quarta-feira, novembro 22, 2006

Pra Quem Fica, Tchau!


Não sei a opinião dos leitores, mas acredito que a exibição de certos filmes brasileiros deveria constar na grade curricular de universidades, colégios e cursos, não apenas como ilustração para métodos educacionais, mas também por joie de vivre, aquela espécie de lição que nossos avós nos deixam, que se resume em "aproveite a vida enquanto é tempo".

O cinema comercial do final dos anos 60 e início dos 70 estava repleto desse mandamento, que no fundo refletia a chamada "revolução jovem" -- a nova ordem mundial que fazia acreditar que era proibido proibir e que todo mundo com mais de trinta anos era digno de desconfiança. Ato contínuo, ganhar dinheiro no cinema também passou a significar vender não doença, estados mórbidos ou desgraças, mas liberdade, curtição e sexo: pulsões de vida, ou Eros, como diria Freud.

O cenário, forjado na Zona Sul do Estado da Guanabara (a atual cidade do Rio de Janeiro) e os protagonistas (a juventude dourada e abastada) estavam lá, à espera de quem quisesse vê-los. Foi assim que a chamada "pornochanchada" carioca nasceu e vingou, sendo exportada para os quatro cantos do país e, posteriormente, para a América do Sul e muitos países da Europa.

Filmes com rapazes e moças hypados, festas inacreditáveis, trilhas-sonoras pra frentex e Copacabana ao fundo acabaram sendo produzidos até o esgotamento, a ponto de, ainda na metade da década de 70, a maioria dos diretores e produtores que se dedicavam ao gênero terem começado a explorar o avesso disso na pobreza, nos subúrbios e periferias, algumas vezes com resultados também interessantíssimos.

Dentre os filmes iniciais da época de ouro das comédias urbanas cariocas as dirigidas e produzidas pelos irmãos Faria -- Reginaldo, Roberto, Rogério e Riva -- criaram uma espécie de modelo, a partir de "Toda Donzela Tem um Pai que é uma Fera", de 1966, e indo até "O Flagrante" de 75, quando a abordagem já trafegava para homens casados, não mais jovens em eternas férias. De fato, Reginaldo Faria já era um respeitável balzaquiano quando dirigiu seu filme de estréia "Os Paqueras" em 69, o que talvez tenha facilitado sua visão de um desfrute urgente e pleno.

"Pra Quem Fica, Tchau!" (1970) , segunda tentativa de Reginaldo na direção, explora uma recorrência do tema. Jovem chegado do interior, Lui (Stepan Nercessian) vai morar com o primo boa-vida em Ipanema, Didi (o próprio Reginaldo), que tem amigos da "estirpe" de Flávio Migliaccio e Hugo Bidet, com quem passa a se divertir e realizar importantíssima atividade: cantar o maior número de mulheres nas ruas de Ipanema e Copacabana.

Claro, não demora Lui se apaixona por uma das paqueras, a deslumbrante Maria (Rosana Tapajós), e, no esquema de qualquer trama romântica, a coisa evolui entre tropeços e acertos, festas psicodélicas e bodes homéricos. O minúsculo apartamento de Didi é um santuário da perdição; no entra e sai de garotas de minissaia e blusas coloridas fica claro que se a vida é só uma, aqueles meninos já tinham descoberto o que fazer de bom com ela.

Stepan Nercessian, que vinha de "Marcelo Zona Sul" e aos 16 anos crescia rápido, não só em tamanho mas em competência profissional, encontra no papel de mineiro deslumbrado uma proximidade com sua realidade de garoto criado no interior de Goiás. Reginaldo Faria e Flávio Migliaccio, rapazes mais crescidos, faziam ali uma espécie de transição para a idade adulta, enquanto Hugo Bidet se limitava a ser apenas Hugo Bidet.

Este último, quase sempre visto como personagem ao invés de ator, trabalhou em mais de duas dezenas de filmes, ainda que fazendo papéis parecidos. Figura folclórica de Ipanema, malandro até dizer chega, Bidet deve ter antecipado o fim daquela era no dia 11 de abril de 1977, quando no seu apartamento ipanemense, na rua Jangadeiros, deu um tiro na cabeça, limitando aos filmes e livros o prazer que proporcionava ao mundo com sua presença.

Odes à felicidade, com data certa para acabar mas vivida plenamente, os filmes de Reginaldo Faria precisam ser apreciados por gente de todas as idades. E se exibidos em clubes, escolas, motéis ou associação de moradores, fariam pessoas mais alegres, sociedades mais saudáveis e arrancariam tantos sorrisos nos rostos quanto em 1971. Assim como feriado prolongado e pipoca com guaraná, impossível que alguém em sã consciência desgoste-os, senão por motivos alheios ao bem-estar humano.

6 comentários:

Matheus Trunk disse...

Excelente crítica, diga-se de passagem. Nem todo os filmes do Reginaldo eu gosto. Toda Donzela por exemplo. Mas Barra Pesada marca e atesta seu talento, embora eu sinta que precise rever. O Flagrante é admirável também, embora o final seja meio broxante..Mas me preferido é o filme anos 80 por excelência: AGUENTA CORAÇÃO ! Já viu ? Tenho certeza que sim. Esse só por ter o Stephan (talvez o maior ator vivo do Brasil) e o Hugo Bidet já merecem uma visita. Sugestão: faça uma série de artigos dos filmes do Reginaldo como vc fez do David. Você viu no Canal Brasil ? Nunca vi esse filme lá. Bjos, Matheus.

sergio andrade disse...

