quarta-feira, maio 20, 2009

Meu Pé de Laranja Lima


Não é minha intenção, nem de longe, querer estragar a infância de ninguém, mas "Meu Pé de Laranja Lima" (1970), tanto o livro de José Mauro de Vasconcelos, quanto as adaptações para cinema e teledramaturgia, sempre me pareceu um conto fantástico sobre esquizofrenia infantil.

Inadaptado, crítico ao extremo, ouvindo conselhos de uma árvore, é fácil encontrarmos a vinheta do menino Zezé em algum compêndio de psiquiatria. Principalmente aqueles antigos, dos anos 1950, quando o didatismo extremo se misturava à falta de atenuantes.

O filme de Aurélio Teixeira, realizado imediatamente após o lançamento do livro, de 68, revelou-se ainda mais onírico, abraçando sem medo uma atmosfera de infância profunda. Mecanismo semelhante, de trabalhar as sombras dos primeiros anos, pôde ser visto no recente e excepcional "Eu Me Lembro" (2006), de Edgar Navarro. Ou até no supervalorizado "O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias", de Cao Hamburguer. Entretanto o que assusta em "Meu Pé de Laranja Lima" é a retórica espúria, psicologizante: um menino em Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro, que não via santos nem admirava pirilampos. Patético, conversava com uma árvore.

O escritor, crítico e jornalista Assis Brasil, elucidando a obra de outra grande escritora brasileira esquecida, Maura Lopes Cançado -- autora de "Hospício é Deus" -- afirmou, certa vez, que a matéria-prima do escritor brasileiro são "draminhas domésticos e ligeiras crises passionais", opondo Maura -- e seu drama real -- a esta futilidade. Tal condicionamento pode ser percebido também na autobiografia de Vasconcelos; um drama mínimo, elevado a amplo retrato da sociedade e do meio.

Bangu -- região fabril carioca, dos lugares mais quentes do planeta -- foi substituída nas filmagens pela aprazível cidade de Vassouras, nas lonjuras da serra fluminense. Zezé (Júlio César Cruz), o menino, é filho daquele país educado e civilizado de outrora. Pobre ao extremo, duela entre o respeito e a traquinagem com os adultos.

É um menino "bom", o juízo de Aurélio Teixeira deixa claro. E o adjetivo "bom" aqui não carregava qualquer relativização moral ou idiossincrasia social. Ser bom nada mais era -- à velha maneira cristã e latina -- reservar um olhar piedoso e tolerante ao próximo.

"Bom", Zezé cuida do irmãozinho mais novo, trabalha para comprar cigarros para o pai desempregado e, em acessos de culpa, julga-se ainda um menino "mau", naquele microcosmo sufocante. Nietzsche chamaria Zezé de besta quadrada, mas a história insiste em mostrá-lo com a sensação de responsabilidade nos mínimos erros, nos mínimos escorregões infantis.

Culpado daquilo que não podia controlar, mártir da covardia alheia, eis que surge o pé de laranja lima para tranquilizá-lo. Junto com ele, o amigo Portuga (o próprio Aurélio Teixeira), e a professora (Maria Gladys), que se emociona por Zezé abrir mão de um doce para outra aluna, ainda mais pobre que ele. Diálogos escritos por Aurélio e pelo jovem Braz Chediak, canções de Francisco Alves -- o eterno Chico Viola -- trilha-sonora de Edino Krieger e lágrimas em profusão, terminam por transformar o rocambole em um intenso melodrama.

A quadrilogia autobiográfica de José Mauro de Vasconcelos é bem mais sóbria: "Vamos Aquecer o Sol", de 1974, sobre a mudança para Natal, Rio Grande do Norte; "O Doidão", de 1963, sobre sua adolescência; e "Confissões do Frei Abóbora" -- este adaptado ao cinema por Chediak -- 1966, sobre a vida adulta. Curioso que, além de escritor, José Mauro foi também modelo, esculpido por Bruno Giorgi no Palácio Gustavo Capanema, antiga sede do Mec, no Rio.

Poderíamos dizer que as agruras de Zezé obtêm tanto sucesso pelo atavismo com o espírito nacional, acima de qualquer crítica ou racionalização. Mas a verdade é que a obra foi traduzida para dezenas de idiomas -- até em quadrinhos na Coréia -- e mantem fôlego intacto, quem sabe esperando nova releitura cinematográfica, além das três -- duas na Tv Bandeirantes, uma na Tupi -- que recebeu em formato de telenovela.

