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segunda-feira, junho 11, 2012

Marilia e Marina


O poetinha Vinícius de Moraes, quando tomava suco de cevada nas estranjas, numa depressãozinha de Velho Mundo, escreveu a “Balada das Duas Mocinhas de Botafogo”. Poucos diminutivos, bem pouquinhos. E o poema é tão grandioso que ele faz parecer que seja mínimo. Talvez por isto, o leitor começa a sentir a angina dançando um foxtrot no peito. Uma dor pequena, fininha, boa de sentir.

Vinícius não fala sobre prostituição, sobre “vencer a qualquer preço na vida” ou sobre essa entidade insuportável: a mulher estereotipada, vendida como maníaca pela Internet. A criatura precisa ser independente, precisa ser histérica, precisa ser consumista, precisa ser infalível.

As garotas de Vinícius são outras. Moram em Botafogo, no velho bairro dos casarões, da mocidade que passeia antes dos prédios de dois quartos serem construídos nos anos 60. Para quem não sabe, Botafogo esconde essa dinastia trágica. De suspiros, vestidos negros, classe média no portão. Parodiando Vicente Celestino, as “campas” do cemitério local são ilustres. Era do São João Batista que a voz do além perguntava à moça: “Cadê a minha flor?”, na história de Drummond (“Flor, Moça, Telefone”). Aliás, Vinícius, Drummond e Celestino são vizinhos de túmulo, a esta hora da noite. Revertere ad locum tuum: eis o lema que se vê na porta de entrada, na rua General Polidoro, e que acabou com a ingenuidade de muita gente.

Natural que esse clima todo aparecesse em “Marilia e Marina” (1976). É a história de duas irmãs, em um continente perdido. Adaptação do poema de Vinícius, feita pelo bamba Leopoldo Serran, dirigida por Luiz Fernando Goulart. Por coincidência, quase no mesmo ano Carlos Hugo Christensen deu contornos fantásticos a “Flor, Moça, Telefone”, mas levou o conto para Ouro Preto (“Enigma Para Demônios”, 1975).

Goulart e Serran optaram pela Botafogo de origem, pincelando detalhes da zona sul do Rio: carangos na praia, brotos escaldados, uma discothèque no meio. Até o dândi Carlos Prieto (irmão de Adriana) faz a linha “machão bom de briga”. Travestido de amigo de Júlio (Stepan Nercessian), ele encarna o fantasma que quiseram dar ao roteiro: é mais um exemplo do tosco universo masculino. Dos homens que são enxergados com tédio filosofal pelas duas irmãs.

Quanto mais se assiste a “Marilia e Marina”, mais se pensa aonde Serran quis chegar. David Neves (colega de Goulart no grupo do Cinema Novo), entenderia melhor os tempos mortos, a narração que parece realista mas que não o é. Na verdade, esconde uma bomba dentro das lingeries de Marilia (Kátia D'Ângelo) e Marina (Denise Bandeira).

Mocinhas dadeiras, cada qual a seu modo, Marilia e Marina viram referência na cidade. Sem pai e com a mãe austera (no poema, é asmática), as duas ficam soltas, aparentemente sem se entenderem. Sem se importarem entre si. Marilia promete se casar. Marina promete ser bisca. A mãe enche os pacová.

A figura da mãe enrolando docinhos funciona em 1976: é a prova da decadência do trio. Antes ricas, agora pobres. Idem a abertura do “Fantástico”, cheia de hippies na TV transistorizada. É como se existisse um buraco negro de ruindade, de ócio, que cobrisse as mulheres. Em 2012, o feitiço virou contra o feiticeiro. Os cabeludos parecem embaixadores de um mundo que já foi surreal e melhor.

Apesar do embalo de quase-reportagem, “Marilia e Marina” não deve ser encarado como crônica da família perdida. O filme se dedica a mostrar o desencanto, o desespero. Algo maior, a dor individualizada pelas garotas. E que de repente, não mais que de repente, é interrompida por um corte bruto. Chegamos ao abraço final. Ao único abraço possível, do único amor indizível: incestuoso, das duas irmãs.

Neste momento, “Marilia e Marina” transcende e explica a sua razão de ser, aquele grilo que ficava roçando na cabeça quando nos perguntávamos aonde Serran queria chegar. No entanto, o filme deixa um gosto amargo. Goulart e Serran poderiam ter ido além, poderiam ter explicado melhor a relação das meninas ao invés de se fixarem tanto no mundo exterior. Marina domina, Marilia se deixar dominar. São um refúgio mútuo, que suaviza o inferno vivido pelas garotas.

Muy provavelmente, a censura atacou com mão de gato. O DCDP (Departamento de Censura e Diversões Públicas) liberou o incendiário convescote lésbico para maiores de 18 anos, mas não permitiu excessos. Tesouradas riscaram no ar, como golpes de samurai. Os mesmos que Júlio via na academia coxinha de kung-fu, inebriado entre o pop disco e a trilha sonora de Francis Hime.

Depois de muitos anos ajudando filmes-síntese como “A Grande Cidade” (1965, Cacá Diegues) ou “Todas As Mulheres do Mundo” (1967, Domingos de Oliveira), Luiz Fernando Goulart conseguiu sair dos bastidores da produção. Em “Marilia e Marina” foi hábil ao dominar um território que parece ser um conhecido de muitos anos. Extraiu dele a minúcia das pequenas coisas. Uma esquina, o colégio, a escada que leva à casa. Por todo o esforço, conseguiu uma promessa de eternidade, uma reconstituição do que não está mais aqui. Uma eternidade mórbida, porém eternidade.

quarta-feira, março 25, 2009

Biografia Entrevista - Xavier de Oliveira


O diretor e roteirista Xavier de Oliveira concluiu apenas cinco longas-metragens em 40 anos de carreira, mas este número pouco significa quando analisamos a qualidade, originalidade e permanência de sua obra.

Poucos diretores no país alcançaram a combinação das principais características do cinema de Xavier: autoral, intimista e acessível ao mesmo tempo. Iniciando com "Marcelo Zona Sul" (1970), prosseguiu em “André, a Cara e a Coragem (1971), “O Vampiro de Copacabana” (1976) e “Gargalhada Final” (1978) alimentando o cerne de uma inquietação artística que perdura até hoje.

Revendo os filmes, é fácil notarmos como a mensagem de Xavier de Oliveira permanece imediata: a luta do ser humano pela alteridade, pelo direito a uma essência diante do meio que o corrompe e assusta.

Neste bate-papo que realizamos em sua casa na Barra da Tijuca, no dia do seu aniversário, Xavier me pareceu o mais coerente dos gênios: vida e obra se misturam em impressões comuns e quase tudo o que está em película, parece estar também no discurso e na emoção deste carioca de 71 anos. Entender Xavier foi percorrer um labirinto de recordações e surpresas, cuja travessia compartilho agora com os leitores do Estranho Encontro.


ESTRANHO ENCONTRO – Xavier, começo pelas primeiras recordações do entrevistado. Infância, adolescência...

XAVIER DE OLIVEIRA – Eu nasci no subúrbio do Rio de Janeiro, em Benfica, um bairro até hoje de passagem. Quem nascia lá, dizia ter nascido em São Cristóvão [risos]. Eram 24 de novembro de 1937, faço 71 anos, portanto. Por coincidência, hoje.

EE – Sério? Nossa, que cármico! [risos]

XO – Depois que combinamos, eu me lembrei [risos]

EE – [risos] Que coisa...

XO – Podia até beber uma cerveja, em vez de água. [risos]

EE – [risos] E você é primeiro filho, segundo?

XO – Nós somos 3 irmãos. Denoy de Oliveira, que faleceu, morava em São Paulo. Além dele, o Rui de Oliveira, que é designer. Venho de uma família de classe média, mais pra baixa do que pra média. Meu pai era contador, minha mãe trabalhava em serviços do lar, prendas domésticas. Uma família muito unida, meu pai era uma espécie de guia-luz para nós todos. De fato era um homem bastante culto, autodidata. E é curioso, porque ele tinha certas intuições. Por exemplo, gostava de Hermann Hesse, um autor que 40 anos depois...

EE – ... Ah, então por isso que surgiu a sua produtora Lestepe, não é?

XO – Exatamente. Coloquei em homenagem, porque ele às vezes assinava “Lestepe”: Lobo da Estepe. Você é bem perspicaz. Meu pai era vegetariano, corria na praia, isso há 50 anos, e eu morria de vergonha porque ele me levava à praia para correr. Um espírito de uma pessoa que parecia estar vivendo em uma época errada. De modo que eu não venho de nenhum berço adverso à arte. Ao contrário, meu pai desde cedo nos levava para ver filmes no subúrbio do Rio de Janeiro. É triste dizer isso até, pois hoje em dia não se tem mais esses cinemas de rua. Religiosamente às quartas-feiras sempre íamos assistir às fitas em série. Quando surgia uma construção em Benfica, pensávamos logo que fosse um cinema. Mas não, era uma recauchutadora. O bairro é muito fabril. Eu me recordo, de mim e do Denoy todo domingo, infalivelmente, no cinema. De modo que essa foi a nossa ligação, sintetizando bastante.

EE – E isso foi correndo pela adolescência...

XO – Foi correndo pela adolescência. Denoy foi estudar arquitetura, mas não se formou, abandonou no final do ano. Eu fui fazer jornalismo, mas também não terminei. O Rui, este sim, se formou e é artista gráfico. Em meados dos anos 50 saímos de Benfica e nos mudamos para Ipanema. Evidente que aos olhos de um menino com sonhos na cabeça, como também era o Denoy, ir para Ipanema era algo maravilhoso. Caminhar a pé ao cinema. Morar num apartamento, ao invés das casas de subúrbio, casas às vezes com quintal gigantesco. Foi um choque muito grande. Choque cultural, pode-se até dizer. Naquela época o Rio era muito compartimentado, zona norte, zona sul. Mas acontece que neste ínterim, por uma ironia da vida, meu pai morre em 1957. E de repente nós acordamos pro mundo, tínhamos que ganhar dinheiro. Comecei, então, a trabalhar numa livraria. O Denoy, como ajudava meu pai a fazer contabilidade, manteve alguns clientes, mas não podia assinar porque não era contador. Eu prestei um concurso público...

EE – ... Do Banco do Brasil.

XO – Banco do Brasil, exatamente. E fui mandado pra Bahia, mas sempre com o sonho do cinema. Eu lia, tinha o tempo mais disponível. Por sorte, na biblioteca fiz amizade com a moça, bibliotecária. Escrevi crítica de cinema no jornal.

EE – Qual era a cidade?

XO – Itapetinga, sudoeste baiano, na época a 4 horas de Itabuna. O roteiro que eu escrevi do “Gargalhada Final” foi muito em função dos circos que eu via chegando lá, os circos itinerantes. Como, aliás, acontecia no subúrbio em que moramos no Rio. Na nossa primeira casa havia um terreno baldio à frente, em que periodicamente os circos se instalavam. Aquilo teve uma influência muito grande em nossa vida. Inclusive o último filme do Denoy, o “A Grande Noitada”, tem essa presença do circo. Éramos bem meninos mesmo, eu devia ter 5 anos de idade, Denoy tinha 9. Menos, talvez. Ficávamos fascinados por aquele mundo colorido, aquelas cores, aqueles personagens pintados, aquela música maravilhosa, os números de ginástica. Ficávamos bastante impregnados daquilo, chegávamos em casa e começávamos a repetir. Pra dizer a verdade, até hoje eu sei a música [cantarola enquanto faz gestos].

EE – Sempre permanece, de alguma forma...

XO – E anos depois, em Itapetinga, foi estranho porque eu e o Denoy, que estava no Rio, por carta começamos a nos revelar mais do que pessoalmente. Ele contava os sonhos dele, sentia impulso maior de falar da vida. Eu idem. Começamos a entabular uma ampla afinidade espiritual. Meu irmão foi uma pessoa muito importante na minha vida e na vida do Rui. Ele dizia: “Vamos fazer a nossa companhia de cinema. Um dia nós vamos ter a nossa companhia de cinema.” E 3 anos depois de ir para Itapetinga, eu voltei ao Rio.

EE – Não queria mais ficar lá?

