que "Estranho Triângulo" mais insinua do que mostra de fato, investigando apenas superficialmente a paixão Werner-Durval, e o prazer sombrio de Werner em ofertar sua vida, suas relações e sua mulher ao amigo. "Ao Sul do Meu Corpo" -- filme de Paulo César Saraceni, baseado em conto de Paulo Emílio Salles Gomes, realizado onze anos depois -- amarra melhor uma abordagem sobre este tipo de dinâmica, merecedora de novas e ousadas leituras pelo cinema brasileiro.
O que fica de interessante em "Estranho Triângulo" é o cuidado para se fazer um filme de narrativa tradicional, agradável e fluente, ao gosto das produções Farias. Esta chancela o fez envelhecer bem, edulcorando o drama perverso com uma tensão quase hollywoodiana, que só se dilui na última cena. Imune aos amadorismos travestidos de mitificações -- tão típicos do cinema carioca "sério" do período -- transparece firme a proposição do estreante Pedro Camargo em buscar autoria sólida, de qualidade.


