
Como em quase toda a filmografia brasileira dos anos 70 e princípio dos 80, que ninguém se engane com o título: o que era “erótico” em 1977 hoje em dia transparece tão delicado e cuidadoso que fica difícil acreditarmos que, de fato, os produtores do filme buscavam vendê-lo com o apelo do sexo.
Dividido em episódios, “Contos Eróticos” (1977) é uma coletânea filmada das quatro histórias vencedoras do Concurso de Contos Eróticos da extinta Revista Status, uma espécie de Playboy – inicialmente, antes mesmo do aparecimento da Playboy brasileira – publicada pela Editora Três e de conteúdo sofisticado, o que permitia anualmente à revista promover um concurso de textos, onde os melhores iam parar em livro.
E de uma das edições do concurso nasceu o filme. São quatro episódios sem qualquer ligação entre si, cada um deles dirigido por um cineasta diferente e com elenco diverso. O primeiro “Arroz com Feijão”, por Roberto Santos; o segundo “As Três Virgens”, por Roberto Palmari; o terceiro “O Arremate”, por Eduardo Escorel e o último “Vereda Tropical”, por Joaquim Pedro de Andrade.
“Arroz com Feijão” traz como maior mérito a utilização da música “A Dona do Primeiro Andar” dos Originais do Samba, em harmonia com a história popularíssima, do rapaz pobre (Cássio Martins) que se encanta pela dona da pensão (Joana Fomm) onde almoça diariamente. Sugestionado pelo refrão intrigante (“Estou apaixonado/ apaixonado estou/ Pela dona do primeiro andar/ pela dona do primeiro andar”), o espectador aguarda ansioso as cenas de nudez farta da atriz, que no final são tão discretas que a câmera vira quase apenas observadora do cotidiano na casa de Joana, em um exercício cinematográfico singelo.
A segunda história, “As Três Virgens” merece maior atenção: três velhinhas (Carmen Silva, Eva Rodrigues e Maria Anita Shut) vivem juntas em um casarão rememorando o passado até que recebem a visita da sobrinha adolescente, Beta (Paula Ribeiro). Ela perdeu a virgindade com um namorado motoqueiro e precisa ser protegida dos perigos da vida. O roteiro é afiado e quando as senhoras maldizem o presente turbulento, o fazem com tanta precisão que nos perguntamos o que elas achariam do mundo de hoje, três décadas depois do convescote.
Quando se convencem de que não há motivos para impedir Beta de ver o namorado, proporcionam uma noite de amor para o casal, a quem oferecem licor e bolinhos. A colocação final da história: “Tia Biloca, Tia Tunica e Tia Cotinha não existem mais” soa lírica no aviso do quanto o tempo é efêmero e tudo leva.
Quando pulamos para a terceira história “O Arremate”, a mais fraca do filme, ficamos com saudades da segunda, já que temos aqui apenas a exibição maquinal de um estupro em uma fazenda, onde o senhorio (Lima Duarte) vai cobrar uma dívida do seu empregado e possui a filha deste (Liza Vieira) como pagamento.
Mas tudo parece o preparo para a quarta história, a incrível “Vereda Tropical”, dirigida por Joaquim Pedro de Andrade e que fez para sempre a fama do filme, constando nas melhores (e piores) antologias do cinema popular brasileiro. “Vereda Tropical” é a história de um estranho professor universitário (Cláudio Cavalcanti), morador da Ilha de Paquetá, que mantém relações sexuais apenas com frutas, sendo a preferida uma rechonchuda melancia.
Mostrada em detalhes, a corte do homem à melancia (que ele lava, acaricia e cobre de talco antes do intercurso) rende inúmeras piadas, tornando-se quase uma lenda entre os cinéfilos. A performance de Cláudio Cavalcanti no papel de tarado é outro espetáculo à parte, valendo-se de uma simulação de volúpia e delícia que colore e humaniza o bizarro.
“Contos Eróticos” teria um contexto diferente sem esse delírio final – e aos curiosos que procuram o filme no barato sensacionalista, vale a pena reavaliá-lo como um mini-panorama de quando, mesmo involuntariamente, se fazia bom cinema no Brasil. É a arte de quatro grandes nomes exercitando em cima de histórias desiguais o prazer de filmar, oferecendo um produto de bom gosto ao público, que ao longo dos anos se desacostumou a ser tratado com tamanha deferência e respeito.
Dividido em episódios, “Contos Eróticos” (1977) é uma coletânea filmada das quatro histórias vencedoras do Concurso de Contos Eróticos da extinta Revista Status, uma espécie de Playboy – inicialmente, antes mesmo do aparecimento da Playboy brasileira – publicada pela Editora Três e de conteúdo sofisticado, o que permitia anualmente à revista promover um concurso de textos, onde os melhores iam parar em livro.
E de uma das edições do concurso nasceu o filme. São quatro episódios sem qualquer ligação entre si, cada um deles dirigido por um cineasta diferente e com elenco diverso. O primeiro “Arroz com Feijão”, por Roberto Santos; o segundo “As Três Virgens”, por Roberto Palmari; o terceiro “O Arremate”, por Eduardo Escorel e o último “Vereda Tropical”, por Joaquim Pedro de Andrade.
“Arroz com Feijão” traz como maior mérito a utilização da música “A Dona do Primeiro Andar” dos Originais do Samba, em harmonia com a história popularíssima, do rapaz pobre (Cássio Martins) que se encanta pela dona da pensão (Joana Fomm) onde almoça diariamente. Sugestionado pelo refrão intrigante (“Estou apaixonado/ apaixonado estou/ Pela dona do primeiro andar/ pela dona do primeiro andar”), o espectador aguarda ansioso as cenas de nudez farta da atriz, que no final são tão discretas que a câmera vira quase apenas observadora do cotidiano na casa de Joana, em um exercício cinematográfico singelo.
