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segunda-feira, janeiro 31, 2011

Pecado Horizontal


Quase tudo o que se produziu na Boca do Lixo alçou por décadas o estigma de frouxo, submetido a uma perversidade que poluiu até mesmo o imaginário de técnicos sobreviventes do local e do período. Comum ouvi-los repetindo o óbvio, introjetando uma ética auto-depreciativa. E por essa brecha instala-se outra praga: os menos atentos, os mais burros e ingênuos, podem achar que, para acabar com o ataque sofrido por milanos, a defesa há de ser tão intransigente quanto. Para matar uma gazela, cria-se outra – desde que, dessa outra, tenha-se agora total controle.

Sinto muito, senhores, julgamento errado. Trará problemas a longo prazo, é o reverso do espelho. Defender não significa fechar os olhos aos erros. Combater não significa vestir a histeria homicida. A Boca não foi um pacote homogêneo. Ter o símbolo de auto-sustentáveis não iguala as produções realizadas por lá. Este o soberano – nome do bar de larga história – fato.

Aprendiz de feiticeiro, José Miziara embarca no sonho quando os dramas de costumes, as invenções udigrudi, os filmes garnizés, o tosco e o sublime rodavam alucinados, em espiral. Tarefa inglória a de conviver com pontas de lança. Pior: autores de reputação construída por motivos insólitos, frágeis, aparentemente naturais. Walter Hugo Khouri era o homem dos filmes complicados. Ody Fraga, o intelectual libertino. Jean Garrett – para ficarmos em um dos garotos – se esforçava, fazendo o que podia, contrabandeando erotismo em tragédias e cinema de gênero.

Miziara, tentando colocar o anel de alquimista, joga umas ervas, cozinha o caldeirão. Aonde ele se encaixa, de verdade? Ex-artista de circo, faz-tudo da Rádio Nacional, dublador, cômico, seguiu os filões do rádio que moldaram os pioneiros da televisão. O bem e o mal, o homem e a mulher, o esperto e o enganado. Salpicou de anos 70 a regra e desaguou na malícia, no sexo depois da pílula.

Assim fez enorme sucesso em “O Bem Dotado: O Homem de Itu (1977)” – o jeca versus o povo da cidade grande. Tateia uma reportagem esperta sobre o swing em “Embalos Alucinantes” (1979), cruzamento de revista Veja e “Vai Trabalhar Vagabundo” sem nuances, puro deboche. No polêmico “As Intimidades de Analu e Fernanda” (1980) avança no paternalismo – homem e mulher, colunas estanques. Tenta vender as carícias loucas entre Fernanda e a separada Analu. Na prática, coloca a sombra do homem rondando em loop, desestabilizador da relação das duas. Um garoto na praia significa o elemento fálico faltante, a justificar interdição. Analu diz ao garoto que vá embora, mente que o marido chegará. Ambas se vêem através de um terceiro, não por si. O filme não alcança a voragem de Jean Garrett , que fez de “Karina, Objeto do Prazer” (1981), “A Mulher que Inventou o Amor” (1979), “Possuídas Pelo Pecado” (1976), antros do exploitation, quicando o feminismo e o machismo superficiais.

“Pecado Horizontal" (1982), gravado no ano limite entre a chanchada e o pornô, consegue um caminho mais hábil. Acerta. Coloca o corpo em foco não apenas dos moços, mas das moças. Elas a fim, procuram, gozam, sem o terror da vergonha, da racionalização.

Dirigido e escrito por Miziara, busca a atmosfera, bem nacional, dos subterrâneos de uma cidade do interior. A se prestar atenção na trilha sonora – a valsa “Oh, Minas Gerais” –, chegamos ao estado das Alterosas.

Três conhecidos reúnem-se em volta de uma mesa, bebem cerveja e contam “causos” passados de suas vidas. Relatá-los seria perda de tempo. Estão no limite do grosseiro – o protagonista não consegue traçar Matilde Mastrangi por conta de hemorróidas – e do engraçadíssimo, principalmente o segundo. O que interessa é que idas, vindas e deslizes dos personagens têm um objetivo: a obcecada fornicação. Sentem prazer absurdo em quase perderem a vida por conta desse mito. As mulheres, quando “dão”, sorriem; os homens, vivenciam um êxtase.

