quinta-feira, março 09, 2006

Marcelo Zona Sul


Dividido entre ser funcionário do Banco do Brasil – o que nos anos 60 e 70 era quase garantia de uma vida tranqüila e feliz – ou tentar o árduo caminho das artes, o cineasta e escritor Xavier de Oliveira disse “sim” ao mais difícil e enveredou cinema adentro.

Sem esta decisão de Xavier, talvez o cinema brasileiro tivesse se privado também de outro gênio: o ator Stepan Nercessian, que surgiu e se firmou na carreira justamente no filme de estréia de ambos, “Marcelo Zona Sul (1969), uma espécie de “Os Incompreendidos” brasileiro (melhor dizendo, carioca e copacabanense). Se Antoine Doinel consagrou Truffaut e Jean-Pierre Léaud no mundo inteiro, pode-se dizer que Marcelo ao menos fez com que Stepan não voltasse para sua Goiás natal, trabalhasse em algumas dezenas de filmes e se transformasse em um ator idolatrado por todos aqueles que respeitam e conhecem o verdadeiro cinema brasileiro.

Mas fosse o Brasil um país sério, Stepan e Françoise Fourton, seu par romântico, poderiam ter feito apenas esta jóia e descansado para sempre em berço esplêndido. Nunca houve casal infanto-juvenil tão carismático: o jovem Marcelo que exerce uma liderança natural sobre quase nada e a oportunista Renata, que o segue apenas enquanto julga conveniente.

Vistos quase quarenta anos depois, os filmes de Xavier de Oliveira são antes de tudo nostalgia pura, principalmente para quem cresceu no Rio e especificamente em Copacabana. As ruas do bairro estão didaticamente filmadas: a Galeria Menescal, o restaurante Cirandinha, as lojas de moda, a Av. Atlântica.

Na esquina da Av. Copacabana com a Rua Constante Ramos, Marcelo corre apressado matando aula. O filme é de um tempo quando o Rio era uma cidade com metade do tamanho que tem hoje, a Barra da Tijuca não existia e a privilegiada Copacabana exercia uma centralidade absoluta entre os cariocas. Em Copacabana moram desde os pais de Marcelo – “meu pai é um funcionário barnabé”, ele debocha – até a família milionária de Zé Miguel, seu melhor amigo.

À parte esta curiosidade antropológica, o enredo gira em torno da problemática do jovem protagonista, filho e aluno relapso, que vai mal na escola e gradualmente entra em pane existencial, aos dezesseis anos de idade. Com trilha sonora da banda gaúcha Liverpool (que nos anos 70 se tornaria o conjunto Bixo da Seda), as aventuras de Marcelo em busca de si mesmo lembram bastante a saga de outro personagem de Xavier, o trintão Carlos, vampiro da mesma Copacabana, seis anos depois.

Seria recurso fácil dizer que Carlos é Marcelo e vice-versa. Mas se em “O Vampiro de Copacabana” o personagem chega ao limite do suicídio, para Marcelo o então estreante diretor e roteirista escolheu alternativa melhor: abandonar a família e fugir para São Paulo.

“È a terra do dinheiro”, diz – e Stepan, então com quinze anos, já demonstra ser um gigante da interpretação, afirmando isso com um misto de melancolia e tédio absoluto, que traem suas ralas convicções. Tentando fugir pegando carona na estrada, expulso do colégio, abandonado por Renata e contando mentira atrás de mentira, Marcelo se entrega e volta para casa. Descrente de qualquer sonho que não seja o conformismo e a sordidez cotidiana.

“Marcelo Zona Sul” foi êxito de público e crítica no lançamento, ganhou prêmios internacionais, permitiu que Xavier de Oliveira largasse seu emprego no Banco do Brasil e -- diferente de Marcelo – abraçasse sua fuga com firme certeza. Mas o filme seguinte, “André, a cara e a coragem”, também com Stepan, não repetiu o mesmo sucesso – e o obrigou a uma carreira irregular, de apenas cinco longas, a maioria sem o fôlego inicial da juventude.

Se alguns consideram “O Vampiro de Copacabana” sua obra-prima, é coerente, pois “Marcelo Zona Sul” tornou-se quase obscuro, merecendo um dia ser admirado como um dos filmes mais bonitos, perfeitos e sensíveis que alguém já realizou sobre a transição da adolescência para a idade adulta.
E o atual senhor cinquentão, vereador pelo município do Rio, torcedor do Botafogo e presidente do Retiro dos Artistas, Stepan Nercessian, assim como nós, dificilmente deve revê-lo sem uma vontade boa de chorar.

25 comentários:

Michel Simões disse...

Bem lembrado, ser funcionário do Banco do Brasil era um status enorme...

Raphael Marano disse...

Esse filme é ótimo. Gosto muito também de "O Vampiro de Copacabana".

