quarta-feira, abril 19, 2006

As Deusas


A diluição do tempo, a ventania, anima, ingratidão, competição feminina. Um pacote contendo esses temas foi apresentado ao público pela Servicine – de Antônio Pólo Galante e Alfredo Palácios – em “As Deusas” (1972), décimo-primeiro filme dirigido e roteirizado por Walter Hugo Khouri.

A montagem dos segundos iniciais entrega o ouro e dá uma cara para o contexto acima. Por sinal, nos cinco primeiros minutos encontramos também a cerimônia de apresentação da casa – marcante em “O Anjo da Noite” (1974) –, o quarto personagem do elenco formado ainda por Lilian Lemmertz (Ângela), Mario Benvenutti (Paulo) e Kate Hansen (Ana).

Para lá seguem Paulo e Ângela – paciente psiquiátrica de Ana, que lhe recomenda uma temporada na mansão de sua propriedade. Lemmertz, em outro desbunde de interpretação, lê a carta assinada pela doutora em um tom filial acertadíssimo, como se realmente fosse a menina pequena à procura de proteção, acatando uma ordem irrecusável.

Desde o momento em que o carro de Ângela e Paulo chega no jardim – estacionando sob os galhos de uma árvore imensa, que parece engoli-los – o expressionismo de Khouri, como ele próprio gostava de apontar, salta aos olhos. Naquele instante o jardim, a floresta, a ventania, o mundo sensorial contam uma parte substancial da história.

Sem locutor – em voice-off ou over –, Khouri conseguiu falar milhões, partindo apenas da escolha dos quadros e da movimentação da câmera. Alerta o espectador para o fato de que a floresta, as árvores – tateadas por Ângela – e o ambiente vegetal são tão onipotentes perante os humanos que cabe a eles sentirem-se subjugados, dentro e fora da casa, ao que existe de mais animalesco em cada um.

A explicação para o triângulo doentio formado entre os atores está no conceito de anima – pronunciado em voz alta por Ana e Paulo diversas vezes e escrito numa das paredes da casa que pertenceu à avó de Ana, metade flapper, metade psicanalista, idealizada tremendamente pela neta.

Anima – em outras palavras, o arquétipo feminino, segundo a definição de Carl Gustav Jung – une Paulo a Ângela (“Foi isso o que me fascinou nela. Essa loucura, essa voragem”) e Ângela a Ana (“É uma pena que um rosto como esse tenha que envelhecer, acabar. [...] Eu sempre fico imaginando como devem ser os ossos de uma pessoa, debaixo da carne”, fala enquanto acaricia a pele da outra).

O clima de sexo vai aumentando no trisal (casal de três). Ângela submerge alguns instantes na banheira, como uma Ofélia chantagista, mostrando-se para Ana. Nadam juntas em uma represa (“Você parece uma deusa”, os lábios semi-submersos de Lemmertz, o olhar satisfeito de Hansen) e momentos depois Ana segue um coelhinho branco pelo gramado da casa, tal qual a Alice de Lewis Carroll, querendo ir ao outro lado do espelho. Ainda cheios de culpa, durante a festa de aniversário de Ângela os três dormem juntos.

Correndo em paralelo, os cenários art déco na área interna da casa reafirmam a todo tempo a presença da avó de Ana. Como um vulto, um fantasma, que construiu o local em 1927 e faleceu não se sabe bem por quê. Juntando as pontas do mistério, apostamos em um suicídio da velha senhora, não apenas porque o assunto é tabu na família e ela morreu durante uma crise de depressão braba, mas também porque existe um buraco de bala na vidraça principal da casa – o suicídio, portanto, desfaria o clima de estabilidade que se esperaria de alguém tão maravilhoso e inatingível.

Inatingível também não deixa de ser Ângela para Ana e vice-versa; a separação acaba acontecendo como um mal necessário. Há um desejo entre as duas que nunca poderá ser preenchido, pois a fragilidade da médica e da paciente são tão evidentes que levam ao abandono da suposta-mãe (Ana), fazendo a filha pressentir uma nova crise chegando.

Aqui o expressionismo retorna, o vento uiva, o Opala se afasta da casa e chegamos ao fim.

