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sábado, março 17, 2007

Beto Rockfeller


"Beto Rockfeller", telenovela da Tv Tupi exibida em 1968, é apontada como um dos marcos da tv brasileira: foi a primeira a utilizar trilha-sonora com sucessos pop do momento, diálogos coloquiais quando as novelas abusavam de gestual dramático, e até rudimentos de merchandising e revista de atualidades como forma de arrecadação publicitária. Foi também -- e principalmente -- a consagração de seu protagonista, Luiz Gustavo, até hoje lembrado pelas aventuras do rapaz classe-baixa, morador de Pinheiros, que sempre dava um jeito de freqüentar as "altas" de São Paulo sem um tostão no bolso.

Mas poucos se recordam de "Beto Rockfeller" (1970), filme com direção de Olivier Perroy e produzido pela Cinedistri, de Osvaldo Massaini, surgido no óbvio prolongamento do sucesso da novela, mas a ser visto como esforço isolado e singular. A exemplo da trama televisiva, Beto Rockfeller (Luiz Gustavo) cativa corações e mentes do soçaite na base de um linguajar farsesco e de uma espontaneidade obsessiva, ocultando sua magnífica precariedade com uma cobiça sem limites.

Nascido para ser rico, mas com absoluta falta de grana, Beto lembra uma dessas pessoas da contemporânea classe-média, que apertam as contas no final do mês mas querem subir a Rua Augusta de carrão importado. Entre a miséria claudicante e o chiquê narcisista, desfruta de uma tour pela Carnaby Street paulistana, faz compras na Boutique Parafernália, e no embalo hipnotiza todas as resistências de uma candidata a Samantha Eggar, com quem marca encontro no litoral.

Claro, Beto vai de carango luxuoso -- sem que o verdadeiro dono imagine o empréstimo -- e pilotado por Vitório (o dramaturgo Plínio Marcos), seu amigo mecânico, este crente que também vai ter dias de glória com as milionárias do Guarujá. Num piscar de olhos, Beto fatura a paquera, se desvencilha do amigo, rouba uma pranchinha de criança e nada até o barco da moça, sendo resgatado e apresentado aos íntimos e familiares -- todos eles ganhando mais por dia do que Beto ganharia em duas ou três encarnações.

Dali em diante os feéricos vestidos de Dener e Clodovil servirão simultaneamente ao elenco feminino e às investidas do malandro. Não contente em nadar, Beto consegue um bote e rema até uma ilha onde a confraria do dinheiro se reúne. Mergulha na adrenalina de uma corrida automobilística Guarujá-São Paulo (excepcionalmente bem montada por Lúcio Braun), que ganha porque corta caminho de helicóptero, para em seguida desperdiçar a fortuna do prêmio na roleta -- a piada, imperceptível, é a do jogo ser proibido no Brasil.

Durante a sucessão de noites avança e conquista filha, madrasta e mãe (Cleyde Yáconis), até que as três se agridam por ele. O final do filme pesa contra Beto, mostrando que a malandragem não compensa. E o quadro derradeiro, melancólico, entrega a lição de que os "bem nascidos sempre vencem".

Participações especiais de Walmor Chagas, Raul Cortez, o atual deputado Clodovil Hernandez, entre outros; uma São Paulo tão trágica quanto carinhosamente olhada, além de um dos coloridos mais bonitos que o cinema brasileiro já revelou, são mais do que suficientes para trazer "Beto Rockfeller" garboso a 2007. De leve, o personagem criado por Cassiano Gabus Mendes e escrito por Bráulio Pedroso era na verdade um clown subversivo, que zombando a ordem com suas trambicagens e auto-suficiência, agia como legítimo mensageiro ao Brasil das conveniências marcadas pela elite do café e da indústria, que com ares de nobreza dominava o país sem brioches.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Barra Pesada


O prazer de assistirmos a filmes policiais, ou mais luxuosamente definindo, "sobre realidades marginalizadas e criminalizadas", vem se tornando cada vez mais difícil no Brasil de hoje.