Andréa, estive lendo o post do "Estrada da Vida", e lá vc citou o filme "A Virgem". Aonde vc conseguiu assistí-lo? Já procurei em vários lugares e nunca encontrei. Adoraria ver este filme, se vc puder me ajudar, agradeceria muito!
valeu

Matheus Trunk disse...

Andréia, sinceramente não sou muito chegado em "Vampiro", embora tenha horas memoráveis e na trilha sonora o esquecido Sérgio Sampaio. Gosto muito do Xavier o JJJ, O AMIGO DO SUPER HOMEM com o nosso querido Anselmo Vasconcelos e com uma das maiores interpretações da carreira do onipresente Rodolfo Arena. Detalhe: a fotografia desse filme é do Carlão Reichenbach !

Luiz com Z disse...

Andréa, uma amiga minha me falou maravilhas desse filme. Fico feliz de saber que os dois protagonistas conseguiram ser quem são, sem nunca perdermos o rastro deles, porque se tem uma coisa fácil nesse mundo (até na meca do cinema comercial, que é Hollywood), é grandes atores sumirem.

Por falar nisso, é uma pena você não ter podido ir em outros filmes do Carlo Mossy no festival. Ver Rodolfo Arena e Henriqueta Brieba contracenando na telona é de fazer ganhar alguns anos de vida de tão bom. :) Um beijo.

Andréa Ormond disse...

Michel, só não era melhor do que ser da Petrobrás :)

Raphael, a Carol disse que vai mandar um email pra vc e falar sobre o filme, a gente tem ele aqui :)

Matheus, vou te mandar um email, comentando umas coisas sobre o Mozael :)

Luiz, Rodolfo Arena e Henriqueta Brieba são tudo :) Mandei email para vc ontem. Beijos.

Fabio Nercessian disse...

ola andrea! te felicito imensamente pelo brilhante texto sobre as obras do grande cineasta Xavier de Oliveira: tuas palavras são prova de tua particular sensibilidade, inteligencia e conhecimento cinematografico! congratulações! eu adoro esses filmes que vc menciona e te recomendaria especial atenção ao quarto longa do Xavier, "Gargalhada Final", belissimo filme onde se sente fortemente a influencia de Fellini, notadamente atraves de esplendorosa fotografia de Ruy Santos e notavel atuação de Stepan Nercessian e Fregolente. Espero fortemente ler inspiradas palavras suas acerca desse filme, assim como sobre "Andre a Cara e a Coragem" (segundo longa, depois do "Marcelo") outro classico do cinema nacional! Bravo Xavier! Bravo Andreia! abs

Andréa Ormond disse...

Fabio, muito obrigada!! O Xavier, assim como tantos outros diretores, precisa ser comentado o tempo todo, vc não imagina o prazer que é para mim rever e falar sobre filmes dos quais eu sempre me aproximei com encanto. Anotei as sugestões, preciso reassistir a todos com calma para escrever sobre eles. Assim que estiver pronto, eu posto. Um forte abraço!

Professor Gonçalo disse...

O Filme Marcelo Zona sul é demais. Tenho 25 anos e assistir ele hoje dia 24/10 de madrugada e a 1ª coisa que fiz quando sentei na frente do computador hoje no serviço foi pesquisar sobre o filme. Com ótimas atuações, dou nota 10.

doggma disse...

Professor Gonçalo, vi o filme esta madrugada também e foi assim que cheguei à este texto sensacional da Andréa. Até agora estou maravilhado. Um filmaço deste nível foi feito no Brasil e eu só fui saber agora.

E Andréa... só posso te dar os parabéns pelas palavras inspiradíssimas e pela divulgação desta obra. Este filme tinha de ser exibido nas escolas. É uma aula de Cinema.

Ps: quem trabalhava na Petrobrás só perdia pra quem trabalhava nas Casas Bahia. :D

Gui disse...

Assisti ao filme Marcelo Zona Sul ontem pela Globo 24/10 e gostei muito do filme...procurando alguma informação a respeito desse filme achei esse endereço onde se pode baixar a trilha sonora do filme
http://brnuggets.blogspot.com/2006/06/liverpool-marcelo-zona-sul-soundtrack.html

Agnaldo - Taubaté SP 24 anos

Eleonora disse...

Também assisti ao filme no dia 24/10... Nossa achei ótimo e fiquei procurando informações a respeito. Adoro comentários após uma sessão!

Anônimo disse...