XO – Fui transferido. Tempos depois é que eu entregaria a demissão. E nessa volta, o Denoy teve a idéia de produzirmos fotonovela. Olha que coisa idiota [risos]. Seria uma espécie de transição, conseguir juntar dinheiro até chegarmos ao cinema. Fotonovela despertava grande interesse, grandes publicações, especialmente dominadas pela indústria italiana. Mulheres lindas, histórias fantásticas. Tem um filme do Fellini sobre isso, o “Abismo de um Sonho”. A história da mulher que se apaixona pelo personagem da fotonovela, vivido por Alberto Sordi, um comediante muito interessante. Quando ela vai conhecê-lo, tem uma decepção enorme. Pois bem, então o que aconteceu? Produzimos uma fotonovela. Pegamos o Edison Batista, que era fotógrafo, inclusive viria a ser do “Marcelo” [“Marcelo Zona Sul”], do “André, a Cara e a Coragem” e do “Amante Muito Louca”, dirigido pelo Denoy. O Denoy escreveu a tal fotonovela, chamada “Vitrine dos Sonhos”. Tentamos vender e nada. Perdemos tudo, todo dinheiro nosso [risos], e não fizemos coisa nenhuma. Não avançamos, não resultou em nada. Foi uma bola fora.

EE – Deu um baque...

XO – Mas aí você vê como a vida é curiosa. Em 1965, estava eu voltando do Banco do Brasil, e no ônibus alguém havia colocado um jornal entre um banco e outro. Peguei e vi lá: “Curso de direção de cinema, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, dado pelo professor Ruy Guerra.” Primeiramente começou com o Ruy, depois o Gustavo Dahl e depois o Bartolomeu Andrade. Foram 3 professores, um após o outro. Importantíssimo na minha vida, pois de repente eu conheci 12 pessoas, 12 jovens alunos como eu, também apaixonados por cinema.

EE – Você se lembra de quem estava no curso?

XO – Alguns não prosseguiram, mas tinha, por exemplo, o Carlos Frederico, que fez a produção do “Marcelo Zona Sul” e diversos filmes naquela linha do udigrudi, underground. O Renato Neumann, fotógrafo, dirigiu longa-metragem também. Naquele momento era muito importante o convívio, ter contato com pessoas que falavam a mesma linguagem que eu, os mesmos sonhos. Vivíamos juntos, íamos para o cinema, o Frederico gravava os diálogos para depois ouvirmos em casa.

EE – Um encontro de almas, não é?

XO – Foi um encontro de almas. Pessoas afins, sabe? É tão importante. Você viver sozinho, isolado, pensar “será que eu vou conseguir fazer cinema? Será que cinema não é apenas para as pessoas bem nascidas? Será que eu vou ter chance; eu, um bancário?” De repente você encontra um veículo. E num dia estávamos na cafeteria do Museu de Arte Moderna, como existe ainda hoje, e lá chega perto de nós o Sílvio Autuori, jornalista do “Jornal do Brasil”. Naquela época, o “Jornal do Brasil” era de proa, de vanguarda.

EE – Nos tempos da Condessa ainda...

XO – Sim, da Condessa Pereira Carneiro. O Sílvio então nos disse: “Vai sair um concurso de cinema amador, promovido pelo Jornal do Brasil e pela Mesbla. Participem, 16 milímetros.” Foi aquela euforia danada, cada um fez o seu filme.

EE – O Denoy ajudando também ou não?

XO – Não, o Denoy já era um dos donos do Grupo Opinião. Ele e mais 6 companheiros, egressos do CPC [Centro Popular de Cultura] da UNE [União Nacional dos Estudantes]. Eles estavam com um bom dinheiro, haviam montado o espetáculo “Opinião”, de grande sucesso, com a Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale. Era um show que juntava a ficção, o documental e a reportagem. Fazia uma simbiose dessas 3 linguagens. Eu estava sempre lá, assistindo, não pagava ingresso [risos]. Era uma válvula de escape para o pensamento de esquerda, você sabe que nós estávamos em uma ditadura muito atroz. Bom, muitas pessoas fora do curso também entraram no festival, e eu me inscrevi com um curta chamado “Escravos de Jó”, que filmei todo na favela da Rocinha.

EE – ... Sozinho?

XO – Eu e o Edison Batista. A primeira vez que ele colocava uma câmera de cinema na mão. 16 mm, que eu comprei. Como ainda era funcionário do banco, tinha um certo recurso de dinheiro, não foi só o Denoy que bancou o filme. No final, ganhei o primeiro prêmio. A influência do “Opinião” nesse curta foi grande.

EE – Então você teve a sua fotonovela particular. Encontrou o jornal no ônibus, se inscreveu num concurso, ganhou.

XO – Essas coincidências. Acho que existe um momento, uma fase da vida do ser humano, especialmente quando se é mais jovem, em que essas coincidências acontecem muito. Devido ao prêmio, eu ganhei um projetor 16 e o Instituto Nacional de Cinema financiou um documentário para mim, sobre o arquiteto Sérgio Bernardes. E assim comecei a sentir o gosto do profissionalismo. Lembro que no júri estavam o Cacá [Diegues], o Flávio Migliaccio, o Alex Viany, o Roberto Farias, Alberto Shatovsky. Eram 11. Alguns gostaram do meu filme, alguns gostaram do rapaz que ficou em segundo lugar.

EE – Você se lembra quem?

XO – Me lembro: o Antonio Calmon.

EE – O Calmon! Ele fez um monte de filmes bastante interessantes no final dos 70...

XO – O Calmon é brilhante, nunca mais eu o vi. Chama a atenção que ambos os filmes eram voltados pro social. Tanto o meu, o “Escravos de Jó”, história de crianças que ao invés de estarem estudando, brincando, são obrigadas a catar alimentos na feira ou trabalhando. O curta do Calmon, “Infância”, era sobre meninos que perambulavam pelas ruas. Curioso que para gravar na favela da Rocinha, uma pessoa me recomendou a um movimento de esquerda, a AP, Ação Popular, que tinha uma base no local: seu José, um birosqueiro. Ele me abriu todos os espaços, me apresentou às famílias do Largo do Boiadeiro, à parte baixa da favela, à parte de cima. Não filmava todo dia, mas fiquei durante 6 meses lá. Já em 1988, vê como mudam as coisas, para rodar um documentário pro governo do Saturnino Braga, eu tive que pedir autorização ao traficante. Levei o texto, um assessor do Zaca, que dominava o tráfico do Santa Marta, me recebeu com um revólver na cintura. Colocou uma pessoa ao meu lado, o tempo todo. Mas, voltando a 1966: decidi procurar os Farias, fui lá na produtora que eles têm até hoje...

EE – ... a Refefê...

XO – Exatamente, a Refefê, e me apresentei ao Roberto Farias. Ele havia gostado muito do “Escravos de Jó” e me disse que iria escrever um roteiro, o “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”. Pensou em trabalharmos juntos, mas pouco depois houve uma mudança de planos. “Xavier, faz o seguinte: em vez de escrever comigo, escreve uma comédia com o Reginaldo Faria. ‘Os Paqueras’.” Eu ia pro banco, largava ao meio-dia, à tarde a gente se encontrava e ficávamos trabalhando até de noite. Tudo pronto, fui ser assistente de direção dele. E aí voltam novamente aquelas coincidências, sobre as quais eu estava falando. Um dia, em Copacabana, eu dou de cara com o Flavio Tambellini. O pai, não o filho. Grande amigo meu, falecido, ele dirigia o Instituto Nacional de Cinema, que havia bancado o prêmio do “Escravos de Jó”. O Flávio: “Xavier, vou fazer o ‘Um Uísque Antes, Um Cigarro Depois’. Quer trabalhar no roteiro e ser meu assistente?” “Claro que quero.” Trabalhei então com o Flávio, já ganhando dinheiro, o que era a minha preocupação. Você não pode ser amador, tem que ser profissional, para poder se dedicar. E outra: eu vivia em contradição com o banco. O banco era um entrave na minha vida. Comecei até a... [pausa]

EE – A entrar em depressão?

XO – A entrar em depressão. Na época eu namorava uma jornalista, ela conhecia os Pereira Nunes, uma família muito conceituada, de médicos. Me levaram a um psiquiatra, e ele: “Bom, você tem que sair do banco.” Disse tudo o que eu queria ouvir. Aliás, mesmo que ele não dissesse, eu sairia do banco. E assim entreguei a demissão no Banco do Brasil. Os colegas não entenderam nada. “O que você vai fazer?” Cinema. “Cinema? Vai ser galã?” Vou ser diretor. “Diretor? O que é isso?” Ninguém sabia o que era “diretor de cinema”. Nesse espaço de tempo, ainda no “Os Paqueras”, fico noivo da Armênia [Nercessian], com quem sou casado até hoje. Aliás, a equipe morreu de rir, porque eu não tinha como provar a aliança, e ela levou para mim o mostruário. Eu ficava experimentando durante as filmagens... [risos]

EE – [risos] E justo no “Os Paqueras” que não era bem o ambiente do moço casador...

XO – [risos] Pois é! Nos casamos, eu não tinha um centavo no bolso. Quem me emprestou dinheiro pra lua-de-mel foi um primo. “Meu Deus, e agora? O que vai ser de mim? Casado, sem nada no bolso. Sem emprego...” Ela trabalhava nas Nações Unidas, na época, na representação do Rio. Mas aí eu tive a idéia. Comecei a escrever o “Marcelo Zona Sul”, terminei em 9 dias. Fico espantado, como pude ser tão rápido. Hoje levo um mês, dois para escrever um roteiro. E aquilo fluiu assim. Consegui um pequeno capital, pra iniciar a filmagem. Tudo seria feito na base do semi-profissionalismo: uma equipe de 12 pessoas, estreantes, praticamente. O Edison nunca havia fotografado um longa-metragem. Eu nunca tinha dirigido, a não ser o “Escravos de Jó”, que era um curta.

EE – O Stepan, por exemplo, é da sua família, não é?

XO – Sim, ele é irmão da Armênia, tinha 15 anos. Você vê que a vida, volto a dizer, a vida tem uns encaixes... Fico espantado. Ele morava em Goiás, veio passar as férias no Rio. Aquele menino, perturbador pra caramba... [risos]

EE – [risos]

XO – Não gostava que eu beijasse a irmã dele... E eu agoniado para conseguir um ator. O dinheiro era muito pouco, e dinheiro vai embora, se você não controla. Como eu tinha boas relações com o “Jornal do Brasil”, por conta do prêmio, programamos um concurso público. Atores e atrizes, de 15 anos. Hoje em dia tem aos montes, naquela época não havia, nessa faixa de idade. Falei com o meu irmão Denoy para me emprestar o teatro na segunda-feira, dia que não tinha espetáculo. Ele chamou uns atores, amigos, para compor a banca examinadora. Apareceram centenas de crianças, os tipos mais variados, e o Stepan estava em casa. Nisso aparece lá por casa o Neneco, meu primo e pergunta: “Stepan, cadê o Chico [o primeiro nome de Xavier é Francisco]?” “Ah, ele foi fazer um teste, um negócio do filme dele.” “Fazer um teste com os meninos e você aqui em casa? Vamos lá agora!” Só para brincar comigo, levou o Stepan. O Carlos Frederico, que organizava a fila, virou pra mim: “Ô, Xavier, tem um garoto lá embaixo dando bombada na fila.” Bombada é quando você esbarra num, e outro vai esbarrando em seguida. “Tem um garoto dando bombada na fila, fui dar uma bronca e ele disse que é seu cunhado.”

EE – [risos] Situação constrangedora...

