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quarta-feira, março 14, 2007

Memórias de um Gigolô


No início dos anos 1970 Jece Valadão devia ser um homem feliz. Afinal, sua Magnus Filmes, então situada em um edifício na Av. Princesa Isabel, na fronteira entre os bairros de Copacabana e Leme, produzia -- com ou sem a ajuda de recursos repassados pelo Instituto Nacional de Cinema -- uma média de dois longa-metragens por ano. Em 1971, seriam quatro. E Jece, entrado na faixa dos quarenta anos, comandava naquela empresa próspera, tão carioca que quase na beira da praia, um sonho coletivo de técnicos, atores e diretores de se fazer cinema comercial de qualidade no Brasil.

O resultado permanece nas telas, ainda que Jece esteja morto, e, no fremir solar e vertiginoso da entrada do bairro mais famoso do mundo, quase ninguém se lembre que no último andar daquele prédio, onde hoje funciona uma locadora de carros, o visionário ator/produtor/diretor teve algumas de suas melhores idéias para a cultura nacional.

Pois quem sabe não foi olhando o mar, as ondas quebrando nas pedras do Leme, que Jece lembrou-se de Marcos Rey -- o escritor paulista -- e contratou o cineasta italiano Alberto Pieralisi para adaptar os livros de Rey em filmes deliciosos, migrados para um Rio de Janeiro que mais parecia uma caixa de bombons, e estrelados com a dramaticidade de um convescote primaveril por sorridentes beldades como Cláudio Cavalcanti e Rossana Ghessa?

"Memórias de um Gigolô" (1970) guarda todas estas características, ainda que uma idéia perfeita muitas vezes se perca nas intempéries da execução. Autor de criatividade lúdica -- grande parte dela por ser redescoberta -- Marcos Rey é ouro de tolo para quem reconheça em seus textos apenas simples munição folhetinesca, ou melhor dizendo, tome-o por cronista leve, de linhas despretensiosas e pitorescas.

Longe disso, Rey escrevia tão bem e de forma tão cuidadosa que ganha qualquer embate contra diretores e roteiristas apressados. No caso das adaptações de Pieralisi, podemos considerar que configuram-se um empate: deslocadas do contexto paulista, as narrativas perdem em anotação de costumes aquilo que ganham em chantilly e caramelos.

"Memórias de um Gigolô" traz à vida Mariano (Claudio Cavalcanti), garoto órfão que, sabendo de antemão seu futuro em um jogo de cartas, é criado em um bordel, onde encontra o grande amor de sua vida, Guadalupe (Rossana Ghessa), e seu grande adversário, Esmeraldo (Jece Valadão), com quem rivaliza em busca do amor da jovem prostituta.

Guadalupe é típica personagem feminina de Marcos Rey: criatura sonsa, que guarda ao mesmo tempo a estupidez e o controle das ações daqueles que a cercam. Os dois homens disputam não apenas seu amor; também o direito de explorá-la. E neste ponto, onde na aventura literária havia o entrave amargo da submissão amorosa, o filme transmuta-se em comédia bittersweet, alternando entre Mariano e Esmeraldo a posse pelo desejo mercenário da garota.

Na falta de Guadalupe, um ou outro fenece -- Mariano, por exemplo, pula de emprego em emprego, culminando na atividade de guia de cego, que exerce com tamanha displicência ao ponto de jogar o patrão dentro do Canal do Leblon. Já quando está com Guadalupe, Mariano tem privilégios de rei -- apesar do papel sutilmente masoquista/passivo que acata oferecendo laboriosamente sua propriedade a outros homens.

No vai-e-vem de Guadalupe, o espectador gruda na cadeira e passeia pelas boates mais pra frentex da cidade, pela piscina do extinto Hotel Nacional, pelo Hotel Quitandinha, em Petrópolis -- e claro, pela trilha-sonora de Tibério Gaspar e Antônio Adolfo, executada pela Brazuca, a banda deste último. Junto do ingresso de um filme da Magnus, dirigido pelo veterano Pieralisi, comprava-se, de quebra, o mundo 2001, transado, colorido, que deixaria a cantora Vanusa roxa-púrpura de inveja.

