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segunda-feira, junho 30, 2008

Navalha na Carne


Braz Chediak era um garoto cinéfilo, emigrado de Três Corações, Minas Gerais, e visto com desconfiança às vésperas da filmagem de “Navalha na Carne” (1969). “Os Viciados” – seu projeto anterior – fôra um fracasso, mas ainda assim ele recebia o gentil incentivo de Jece Valadão, o todo-poderoso da Magnus Filmes.

Como havia roteirizado “A Noite do Meu Bem” (1968) – cinebio de Dolores Duran – e Jece enxergava nele um talento a ser burilado, Chediak iniciou os trabalhos em “Navalha na Carne” com a certeza de estar diante de um mundo de ansiedades. Se perdesse o trilho novamente, talvez não voltasse a dirigir.

Interessante no jogo de personas e de publicidade que cercam o fazer cinematográfico, seu nome não é o mais cotado ao se falar do sombrio “Navalha na Carne”. Glauce Rocha (Neuza Sueli), Jece (Vado) e Emiliano Queiroz (Veludo) costumam surgir em posição mais favorável.

Entretanto, é preciso que se diga que certos detalhes responsáveis pela essência do filme foram escolhas pessoais do diretor. Exemplos: a opção pelos planos-seqüências longos, claustrofóbicos; a interiorização dos conflitos.

Neste sentido o silêncio histérico de mais de 26 minutos, antes de qualquer personagem falar alguma coisa, é um ponto bastante eloqüente para a adaptação da peça teatral de Plínio Marcos – autor geralmente catalogado entre os que previam altos decibéis em gritos e urros dos personagens.

Esse vazio, esse nada acústico – salvo os ruídos cenográficos, como o arrastar de chinelos, carros passando, cachorros latindo – de cerca de meia hora serve para ambientar a prostituta Norma, o cafetão Vado e o homossexual Veludo, arrumador e faz-tudo do moquifo onde os três vivem.

Filmada anonimamente, com a câmera oculta, pelas proximidades da Lapa – zona central do Rio de Janeiro –, Glauce Rocha caminha no trottoir desmemoriado, automático, à busca de freguesia. Reza a lenda que foi reconhecida por um fã ardoroso que se mostrou penalizado pelo triste fim da atriz. Minutos depois, o mesmo senhor perguntou-lhe quanto seria o preço do programa.

Sorte de Chediak foi ter Glauce como protagonista. Quarta opção, depois das saídas de Tonia Carrero – que interpretara Norma Sueli no palco, ao lado de Nelson Xavier e Emiliano Queiroz –, Norma Bengell e Tereza Rachel, Glauce pareceu de fato bem mais talhada para o pé no chão e a tortura emocional e física de Neusa. Desprendida, o olhar roto, os traços empobrecidos e no limiar do suicídio, a cupincha de Vado tem com ele um leva-e-traz de humilhações, na sangria de ser esbofeteada e considerada a pior entre os piores.

Outro vértice do triângulo, Vado oscila com Veludo entre a ojeriza e o respeito quando percebe que o boy efeminado sabe se posicionar e jogar no esquema de achincalhes a Norma. Pode-se até afirmar que a situação deixe o espectador antever em Vado algum componente longinquamente homossexual que, recalcado e neurotizado, justifique tamanha agressividade à mulher.

Aliás, na esfera GLBT “Navalha na Carne” responde por outro aspecto relevante. A interação entre Veludo e o namorado (pago) impacta se considerarmos o momento pós-AI-5 em que as cenas foram rodadas. Captam a entrega e o brilho dos rapazes, no ambiente perdido, decaído, sujo.

Assim como estas, as cenas de Neuza e do cliente solitário (Carlos Kroeber) se passam naquele silêncio do começo. O olhar assombrado de Neuza, em um lugar completamente diferente do que no quarto com o homem asqueroso, constrói o semblante depressivo, doentio.

“Às vezes eu chego a pensar: poxa, será que eu sou gente? Será que eu, você, o Veludo, somos gente?” Talvez este pequeno monólogo de Neuza, desvendando-se para Vado, sirva de resumo para a narrativa.

A abordagem naturalista – e humanizadora – de “Navalha na Carne” mostra atos corriqueiros dos três. Esvaziam urinóis, lavam as mãos e as roupas íntimas, penduradas em cordinhas apodrecidas; fumam a “erva”, célebre na época nos ambientes de prostituição. A equipe do filme pesquisou in loco os Arcos da Lapa, participando Brás, Helio Silva – responsável pela engenhosa movimentação da câmera no filme – e Emiliano Queiroz.

Fora das telas, censura ferrenha do DOPS, como seria de se esperar. Várias redublagens de trechos, gravados em tom diferente do original, numa estratégia freqüente dos realizadores que tentavam demonstrar para o público que a tesoura havia passado por ali.

O longo close final em Neuza mordiscando um pedaço de pão amanhecido, em um meio-sorriso louco, deixa outro acerto da obra. O tanto de dor e de fadiga que revela demonstram que a atriz – bem como os outros dois atores – alcançara um patamar redentor.