XO – “O que o Stepan veio fazer aqui?!” Ele não tinha nada a ver com o “Marcelo Zona Sul”, não era ator, sotaque goiano, branco, magro. Era a antítese do personagem que eu tinha imaginado, de um garoto zona sul, queimado de sol. Aí chega a hora do teste do Stepan. Ele fez um teste espetacular, espetacular. Uma parte de leitura, uma parte de improviso. Quando chegou na parte do improviso, ele deitou e rolou. O Stepan é uma pessoa muito brilhante. Não era eu quem julgava, eram os atores. Mas falei: “Ok, você fez um bom teste, mas não combina com o meu filme. Tchau.” Continuei o concurso em São Paulo, o Stepan foi embora para Goiânia. Um dia eu encontro na rua com uma saudosa atriz, a Glauce Rocha. Por coincidência, em frente ao teatro que hoje tem o nome dela. Eu não a conhecia, só de palco, mas a pessoa que estava comigo, sim. Contou da minha busca e ela me indicou uma garota muita boa, que havia trabalhado com ela em Brasília. Françoise Forton. O Lula foi fácil achar, porque ele trabalhou num curta do Carlos Frederico. A Simone Malaguti era filha de um amigo meu, o Manoel Malaguti.

EE – O problema estava em encontrar o protagonista...

XO – E a essa altura meu dinheiro já estava acabando. O Denoy, que era mais pragmático, me disse “Chico, pior do que filmar com o Stepan é o seu dinheiro acabar e você não fazer mais nada. O teste dele foi ótimo, você está com preconceito pelo fato de ele ser seu cunhado.” Não era só isso, ele não tinha o tipo, mas chamamos de volta o Stepan. “Você faz o filme, só que eu vou ter que dublar com outro, por causa do sotaque.” Terminamos a filmagem, ele foi pra Goiânia, eu comecei a procurar um dublador. Mas eram adultos tentando fazer voz de garoto. “Estou perdido”. Mandei um telegrama: “Stepan, volta de novo...” Ele dublou, e coloquei uma pessoa do lado, que eu chamava de “departamento de sotaque”. Quando uma frase saía à goiana, nós corrigíamos.

EE – Xavier, o roteiro inicialmente não se chamava “Marcelo Zona Sul”, era “Jipe Sem Capota”. Houve outros títulos intermediários?

XO – Não, só este. Quem deu o título foi a Geny Marcondes, ainda viva, pessoa poderosa intelectualmente, das mais fascinantes que já conheci. Era musicista, funcionária da Rádio MEC, ela havia se casado com o famoso músico, Koellreutter, separou-se dele e conheceu o Denoy. Ficaram juntos por nove anos, e ela teve grande influência na minha vida e na vida do meu irmão. Foi ela quem fez a música do “Escravos de Jó”.

EE – E em relação ao processo de filmagem, como foi? Pela primeira vez, você diretor de longa-metragem...

XO – Impressionante como às vezes as coisas saem de maneira espontânea. No caso do roteiro já havia sido assim. Recentemente, participando do Sundance, eu comecei a ver que todos os paradigmas de roteiro foram incluídos no “Marcelo” instintivamente. Os tais pontos de virada, o clímax, a definição dos personagens, o antagonismo entre eles. Na base da espontaneidade, da intuição. Outras coisas, não. Alguns elementos específicos não foram colocados inconscientemente, não.

EE – Por exemplo?

XO – O interrogatório na escola. Eram comuns os IPMs [Inquérito Policial Militar]. Eu mesmo respondi a um, no Banco do Brasil, por ter participado de uma greve. Se você observar o filme, a inspetora, vivida pela atriz Pichin Plá, usava um apito, como se fosse um sargento. Havia intencionalmente ali a idéia de consignar o ar de IPM. Mas, no geral, o roteiro foi escrito até com uma certa irresponsabilidade, vamos dizer. Porque escrevi um personagem profundamente transgressor, irreverente. O filme acabou sendo interditado pela Censura, quase proibido no território nacional. Quando o levei pra Brasília, eu sabia que não estava levando um filme inocente.

EE – Apesar de ter crianças, um filme adulto.

XO – Tanto assim que eu procurei me precaver. A Censura federal era então dirigida por um civil, senhor com uma postura intelectual, o Professor Wilson Aguiar. Soube que ele gostava muito do Pimentinha, uma revista de história em quadrinhos. “Xavier, se ele perguntar como é o filme, você diz que é parecido com o Pimentinha.” [risos] Aí eu falei isso pra ele. “Qual é a história?” “É tipo o Pimentinha, professor.” Seguiu para a primeira comissão de censores, e voltei dali a 2 dias. “Olha, o seu filme não tem nada de inocente. Foi proibido em todo território brasileiro. Quer ver o que escreveram? Pernicioso à juventude, Marcelo é um personagem que alicia jovens pra fugir, rouba prova, fuma em aula. Personagem que...” Meu Deus, que encrenca eu fiz! “Professor, se este filme for interditado, eu estou arruinado. É o meu primeiro longa-metragem, coloquei toda a minha vida aqui.” Eu tinha um dinheirinho inicial, mas o filme foi bancado pela Comissão de Auxílio à Indústria do Cinema, CAIC, uma entidade do Rio de Janeiro, nos tempos do governo do Carlos Lacerda, do Negrão de Lima. “Bom, façamos isto: você redige um recurso, eu entrego para uma outra comissão, mais branda.” Mas, novamente, os relatórios foram terríveis. E se não fosse aprovado pela terceira comissão, acabava. Era irrecorrível.

EE – Em alguns casos, eles até destruíam as cópias. Teve caso de filme que sumiu, desapareceu.

XO – E acontecia uma coisa, é bom de ser divulgado: os censores civis eram piores do que os militares. Eram mais realistas do que o rei. Havia um pânico de perderem os seus empregos, de serem denunciados como comunistas.

EE – Eram burocratas...

XO – Algo esquizofrênico, mesmo, de Kafka. Era uma tortura para os produtores. Já começava com o aviso: “Você volta daqui a 4 dias”. E o que você faz 4 dias em Brasília? Você enlouquecia, realmente. Bom, voltando: o censor me disse que o “Marcelo” seria enviado para uma terceira comissão, de militares. No dia, fiquei bambo, numa ante-sala. Os militares assistindo ao filme e eu do lado de fora, com o Stepan. Dias antes eu havia telefonado pra ele, que casualmente estava passando lá por Goiânia: “Stepan, está dando um problema danado. Nosso filme pegou 2 interdições, vem pra cá, me dá uma força.” Eu morrendo de medo. De repente, termina a sessão. Não ouvia nada. Abre-se a porta, os militares saem rindo. Quando viram o Stepan, então... “Você, rapaz! É fogo mesmo, hein?!” “Ganhei os militares”, pensei comigo na hora. “Como é que você faz aquilo, rapaz?” E eles brincando com o Stepan, que é muito vivo. Confundiram o personagem com o ator, o que é natural. Enfim, liberaram o filme, mas com a última frase cortada. Quando o Marcelo diz no final “Só volto pra casa porque estou com fome”, queriam dar a impressão de que ele voltaria por causa dos pais. Evidente que eu só cortei nas cópias, naquela época não se cortava o negativo. A obra era mantida intacta, na esperança de que algum dia fosse vista na íntegra.

EE – Uma via-crúcis que deu certo.

XO – Mas ainda não havia acabado. Entrou em cartaz, fez um sucesso danado, eu quis que o Stepan fosse no programa de televisão do Flávio Cavalcanti. Tive que pedir autorização, porque ele era menor de idade. Fui no Juizado de Menores, me atendeu o responsável, Dr. Alírio Cavalieri. “Vem cá, se eu trocar o seu filme pra 18 anos tem algum problema?” Eu fui pedir autorização pro Stepan, não fui falar de censura. “18 anos, Dr.? Mas a Censura já liberou, o filme é livre. Se for pra 18 anos vai me prejudicar muito, perco um público, Dr.” “Está bom. Porque esteve aqui comigo uma comissão de professores e psicólogos, denunciando o seu filme.” O Dr. Alírio enfim não mexeu na censura e ainda deu a autorização pro Stepan, citando textualmente o filme como um “poema cinematográfico”. Um radialista e crítico de cinema, Adolfo Cruz, também denunciou o filme, dizendo que era pernicioso para a juventude etc. Em São Paulo também tive problemas com uma tal “Comarca” que queria subir a censura, e eu não agüentava mais, estava exausto, pedi ao Denoy para ir lá brigar por mim. Felizmente ele conseguiu resolver tudo.

EE – E qual foi a postura do Flávio em relação ao filme? Ele era meio histriônico...

XO – Olha, o Flávio Cavalcanti teve uma postura bacana com o filme, sabe? Apesar de ser uma pessoa controvertida politicamente. Mas não viu nada que desagradasse. Não era político, no sentido partidário.


EE – Seu filme seguinte, o “André, a Cara e a Coragem” apesar de brilhante e de ter uma estrutura de produção melhor, não teve a mesma bilheteria. A que você reputa isso?

XO – Existe alguma coisa imponderável no sucesso, alguma coisa que foge, nebulosa demais. Do contrário, seria fácil colocar os dados no computador e ele dar uma resposta. O “Marcelo Zona Sul” entrou em cartaz numa quarta-feira de cinzas, estrelado por quatro meninos desconhecidos, preto-e-branco quando já se fazia colorido na época. “Os Paqueras”, anterior ao nosso, é colorido. Por que um filme desses explode? E por que o “André, a Cara e a Coragem”, profissional, com equipamentos, com uma estrutura muito melhor de produção, em cores, não obteve sucesso? Algum componente que eu não sei dizer. Eu não tinha noção nem do sucesso. Vi as filas em Copacabana, eu via aquelas pessoas, mas não chegava a absorver aquilo, não sabia a proporção. De fato, o filme estourou. É uma coisa até meio estranha o que eu vou falar, parece mentira, mas é verdade. O “Marcelo” se pagou em Copacabana. Você pagar um filme em um bairro do Rio, do Brasil. E estreou em dois cinemas: no Metro e no Bruni. O filme se pagou em dois cinemas de Copacabana. Impressionante isso. No caso do “André”, havia nele uma implicação social, além disso não foi tão bem lançado quanto o “Marcelo”, que teve uma distribuidora muito forte, a Ipanema Filmes, que pertencia, dentre outros, ao Jarbas Barbosa, irmão do Chacrinha. E uma distribuidora se torna poderosa no momento em que possui títulos de peso. Ou seja: não tinha miúras, como chamavam naquela época os filmes de fracasso. Ela chegava com muita autoridade.

EE – O “Marcelo” me parece aglutinador de uma nostalgia, de um espírito.

XO – O filme continua de pé, o que não é uma coisa comum. Certos filmes envelhecem. Pode ser até uma heresia o que eu vou falar, mas, por exemplo, dois filmes que explodiram juntos, importantíssimos: “Vidas Secas” e “Deus e o Diabo”. Volta e meia revejo um e outro. O filme do Nelson continua de pé. O mesmo não aconteceu, no meu modesto ponto de vista, com “Deus e o Diabo”. Envelheceu em certos aspectos, não manteve a mesma força. “Terra em Transe” manteve. O “Marcelo”, que não tem nada a ver com esses que citei, permaneceu. As pessoas dizem que é cult, que o filme já é um clássico do nosso cinema. Eu vou morrer e ele vai sobreviver, vai permanecer.

EE – Aliás, aproveitando essa linha do cult, um componente importante é a trilha sonora do Liverpool. Como você conheceu a banda?

XO – Através da Geny Marcondes. Eu a convidei para fazer a música do “Marcelo”, junto com o Denoy, e ela então sugeriu o nome do Liverpool Sound. Encontrou os garotos por ocasião de um concurso de música em que ela era membro do júri. Ficou muito encantada por eles. Eram gaúchos, viajaram pro Rio de Janeiro, ficaram ensaiando, tocando. O nome do cantor era Foguete. [Cantando um trecho:] “Vento de estrada no teu rosto...” Bem cabeludos, tipos fantasiosos, vestidos daquela maneira extravagante. Um motorista de táxi perguntou pra eles, segundo me contaram: “Vem cá, esse cabelo de vocês não incomoda, não?” “Não, não. Incomoda os outros.” [risos]

EE – [risos] Tirada perfeita.

XO – Conheci outro rapaz cabeludo assim, também gaúcho. Caio Fernando Abreu. Assistiu ao “Marcelo”, o filme ficou um ano em cartaz no Rio Grande do Sul. O Caio conseguiu entrar em contato comigo, foi lá em casa uma tarde. Perguntava tantas coisas. Passam-se os anos, ele se torna um grande escritor.

EE – Imagino o encontro pra ele. Conversar com alguém que participou da formação dele.

