sábado, janeiro 07, 2006

Bonitinha Mas Ordinária


Se um filme não é um bombom de cereja, como diria Nelson Rodrigues, “Bonitinha Mas Ordinária” possui taxa baixíssima de glicose. Geralmente associada à pornografia vazia – sem pelo menos o benefício da dúvida –, a película de Braz Chediak domina a peça teatral de Nelson com a técnica de quem desde cedo era familiarizado com a obra do dramaturgo.

Amante da literatura, Chediak aterrissou aos poucos na indústria cinematográfica. Aproveitava a vida e a arte dos anos 60, sem qualquer pretensão de tornar-se diretor. Quando em 1963 é sondado por Joffre Rodrigues – filho de Nelson e produtor da primeira versão de “Bonitinha Mas Ordinária” –, é na condição de ator que recusa o convite para integrar o elenco e viaja para a Itália, aproveitando uma bolsa de estudos.

Na volta ao Brasil dirigiria, anos depois, “Navalha na Carne” (1969), da peça de Plínio Marcos. A dimensão expressionista de “Navalha” precisa ser urgentemente estudada por aqueles que ainda confundem altos recursos financeiros como pré-requisito para vôos artísticos. Dispondo de apenas um apartamento, atores em ponto de bala e um diretor que sabia perfeitamente aonde queria chegar, temos como resultado algo que supera em muito a mediocridade que por vezes lhe é imputada.

O mesmo pode ser dito sobre seu trabalho em “Bonitinha Mas Ordinária” (1981), recebido com salva de palmas por Nelson. O escritor compreendeu os alvos de Chediak. A meta era fazer com que o texto soasse palatável para a massa espectadora, além de extrair do elenco e dos referenciais do autor uma plástica tremendamente sincera.

Chediak não distorce, não ilude. Ao optar de caso pensado por uma narrativa linear, nem por isto desmerece o texto. Ao contrário: torna-o pleno.

Se prestarmos atenção em profissionais acostumados a esforços de peso – como Milton Moraes (Peixoto) e Carlos Kroeber (Dr. Werneck) –, bastam alguns segundos para entendermos que apesar de os personagens usarem uma fachada histriônica, cheia de piadinhas, o que eles revelam são doenças horríveis, que esmurram a sensibilidade do observador.

Lucélia Santos – ex-esposa de John Neschling, atual maestro da Osesp, autor da trilha sonora do filme – sobressai na amostragem dos planos de consciência e inconsciência de Maria Cecília, a protagonista infernal.

Seja nos estupros grupais – sim, nos tão comentados estupros grupais –, quanto nas conversas com o futuro noivo, Edgard (José Wilker), e em absolutamente todos os takes em que aparece, percebemos na personagem de Lucélia as rubricas do escritor e do diretor. Há uma sintonia indisfarçável entre os dois. Nelson, aliás, adorou a encenação dos estupros. Com as mãos presas, seguras pelos homens, Maria Cecília era crucificada como o Cristo espúrio que pretendia por ocasião da peça. Por sua vez, a imagem vista nas telas foi concebida por Chediak, a partir de um quadro de Salvador Dali.

Outros momentos impactam pela selvageria sexual. O “banquete” em que três meninas, irmãs da prostituta Ritinha (Vera Fischer) – namorada de Edgard –, são violadas sob o olhar de convidados em uma festa é um deles. Num rasgo de hiper-violência, Chediak deixa a cena durar por mais minutos do que o suportável.

Abandonando esta abordagem, em um compasso um pouco mais cínico, vemos com espanto o mendigo que masturba-se, a conversa de Edgard e Ritinha numa cova de cemitério, o abuso do chefe (Rubem Corrêa) pela filha (Ritinha) de uma funcionária (Miriam Pires, em grande forma, como uma catatônica desmemoriada).

Como todos repetem a toda hora, numa insistência surreal, “o mineiro só é solidário no câncer”. A orientação da peça e do filme é quase completamente a do desprezo pela hipocrisia humana. O “câncer” existe, é uma realidade indefectível, mas a possibilidade de curá-lo rareia à medida em que pessoas como Werneck, Peixoto e Maria Cecília mostram a vontade de se denegrirem e exilarem-se na podridão.

Sobra para o casal de apaixonados (Ritinha e Edgard) uma esperança discreta, caminhando pela praia juntos, iluminados pelo nascer do sol. Aqui Chediak voltaria ao melodrama e dá a ele próprio e a todos nós, o direito de sermos ingênuos pelo menos por um tempo.

No fim “Bonitinha Mas Ordinária” é exemplar do fenômeno das produções envolvendo a obra teatral do autor, que se não chegavam a soar autenticamente rodrigueanas, dialogavam com o universo de Nelson e formavam um terceiro híbrido, onde a mão criteriosa do realizador cinematográfico também fica evidente.

Atento aos filhotes interessantes que seu imaginário produziu, Nelson valorizou as criações de Chediak, Jabor e outros com êxtase juvenil – o que, com certeza, torna ainda mais duvidoso o idiota da objetividade que torça o nariz para estes filmes, rindo deles como se fossem entretenimento pitoresco.