Essa vontade natural impressiona as normas egoístas e atualíssimas de conduta. Colocando-se em perspectiva, a "busca existencial" do sexo parece ter morrido no século XXI. Deu lugar ao aspecto esquizóide, narcísico, em que a aparente liberalidade oculta uma perturbação moralista. Ir pra cama não é mais libido, recompensa. Necessita de enrolação, de pose, de frieza. José Miziara nunca foi Betty Friedan, mas “Pecado Horizontal” coloca o desejo feminino atuante. Notem que as três protagonistas são mulheres insatisfeitas, que escolhem seus parceiros e desejam somente aquilo que toda fêmea heterossexual deseja, mas que certos homens costumam atrapalhar com grilos e lentidões.

Um mergulho nos documentos da censura revela dado espantoso: nenhum vigilante do governo militar implicou com a terceira história, na qual um menino de doze anos transa uma coquete aflita. Em 82, o duvidoso intercurso entre menino e mulher podia ser visto tanto no cinema de Miziara, quanto em “Amor Estranho Amor”, de Khouri. Implicando com cenas de sodomia, por outro lado a censura aceitava tranqüilamente o garoto Ric Ostrower cobrindo Mariza Sommer.

Além do princípio de que cinema popular não é pornochanchada, precisamos entender que, dentro dos filmes legítimos do gênero, existem sutilezas a serem pesquisadas e resgatadas. O passado de má vontade dos críticos explicava-se por um (falso) ideal de melhora, que não faz mínimo sentido quando o tempo e as influências são outros. Hoje, um chiste como “Pecado Horizontal” vira subversivo, libertário, porque nos ensina um espanto: a picardia pelo prazer de ser vivida. E que ocorreu, de igual maneira, fora da Boca do Lixo. Carlo Mossy, leitor de Schopenhauer, não fez “Giselle” à toa: nada mais importante para a menina “recém-chegada da Europa” que a vontade cega do corpo. Em tantas pornochanchadas – algumas de Mozael Silveira – o corpo é quem manda. E tal imperativo pede para destroçarmos o labirinto, entendermos as pistas falsas que o enfoque bruto – favorável ou contrário – cisma em corromper.

(in Zingu! #41, janeiro de 2011)

quarta-feira, março 11, 2009

As Intimidades de Analu e Fernanda


Com narrativa semelhante às produções hollywoodianas dos anos 40, "As Intimidades de Analu e Fernanda" (1980) levava ao público brasileiro, em um período marcante de abertura na vida nacional, aquilo que o diretor e roteirista José Miziara sabia fazer de melhor: rocamboles eróticos, oportunistas, transpassados por certo moralismo ingênuo e machismo de anedota, daqueles nos quais se a mulher não é frágil, é neurótica. Se não é obediente, é fácil.

Frágil e fácil, a heroína Analu (Helena Ramos) desiste do marido Gilberto (Ênio Gonçalves), escuta o lp "Guto Para Viver"(?!?), bebe uísque contrabandeado e conhece em um botequim Fernanda (Márcia Maria), pantera emancipada, dominadora, que se toma de amores por ela. As duas partem para uma casa de praia em Ubatuba, vivem um romance, trocam juras de amor e confidências.

Terminasse aqui o argumento, teríamos um belo drama de costumes -- no estilo que a Boca produzia aos montes -- sobre um casal diferente. Uma reflexão -- pinçada do erotismo comercial -- sobre o amor entre iguais. Mas como nada é fácil, Miziara achou por bem que duas mulheres juntas vivem necessariamente angustiadas por algo que falta.