XO – O “Marcelo” teve disso, além daquelas loucuras e irresponsabilidades que eu comentei. Fiz verdadeiras barbaridades. Por exemplo: quando a menina pergunta pro Marcelo o número do telefone, eu coloquei um número verdadeiro, o do meu amigo Carlos Frederico! E ele riu pra caramba quando contei! Ou seja, infernizei a vida da família dele, com tantos telefonemas da garotada. Outro absurdo: ou o país era mais louco, inocente ou não sei o quê, mas para as cenas da escola, fui em uma, a André Maurois, e pedi: “Diretora, eu queria filmar um longa-metragem aqui.” E ela prontamente me atendeu: “Está aqui a chave da escola. Filma.” Assim, desse jeito. Gravei as cenas sábado e domingo.

EE – Essa espécie de caos não houve no “André”, pelo que você está contando. O que você lembra do set?

XO – Olha, a filmagem do “André” foi em tom nostálgico, em Benfica. Aquele era exatamente o filme que eu queria fazer. Eu não queria fazer o “Marcelo Zona Sul 2”, queria mostrar os problemas da juventude, a falta de emprego, as primeiras experiências no sexo, no amor, no trabalho, na amizade. O personagem vinha do interior de Minas, Carangola, e partia para o Rio de Janeiro pra ganhar a vida. Mostra-se esse confronto cultural entre cidade pequena e cidade grande, com todos os seus percalços. As falsas amizades, influências ruins, dentre outras coisas. O André não se deixa endossar pelo nocivo da vida, ele quer trabalhar, ele almeja. No final ele está perdido, o que algumas pessoas encararam como aspecto positivo. Os papéis picados, em dezembro, ele no meio daquela euforia, diante de alguns problemas que aconteceram. Como disse, é um filme que eu gostei de ter feito.

EE – Aliás, Xavier, persiste um elemento na sua obra que acho importante comentarmos. A questão dos seus filmes terem um aspecto filosófico, até existencialista, de mal-estar diante do mundo. Do ser humano envolvido por um aspecto social pelo qual ele não quer ser envolvido, pois ele quer preservar a integridade existencial dele.

XO – Isso é bem observado e pertinente mesmo. Você faz os filmes, os anos passam, você se afasta tanto deles, às vezes um espaço de 30 anos. É muito. Acho perfeitamente, muito bem observado, isso que você diz. Uma perplexidade dos personagens diante do mundo ao redor, que é mais forte do que eles. Perplexidade que existe no Marcelo, voltando pra casa; existe no André, perdido naquela cidade em festa e ele numa profunda tristeza; no “Vampiro”, quando o Carlos dança com a Sueli. Eles se abraçam, ele diz “eu te amo”, não ama nada. Vai continuar a ser o mesmo, está perdido no próprio mundo particular. Ele não venceu o mundo, ele foi vencido. No “Gargalhada Final”, quando pai e filho andam pela estrada de motocicleta, dizendo “vamos comer gilete”, na verdade eles vão se dar mal. Porque o circo não é mais aquilo que está na cabeça do velho. O que eles vão ser na grande metrópole? Eu não intelectualizava sobre isto, essas coisas saem muito ditadas pela minha própria natureza. E percebo que, na verdade, se acaba sendo um pouco até pessimista, com relação ao futuro de cada personagem.

EE – É retornar sempre.

XO – É retornar sempre. O Marcelo vai acabar sendo um burocrata, batendo ponto, igual ao pai. É uma certa desolação.

EE – Agora, o “Gargalhada Final” e o “Vampiro de Copacabana” foram rodados mais ou menos juntos, não? Por que o “Gargalhada” demorou mais tempo a ser terminado?

XO – Escrevi os dois simultaneamente. Tinha levado ao Severiano Ribeiro ambos os roteiros, para ele se associar comigo. “Gargalhada Final” já era um filme que eu curtia mais do que o “Vampiro”. Ocorre que o responsável me disse que só estava interessado no segundo, aí fizemos juntos. O “Vampiro” é, portanto, um filme que não tem dinheiro do governo, nada. Éramos eu, o Amilton Freitas, produtor de cinema, e o Severiano Ribeiro. Também pequenas participações do equipamento, mas basicamente 3 sócios. O Amilton sempre foi especial, ele sabia que eu estava em dificuldades durante a filmagem, e pelo contrato só teria que me dar dinheiro 15 dias depois. “Vem cá, eu vou te adiantar aquela parcela...” “Não, não, Amilton, pelo contrato você só tem que me dar depois.” “Não, eu te adianto já.” Um camarada fantástico, pessoa boníssima. E eu estava numa situação muito difícil. Foram os piores anos da minha vida. 74-75...

EE – Emocionalmente?

XO – Não, dinheiro. Nós tínhamos um apartamento em Ipanema, que era da minha mãe e passou pra mim. Foi lá que eu filmei o “Marcelo”, por sinal. A Embrafilme me negou um reajuste no financiamento, então eu tive que vendê-lo pra pagar as dívidas do “Gargalhada Final”. Dívidas com os bancos, agiotas. Eu vivia muito mal, muito mal mesmo. Assim de 7 horas da manhã bater em casa o oficial de justiça. Acordava de noite com pressão alta, ia pro hospital, ficava em repouso, voltava pra casa, às vezes a Armênia não tinha nem acordado ainda e ficava sem saber. Enfim, eu estava muito mal de vida e achava que com o “Vampiro” eu ia pagar as minhas dívidas todas, ia recuperar o meu apartamento, comprar outro. Fazia uma porção de projeções. Eu só vivia de cinema. E ainda contratei um ator [André Valli] que o Severiano detestou. “Xavier, se eu soubesse que você iria chamar esse cara, eu não teria entrado de sócio.” Mas era um ator excelente, fez um ótimo trabalho.

EE – Então o filme tem umas pinceladas autobiográficas. Ele diz “eu devo ao agiota”...

XO – Tem sim, alguma coisa. O Severiano lançou o filme, mas não obteve a resposta comercial que eu esperava. Não foi fracasso, não perdi dinheiro, mas lucrei pouco. E estranhamente, essas coisas do imponderável, é o filme pelo qual eu fui mais premiado. Ganhei a Coruja de Ouro, por exemplo. Interessante que no “Vampiro” eu tive que inventar um esquema: precisava filmar o carnaval, mas só poderia começar dali a 3 meses. Digamos que estivesse em fevereiro, só poderia filmar em maio. Filmei por antecipação com o André Valli, na semana de carnaval. No mais, tudo correu de uma forma muito linear, sem problemas. O que eu sempre esbarrei, em todos os meus trabalhos, é a própria falta de grana. Às vezes não transparece, no “Vampiro” creio que não transparece. Procuramos várias locações diferentes, a casa do protagonista centramos em um apartamento em Santa Teresa, cenografamos tudo. Mas parando pra pensar, acho que o erro do “Vampiro” foi eu ter perdido um pouco aquele negócio da ingenuidade, escrevi o roteiro com um certo calculismo. “Isso aqui vai agradar pela comédia, pode ir também pelo lado do erotismo.”

EE – Até porque, contextualizando, você estava no período da pornochanchada.

XO – Eu tive essa tentação, é uma estupidez. Você não pode deixar de ser quem você é, nunca. Carreguei muito nas tintas, no afã de ganhar dinheiro. Acabei fazendo um filme híbrido, nem autoral, caso do “Gargalhada”, nem fiz a chanchada do [Carlo] Mossy. Fiquei num meio-termo maldito. O “Gargalhada” saiu espontaneamente, numa boa. Meu lado mais solto, mais poético, sem compromisso de querer ganhar dinheiro. Nada disso. Mas no caso do “Vampiro”, realmente eu pensei muito nos dias que eu estava passando. Tinha um agiota com a voz metálica, e 10 dias antes do meu cheque vencer, porque eu passava cheque pré-datado: [imita a voz] “Olá, Xavier, como vai? É o Fulano, estou só avisando que daqui a 10 dias...” Um dia antes: “Olá, Xavier, como vai?...” Paguei esse cara, me livrei. Eis que depois de 10 anos, mais ou menos, ele telefona de novo. “Oi, Xavier, é o Fulano.” Quando ele falou, me deu um arrepio. Mas não era dívida. O filho dele queria ser ator...

EE – [risos] Coitado do filho, poderia ser um Lawrence Olivier dos trópicos...

XO – [risos] Eu disse “não sei, não posso ajudar.” Enfim, era uma época terrível. Com o tempo você começa a fazer um juízo crítico, cheguei à conclusão de que se justificou pelo momento, pelas circunstâncias. O “Gargalhada Final”, por sua vez, eu escrevi pensando no Fregolente. Cada seqüência, cada plano. A primeira vez que escrevi pensando em um ator. Impressionante, aquele é monstro sagrado. Uma das personalidades mais curiosas que eu conheci em toda a minha vida. Eu o tinha visto no teatro, um ator rodriguiano, e também numa peça de grande sucesso no teatro do meu irmão. “Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come”, de autoria final do Oduvaldo Vianna Filho e do Ferreira Gullar. Assisti muito ao Fregolente, vi filmes dele, mas, modéstia à parte, acho que o filme em que ele está mais o Fregolente é o “Gargalhada Final”. Ele mesmo dizia isso. “Com esse filme, vou pendurar a minha máscara”, assim como os jogadores penduram a chuteira. Ambrósio Fregolente. É nome de rua.

EE – E se formou em Medicina aos 52 anos...

XO – Pois é, o Rodolfo Arena, sobre quem o Stepan fez um curta, era outro camarada muito sarcástico. Dois doidos. [Com voz de trovão:] “Arena, me formei em Medicina, Arena!” “ Ô, Frego, receitado por você eu não tomo nem chope!” [risos]

EE – [risos]

XO – Eram dois personagens, duas figuras fantásticas, dois grandes atores. Convidei o Fregolente, ele topou. Aí foi a mulher dele, a Dona Cremilda, no meu escritório da rua Senador Dantas 19. E era um senhor ator, uma das coisas mais vulcânicas, talentoso, impulsivo, ao mesmo tempo muito impaciente. Eu ia dirigi-lo e ele: “Não, não... Xavier... Xavier... Deixa que eu faço, deixa que eu faço! Eu vou fazer, se você não gostar, você diz, está bem?” Mas no final ele ficou muito aborrecido comigo, muito chateado, porque custei a dublar o filme. Ficou ofendido, com toda razão. Para convencê-lo a dublar, fui com a Dona Cremilda lá em Mendes, no hospital em que ele trabalhava. Era psiquiatra. Cheguei lá, ele não queria nem me ver. “O que esse cara quer comigo?” “É o Xavier, Frego, vamos conversar, Frego.” E me esculhambou, pelo fato de eu não ter terminado o filme. Só que eu não podia, devido ao contrato com o Severiano Ribeiro, eu não podia passar do prazo. Apesar dos pesares, consegui fazer com que ele dublasse o filme.

EE – Esse processo criativo do “Gargalhada”, como foi?

XO – No “Gargalhada Final” eu escrevi num fluxo muito parecido com o do “Marcelo Zona Sul”. E eu também tinha em mente que deveria fazer uma história com poucos personagens, porque eu tinha poucos recursos. Consegui uma parceria com a Embrafilme, mas não no sistema de co-produção, em que ela entrava e se o filme rendesse, tudo bem; se não rendesse, paciência. Não, eu entrei no sistema de financiamento. Um industrial paulista, cunhado do Denoy, avalizou os títulos. A Embrafilme financiou e ia descontando as minhas dívidas na própria renda. O filme se pagou tranquilamente.

EE – Ele tem um clima de road movie. Vocês pegam a estrada, vão recortando o país.

XO – Saímos aqui do Rio, fomos seguindo a estrada. Minha mulher trabalhou na produção. Fomos até o interior de São Paulo, ali perto de Areias, depois naquela região toda de Porto Ferreira. Foi muito difícil de ser feito, porque de repente eu tinha que ter um riacho junto de tal coisa.

EE – Andando e procurando.