Não esqueçamos que na "Resenha Facit", programa de debates esportivos do qual participava, quando tinha opinião sua confrontada com a evidência de um videotape, Nelson vaticinava: “- Estou certo e o videotape errado! O videotape é burro!”. Escutemos Nelson, pois sua razão era batata, batatíssima.

Ver também:
Dois Perdidos Numa Noite Suja
Navalha Na Carne
A Dama do Lotação
Os Sete Gatinhos

14 comentários:

dr.lorax disse...

esse eu tenho na minha coleção,excelente!Lucélia era muito boa atriz,mas sumiu...
parabéns pelo texto,preciso rever esse filme já...

Ailton disse...

Eu adoro quando o José Wiker diz: "Eu sou um ex-contínuo e você é um filho da puta!" Heheheh

Matheus Trunk disse...

Cara Andréia, este é um dos melhores filmes baseados na obra do Nelson. Andréia vá neste http://www.memoriacinebr.com.br/
é um site que lançou na internet uma tese de mestrado sobre a Censura no cinema tupiniquim durante o regime militar, é muito interessante ! parabéns pela bela crítica

Andréa Ormond disse...

Oi Dr. Lorax, a Lucélia está voltando, pelo menos nas novelas, depois de algumas inciativas dos fãs. Vamos ver se chega à tela grande.

Oi Aliton, uma que eu sempre achei foi "papai tem dinheiro, papai paga!" rs

Oi Matheus, eu vi uma reportagem sobre esse site no Canal Brasil, mas ainda não tive tempo de lê-lo. Vou dar uma olhada com calma, excelente dica.

- Elis - disse...

Outra frase memorável é da Miriam Pires delirando, sem querer ver o que está acontecendo ao seu redor: "Tô andando pra trás, tô andando pra trás!".
Adoro esse filme.

Ricardo Vaz Belleza disse...

Bonitinha mas ordinária é um clássico, destaque para a cena do abuso no correio, a tomada em cima do Rubem Corrêa coloca o espectador no lugar de Ritinha sofrendo abuso verbal e intimidação, forte muito forte...

Anônimo disse...

hola me llamo Gabriel, soy de Buenos Aires, Argentina...lamentablemente no escribo en portugues. me encanto ese film, alguien tiene informacion sobre "Bonitinha mais ordinaria", en español? ese film lo vi en mi adolescencia... no hay obras de Nelson Rodrigues publicadas en español en Buenos Aires
gracias
mi mailes: raltao@hotmail.com

Dimitrius disse...

Olá Amigos,

Gostaria que saber se alguém poderia me dizer onde eu consigo encontar este filme, onde eu posso comprá-lo, pois procurei por vários site na net e não obtive exito.

Grato

tito disse...

Parabéns pelo blog, é FANTÁSTICO!!!
Sou fanático por Cinema Nacional e filmes de diretores como Buñuel, Pasolini, Fritz Lang, Bergman, Jodorowsky, etc. Gostaria que se você tiver oportunidade, escrever sobre o filme “Álbum de Família”, do Braz Chediak, baseado na peça do Nelson Rodrigues. Acho um filme sensacional pelo seu clima mórbido, teatral e as sacadas rápidas e diretas em que seus personagens se dirigem... Já o vi e verei muitas vezes, está entre os meus preferidos, ao lado dos filmes de Bressane, Neville D’Almeida, Walter Hugo Khouri e Arnaldo Jabor.
Continue sempre a escrever esses textos maravilhosos!!! Eles valorizam ainda mais cada filme...

Jaguar Araújo disse...

Realmente o filme é extraordinário, tanto Lucélia Santos quanto os outros atores transpiram o aroma e o veneno Rodriguiano por todos os póros. Inclusive, acho que já assisti a esse filme umas dez vezes (sem exageros!!!) e sempre me surpreendo.
Sobre onde encontrar, é só baixar qualquer compartilhador feito: ares, emule, limewire, etc., e fazer o download.

Anônimo disse...

Demasiado complacente as críticas de seu Blog. Esse filme é uma verdadeira excrescência: adaptação sofrível de uma obra sem grandes qualidades, além das interpretações desastrosas de grande parte do elenco. "O mineiro só é solidário no câncer", aforisma repetido a exaustão, chega a provocar tédio; recurso banal para preencher a vacuidade do roteiro que tem nas cenas de sexo seu único atrativo.

Andrea Ormond disse...

Oba, Anônimo, que comentário legal. E ainda por cima nem assina? Isto que é um moralista de escol!

michel disse...

Olá Andréa, gostaria muito de saber sua opinião sobre esta nova refilmagem (2013) de "Bonitinha" com com João Miguel como Edgard.

Para mim em termos de elenco o filme de Chediak é imbatível, daí a sua superioridade. Milton Moraes era um gênio, um monstro de ator!
Abraços!

ADEMAR AMANCIO disse...

Estou vendo.Tem mais duas versões pra ser vista.