quarta-feira, outubro 19, 2005

Ladrões de Cinema


Falar da Embrafilme é iniciar uma conversa polêmica, quase sempre sem grandes resultados. Como nossa proposta aqui é tratar de cinema, vou deixar as questões políticas de lado e me concentrar na história. Criada durante o regime militar, a Embra participou dos melhores anos do cinema brasileiro, com uma produção diversa, rica e bem realizada. Cometeu erros brutais em meio a acertos grandiosos.

Por ser uma empresa nem particular nem pública, criada em gabinete e – como tudo no Brasil – sujeita a discordâncias e desconfianças mil, a Embrafilme agonizou e morreu. O que resta dela são os filmes sob sua sombra. Estamos falando disso para chegar em “Ladrões de Cinema”, produção de 1977 tipicamente saída do ideário de vertigem daqueles anos.

A Lente Filmes, produtora que se associou à Embra para a realização do filme, era um daqueles projetos cariocas de Zona Sul, fadados a darem errado. Deixou “Ladrões de Cinema” para a posteridade e cerrou suas portas. No entanto a originalidade do filme salvou a reputação de todos. Misto de cinema-realidade, documentário fajuto e experimento metalingüístico, “Ladrões de Cinema” é um interessante e obscuro achado.

A história gira em torno de um grupo de favelados que assalta uma equipe de filmagem durante o carnaval e, com o equipamento roubado, resolve fazer um filme na favela. Nada é falso e vemos de fato o carnaval, o morro do Pavão-Pavãozinho, as biroscas e vielas da comunidade.

Caracterizado de favelados-chics em meio aos favelados reais, um dos elencos mais espetaculares que o cinema brasileiro já conseguiu reunir (e desperdiçar): Wilson Grey, Milton Gonçalves, Grande Otelo, Lutero Luiz e Antônio Pitanga. Quando deixados soltos, produzem diálogos que explicam o porquê do fascínio brasileiro (carioca principalmente) aos malandros e vagabundos. Wilson Grey não era simplesmente um ator, foi a besta-santa, a hosana da linguagem do povo.

Em uma primeira olhada, “Ladrões de Cinema” é extremamente aborrecido, difícil de assistir, principalmente durante a longa encenação do filme dentro do filme (o filme que os favelados dirigem é mostrado em detalhes). A direção de Fernando Coni Campos também é pesada, com o diretor em óbvias tentativas de mostrar virtuosismo. Sabe-se que durante as filmagens, em meados de 76, seus desentendimentos com os produtores chegou a níveis histéricos e quase o filme não foi terminado. Mas o que importa não é a intervenção destes homens esclarecidos da classe-média, e sim, a diversão produzida pela paupérrima espontaneidade.

Espontaneidade que tem na metalingüística seu ponto forte. Defrontados com a perspectiva de utilização do equipamento adquirido, os diretores e produtores favelados parecem ouvir a cartilha ufanista de certos setores da Embrafilme e filmam uma releitura do Movimento Inconfidente. Assim o tempo todo suas filmagens dialogam com o desenrolar da trama, pois Lutero Luiz, que faz o papel do traidor Joaquim Silvério dos Reis, é quem denuncia o roubo para a polícia e acaba com a diversão.

Temos vontade de repetir o argumento proposto e entregar os equipamentos na mão do quinteto de “favelados”. São eles que não deixam a história naufragar nem se perder nas piadas típicas do humor então em voga, do Pasquim e da noção “cariocacentrista” míope de que o Rio explicava o Brasil, e não o contrário.

Dentro do contexto de meados dos anos 70, “Ladrões de Cinema” é um filme difícil de rotular ou definir. Melhor talvez seja encará-lo como resultado de conflito: produção séria, financiada com dinheiro público, mas que invariavelmente assume um tom trash involuntário no acabamento, superando em certos momentos obras-primas deste gênero, como “Fofão e a Nave Sem Rumo” ou mesmo “Bacalhau”. Assistí-lo em 2005 é bom sonífero, mas por trás de sua narrativa confusa e pretensiosa urge a voz das ruas que, como sempre, nos brinda com um pouco da sua febre e barbárie.

5 comentários:

walner disse...

Salvo engano meu, a Embrafilme era uma empresa de economia mista - portanto uma paraestatal -, sujeita a todo tipo de controle por órgãos externos e mecanismos internos do executivo federal.
Assisti 'ladrões de cinema' na TV Cultura, em priscas eras. A idéia dos favelados roubando equipamentos e perpetrando seu próprio filme é muito boa, a despeito do ranço ideológico.

Andréa Ormond disse...

Walner, vc está absolutamente certo, como eu disse lá em cima a Embra não era nem particular nem publica -- ou seja, era uma paraestatal. Um desses monstrengos que só os estados com aspirações totalitárias conseguem produzir. Apesar disso, quanto filme bom a Embra ajudou a trazer a luz, não acha? :) No caso de "Ladrões de Cinema" o amadorismo peca muito, a primeira meia hora de filme é soberba, e o resto dá vontade de sair correndo, por isso talvez seja completamente desconhecido. Respiro aliviada por vc dizer que já o assistiu, impossível resenhar um filme q ninguém conhece ;) Um grande abraço.

João Paulo disse...

caramba, andréa,acho o filme uma obra-prima. "marginal não filma",no programa de auditório, é inesquecível! e ainda há "heróis da liberdade", pra mim o mais belo samba-enredo já feito, na trilha sonora.
parabéns pelo magnífico blog!
saudações

Marcos Valério Menezes Maia disse...

Discordo frontalmente de você. Destarte humores e percepções diferentes, e que quanto ao filme são muitas, achei um dos filmes brasileiros mais brilhantes que já vi. Percebi uma sutil ironia quanto a símbolos oficiais, que se revela nas cenas em que a Inconfidência é encenada com pompa e certo lirismo em meio as ruelas e escadarias carregadas de crianças, em uma favela real; os atores foram muito bem aproveitados, sim, em uma feliz reunião que poucas vezes se vê na historia do cinema nacional; enfim, o vislumbrei como um original desfile de escola de samba, com toda a "espontaneidade", improviso, pompa, humor, lirismo e poesia que estas agremiações tiveram em sua história. Mas uma das coisas mais iteressantes deste filme parece que são as opiniões díspares que desperta entre aqueles que amam e gostam do cinema brasileiro. Um filme que, realmente, provoca ESTRANHOS ENCONTROS. Um abraço!

cauba disse...

Sabe por acaso onde conseguir cópia deste filme?