XO – Andando e procurando. Iam pessoas na frente, buscando locações. E se você perguntar pra mim qual o filme que mais me toca, é este. Pela proposta, pelo sonho do artista, pela reminiscência do circo. Toda essa parte afetiva do filme. Pela relação pai e filho, por aquele amor que os dois sentem um pelo outro. Eles não se abandonam, ficam numa situação final que parece o globo da morte. Recebi críticas muito interessantes, que me envaideceram. Uma delas dizia que o filme era para ser visto não agora, mas no futuro. Mas é ainda pouco conhecido. Quando fui rodar o telefilme “O Homem Que Sabia Javanês”, um muito bom ator, que mora nos Estados Unidos, Carlos Alberto Riccelli, veio falar comigo. A gente não se conhecia, só de nome. “Xavier, se você soubesse como eu gosto do ‘Gargalhada Final’. Gostaria até de revê-lo”. É bom filmar com um ator que se interessa pelo seu trabalho, que gosta. Emprestei pra ele uma cópia vhs que eu tinha.

EE – Depois do “Gargalhada Final”, de 1977, você volta em 1997, com o “Adágio ao Sol”.

XO – Nesse período minha vida teve um breque danado. Porque, como eu falei, vendi o apartamento, o “Vampiro” não me deu o retorno financeiro, o “Gargalhada” também não foi esse estouro todo de renda. Quer dizer, se pagou, mas não rendeu. Um dia conversei com uma pessoa pela qual eu tenho muito carinho, pela memória dele, o Cyl Farney. Belíssimo ator, um príncipe de criatura. Guardo uma carta bonita dele, ele nem se lembrava, me enviou quando assistiu ao “Marcelo”. “Por que você não faz documentário pra pagar as suas dívidas, Xavier? Eu também já estive assim como você. Devia tanto dinheiro que eu tinha um problema de dormência na perna. No dia em que eu paguei as minhas dívidas, sumiu a dormência. Vou ver se consigo para você.” Recebi o convite do Jorge Jonas, diretor de “O Auto da Compadecida”. O Cyl fez a cabeça do Jonas, que me chamou para dirigir um documentário sobre o lançamento de um carro, uma caminhonete chamada F-1000.

EE – E assim a publicidade salvou muitos nomes do cinema brasileiro, como você.

XO – Já na retomada do cinema brasileiro, entrei com o projeto do “Adágio ao Sol”. Escrevi o roteiro, levei pro [Luiz Carlos] Barreto, que não se interessou. Eu sem produtora, entreguei pra Rossana Ghessa, da Verona Filmes. Ela captou recursos, mas nessa parte toda econômica eu fiquei de lado, porque não era o caso. “Adágio ao Sol” é um roteiro premiado, o Marzo ficou muito interessado em fazer, viu que a história era bonita. Mas não foi um filme em que tive prazer, pois trabalhei sob inúmeros problemas. Não gosto de botar culpa nos outros, mas também não quero me atribuir toda a culpa. É um filme, para mim, rejeitado. Não fiz bem, não ficou bom, não gosto do resultado artístico. Cada dia era um drama qualquer que surgia. Tem coisas que eu acho mal realizadas, tem coisas que eu acho melhores. Na verdade, eu não deveria ter dado o start sem saber exatamente se todas as condições de filmagem estavam lá. Em 2003, ganhei a concorrência de um média-metragem, quando o governo fazia telefilmes. 52 minutos. Passei pro cinema, sem adaptar época, um filme baseado no “O Homem Que Sabia Javanês”, do conto homônimo do Lima Barreto. Um filme de que eu gosto muito, só teve um porém na distribuição. No elenco, além do Riccelli, Sérgio Mamberti, Sérgio Viotti, Zózimo Bulbul. Coloquei o Bulbul como participação especial, no papel do africano. Está no conto, inclusive. Inseriu idéias dele, como a da reza dos africanos. Fiquei contente com o resultado desse filme, me deu um certo alento como realizador. Tive uma experiência muito interessante de filmar pela primeira vez com duas câmeras, movimentando as câmeras, os atores, no corte. Produção muito bacana mesmo, com todos os recursos, tudo correndo perfeito. A equipe de 60 pessoas, eu nunca tive isso na minha vida. 60 pessoas, parece mentira.

EE – Passando às influências na sua obra, Xavier. Até vejo o seu cabelo meio Jean-Pierre Léaud, pro lado... [risos]

XO – [risos] É...

EE – ... E lembro de “Os Incompreendidos”. Quais as outras referências, importantes pra você?

XO – Antes do “Marcelo” eu não tinha visto “Os Incompreendidos”, mas gosto muito do Truffaut, grande cineasta. Havia assistido ao “Jules et Jim”, depois vi todos os filmes. Existem outros autores que também me influenciaram. Por exemplo: poucos conhecem o “Studs Lonigan”, do Irving Lerner, que pegou o título imbecil aqui no Brasil de “Uma vida em pecado”. Gosto muito desse filme, pode ter me influenciado mais até do que o próprio Truffaut. E também assisti a um filme que me impressionou muito, antes de começar como diretor, o “Mensageiro do Diabo”, de Charles Laughton. Eu não sei dizer qual a ponte, mas me impressionou muito, muito, muito. Vi num cinema antigo em Ipanema, o Pirajá. Essas coisas todas vão permeando o seu imaginário. Fellini, “As Noites de Cabíria”, “Estrada da Vida”. As pessoas comentam que o “Gargalhada” tem influências do Fellini, mas eu não sei exatamente se é influência dele ou se a matriz é a mesma: o circo.

EE – E como você se sentia no panorama da época? O seu cinema não era necessariamente cinemanovista.

XO – Não era, por isso que eu disse que eu e o Calmon, apesar da mesma origem, acabamos nos afastando do ponto de vista artístico. Fui trabalhar com o Roberto, com o Flávio, com o Reginaldo; o Calmon foi ser assistente do Glauber, depois do Cacá. Curioso, porque nós éramos uma novidade também. Não havia cinema amador no Rio de Janeiro. Me lembro que o Barreto convidou a nós todos para ir à casa dele. As pessoas começaram a querer saber quem era aquela garotada que surgiu, saber a nossa opinião também. O Alex Viany, certa vez, fez uma entrevista longa conosco, para publicar no “Jornal do Brasil”. O Glauber escreveu matérias sobre os filmes, inclusive sobre o “Escravos de Jó”. Havia uma espécie de carinho, de aceitação, um “venha até nós”, dos cineastas que já eram conceituados.

EE – Mas que depois não se confirmou, ao longo do tempo. Porque bifurcou.

XO – Conheci todas essas pessoas do Cinema Novo, eram meus amigos, até. Gostava muito do Leon Hirszman, que era uma pessoa muito brilhante. O Joaquim Pedro, o David Neves, o Marcos Farias, o Arnaldo Jabor. Pessoas muito preparadas, cultas, eles tinham as teorias deles. O Leon era uma cabeça pensante. Alguns se reuniam em frente ao bar da Líder, um laboratório de revelação e cópia dos filmes, em Botafogo, na rua Álvaro Ramos. Mas eles seguiam uma concepção estética que às vezes colocava de fora outras pessoas que não pertencessem à mesma visão. Por outro lado, quando nós estávamos escrevendo “Os Paqueras”, eu e o Reginaldo, surgiu uma comédia brasileira que não tinha nada a ver de chanchada, que explodiu e trouxe um novo conceito, o “Todas As Mulheres do Mundo”, do Domingos Oliveira. Esse filme foi muito importante. Tanto assim que nós começamos até a mudar algumas coisas. Implicitamente você começa a mudar alguns pensamentos que você estava querendo desenvolver. Era um filme de costumes, uma história de amor, muito espontânea. Dois anos depois surge o “Macunaíma”, dirigido por um dos próceres do Cinema Novo, o Joaquim Pedro, e que se apropria de elementos da chanchada para criar uma obra soberba. Ou seja, os movimentos se sucedem, cada qual com o seu estilo. No geral, o Cinema Novo foi importante, como foi importante também a Bossa Nova. Mas era um cinema elitista, voltado para um público selecionado, em flagrante oposição à chanchada. Não eram filme populares, eles não tinham essa pretensão de um filme popular.

EE – A Lestepe estava na ativa bem nesse meio-tempo. Como ela surgiu, efetivamente?

XO – Começa em 66, pouco depois de “Escravos de Jó”. Montei a Lestepe porque precisava ter uma empresa. Além de mim, eram mais 4 pessoas: Denoy; Luiza Prado, uma amiga nossa, ceramista; o filho dela, Laury Ferrari, economista, importante para fazer os projetos; e o Rui, meu irmão. Tentamos levantar junto à CAIC um financiamento para outro filme, anterior ao “Marcelo Zona Sul”. Uns 3 ou 4 anos antes. Mas, um amigo nosso, de dentro da CAIC, me deu um conselho: “Você tem 4 sócios. Com exceção de você, todos têm problemas políticos.” O Denoy no Opinião; a Luiza no Partido Comunista; o filho dela, menos; o Ruy estudando desenho, animação, na Hungria, país comunista na época. “Qualquer projeto que você apresentar na CAIC será investigado, a vida dos sócios será investigada. Se der algum contratempo, Xavier, você está perdido.”

EE – O que você fez?

XO – Falei pras pessoas saírem. Ficamos somente eu e minha mãe. A partir daí, já em 69, consigo financiamento pro “Marcelo Zona Sul”. A CAIC era então dirigida por um coronel do Exército, o Coronel Américo. Homem muito íntegro, sujeito direito, técnico, professor de português. A Armênia o convidou a assistir ao que nós já tínhamos: o filme estava em banda dupla, a imagem e o som correndo fora do filme, em magnético. Ele foi ao estúdio da Herbert Richers, eu coloquei 3 rolos para ele ver, 10 minutos cada um. Parte 2 com a parte 4, enfim, pra ele ter uma visão geral. Ele assistiu, percebeu que o filme estava pronto, que eu não estava vendendo fumaça, e nos financiou. Graças à CAIC o filme foi concluído.

EE – No “André”, o esquema foi parecido?

XO – No “André” eu apliquei todo o dinheiro ganho com o “Marcelo”, que foi muito, era muito dinheiro mesmo. Eu me achava o homem do braço de ouro. Apliquei tudo, e meu sogro vendeu uma casa lá em Goiânia, então ele tinha 10%. O pai da Armênia, do Stepan. Obtive um pequeno lucro. Nesse espaço de tempo, foi criada a Embrafilme, eu estava muito bem credenciado como cara de sucesso. Com o “Marcelo” e o “André”, ganhei prêmios. Melhor diretor do ano, essas coisas. Além disso, nessa mesma época o teatro do meu irmão fracassava. O Opinião foi perseguido pela direita, fecharam muito o cerco, os espetáculos não iam pra frente, não obtinham verbas oficiais, o CCC, “Comando de Caça aos Comunistas”, colocou uma bomba na porta, destruiu toda a fachada do prédio. Começaram também os desentendimentos internos, entre certos sócios. Resumindo, o Denoy sai do Teatro, vai trabalhar comigo na Lestepe, participa da produção do “André, a Cara e a Coragem”. Consegui um financiamento na Embrafilme para um projeto que eu tinha, o “Banana Kid, Super-Herói Tropical”. História de um super-herói brasileiro em confronto com o Super-Homem, a inferioridade. Mais político. Abri mão desse financiamento pro Denoy fazer o primeiro longa-metragem dele, o “Amante Muito Louca”. Um filme importante, premiado, uma boa bilheteria, e conseguiu novamente levantar a nossa empresa. Que tinha, de certa maneira, se abalado muito com o “André, a Cara e a Coragem”. A produtora terminaria, anos depois, com a morte da minha mãe. Atualmente eu tenho uma nova empresa, a Ártemis, que herdou o acervo da Lestepe. É por ela que entro em concorrências e vendo meus filmes, pra Globo, pro Canal Brasil, pra TV Brasil etc.

EE – O que me dá o gancho para perguntar sobre o esquema de produção atual. O que você comentaria a respeito?

