segunda-feira, setembro 29, 2008

Até Que a Vida Nos Separe


Vamos iniciar uma série de filmes dos anos 90, dando preferência aos títulos que, apesar da qualidade, permaneceram obscurecidos por outros, às vezes piores, porém merecedores das bençãos da crítica por contingência ocasional. Devido à relativa proximidade das produções, um diagnóstico me parece fácil. O Brasil produziu em pequena escala (ainda produz) ótimos filmes. Só não viu quem não quis – ou, na maioria das vezes, porque não pôde.

Excluindo a idéia -- totalizante, otimista -- de "Retomada" a partir de 1995, creio que a lógica para se entender a filmografia do fim do século XX encontra-se um pouco antes, na década de 80. Com a lenta volta da democracia, vivemos o paradoxo de um retorno também gradual a valores conservadores, caretas mesmo, que o cinema dos anos 70 abominava e, de uma forma ou de outra, tinha prazer em atacar.

Nos estertores da década de 90, o serviço estava completo: toda e qualquer referência ao libertarismo do sexo e das drogas foi suplantada por aquilo que é correto chamarmos de "estética moralista". E o que seria essa "estética moralista"? Diferente da produção européia e até latino-americana, os filmes brasileiros se alinharam cada vez mais ao ideário do cinema norte-americano, baseados na filosofia de que precisavam "encontrar um público perdido".

A busca resultou em nada; ou melhor dizendo, em profunda limitação para a cinematografia de um lugar tão culturalmente rico e complexo. Filmes-chave do período, como "Central do Brasil", são matrizes de repetições intermináveis, por conta desta obsessão messiânica de que "algo precisava ser reinventado". Perdeu-se ótima chance de criar no país uma alteridade, uma diversidade; trocada pela denúncia social compulsiva e pela excessiva preocupação em negar o passado – considerado obsceno e maculado por vícios, nunca por virtudes.

Ainda assim, restam flores. Inaugurando a série, escolhi "Até Que a Vida Nos Separe" (1999), dirigido pelo artista plástico e publicitário José Zaragoza. Espanhol naturalizado paulistano, ex-aluno da Escola de Belas Artes de Barcelona, Zaragoza fez sobre o roteiro de Leopoldo Serran um apanhado dos jovens na faixa dos trinta anos, com um olhar específico – e apaixonado – à cidade de São Paulo.

Cheio de falhas adoráveis, "Até Que a Vida Nos Separe" traz a metrópole como protagonista incidental, na linha que Ugo Giorgetti consagrou. Ambos oriundos da publicidade, ambos relativistas de sua visão apaixonada, a diferença reside no fato de que o espanhol tentou, mas não logrou êxito, em ser crítico de costumes – provocando no espectador a impressão de um estilo frouxo, a ser maturado, relevando suas ótimas intenções.

A história de cinco amigos – João (Alexandre Borges), Lulu (Betty Gofman), Pedro (Norton Nascimento), Paulo (Marco Ricca) e Maria (Júlia Lemmertz) – perde-se às vezes no excesso de protagonistas, mas sobrevive pelos pequenos dramas de cada um. O melhor deles é o de Paulo, em dúvidas quanto a sua homossexualidade, que contrata um garoto de programa para se libertar. Em seguida temos Pedro, negro bem-sucedido, que também contrata -- atenção para a importância do dinheiro -- prostitutas louras para sexo ocasional.

João, Lulu e Maria vivem basicamente a procura de um grande amor – João e Maria apaixonados um pelo outro, e Lulu a vítima de uma armação dos amigos, que contratam (pela terceira vez, a obsessão pelo sexo remunerado) Tonho (Murilo Benício) para ser seu acompanhante por 24 horas.

Os cinco têm na base dos conflitos um problema familiar, que culmina em tragédia com João. Verborrágicos, discutem todo o tempo esses dramas e desdobramentos. Lembra um pouco o velho seriado "Ciranda, Cirandinha", da Tv Globo, revisto para o ambiente yuppie, narcisista e mercenário dos anos 90.

Resoluto em mostrar São Paulo, o diretor consegue tomadas lindíssimas, colocando cada um dos heróis para viver em apartamentos e lofts deslumbrantes. Guarda aí outra idiossincrasia típica do cinema paulista 80-90: aquela que enxerga a urbe como microcosmo pairando acima da realidade do país -- espécie de Nova York acidentada nos trópicos. Traz influências do neon-realismo manipuladas em algo contemporâneo, releitura possível até em filmes recentes como "O Signo da Cidade" (2007).

Qualidade bem-vinda, "Até Que a Vida Nos Separe" não caiu na tentação moralizante, retratando sem pudor o consumo de cocaína e o erotismo, principalmente entre Pedro e suas inúmeras parceiras. Alguns ajustes o fariam menos conciliador, esquemático e piegas; mas seria exigir muito que fosse diferente. Importa é que José Zaragoza fez um filme sincero, honesto e sem medo, desses cada vez mais raros. Promete fazer outros dois e completar uma trilogia nos próximos anos, o que nos deixa ansiosos por melhor cinema.