As bilheterias, que desagüavam no setor de contabilidade do escritório da Av. Princesa Isabel, comprovavam que aquele era o ouriço certo para a indústria de cinema no país. Em 72, Jece mudaria a firma para outro endereço -- na Rua São Manuel, em Botafogo -- e sobre a Magnus teremos ainda uma detalhada história a percorrer. Mas quem quiser uma saborosa introdução, veja "Memórias de um Gigolô" (não a série homônima, que a Rede Globo cometeu nos anos 80), e lá está um bom motivo para se fazer arte: imortalidade conquistada em flashes de humor e ironia inteligente, eternamente jovens e eternamente presos em um tempo que não volta mais.

domingo, agosto 27, 2006

Contos Eróticos


Como em quase toda a filmografia brasileira dos anos 70 e princípio dos 80, que ninguém se engane com o título: o que era “erótico” em 1977 hoje em dia transparece tão delicado e cuidadoso que fica difícil acreditarmos que, de fato, os produtores do filme buscavam vendê-lo com o apelo do sexo.

Dividido em episódios, “Contos Eróticos” (1977) é uma coletânea filmada das quatro histórias vencedoras do Concurso de Contos Eróticos da extinta Revista Status, uma espécie de Playboy – inicialmente, antes mesmo do aparecimento da Playboy brasileira – publicada pela Editora Três e de conteúdo sofisticado, o que permitia anualmente à revista promover um concurso de textos, onde os melhores iam parar em livro.

E de uma das edições do concurso nasceu o filme. São quatro episódios sem qualquer ligação entre si, cada um deles dirigido por um cineasta diferente e com elenco diverso. O primeiro “Arroz com Feijão”, por Roberto Santos; o segundo “As Três Virgens”, por Roberto Palmari; o terceiro “O Arremate”, por Eduardo Escorel e o último “Vereda Tropical”, por Joaquim Pedro de Andrade.

“Arroz com Feijão” traz como maior mérito a utilização da música “A Dona do Primeiro Andar” dos Originais do Samba, em harmonia com a história popularíssima do rapaz pobre (Cássio Martins) que se encanta pela dona da pensão (Joana Fomm) onde almoça diariamente. Sugestionado pelo refrão intrigante (“Estou apaixonado/ apaixonado estou/ Pela dona do primeiro andar/ pela dona do primeiro andar”) o espectador aguarda ansioso as cenas de nudez farta da atriz, que no final são tão discretas que a câmera vira quase apenas observadora do cotidiano na casa de Joana, em um exercício cinematográfico singelo.

A segunda história, “As Três Virgens”, merece maior atenção: três velhinhas (Carmen Silva, Eva Rodrigues e Maria Anita Shut) vivem juntas em um casarão rememorando o passado, até que recebem a visita da sobrinha adolescente, Beta (Paula Ribeiro). Ela perdeu a virgindade com um namorado motoqueiro e precisa ser protegida dos perigos da vida. O roteiro é afiado e quando as senhoras maldizem o presente turbulento, o fazem com tanta precisão que nos perguntamos o que elas achariam do mundo de hoje, três décadas depois do convescote.

Quando se convencem de que não há motivos para impedir Beta de ver o namorado proporcionam uma noite de amor para o casal, a quem oferecem licor e bolinhos. A colocação final da história: “Tia Biloca, Tia Tunica e Tia Cotinha não existem mais” soa lírica no aviso de quanto o tempo é efêmero e tudo leva.

Quando pulamos para a terceira história, “O Arremate”, a mais fraca do filme, ficamos com saudades da segunda, já que temos aqui apenas a exibição maquinal de um estupro em uma fazenda, onde o senhorio (Lima Duarte) vai cobrar uma dívida do seu empregado e possui a filha deste (Liza Vieira) como pagamento.

Mas tudo parece o preparo para a quarta história, a incrível “Vereda Tropical”, dirigida por Joaquim Pedro de Andrade e que fez para sempre a fama do filme, constando nas melhores (e piores) antologias do cinema popular brasileiro. “Vereda Tropical” é a história de um estranho professor universitário (Cláudio Cavalcanti), morador da Ilha de Paquetá, que mantém relações sexuais apenas com frutas, sendo a preferida uma rechonchuda melancia.

Mostrada em detalhes, a corte do homem à melancia (que ele lava, acaricia e cobre de talco antes do intercurso) rende inúmeras piadas, tornando-se quase uma lenda entre os cinéfilos. A performance de Cláudio Cavalcanti no papel de tarado é outro espetáculo à parte, valendo-se de uma simulação de volúpia e delícia que colore e humaniza o bizarro.

“Contos Eróticos” teria um contexto diferente sem esse delírio final – e aos curiosos que procuram o filme no barato sensacionalista, vale a pena reavaliá-lo como um mini-panorama de quando, mesmo involuntariamente, se fazia bom cinema no Brasil. É a arte de quatro grandes nomes exercitando em cima de histórias desiguais o prazer de filmar, oferecendo um produto de bom gosto ao público, que ao longo dos anos se desacostumou a ser tratado com tamanha deferência e respeito.