XO – Houve um salto tecnológico muito grande, em diversos sentidos, da minha geração de cineastas pra cá. Às vezes até converso com a Armênia sobre isso. “Imagina Fulano, se eu fosse falar em Excel pra ele...” Eu fico pensando em alguns colegas caóticos que eu conheci, muitos já falecidos, como é que eles estariam se comportando hoje em dia diante dessa parafernália. Esse é um aspecto. Outro aspecto, mais polêmico, tem a ver com a temática. Em julho de 2007, fui convidado para o Summer Film School, na República Tcheca, na cidade de Uhreske Hradiste, para workshops, debates e exibição de 2 filmes meus. Havia uma homenagem ao cinema brasileiro. Eu senti então que a expectativa dos europeus em relação a nossos filmes é sobre as nossas misérias, sobre as nossas crianças famintas, essas meninas de 14, 15, 12 anos se vendendo por 5 reais. Se o filme não tocar nesses assuntos, não desperta interesse para o europeu.

EE – Não é brasileiro.

XO – Não é brasileiro, não interessa ao europeu. Uma história de amor, por exemplo, não interessa a eles.

EE – Aquele estereótipo da sociochanchada. Você já sabe de antemão o princípio, o meio e o fim. Têm uma suposta denúncia social. Fabricam estes filmes em série, ganha-se muito dinheiro, em vez de se fazer os filmes que você está falando.

XO – Isso aí eu senti claramente nos filmes de impacto lá. E fico vendo essa enxurrada de filmes que as pessoas fazem aqui sob esse prisma. E me bate uma dúvida, eu não sei se maliciosa ou não, se a criatividade dos nossos realizadores está muito subordinada ao sabor europeu. Ao que eles querem ver da nossa realidade. Eu gosto muito do meu Brasil, e acho que nossa realidade não é só bala perdida e miséria. É essa, mas não é só essa. São coisas depreciativas, muito depreciativas do nosso povo. Enfim, uma colcha de retalhos, mostrando o nosso lado mais miserável. Criou-se um ciclo no nosso cinema assim, ao gosto do primeiro mundo. E eu não estou nessa. Pode ser que eu esteja falando aqui um ponto de vista muito pessoal, questionável, mas essa tendência atual me irrita. Palavra de honra. Me irrita.

EE – Xavier, chegamos à pergunta final. Assim como você, eu também me emocionei em diversos momentos ao longo desta conversa. São muitos pontos, muitos aspectos riquíssimos. Gostaria de saber, então, o que você acha que fica da sua obra.

XO – É difícil dizer, avaliar exatamente o que fica da obra. Eu me coloco diante dela, dos meu filmes. Poucos filmes, na verdade eu fiz poucos filmes. Uma certa frustração de não ter filmado mais. Há essa situação muito melancólica no cinema brasileiro, o Leon disse uns anos atrás e é verdade. O sujeito passa 5 anos, 8 anos, 10 anos, sem filmar. É difícil você estabelecer um contato orgânico entre os seus filmes havendo um hiato tão grande. Meu irmão Rui, que é desenhista, diz sempre que quando passa uma semana sem desenhar ele sente uma falta de destreza na mão. Uma certa dificuldade em desenhar, pois ele tem que ficar permanentemente desenhando, pintando. E o cineasta brasileiro é essa entidade estranhíssima, é a nossa realidade. Você vai ver, no fim da vida, que dirigiu 10 filmes, no máximo. É uma coisa angustiante. Agora, tentando responder mais objetivamente à sua pergunta. O que eu gostaria que ficasse... Bom, um artista que tentou fazer seus trabalhos com sinceridade, e sobretudo preocupado com o ser humano comum. Pessoa comum, com a qual a gente esbarra no meio da rua. Seus pequenos sonhos, pequenos deslizes, seus pequenos pecados, pequenas virtudes. Essa pessoa me interessa.

EE – É a sua lírica, realmente.

XO – Me interessa porque é o grosso da humanidade, é o grosso de uma sociedade. A questão de os filmes nossos estarem com as salas vazias eu atribuo a essa falta de identidade entre o nosso cinema e o ser humano comum. A pessoa que trabalha, que está atrás de um emprego, que está querendo conquistar uma namorada. O camarada que quer conversar com o filho mas não consegue, porque não tem diálogo. Esses flagrantes, esses conflitos do cotidiano. A meu ver, isso está faltando no cinema brasileiro. Esse elo de ligação, esse poder da pessoa olhar para a tela e ver seu próprio rosto. Porque as situações são sempre excepcionais, os personagens são sempre excepcionais, dá a impressão de que se repete tanto esse tipo de temática a fim mesmo de chocar. Creio que isso não forma cinematografia. O cinema americano é uma escola, sim. Às vezes eu pego na locadora uns clássicos e fico revendo. O grande trunfo do cinema americano foi essa medida que ele fez do ser humano comum. Nunca me esqueço dos filmes do Elia Kazan. São pessoas, tipos, com seus conflitos. E tantos, tantos diretores americanos. Gostaria que ficasse pros pósteros, para as pessoas que vão analisar meus filmes daqui a 50 anos, quando não estarei mais existindo, que fui um cineasta preocupado com esse tipo de gente. Não há heróis, nem bandidos. Somos nós mesmos, com as nossas deficiências, com os nossos esplendores, com os nossos sonhos, com as nossas frustrações, com as nossas angústias, com as nossas expectativas de vida. E com os nossos fracassos também, não é? Ainda há pouco nós estávamos analisando o fato de os meus filmes terem sempre o personagem diante de suas impossibilidades. Esse cotidiano é às vezes aterrador. Gostaria, portanto, que as pessoas vissem meus filmes como resenhas sobre os minúsculos sonhos do ser humano.

sábado, fevereiro 14, 2009

Gargalhada Final


Dentre os cineastas brasileiros, Xavier de Oliveira tem uma qualidade rara: seus personagens são quase sempre a razão principal da construção fílmica. Dialogando com vicissitudes econômicas e sociais, Xavier criou um cinema voltado para a individualidade exacerbada, para a busca de uma essência singular.

Artista de gênio, manifestou também um espírito contraditório nesta busca: a eterna falta de redenções, de possibilidades, e a angústia da impotência.

Já na estréia com "Marcelo Zona Sul" (1970), melhor trabalho e mais conhecido do grande público, este carioca de Benfica, 32 anos, parecia apontar a câmera para a cidade -- o bairro de Copacabana -- trazendo à tona uma crônica ideológica de classe-média, uma fábula comum sobre ritos de passagem.

Apreciado dessa forma, "Marcelo Zona Sul" foi sucesso de bilheteria, rendeu dinheiro a Xavier e propiciou uma segunda tentativa, "André, a Cara e a Coragem" (1971), com o mesmo ator principal - seu cunhado, Stepan Nercessian - e uma produção esmerada, colorida.

De impacto inferior ao de "Marcelo", "André, a Cara e a Coragem" naufragou em prejuízo, mas deixou claro que o diretor pretendia ser bem mais do que um resenhista de costumes.

Tanto André quanto Marcelo guardam entre si paralelos: ambos dotados de uma verdade interna, feroz e pacífica; e ambos despreparados para uma atitude proativa, mergulhando em um limbo de angústia, ausentes da vida real que exerce o contraditório de querer maltratá-los e cooptá-los.

O que fazem com esta angústia é quase nada, mas Xavier prossegue investigando a atmosfera que os cerca, justificando imperceptíveis atos com mesquinhos fatos, operando uma trama que para o remediado Marcelo era a conformidade, e para o desafortunado André, o abismo da indigência.

Coroando a tese de Marcelo e a antítese de André, em 1976 Xavier realizou uma dolorosa síntese em Carlos (André Valli), o protagonista de "O Vampiro de Copacabana". Filme amargo, de cunho autobiográfico, o "Vampiro" radicaliza as proposições das obras anteriores, e não deixa dúvidas de que Xavier mirava a luta pela essência perdida.

Tudo em Carlos é alheamento renitente, juntar de cacos de uma alma dispersa pela mediocridade diária e procura claudicante do que a sociedade rouba de nós, manipulando o homem como rebanho, peça substituível e descartável.

Aquilo que antes permanecia edulcorado com a poesia da juventude, em "O Vampiro de Copacabana" cobra juros na culpa adulta, consciente: Carlos trai a mulher e o casamento vira um jogo de aparências. Não paga aluguel e está ameaçado de despejo.

Ultrapassar a vertigem imposta por estes três primeiros filmes não deve ter sido tarefa simples. Esgotar-se é o perigo e temor de qualquer artista. E se enquadramos a busca pessoal no nicho da produção dos anos 70, percebemos que existia ainda a variante de ordem prática: o autor precisava guerrear com foices para juntar dinheiro, saldar papagaios e além disso tocar a vida cotidiana fora das telas.

Pois Xavier de Oliveira atingiu “Gargalhada Final” (1978) nesse momento nebuloso, premido por questões várias e rodando na mesma época o “Vampiro". Interrompeu o primeiro e continuou o segundo, garantido pela co-produção do grupo Severiano Ribeiro.

Quando finalmente retomou o projeto, Oliveira tinha diante de si a cobrança de membros da própria equipe, como a do tonitruante, shakesperiano e excepcional ator Fregolente – para quem o diretor-roteirista havia idealizado o filme desde o início. Frego se queixava do abandono imposto à película, se recusava a dublá-la, mas eis que, para o benefício de sua própria posteridade, entrou nos estúdios da Líder e cumpriu o prometido.

“Gargalhada Final” é um ente estranho para quem deseja uma aproximação a Xavier de Oliveira tomando por lamparina o endiabrado Marcelo, o melancólico André ou o Nosferatu redivivo Carlos. Trata-se da construção de um edifício novo, que nutrido pelas miragens da infância do realizador – e de seu irmão, Denoy, que ao lado de Airton Barbosa compõe a trilha sonora –, volta-se ao mistérios do circo.

Dizemos “mistérios” porque cabem neles não apenas a pantomima, mas a pobreza humana – circos à beira de estrada, paisagens maltratadas, sem um pingo de infra-estrutura –, o companheirismo e, sobretudo para este filme, a relação entre pai e filho.

Vejam, portanto, que o circo não é apenas circo, é um amálgama de circunstâncias que evidenciam o amor entre Trombada (Fregolente) e Marreco (Stepan Nercessian) sem sentimentalismos apelativos, sem choros ou velas.

Falam de si, demonstram preocupação um pelo outro, e permanecem ao longo de todos os 77 minutos sem revelarem seus nomes de batismo. São simplesmente “Trombada” e “Marreco”. É parte deles, indissociável, na química que o circo desenha na alma de cada um.

Fotografia de Ruy Santos; montagem de Jaime Justo; produção da Lestepe – de Xavier – e da Palmares; assistência de direção de Armênia Nercessian – esposa do diretor, irmã de Stepan –, também responsável pela cenografia, figurinos, adereços, maquiagem. O espírito mambembe do roteiro se encontra igualmente na sua concretização: equipe reunida, pegaram um ônibus, subiram pelas estradas e descobriam as locações à medida em que apareciam na janela.

Assim, aborda-se em “Gargalhada” a mistura de folclore, modinhas, elementos do campo – aspecto absolutamente dissociado do cenário urbano de Marcelo, André e Carlos. Lavar roupa no rio, roubar laranja no pé, ir à casa de prostituição, ouvir as mentiras brancas do pai, como a de inventar um irmão bastardo de Marreco porque o velho lembra-se com saudade do tempo em que o filho era pequeno.

A comunicabilidade entre Trombada e Marreco passa por estes chistes, por um implicando com o outro, com seus causos. Dentre estes, perceba-se a reinvenção da lenda de São Jorge, colocada de maneira bastante sensível. Outro momento engenhoso, a morte da esposa de Trombaba, é narrada pelos dedos de Fregolente que demonstram a queda da mulher, do trapézio.

Sobrevive a fixação por São Paulo – mote visto em “Marcelo Zona Sul”, como território prometido e do qual o angry young man voltava porque tinha fome. É uma idéia retomada para delimitar as expectativas de cada personagem. Marreco quer a vida de galã na tv; Trombada, ventríloquo cansado, carregando no colo o boneco Aflito, quer mais da mesma rotina. Até que ponto ele terá a espinha quebrada pelo filho, até que ponto serão felizes fugindo da polícia após a tentativa de assassinato de um dos seus ex-patrões?