E o que falta? O pênis, claro. Na presença de um, tanto Analu quanto Fernanda desmontariam sua paixão de aparências. Eis que surge o garanhão -- um garanhão qualquer, tosco e gaiato -- que seduz ambas e provoca o fim do relacionamento. Primeiro, Fernanda vê Analu aos risos com o rapaz. Em seguida, parte para cima dele e os dois transam. Analu presencia a cena e foge.

Desorientada, perambulando seu corpinho bronzeado pelas areias quentes, Helena Ramos encontra Maurício do Valle, no papel de um pescador bêbado, sobre o qual Glauber Rocha faria centenas de obscuras alegorias. Febril em ciúmes de Fernanda, resolve se deixar possuir pelo caiçara. Vira de bruços, e Maurício do Valle logra o êxtase, em uma parte de Benedita (primeiro nome de La Ramos) onde muitos gostariam de estar.

O que incomoda em "As Intimidades", mais do que esse esquema simplório -- que em outros casos soaria engraçado --, é a crença mórbida em uma culpa inevitável, que ninguém sabe de onde vem. A iluminação noir, o olhar pesado da câmera, tudo nos induz à crença de que elas fazem algo de muito espúrio, que terminará em desagregação e tragédia.

Se não há indícios de religião, nem de moral vinculada, há -- à semelhança de "Embalos Alucinantes" -- uma motivação particular do diretor. Ou Miziara era hipócrita e acreditava que seguindo um código Hays conquistaria uma platéia menos tolerante, ou seu pensamento era contraditório ao ponto de trabalhar em um meio permissivo manipulando repressão insidiosa.

Até um parecer (4190/80) da Censura, emitido em 4 de agosto de 1980, foi taxativo em dizer que "Apesar da exploração do lesbianismo, o assunto é tratado com certa seriedade (...) atenuado por um desfecho que desencoraja a prática de atitudes similares (...)."

Quando Fernanda encontra Analu desmaiada na praia (dotes calipígicos à mostra, como convém a um suspense made in Boca), o relacionamento entre as duas já terminou. Mas como bem disse a senhora censora, Fernanda está louca, e começa a perseguir Analu para que a miséria, a penúria existencial se consuma.

Há no desfecho de thriller toda uma explicação vitimizante para Analu -- ela seria eternamente "refém" de seus casos amorosos -- que não convence. Persiste uma lição prussiana, como se fugir ao rigor das convenções sociais enrolasse tanto o ser humano em perigos que a libertação só fosse possível através do retorno dócil às mesmas convenções. Um ciclo vicioso e controlador. Mensagem mais reacionária que essa, impossível.

Bom lembrarmos que "As Intimidades de Analu e Fernanda" rivalizou nos cinemas -- menos de seis meses de intervalo entre os lançamentos -- com duas das mais libertárias produções da história: "Giselle", fábula de Carlo Mossy, e o sensacional "Império do Desejo", de Carlos Reichenbach. Se possível, recomendo vê-los em maratona: Mossy, o sexo schopenhaueriano; Reichenbach, uma discussão franca sobre quando termina a ideologia e começa a perversão; e Miziara, o lúmpen aburguesado, dialética de algo que não servindo para explicar, é falho mesmo em confundir.


sábado, agosto 11, 2007

Embalos Alucinantes


Clássico da velha "Sala Especial", José Miziara podia não ter o talento de Cláudio Cunha, ou mesmo o cuidado obsessivo de Jean Garrett, mas seus filmes oferecem diversão razoável para quem gosta do cinema da Boca do Lixo paulistana.

Sem grande sofisticação, trafegando entre um machismo insidioso e o "oportunismo de costumes" -- que caçava nos jornais os assuntos "da moda", vendendo-os digeridos para o espectador -- Miziara realizou o pretensamente libertário "Embalos Alucinantes" (1979), cruzamento entre "Vai Trabalhar Vagabundo" e qualquer coisa lida na Manchete ou na Veja sobre a novidade da troca de casais.

