sexta-feira, setembro 02, 2005

Essa Gostosa Brincadeira a Dois


O título é enganoso. Parece um exemplar da falecida “Sala Especial”, o Supercine do canal de televisão TVS, atual SBT, e alegria dos menininhos púberes que nos anos 80 ainda não podiam consumir pornografia explícita.

A verdade, entretanto, é que “Essa gostosa brincadeira a dois” é um filme romântico, comedioso e – o que é melhor – romântico, comedioso e bicho grilo, já que datado de 1974. Se produzido hoje em dia, teríamos Meg Ryan e George Clooney nos papéis principais, ou Adriana Esteves e Dan Stulbach, mas em 1974, e “parcialmente financiado pela Embrafilme”, temos Dilma Lóes e... Carlo Mossy!

Defensores de práticas mais ortodoxas de filmagem, intelectuais e fulanos despidos da curiosidade antropológica de se assistir a esses filmes populares de época, não vão certamente achar a menor graça na película. O restante pode assistí-la sem erro: é mais divertida que “Guerra dos Mundos”.

Notem que em 1972 Mossy já havia criado, junto com Victor Di Mello (diretor do “Essa gostosa brincadeira...”) a Vidya Produções Cinematográficas, que, não por acaso, é a responsável pelo projeto. “As atrizes usam perucas Fizpan” – acreditem, e muito – e o galã desfila pela orla da Zona Sul do Rio com a mocinha em uma moto, de chinfra. No caminho, passam por um grupo de jovens comendo os cachorros quentes da Geneal. Lembrei-me na mesma hora de Nelson Rodrigues e de suas indefectíveis citações às cuias de queijo Palmira. Tal como o gumex e a educação, preciosidades antigas que se perderam.

Carlos (Mossy) e Beth Bombardeio (Lóes) largam uma vida pregressa, burguesinha e claustrofóbica, para se tornarem adeptos da boa vida. Ao fundo, a música deixa tudo às claras: “você às vezes não se pergunta / por que querem que você percorra / velhos caminhos que não levam a nada.”

São namorados? Beth e Carlos dividem um apartamento – cujo quarto de Beth parece um similar de brechó – e conhecem-se desde crianças. Aprontam, entram de penetra em festa, mordem frutas na feira, se bronqueiam com as brigas entre mãe e filha. “É, tua mãe não tá com nada mesmo”. Decidem esquecer o bode indo para a Bahia, e nisto o filme ganha uma qualidade de road movie dos trópicos. Porque vão, claro, na moto.

Pernoitam em um motel, fingindo para o porteiro assustado, estarem mortos de tesão um pelo outro – estão? Beth surge com a pergunta: “Você não tem vergonha de não fazer nada, não?”, “Claro que não. (...) Quero me casar com uma dona milionária” que, não há duvidas, o sustente. Se entreolham e Beth responde com um sorriso amarelo.

Continuam caminho, até Salvador. Hospedam-se em um hotel, também de penetras, fingindo serem turistas estrangeiros em férias. Na piscina, a aparição: Vera Fischer. “Essa é a mulher que eu estava esperando há muito tempo: linda, boa e deve ser cheia de grana”. Beth e Carlos ainda ficam juntos por um tempo, mas quando o rapaz transa com uma hippie nua na praia (possivelmente Arembepe) é chegado o fim. Atenção para o diálogo, que merece um parágrafo:

— Somos dois palhaços de uma humanidade que está cada vez menos humana. Vou me mandar daqui. (...)
— Ir pra Europa eu compreendo, mas trabalhar? Você ficou louca?
— Eu não me sinto bem aqui, sem fazer nada – e eis que ela, feminíssimamente, admitamos, travestiu o ciúme explícito em preocupação social. Não há o que fazer Mossy, ela vai pegar o ônibus Viação Itapemirim e ir embora.

Depois desta inevitável separação Carlos ainda fica com Fischer e a hippie peladona por um tempo, mas quando descobre pela televisão que Beth Bombardeio estreou como chacrete na “Discoteca do Chacrinha” (!), fica desconcertado. Pior: Beth aparece falando com o próprio Abelardo Barbosa, agradecendo pelo tempo em que trabalharam juntos e anunciando que se casará no dia seguinte com um produtor, amigo de Carlos. O mesmo que conhecera na festa dos penetras e que havia lhe garantido o inacreditável emprego, quando da sua volta da Bahia.

O detalhe à la “Giselle” – outro filme clássico da Vidya Produções – é que esta cena ocorre enquanto Carlos está transando com Fischer, na enésima vez do dia. Sim, porque já haviam praticado o ato anteriormente, na praia, num navio e numa piscina. E, muito importante dizer, tudo começou quando Carlos conquistara Fischer em uma boate, com uma canalha piscadinha de olhos.