Não se sabe, se presume. O boneco de madeira estirado na estrada, no delírio de liberdade e de vida nova que se apossa de Trombada, enquanto uiva na moto surrupiada por Marreco. O boneco interage com o espectador enquanto signo. O silêncio, o vento, as partes espatifadas no meio do asfalto, ele é a consciência inanimada de que surge a partir dali para os dois um ponto sem retorno.

“Gargalhada Final” deixa o sabor de um doce, encantado, servindo
para a compreensão desenraizada de Xavier de Oliveira. Apreciar a obra do diretor é assistir a "Gargalhada Final", para depois mergulhar nos três filmes iniciais, que se desdobram em um contexto único.

terça-feira, março 20, 2007

André, a Cara e a Coragem


Falar de Xavier de Oliveira nos traz de volta ao assunto do quanto a memória cinematográfica brasileira vem sendo jogada no ralo, pois o diretor é caso típico de artista com substância suficiente para conquistar -- em qualquer tempo -- uma multidão de fãs e seguidores, influenciados por seu estilo e universo próprios.

Verdade que alguns filmes de Xavier -- como "O Vampiro de Copacabana" -- charmosamente envelheceram; mas outros, nos quais "Marcelo Zona Sul" é o caso mais simples, são autênticos cult-movies brasileiros, no sentido estrito do termo que serve para designar títulos adorados por fiel platéia, apta a nunca deixá-los morrer, passando adiante essa adoração.

"André, a Cara e a Coragem" (1971) pode não ter sido um filme muito popular naquele início de década -- pelo menos não tão bem-visto quanto "Marcelo Zona Sul", o longa anterior de Xavier, que lhe rendeu inúmeros prêmios e elogios. Mas é tão bom quanto, ou pelo menos demonstra que o diretor e roteirista era homem coerente em seus propósitos.

Espécie de antítese do sonhador pequeno-burgês Marcelo, o André rejeitado pela sociedade (e vivido pelo mesmo Stepan Nercessian) concretiza a fuga imaginada por Marcelo e vai parar em um Rio de Janeiro proletarizado, no microcosmo da mesma região portuária onde anos depois Stepan seria Queró em "Barra Pesada". Mas, diferente de Queró, o menino André não rouba um vintém e permanece ali, no limbo existencial característico dos personagens de Xavier, para quem a investigação da atmosfera que os rodeia é mais significativa que os elementos de enredo.

André sonha, sonha sempre; porém, os sonhos são interditados pela realidade mesquinha e altamente competitiva de um lugar que tem muito pouco a oferecer. Seu esforço é detalhado: lavador de pratos, promotor de eventos, cobrador. Quando carrega um reclame da venda de terrenos na Barra é avisado para fugir da polícia -- a empresa era fantasma. Na incubência de cobrador, nunca é atendido pelos devedores. Até no bordel, que visita na esperança de atenção mínima, a prostituta com quem se deita o trata com indiferença e repugnância.

Por vezes anda tão sem dinheiro que almoça no Albergue João XXIII, caminha sem rumo pelas pistas da Av. Presidente Vargas, e, na compulsão de sonhar, o faz idealizando a terra natal, Carangola (zona da mata de Minas Gerais), para seu colega de quarto, na casa de cômodos onde moram. Em troca, o colega marinheiro relata delícias em mares distantes da Europa, que parecem a André tão somente histórias, tamanha a distância -- e impotência -- do menino diante da vida.

Quando recebe uma chance, André sabe que terá que pagar de alguma forma por ela: um carro o atropela e a ocupante do veículo, uma velha senhora de Ipanema, pretende transformá-lo em brinquedinho controlado. André foge: prefere a existência miserável à prisão luxuosa. Depois, em busca de emprego, aproxima-se de um homossexual. Sem talento para o ofício, dá no pé de novo, fugindo e sonhando.

André guarda algumas semelhanças também com outro contemporâneo, o personagem de Vianinha em "Um Homem Sem Importância", do mesmo ano. Alijados da cadeia produtiva, pormenorizados em um desespero pacífico, ambos encontram a redenção nos braços de uma mulher: Flávio, de "Um Homem...", na recepcionista divorciada Selma, vivida por Glauce Rocha; e André, na imatura, porém estruturante, Marly (Ângela Valério).

A namorada terá o poder de renomeá-lo, de fazê-lo vivo, quando os colegas de moradia já o tratavam pelo apelido de "Pé na Cova". O lumpen de dezessete anos então aprende algo inédito em seus dias: o prazer, o bem-estar, na plenitude do passeio na praia de mãos dadas e na caminhada pela Cinelândia noturna (reparem que no velho Cine Pathé, hoje uma igreja evangélica, era exibido "O Passageiro da Chuva", suspense a la hitchcock estrelado por Charles Bronson).

Nossa passagem pelos sonhos (e pela fuga) de André termina na virada do ano, quando recebe mais uma negativa de emprego e prossegue seu caminho, dessa vez pela Av. Rio Branco coberta de papel picado. Meia década mais tarde, Xavier de Oliveira retornaria com outro André (Valli), em "O Vampiro de Copacabana", e "André, a Cara e a Coragem" se perderia na poeira do país esquecido de si mesmo e de todos os seus filhos, inclusive os cinematográficos. Mas não se enganem com esta temporária amnésia: André continua fugindo e um dia reencontrará os braços quentes do público, onde vai morar, menino, para sempre.


sexta-feira, novembro 24, 2006

Barra Pesada


O prazer de assistirmos a filmes policiais, ou mais luxuosamente definindo, "sobre realidades marginalizadas e criminalizadas", vem se tornando cada vez mais difícil no Brasil de hoje.

Sem o adendo de discussões sociológicas e políticas profundas, o que fica fácil perceber é que o tema, antes curioso e mesmo "exótico" para a maioria dos espectadores, tornou-se assunto cotidiano, corriqueiro. Os grandes jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo, que até os anos 80 tinham uma ou duas esparsas páginas de crimes, hoje dedicam cadernos inteiros ao assunto -- e, principalmente, manchetes de primeira página.

Por conta dessas transformações houve inclusive uma simplificação de critério para a análise dos filmes policiais, principalmente os realizados nas décadas de 70 e 80: aqueles que pareciam "presságios" do futuro ganham cada vez melhor sobrevida do que as obras isoladas, logradas da crônica do passado. Entretanto, é injusto analisarmos o cinema -- e qualquer manifestação artística -- com o peso das idiossincrasias do nosso tempo.

Tudo isso porque "Barra Pesada" (1977), dirigido por Reginaldo Faria, não resistiria cinco minutos se defrontado com a realidade caótica de hoje. Queró (Stepan Necerssian), o pequeno marginal criado por Plínio Marcos no livro "Uma Reportagem Maldita", e transplantado sem sustos para o competente roteiro do próprio Reginaldo, merece ser chamado de amador até por uma criança. Pé de chinelo ao extremo, ladrão de galinhas, o pobre Queró não justifica na metade da primeira década do século XXI nem uma linha de obituário, que dirá um livro, um filme e adaptações para o teatro.

Mas vamos dar a ele uma chance -- aquela que a vida não deu. Filho de mãe suicida (Ítala Nandi), que ateou fogo às vestes, Queró, como ele mesmo se define, é "cria da zona". Para facilitar as coisas, Reginaldo levou a ação do roteiro de Santos para o Rio de Janeiro -- escolha que facilitou as filmagens para os produtores cariocas e que pouco prejudicou a adaptação; afinal Santos e Rio são ambas cidades portuárias, com uma área de prostituição atrelada ao entra e sai de navios.

Queró (chamado assim no filme, mas grafado "Querô" no romance original) nada faz na vida que não seja em prejuízo próprio. Deve na sinuca, é perseguido por dois informantes da polícia (Wilson Grey é um deles), rouba uma quadrilha de traficantes de drogas e encontra a redenção momentânea nos braços da jovem prostituta Ana (Kátia D' Ângelo), enquanto é traído por seu amigo (Cosme dos Santos). Se morrer, ninguém vai chorar seu corpo; se sobreviver, é por pouco tempo. A mensagem clara, talvez linear em excesso, serve de ilustração aos plots que vão se sucedendo no submundo realista e fotografado in loco nas ruas cariocas.

Naquele mesmo ano outro galã realizador de pornochanchadas, Carlo Mossy, também fazia sua estréia com brilhantismo nas searas da narrativa policial. Mas entre "Ódio" de Mossy e "Barra Pesada" de Reginaldo, as semelhanças não param na trajetória de seus diretores. Reparem a longa seqüência da sinuca que termina em briga, presente nos dois filmes, e também no cuidado em se desglamourizar o Rio de Janeiro, mostrando uma metrópole cinza, industrial, avessa de cartões-postais.

Na comparação, "Ódio" ganha -- é uma obra-prima, por várias razões -- enquanto "Barra Pesada" persiste apenas como entretenimento. O trio Stepan, Kátia D'Ângelo, Cosme dos Santos e coadjuvantes de luxo como Milton Moraes, Wilson Grey e Lutero Luiz, fariam qualquer besteira parecer importante, mas diante deles se equipara o talento criador dos irmãos Faria -- na direção, roteiro e produção -- transformando o dificílimo Plínio Marcos em imagem saborosa. Ainda que, ao som de balas perdidas e notícias de chacinas, as ruas estejam cada vez mais perigosas para um tipinho ingênuo como o jovem Queró.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Pra Quem Fica, Tchau!


Não sei a opinião dos leitores, mas acredito que a exibição de certos filmes brasileiros deveria constar na grade curricular de universidades, colégios e cursos, não apenas como ilustração para métodos educacionais, mas também por joie de vivre, aquela espécie de lição que nossos avós nos deixam, que se resume em "aproveite a vida enquanto é tempo".

O cinema comercial do final dos anos 60 e início dos 70 estava repleto desse mandamento, que no fundo refletia a chamada "revolução jovem" -- a nova ordem mundial que fazia acreditar que era proibido proibir e que todo mundo com mais de trinta anos era digno de desconfiança. Ato contínuo, ganhar dinheiro no cinema também passou a significar vender não doença, estados mórbidos ou desgraças, mas liberdade, curtição e sexo: pulsões de vida, ou Eros, como diria Freud.

O cenário, forjado na Zona Sul do Estado da Guanabara (a atual cidade do Rio de Janeiro) e os protagonistas (a juventude dourada e abastada) estavam lá, à espera de quem quisesse vê-los. Foi assim que a chamada "pornochanchada" carioca nasceu e vingou, sendo exportada para os quatro cantos do país e, posteriormente, para a América do Sul e muitos países da Europa.

Filmes com rapazes e moças hypados, festas inacreditáveis, trilhas-sonoras pra frentex e Copacabana ao fundo acabaram sendo produzidos até o esgotamento, a ponto de, ainda na metade da década de 70, a maioria dos diretores e produtores que se dedicavam ao gênero terem começado a explorar o avesso disso na pobreza, nos subúrbios e periferias, algumas vezes com resultados também interessantíssimos.

Dentre os filmes iniciais da época de ouro das comédias urbanas cariocas as dirigidas e produzidas pelos irmãos Faria -- Reginaldo, Roberto, Rogério e Riva -- criaram uma espécie de modelo, a partir de "Toda Donzela Tem um Pai que é uma Fera", de 1966, e indo até "O Flagrante" de 75, quando a abordagem já trafegava para homens casados, não mais jovens em eternas férias. De fato, Reginaldo Faria já era um respeitável balzaquiano quando dirigiu seu filme de estréia "Os Paqueras" em 69, o que talvez tenha facilitado sua visão de um desfrute urgente e pleno.

"Pra Quem Fica, Tchau!" (1970) , segunda tentativa de Reginaldo na direção, explora uma recorrência do tema. Jovem chegado do interior, Lui (Stepan Nercessian) vai morar com o primo boa-vida em Ipanema, Didi (o próprio Reginaldo), que tem amigos da "estirpe" de Flávio Migliaccio e Hugo Bidet, com quem passa a se divertir e realizar importantíssima atividade: cantar o maior número de mulheres nas ruas de Ipanema e Copacabana.

Claro, não demora Lui se apaixona por uma das paqueras, a deslumbrante Maria (Rosana Tapajós), e, no esquema de qualquer trama romântica, a coisa evolui entre tropeços e acertos, festas psicodélicas e bodes homéricos. O minúsculo apartamento de Didi é um santuário da perdição; no entra e sai de garotas de minissaia e blusas coloridas fica claro que se a vida é só uma, aqueles meninos já tinham descoberto o que fazer de bom com ela.