Citação explícita, o protagonista Ramon (Nuno Leal Maia) terá suas idéias despertas folheando uma reportagem sobre o assunto. Em seguida, sintonizado com a "lei do Gérson" -- máxima, então em moda, sobre o brasileiro levar vantagem em tudo -- arma um plano mirabolante, contando com a ajuda da apetitosa Cris (Lenilda Leonardi); adepta do amor livre, sexo em grupo e venda de badulaques na Praça da República.

Ramon é típico alpinista social, chegado do interior ("Eu sou de Frutal!"), estudante da Usp nas horas vagas e parasita de um primo gay, Sérgio (Hélber Rangel), a quem tortura psicologicamente. Quando saem no tapa, Sérgio expõe algumas verdades ("Desrecalca! Você não tem coragem de assumir! Quem transa com bicha também é!"), mas o cafajeste não dá a mínima, agindo no limite da inconsequência e da marginalidade.

Sem ter a delicadeza de um Hugo Carvana, o malandro rascunhado por Miziara provoca apenas risos, quando não tédio ou desprezo. Mau feito um pica-pau, seduz a colega de curso, Valdete (Ana Maria Braga, irmã da Sônia Braga e mãe da Alice), rejeitando em seguida sua doce proposta de casamento. Antes engana um escoteiro, obrigando o menino a lavar pratos em um restaurante. Se roubasse pirulitos ou tomasse porres homéricos de Leite Ninho, quase ninguém sentiria a diferença.

O que Ramon quer é aventura, e logo vai parar com Cris na casa dos milionários Felipe (Anselmo Duarte) e Rosália, com quem realizam a troca de casais, ou, como preferiam os praticantes, o swing ("No Brasil existem 100 mil adeptos!" -- Felipe entusiasma-se). Além do swing, mais ícones da libertinagem festiva surgirão aos poucos nas telas: a boate Banana Power, tocando o fino da discoteque; a bissexualidade de Rosália, avançando em Cris; e o amigo travesti de Sérgio, feito pelo próprio José Miziara.

Por não ser um filme "orgânico" -- no sentido que Gramsci coloca, de elemento transformador -- "Embalos Alucinantes" representa mero catálogo de época, não se comparando a outras pornochanchadas famosas -- e subversivas -- como "Giselle" ou "Mulher, Mulher". Intoxicados por este clima de picardias de salão, os personagens são morosamente estanques, seguindo previsíveis do início ao fim.

Sobram os diálogos pra frentex ("Tão a fim de uma caipirinha? Falou, irmã, é a minha birita favorita!"); o decór -- a casa de Felipe, no Guarujá, é um monumento à luta de classes; o elenco (Anselmo Duarte, com aquela dicção impoluta de Vera Cruz, falando sobre swing é impagável); e a leviandade sexual, mesmo que aprisionada a moralismos. Apoiando-se nesses pilares, foi que a vertente mais popular da indústria da Boca do Lixo consolidou fama -- e, de certa forma, um estereótipo de si mesma, muito aquém das pérolas que oculta embaixo dos tapetes comprados na 25 de Março.

Quando o plano de Ramon em chantagear Felipe cai no vazio, o coroa milionário leva de prêmio a mulher do golpista -- e um final "surpreendente", nada surpreende. A trilha-sonora avisa ("Eu aproveito tudo/ Que a vida me oferecer/ Cada minuto a mais/ É um minuto a menos/ Que vai viver"), e a imagem de vagabundo romântico, pronto para outra empreitada, cola-se ao protagonista -- ainda que esqueçamos dele um minuto após baixarem os letreiros.

José Miziara -- ex-artista de circo e dublador -- acabaria, como tantos, mergulhado de cabeça na onda do sexo explícito, produzindo e dirigindo paródias e montagens bem ao gosto dos anos decadentes do cinema paulistano. "Embalos Alucinantes" é de uma época melhor -- a "Boca dos Sonhos", como a descreveu com simplicidade Helena Ramos -- e obteve mais de 500 mil pagantes, além de centenas de reprises nas tvs abertas dos anos 80 e 90. Visto e revisto com gosto, quase todo mundo se lembra, ainda que não tenha coragem de confessar.