No dia seguinte, a hippie declara, vendo o amigo na maior fixação: “Pô, tem que agir, pensar não adianta.” Mossy começa a rir, dar pulos, fica feliz e vende a moto que fizera a alegria de suas viagens easy rider. Com o dinheiro compra uma passagem de avião de volta e, ao chegar à igreja descobre que a noiva sumiu, abandonou o produtor deixando uma carta. “Apesar das confusões com o Carlos, é dele que eu gosto. Não vou ficar com ele, nem com minha mãe, nem com você.”

Daí para frente, leitor, temos um Mossy perdido, sem saber o que fazer, mas com vários estalos certeiros, até descobrir aonde se encontra a amada. A bordo do Eugênio C., atracado no cais do porto, rumo à Europa.

Enquanto a música do início volta, subindo até o final da projeção, o espectador terá a oportunidade de ver um encontro dos dois, no gramado do Maracanã, em câmera lenta – tal qual cena clássica de “Carruagens de Fogo” –, vestidos de Romeu e Julieta e em dia de jogo do Flamengo – time de ambos.

Nós, deste lado da tela, como espectadores do século XXI e ares vagos de cronistas, só podemos ficar imaginando que no lendário Pier de Ipanema as cocotas da época tenham achado um ouriço o encontro, mas sabiam que era chegada, finalmente, a hora do evasé. Terminado o filme, desligado o vídeo (sim, provavelmente nunca vai sair em dvd) caminho pelas ruas de uma Ipanema decadente e me indago: afinal, por que Carlo Mossy não prosseguiu sua carreira? Um homem tão bonito e talentoso. O nosso John Cassavetes do bas-fond.

11 comentários:

Tiago disse...

O filme é ótimo mesmo mas além de tudo gostei muito da trilha sonora do filme. Alguem saberia me dizer de quem são as músicas ou o nome delas? Desde já agradeço.

Didi disse...

O comentário foi perfeito. Pelo título achei que era uma pornochanchada mas me deparei com uma comédia romântica mais interessante até do que aquelas estreladas por Meg Ryan (talvez por um certo bairrismo e nostalgia de quem não viveu no Rio daquela época por não ser nascido).

Vale lembrar que Lidia Matos que faz a mãe de Bombardeio no filme é mãe de Dilma Lóes na vida real. E a atriz de Vanessa Lóes, que atualmente está na série "Avassaladoras" exibida pela Record/Fox, é filha de Dilma e de Victor di Melo.

Anônimo disse...

Eu simplesmente ADOREI o filme. Assisti-o meio sem querer no Canal Brasil, pois era madrugada e procurava uma coisa para assistir. Dei muitas gargalhadas! Òtimo, ótimo!! Pena que é um filme perdido nos anais do cinema brasileiro, pois só quem tem o Canal Brasil é que pode assisti-lo! E mais, a trilha sonora é muito legal!

Alexandre Soares Cavassin disse...

Olá. Achei seus comentários ao procurar alguma resenha do filme "Os amores da Pantera". Muito bacana seu ponto de vista dos filmes nacionais, que eu tenho devorado ultimamente graças ao Canal Brasil. Você já fez alguma resenha d'Os amores da Pantera ?

Nikita disse...

Esse filme saiu em Dvd. Dá para comp-rar inclusive pela internet.
Adorei o comentário, o filme é uma delícia mesmo.

Se alguém souber da trilha sonora, por favor, comente

Valeu

Zé Brasil disse...

Esse filme é fantástico, trilha sonora incrível... e a gente só consegue repetir o bordão do Canal Brasil.."como era gostoso nosso cinema" ...

A TRILHA - Nao tenho certeza, mas parece que a trilha foi composta pelo grupo OS CARBONOS, que fizeram muito sucesso na jovem guarda e acompanharam varios musicos popular/brega na decada de 70, alem da composição de trilhas para muitos filmes.

Se alguem confirmar, favor postar aqui.

um abraço,

Zé Brasil

Andrea Ormond disse...

Tiago e Zé, a trilha é do José Itamar de Freitas. Abraços

Alexandre, ainda não escrevi sobre "Os Amores da Pantera", filme interessante do Jece.

Anônimo disse...

o filme é senssacional pena que nao passa mais no cine brasil,carlo mossy foi e ainda é um ator,diretor e produtor espetacular.....deveria ter uma estatua desse cara em cada esquina deste país,o brasil deve muito a carlo mossy cinematofraficamente falando abraços a todos...........

Sandro Lobo disse...

A praia é Stella Maris, próxima a Itapuã, mais precisamente o pedaço conhecido como Pedra do Sal, que fica próximo à Lagoa do Abaeté. Em um momento, quando Beth vai embora, Carlos diz que ela o procure numa "mansão em Stella Maris". Num outro momento, a hippie Gisele está indo embora e diz "vou para a lagoa". Massa seu blog, Andrea, e seus textos. Bj

Anônimo disse...

Como é o nome do cantor e da música que toca nos primeiros 3min:14s do filme?

ADEMAR AMANCIO disse...

O filme tinha sumido,reapareceu.Vou ver,ou melhor,rever.