Recheando a narrativa com o que os críticos antigos gostavam de chamar de “tempos-mortos” – ou seja, a quebra da ação com cenas não muito externalizadas, visíveis –, Khouri conta pouco a pouco o comportamento interno do trio. A montagem de Sylvio Renoldi ajuda, complementando uma equipe técnica que possui outras curiosidades.

A Companhia Cinematográfica Vera Cruz – na época já arrendada heroicamente por Khouri e seu irmão, William – cuidou da sonorização, dividindo-a com a Odil Fonobrasil. O câmera, Rupert Khouri – pseudônimo de Walter Hugo –, foi auxiliado por Antonio Meliande. Na fotografia, Rudolf Icsey – que acompanhava W. H. desde os tempos de “Estranho Encontro” (1958) –, e a música de Rogério Duprat – a partir da “Fantasia em Ré Menor de Mozart” e intervenções ocasionais de Billie Holiday, como de praxe nos sets khourianos.

Um dado em particular continua perturbador, remetendo ao medo mais mesquinho sobre nossa finitude, sobre o “dormir e não acordar mais”. A certa altura, Ângela pergunta a Ana uma dúvida que acompanha boa parte da humanidade: “E nós, como é que vamos estar daqui a trinta anos? Mortas ou velhas?”. Pois bem, o filme é de 1972. Lilian morreu em 1986, dezesseis anos antes do prazo. Parando para pensar, e nós, como é que vamos estar daqui a trinta anos?

6 comentários:

Eduardo Aguilar disse...

Estranho, talvez por ser um dos filmes de Khouri q. demorei muito prá descobrir (assisti ao filme no ano passado!!!) e tb. por ter ouvido maravilhas dele, acabei me frustrando um pouco, mas esse seu texto recupera imagens e contextos realmente bem mais interessantes do q. me pareceram na 1.ª leitura, por sorte, tenho uma cópia gravada da tv e pretendo revê-lo.

Smartt disse...

Legal seu blog, vou linkar no meu, o Sala Especial (http://guinnear-pig.blogspot.com/).

Matheus Trunk disse...

Cara Andréia, vi uns 15 minutos desse filme e acabei dormindo. Não por ele ser bom ou ruim, mas por que eram 4 horas da manhã no Canal Brasil (!!!). Mesmo assim deve ser legal, eu estou meio puto com o Canal Brasil (!!!) pq ele repete mto filme e eu já vi quase tudo. E estou comprando uma porrada de VHS brasileiros, para assim continuar essa paixão pelo nosso cinema. Cara Andréia, fico agradecido pelas palavras carinhosas no e-mail e obrigado também por ter me dado idéia de colaborar na FREAKIUM ! Se tudo der certo, em breve vai ter um artigo sobre o Radar (Leogivildo Cordeiro)escrito por mim ! O do Amendoim , eu gosto muito do primeiro episódio e do segundo acho meio chato, mas revi ele e até fiz as pazes. Mas o primeiro é muito engraçado. Abraços, viva a cultura brasileira,
Matheus Trunk.

Andréa Ormond disse...

Edu, revê com calma, principalmente o jogo que existe entre as duas e a simbiose do marido com a mulher. Dá pra quebrar a cabeça pensando. E se não for por isso... bem, tem a Lillian! rs

Obrigada, Smartt. Enviei um email pra vc comentando o título "Sala Especial". Ficou perfeito :)

Matheus, aí vc dormiu pela hora e não pelo filme? rsrs É, o Canal Brasil anda repetindo mesmo. As Deusas eu gravei há um tempão atrás, numa retrospectiva sobre o WHK, que aliás poderia até acontecer de novo, para as pessoas terem acesso aos filmes. Muito legal esse artigo, me avisa na hora que publicarem. E manda ver sobre o Radar, ele era uma dessas pessoas que vivia cinema 24 horas por dia. A vida dele deve dar um bom roteiro. Abraços!

Dora disse...

Olá Andreia,

você sabe se é possível encontrar esse filme fora do Brasil? Existe em VHS ou DVD?

Eu gostava muito de o ver, mas não tenho tido sorte em o encontrar.

Anônimo disse...

Dora, tenho esse filme convertido em DVD, com qualidade excelente. Entre em contato comigo pelo e-mail behindthemask@ig.com.br