quinta-feira, janeiro 13, 2011

A Menina e o Estuprador


Nos jogos eróticos da Boca havia sempre um mato, inferno verde onde personagens - notoriamente os femininos - expurgavam pecados e vícios. É dessa forma que encontramos a menina Vanessa (Vanessa Alves), subjugada pelo homem negro, que a coloca de bruços, levantando sua saia. Em seguida, descobrimos que nada daquilo acontecia de fato: Vanessa estava delirando. De certa forma, compartilha seu delírio com o do espectador, ávido na poltrona do cinema por uma espécie de punição, de humilhação ao ente mulher. Indefesa, bumbum inocente à mostra, disponível para um qualquer, Vanessa celebra nossos esgares sádicos, perversos. E reafirma o ethos selvagem e fascinante do meio em que sobrevivia como atriz.

Conrado Sanchez, diretor de "A Menina e o Estuprador" (1982), será lembrado para sempre na história do cinema brasileiro como o gênio de "Cinederela Baiana" (1998), cinebiografia de Carla Perez que tornou-se objeto de assombro. Porém, dezesseis anos antes de sua magnum opus, Conrado estreava na direção com essa produção baratíssima, feita às pressas por encomenda de Antonio Polo Galante. O roteiro que escreve e filma é Freud puro: Vanessa guarda um trauma. Esse trauma retorna através de sonhos/delírios. Lembrado, desrecalcado, o trauma deixa de ser trauma e Vanessa torna-se, repentinamente, feliz e plena. Toma banho de cachoeira, entrega-se de verdade a um namorado real.

Entre começo e fim o recheio é obsessivo, repugnante. Mas Conrado sabe, em última instância, que o ser humano é fraco e não presta. Portanto, gosta daquilo. A atriz Vanessa Alves era adolescente de 18, 19 anos, no auge da beleza física, e os seios, a boca e até as mãos ganham um aspecto de pureza devassada. Diferente de outras baluartes - Helena Ramos, Matilde Mastrangi, Zilda Mayo - em que a sexualidade madura nos convida a sonhá-las plenamente, a de Vanessa Alves transparece inefável. Em ação magoa, dói, constrange.

À parte os problemas sexuais, Vanessa mora em uma casa típica das produções da Boca, escoltada pela empregada (Jussara Calmon) e pelo motorista Pedro (Zózimo Bulbul). A óbvia discussão sobre racismo na maneira em que se aborda a figura do negro é plenamente válida. Embora tudo se explique no final, há um exploitation, um sensacionalismo em volta dos abusos repetidos, como se a famosa sequência de Lucélia Santos em "Bonitinha Mas Ordinária" ganhasse um filme inteiro só pra si. Além disso, a trilha-sonora de Jairo Ferreira apela até para o lp "Missa Luba", do coro "Les Troubadours du Roi Baudouin". Imaginemos um filme em que uma heroína negra fosse estuprada por wasps ao som de "Yellow Rose of Texas" e teríamos a mesma exaltação da raça e seus símbolos como discrepância entre dois seres humanos. Nem D. W. Griffith, em sequência animadíssima, faria pior.

Pilotando um Passat branco, poltronas de couro, quatro portas, o motorista carrega Vanessa de um lado para outro, enquanto ela delira. Cabe à amiga libertina, Denise, as sequências de sexo "saudáveis", inclusive com o psicanalista (Rubens Pignatari) que atende ambas. Estávamos no limiar do pornô, o que gera observação interessante: em Vanessa, os algozes passam mãos, línguas, no máximo roçam o colo entre as suas pernas. Em Denise chega-se às vias de fato: no coito à beira da represa de Guarapiranga e no fellatio estilo cama-de-motel, lugar comum a partir daquele período em tantas cenas que os próprios atores e diretores não devem se recordar de nenhuma.

