segunda-feira, outubro 17, 2005

Lúcia McCartney



Adaptar um texto escrito e torná-lo uma realidade em termos cinematográficos é tarefa das mais ingratas. Lidamos com o problema da recepção de um fenômeno inicial (o literário) por outro, e eles nem sempre falam a mesma língua ou possuem parentesco direto. Nada mais frustrante do que vermos um diretor medíocre trabalhar um texto em movimento. O filme acaba se tornando uma espécie de objeto não-identificado, sem pai nem mãe. Nem é cinema, nem é literatura; é um terceiro gênero infeliz.


David Neves dirige “Lúcia McCartney, uma garota de programa” (1971), roteirizado por Rubem Fonseca, autor dos dois contos que servem de base à trama. O filme é paradigmático, porque nele encontramos a mistura perfeita entre a lírica cinematográfica e o universo literário.

Algumas soluções encontradas pelo diretor explicam bem este imbróglio. Reparem na seta branca que aparece por alguns segundos na tela, logo após um monólogo da protagonista. Ela indica justamente a ponte entre o final de um conto e o início de outro. Outro aspecto interessante se refere às mudanças de cores bruscas, que ocorrem como se não houvesse motivo aparente – passam ao preto-e-branco ou ficam muito saturadas, e acompanhadas ou não de legendas. Na realidade, elas se referem às múltiplas falas possíveis dos personagens, recurso utilizado freqüentemente por Fonseca no conto original.

Por outro lado, “Lúcia...”, o filme, pode ter um bom ponto de partida na inscrição que surge na tela, quase ao encerramento: “Os homens, os mais jovens em menor medida, e os adultos plenamente, vão ao bordel em busca de ficção”. Parece que no final das contas, há um descompasso entre os desejos lúbricos dos freqüentadores de bordel e a sua concretização, que pode às vezes beirar a fragilidade ou a simples necessidade do outro. Se possível, um outro angelical, dependente, mas vibrátil como Lúcia (Adriana Prieto)

Lúcia McCartney, a mais conhecida fã de Beatles da história da literatura brasileira, é uma garota de programa, órfã, divide o apartamento com uma amiga – que tomou estrategicamente por irmã. Vai à praia, à boate, conversa com os “amigos”. Apaixona-se por um cliente misterioso, José Roberto – “paulista, não gosto de paulistas” –, atribuindo-lhe um afeto que muito provavelmente ele não tem ou apenas dissimula para cumprir o modus operandi da vida adúltera, fora de casa. José Roberto não retribui, não oferece paixão, não é o Sir Galahad do Santo Cálice. Acabou. Vemos a seta.

Em outro ponto da cidade, no topo de um prédio voltado para a mítica área da Cinelândia, no Rio de Janeiro, um advogado (Luís Vilaça) ouve a missão conferida pelo cliente (Nelson Dantas): encontrar Elizabete, mocinha que trabalha na casa de tolerância de Madame Gisele (Odete Lara), antes que se corrompa no antro. Sim, é o velho caso do coroa mais velho, encantado pela inocência da jovem – lembrem-se: “buscam ficção”.

Apesar de não ser revelado em momento algum pelo filme, o advogado é Mandrake, que narra em primeira pessoa “O Caso de F.A”, conto de Fonseca, cuja história é transposta linearmente a partir desta segunda etapa. Mandrake, bacharel em direito, de aspecto bonachão, meio policialesco, manda tiradas do bas fond carioca: “advogado não trabalha com a cabeça, trabalha com os pés”, diz depois de bater um papo com o informante (Wilson Grey) e correr para o escritório.

A partir das boas notícias, Mandrake contacta um amigo (Roberto Bonfim), de excelsa figura, capoeirista que ajuda-o a solucionar o caso, bem longe fora do Judiciário, obviamente. Combinam de invadirem o prostíbulo, brigam com os leões de chácara do lugar, capturam Elizabete – ou Míriam, ou Laura, ou Lúcia – e depositam-na em um apartamento. Toda a encenação do rapto se dá em câmera lenta, fragmentada, quase semelhante as HQs.