Oi, Andréa! Vi esse filme faz muito tempo, e sua deliciosa resenha me fez recordar de vários momentos dessa comédia muito agradável :)
Até hoje não consegui entender a morte do Hugo Bidet. Vc sabe qual o motivo que o levou a se suicidar? Sua presença era sempre luminosa!
Beijos!

Andréa Ormond disse...

Matheus, a intenção era essa mesma!! rs Ainda vou fazer além do "Barra Pesada", que está no post aqui de cima, mais alguns textos sobre filmes da Refefê. Não lembro de ter visto o "Aguenta coração" no Canal Brasil, mas na tv aberta há muito tempo atrás, tb preciso rever. Beijos

Oi, Sergio! "Pra Quem Fica Tchau" ganha bastante com a presença do Bidet (que, aliás, eu sempre associo à abertura do Cassi Jones, lembra? :)) Acho que a persona que nós conhecemos dele talvez não se casasse muito com a realidade. Triste, mas bem provável... Beijos!

Anônimo disse...

Bom galera, meu nome é Tiago Leão de Castro Monteiro, sou neto de Hugo Leão de Castro, mais conhecido como Hugo Bidet.
Meu avô foi pessoa marcante na minha vida apesar de não o ter conhecido, e foi uma figura repleta de historia. Grande companheiro de Tom Jobim, Vinicius, Jaguar, Ivan Lessa, Caio Mourão e varios outros. Diga-se de passagem, a musica chamada Cristina, se não me engano, do Tom, foi composta na presença de Bidet, e o nome foi em homenagem à sua filha, minha mãe.
Foi o primeiro a por uma barraquinha na Praça General Osorio, deixando o ponto apos a chegada irritante dos hippies (para ele).
Foi um dos fundadores da Banda de Ipanema, na epoca ainda era decente. Até há um filme com a historia, e ele aparece. O ator principal é Paulo Jose.
Minha avó falou q uma vez, para defender a sua honra, certa vez encarou um grupo de 4 marmanjos em Copa que a chamaram de gostosa em alto e bom som. Claro, apanhou, mas manteve a postura.
Meu avô, não diferente de muitos da época, tinha problema com bebida e drogas, e diga-se de passagem, foi um cara que aproveitou a vida intensamente.
Até a sua morte foi teatral, seus amigos tem certeza disso. Ele queria fazer de sua morte uma cena de cinema, algo poético. Ele atirou dentro de sua própria boca, e arrependido, chamou um amigo visinho. Não sei como, mas foi para o hospital andando, não tão ruim quanto deveria estar. Telefonou, andou, chamou o elevador... acho q só ele mesmo pra isso. Ficou em coma por cerca de 7 dias, e só acordou no ultimo para despedir-se de minha mãe, que aos 19 anos, deu adeus ao pai.

Assisto sempre ao Canal Brasil mas é meio complicado achar a sua filmografia toda. Se alguem pudesse ajudar, seria de grande ajuda. tleao@hotmail.com
Grande Abraço

Anônimo disse...

"...a ponto de, ainda na metade da década de 70, a maioria dos diretores e produtores que se dedicavam ao gênero terem começado a explorar o avesso disso na pobreza, nos subúrbios ..." isso foi o início do "Favela Movie", gênero abjeto que até hoje existe, infelizmente. Digo isso pq quando "Carandiru" e "Cidade de Deus"(que foram o clímax desta "coisa") explodiram em bilheteria... os "cineastas" só viam favela, tráfico, prostituição aqui no Brasil. Depois,os "profissionais" do ramo e demais não reclamem quando os gringos fazem chacotas com a "realidade", que tanto insistiram e insistem em transmitir através de suas "obras". Os intelectuais brasileiros nunca tiveram amor próprio e tentaram passar esse desamor ao público de suas obras. A síndrome de pangaré do brasileiro é perfeitamente vista quando estão diante das "celebridades" estrangeiras, diante de disputas esportivas (quantas vezes vimos amarelar e chorar nossas "estrelas" olímpicas nas competições - odeio quando o Brasil usa o amarelo, deveria utilizar o verde ou o azul).
Nos anos 70 e 80, só existiam dois tipos de filmes brasileiros:
1. O de arte - que nem os que produziam e dirigiam entendiam o que estavam fazendo (vide Glauber Rocha, que enganou todo mundo direitinho, até ele mesmo);
2. A pornochanchada - que tirou da EMBRAFILME alguns milhões de dólares para bancar "produções" que poderiam se auto pagar, devido à beleza e sex appeal de determinadas atrizes tupiniquins;
Ah! Esqueci-me. Faltou um terceiro tipo:
3. Os filmes dos Trapalhões - afinal de contas, as crianças tinham que ver alguma produção nacional nas telonas. Agora, quanto à qualidade...

f40niteroi disse...

Apesar de leve ( como a grande maioria das produções nacionais da época), esse filme se destaca pelo humor interessante e eficiente. Aliás, funciona bem até hoje, proporcionando boas risadas e nos faz lembrar como o mundo era mais simples naqueles já distantes anos 60.