Talvez a maior qualidade de "A Menina e o Estuprador" esteja mesmo em seus aspectos deprimentes, torpes. Eles não nos iludem, não nos prometem nada. Não são a graça humorística de Cláudio Cunha em "Oh! Rebuceteio", nem tão pouco a vergonha de um Jean Garrett dirigindo pornôs sob pseudônimo. Conjugam a nudez de uma ninfeta lindíssima com fantasias imundas, sacodem psicologia de botequim e, ao fundo, ouvimos ainda "Another Brick in the Wall", do Pink Floyd. No meio de tantos brasileiros, descesse um marciano para também tirar uma casquinha de Vanessa, Antonio Polo Galante venderia tranquilamente o petardo como ficção científica. Tudo era uma questão do que o público acatasse. E o público andava turbinado, pronto para qualquer coisa.

7 comentários:

Marco Freitas disse...

Na carreira de Conrado como diretor, também podemos ressaltar o grande sucesso de bilheteria de A MENINA E O CAVALO, com a musa Ariadne de lima. Esse filme foi um dos que inaugurou o subgênero zoófilo paulista, logo depois meio que comandado por Juan Bajon.

Matheus Trunk disse...

A MENINA E O CAVALO é melhor que este. É engraçadissimo, inclusive o cavalo fala. Grande Ariadne de Lima, musa perpétua do cinema paulista. Ela era de boa família e fazia filmes porque gostava. Onde andará agora? As cópias do filme das prisioneiros do Conrado foi negociado com a Alemanha. O Galante queria vender o filme em alemão rsrs, mas acabou sendo dublado em inglês mesmo. Conrado é figura e esse filme tem alguns bons momentos. Mas a obra-prima do Conra é realmente COMO AFOGAR O GANSO, em que o personagem principal tenta perder a virgindade de todas as maneiras. Sensacional. Forever Boca do Lixo.

Matheus Trunk
www.violaosardinhaepao.blogpot.com

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Fiquei interessado. Não conhecia o diretor, tampouco o filme.
Abração

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Andrea Ormond disse...

Marco e Matheus, acho que a obra-prima do Conrado é "Cinderela Baiana", um dos píncaros do cinema nacional rsrs Agora falando sério, em breve escrevo sobre um destes filmes equinos da Boca, mas acho que vou pinçar algum do Bajon, principalmente os do início, que eram mais elaborados e guardavam uma tentativa de psicologismo tosco, bastante interessante.

Antônio, não sabe o que está perdendo :) Um abraço.

Scoach disse...

Olá Andrea. Na tua crítica anterior ao "A menina e o estuprador", alguém havia escrito na caixa de comentários o nome do responsável pela música no filme (que até inclui uma versão de "another brick in the wall"). Você saberia dizer quem é o responsável pela a música 'contagiante' do filme (aquela que mistura grunhidos e piano)?
bjs

Roberto Pepino disse...

Os nomes escolhidos para filmes, sejam eles nacionais ou estrangeiros, são um capítulo à parte, e importantíssimo do cinema. Enquanto não vi "O Homem Que Matou o Fascínora", por exemplo, não sosseguei. Nos filmes de Antonio P. Galante (este P, abreviado nas assinaturas do produtor em seus filmes podendo significar outro exemplo freudiano, ihihi,), o mesmo acontece. A Menina e o Estuprador é de uma falta de finesse típica daqquele momento em que, como dizia o personagem do genial Bandido da Luz Vermelha, "se a gente não pode vencer eles, a gente esculacha!". E com ditadura militar ainda no comando, o esculacho de diretores e produtores ganhou aura política, seja na boca do lixo paulista ou nas bocas cariocas...

Andrea Ormond disse...

Olá, Scoach. Como eu falei no texto, o Jairo Ferreira fez a seleção da trilha sonora. Se alguém souber o nome da bela canção, seria interessante postar aqui.

Roberto, "A Menina e o Estuprador" vai direto ao ponto. Aliás, falta um brilho nos filmes do Conrado Sanchez, algo que outros diretores conseguiram fazer na mesma Boca do Lixo. É terrível igualar todos eles, idealizar pelo simples fato de que trabalharam no local. Melhor separar o joio do trigo, ver as coisas como de fato eram. Até porque existiram filmes acima da média, produzidos por lá. E o Antonio Galante (com ou sem abreviação rsrs) teve importância firme em tudo isto.