sexta-feira, novembro 24, 2006

Barra Pesada


O prazer de assistirmos a filmes policiais, ou mais luxuosamente definindo, "sobre realidades marginalizadas e criminalizadas", vem se tornando cada vez mais difícil no Brasil de hoje.

Sem o adendo de discussões sociológicas e políticas profundas, o que fica fácil perceber é que o tema, antes curioso e mesmo "exótico" para a maioria dos espectadores, tornou-se assunto cotidiano, corriqueiro. Os grandes jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo, que até os anos 80 tinham uma ou duas esparsas páginas de crimes, hoje dedicam cadernos inteiros ao assunto -- e, principalmente, manchetes de primeira página.

Por conta dessas transformações houve inclusive uma simplificação de critério para a análise dos filmes policiais, principalmente os realizados nas décadas de 70 e 80: aqueles que pareciam "presságios" do futuro ganham cada vez melhor sobrevida do que as obras isoladas, logradas da crônica do passado. Entretanto, é injusto analisarmos o cinema -- e qualquer manifestação artística -- com o peso das idiossincrasias do nosso tempo.

Tudo isso porque "Barra Pesada" (1977), dirigido por Reginaldo Faria, não resistiria cinco minutos se defrontado com a realidade caótica de hoje. Queró (Stepan Necerssian), o pequeno marginal criado por Plínio Marcos no livro "Uma Reportagem Maldita", e transplantado sem sustos para o competente roteiro do próprio Reginaldo, merece ser chamado de amador até por uma criança. Pé de chinelo ao extremo, ladrão de galinhas, o pobre Queró não justifica na metade da primeira década do século XXI nem uma linha de obituário, que dirá um livro, um filme e adaptações para o teatro.

Mas vamos dar a ele uma chance -- aquela que a vida não deu. Filho de mãe suicida (Ítala Nandi), que ateou fogo às vestes, Queró, como ele mesmo se define, é "cria da zona". Para facilitar as coisas, Reginaldo levou a ação do roteiro de Santos para o Rio de Janeiro -- escolha que facilitou as filmagens para os produtores cariocas e que pouco prejudicou a adaptação; afinal Santos e Rio são ambas cidades portuárias, com uma área de prostituição atrelada ao entra e sai de navios.

Queró (chamado assim no filme, mas grafado "Querô" no romance original) nada faz na vida que não seja em prejuízo próprio. Deve na sinuca, é perseguido por dois informantes da polícia (Wilson Grey é um deles), rouba uma quadrilha de traficantes de drogas e encontra a redenção momentânea nos braços da jovem prostituta Ana (Kátia D' Ângelo), enquanto é traído por seu amigo (Cosme dos Santos). Se morrer, ninguém vai chorar seu corpo; se sobreviver, é por pouco tempo. A mensagem clara, talvez linear em excesso, serve de ilustração aos plots que vão se sucedendo no submundo realista e fotografado in loco nas ruas cariocas.

Naquele mesmo ano outro galã realizador de pornochanchadas, Carlo Mossy, também fazia sua estréia com brilhantismo nas searas da narrativa policial. Mas entre "Ódio" de Mossy e "Barra Pesada" de Reginaldo, as semelhanças não param na trajetória de seus diretores. Reparem a longa seqüência da sinuca que termina em briga, presente nos dois filmes, e também no cuidado em se desglamourizar o Rio de Janeiro, mostrando uma metrópole cinza, industrial, avessa de cartões-postais.

Na comparação, "Ódio" ganha -- é uma obra-prima, por várias razões -- enquanto "Barra Pesada" persiste apenas como entretenimento. O trio Stepan, Kátia D'Ângelo, Cosme dos Santos e coadjuvantes de luxo como Milton Moraes, Wilson Grey e Lutero Luiz, fariam qualquer besteira parecer importante, mas diante deles se equipara o talento criador dos irmãos Faria -- na direção, roteiro e produção -- transformando o dificílimo Plínio Marcos em imagem saborosa. Ainda que, ao som de balas perdidas e notícias de chacinas, as ruas estejam cada vez mais perigosas para um tipinho ingênuo como o jovem Queró.

10 comentários:

Márcio/BH disse...