Interessante como esse filme chamou a atenção das pessoas no dia 24/10. Aqui em Goiânia foi feriado, e então por não trabalhar acordei no meio da madrugada e liguei a TV. Por acaso, estavam exibindo um filme em preto e branco, com crianças/adolescentes. Achei interessante, estava até achando que era filme recente. Então fui percebendo que o Stephan estava muito novo... "Marcelo Zona Sul" realamente e um filme. O roteiro, atuação dos jovens atores, fotografia, trilha sonora... Hoje pude pesquisar na net à respeito. Filme premiado. Outra, esata crítica feita por Andréa, está de chamar a atenção para ver e rever o longa. Parabéns pelas observações, texto extremamente bem escrito. Gostei da fotografia que acompanha a crítica.
Patricia

Washington Araújo disse...

Como faço para adquirir uma cópia em DVD ou mesmo em VHS do "Marcelo Zona Sul"? Este filme marcou minha adolescência e sinto falta de revê-lo. Poderiam me ajudar? Um forte abraço, Washington
Meu blog: http://www.cidadaodomundo.org

Anônimo disse...

Washington, tenho esse filme em DVD, gravado do Canal Brasil, com excelente qualidade de áudio e vídeo. Entre em contato comigo pelo e-mail behindthemask@ig.com.br

Anônimo disse...

POXA VIDA PRA MIM ESSE FILME E PURA EMOCAO E FAZ PARTE DA MINHA VIDA!! SOU AFILHADA DO XAVIER E MEUS PAIS RESOLVERAM HOMENAGEAR COM MEU NOME SE EU FOSSE MENINO SERIA MARCELO E COMO NAO SOU MEU NOME E RENATA! RS
POR FAVOR GOSTARIA MUITO DE VER ESSE FILME COMO CONSIGO UMA COPIA PRA MIM??? GOSTARIA MUITO MESMO DE TER ESSE FILME!!!
AGUARDO
RENATA SOUZA
ESTRELLADELUZ_@HOTMAIL.COM

Binho disse...

Puxa, vi o filme ontem na TVE, agora sei que foi feito um ano depois de eu nascer. Eu estava há muito tempo querendo ver filmes que mostrassem o poético Rio antigo. Pena que são raríssimos e quase impossíveis de vê-los. Adorei, quero ver outros do gênero, por favor me indiquem: elberviana@yahoo.com.br

Luiz Zahar disse...

Enquanto escrevo estas linhas estou assistindo Marcelo Zona sul no Canal Brasil. Para mim que em 1970 tinha 13 anos, foi o resgate de um tempo que não volta mais. Assisti no cinema de mãozinha dada com uma namoradinha, imagina só, 13 anos, hehehe.
O Lula estudava no meu colégio àquela época, Infante Dom Henrique, que fica lá no Lido. Infelizmente não houve continuidade na sua carreira porque ele estava muito bem no filme.
Bem era isso. Bons tempos aqueles.
Um abraço.

Fabi disse...

Alguém tem notícias de onde anda o ator Lula?

Onírico disse...

Filme fantástico;é inevitável fazer comparações com a juventude de hoje;os jovens mais problemáticos daquela época parecem crianças inocentes comparadas com as de hoje.Belo retrato antropológico.

Anônimo disse...

Ví o filme em 27/09/10 no Canal Brasil. Uma fotografia excelente, simples, mas com uma riqueza de detalhes geográficas e cotidianas do RJ que provoca saudosismo em qualquer brasileiro. Um filme sem apelos exacerbados, diria até "inocente", mas que nos remete às dificuldades de relacionamentos entre pais e filhos adolescentes, fotografia "limpa" e uma atuação juvenil digna de tirar lágrimas e aplausos. RECOMENDO.

Reginaldo de Souza - SP

Aguinaldo Mendes disse...

Vi o filme uma vez a achei belissimo.

Anônimo disse...

Ví três vezes no canal Brasil. Excelente filme.

Barão Ricardo Lhkz disse...

É, pessoal, ninguém sabe o paradeiro do Lula? Pox, ele trabalhou muito bem também em "As 4 Chaves Mágicas", com a Dita Côrte-Real, fazendo o João, e ela a Maria. Excelente ator, pena mesmo só ter feito esses dois filmes.

Anônimo disse...

LI no antigo Orkut que o Lula morreu e quem escreveu isso foi a filha dele.

Ubirahy Souza disse...

Vi o filme aos meus doze para treze anos, em companhia de meu amigo Zé Callaça.
Na época, estudante do Colégio Pedro II, sede, convivia com muitos "Marcelo Zona Sul" e admirava a pronta e criativa resposta destes MZS. Queria, então, ser um deles.
Uma curiosidade foi a participação de um amigo de meu pai, Sr. Dilmo Elias. Eles trabalhavam na Companhia Telefônica Brasileira. O Sr. Dilmo, posteriormente, se tornaria um grande nome das artes cênicas.
Em 1971, conheci o Nercessian, que saía com a colega de uma namoradinha de adolescência, que morava na Praça Seca, em Jacarepaguá
A trilha sonora do filme também foi um marco.