segunda-feira, novembro 07, 2005

A Próxima Vítima


Para ter uma cinematografia rica e variada, é preciso que um país permita aos seus filmes pequenos luxos. Quando digo luxo não estou falando de orçamentos fartos, pois, ao contrário do que a máfia do celulóide acredita, o cinema de um país pobre não pode nem deve gastar o que o bolso do seu povo não guarda. Estou me referindo, sim, ao luxo criativo, da experimentação artística e narrativa – e da contrapartida de ocasionais sucessos de público para estes filmes “diferentes”.

Na atualidade o cinema brasileiro, raras exceções, caminha justamente ao contrário, pois a massificação da linguagem televisiva – o famigerado padrão global – é norma, tornando a sala de cinema tão somente uma extensão do televisor de casa, com os mesmos atores e diretores contando as mesmíssimas histórias.

Mas houve um tempo em que o cinema brasileiro ousava. Na verdade, ousava até demais. Um filme como “A Próxima Vítima” (1983) representa não somente ousadia, mas até certa irresponsabilidade moral e social de quem o realizou.

Passado em São Paulo, in loco nas eleições para governador de 1982, as primeiras depois da anistia, “A Próxima Vítima” traz um recado óbvio: por mais que se faça, que se vote, nada vai mudar. David Duarte (Antônio Fagundes, no melhor papel de sua carreira) é um repórter que, durante a eleição, acaba encarregado de investigar uma série de assassinatos na baixíssima prostituição do Brás. Desesperado com a “missão”, ele passa o filme inteiro clamando por ser deslocado para a cobertura eleitoral – sem sucesso, até as últimas consequências.

Paradoxalmente investigar os crimes o torna um homem de fato politizado. Ele compreende a ineficácia da polícia paulistana, a realidade nua e crua da cidade, a desumanização dos personagens demasiadamente humanos. Encontra em seu caminho gente como o cafetão (Gianfrancesco Guarnieri), que executa funções de falso-dentista no prostíbulo, e um suspeito (Aldo Bueno) que por ser negro tem certeza de que a responsabilidade dos crimes cairá sobre si, o que de fato acontece.

No meio disso tudo, David conhece Luna (Mayara Magri), prostituta condenada a morrer, que caminha em direção ao fim com resignação. Estando na lista do assassino, a narrativa deixa claro que Luna não sobreviverá, e o tom documental com que o diretor João Batista de Andrade filma apenas ressalta essa impossibilidade de sobrevivência.

A eleição é vida, sol, alegria. Franco Montoro vai ser eleito, o deputado Ulisses Guimarães faz na Praça da Sé um discurso inflamado. O prostíbulo e a zona onde David e Luna passam a coexistir é a morte. E a questão central é associar, amarrar uma à outra. Por mais que se imagine, que se crie uma esperança de renovação com os novos mandatários, o futuro cadáver de Luna provará que, no fim das contas, nada mudou e nunca vai mudar em um lugar feito o Brasil.

Coroando o desespero e a miséria repartidos, Nêgo (Bueno), o inocente que será crucificado como assassino, revolta-se e urina no rosto do repórter David, em uma tomada tão cruel quanto bem realizada.

Nêgo é assassinado em emboscada policial, as prostitutas continuam a morrer e David, na tentativa desesperada de salvamento, leva Luna para sua casa. Filma com uma câmera Camcorder o rosto da menina, apreende-lhe o último fiapo de vida, até que ela o distraia e roube, voltando para a zona – conseqüentemente, para a morte.

No dia seguinte a eleição acaba, todos comemoram na redação e David vai pra cama com uma colega repórter (Louise Cardoso). É ela quem recebe a notícia da morte de Luna, fechando o quebra-cabeças que o espectador já previra

Em um destes momentos onde tudo ajuda, “A Próxima Vítima” não é uma obra-prima, mas é brilhante na construção fatalista de sua trama. Um filme barato, fácil de realizar e instigante sob qualquer prisma. Sim, houve um tempo em que o cinema brasileiro ousava, como dissemos. Resta-nos olhar embevecidos e aprendizes para esta luz no fim do túnel, cada vez mais distante e pálida em tempos de torpeza estética generalizada.


6 comentários:

dr.lorax disse...

nossa,sempre ouvi falar nesse filme,mas nunca vi...lendo sua análise fiquei na maior pilha p/ assistir...que falta faz um canal Brasil...

Carolina disse...

Este filme tem uma temática forte, é escuro, e no fundo a gente sabe o que irá acontecer com a personagem de Mayara Magri. Apesar de tudo gostei do filme, muito bom, e recomendo mais ainda depois de ter lido esta maravilhosa resenha, é como assistir ao filme mais uma vez, as imagens passam em nossa mente ;-)

Andréa Ormond disse...

Oi Dr. Lorax! O filme é uma pérola. Poucas pessoas o conhecem, mas ele possui uma ótima base narrativa. Vale a pena garimpar nos sebos e assisti-lo :)

Oi Carol! A temática é realmente brabíssima, e a personagem da Mayara Magri parece funcionar como um ímã para o Fagundes, cada vez mais enlouquecido ;)

Anônimo disse...

Sou jornalista e sempre pergunto aos meus colegas se eles já assistiram este filme. A resposta é sempre não. Este filme é muito bom.

EDEVALDO JOSE STRAPASSON disse...

EDEVALDO JOSE STRAPASSON EU VI E ADOREI O FILME, JOÃO BATISTA DE ANDRADE É UM GRANDE CINEASTA, EU COLOQUEI O NOME DELE EM UMA MÚSICA QUE EU FIZ CHAMADA ISADORA RIBEIRO.

regina castro disse...

Assisti este filme há muitos anos na TV Cultura ( Cine Brasil )Procurei muito em VHS e DVD mas é difícil encontrar . E agora vi ele completo no Youtube ! Que tudo ! Quem quizer pode assistir : vale super a pena. Antônio Fagundes e Mayara Magri ( meus ídolos ) estão ótimos . Mayara em seu primeiro filme esbanja talento. Pena que não teve o merecido destaque !