Ao ler o teu texto sobre o filme "Barra Pesada", um ponto que me chamou atenção foi a comparação que você faz entre o já distante ano de 1977 com os dias atuais e o teu comentário de que uma figura marginal como Queró "não justifica na metade da primeira década do século XXI nem uma linha de obituário, que dirá um livro, um filme e adaptações para o teatro". De fato a criminalidade no Brasil desde os anos 80 tomou um outro rumo e passa a se configurar numa barra muito mais pesada com o tráfico de drogas atuando como peça fundamental. Ainda hoje li na Ilustrada (Folha de São Paulo)uma matéria sobre uma nova adaptação desta obra de Plínio Marcos, o filme Querô de Carlos Cortez que encontrou boa recepção no Festival de Brasília onde está concorrendo. Talvez seja por isso que o diretor tenha optado em sua adaptação ressaltar "o aspecto do abandono [de Querô], que é uma experiência muito mais universal em lugar de pôr ênfase nas circunstâncias socioeconômicas que determinam a trajetória do personagem" (vide matéria citada de autoria de Silvana Arantes). Assisti "Barra Pesada" faz muito tempo e fiquei curioso em revê-lo. O filme "Querô" também me despertou a curiosidade. Quanto a tua análise você fez mais uma vez um belo trabalho: texto inteligente, bem escrito e crítica sensata. Grande abraço.

Renato disse...

te vi ontem sem querer no Cadernos De Cinema, não vi o filme, mas acompanhei um pouco o debate que foi legal

Marcelo Carrard disse...

Oi ANDRÉA. Gosto muito do Barra Pesada. Tem atuações antológicas, uma fotografia muito inspirada e aquela violência desenfreada dos anos 70 em meio aos ambientes sórdidos onde todos nascem perdedores, maravilhoso. O texto está ótimo. O fato triste é a partida do Jece Valadão hoje, que perda de uma figura única, que fez carreira do clássico ao trashy, de experi~encias com o Bressane ao lado da Rogéria e com o Calmon no filme Eu Matei Lucio Flávio que é um luxo, ao lado da Monique lafond...

Marcos A. Felipe disse...

Você está ficando famosa! Lhe vi no Cadernos de Cinema. Foi o Renato Doho que me avisou e eu corri pra TV (risos).

Andréa Ormond disse...

Oi Márcio, realmente no contexto em que vivemos a criminalidade se banalizou de tal maneira que aquele mundo da malandragem, aonde se inseria o Querô, parece ter morrido. As abordagens do tema se dão de outra forma, misturada com novas relações de poder, deixando um pé de chinelo como ele na condição de avis rara. Valeu pelo comentário, um abraço!

Oi Renato, o debate foi bem legal mesmo, no mínimo serve para conversarmos sobre filmes que precisam ser rediscutidos.

Oi Marcelo, só mesmo nos 70 pra realizarem aquele ethos bem ao estilo do "Mondo Paura". E ainda querem dizer que o Jece não teve ressonância nenhuma. Acho que as pessoas se prendem só numa dimensão, da caricatura de machão, e esquecem o todo. É dose. Beijos, querido.

Oi Marcos, que famosa nada! rs Gostei do debate, o filme levantou discussões bem interessantes.

Eduardo Aguilar disse...

Nossa!!! Adoro "Barra Pesada"!!! é um filme referêncial para um projeto pessoal muito querido e o fato de vc. afirmar q. "Ódio" é superior me deixou muito curioso sobre esse, qm. sabe se na minha provável passagem pelo Rio (com essa confa em aeroportos ficará para o começo do ano q. vem), vc. me descola uma forma de assistir o filme.

O texto está ótimo como sp., mas discordo q. o filme perca seu impacto, na parede da memória o q. ficou prá mim foram as relações humanas, tipo, o lance com o traveco, os policiais corruptos, a delação de Cosme dos Santos q. ao ver o amigo atingido deixa escorrer uma lágrima, o carinho entre Queró e a personagem de Kátia D'Angelo, uma estrela q. merece destaque, qm. sabe uma daquelas suas entrevistas.

Rafael disse...

Discordo em parte de seus comentários sobre o "Barra pesada", filme que vi e revi várias vezes por conta de um trabalho sobre a obra de Plínio Marcos no cinema. O grande interesse do filme está no fato do protagonista não ser um grande bandido, um mestre do crime ou um assassino perigoso, mas por ser, justamente, um "pé-de-chinelo" (como está no título de uma outra peça do Plínio).
Acho que o filme chegou bem aos dias de hoje e tem questões muito interessantes e até atuais (como as semelhanças entre o comissário de polícia Ivan Cândido e o traficante feito pelo Milton Morais).
Abs

Rafael

Andréa Ormond disse...

Edu e Rafael, o que aponto no texto é que aquele mundo retratado no filme acabou, dando lugar a uma supraviolência onde não cabem sutilezas como as de "Barra Pesada". O comentário do Márcio é bastante elucidativo, pois foi exatamente aquilo que desejei exprimir.

Rafael disse...

Você tem razão, Andréa, e é essa sutileza, rara nos dias de hoje, que está presente no livro do Plínio e também no filme Querô, do Carlos Cortez, uma obra um tanto singular no panorama atual por esse motivo.

Marcela Lima disse...

Olá tudo bem? Seu blog é bem interessante e já que você postou sobre o filme Barra Pesada, gostaria de saber se você vende o filme ou conhece alguém, pois meu pai está doido procurando este filme para comprar! Obrigado... Beijos =***