domingo, setembro 04, 2005

Um Homem Sem Importância


Quem estava disposto a se engajar na luta contra a ditadura e a favor da justiça social no Brasil? Nos anos 60 e 70, muita gente. O engajado poderia ser o poeta existencialista, com gola rolê preta e óculos de aro grosso, ou o intelectual na varanda do Antonio´s, ou o estudante, ou o operário, ou os artistas que abraçavam a contra-revolução naqueles anos de chumbo.

Quando em 1971 Alberto Salvá lança o autobiográfico “Um homem sem importância”, em preto-e-branco, as músicas de Denoy de Oliveira mostram a filiação à causa. “Minha história vai começar/ tão igual a tantas outras histórias/ das gentes que precisam trabalhar pra pagar o prato de ontem”. Não preciso dizer mais nada. A atmosfera é essa.

Encabeçando o elenco, Vianinha, Oduvaldo Vianna Filho, homem dos talentos mais diversos, desde os conhecidos literários (dramaturgo, ensaísta, roteirista de tv, escreveu o argumento de “A Grande Família” na versão original) aos mais instintivos. Reza a lenda que uma atriz, conhecida sua, berrou do alto do apartamento em Copacabana: “Vianinha!!! Leva a cama pra rua e ensina esse povo a transar!!!” Era prolífico.

Mas em “Um homem...” Vianinha não transa, procura emprego. Residente em Madureira, filho de pai pobretão, brutalizado, aos 30 anos anda pelo Rio à cata de alguma oportunidade. Como não sabe nada da rotina de um escritório, nem datilografar, nem possui instrução alguma, é sempre enxotado das salas de entrevista. Tem um certo brilhantismo no olhar e a vontade de progredir, mas a realidade – fonte do cinema que Salvá quer mostrar no filme – é mais injusta.

Glauce Rocha cruza sua vida como uma secretária desquitada que se interessa pelo rapaz, frustado na enésima tentativa de serviço. Levando-o para sua casa apresenta a ele o jantar da família: todos à mesa, filha, pai, mãe e neto, pratos arrumados e as tigelas grandes. Para ele aquilo é puro aconchego maternal. Ao lavarem os pratos, se beijam. Os dois estão perdidos, já que são párias sociais.

Ele ainda tem tempo (o filme se passa em 24 horas, da noite de um dia à noite de outro), para fumar maconha com o trio de jovens responsáveis pela demissão do emprego em que trabalhava. A câmera treme, pois logo na primeira viagem, nas primeiras tragadas, Flávio (Vianinha) entra em estado de alucinação. Ri, se contorce e, claro, já na fase do choro, diz um “eu não tive juventude” aos meninos da Zona Sul que compartilham o baseado com ele.

Olhando em volta, também não encontra o Rio da época de garoto, e o saudosismo se instala. É sentimento típico que invade qualquer ser humano que, após ter vivido um pouco, percebe que seu cotidiano antigo sumiu, que a segurança acabou-se e que andando pelo centro da cidade, a consulta aos cadernos de classificados se impõe, ainda que não dê em nada. “Engraçado que só tem bonde agora em Santa Teresa. Quando eu era criança eu pegava bode andando bem à beça. Quando o cobrador ia pra trás, a gente pulava e ia pra frente, quando ele ia pra frente a gente pulava e ia pra trás”, diz ao amigo igualmente desempregado, que encostou-se numa mulher com câncer terminal e espera que ela deixe algum tutu pra poder melhorar de vida.

“Um homem...” é o caso clássico de cinema para sala escura, bem escura. Assim como Flávio, a vontade da maioria que o assiste é a de se largar no chão, com um baseado, e esperar para ver se tudo se acalma. No caso do personagem, explode. Briga com o pai, aponta a faca, e numa série de gritos deixa claro que nunca foram pai e filho. O velho sempre sentiu o desejo absurdo de satanizar e depreciar os filhos. E a diferença entre eles é um mundo insuperável, pra que tentar?

Um dia vai se seguir a este que termina, e quem sabe, três anos depois Flávio já tivesse embarcado nas ondas do Milagre Econômico, com uma tv, mulher e maletinha sobre a mesa, enquanto esperavam o filho nascer. Esta é uma visão otimista, a ela damos o benefício da dúvida.

Se ficarmos apenas na realidade lembraremos que Vianinha faleceu em 1974, aos 38 anos de idade, de câncer, antes da reabertura política e com o amargor na boca de quem conclui no leito de morte uma última peça de teatro. Ao cinema legou principalmente sua interpretação neste filme, belo, triste e impressionante.

6 comentários:

George Christian - lee_marvin81@hotmail.com disse...

este filme é, para mim, um tesouro escondido do cinema brasileiro nos anos 1970, e faz um alerta profético até nesses tempos de globalização e escassez de empregos aos marginalizados pela falta de escolaridade. a ironia cruel do título só nos instiga a pensar qual a real importância de um protagonista, vivido pelo Oduvaldo Vianna. é um desses filmes dirigidos com uma "simplicidade" e uma sensibilidade sincera e muito comovente. e parabenizo tbm pela ótima leitura sobre o filme.

Joelson disse...

Prezados,

estou procurando encontrar cópia do filme "Um Homem sem Importância" do Dir. Alberto Salvá( 1971) para apresentação em um evento educativo. Ainda não consegui saber onde eu poderia encontrar. O filme trata de um temática social sem dúvida importante e Oduvaldo Viana uma presta uma grande contribução juntamente com o elenco.

O MIS não informou sua existência.

Obrigado a quem puder ajudar com uma indicação.

Joelson/ 2172-7824

Anônimo disse...

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Daniel P disse...

Sensacional a interpretação de Vianinha. A cena final com o irmão é linda e pelo menos nos deixa uma esperança nas relações humanas diante do cotidiano cinza escuro que o filme retrata tão bem. Aliás, o filme enfoca sempre as relações humanas que ainda pareciam possíveis naquela época, como conversar com pessoas estranhas na rua - a quase surreal amizade com o japonês massoterapeuta e o encontro entre a zona norte e zona sul, com a ajuda do baseado e com vista do Corcovado-. A aparição da Glauce Rocha, morta no mesmo ano de lançamento do filme, é igualmente fantástica. O beijo dos dois, numa cozinha paupérrima, aquele econtro das solidões. Como esse filme pode ter caído em esquecimento?

Apelido indisponível disse...

Meu pai trabalhou no filme como Flávio, amigo do personagem vivido por Vianninha. O filme é realmente uma jóia rara, assim como o pouco conhecido 'O Beijo' (década de 80).
Ambos abordam questões sociais da época. Esse filme é reprisado de tempos em tempos no Canal Brasil e na TVE. Eles têm cópia. No Youtube há algumas cenas também.
Abraços
Flávio Prieto

Barão Ricardo Lhkz disse...

Vianninha: simplesmente um gênio!