terça-feira, julho 15, 2008

Estranho Triângulo


Lendário professor na cadeira de "Introdução ao Cinema" da Puc-Rio, o cineasta Pedro Camargo dirigiu cinco longa-metragens e inúmeros curtas nos anos 60 e 70. Típico militante da fértil cena cultural carioca -- a exemplo de Afrânio Vital e tantos outros -- Camargo fez de tudo um pouco, trabalhando em publicidade ou compondo canções de sucesso -- "Chuva", parceria com Durval Ferreira, foi gravada por Sarah Vaughan e Baden Powell.

No cinema, Camargo esteve quase sempre associado à R.F. Farias -- dos irmãos Roberto, Reginaldo e Riva. Fez ponta na comédia erótica "A Penúltima Donzela" (1969), onde já aparecia -- jovial e maroto -- flanando pelos pilotis da Puc, cúmplice de Tânia, a personagem pra frentex de Adriana Prieto. Foi também o marido de Anecy Rocha, no clássico "Em Família", intolerante com o sogro Souza, Rodolfo Arena, em uma São Paulo claustrofóbica e opressiva, às margens do Rio Tietê.

Paralelo ao trabalho de ator, Camargo roterizava
e dirigia seu primeiro longa-metragem, "Estranho Triângulo" (1970), que guarda incríveis semelhanças com a vida real do protagonista, Carlo Mossy. Amante do marchand de quadros falsos Fernand Legros, Mossy ganhou do picareta milionário uma vida de príncipe, confortável e nababesca -- igual à do jovem recém-chegado do interior, o fictício Durval, que se envolve com Werner (José Augusto Branco), homem mais velho que oferece a ele o paraíso na terra, em troca de atenção e cumplicidade.

Mossy, na flor dos 25 anos, dublado por Reginaldo Faria, é observado minuciosamente pela câmera, seja namorando a púbere Lúcia Alves ou discutindo política com Walter (José Wilker), no moquifo estudantil onde moram -- detalhe curioso, o quarto tem um pôster de "Os Paqueras", sucesso recente da R.F. Farias.

Logo Durval conhece Werner, que está noivo de Suzana (Leila Santos). Sem nenhuma habilitação profissional, mas dono de belíssimos olhos azuis, sobe rapidamente na empresa de exportação do "melhor amigo". Viaja para Nova York, compra carro zero e passa a morar com o outro, para escândalo dos colegas famélicos e politizados.

Werner e Suzana casam, e Durval vira mais assíduo na cama da moça que o próprio marido. Como em todos os triângulos amorosos -- em qualquer combinação possível -- o homossexualismo submisso de uma das partes é que dá a tônica.

À parte o tema polêmico, "Estranho Triângulo" faz curiosa crítica aos ânimos acirrados da época, sugerindo o quão fracos e manipuláveis podiam ser os sonhadores dos anos 60. Quando o grupo de Durval expulsa do restaurante um casal de holandeses, confundidos com americanos imperialistas (?), fica claro que beiravam a insensatez. E José Wilker, contemplativo, afirma que "sente pena da revolução".

Werner não era rico e poderoso à toa: percebendo que a simbiose de Durval e Suzana está indo longe demais, simplesmente apela para a boa e velha moral burguesa e acusa o amigo e a esposa de adultério. Magnânimo, perdoa a mulher em nome da sagrada instituição do casamento. Durval, na iminência de perder o castelo de cartas que Werner lhe ofertara, entra em desespero e sucumbe à tragédia.

Por conta da censura e da atmosfera paroquial do final dos 1960, é fácil compreendermos que "Estranho Triângulo" mais insinua do que mostra de fato, investigando apenas superficialmente a paixão Werner-Durval, e o prazer sombrio de Werner em ofertar sua vida, suas relações e sua mulher ao amigo. "Ao Sul do Meu Corpo" -- filme de Paulo César Saraceni, baseado em conto de Paulo Emílio Salles Gomes, realizado onze anos depois -- amarra melhor uma abordagem sobre este tipo de dinâmica, merecedora de novas e ousadas leituras pelo cinema brasileiro.

O que fica de interessante em "Estranho Triângulo" é o cuidado para se fazer um filme de narrativa tradicional, agradável e fluente, ao gosto das produções Farias. Esta chancela o fez envelhecer bem, edulcorando o drama perverso com uma tensão quase hollywoodiana, que só se dilui na última cena. Imune aos amadorismos travestidos de mitificações -- tão típicos do cinema carioca "sério" do período -- transparece firme a proposição do estreante Pedro Camargo em buscar autoria sólida, de qualidade.

7 comentários:

Anônimo disse...

Pra ser muito sincero a gente não sabe o que é melhor: ou o filme do Pedro Camargo que é excelente ou a crítica da Andrea Ormond sobre ele. Realmente, "Estranho Triângulo" envelheceu maravilhosamente bem e é um filmaço. Uma aula de cinema mesmo, os atores muito bons, mostra um outro momento de 68, que não é ensinado na maioria dos livros do período. O Pedro Camargo merecia um dia também uma entrevista neste grande blog "Estranho Encontro", que voltou com a corda toda pra nunca mais sair.
Matheus Trunk
www.revistazingu.blogspot.com

Andréa Ormond disse...

Oi Matheus, obrigada :) O Pedro Camargo deve dar uma ótima entrevista mesmo. Ele foi professor de gerações e gerações de alunos da minha amada Puc. Inclusive, uns meses atrás, o CinePuc Brasil parece que exibiu três filmes da sua obra. O link para acompanhar quando serão outras retrospectivas é http://cinepucbrasil.blogspot.com/

carlo mossy disse...

Torna-se difícil e suspeito falar de uma obra tão distante, da qual sou um privilegiado partícipe. Mais do que as razões estéticas, políticas e, sobretudo,as de cunho -carnalmente- existencialista que podem configurar Estranho Triângulo, o romantismo que levou o Pedrinho Camargo a realizar esse filme me transporta juvenil aos anos 60, metamorfoseando-me, inapelavelmente, num mero sonhador de fotogramas passados. Minha máquina do tempo não me abandona.
Fico babando com a escrita da Andréa. Suas palavras transformam-se em intensos fotogramas de implacável textura crítica.
A construção literária da Andréa é um filme perturbador, deliciosamente analítico.
Mais uma vez, parabéns, garota
Carlo Mossy

Rita disse...

Gostaria de ter o dvd ou baixar o filme Estranho Triângulo, só que está difícil. mandei 2 emails para o site Memória Br querendo comprar o Dvd mas nem me responderam.Gostaria de uma cópia mesmo que fosse em VHS

sitedecinema disse...

Eu tive a honra de conhecer esse subvalorizado cineasta nos anos 80, através de um workshop ministrado pelo diretor Carlos Gerbase. A atuação dele no delicioso O CASAL também merece ser conferida, bem como AMOR E TRAIÇãO(A PELE DO BICHO), um injustamente esquecido drama rural/sertanejo de época, este realizado por ele.

ADEMAR AMANCIO disse...

Acabo de encontrar no youtube.Vou ver se vejo.

Hélio disse...

Assisti hoje ao filme e simplesmente adorei. Elenco de altíssimo nível, o Mossy dá um show de interpretação. Muito linda e talentosa a atriz Leila Santos. O filme mostra um RJ que meu saudoso pai sempre descrevia para mim, não essa selva de hoje em dia. Parabéns pelo blog Andrea, fiquei fã e sempre tenho acompanhado.