E conclamados pela crítica e pelo sucesso retumbante nas bilheterias – que chegou em bom tempo para a Magnus Filmes –, Brás Chediak e Jece Valadão investiriam mais uma vez na obra de Plínio Marcos. O filme: “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, o ano: 1971, como já tivemos a oportunidade de comentar nas páginas do Estranho Encontro.

domingo, setembro 04, 2005

Um Homem Sem Importância


Quem estava disposto a se engajar na luta contra a ditadura e a favor da justiça social no Brasil? Nos anos 60 e 70, muita gente. O engajado poderia ser o poeta existencialista, com gola rolê preta e óculos de aro grosso, ou o intelectual na varanda do Antonio´s, ou o estudante, ou o operário, ou os artistas que abraçavam a contra-revolução naqueles anos de chumbo.

Quando em 1971 Alberto Salvá lança o autobiográfico “Um homem sem importância”, em preto-e-branco, as músicas de Denoy de Oliveira mostram a filiação à causa. “Minha história vai começar/ tão igual a tantas outras histórias/ das gentes que precisam trabalhar pra pagar o prato de ontem”. Não preciso dizer mais nada. A atmosfera é essa.

Encabeçando o elenco, Vianinha, Oduvaldo Vianna Filho, homem dos talentos mais diversos, desde os conhecidos literários (dramaturgo, ensaísta, roteirista de tv, escreveu o argumento de “A Grande Família” na versão original) aos mais instintivos. Reza a lenda que uma atriz, conhecida sua, berrou do alto do apartamento em Copacabana: “Vianinha!!! Leva a cama pra rua e ensina esse povo a transar!!!” Era prolífico.

Mas em “Um homem...” Vianinha não transa, procura emprego. Residente em Madureira, filho de pai pobretão, brutalizado, aos 30 anos anda pelo Rio à cata de alguma oportunidade. Como não sabe nada da rotina de um escritório, nem datilografar, nem possui instrução alguma, é sempre enxotado das salas de entrevista. Tem um certo brilhantismo no olhar e a vontade de progredir, mas a realidade – fonte do cinema que Salvá quer mostrar no filme – é mais injusta.

Glauce Rocha cruza sua vida como uma secretária desquitada que se interessa pelo rapaz, frustado na enésima tentativa de serviço. Levando-o para sua casa apresenta a ele o jantar da família: todos à mesa, filha, pai, mãe e neto, pratos arrumados e as tigelas grandes. Para ele aquilo é puro aconchego maternal. Ao lavarem os pratos, se beijam. Os dois estão perdidos, já que são párias sociais.

Ele ainda tem tempo (o filme se passa em 24 horas, da noite de um dia à noite de outro), para fumar maconha com o trio de jovens responsáveis pela demissão do emprego em que trabalhava. A câmera treme, pois logo na primeira viagem, nas primeiras tragadas, Flávio (Vianinha) entra em estado de alucinação. Ri, se contorce e, claro, já na fase do choro, diz um “eu não tive juventude” aos meninos da Zona Sul que compartilham o baseado com ele.

Olhando em volta, também não encontra o Rio da época de garoto, e o saudosismo se instala. É sentimento típico que invade qualquer ser humano que, após ter vivido um pouco, percebe que seu cotidiano antigo sumiu, que a segurança acabou-se e que andando pelo centro da cidade, a consulta aos cadernos de classificados se impõe, ainda que não dê em nada. “Engraçado que só tem bonde agora em Santa Teresa. Quando eu era criança eu pegava bode andando bem à beça. Quando o cobrador ia pra trás, a gente pulava e ia pra frente, quando ele ia pra frente a gente pulava e ia pra trás”, diz ao amigo igualmente desempregado, que encostou-se numa mulher com câncer terminal e espera que ela deixe algum tutu pra poder melhorar de vida.

“Um homem...” é o caso clássico de cinema para sala escura, bem escura. Assim como Flávio, a vontade da maioria que o assiste é a de se largar no chão, com um baseado, e esperar para ver se tudo se acalma. No caso do personagem, explode. Briga com o pai, aponta a faca, e numa série de gritos deixa claro que nunca foram pai e filho. O velho sempre sentiu o desejo absurdo de satanizar e depreciar os filhos. E a diferença entre eles é um mundo insuperável, pra que tentar?

Um dia vai se seguir a este que termina, e quem sabe, três anos depois Flávio já tivesse embarcado nas ondas do Milagre Econômico, com uma tv, mulher e maletinha sobre a mesa, enquanto esperavam o filho nascer. Esta é uma visão otimista, a ela damos o benefício da dúvida.

Se ficarmos apenas na realidade lembraremos que Vianinha faleceu em 1974, aos 38 anos de idade, de câncer, antes da reabertura política e com o amargor na boca de quem conclui no leito de morte uma última peça de teatro. Ao cinema legou principalmente sua interpretação neste filme, belo, triste e impressionante.