7 comentários:

Jorge Lima disse...

É inegável que o cinema brasileiro encaretou a partir anos 90, buscando moldes de "excelência técnica" baseadas no tipo de roteiro estadunidense.Um dos poucos bons filmes dos anos 90, pra mim, foi o hoje esquecido "Não Quero Falar Sobre Isso agora", de Mauro Farias. A busca por uma qualidade técnica maior já tinha começado nos anos 80 mas essa busca excluía o roteiro, que não se calcava no modelo americano mas se concentrava em aspectos como fotografia, montagem e som e gerava filmes muito bons como "Dedé Mamata", "Feliz Ano Velho", "Leila Diniz", "Filme Demência" e outros. Dos anos 90 pra cá, até Syd Field foi chamado: para ser consultor de roteiro em "Villa-Lobos - Uma Vida de Paixão" e filmes horríveis como "Amores Possíveis"( apesar de premiado até no exterior ), "Cazuza - O Tempo Não Pára", "Bendito Fruto" e outros mostram a pobreza de idéias do cinema da retomada. Quanto à "Até que A Vida nos Separe", fui um dos poucos que assistiu esse filme no cinema e dou uma nota 6, mais pelas intenções do que pelo resultado. Digna de nota, também, foi a sua menção ao roteirista Leopoldo Serran, bom roteirista falecido recentemente, uma perda para esse país carente de bons roteiristas.

Anônimo disse...

Andrea,
Que ótima idéia essa de revisitar o cinema dos anos 90. Quando vi "Até que a Vida..." o que mais gostei foi rever Darlene Glória, deusa eterna do cinema nacional.
Que maravilha o Jorge citar o "Não Quero Falar sobre isso agora". Adoro esse filme, mas nunca revi nem em VHS. Só não concordo quando ele espinafra "Bendito Fruto", para mim uma dos melhores filmes dessa época do cinema brasileiro. Fora os anos 70 e 80, maravilhosos quando o assunto é cinema popular - sobretudo os 70, as melhores radiografias do universo popular para mim e que foge da simplificação violência/favela são Romance da Empregada, de Bruno Barreto - um de meus filmes prediletos do cinema nacional (e é dos anos 80), mais Um Céu de Estrelas, os recentes O Céu de Suely e Casa de Alice, e exatamente o MARAVILHOSO Bendito Fruto.
Bjs
Adilson Marcelino

André Setaro disse...

Em meados dos anos 70, vi um filme brasileiro bastante curioso, anárquico, que gostaria de rever, pois lá se vão mais de 30 anos: "Os maníacos eróticos", comédia 'non chalance' de um diretor bom que anda desaparecido, Alberto Salvá, que fez o admirável 'Um homem sem importância', com Vianinha e Glauce Rocha, entre outros.

Luiz com Z disse...

"Cronicamente Inviável" foi finalizado em 99 apesar de lançado em 2000... será que ele consegue entrar?

Marcelo V. disse...

Andrea, os primeiros quatro parágrafos do seu texto são perfeitos. O que mais lamento é a extrema caretice do cinema atual _o recente discurso do Pedro Cardoso seria um sinal de que as coisas irão piorar ainda mais?

Quanto ao filme do Zaragoza, achei muito engraçada a utilização de um grande clichê que, espero, tenha ocorrido por ironia: a cena em que o publicitário paulistano rico, gay e deprimido toca saxofone de cueca na sacada de sua cobertura. Mais anos 80, impossível.

Ana Paul disse...

Muito bom texto, Andréa, apesar de eu não ter visto o filme.

André, o Salvá não está desaparecido não! Convivo bastante com ele. Recentemente, ele fez um filme com 30 mil reais do próprio bolso, editado num Adobe Premiere, totalmente sem recursos. Chama-se "Os Seios de Deus".

Andréa Ormond disse...

Jorge, concordo com muita coisa do que vc disse, mas vejo entre o "Filme Demência" e o "Leila Diniz", por exemplo, uma distância grande. Não só pelo background dos diretores, mas pela temática. Pois é, estamos nessa maré pós-90, que é dolorosa. É preciso pelo menos tentar se fazer coisas menos bobinhas e higienizadas...

Oi, Adilson. Tb gosto do "Bendito Fruto", seria o tipo de filme pra ser multiplicado e aproximar o público de uma forma espirituosa, cheia de graça. O argumento do "Céu de Suely" é interessante, foi bem reforçado pelo carisma da Hermila Guedes. Beijos

André, esse é um dos filmes que andam perdidos. Quando encontrar, dou uma boa olhada.

Luiz, o "Cronicamente inviável" fica pra depois, não tem esse espírito dos 90 que eu penso em retratar :)

Marcelo, o que dizer desse besteirol do Pedro Cardoso? Sinceramente, é de uma tolice tão grande a forma com que foi colocado, que chega a dar vergonha alheia. Coloquem esse moço pra assistir "Saló", é tudo o que eu digo rsrsrs

Ana, o filme rateia, mas pelo menos tem esse lado da "vontade-de-fazer-cinema". E olha o Salvá! Sabia que ele estava dando aula, já há um tempo.