A segunda história, “As Três Virgens” merece maior atenção: três velhinhas (Carmen Silva, Eva Rodrigues e Maria Anita Shut) vivem juntas em um casarão rememorando o passado até que recebem a visita da sobrinha adolescente, Beta (Paula Ribeiro). Ela perdeu a virgindade com um namorado motoqueiro e precisa ser protegida dos perigos da vida. O roteiro é afiado e quando as senhoras maldizem o presente turbulento, o fazem com tanta precisão que nos perguntamos o que elas achariam do mundo de hoje, três décadas depois do convescote.
Quando se convencem de que não há motivos para impedir Beta de ver o namorado, proporcionam uma noite de amor para o casal, a quem oferecem licor e bolinhos. A colocação final da história: “Tia Biloca, Tia Tunica e Tia Cotinha não existem mais” soa lírica no aviso do quanto o tempo é efêmero e tudo leva.
Quando pulamos para a terceira história “O Arremate”, a mais fraca do filme, ficamos com saudades da segunda, já que temos aqui apenas a exibição maquinal de um estupro em uma fazenda, onde o senhorio (Lima Duarte) vai cobrar uma dívida do seu empregado e possui a filha deste (Liza Vieira) como pagamento.
Mas tudo parece o preparo para a quarta história, a incrível “Vereda Tropical”, dirigida por Joaquim Pedro de Andrade e que fez para sempre a fama do filme, constando nas melhores (e piores) antologias do cinema popular brasileiro. “Vereda Tropical” é a história de um estranho professor universitário (Cláudio Cavalcanti), morador da Ilha de Paquetá, que mantém relações sexuais apenas com frutas, sendo a preferida uma rechonchuda melancia.
Mostrada em detalhes, a corte do homem à melancia (que ele lava, acaricia e cobre de talco antes do intercurso) rende inúmeras piadas, tornando-se quase uma lenda entre os cinéfilos. A performance de Cláudio Cavalcanti no papel de tarado é outro espetáculo à parte, valendo-se de uma simulação de volúpia e delícia que colore e humaniza o bizarro.
“Contos Eróticos” teria um contexto diferente sem esse delírio final – e aos curiosos que procuram o filme no barato sensacionalista, vale a pena reavaliá-lo como um mini-panorama de quando, mesmo involuntariamente, se fazia bom cinema no Brasil. É a arte de quatro grandes nomes exercitando em cima de histórias desiguais o prazer de filmar, oferecendo um produto de bom gosto ao público, que ao longo dos anos se desacostumou a ser tratado com tamanha deferência e respeito.

10 comentários:
Colocar talco na melancia antes do "intercurso" é demais! Tô me matando de tanto rir...
A Carmen Silva que aparece na segunda história é a mesma Carmen Silva cantora?
Um beijo, Andréa.
Sempre quis ver esse filme doentiamente... Nunca o achei...
Andréa, se você é portadora dessa maravilha de filme, por favor informe-me. Não encontro essa obra-prima em lugar algum e o episódio dirigido pelo Joaquim Pedro entra para os anais da história do cinema brasileiro. Você é uma rainha por ter trazido à luz essa maravilha da sétima arte tupiniquim. Abraço.
Eu não vi "Contos Eróticos", mas já vi a fita de vídeo na 2001 e logo mais devo ver. Te digo: a primeira versão da "Bonitona do Segundo Andar" é do grande sambista paulista Germano Mathias, um gênio. A "Status" era concorrente da "Playboy", mais para "Sexy" que para a dominante, que era a revista da Abril. Na época, ainda se chamava "Revista do Homem", depois mudaria para "Playboy" como a americana. Como você bem disse, a "Status" era realmente uma revista sofisticada, escreviam nela Paulo Francis, Ignácio de Loyola Brandão,Maurício Krubusly, Cláudio Bojunga, entre outros.
Agora Andréa, é preciso fazer um levantamento: onde anda o CLÁUDIO CAVALCANTI ??? Ele anda muito sumido da TV nos últimos tempos, sou fã de carteirinha dele. Quem sabe uma entrevista dele ao Estranho Encontro, seria demais hein !
Andréia: mais uma vez, que bela crítica essa hein ! Dá vontade da gente correr atrás e ver o filme agorinha mesmo !
Lembrei do episódio do Joaquim Pedro de Andrade quando assisti no Festival do Rio do ano passado o filme "O Sabor da Melancia" do Tsai Ming Liang.
Oi Domingos, a Carmem Silva do filme não é a cantora de "Adeus Solidão", é a veterana atriz gaúcha. Um beijo.
Adriana, foi lançado em video e passa no Canal Brasil, não é tão dificil de ser encontrado :)
Fernando, sou portadora de uma cópia sim :) O Matheus disse que encontrou em Sp na 2001. Mas caso não consiga, me mande um email que tento ajudar. Abraços!
Matheus, não conheço a versão da "Dona do primeiro andar" do Germano Mathias, conheço só a do Originais do Samba. O Claudio Cavalcanti está na ativa, é vereador aqui no Rio. Vale muito a pena ver o filme, tenho certeza de que vc vai adorar :)
André, não vi "O Sabor da Melancia", mas a utilização da fruta como símbolo de erotismo é muito engraçada e interessante.
Vi contos eróticos, mas ainda não tinha visto seu cartaz que é genial.
Eu vi o da melancia na TVE Brasil (Canal 2 - RJ).
me lembro até hoje, como eu ri daquele filme, que coisa bizarra "comer" a melancia
Fernando, tenho esse filme em DVD, convertido, com excelente qualidade de áudio e vídeo. Entre em contato comigo pelo e-mail behindthemask@ig.com.br
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