Na sua psicose tão brasileira, amigo de árvore, nas picuinhas paroquiais de família, na saudade de uma inocência que morre na última cena, José Mauro de Vasconcelos fez-se personagem universal. Aurélio Teixeira, apesar de sempre filmar com habilidade e elegância, não extrai de todo as capacidades do livro. Imita certo ar de Emilio Fernández, de fatalismo mexicano, sem conseguir o resultado esperado. Faria melhor, no ano seguinte, com "Soninha Toda Pura".

11 comentários:

Márcio/MG disse...

Andréa, uma das coisas que me chamou atenção nesta postagem sobre o "Meu Pé de Laranja Lima" foi a referência que você fez a Maura Lopes Cançado. Foram poucas as vezes em que li comentários sobre esta, que você pontua bem, "grande escritora brasileira esquecida". "Hospício é Deus" é obra prima! Quanto ao filme eu não tive a oportunidade de assistí-lo. Confesso que o livro esteve presente na minha infância nos anos 70 e eu adorava! (rss).Outra boa lembrança foi a do filme "Eu me Lembro" - realmente excepcional! O do Cao Hamburger também possui grandes méritos! Parabáens!

Adilson Marcelino disse...

Querida Andrea,
Assisti a versão das novelas da Tupi e da Bandeirantes e adorei as duas.
Cheguei ao cúmulo de, em pleno carnaval da Bahia, meus amigos terem que me esperar assistir a novela para saírmos para a rua (rsrs).
Daí que fui com sede ao filme, ainda mais por ser de Aurélio Teixeira, GRANDE ator e diretor. Só que achei fraquinho fraquinho.
Bj

Sergio Andrade disse...

Eu adoro o livro! Chorei muito com a morte do Portuga rsss

Andrea Ormond disse...

Márcio, o "Hospício É Deus" foi um das minhas maiores procuras por anos a fio. Um "maldito" completo, praticamente impossível de ser encontrado. Quando li, fiquei bastante impactada. Acho que vc iria gostar do "Meu pé...", mais por essa ponte com a nostalgia, que é bem forte. Abraços!

Adilson querido, até o carnaval esperou? Meus Deus, que maldade com os amigos! rsrs Então, o filme decepciona, o lado da nostalgia é que acaba batendo mais forte. Bjs

Sergio, o "Meu pé" rende na choradeira mesmo, a gente sabe. Pode ficar tranquilo, sem culpas rsrs

Bombeiro Carlos Fonseca disse...

Julio Cesar Cruz, o ""JULINHO"", foi nosso amigo de infância na Rua Joaquim Monteiro em Bras de Pina, subúrbio da Leopoldina no ano de 1970.
Jogávamos bola de gude, soltávamos pipas e ele gostava da minha irmã Claudia que hoje está no ACRE. O irmão DO julinho, era o LUIS E o apelido dele era "BOLINHO".
Quem souber por onde anda o Julinho, por favor faça contato. Aquele abraço.
ORKUT: BOMBEIRO CARLOS FONSECA - CANOA QUEBRADA - CEARÁ
MSN: mergulhofonseca@hotmail.com

18 de fevereiro de 2011 18:31
Pelo menos o ator mirim era real e era gente fina, tinha a mesma idade que eu, 8 anos em 1970.
Estamos vivos é o que interessa.

CAROL disse...

nossa, ha qto tempo q procuro qualquer post sobre o filme, os atores dakela epoca...na verdade, o meu interesse eh apenas saber noticias do julio cesar cruz....procuro por isso ha muito tempo ate pq o filme foi um dos melhores q ja assisti, mexeu mto com meu psicologico rs. Mas, enfim, kem tiver noticias dos protagonistas por favor mandem pro meu e-mail nostrolord@hotmail.com

sérgio reinaldo rosman disse...

Li vários livros de José Mauro de Vasconcellos, e é difícil dizer qual foi o que mais gostei.
Vários livros desse autor foram filmados e traduzidos para vários idiomas. Mas o livro "O Meu Pé de Laranja Lima" é simplesmente magnífico. Foi o maior sucesso de José Mauro, sem dúvida! Talvez seja o único livro escrito no Brasil que faz rir e chorar ao mesmo tempo!

Anônimo disse...

Não acho que isso seja esquizofrenia infantil.Pessoas conversam com os ícones delas e não são tachadas de loucas.

Anônimo disse...

Você não teve infância, ou pior, não se recorda dela. Lamento.

Anônimo disse...

Você não teve infância e não deve ter filhos. Então, quando as crianças conversam com seus brinquedos são esquizofrenicas? O livro além de autobiografico, retrata a situação social de pobreza extrema de uma familia numerosa. Infelizmente, a situação não é muito diferente dos tempos de hoje, onde crianças não tem o direito de sonhar pequenos sonhos ou até pior: perder a vida por falta de saúde, fome e violência.

Andrea Ormond disse...

Eu não tive infância e os Anônimos não tem senso de humor.