Elizabete – ou Míriam, ou Laura – é Lúcia, que vinha usando nomes falsos para esconder-se – novamente a idéia de ficção... A história inicial portanto, permaneceu fincada em toda a trama. Os demais personagens, o entorno, serviram de veículo à premissa inicial.

Após “Lúcia...”, David Neves aprofundou-se na contemplação antropológica do Rio de Janeiro – campo de estudo que viria a ser emblemático para compreeensão de sua obra. Morreu pobre, deprimido, portador do vírus da aids e abandonado por grande parte dos que considerava seus "amigos-irmãos". Quanto a Fonseca, apenas começava em 1970. Os melhores livros ainda não haviam sido escritos e, breve, um conto antológico, “Feliz Ano Novo”, seria caçado em praça pública, sob a chancela de “anti-arte”.

Adriana Prieto faleceria na véspera do Natal de 1974, aos 24 anos de idade, vítima de um acidente automobilístico. A notícia da morte prematura caiu feito bomba, privou-a da maturidade artística ao lado de David, que já a havia eleito musa em dois filmes consecutivos – neste e no anterior, “Memórias de Helena”, estréia na direção. Foi uma das poucas atrizes a dedicar-se majoritariamente ao cinema; status que o cinema brasileiro precisa reaprender a criar.

6 comentários:

Raphael Marano disse...

Oi Andréa!!
Não vi este filme, mas parece ser muito bom.
A Adriana Prieto sempre fez excelentes papéis no cinema, pena que faleceu tão cedo, em 75, no auge!!

fernando disse...

Nossa Andréa, e eu não vi quase nada disso tudo que você especificou no filme! E eu o vi há muito anos, antes da locadora próxima à minha casa sumir com o filme, agora é tão difícil encontrar.... seus textos me inspiram a ir atrás dessas pérolas do cinema brasileiro, mas ninguém dá importância a esse período por você resenhado aqui no seu blogue. RIO BABILÔNIA é o filme mais, digamos, liberal de Neville D'almeida, mas nem por isso o classifico de pornográfico. A cena da piscina é clássica, mas encaro esse filme como uma amostra do que o país estava se transformando no período em que o governo militar ainda reinava, um caos político e urbano. Adorei seus textos, adorei. Abraço.

fernando disse...

Nossa Andréa, e eu não vi quase nada disso tudo que você especificou no filme! E eu o vi há muito anos, antes da locadora próxima à minha casa sumir com o filme, agora é tão difícil encontrar.... seus textos me inspiram a ir atrás dessas pérolas do cinema brasileiro, mas ninguém dá importância a esse período por você resenhado aqui no seu blogue. RIO BABILÔNIA é o filme mais, digamos, liberal de Neville D'almeida, mas nem por isso o classifico de pornográfico. A cena da piscina é clássica, mas encaro esse filme como uma amostra do que o país estava se transformando no período em que o governo militar ainda reinava, um caos político e urbano. Adorei seus textos, adorei. Abraço.

Daniel Marano disse...

Oi..

Vi que vc pegou a minha foto né? Tem problema não.. Só passei pra elogiar.. gostei bastante do post!

Andréa Ormond disse...

oi raphael,
o filme é excepcional, trabalha muito bem com essas questões de metalinguagem, de adaptação de textos literários. e apesar de ter morrido tão nova, a adriana prieto realmente tornou-se uma atriz importantíssima para compreensão do cinema nacional :) um abraço.

oi fernando,
essas locadoras são míticas, havia uma perto de casa que era um verdadeiro oásis para nós, cinéfilos de carteirinha. se vc quiser, indico pra vc uma aqui no rio, com muitos títulos raros. vale a pena correr atrás desses filmes sim :) e "rio babilônia" marcou gerações mesmo, retratando muito bem aquele início dos anos 80. um forte abraço.

oi daniel,
na verdade peguei a foto com a carla, irmã da carol, que manteve por um tempo um flog sobre a adriana prieto. vc deve ter visitado, estava sempre nos links da carol :) um abraço.

Fernando Marchini Dias da disse...

Só uma correção: o advogado é feito pelo PAULO Villaça, não Luis Villaça. Abcs