Sem o adendo de discussões sociológicas e políticas profundas, o que fica fácil perceber é que o tema, antes curioso e mesmo "exótico" para a maioria dos espectadores, tornou-se assunto cotidiano, corriqueiro. Os grandes jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo, que até os anos 80 tinham uma ou duas esparsas páginas de crimes, hoje dedicam cadernos inteiros ao assunto -- e, principalmente, manchetes de primeira página.

Por conta dessas transformações houve inclusive uma simplificação de critério para a análise dos filmes policiais, principalmente os realizados nas décadas de 70 e 80: aqueles que pareciam "presságios" do futuro ganham cada vez melhor sobrevida do que as obras isoladas, logradas da crônica do passado. Entretanto, é injusto analisarmos o cinema -- e qualquer manifestação artística -- com o peso das idiossincrasias do nosso tempo.

Tudo isso porque "Barra Pesada" (1977), dirigido por Reginaldo Faria, não resistiria cinco minutos se defrontado com a realidade caótica de hoje. Queró (Stepan Necerssian), o pequeno marginal criado por Plínio Marcos no livro "Uma Reportagem Maldita", e transplantado sem sustos para o competente roteiro do próprio Reginaldo, merece ser chamado de amador até por uma criança. Pé de chinelo ao extremo, ladrão de galinhas, o pobre Queró não justifica na metade da primeira década do século XXI nem uma linha de obituário, que dirá um livro, um filme e adaptações para o teatro.

Mas vamos dar a ele uma chance -- aquela que a vida não deu. Filho de mãe suicida (Ítala Nandi), que ateou fogo às vestes, Queró, como ele mesmo se define, é "cria da zona". Para facilitar as coisas, Reginaldo levou a ação do roteiro de Santos para o Rio de Janeiro -- escolha que facilitou as filmagens para os produtores cariocas e que pouco prejudicou a adaptação; afinal Santos e Rio são ambas cidades portuárias, com uma área de prostituição atrelada ao entra e sai de navios.

Queró (chamado assim no filme, mas grafado "Querô" no romance original) nada faz na vida que não seja em prejuízo próprio. Deve na sinuca, é perseguido por dois informantes da polícia (Wilson Grey é um deles), rouba uma quadrilha de traficantes de drogas e encontra a redenção momentânea nos braços da jovem prostituta Ana (Kátia D' Ângelo), enquanto é traído por seu amigo (Cosme dos Santos). Se morrer, ninguém vai chorar seu corpo; se sobreviver, é por pouco tempo. A mensagem clara, talvez linear em excesso, serve de ilustração aos plots que vão se sucedendo no submundo realista e fotografado in loco nas ruas cariocas.

Naquele mesmo ano outro galã realizador de pornochanchadas, Carlo Mossy, também fazia sua estréia com brilhantismo nas searas da narrativa policial. Mas entre "Ódio" de Mossy e "Barra Pesada" de Reginaldo, as semelhanças não param na trajetória de seus diretores. Reparem a longa seqüência da sinuca que termina em briga, presente nos dois filmes, e também no cuidado em se desglamourizar o Rio de Janeiro, mostrando uma metrópole cinza, industrial, avessa de cartões-postais.

Na comparação, "Ódio" ganha -- é uma obra-prima, por várias razões -- enquanto "Barra Pesada" persiste apenas como entretenimento. O trio Stepan, Kátia D'Ângelo, Cosme dos Santos e coadjuvantes de luxo como Milton Moraes, Wilson Grey e Lutero Luiz, fariam qualquer besteira parecer importante, mas diante deles se equipara o talento criador dos irmãos Faria -- na direção, roteiro e produção -- transformando o dificílimo Plínio Marcos em imagem saborosa. Ainda que, ao som de balas perdidas e notícias de chacinas, as ruas estejam cada vez mais perigosas para um tipinho ingênuo como o jovem Queró.