terça-feira, agosto 22, 2006

Dois Perdidos Numa Noite Suja


Quando realizou “Dois Perdidos Numa Noite Suja” (1971), o diretor Braz Chediak já vinha de uma adaptação bem-sucedida do mais conhecido texto de Plínio Marcos, “Navalha na Carne”.

Quase peças filmadas, as duas produções – de Jece Valadão, na lendária Magnus Filmes – têm em comum a dificuldade de assimilação por parte do espectador, na medida em que Chediak, acertadamente, não faz qualquer concessão ao entretenimento fácil, filmando Plínio Marcos de uma forma que deve ter deixado o próprio dramaturgo surpreendido e orgulhoso.

"Dois Perdidos Numa Noite Suja", a peça de 1966 e o filme, lançado cinco anos depois, contam a história de Tonho (Emiliano Queiroz), migrante pobre que chega à cidade grande em busca de oportunidades. Apesar de ter estudado datilografia e terminado o ginásio (“Eu tenho estudo!”, repete obcecadamente), Tonho vai trabalhar de carregador no mercado de frutas. Lá divide um quarto com Paco (Nelson Xavier), sujeito maledicente e ignorante, que num misto de inveja e oligofrenia, resolve torturar o vizinho de cama com os artifícios mais criativos possíveis.

Durante todo o filme somente os dois falam e os personagens secundários são mínimos, quase invisíveis. Paco manipula Tonho inicialmente com a história de que um certo Negrão estaria prometendo uma surra no recém-chegado. O infeliz Tonho aceita a provocação, se deixa envolver e aos poucos abre sua vida para o insuportável Paco. Em um segundo momento, a questão da inveja é colocada de maneira reversa e Tonho, que precisa de um sapato para procurar emprego, atormenta-se com o fato de que Paco tem um sapato novinho nos pés, presenteado por alguma alma caridosa.

Como em qualquer relação doentia, os dois se completam e necessitam mutuamente. Paco incita Tonho rumo ao abismo, com um machismo que hoje soa anacrônico em demasia. Tonho é tão sozinho na cidade – no original, Santos; no filme, Rio de Janeiro – que encontra na monomania destrutiva de Paco uma espécie de conforto solidário.

Juntos planejam um assalto que, depois de executado, torna a dinâmica da dupla ainda mais simbiótica. Fica claro que Paco projeta suas desvalorizações e paranóias em Tonho e o outro idem. Como a isca é fácil do espectador morder, aos poucos o olhar cansa e dependemos da performance dos atores para que nossa atenção não seja dispersa.

Nesse ponto, Emiliano Queiroz e Nelson Xavier são perfeitos e, ligados à ambientação lúgubre e insalubre, vão em crescendo até que um fim seco apareça na tela, algo inconcebível para um filme comercial hoje, trinta e cinco anos depois. Somando-se a essa aridez de recursos, resta ainda a dificuldade de assimilarmos Paco, uma das figuras mais contraproducentes que o teatro já concebeu.

Obcecado por seu machismo de anedota, o personagem ganha na refilmagem que José Joffily fez em 2002 algumas características que o tornam andrógino e sedutor na pele de Débora Falabella. Mas em 1971 o roteiro optou pela similaridade ao original – e o que temos é um protagonista tão impossível que torcemos para que Tonho abandone sua passividade e mostre de uma vez por todas que é sim, homem, de preferência no couro do incrédulo alucinado.

Presos ao quarto de fundos onde moram, Tonho e Paco mereceram adaptações teatrais em vários países do mundo, colaborando para a fama do dramaturgo santista, morto em 1999. Testado várias vezes no cinema, Plínio Marcos sobrevive com folga, e esta criação de Braz Chediak já antecipava de certa forma os futuros acertos do diretor com textos de Nelson Rodrigues – quando, a exemplo do universo de “Dois Perdidos”, a transposição ganhava em fôlego cinematográfico o que perdia em liberdade dramática e grandeza cênica.

6 comentários:

fernando disse...

achei uma ótima idéia ver o paco como uma garota, no caso, o filme do josé joffily, mas não gostei muito do filme. para mim, ele me pareceu encenado demais, muito fixo apenas naquele cenários, como se estivéssemos assistindo a uma peça mesmo. mas a interpretação dos atores é boa, no entando não supera o primeiro. Nelson Xavier é um ator formidável que ainda não teve o merecido espaço que merece. Há tempos não visitava seu blog, querida Andréa, tenho trabalhado e estudado ininterruptamente. Mas continue assim, belíssimo texto. Grande abraço.

Matheus Trunk disse...

Oi Andréa, gosto desse filme, embora tenha de revê-lo urgentemente. A biografia do Chediak da coleção Aplauso é sensacional. Você leu Andréa ? Vale realmente a pena, mas venho aqui falar também que o Plínio se inspirou numa história do italianão Alberto Moravia, um gigante de escritor, diga-se de passagem para fazer esse conto. O conto do Moravia chama-se "O Terror de Roma".

Roberto Queiroz disse...

Andréa, ainda não assisti essa versão mais antiga (só vi a refilmagem do José Joffily,com a Débora Fallabella e o Roberto Bontempo). Ahistória é ótima. Nunca consegui encontrar essa versão (nem em VHS). Já fui até em locadores especializadas e nada. Mas, como bom fuçador que sou, não fujo à luta e continuo procurando. Abraços do crítico da caverna cinematográfica.

Andréa Ormond disse...

Fernando, pelo jeito, vem coisa boa por aí! Espero que esteja correndo tudo bem nos seus projetos :) O filme do Joffily trabalha mesmo de forma diferente a adaptação. As opções do Chediak me parecem ter partido pra uma interiorização maior dos personagens que, talvez por isso, faça com que a atuação do Nelson Xavier fique martelando tanto na cabeça, depois do filme. Um momento belíssimo na trajetória dele. Abraços

Oi Matheus, li a biografia do Chediak, sim. Uma das partes que mais me chamaram a atenção foi a formação dele, desde garoto em Três Corações, e depois trabalhando com o JK, no Rio. O Plínio bebeu bastante numa linhagem realista que, na literatura, tem um marco importante no Gorki. Seria o Plínio, então, um versão hardcore brasileira do Gorki, mil anos depois, tendo que enfrentar o Doi-Codi e adjacências? rs

Oi Roberto, acho que a essa altura só no Canal Brasil mesmo. Tb costumo fuçar nas locadoras da antiga, mas anda difícil. Pior vai ser quando fecharem, imagina pra onde vão esses vhs? Um lixão qq ou então algum sortudo que estiver passando em frente na hora :) Abraços

Lucio Vargas disse...

Oi Andrea, eu não sei se você já assistiu a versão com a Debora Falabela, mas é sensacional! Imperdível!!!

ADEMAR AMANCIO disse...

Ótima resenha,como sempre.Obrigado.