terça-feira, novembro 15, 2011

As Aventuras de Sérgio Mallandro


Analisar o cinema brasileiro infantil dos anos 80 pode nos desvirtuar em um atalho sinistro, onde os pacatos enredos supostamente realizados para as matinês ganham bastidores de conspirações mafiosas, pornografia braba ou mesmo lendas urbanas divertidas e alucinadas.

Se o pobre personagem do Fofão até hoje desculpa-se e choraminga nos programas vespertinos, desmentindo um pacto com o demônio e a navalha que carregava no pescoço, o mesmo vale para Sérgio Mallandro. Sua alegria esfuziante, diziam pais e avôs cruéis, não era fruto natural da personalidade, mas resultado de poderosos aditivos químicos.

Para piorar, Mallandro também era lembrado como repórter do maldito programa “O Povo na Tv”. Momento espetacular da tv brasileira, “O Povo na Tv” agradou em cheio a uma classe média carioca que, naqueles idos, decidira virar brizolista, abraçava o curandeirismo cafajeste de Roberto Lemgruber e sonhava o Wagner Montes como um partidão para suas filhas.

Claro, aquilo tinha tudo para dar errado. A verdade é que parecia super certo. Embora a qualidade de vida no Rio de Janeiro degradasse a olhos vistos, sempre nos sentíamos vítimas da eterna inveja paulista. E éramos felizes consumindo cinema nacional nas salas gigantescas e mal cuidadas de Copacabana e Botafogo.

Jogo do bicho, sol a pino e falsa cordialidade rolavam soltos, no riso maroto de uma população iludida por cachorros quentes da Geneal, mulatas do Sargentelli e limonadas geladas com gosto de areia.

Neste caldeirão estiloso, brotavam pérolas como “As Aventuras de Sérgio Mallandro” (1985), típico e rasgado produto do Beco da Fome. Fechando os olhos, sentindo as palpitações do tempo, talvez o leitor consiga mergulhar comigo no momento exato em que aquele way of life de fazer cinema falava mais alto.

Imagine-se na Cinelândia. Sérgio Mallandro chega de bermudas, senta no Amarelinho e pede um guaraná. A temperatura está agradável, mas a Rádio Relógio Federal anunciou para o dia seguinte elevação acima dos 35 graus. Olhando em volta, o jovem Mallandro percebe a fauna que o cerca: vereadores entrando e saindo do Palácio Pedro Ernesto, populares sentados em frente ao Municipal, um vendedor de carteiras falsas da polícia civil assediado por um travesti furreca.

Perguntado se deseja uma porção de frango à passarinho ou um filé à Oswaldo Aranha, Mallandro recusa. Carlos Imperial cruza a Praça Floriano, com uma agilidade impressionante. Fabricam-se pequenas multidões chegando para o almoço. A cidade é profunda, deságua gente da Avenida Rio Branco, Araújo Porto Alegre, Evaristo da Veiga.

Quando Mallandro ia começar a tomar o seu guaraná, eis que surge a turma que esperava. O diretor e produtor Erasto Filho informa que estão com tudo em cima para a produção, inclusive uma casa “pros lados da Barra”.

Mallandro, àquela altura dos acontecimentos, já era ídolo nacional da criançada – inclusive meu. Jurado do “Show de Calouros”, apresentador infantil, ator em “Menino do Rio” e “Garota Dourada” – para a nossa geração, era “o cara”. Os pais e avós que o maldiziam, colocávamos na mesma conta dos paulistas sem Ipanema e Arpoador. Merecia, assim, um filme como protagonista.

No andar de baixo da mansão na Barra da Tijuca, produzia-se o filme. No de cima, Mallandro tinha uma espécie de camarim particular, atendido por um assessor conhecido pela alcunha de “Kibe”. Sempre alerta, Kibe esmerava-se em trazer tudo o que Mallandro pedisse – nesse ponto, a imaginação é o limite. As coisas teriam transcorrido com certa tranquilidade se os donos da casa não tivessem chegado de repente. Descobriu-se, então, que as locações haviam sido alugadas do caseiro, sem autorização dos patrões. Nada que uma boa malandragem e uma grana extra não resolvessem.