Stepan Nercessian, que vinha de "Marcelo Zona Sul" e aos 16 anos crescia rápido, não só em tamanho mas em competência profissional, encontra no papel de mineiro deslumbrado uma proximidade com sua realidade de garoto criado no interior de Goiás. Reginaldo Faria e Flávio Migliaccio, rapazes mais crescidos, faziam ali uma espécie de transição para a idade adulta, enquanto Hugo Bidet se limitava a ser apenas Hugo Bidet.

Este último, quase sempre visto como personagem ao invés de ator, trabalhou em mais de duas dezenas de filmes, ainda que fazendo papéis parecidos. Figura folclórica de Ipanema, malandro até dizer chega, Bidet deve ter antecipado o fim daquela era no dia 11 de abril de 1977, quando no seu apartamento ipanemense, na rua Jangadeiros, deu um tiro na cabeça, limitando aos filmes e livros o prazer que proporcionava ao mundo com sua presença.

Odes à felicidade, com data certa para acabar mas vivida plenamente, os filmes de Reginaldo Faria precisam ser apreciados por gente de todas as idades. E se exibidos em clubes, escolas, motéis ou associação de moradores, fariam pessoas mais alegres, sociedades mais saudáveis e arrancariam tantos sorrisos nos rostos quanto em 1971. Assim como feriado prolongado e pipoca com guaraná, impossível que alguém em sã consciência desgoste-os, senão por motivos alheios ao bem-estar humano.

quinta-feira, março 09, 2006

Marcelo Zona Sul


Dividido entre ser funcionário do Banco do Brasil – o que nos anos 60 e 70 era quase garantia de uma vida tranqüila e feliz – ou tentar o árduo caminho das artes, o cineasta e escritor Xavier de Oliveira disse “sim” ao mais difícil e enveredou cinema adentro.

Sem esta decisão de Xavier, talvez o cinema brasileiro tivesse se privado também de outro gênio: o ator Stepan Nercessian, que surgiu e se firmou na carreira justamente no filme de estréia de ambos, “Marcelo Zona Sul (1969), uma espécie de “Os Incompreendidos” brasileiro (melhor dizendo, carioca e copacabanense). Se Antoine Doinel consagrou Truffaut e Jean-Pierre Léaud no mundo inteiro, pode-se dizer que Marcelo ao menos fez com que Stepan não voltasse para sua Goiás natal, trabalhasse em algumas dezenas de filmes e se transformasse em um ator idolatrado por todos aqueles que respeitam e conhecem o verdadeiro cinema brasileiro.

Mas fosse o Brasil um país sério, Stepan e Françoise Fourton, seu par romântico, poderiam ter feito apenas esta jóia e descansado para sempre em berço esplêndido. Nunca houve casal infanto-juvenil tão carismático: o jovem Marcelo que exerce uma liderança natural sobre quase nada e a oportunista Renata, que o segue apenas enquanto julga conveniente.

Vistos quase quarenta anos depois, os filmes de Xavier de Oliveira são antes de tudo nostalgia pura, principalmente para quem cresceu no Rio e especificamente em Copacabana. As ruas do bairro estão didaticamente filmadas: a Galeria Menescal, o restaurante Cirandinha, as lojas de moda, a Av. Atlântica.

Na esquina da Av. Copacabana com a Rua Constante Ramos, Marcelo corre apressado matando aula. O filme é de um tempo quando o Rio era uma cidade com metade do tamanho que tem hoje, a Barra da Tijuca não existia e a privilegiada Copacabana exercia uma centralidade absoluta entre os cariocas. Em Copacabana moram desde os pais de Marcelo – “meu pai é um funcionário barnabé”, ele debocha – até a família milionária de Zé Miguel, seu melhor amigo.

À parte esta curiosidade antropológica, o enredo gira em torno da problemática do jovem protagonista, filho e aluno relapso, que vai mal na escola e gradualmente entra em pane existencial, aos dezesseis anos de idade. Com trilha sonora da banda gaúcha Liverpool (que nos anos 70 se tornaria o conjunto Bixo da Seda), as aventuras de Marcelo em busca de si mesmo lembram bastante a saga de outro personagem de Xavier, o trintão Carlos, vampiro da mesma Copacabana, seis anos depois.

Seria recurso fácil dizer que Carlos é Marcelo e vice-versa. Mas se em “O Vampiro de Copacabana” o personagem chega ao limite do suicídio, para Marcelo o então estreante diretor e roteirista escolheu alternativa melhor: abandonar a família e fugir para São Paulo.

“È a terra do dinheiro”, diz – e Stepan, então com quinze anos, já demonstra ser um gigante da interpretação, afirmando isso com um misto de melancolia e tédio absoluto, que traem suas ralas convicções. Tentando fugir pegando carona na estrada, expulso do colégio, abandonado por Renata e contando mentira atrás de mentira, Marcelo se entrega e volta para casa. Descrente de qualquer sonho que não seja o conformismo e a sordidez cotidiana.

“Marcelo Zona Sul” foi êxito de público e crítica no lançamento, ganhou prêmios internacionais, permitiu que Xavier de Oliveira largasse seu emprego no Banco do Brasil e -- diferente de Marcelo – abraçasse sua fuga com firme certeza. Mas o filme seguinte, “André, a cara e a coragem”, também com Stepan, não repetiu o mesmo sucesso – e o obrigou a uma carreira irregular, de apenas cinco longas, a maioria sem o fôlego inicial da juventude.

Se alguns consideram “O Vampiro de Copacabana” sua obra-prima, é coerente, pois “Marcelo Zona Sul” tornou-se quase obscuro, merecendo um dia ser admirado como um dos filmes mais bonitos, perfeitos e sensíveis que alguém já realizou sobre a transição da adolescência para a idade adulta.
E o atual senhor cinquentão, vereador pelo município do Rio, torcedor do Botafogo e presidente do Retiro dos Artistas, Stepan Nercessian, assim como nós, dificilmente deve revê-lo sem uma vontade boa de chorar.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Rainha Diaba


“Rainha Diaba”, de 1974, é um monumento. Críticas apressadas de jornalistas idem tacharam o filme – na época do seu surpreendente relançamento em dvd – como uma ode tresloucada ao “homossexualismo marginal”. As mesmas pessoas que produzem páginas e páginas sobre qualquer blockbuster norte-americano sofrem de calafrios ao escrever umas poucas linhas sobre as obras-primas rodadas na esquina de suas casas. Qualquer filme brasileiro esquecido (que não renda jabaculê) vira superficial, simplista e facilmente rotulável. Pura ignorância.

Basta dizer que antes de Almodóvar e no alvorecer do gay power norte-americano, houve Antônio Carlos Fontoura. Levemente inspirado no malandro da vida real, Madame Satã, Fontoura aliou-se ao gigantismo de Milton Gonçalves – com certeza aqui, sem nenhum exagero, em uma das dez maiores interpretações da história do cinema mundial – e deu à luz um filme sublime, inovador, que ainda hoje produz indisfarçável mal estar em quem, sentado no conforto de sua casa, o assista.

A imagem que se tem de Satã é a do “pederasta” – assim fichado pela polícia varguista de seu tempo –, underground total, com plumas, brilhos e paetês, gingado de capoeirista e apetite sexual intenso. Já a ficcional Diaba (Milton Gonçalves) guarda destas qualidades apenas algumas, pois não é o solitário réu da Lapa, cavaleiro andante de punguistas e contraventores. É dono de mais de uma dezena de bocas, controla o narcotráfico, estabelece relações maternais com o séquito de outras moçoilas, que protegem-na como os aprendizes à mestra.

Diaba é criminosa nata: aplica mão de ferro para garantir a qualidade dos serviços à população mas, por outro lado, preocupa-se em cozinhar quitutes para a marginália gay que o cerca, apavorado que estava com os traidores que tentavam acabar com sua autoridade empresarial.

Os traidores, como o ovo da serpente, estavam ali mesmo, guardados no ninho, e Diaba mal sabia. Liderados pelo amigo Zeca Catitu (Nelson Xavier), Manco (Wilson Grey), Anão (Lutero Luiz), Violeta (Yara Cortes) – sócia do prostíbulo mantido pela Rainha – Coisa Ruim (Procópio Mariano), e outros empreendedores, celebram um levante para desmobilizar o ofício e tomar o controle dos negócios.

Em outra ponta da narrativa, fluindo em paralelo, o casal Bereco (Stepan Nercessian) e Isa Gonzalez (Odete Lara): cafetão e prostituta. Ele, rapaz novo, bonito, cooptado por Catitu, junta forças ao golpe, servindo tolamente de bucha de canhão. Ela, seduzida, seviciada, suja, cantora do “Leite da Mulher Amada Night Club”, local em que seria posteriormente seqüestrada e torturada pela cáfila de amigas da Diaba.

Neste momento as narrativas se cruzam e, quadros depois, no paroxismo da descoberta de Bereco, Diaba encontra seu fim. O garoto degola-a, é em seguida morto por Catitu, Catitu e amigos são em seguida mortos por Violeta, e Violeta – única a restar do levante – é morta, nos esgares finais, por Diaba, ensangüentada, que ressurge na sala e junta mais dois corpos – o seu e o da vítima – à dúzia que se amontoava na sala. Percebam que a exuberância do filme reside em detalhes e, como transgressor do audiovisual, descrevê-lo faz diminuir sua força. Apenas quem assistiu às cenas compreenderá o porquê de ser este um dos marcos da história do cinema.

Mostrem a Quentin Tarantino a chacina referida acima; o momento em que personagens, um por um, se apresentam ao espectador; a violência contra Isa no salão de cabeleireiro; as meninas em momentos de delírio ultra-psicopático; a revolta da prostituta, molestada, torturada; os créditos em papel crepom, cartolina e hidrocor. São exemplos do som e da fúria, da inventividade nacional, do talento que contorna a falta de dinheiro e cria, cria muito, bem mais do que a vã pasteurização de algumas produções atuais deixa supor.

O argumento de Plínio Marcos – dramaturgo, ator, dionisíaco, um vulcão, falecido em 1999 – e do diretor, Antônio Carlos Fontoura, inventa focos múltiplos de ação no roteiro escrito pelo segundo, o que tende a aguçar a vontade do elenco. Digo isso pois não apenas Milton Gonçalves é verdadeiramente indescritível, mas os bandidos, Odete Lara e a trupe de amigas (formada, dentre outros, por Perfeito Fortuna, que deu um tempo nas dunas de Ipanema para incursão ao lado menos aristocrático da cidade) assustam, brutalizam e tornam o filme um momento de lucidez, certeiro ao atingir a alma kitsch e doentia dos personagens.

Vale a pena citar a fotografia de José Medeiros – concretizando a saturação pedida pelo universo retratado –; o figurino de Ângelo de Aquino; a música, atordoante, a cargo de Guilherme Magalhães Vaz; a edição de Rafael Justo Valverde; a co-produção da Lanterna Mágica, R.F. Farias, Filmes de Lírio e Ventania Filmes – esta última do saudoso Paulo Porto, neto do cacique Ventania, que dera o nome à firma.

Antônio Carlos Fontoura é um realizador bissexto. Traz no currículo o seminal “Copacabana Me Engana “ (1968) – também com Odete Lara, estréia de Carlo Mossy no cinema – e “Espelho de Carne”(1984) – clássico da “Sala Especial”, com Dênis Carvalho e Daniel Filho em momentos de suprema intimidade. Dirigiu também programas de tv, dentre eles “Plantão de Polícia” e “Ciranda, Cirandinha”.

O trabalho de Fontoura é inspirador – porque nunca previsível –, apesar da cinematografia brasileira se ressentir da quantidade de histórias que poderiam ter vindo a público e não vingaram. Incansável, mas sabendo operar além dos grandes refletores e da badalação da mídia, Fontoura é destes mestres que a arte nacional guarda próximo ao peito, e gerações recentes procuram ávidas, em busca de informações. Ao encontrá-las, saberão um pouco mais de si mesmas e, quem sabe, das delícias da criação humana.