O resultado vemos nas telas. Aquele misto de Spectroman e presepada que fez alguns críticos mal humorados colarem na fita o rótulo de “pior de todos os tempos”.

Roteiro, quem precisava de roteiro? O objetivo era encontrar um “bichinho”, lutando contra alguns vilões fantásticos – entre eles, Pedro de Lara. O bichinho – um macaco – pertence a uma sirigaita chamada Tininha, que guarda até uma foto Polaroid da criatura. Na trajetória da busca, Mallandro faz suas gags.

Sob um céu azul torturante, desfilam Alexandre Frota, Mara Maravilha – com a alcunha de “Mara Porreta” – o onírico Paulo Cintura, rádios Orelhinha, um carro com propaganda dos tênis Kimkol e o grupo Absyntho. Mallandro, junto ao seu fiel escudeiro, Zé Cocada (Cosme dos Santos), arranjam confusão na montanha russa do velho Tivoli Park e na Sorveteria Chaika.

Muitas cenas não foram filmadas – provavelmente por conta dos problemas com o aluguel da casa – e ganham uma explicação em quadrinhos. É isso. Apenas isso.

Tudo bem que Erasto Filho ganhou rios de dinheiro, aposentou-se e nunca mais dirigiu nada. Tudo bem que Mallandro parece estar o tempo todo improvisando. Tudo bem que todos aqueles improvisos histéricos parecem movidos a... melhor deixar pra lá. O fato é que a criançada adorou. Eu mesma, aos onze anos, vi o filme duas vezes em vhs. Só não vi uma terceira porque meu pai era um dos desconfiados da sanidade química e moral do Mallandro.

11 comentários:

José Rodolfo Chufan disse...

Dei muitas risadas com as descrições na primeira parte do texto, e no final fiquei até com vontade de ver o filme!

EMendes disse...

Seus textos são verdadeiras crônicas, dignas de serem reunidas em um livro. Já pensou nisto?

Andrea Ormond disse...

Rodolfo, o grande perigo é ficar dependente do filme, ele chega a ser tóxico rs

EMendes, já pensei nisso. O projeto está em andamento.

Ricardo ( Highlander ) disse...

Brilhante devaneio sobre o Rio: ``Pior de Todos os Tempos´´??!! Obra Digna de um Ed Wood Jr , então. Parabéns & Forte Abraço !

Pdr Rms disse...

Esse texto é quase um tratado de sociologia dos anos 80. Foi o melhor texto que eu li no blog.

Agora preciso ver esse filme, como faz?

Andrea Ormond disse...

Ricardo, o problema é que o Ed Wood nunca pegou um calor de meio-dia na Cinelândia, comendo um croquete de carne para espairecer. Abraços e obrigada.

Pdr Rms, obrigada. O filme está no Youtube.

Luiz com Z disse...

Andrea, nunca me emocionei tanto com uma resenha sua. Bendita seja por eternizar nossa infância com faixas-bônus de bastidores. :)

Ricardo ( Highlander ) disse...

Andrea: em compensação o velho Ed deve ter sofrido um Bullyng brabo nas Ruas da Hollywood conservadora daqueles tempos ( década de 1950 ) de Macarthismo & caça ás Bruxas,por conta de ser Crossdresser e por suas Produções de Baixíssimo orçamento , não é mesmo? Um Abraço.

Daniel disse...

Esse filme é uma obra-prima. Deve ter sido feito em um dia, no máximo um dia e meio, sem roteiro mesmo. Quando vi, depois de crescido, ria histericamente sem parar. Foi divertidíssimo.

Andrea, outra catarse do cinema infantil brasileiro é o filme do Topo Giggio no castelo do Drácula. Não sei se já o resenhaste, mas vale o esforço. Do nível tóxico do filme do Mallandro.

Saudações

liciane.mamede disse...

Adorei o texto. Não me lembrava de vários detalhes deste filme. Acho que o vi mais de 10 vezes na infância. É engraçado pensar no quanto as crianças de hoje são "poupadas" em relação às crianças de 20 anos atrás.

Anônimo disse...

Este filme tinha no elenco Sérgio Mallandro e Pedro de Lara.Não precisava mais nada.